Ontem, há Quarenta e Dois anos, Camarada Estrada

Era uma noite como tantas outras noites. Vestida de negro. E negra por dentro. Tinha o peso de todas as anteriores que vinham há muito roubando vidas de esperança.

Havia nesse tempo noturno estrelas de esperança que os sicários perseguiam para que nas trevas a luz nunca tivesse alento.

Nessa noite, há quarenta e dois anos, um camarada deu notícia de prisões e perigos. Devia ficar com a casa limpa. Se os sicários viessem não deveriam encontrar as searas de palavras que feriam o reino das trevas e da violência.

Era noite. Mesmo noite. Tão negra a noite. Talvez por ser a última. Mas quem o saberia? E subi ao telhado e fiquei empoleirado no escuro da noite. E ali guardei os Avantes. E fiquei à espera da desgraça e do vento que em Caxias cortava a respiração.

E logo a rádio espalhou o comunicado, mas anunciava para se ficar em casa. E veio a desconfiança. Quem seria. Golpistas? A extrema-direita? Não disseram ao que vinham. Logo veio o Valadas, camarada vizinho a perguntar se sabia quem eram os homens daquela noite. Que não sabia disse-lhe. Liguei ao Sérgio que também não sabia.

E de repente bateu-me um postal vindo dos Açores do David Lopes Ramos que estava na tropa com o Melo Antunes e o Vasco Lourenço. O coração acelerou. E nunca mais chegava a madrugada. Às tantas os militares deixaram abrir as portas à alegria antiga.

Já era manhã e tocou a campainha. Era a Zita. Disse mais ou menos isto: camarada Estrada o estar aqui assim diz o que o partido pensa da situação. Apoiamos exigindo liberdades e fim da guerra . É preciso ir para a rua apoiar e exigir a libertação dos presos políticos. Temos de pôr o partido na rua.

Todas as janelas dos vizinhos se iam abrindo e um sorriso largo e atrevido tomava –lhes o rosto.

Seria aquela a manhã da Sophia? Seria o vento que deixava de calar a desgraça e deixava-nos dizer tudo uns aos outros sem medo como dizia o poeta da Praça da Canção?

Ai que o medo iria ficar arrumado na memória e com as mãos, as simples mãos se iria fazer o futuro.

Há quarenta e dois anos a noite matou a noite antiga.

Fascismo à Espreita no Brasil

1024px-Monumento_Tortura_Nunca_Mais_-_Recife

Na votação, na Câmara dos Deputados no passado dia 16, pelo impeachment de Dilma Rousseff, Presidente do Brasil, distinguiu-se entre muitos o deputado Jair Bolsonaro que para atacar a Presidente foi ressuscitar um dos algozes mais sinistros da ditadura militar brasileira.

Jair Bolsonaro lembrou que o Coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, ( chefe do DOI   COD, Departamento das Operações Internas do Centro de Operações da Defesa, órgão subordinado ao Exército, de Inteligência  e Repressão , criado em 2 de Julho de 1969)  acusava Dilma de ter pertencido a quatro organizações terroristas que pretendiam implantar o comunismo no Brasil.

Foi às mãos do DOI que foram assassinados entre outros o jornalista Vladimiro Herzog e o operário Manoel Fiel Filho.

Este órgão foi um verdadeiro antro de prisão, tortura e assassínio dos militantes  oposicionistas à ditadura militar.

Vir agora justificar o impeachment com o passado de resistente à ditadura militar brasileira, mostra que no Brasil o fascismo espreita e que muitos dos que se juntam a esta loucura ainda se virão a arrepender.

A raiva e o ódio à Presidente Dilma cegou muitos dos seus opositores.

Na verdade, independentemente dos erros de Dilma, não existe qualquer suspeição de corrupção sobre a Presidente.

Em contrapartida existem na Câmara de Deputados dezenas de deputados em pânico devido à operação Lava Jato que a Presidente não fez nada para parar.

A incapacidade para a direita neo liberal no Brasil ganhar a presidência fê-la perder o tino.

São juízes a pedir manifestações para terem apoio na perseguição a Lula da Silva e a divulgar escutas da Presidente; são deputados a votarem em nome de Deus, Pai, Espirito Santo, esquecendo o pecado mortal que é invocar o santo nome de Deus em vão… Há de tudo, até quem vá procurar nos algozes torcionários “razões” para o impeachment…

O Brasil vai mal, vai muito mal… algo anda à solta e não é nada de bom: o ódio mais destemperado, próprio do fascismo.

 

O que é Portugal? Ou já nem é? Episódio II

A entrada no euro significou uma perda substantiva da soberania portuguesa. Mas uma perda significativa da soberania não implica a perda da soberania. E muito menos que as diversas instituições portuguesas ajam obedecendo aos ditames de Bruxelas, escondendo às autoridades governamentais decisões da mais alta importância para a vida dos seus cidadãos.

É aceitável que, invocando um dever de silêncio e escudando-se nele, o governador do Banco de Portugal, não informasse o governo português acerca da proposta de venda do BANIF que ele próprio engendrou?

Pode um governador do Banco de Portugal ocupar esse alto posto da Administração servindo os banqueiros do BCE, desprezando os interesses de Portugal passando a funcionar como pertencendo a um clube dos donos das finanças dos países mais frágeis do ponto de vista económico?

O governador do BdP é nomeado pelo governo português, o que significa que a sua fonte de legitimidade radica na posse que o governo lhe conferiu.

Uma decisão que implique para os portugueses uma perda de milhares de milhões de euros e a transferência a preço da uva mijona de mais um banco para os banqueiros espanhóis tem uma importância nacional indiscutível; um governador do BdP não pode ser um escudo do BCE contra o governo que o nomeou. Se estas são as regras uma conclusão se impõe: não servem.

A admitir-se este comportamento de qualquer governador do Banco de Portugal só resta ao governo em Lisboa assinar de cruz o que o BCE ditar diretamente ou indiretamente via BdP.

Neste quadro institucional pode haver uma União em que entre os seus membros uns imponham aos outros as suas regras e não aceitem que as aspirações democráticas de uma nação sejam tidas em conta?

A maioria do povo português votou contra a austeridade e essa maioria deu corpo a um governo; pode Bruxelas por via do BCE e BdP impor o que o povo rejeitou?

Pode haver uma União na qual alguns países estejam condenados por terceiros a viver uma vida indigna sempre sob o jugo das reformas estruturais intermináveis e salários de miséria que os países ricos rejeitam para os seus nacionais?

Se Portugal nunca teve salários a nível dos países europeus e se encontra na situação em que está, como é possível continuar a defender que o caminho é o da austeridade e empobrecimento?

Serão os tecnocratas pagos a peso de ouro os defensores dos interesses portugueses? Podem os portugueses confiar neles? Têm essas senhoras e esses senhores empenho no desenvolvimento e crescimento de Portugal ou pretendem metê-lo nos “eixos” custe o que custar para depois terem garantias que Portugal é atrativo para os seus negócios?

Que futuro está destinado à velhíssima pátria lusitana? Morrer às mãos frias da austeridade  imposta pelo império alemão?

As Virtudes e os Vícios no Reino Saudita

Na Arábia Saudita a sharia tem no “Comité para a Prevenção da Virtude e a Prevenção do Vicio” composto pela polícia religiosa, os muttawin, um fortíssimo braço protetor.

O conselho de Ministros da Arábia Saudita retirou (é o que relata a imprensa) àqueles virtuosos o poder de deter e interrogar os criminosos infratores e atribuiu essas funções à polícia e às unidades de combate à droga.

Os muttawin continuam vigilantes, ativos e quando se trata de deter e interrogar encarregam outras polícias.

A notícia surge com um avanço liberalizador da ditadura mais absolutista do Golfo.

Porém vale a pena pensar no embuste. Os muttawin continuam a policiar? Continuam.

Só que a detenção de pessoas infratoras passa para outros “promotores das virtudes”- a polícia, incluindo a do combate ao tráfico de droga.

E que virtudes promovem todos estes virtuosos? Impedem as mulheres de andar na rua sem um homem que as guarde, de conduzirem, de não taparem integralmente o rosto. Isto no que se refere aos anjos da guarda das mulheres.

Impedem os homens de conduzir automóveis com o rádio ligado com o som alto, homens e mulheres de se tocarem, de quem quer que seja de deter ou beber bebidas alcoólicas, e de possuir ou vender produtos não islâmicos.

De acordo com a nova versão quem for denunciado é entregue à polícia ou à unidade de droga. Está-se mesmo a ver o avanço que esta lei representa. Em Portugal nos últimos anos do fascismo deixar de haver PIDE, passou a ser DGS, mas o eixo da atuação era o mesmo.

O adultério entre a população é condenado com a pena de morte, assim como o tráfico de droga.

A família real não entra nestas contas e podem fazer o que lhes der na veneta. Está acima da lei.

Os homens e sobretudo as sauditas continuarão, num dos reinos mais obscuros do planeta, a sujeitar-se as mais brutais iniquidades.

Porém serão detidos e interrogados pelas polícias civis; a polícia religiosa indicará os suspeitos criminosos. Sim, denunciarão toda e qualquer mulher que decida ir ao supermercado sem o seu anjo da guarda masculino; toda e qualquer mulher que conduza; toda e qualquer mulher que não tenha a cara tapada; todo e qualquer cidadão que não feche o estabelecimento comercial à hora das orações.

Os sauditas nunca estão sozinhos. Têm sempre homens a vigiá-los. E a obrigá-los a vigiar as suas mulheres e filhas de modo a que sejam amputadas da liberdade de circulação, de expressão, de se vestirem como queiram, amputados da sua integridade física e moral, isto é, de grande parte da sua alma.

Os promotores das Virtudes especializaram-se em roubar a alma às mulheres sauditas, aniquilando aos homens a possibilidade de desfrutarem de um relacionamento igualitário e de verdadeira comunhão de afetos, isto é, de um autêntico amor. Que importa quem detém e interroga? O que importa é que a mais simples das liberdades (de circular, de se exprimir, de se ser como se é) não existe em reino tão virtuoso e sem vícios.

Portugal É o Quê ou Já nem É?

Portugal, enquanto nação, tem oitocentos e setenta e três anos. A moeda única tem dezassete anos. O Banco Central Europeu tem dezassete anos e alguns meses.

Draghi, nascido em Roma em 1947, tem sessenta e nove, fez uma carreira como banqueiro; passou pela Goldman Sachs onde treinou intensamente para vir a ser o Governador do BCE, como aconselham as melhores regras dos mercados financeiros.

Draghi tinha pedrigree e os banqueiros convenceram a chancelerina que ele era o homem certo. Pelos vistos acertaram.

Quando o Senhor Mario Draghi veio à reunião do Conselho de Estado com a sua linda idade devia, no mínimo, respeitar a pátria de Afonso Henriques, de D. João I, de Gil Vicente, de Luís Vaz de Camões, de D. João II, do Infante D. Henrique, de Bartolomeu Dias, de Vasco da Gama, de D. João IV, dos Republicanos da revolução do 5 de Outubro, dos militares de Abril de 1974 e de José Saramago.

Por mais dinheiro que o onzeneiro junte à custa das desgraças dos povos e das pessoas simples como já o Mestre Gil tinha assinalado o destino deveria ser o do inferno, se houvesse justiça na Terra…

Por mais prosápia que o encarregado de zelar pelo dinheiro que se amontoa em Francoforte e escasseia em Atenas, Lisboa, Madrid e noutras capitais, a História não se apaga só porque o tem aquelas “virtudes “ de esmifrar os que não atingem estatuto dos descendentes de Bismark.

As palmadinhas da dona disto tudo e a pipa de massa que recebe anualmente não o deviam cegar a pontos de entrar no Conselho de Estado, órgão de consulta do Presidente da República de Portugal, e agir como procônsul da Alemanha, dado que Portugal não é nem uma freguesia da Ibéria, nem uma província do Império berlinense.

O sátrapa que veio com o poder que lhe conferiu a imperatriz da Europa não se coibiu de espalhar a mensagem dos troicanos, defensores do empobrecimento de Portugal e do enriquecimento da Alemanha, de uma vida austera para os portugueses e de uma vida à farta para os naturais do Império.

Tudo isso disse o onzeneiro, convidado de Marcelo, o irrequieto, agora em funções de Presidente da República.

É de crer que o sátrapa tenha, pelo menos referido, antes de ter pronunciado o discurso, ao mais alto magistrado da Nação portuguesa os traços gerais da comunicação e certamente a referência ao que o governo pode ou não pode fazer, sendo certo que nos termos da Constituição da República portuguesa (sim, Portugal tem uma Constituição) o governo de Portugal presta contas à Assembleia da República e, em última instância, ao Presidente da República.

Seria, portanto, de admitir que quem tem o dever de fazer cumprir a Constituição lhe lembrasse que por mais dinheiro que haja em Francoforte, Portugal ainda não é uma província do Império.

As palavras de reprovação da conduta do governo de Portugal logo foram aplaudidas por aqueles que não tendo a força para serem governo vão ao estrangeiro buscar essa força vinda do Império.

Sempre em Portugal houve quem se governasse servindo os interesses alheios aos interesses dos portugueses afirmando com todo o despudor que o futuro do país é empobrecer para se tornar competitivo e os poderosos poderem cá investir e levar a nossa riqueza para a esconder algures no Panamá ou em qualquer canto do Reino Unido ou da Holanda.

Barroso, Cristas,  Passos e uns tantos embevecidos pela presença nos media aplaudiram-no.

Haverá sempre quem troque a História por uns milhões e por algum poder.

O que está em causa é mesmo o futuro. E a pergunta é: pode a nossa História, o nosso país, as nossas vidas serem tratadas deste modo? Pode alguém vir dizer-nos, em nome da Banca (que tem espatifado riqueza incalculável em benefício de umas tantas famílias e lesando países inteiros) o que podemos e não podemos fazer? Portugal é o quê? Ou já não é?

Portugal e Angola: Relacionamento e Ingerências

As relações de Portugal com Angola são, no quadro de uma ampla diversificação das relações externas, um elemento chave de uma política de defesa dos interesses nacionais. Assim como as relações com os restantes países de língua oficial portuguesa.

São-no agora, como o foram desde a independência destes novos países. E face ao rumo de então, não foi nada pacífico o relacionamento com aqueles países sobretudo com Angola, levando ao caricato de Portugal ser um dos países que mais tarde reconheceu a independência daquele novo país.

Durante anos a fio PS, PSD e CDS estiveram unidos contra não só reconhecimento da independência, como mais tarde contra o desenvolvimento das relações entre os dois países.

Aqueles três partidos comprometeram-se no apoio à UNITA o que impedia o aprofundamento do relacionamento com a ex-colónia.

Por amor à verdade houve gente naqueles três partidos que se pronunciaram em sentido contrário ao das suas direções.

As relações com Angola estão muito para além dos governos por um conjunto de razões que qualquer português ou angolano compreende. Não saber ou não querer corresponder esta realidade é um péssimo serviço prestado ao país.

A machadada na UNITA com a morte de Savimbi e a reorientação de Angola criou novas possibilidades para em Portugal se reajustarem as políticas em relação àquele país.

O MPLA virou o seu azimute e abandonou muito do seu passado ideológico para se colocar hoje no campo das orientações neo liberais, o que nem, por isso, muda a importância das relações entre Portugal e Angola.

Ora não deixa de ser curioso e um pouco contra natura que o PCP ( o partido que mais lutou pelo reconhecimento pelo direito de Angola à independência e pelo desenvolvimento das relações com aquele país) apareça ao lado do PSD e CDS na Assembleia da República a propósito de um voto de reparo face às condenações dos ativistas angolanos “apanhados” a ler um livro na casa de um deles.

O partido que mais tem lutado e, em geral bem, para pôr governos na rua fazendo-os cair, não devia aceitar que fossem aplicadas penas de cadeia pesadíssimas para os angolanos oposicionistas do governo do MPLA , que nem sequer organizaram manifestações a pedir a sua queda.

Ora é preciso deixar claro que a solidariedade de homens e mulheres livres que se batem por princípios nucleares da vida em comunidade nunca poderá ser confundida com ingerência nos assuntos internos de outro país.

Quando alguém é condenado a pesadas penas de prisão por ter opinião diferente dos governantes e entender associar-se para refletir sobre essas opiniões o que se está a pôr em causa são princípios fundamentais em que devem assentar as nações.

Não é por acaso que os artigos 19º, 20º e 21º da Declaração Universal dos Direitos Humanos reconhecem, como direitos inalienáveis, o direito de opinião, expressão, reunião e associação.

Ora o reparo face às penas, a reclamação pela carga das condenações, a exigência de um recurso limpo, sem ingerências do poder político é uma atitude de valor universal que não pode ser vista como ingerência, nem como solidariedade aos ativistas.

Não se pode exigir liberdade apenas para os que pensam de um certo modo; a liberdade é um bem para todos os cidadãos que a respeitam, incluindo para aqueles que pensam de maneira bem diferente dos governantes.

Ingerência nos assuntos internos de um país é que faz a cada passo o Senhor Schäuble quando pressiona o governo português a seguir as orientações de empobrecimento que ele pretende impor ao país e nem CDS, nem PSD se prestam a condenar semelhantes pressões e ingerências.

Os negócios de Portugal com Angola são muito importantes. Mas as negociatas entre gente dos dois lados para seu único proveito não são a melhor maneira de desenvolver as relações entre os dois Estados com base no respeito mútuo, na reciprocidade de vantagens e sem ingerências nos assuntos internos de cada um deles.

Quem tudo fez pelo reconhecimento da independência de Angola e pelo aprofundamento das relações entre ambos os Estados não deveria aparecer ao lado daqueles que estiveram sempre do lado de Savimbi, que tudo fizeram para que o MPLA não declarasse a independência e para impedir o aprofundamento das relações com o novo país.

Nem ao lado daqueles, no voto na AR, que fazem da pressão externa a sua própria força contra as aspirações do povo português a uma mais desafogada e com o mínimo de dignidade.

Quatro Notas sobre Congresso do PSD

1.A reforma da lei eleitoral…E a da Segurança Social. Se o PS se aproximar do PSD… Se…

Convenhamos que é quase nada. Um político que durante quatro anos foi o responsável máximo da ação governativa lembra-se agora, na oposição, destas reformas?

Quanto à reforma eleitoral só pode ter deixado o CDS desconfiado. Embora Assunção Cristas tenha elogiado a força de vontade do PSD…Uma farpa?

Quanto à da Segurança Social, Passos não larga o passado e volta para esconder o corte de seiscentos milhões atrás da palavra reforma.

2. Mas Passos Coelho “não se ficou pelas reformas”. Esmerou-se entusiasmado no ataque à reestruturação da dívida…ele que fez aumentar em mais de trinta por cento a dívida, transferindo-a dos privados para o setor público. Apresentou-se como um fogoso mandatário dos credores internacionais alegando toda a sua experiência como governante. E foi mais longe. Garantiu que tal não era possível, sem, contudo, mostrar procuração com tais poderes dos donos do dinheiro.

E a sua força foi toda para apoiar os credores, sendo ele um líder de um país devedor e ele próprio responsável com a sua política pelo aumento dessa brutal dívida…Chegou a enternecer aquela referência aos durões do FMI. O homem corajoso prega que o seu país cruze os braços e não faça nada. Apenas que ponha a cabeça no cepo…

Sempre, sempre ao lado dos donos do dinheiro. Passos Coelho nunca hesitou ao longo do seu consulado de governação e continua na mesma senda.

3.Outra nota de registo: está zangado com quase toda a gente e não entende Marcelo que não siga, como o Durão, o cherne de águas profundas, e navegue na espuma dos dias.

Ainda acordou a tempo e reconheceu que o governo afinal é mais consistente do que ele e o amargurado Cavaco inventaram para impedir a sua formação.

 

4.E dando pleno curso à sua coerência puxou para a ribalta do PSD a Sra Dra dos cofres cheios de nada.

A Sra Dra, promovida à Administração da Arrow Global, está na mira da opinião pública e dos deputados. Não se é da Administração da Arrow sem que isso não conte para a progressão no PSD; as coisas estão ligadas. Arrow e PSD ficam assim ligadinhos.

Apesar da gloriosa mentira dos cofres cheios a Sra Dra mal pegou no micro, imediatamente a seguir a Passos Coelho, a debandada foi geral. O que ia dizer estava requentado; tinha quatro anos de atraso. Até os congressistas estavam fartos daquele patuá.

Também ela está muito aborrecida com o que se está a passar em Portugal e do alto da sua inteligência fina só vê o tempo velho.

Passos e a Sra Dra estão encerrados no labirinto da estratégia do empobrecimento do país. Não são capazes de sair de lá. E não têm asas para outros voos. Gabe-se-lhes a teimosia.

 

 

 

Os Nossos Mortos de Bruxelas e os Deles de Lahore

Os nossos mortos valem a nossa revolta e o nosso choro. Os mortos inocentes de Bruxelas que iam apanhar os aviões ou o metropolitano morreram às mãos da barbárie.

E o mundo parece ter parado com as explosões das bombas que os suicidas detonaram. O mundo ocidental ergueu-se como um só a condenar os atentados e a dar conta do que é preciso fazer evitar mais atentados.

Cameron, Hollande, Putin, Obama, Rajoy, Junker, Costa, Marcelo , todos à uma, levantaram-se para manifestar a sua indignação pelos mortos de Bruxelas.

Foram crianças, idosos, jovens e homens (cerca de trinta e dois, incluindo os terroristas que também são seres humanos) que pereceram apenas porque naquele dia, àquela hora iam fazer o que tinham de fazer.

Tudo aconteceu ao raiar do dia 22 de Março na capital das instituições europeias às mãos de jovens belgas, alegadamente convertidos ao Islão.

A dor dominou esta Europa que acabava de se fechar para recambiar os refugiados e desterrá-los para a Turquia e desta para a origem.

Na manhã de domingo de Páscoa lá longe, em Lahore, no Paquistão uma bomba matou setenta e duas pessoas vinte e tal crianças) todas festejando a Páscoa.

Segundo Paulo de Tarso, mais conhecido no mundo cristão por São Paulo, na Epístola aos Gálatas dizia …” não há judeus, nem gregos, porque sois um em Cristo…” Mas isso foi há mais de dois mil anos.

E agora há mortos e mortos. Os nossos e os deles.

Há os mortos que põem o mundo totalmente alvoraçado. E há os mortos que merecem uma notícia de roda pé, mesmo sendo irmãos em Cristo.

Segundo São Paulo os homens são todos um em Cristo. Porém para este mundo cristão não é bem assim.

Bruxelas é o quartel da NATO e sede da União Europeia.

Lahore é uma cidade do Paquistão muçulmano e os mortos de Lahore não têm o mesmo estatuto.

São mortos longínquos, ainda se fossem dos EUA ou do Canadá…

Há uma espécie de “ os nossos mortos” e há os deles.

Se um palestiniano for morto, à queima-roupa, por um judeu é normal.

Se um bombardeamento dos aliados dos EUA acertar em cheio num hospital e morrerem dezenas de afegãos é um dano colateral.

A emoção e a dor não é a mesma porque eles não são “ os nossos mortos “ . São os deles.

Há mesmo muitos cristãos que invocam Cristo para o que lhes serve, esquecendo as palavras de Paulo de Tarso.

Mortos. Mortos de primeira e mortos que nem vale a pena lembrar, como os de Lahore, ou do Afeganistão ou da Palestina… Não são “nossos”. São deles.

Ai as Mini Saias e os Saltos Altos!

Segundo Enzo Napoli, Presidente da Câmara de Salerno, bonita cidade com vista para o mar, a sul de Nápoles, há que preservar os turistas e residentes dos olhares libidinosos proporcionados pelas pernas e saltos altos das prostitutas que atento o mercado de oportunidades não se coíbem em puxar as saias uns centímetros acima dos joelhos.

Por esse facto podem ser multadas até 500 euros, o que lhes daria cabo das receitas provenientes do mercado da prostituição, pois que, como nos outros, resulta da oferta e da procura.

O Presidente da Câmara considera que se as prostitutas tiverem mais decoro, as oportunidades para os turistas e residentes caírem em tentação diminuirão e cessará o crescimento da prostituição na cidade.

Ora pode suceder que, com tal vontade de limpar a cidade de mini saias e saltos altos, o Presidente possa atingir todas as mulheres jovens e de meia-idade que se decidam, por moda, pelas mini saias e sapatos altos, como ocorre em muitas cidades italianas, francesas, espanholas, alemãs, portuguesas, isto é, europeias.

Enzo Napoli talvez se equivoque nos seus propósitos, pois tempo houve em que as mulheres andavam bem tapadinhas e a prostituição florescia, incluindo a proporcionar chorudas e santas receitas aos empreendedores do negócio.

O que o Presidente de Salerno está a promover é uma enorme inversão de valores que poderá levar a este despautério: tapem-se as mulheres e acabará a prostituição.

Não estará o Presidente da Câmara a defender a ideia judaico-cristã de que o mal está na primeira mulher, Eva, a tentadora do coitadinho do Adão? Haverá prostituição de mulheres sem homens que a frequentem?

O senhor Presidente da Câmara de Salerno deve sonhar com mulheres tapadas a quem não se pode ver a carne, descalças para não se ouvirem e não levarem à perdição dos homens…E se não se submeterem ao desígnio, castigo de 500€…Vá lá, podia ser pior, 500 chibatadas e nem assim a prostituição acabaria, pois algures no mundo muçulmano apesar dos castigos ela continua.

Que barbaridade! Mais parece um édito do Império Romano que uma diretiva municipal da Itália democrática. Quo vadis Salerno?

Os Instantes Finais dos Arrependidos que Não se Matam

Os jovens belgas que se fizeram explodir no aeroporto e na estação de metro, em Bruxelas, para matar o maior número de pessoas possível que terão pensado nos instantes antes de acionarem os explosivos?

Entre viver e morrer, matar os outros era muito mais importante, pensaram os que se mataram matando. E mataram quem quer que estivesse onde eles estavam. Podiam ser os seus próprios familiares. Outros muçulmanos. Morrer e matar. Viver para matar. Matar.

Um dos que se matou matando despediu-se esclarecendo que preferia morrer a viver numa cela uma série de anos por crimes antes cometidos. E matou-se matando os outros que não cometeram qualquer crime, sendo apenas como ele seres humanos.

Outro não se fez explodir. Entrou com a mala cheia de explosivos e com um chapéu na cabeça e tal como os outros empurrava a sua morte e a dos outros. Devem ter decidido espalhar-se para a morte matar mais gente. Seriam as ordens dos mandantes?

O certo é que ao afastarem-se para conseguirem matar muito mais gente veio o medo ao do chapéu e fugiu.

Quando se apanhou sozinho pensou que se ia matar matando. E entre continuar a viver e morrer falou mais alto a vontade de viver. E fugiu. Não foi o primeiro a fugir. Abdeslam o cabecilha dos atentados de Paris também soçobrou e não se matou.

Habituar-se a matar pode não ser tão difícil como se poderia imaginar. Há largos exemplos de gente que se habituou a matar. E matou.

O mais difícil é viver para morrer matando. Parece ser muito mais difícil, embora não seja impossível, como provam os jovens que puxaram o gatilho da morte e morrerem matando dezenas de pessoas inocentes, alguns sem saber o que é o Daesh, nem o califa que o dirige e que ordena a estes europeus que matem os seus semelhantes.

A maldade que leva a estes cometimentos é tão intensa, tão hedionda que um dos  que estavam destinados morrer a matar, na hora da verdade, não se matou, fazendo o califa e o califado sentir que os seus heróis afinal não o são. Sempre que a vida fala mais alto que a morte o califado perde.

Os que vierem a seguir a estes para se matarem matando matarão, mas outros que vierem e se arrependerão não ficarão tão sós quanto os primeiros. Provavelmente o califado escolherá ainda os mais determinados, os que cheios de crimes tenham receio de ir para a cadeia como o do aeroporto. Ou outros cuja vida se tenha transformado apenas na ideia de matar os que não aceitam o Apocalipse e a vinda do Mahdi.

O Daesh pode continuar a matar, mas dentro das suas fileiras o medo aparece à luz da vida.