A guerra entre os EUA /Israel e o Irão é muito mais ampla e a hora do chá

A agressão dos EUA e de Israel ao Irão «justificada» com vários fins – mudar o regime, liquidar o programa nuclear (já obliterado em junho 2025, segundo Trump), destruir os mísseis balísticos – esconde outro, talvez o mais importante, impedir o rumo ao multilateralismo e para tanto retirar o Irão dos BRICS e da aliança com a China e a Rússia, retalhá-lo e torná-lo irrelevante na região

Percebe-se ainda melhor hoje tendo por referência a invasão do Iraque. A política dos EUA em relação a países com uma política independente, no plano internacional, e riquezas como o já citado Iraque, a Líbia, a Venezuela e o Irão tem como finalidade submetê-los aos seus desígnios.

Neste pressuposto o importante não é a mudança do regime, nem a democracia, no Irão, mas sim destroçar e inviabilizar o país maior que a Europa, com cerca de noventa e três milhões de habitantes, o quarto produtor de petróleo e com minorias impactantes dentro do país e nos países vizinhos.

A clareza exige luz: no Irão impera um regime que persegue todos os progressistas, sejam jovens, mulheres ou homens, comunistas – que o diga o Partido Tudeh – ilegalizado e perseguido, assassinado o seu Secretário-Geral – os sociais-democratas ou simplesmente democratas.

 Tal como no Iraque de Saddam.  Veja-se o caso da Síria em que os democratas europeus vão a Damasco abençoar o terrorista transformado em respeitável. As ditaduras síria e iraquiana nunca incomodaram os governos no Ocidente, o que os incomodava era serem ditaduras não moldáveis aos seus interesses, como são as do Golfo.

Os que, por este decadente mundo ocidental, se deleitam com as cidades opulentas para os ricos oligarcas russos, ucranianos, europeus ou estadunidenses, invocam a democracia para o Irão, mas fecham os olhos às ditaduras cruéis e sanguinárias de todos os Estados do Golfo, começando desde logo pela monarquia absolutista da Casa Saud, onde para este lado europeu é apresentada como grande avanço democrático as mulheres em certas condições poderem conduzir, enquanto alguns clérigos importantes têm dúvidas acerca da verdadeira condição humana da mulher. O sabre pode continuar a cortar cabeças que na expressão do novo Calígula o que importa é o big money. O assassinato a frio de um jornalista – Jamal Kasshoggi- no consulado turco em Istambul é para esquecer.

Já não há lugar para ingenuidade: no Irão para Israel e para os EUA, quanto menos democracia houver no Irão melhor, pois com liberdade e democracia mais fácil é organizar a luta anti-imperialista, ou não foram os EUA que derrubaram o líder iraniano Mohammed Mossadegh em 1953 e impuseram o novo regime monárquico dos Reza Palhvi, com todo o cortejo de horrores à solta e sob o comando da famigerada polícia secreta SAVAK.

A dimensão do desafio da agressão conjunta assume tal envergadura que o imperialismo europeu, apesar das queixas face ao império de Washington, alinhou, sem hesitações com Trump (salvo Sanchez e a Irlanda, honra lhes seja feita) mostrando que na verdade a UE não tem qualquer estratégia europeia, a não ser seguir o Rei de Mar-a-Largo, o novo centro do mundo.

O conflito é muito mais amplo e pode descambar numa loucura mundial. A agressão da parceria de Trump e Netanyahu ao Irão trouxe à superfície alguns elementos bem relevantes do ponto de vista das alianças dos EUA e do comportamento dos dirigentes da UE.

Independentemente do que se possa pensar da China, da Rússia e do Irão não há dúvidas que a luta pelo fim da hegemonia do Ocidente com os EUA à cabeça, estes três países são a linha avançada deste novo rumo.

Tal como na Ucrânia o conflito é entre o Ocidente alargado e o Sul global, aqui o conflito insere-se no mesmo patamar – a necessidade de abrir um novo relacionamento mundial que não será perfeito (bem longe disso) mas que pode abrir novos espaços de cooperação e seguração que se oponham à unilateralidade dominante e em certo grau em decadência.

Nunca haverá, nos séculos mais próximos, se houver Humanidade, países guia, bondosos, mas sim países com interesses próprios e muitas vezes ferozmente hostis a outros.
O que se decide no Irão é em boa medida o futuro do mundo, a toque de caixa dos EUA ou um novo relacionamento, certamente imperfeito, mas com maiores possibilidades de todos se apresentarem entre iguais.

Atenta a linha que separa os vários conflitos sobressai a lógica do poder brutal. Não há potências boazinhas, há as que querem impor os seus interesses e países a defender os seus, ficando de fora sucessivos governos portugueses cujas lideranças fracas e dependentes do exterior se curvam diante dos grandes à espera de côdeas face ao bom comportamento.

 Há séculos que a burguesia portuguesa se caracteriza por ser parasitária, rastejante e com muito pouca dignidade, o que fez criar na população portuguesa a ideia de que o que é de fora é bom e que é ótimo estar na UE para parecermos com eles…

Nunca esquecer a fantástica monarquia inglesa, nossa aliada, que nos impôs o Tratado de Methuen em 1703, obrigando-nos a trocar vinho por têxteis e nos expropriou o Mapa Cor de Rosa 1886 e que levou ao massacre repressivo no Porto dos que resistiram.

Só um governo sem honra e dignidade se presta a esta vassalagem a uma Administração que ficará na História como exemplo acabado da crueldade e da arrogância cujo líder é tanto de violento como de ignorante. É a este homem que o governo e o Estado português se vergam. Registe-se e arquive-se para memória futura.

Neste momento o mundo está em roda livre para os prepotentes de todos os quadrantes e para tanto a primeira linha de argumentação que estabeleceram é a de que têm as melhores e mais poderosas armas mandam e, portanto, os outros têm de se submeter.

O mundo está a explodir de conflitos e não se veem os menores sinais de que há no tempo que corre espaço para a resolução pacífica desses mesmos conflitos. Antes pelo contrário.

A cartada de Trump e do seu parceiro de Israel é muito alta. Certamente que poderão atingir duramente o Irão. Mas vê-se a dureza com que o Irão está a atingir os interesses dos EUA e do Ocidente nos países do Golfo cujas aristocracias se encostaram aos USA por medo dos povos e não sabem o que fazer quando veem as bases militares de segurança serem realmente obliteradas.

Resta-nos ainda a força de confiar na paz como forma de os humanos organizados em nações poderem sobreviver e respirar sem a corda no pescoço ou o sabre ao pé da nuca.

É verdade que neste momento é maior o poder da anestesia que o da mobilização, mas os humanos são como são e às vezes são como não parecem; levados ao limite reagem. Esse é o defeito que nenhuma máquina de IA é portadora.   O mundo, não obstante, todas as manipulações, ainda não perdeu os sentimentos.

Trump pode ter feito um cálculo errado. Se assim for, o que pareceria um poder incrível, pode revelar-se uma fraqueza igualmente incrível. Pode chegar à China, se se mantiver a viagem em abril, e ter perdido uma ocasião. Veremos. Se não derrotar o Irão irá pela porta baixa, mesmo que Xi Jiping o não diga. Sentir-se-á, mesmo à hora do chá.

O ATAQUE CONJUNTO EUA/ISRAEL AO IRÃO

Trump e Netanyahu, ao atacarem conjuntamente o Irão, talvez tenham selado uma irmandade quanto ao seu destino para além da guerra.

Ambos estão a braços com problemas internos poderosos e Trump terá em breve eleições intercalares.

A reconfiguração do Médio-Oriente para os EUA e para Israel no sentido de tornar Israel a potência dominante na região acabando com o problema palestiniano, ocupando ad eternum os territórios palestinianos, sem de momento haver quem ousasse enfrentar Netanyahu e Cª. Nesse cenário idílico Trump e Netanyahu percorreriam triunfantes a nova Riviera em solo palestiniano, frente ao Mediterrâneo.

Por outro lado, retirariam à China o grande fornecedor de hidrocarbonetos depois do sucesso da operação Maduro que atingiu o fornecimento do petróleo venezuelano a Pequim.

A China representa para os EUA o competidor a abater na disputa entre um mundo multipolar e a manutenção da atual hegemonia dos EUA.

O ataque ao Irão abriria sempre a possibilidade de ataques iranianos aos países que abrigam tropas estadunidenses; todos o sabiam.

Este facto vai de momento enfraquecer os BRICS na medida em que países da mesma organização se encontram em campos militares opostos nesta guerra.

Tendo em conta a superfície do Irão, as suas Forças Armadas, a sua riqueza, o desencadeamento da guerra encerra riscos múltiplos que dirigentes militares estadunidenses fizeram ver a Trump.

O sucesso parcial do ataque de Israel contra o Irão, o ano passado, assassinando centenas de dirigentes iranianos talvez tenha feito perder a lucidez aos dois estadistas e ao círculo de seus conselheiros.

É de admitir que receassem um rearmamento do Irão com base no fornecimento da mais fina tecnologia chinesa e russa e daí terem lançado o ataque.

Uma vez mais com esta conduta os EUA substituíram as velhas potências europeias (a UE) por Israel. Com a anulação do Acordo desenhado pela UE, Rússia e EUA por parte de Trump no seu primeiro mandato, a UE deixou de contar e passou na região a ser um apoiante de o que Israel e os EUA executam.

Von der Leyen e Costa chegam à suprema hipocrisia de apelar ao respeito pelo direito internacional, precisamente quando aqueles dois países violam da forma mais grosseira um país soberano.

A posição do governo português em ceder a base das Lages como e para o que Trump quiser é um atestado de subserviência que cobrirá Portugal de vergonha durante muito tempo. E justificar a agressão, concluindo pela condenação do ataque às bases militares do país agressor do Irão é próprio de um país que perdeu a voz e fala pela do dono.

Além disso, falar da possibilidade do Irão vir a ter armas nucleares quando Israel o país mais condenado na ONU, mesmo neste direito internacional com regras, não passa de uma tentativa de justificar o injustificável.

Quanto menos países tiverem armas nucleares, melhor será o mundo e, por isso, foi elaborado o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares que Israel não assinou e os EUA na prática abandonaram. Nesta matéria o único país que utilizou as armas nucleares tem capital em Washington.

Todos os países que por sua decisão soberana saírem da órbita dos EUA foram ameaçados, agredidos ou invadidos. Deve ser a razão que leva alguns a ter armas nucleares. Não querem ser invadidos. Que o diga Muhamar Kadafi que acreditou na história da carochinha ocidental e foi assassinado da forma mais cruel e covarde.

Daquilo que se vê, ou seja, claramente ao alcance dos olhos, é um contra-ataque brutal do Irão em toda a região do Médio-Oriente.

É cedo para tirar conclusões, mas os cálculos de dois dirigentes fechados na sua bolha e nos seus problemas com a justiça podem ter levado ao desencadeamento de uma guerra com consequências imprevisíveis. Talvez os dois líderes percam a arrogância que os caracterizam. Duvidamos que aprendam porque não é de sua natureza.

Quatro anos de guerra – Recapitulemos

O golpe de Estado da Praça Maidan na Ucrânia que levou ao derrube de um governo eleito com base no sufrágio universal significou a tentativa de alargar a NATO para a fronteira ocidental da Rússia.

Está escrito no Think-tank Rand Corporation do Pentágono o plano «Extending Russia Competing from Advantageous Ground» para “descolonizar a Rússia”.

A perseguição à minoria russa no Donbass e a proibição da língua russa fizeram parte da rota.

Os EUA/NATO/UE ao tomarem a decisão de integração da Ucrânia na NATO sabiam que desencadeariam a guerra com a Rússia ou a sua capitulação.  A Rússia, face à mais que previsível decisão do triunvirato, preparou-se para a guerra. A Ucrânia, imaginando a derrota russa alimentou a cobiça com base na partilha que se seguiria e no suposto papel que viria a ter na Europa.

Estas frases, uma de Olenskiy Danilov, então Secretário de Segurança e Defesa da Ucrânia…« o Ocidente deve preparar-para descolonizar a Rússia que vai desaparecer com as atuais fronteiras; outra de Oleksei Reznikov Ministro da Defesa…«a NATO dá as armas, nós o sangue…» fazem toda a luz sobre o papel assumido da Ucrânia na futura guerra.

A invasão da Ucrânia pela Rússia nunca visou conquistar o país, mas sim obter a garantia que não entraria na NATO.

Era o tempo de os dirigentes ocidentais em uníssono garantirem que a Ucrânia tinha todo o direito a integrar a NATO, mas já não tinha a Venezuela a fazer acordos militares com outros países latino-americanos e a Rússia.

Era o tempo em que os europeus, incluindo os portugueses, e os estadunidenses garantiam a pés juntos que com a Rússia nunca haveria negociações, apenas derrota estratégica porque o apoio à Ucrânia duraria o tempo que fosse preciso.

Nestes quatro anos quem mudou? Quem clama todos os dias por negociações? Quem impediu o Acordo de Istambul? Quem se lembra de Boris Johnson e de Olof Scholz? Quem se vai lembrar de Starmer, Macron, Merz e Cª? Que fizeram à Europa? O que nos disseram e garantiram acerca da vitória sobre a Rússia? Quem diariamente nos quer fazer esquecer que esta política deu origem a uma recessão na Alemanha e continuou a aprofundar a crise económica da França, Reino Unido, Itália e outros devido ao boicote suicida aos combustíveis russos quatro ou cinco vezes mais baratos que os dos EUA de que passamos a depender?

Que pequenez tomou conta das principais capitais europeias que ainda não compreenderam que a enorme Rússia até aos Urais é parte da Europa, o que por exemplo não acontece com Israel que fica no Médio-Oriente…A cegueira é tão grande que por serem compinchas dos sionistas israelitas pensam que podem mudar a geografia como Trump tentou com o Golfo do México.

A UE padece da insolente arrogância de apoiar o genocídio dos palestinianos e conviverem na UEFA, na FIFA e no Festival Europeu da Canção com Israel, geograficamente no Médio-Oriente, o país com mais condenações na ONU por ocupar ilegalmente a Cisjordânia, Gaza e Jerusalém Leste.

O pseudo imperador de Washington a quem estes dirigentes prestam vassalagem em toda a linha seja no sequestro ilegal de Maduro, seja no Conselho da Paz de Gaza sem palestinianos (os habitantes do território) para atacar a ONU, seja nas ameaças militares ao Irão por poder vir a ter armas nucleares quando o Estado do mundo mais fora da lei as tem, trata-os abaixo de capachos a pontos de um tal Mark Rutte, seu ordenança, abanar a cauda chamando-lhe paizinho…

Independentemente do destino do fecho da guerra não é possível deixar de ter em conta o rolo compressor de defesa da guerra à espera que Trump seja substituído nos EUA por algum Biden mais novo e acreditar que os interesses daquela potência passariam a estarem alinhados com a UE e para tanto recorrem aos recursos financeiros destinados a possibilitarem uma vida decente aos cidadãos da UE e canalizam-nos para a Ucrânia à espera do tal Dom Sebastião que nunca chegará pela simples razão de que a UE se tornou irrelevante para os EUA por se ter transformado num entreposto daquele país a quem compram armas para manter o complexo militar estadunidense e continuar a matança de europeus, mesmo quando na UE se queixam de Trump por não apoiar a Ucrânia.

 Sem o apoio militar dos EUA a Ucrânia não aguentaria um mês, mas von Der Leyen, Costa, Kallas e Cª precisam deste discurso para se aguentarem no comando de uma instituição corroída também devido aos que mandam e aos que não acham graça obedecerem por enquanto…

A guerra nunca devia ter começado. A sua continuação enfraquece a Europa e fortalece os EUA que ganham em todos os azimutes. Agora descobriram que os dirigentes da UE aceitam o que lhes ditar seja onde for, talvez até na Gronelândia.

Alguns dirigentes europeus da UE foram terça-feira a Kiev e o que se viu foi Zelenski com cara de poucos amigos a proclamar a continuação da guerra por mais três anos, e o dueto Costa – Ursula a fazer de conta que são o que não são pela simples razão de que ambos não têm qualquer exército às suas ordens, pois as Forças Armadas dos países da UE dependem dos governos nacionais, o que não querem interiorizar para darem ares de terem poderes que não têm. A Alemanha apesar de Ursula e Merz ainda não dá ordens aos exércitos nacionais.

Os que garantiram a derrota estratégica da Rússia, recusando toda a negociação, rejeitando os três pontos principais apresentados pela Rússia:  não entrada na NATO, reconhecimento da Crimeia como russa, a língua russa como segunda língua do país, exortam agora os russos a negociar, como se desde abril de 2022 até 2026 os russos não tivessem conquistado quase todo o Donbass.

O ponto é este e bate aqui: ou conseguem derrotar a Rússia e saem vitoriosos ou o que agora não aceitam será, na hipótese de derrota, muito mais pesada para a parte ucraniana. É simples.  Ou a Rússia não aguenta o esforço de guerra e perde ou aguente ganha em toda a linha.

Ou ainda outra hipótese, o de este conflito dá origem a uma guerra mundial. Então é inexoravelmente a Europa a maior derrotada, pois não tem defesa para fugir ao braseiro nuclear dada a sua concentração populacional.

Os países como a Rússia, os EUA, a China, o Irão ou até o Canadá poderão pela sua extensão aguentar choques brutais, mas apesar das baixas terríveis aguentar. Na Europa a sua concentração populacional levará ao desaparecimento por muito tempo em condições de vida aceitáveis.

Como é possível neste quadro continuar a ladainha da guerra? Dizem que se a Rússia não for derrotada, irá invadir a Europa… mas se em quatro anos apenas conquistou vinte por cento da Ucrânia, quantos anos serão precisos para conquistar a Europa…

As ambições czaristas da Rússia não são aceitáveis em nenhumas circunstâncias, mas de certeza que os EUA nunca iriam permitir que no México houvesse forças armadas russas. Nem sequer aceitaram mísseis em Cuba, quanto mais tropas russas…

Portanto, em vez de esperar por um desfecho de mais três que agravará para ambos os lados a situação de cada um, vale a pena negociar com cedências de parte a parte e com garantias de que a Europa sairá mais segura e cooperante. Se foi possível com regimes opostos (capitalistas e socialistas alegadamente), agora com o capitalismo dominante em todo o continente por que motivo não o é? Talvez o mal esteja no pecado mortal do regime.

O regime conservador e autoritário russo tem no povo russo o agente da mudança, tal como o regime absolutista/medieval saudita tem também no seu povo o artífice da mudança, embora para o Ocidente os regimes subservientes podem ser o mais retrógrados possível, desde que sejam exatamente subservientes estão perdoados e nalguns casos apoiados.

Há uma narrativa disruptiva que não se encaixa na realidade, mas dá para as elites europeias prosseguirem a sua política de empobrecimento das populações e de corrida às armas. Como tudo, até um dia. Aquilo que não aceitaram em Istambul podem vir ter de engolir com cedências muito mais graves. Ou vangloriar-se da derrota da Rússia. Ou a derrota de toda a Humanidade. Como dizia ontem na CNN o major general Agostinho Costa para já é Kiev que está às escuras.

Shakespeare, Marco António, Mourinho, Vinicius e Prestiani

As palavras são , talvez, a maior realização humana, dado o que elas permitem no relacionamento entre esses mesmos humanos.

Por uma palavra a voar no ar de que somo capazes? Há palavras que nos acompanham até ao fim dos dias; às vezes belas, outras horríveis. Há sempre a espera por uma certa palavra que não se sabe se chegará…

Quem leu a obra de Shakespeare Júlio César certamente não esquecerá o início da oração fúnebre de Marco António que agarra a multidão por uma condenação de César acusado por Brutus, seu grande amigo, de querer derrubar a República,

“Amigos, romanos, cidadãos deem-me os vossos ouvidos.

Vim para enterrar Cesar, e não para o louvar. O bem que se faz é enterrado com os nossos ossos; que seja assim com César. O nobre Brutus disse-vos que César era ambicioso. E se é verdade era uma falta muito grave, e César pagou por ela com a vida, aqui, pelas mãos de Brutus e dos outros. Pois Brutus é um homem honrado, e assim são todos eles, todos homens honrados.

mas que pouco a pouco vai subtilmente mudando o sentido do discurso para condenar os assassinos de César.

E Brutus, como sabeis, era o anjo de César. Oh! Deuses, como Cesar o amava. O golpe de Brutus foi, de todos o mais brutal e o mais perverso. Pois, quando o nobre César viu que Brutus o apunhalava, a ingratidão, mais que a força do braço traidor, parou seu coração.

Oh! Que queda brutal meus compatriotas. Então eu e vocês e todos nós também tombamos, enquanto esta sanguinária traição florescia sobre nós.

Sim, agora vocês choram. Percebo que sentem um pouco de piedade por ele. Boas almas. Choram ao ver o manto do nosso César despedaçado.

Se repararmos nas palavras de Mourinho no final do jogo da Luz com o Real Madrid vão também elas diretas ao grande elogio do golo de Vinicius Jr

Falei com o Vini e ele disse-me uma coisa, falei com o Prestianni e ele disse outra coisa. Podia ser ‘vermelho’ e dizer que só acredito no que o Prestianni me disse, e podia ser equilibrado e dizer que no mundo do futebol tento ser sempre mais equilibrado. Não quero dizer que o Vinícius é um mentiroso e que o Prestianni é um miúdo maravilhoso. Não quero dizer isso. ..Eu disse ao Vinícius, marcas um golo do outro mundo e por que celebras assim? …»

Brutus era um homem honrado e César era ambicioso, disse Marco António.

 Vinicius marcou um golo do outro mundo, mas foi festejar. Prestiani negou a acusação de racismo e é um miúdo maravilhoso, disse Mourinho.

Temos de nos curvar diante das palavras e delas retirar tudo o que contêm implícita ou explicitamente. Foi com palavras escondidas que tudo começou após os festejos por um golo do outro mundo.

As palavras, não as levará o vento. Estas, as de Marco António, por cá andam há mais de um milénio. Talvez as de Mourinho não perdurem tanto. Nem sempre as palavras representam o que se diz.

O golo, sendo embora, do outro mundo, não tem o poder das palavras. Por isso, os olhos falam, mas não se ouvem.

VINICIUS JR E O INCONSCIENTE COLETIVO

Desde que Carl Jung se debruçou sobre o inconsciente coletivo tornou-se mais acessível a compreensão de certos fenómenos que têm origem nas memórias mais antigas da Humanidade.

 Os humanos herdam todo um conjunto de arquétipos dos seus ancestrais que repousam no fundo das placas onde estão calcados pelo ego consciente.

Uma multidão de filiados de um clube de futebol, transforma-se noutra “coisa” com práticas contrárias, muitas vezes, ao perfil de cada elemento da multidão. Se lhe juntarmos o inconsciente coletivo salta para a superfície uma das mais deploráveis características humanas – o racismo.

Vinicius Junior, jogador de futebol do Real Madrid, negro, espalha com a sua arte, nos mais diversos estádios de futebol, a sua grandeza enquanto profissional dessa modalidade desportiva.

Face ao desespero da sua habilidade duas coisas se juntam numa só: o mais primário inconsciente coletivo – ser preto – e a irracionalidade das multidões enfurecidas pelo ídolo adversário que leva à derrota do seu amado clube.

Um negro proveniente dos países que os brancos escravizaram ousar em território branco derrotar os clubes que enfrenta leva-os ao desespero, à cegueira, ao inconsciente coletivo, ao tempo em que os negros eram coisas que se vendiam e cujo valo era pouco; mesmo que disso não tenham consciência.

Pois bem, Vinicius espalha a alegria subversiva pelos campos de futebol e nem todos os colegas adversários e apoiantes destes aceitam a trágica derrota. Uns e outros vão ao fundo dos fundos buscar o que de pior os humanos guardaram.

Se acontece muitas vezes é apenas porque muitas vezes a sua técnica espalha o terror entre os vencidos. E como nada mais têm para apresentarem face ao descalabro, gritam o que os envergonha se estivessem sozinhos e a coberto das multidões exibem toda a repugnância.

Como os tarados sexuais que justificam a sua violência com a conhecida frase – «estava a pedi-las».

Na hora da derrota nem todos se afirmam reconhecendo a grandeza do vencedor.

TRÊS SALAZARES EM BELÉM… DO QUE PRECISAMOS DE NOS LIVRAR.

A primeira volta da eleição presidencial evidenciou algumas características dominantes na vida política nacional.

A primeira é a crise profunda das instituições do regime. Se num exercício de memória nos quisermos lembrar de temas discutidos e que fossem próprios das funções do PR é quase certo que ninguém se lembrará de nenhum.

As discussões foram sobre a espuma mediática que ora corria da Ucrânia para a Gronelândia, ora do SNS para a imigração, ora da habitação para o pacote laboral para cumprir com os mandamentos eleitorais.

Para ainda adocicar mais esta vertente Mendes era o experiente; Gouveia e Melo o Portugal; Cotrim uma espécie de gentleman de garras neoliberais; Ventura o agitador que não concorre a PR; Seguro pouco disse, mas fez um desenho para os eleitores não porem os ovos no mesmo saco do PSD; António Filipe à espera de Godot; Catarina Martins a dar vida ao BE; Jorge Silva quando se apercebeu do erro já era tarde.

Montenegro congeminou que os portugueses estavam mais propensos a aceitar o desígnio triste da AD do que a ter vontade de respirar melhores ares. Enganou-se. Marques Mendes que, nesta visão estava já ungido da função, face ao espalhanço do Sr. Almirante, fica com a “experiência” de não bastar andar anos e anos a debater com a ressonância da caixa de correio da SIC.

Os debates não saíram das televisões. Nas ruas e nos locais de trabalho pouco se discutiu. Os cidadãos desaprenderam a discutir. Refugiam-se nas suas in(certezas) e fogem da disputa. A República vive solitariamente.

Quer a esquerda, quer a direita, desvalorizaram a eleição, pensando erradamente que não haveria muito a fazer e só faltava saber aguardar os resultados para Montenegro ter em Belém um camarada ou aparentado.

A direita mais para ali ou mais para acolá fragmentou-se e só Ventura segurou uma boa parte do seu eleitorado, mas com perdas importantes.

A derrota de Montenegro foi tremenda. A sua intervenção na noite eleitoral foi a de um dirigente sem rumo, aparecendo equidistante entre Seguro e Ventura, o que correspondeu a outro novo erro de avaliação se, entretanto, não mudar o rumo.

Gouveia e Melo e os seus conselheiros esqueceram-se que um bom diretor de recursos, mesmo fardado de Almirante, não basta para ser PR.

A figura cavalheiresca de Cotrim, todo cheio de juventude, apesar da idade, mesmo com o descalabro do PSD, ficou-se pelos 16% que é um bom resultado, mas perdeu uma grande oportunidade …

No lado do PS, Seguro tinha a aura de indeciso e titubeante, teve a coragem de avançar e colher os frutos dessa coragem por se posicionar numa postura centrista. Talvez a lógica de reequilibrar os poderes tenha dado ao socialista mais mole a vitória.

No lado das esquerdas do PS a situação começa a ser verdadeiramente dramática, pois nestas eleições valem umas décimas a mais de 4%…um resultado catastrófico.

António Filipe, sendo o único que revelou conhecimento das funções presidenciais, foi o primeiro a declarar ser candidato, e tal levou a que o PCP visse nessa atitude justificação para o tornar o candidato destas áreas, o que se revelou uma ideia sem sustento, contribuindo para impossibilitar uma candidatura abrangente destes espaços.

A candidatura do BE não trouxe, em termos de apoio, nada de novo ao próprio partido e ganhou a António Filipe umas décimas a mais de votos.

A prova de vida dos dois partidos não os tirou dos cuidados intermédios com prognósticos reservados.

O candidato do Livre não se livrou de um enorme susto e levou o partido a um resultado jamais imaginado nas melhores cabeças do partido.

A crise que afasta os cidadãos da política agrava-se com a crise dos partidos que têm na generosidade uma das suas linhas principais de ação. Sem esquerdas fortes, o país avançará pelo rumo do empobrecimento, como se vê por todo o lado.

A luta pela sobrevivência de cada um só muitíssimo remotamente interessa ao chamado povo de esquerda.  Ou ampliam o campo de ação unitária e de renovação, abandonando a obstinada política de afirmação sectária que atinge o paradoxo dos paradoxos — quanto mais reduzida é a sua influência, mais se fecham sobre si mesmos — ou novos sujeitos nesta área virão a terreiro.   

Entretanto a crise vai continuar, imagine-se o que seria com Ventura em Belém, com três Salazares. UF… do que precisamos de nos livrar.

OS MEUS JOGADORES, NA SUA MAIORIA, GOSTAM DE MIM

DIZ MOURINHO

Tanto quanto é possível saber-se os jogadores de futebol têm para com o seu treinador, quer gostem dele ou não – o dever de seguir as suas orientações e de vencer.

Quando Mourinho por tudo e por nada fala do passado, como se alguém o esquecesse, em certa medida faz lembrar o clube que representa que invoca constantemente o passado.

O passado é muito importante desde que não se viva, em termos profissionais, como se o presente não contasse. O passado pode ser inspirador para o presente; se não for é meramente passado.

Para mostrar os seus créditos, Mourinho vem alegar que a maioria dos jogadores gosta dele, admitindo deste modo que há uma minoria que não gosta dele.

Porém, a verdade é esta: Mourinho não foi contratado para a maioria ou a minoria dos jogadores gostarem dele. Relembrando – ele foi contratado para com os jogadores que tem, ganhar os jogos, incluindo ao Braga. Veremos no Porto para a Taça.

TRINTA MULHERES

Um novo 31

Há trinta mulheres que saírem a terreiro a dizer de Cotrim, candidato a Presidente da República, o que não era necessário vir dizer- que é um homem que as respeitou enquanto mulheres.

Reparem: respeitar as mulheres com quem trabalhou passou a ser uma notícia. Como é possível? Podemos imaginar um Presidente da República a ser notícia porque as mulheres com quem trabalhou foram respeitadas?

O respeito que estas trinta mulheres dizem recebido de Cotrim não vale nada porque pretende esconder o desvalor de uma mulher ter denunciado que foi objeto de assédio.

É aqui que está o quid, embora sem nunca perder de vista que uma denúncia é apenas uma denúncia, nada mais.

As trinta fizeram rebentar com grande estrondo o que uma fizera estalar na vida pública. Sim, as condutas criminosas são quase sempre exceções.

Não se pode dizer que os cidadãos com condutas criminosas passam a vida a cometer crimes, salvo raríssimos casos.

As trinta esqueceram que tal respeito só é notícia porque foi posto em causa. Mais valia não terem criado um novo 31 mediático.

 A NUDEZ DO IMPÉRIO

A conferência de imprensa de Trump e Cª na tarde de sábado dia 3 de janeiro é talvez o melhor espelho da atual Administração estadunidense.

A linguagem corporal de Trump, Hegeseth, Rubio é absolutamente clara quanto ao que lhes vai na alma.  Estavam ali ao pé do microfone para de forma cruel explicar a agressão militar para raptar Nicolas Maduro, Presidente da Venezuela. Como num filme hardcore, o argumento era o mesmo de princípio ao fim da conferência. O plano era cristalino, Trump travestido de Calígula, não precisava de argumentos, salvo a velha lengalenga de que os venezuelanos tinham roubado os EUA e agora iam pagar porque iriam controlar aquele país. A outra justificação que ninguém acredita é a de que Maduro espalhava droga, homicídios e violações nos EUA. Porém, garantiram que doravante os venezuelanos não voltariam roubar os EUA e irão ter de lhes pagar o que irão fazer para enriquecer a população venezuelana.

Garantiram a cada trecho que são o país mais poderoso, com as melhores armas e que todo o hemisfério sul é zona dos EUA e ainda os que se colocam fora desta opção suceder-lhes-á o mesmo que a Maduro, desde logo Cuba como referiu Marco Rubio, refugiado cubano.

Numa conferência de imprensa dirigida pelo dedo de Trump com respostas antes das perguntas concluírem, tudo ficou às claras – a vida é um grande negócio, disse o novo Calígula.

Este é o novo imperador do império ocidental a quem os súbditos europeus se atropelam para lhe cair na graça, havendo até quem o considere, com muito afeto, tratando-o como paizinho, como o caixeiro-viajante Mark Rutte.

Trump ameaçou tudo e todos, sobretudo as potências que lhe podem fazer frente. Quis passar a ideia da sua força, precisamente no momento do seu declínio acentuado.

A droga campeia nos EUA porque a vida naquele país para uma grande parte da população é um inferno e os sem abrigo crescem em todos os Estados. A pobreza espalha-se. Os massacres no país continuam, apesar dos anúncios de tranquilidade de Trump.

Trump e os multibilionários que constituem o seu governo vivem numa bolha que é negada pela realidade.

A ação armada contra a Venezuela para raptar o Presidente Maduro parece ser o início de um processo de ações violentas contra todos os países que se não subjuguem às ordens do império.

Cabe aos países amantes da liberdade e da cooperação internacional, aos povos, às instituições internacionais, desde logo à ONU, não se submeterem à velha ordem canhoneira para espoliar os países e os povos dos seus recursos naturais porque como diz Trump a vida é um grande negócio. Mas a vida pode ser a mais bela epopeia se ela for vivida entre todos com os melhores sentimentos de que os humanos são portadores.

PIRATARIA INTERNACIONAL

O que melhor define a conduta internacional de Donald Trump é o cerco, o ataque e a captura do Chefe de Estado venezuelano, Nicolas Maduro, na madrugada de sábado dia 3 de janeiro.

Trata-se, como é óbvio, de uma ação de pura pirataria da potência dominante na região, com base no monumental embuste da proteção do tráfico de droga do país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

Tal como no Iraque a mentira do tamanho do mundo foi a existência de armas de destruição massiva, aqui é a da exportação de droga.

Os EUA são o país com um total de trinta e quatro intervenções militares em todo o mundo, 752 bases militares espalhadas pelo planeta, 168 044 militares em vários países; um país que só reconhece os seus interesses como pertencendo ao núcleo dos seus interesses vitais.

O país que comanda o destino da NATO e trata os aliados como sendo seus vassalos, designadamente no caso da Gronelândia.

Choca, pois, a posição da Alta Representante da UE para a política externa que justifica a conduta de Trump com a falta de “legitimação democrática” de Maduro, como, se um qualquer país tivesse algum mandato respaldado no direito internacional para atacar militarmente outro país pertencendo à comunidade internacional, como se kallas defendesse uma intervenção militar na Arábia Saudita para a realização de eleições.

O “mandato” da intervenção militar por ordem de Trump que Kallas apoia, como o faz em relação à ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel, é o da força brutal, restabelecendo o domínio das nações com base na exibição da bandeira imperial.

Trump prossegue a política de agressão de Kennedy, Johnson, Nixon na Indochina, de Clinton na Jugoslávia, de George W. Bush no Iraque, de Obama no Médio Oriente, de Bush no Afeganistão.

O mundo está frente a uma bifurcação: ou a lei da selva ou a multilateralidade com o respeito de todos por todos.

A ação armada dos EUA na Venezuela é um sinal do caminho que os EUA/NATO/UE pretendem percorrer.

Que os países latino americanos se unam para encontrar uma solução pacífica para sarar a crise aberta com a agressão militar dos EUA. E que todos a apoiem.

As mulheres e os homens deste mundo não podem continuar a virar a cara para o lado, fingindo que o que se passa no mundo não lhes diz respeito. Fazemos a História que nos faz. Que a indiferença não passe à frente dos sentimentos da empatia e da solidariedade.