Conheci o David nos bancos da Faculdade de Direito de Coimbra em 1967. Reinava, então, no país, a lei do silêncio plúmbeo. Tudo era proibido na Universidade, menos a praxe e as bebedeiras. A grande Lei – não se meter em política, não discutir religião e não namorar para garantir o sonho de vir a ser doutor e assegurar o futuro.
Nas ruelas da Baixa e nas escadarias que conduziam à Sé havia uns quartos esconsos onde se trocava dez escudos por certas descargas.
Numa reunião de curso alguém se lembrou de propor, contra o uso obrigatório de gravata nas aulas práticas, que levássemos camisola de gola alta e gravata por cima. Arranjei uma gravata para o David.
Discutíamos, então tudo, todos os ismos e despachávamos qualquer tema com o materialismo histórico e o dialético. Era o tempo contra o tempo e ao mesmo tempo a favor do próprio tempo. Um tempo de espera confiante. No interior do tempo o casulo já havia gerado a futura borboleta da liberdade. Por aí andávamos orgulhosos da nossa república Ninho dos Matulões, onde dormíamos com todos os sonhos ao rés da vigília, incluindo com impressoras e estêncis.
A crise de 1969 revolveu as entranhas da Universidade e nada mais foi como tinha sido. O David participou de alma e coração nessa extraordinária aventura de revolta e generosidade que colocou Coimbra, cidade ocupada pela GNR e pela PIDE nas bocas do mundo. Sempre no seu jeito anónimo de estar onde era preciso estar. Lá estava. Ele e a sua cabeça no ar à procura das gaivotas da ria que lhe banhava quase a casa de onde seu pai partira para a Venezuela.
Esgotou os adiamentos na incorporação militar. Eu tinha sido expulso da Faculdade de Direito e fui parar a Lisboa à Estrada de Benfica. Passámos, então, a contar com o alferes Ramos, oficial miliciano que, entretanto, haveria de fazer-se ao mar até aos Açores e assentar arraiais onde estavam oficiais do quadro da estirpe de Melo Antunes e Vasco Lourenço. Abraçou o MFA. O David lá esteve como militar no 25 de Abril. Um postal no 224, 3ºEsq. que a PIDE não detetou era um sinal do tempo novo. Sempre na frente do barco que estava a sair da negritude para a Luz da liberdade.
Quis o destino que a partir de junho de 1974 passássemos a trabalhar em São Bento: eu no gabinete do Ministro de Estado Álvaro Cunhal e ele no gabinete do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves. Poupadinhos íamos e vínhamos no mesmo Volkswagen com pisca de sair para os lados. Tínhamos cada um direito a um transporte com motorista, mas aquele era um tempo de generosidade, uma democracia que nascia de tanto sacrifício e de tanta esperança. Saímos cedo e regressávamos altas horas na senda de construir algo novo, um país como a pintura da Vieira da Silva, com todos na rua, como naquele Primeiro de Maio que deixou vazias as casas de Lisboa.
O David era um homem culto. De uma honradez à prova de bala. Um ser humano que fazia da amizade e da tolerância um passaporte único.
Passou pela Vértice em Coimbra, o Diário, o Diário de Notícias, o Expresso e o Público. E publicou preciosidades sobre gastronomia.
Era um irmão para além dos cinco que tive de meu pai e de minha mãe. Ainda hoje, quando tenho algum problema mais difícil, sinto um vazio por não poder ir falar com ele. Tantas vezes nos ouvimos ao longo da vida…dos amores e dos desamores, incluindo partidários. Em Coimbra ou em Pardilhó, em Lisboa ou em Amorim ou em Capelins. O David era um esteio de bondade e de disponibilidade. Um homem de porta aberta, como se diz de São Bento, o que não deixa de ser curioso sendo ele ateu, mas daqueles cuja porta nunca fechava a nenhuma hora para quem precisasse.
Permito-me chamar a atenção que no “Banquete”, Platão abordou o tema do amor com Sócrates e outros no meio de uma grande jantarada.
A gastronomia de que o David tratou nos jornais e praticou para os amigos era também um Tratado de amor, pois quem tudo dá a costurar comida para os amigos, outra coisa não tece, que não seja amor. Uma vida de sementeira de amor e amizade. Uma vida de luta pelos ideais que ajudou a levantar como a sempre eterna madrugada daquele Abril a tocar no Maio de todas as esperanças.
Tínhamos outra paixão, os melros. Acho que algures nas margens da ria onde o seu mano Arménio cumpriu um mandamento, o David continua a ouvir os melros de Pardilhó com o Assis Pacheco. Bem-hajas David.
David Lopes Ramos, a sementeira de amor e de amizade de um resistente | Crónica | PÚBLICO