Abencerragens do Novo Banco

 

A criação do Novo Banco é o extremo oposto do que nos garantiram os governantes que ia ser, um banco saudável sem toxicidade. Era o bom, o outro o mau para onde iam todas as maldades do Dono, garantias dadas para que estivéssemos sossegados…Lá sabiam as razões para nos enganar daquela forma.

O tempo traz sempre tempo atrás dele e se atrás daquelas notícias vieram outras e mais outras e a relação entre o que se prometeu e o que sucedeu tende a esbater-se. Se na vida política, estas condutas passarem a ser normais e o que se prometeu apenas valeu para sacar votos, então o povo vira as costas à política e desacredita até ao dia em que alguém que tudo fez para que as coisas fossem como foram, saia do “sistema” e prometa avançar “contra” ele.

O que está a suceder no Novo Banco é algo de tal modo aberrante que, numa sociedade saudavelmente participativa, criaria um terramoto social.

Na verdade, os portugueses estão a pagar negócios ruinosos que servem para enriquecer ainda mais alguns que de negócio em negócio, neste obscuro mundo de cupidez e gula, se abarrotam com milhões e milhões de euros. Saem diretamente dos que ganham o salário mínimo, médio até dos que ganham um pouco mais para donos de fundos sem fundo, funis de receção de milhares de milhões. Sem um euro de risco. O novo paradigma do capitalismo financeiro parasita.

As notícias deste jornal deviam abalar todo o Portugal, mas sacodem apenas a opinião pública e esfumam-se entre os comentários do futuro candidato Marques Mendes, as compras do Benfica, os luxos da nova administradora da TVI, as permanentes notícias das infeções e mortes da pandemia e os incêndios.

O encadeamento das escandalosas negociatas, ao que parece, legais não para. Marcelo diz, como sempre, que é urgente esclarecer o que é mais do que claro. O Novo vende a Velhos Abutres por 10 o que valia 50. Por gentileza empresta essa massa aos compradores. E nós pagamos os 40, por imposição governamental, assim.

Ademais o governo tem sempre à mão aquela coisa a que chamam auditoria, que muitas vezes antes ser, já o era, como a pescada. Desta vez foi ter com a Delloite e fez seguramente um contrato que foi incumprido pela auditora. Ou seja, comprometeram-se a entregar no prazo x e não entregaram e não se sabe quando entregam.  Uma empresa privada trata deste modo o Estado e ninguém reage…A Delloite já deu explicações cabais das razões do incumprimento? Quem as conhece? Por que não são públicas? Era o momento? Era o quê?

O Estado não tem auditores que ajam em conformidade com o interesse público? Correu com eles para os privados e agora paga-os (pagamos) a preço do oiro aos que prosseguem apenas o lucro. Que estranho mundo que se orienta no sentido do Estado se desfazer dos seus quadros, os quais ingressam no privado, indo o mesmo Estado pagar os seus serviços por balúrdios que enchem os cofres de todas as Delloites do mundo…Este é o veneno.

Onde era necessário transparência e rigor, deparamos com águas barrentas que ocultam os fundos dos Fundos.

É estranho que conhecendo os portugueses as notícias escandalosas deste Novo Banco se acomodem, em vez de se mobilizarem para que as coisas se passem de outra forma,  pois a consciência da cidadania impunha-o. Que diabo, é o dinheiro de todos e a maioria desse dinheiro é de pobres e de remediados. E nem assim, tal a anestesia.

 

https://www.publico.pt/2020/08/12/opiniao/opiniao/abencerragens-novo-banco-1927813

NUNCA ESQUECER HIROSHIMA E NAGASAKI

Há 75 anos o governo dos E.U.A ordenou que, nesse dia,  a cidade de Hiroshima fosse bombardeada com uma bomba atómica.

A Humanidade passou a um novo limiar de violência entre Estados no desempenho da guerra.

Num instante dezenas de milhares de japoneses foramm mortos. Outras dezenas de seguida com a radiação. Ainda hoje há efeitos dessa mesma radiação.

O Japão derrotado em agosto de 1945 foi sacrificado, sobretudo as populações da Hiroshima e Nagasaki, para que o novo mandarim da ordem internacional proclamasse o seu poderio imperial urbi et orbe.

O que choca e não tem perdão é que em vez de parar a corrida às armas nucleares, ela prossiga loucamente.

A bomba que explodiu em Hiroshima é quase irrelevante face ao poder destrutivo das novas armas termonucleares, milhares de vezes mais potentes.

O mundo não estará seguro enquanto as armas nucleares não forem eliminadas. O terror nuclear por parte dos seus detentores é impeditivo de uma vida internacional plena onde cada Estado possa fruir de uma paz salutar.

Razão tem o Papa Francisco em apelar à eliminação de todas as armes nucleares. O precedente aberto há 75 anos tem de ser encerrado.

Há assuntos muito importantes, lá isso há. Porém, nada é mais decisivo para a vida humana que a paz.

Pode existir um ambiente e uma Natureza sustentávelcom o mundo a repousar num arsenal nuclear capaz de o destruir vezes sem conta?

Com tanta desgraça, como é o caso da atual pandemia, por que não deixar de gastar estes milhares de milhões e aplicá-los na eradicação das doenças mais graves?

Para que lado vamos caminhar? Para uma vida em paz ou para o caos e a guerra?

É preciso que as vítimas de Hiroshima e Nagasaki não sejam esquecidas. E para tanto todos os Estados não nucleares se deviam comprometer a não incluir o armamento nuclear  nos seus arsenais e os que já detêm a comprometerem-se a nunca serem os primeiros a utilizar esse armamento e a caminharem no sentido da desnucleareização.

Portugal nunca mandou matar pretos. É mentira.

 

Quando os regedores das freguesias de todo o país arregimentaram as populações para irem ao Terreiro do Paço apoiarem Salazar para dar início à guerra colonial contra o povo angolano, uma nova e desastrosa realidade começou a nascer e a tomar conta da juventude, a da guerra colonial.

Foram os homens com garrafões de vinho pagos e merenda melhorada. Foram mal sabendo ao que iam. A maior parte não sabia sequer onde era Lisboa, quanto mais Nambuangongo, ou Cabinda, ou Maiombe ou mesmo Angola. Disseram-lhes que iam salvar a pátria dos terroristas que esventraram à catanada mulheres e crianças no Norte de Angola. Os pretos de Angola eram portugueses de gema e tinham de voltar à portugalidade à base da metralha e do terror, mesmo que o não quisessem ser e à distância de sete mil quilómetros.

Alguns dos que regressaram traziam os seus troféus de guerra. Sim, em todas as guerras, os homens tornam-se selvagens. A guerra é a maior das selvajarias porque cada um se treina para matar o outro e aterrorizá-lo impedindo-o de reagir. O napalm não civilizava nenhum angolano e as G3 também não. Já antes a escravatura fora para civilizar os pretos.

Os que regressaram vinham nos barcos carregados de heróis do Ultramar. Vinham carregados de ódio aos pretos que eram traiçoeiros e combatiam escondidos no capim e não de homem a homem. Era a lei da sobrevivência. Ou matavam ou eram mortos. Os pretos não tinham aviões, nem barcos de guerra, só a traição – o capim.

Os soldados lusos perseguiam-nos e matavam-nos e se preciso fosse cercavam as aldeias e queimavam-nas para que eles aprendessem a distinguir o bem do mal.

Alguns traziam condecorações de tanta morte, outros não sabiam o que mataram, pois os traiçoeiros pretos levavam os mortos, como se os portugueses deixassem os seus. A verdade é que há muitos heróis desse tempo de metralhadoras que não dormem de janela fechada, nem são capazes de fazer uma ressonância magnética.

Alguns dos que regressavam tinham escondidos uns frascos e dentro dos frascos orelhas, narizes e até órgãos genitais masculinos. Era a prova da sua valentia.

Às vezes mostravam-nos. Só às vezes. Tinham-nos escondidos. E quando mostravam contavam a história dos donos daqueles pertences. Eram dos terroristas que não queriam ser portugueses, pretos malditos. E mostravam o que cortaram ou alguém por eles.

Foram anos de guerra na Guiné-Bissau, em Angola e em Moçambique. Anos a matar para não ser morto. Tão brutal e cruel que ela própria gerou a revolta e acelerou o 25 de Abril pela mão dos capitães que já não queriam pactuar com tanta desgraça.

Este é o nosso Portugal que há quarenta e seis anos metralhava os pretos dos restos do nosso Império.

Quem pode atrever-se a dizer que neste país há racismo? Quantas armas desse tempo estão prontas para matar pretos que eram os seus destinatários, mesmo que enviesadas matem brancos?

É tudo mentira, Portugal não esteve em guerra, nem nunca por nunca mandou matar pretos…Ai Portugal, Portugal.

https://www.publico.pt/2020/08/03/opiniao/opiniao/mentira-portugal-mandou-matar-pretos-1926787

 

O que o país deve a Passos Coelho

 

Num país, como Portugal, com séculos de tradição judaico-cristã, onde a culpa social e individual é uma cruz, Passos Coelho, saído desse território nevoeirento, proclamou do alto do poder a punição dos portugueses devido à sua vida desregrada, acima das suas possibilidades.

O país deve a Passos Coelho a primeira versão dos chamados países “frugais” segundo a qual a Holanda das montras de prostituição em Amesterdão se destinam a desvairados habitantes do Sul que só pensam em sexo e copos. O país deve-lhe essa ideia de alguns predicadores luteranos e calvinistas e do nosso velho amigo Schäuble.

O país deve a Passos o chicote que ele usou e abusou para aumentar impostos e levar centenas de milhares de jovens a saírem da sua zona de conforto e a emigrarem.

Qual sacerdote Maia ou alto dignitário do Santo Ofício, Passos interpretou a importância do sacrifício para atingir a felicidade.

O país deve-lhe a maldade suprema de ser castigado por ter aceitado fazer o que os governantes lhe pediram para fazer. Aliás, derrotou Sócrates por alegar não aceitar tanta austeridade e quando ganhou as eleições, com cara gélida de pai tirano proclamou a pobreza generalizada como meta.

O país deve a Passos a ideia que a Escola Pública e a SNS eram assuntos para desinvestir, pois os rankings apontam para a excelência do privado. Manter sim, mas a pensar em serem base de apoio ao negócio.

Deve-lhe as privatizações ao desbarato para que os mesmos de sempre comprassem por uma bagatela importantes setores da economia – CTT, TAP, ANA.

O país deve-lhe aquele rosto sem sorrir, compenetrado, a que Assis chama – serviço, dedicação – desatento às consequências sociais da sua política.

O país deve-lhe a sua ideia de competitividade, fazer de Portugal um dos mais competitivos, com salários baixos e zero de impostos para os empreendedores do costume.

Veja-se o caso dos vistos gold. O país deve-lhe essa vontade firme de fazer do país um enorme condomínio privado para certas famílias de luxo.

O país deve-lhe a peregrina ideia que sem a sua austeridade e empobrecimento, havia de chegar o Diabo e o Inferno, vá lá saber-se porquê…sempre o chicote na melhor interpretação freudiana da moral judaico-cristã.

O país deve a Passos o culto da indiferença perante os mais desfavorecidos. O timoneiro queria que os ricos se tornassem mais ricos e que a riqueza escorresse da pirâmide para a plebe.

Este era o pensamento de Passos Coelho, seguindo a mais pura escola neoliberal, levando o PSD para a direita pura e dura.

A este projeto político-ideológico Francisco Assis qualifica de determinação e serviço. Sem mais. É ele que está à frente do Conselho Económico e Social.

Vieira, a senhora da Malveira e o bem-disposto Marques Mendes

 

 

Luís Filipe Vieira, habituadíssimo a uma vida exemplar de austeridade sacou de um irrelevante montante de 100.000€ e enfiado num jato privado zarpou para terras de Santa Cruz buscar o catedrático das táticas, o que há quatro anos, segundo o mesmo Vieira roubou computadores e tudo o que pôde para ir saltar com Bruno de Carvalho pra o Estádio sportinguista.

Bruno e Jesus aos saltos foi uma performance que ainda hoje deve perdurar na memória dos clubes da 2ª circular. Houve quem dissesse – que bem que saltam. Na verdade, Bruno e os lagartos pensavam que aqueles saltos os levariam ao título, foi apenas título de crónicas. Jesus ganhou umas bofetadas e pouco mais. Andou por ali a ver outros ganharem, até o Aves lhe ganhou a Taça.

Tem de se sublinhar por amor ao razoável que Bruno não precisou de um avião, pois entre os dois estádios são algumas centenas de metros.

Vieira sabia que Jesus podia fugir pelo caminho de regresso, quiçá o Barcelona ou a Juventus o cercassem de caças e o levassem… Jesus já tinha dito que não havia mais que meia dúzia de clubes na Europa onde pudesse encaixar. E o ÉLEÉSSEBÊ era o mais amado de Jesus. Desde pequenino que é do Benfica e nunca trocaria o Liverpool ou o Bayern ou o Real Madrid pelo Benfica, tendo em conta a aposta de Vieira numa formação que conduzirá o Benfica à vitória na Champions, dado que Presidente Vieira é dado a ver coisas que ninguém vê, luzes, mesmo de dia, como foi o caso dos computadores online que o treinador amigo do peito levou para Alvalade.

Vieira há de regressar com Jesus debaixo do braço. Trará o salvador do mundo. O bigode do Presidente sorrirá. O Benfica vai pagar muitos milhões e não é certo que nas eleições as coisas corram de feição ao homem que em advogados deve estar a gastar alguns cêntimos.

Corria, noutro planeta, a vida enfadada, melancólica devido ao vírus e ao futuro. Corria e acelerou. O povo não queria crer que a senhora da Malveira sempre pronta a dar conta do que gasta em luxo fosse objeto de uma OPA da televisão de onde saiu com enorme estardalhaço para a SIC e voltasse perdoada para a TVI e cheia de cargos com direito a muito pastel.

Deve montar um novo estaminé e levar lá Jesus e Vieira e os líderes dos partidos a beijar a mão à madrinha. É bonito e acreditam que dá votos ir apresentar dotes vários, incluindo culinários. A política ao nível da senhora dona dos gritos mais estridentes de todas as televisões do mundo e arredores. Um enlevo neste reino sem Rei, mas com uma espécie de rainha de Inglaterra a dar beijos, abraços e palpites e mergulhos. Também lá foi ao beija-mão. Uma delícia neste nosso Portugal dos pequeninos.

No domingo no espaço do comentador Marque Mendes o nosso homem que louvara Ricardo Salgado e assegurara que o Novo Banco era mais seguro que o Titanic defendeu e elogiou o trabalho do MP. E num desvario de ato de contrição considerou que de acordo com o despacho de acusação o criminoso agiu à socapa, ele mais uns tantos, tudo escondidinho, sem ninguém dar por nada, mesmo sendo uma brutalidade de milhares de milhões, tudo no convés do iate onde todos e todas iam ao beija-mão.

Não é seguro que a CMTV não queira comprar o comentador e parece estar disposta a abrir os cordões à bolsa e ir de avião até à sociedade de advogados onde trabalha Marques Mendes e o traga para a sede da CMTV. A SIC está apreensiva.

Porém, o país está em alerta devido ao calor e a esta efervescência concorrencial que é prova que o mercado segue a todo o gás.

Vieira, Jesus, Cristina e Marque Mendes mostram que o país está no bom caminho. Os frugais já não podem pedir tantas reformas para Costa receber o vil metal.  Basta deixá-los saltitar de um lado para o outro. Que lindo é Portugal.

https://www.publico.pt/2020/07/20/opiniao/cronica/vieira-jesus-senhora-malveira-bemdisposto-marques-mendes-1925191

 

Não é Galileu Galilei?

É curioso que apesar da implosão recente do sistema financeiro a nível mundial perdure alimentado diariamente urbi et orbe a peregrina ideia de que as privatizações são abençoadas em contraponto com a propriedade pública, que é diabolizada.

O sistema mundial económico colocou no índex qualquer gestão pública. Todo o sistema imunitário da atual globalização se une para diabolizar tentativas de colocar qualquer unidade produtiva sob o domínio do Estado porque estará escrito algures no Monte Sinai que o Estado existe para encher os bolsos dos privados, mesmo quando a sua gestão é ruinosa.

No caso português um dos expoentes do absurdo é o exemplo da EDP, enquanto no setor público português era só desgraça, na mão dos chineses é sublime, deve ser dos Mexia, Pinho, Catroga e de todos os comedores da grandiosa gamela do comunismo chinês.  Aqueles comunistas cheiinhos de dinheiro é que são bons, os outros tesos a proclamar a igualdade dos cidadãos estão em contramão.

O negócio correu tão bem a meia dúzia de mequetrefes que o MP teve de agir para fazer mesmo au ralenti funcionar as instituições inquinadas pelos donos desta coisa…

O caso da TAP é também paradigmático: nacionalizada à última hora, entregue ao desbarato pelo governo do PPD/CDS, a gestão dos senhores Nielman e Pedrosa foi um ver-se-te-avias quer com Passos, quer com Costa.

Afinal a tão apurada e tecnocrática gestão privada da TAP foi ruinosa.  A empresa no início de 2020 estava nas lonas. E não foi o Estado, foram gestores de elite do setor privado que aproveitaram o negócio para levarem a TAP para o descalabro, certamente dando milhões a uns tantos, através das negociatas só ao alcance de gente capaz de vender alma e o resto da vergonha.

A TAP comprou rotas e aviões como se fosse uma das maiores companhias do mundo, quando é a companhia de bandeira de um pequeno país europeu…mas isso era obra dos tais profissionais privadíssimos e de grande reputação.

Algures estaria alguém a contar com os despojos a custo zero da TAP? Algures na Europa quem estaria a esfregar as mãos de contentamento por obrigar os portugueses a ter que viajar para Madrid para irem para África ou para a América do Norte e do Sul? Quem?

Claro que a TAP enquanto companhia de bandeira tem de melhorar muito e mostrar que é capaz de ser competitiva e não apenas continuar a ser mais um entreposto de negociatas como as que caracterizam o nosso sistema político-financeiro.

Veja-se o que sucede com o Novo Banco e as novas e escandalosas negociatas da venda de imóveis por meia dúzia de patacos. Byran Haines liderou um banco detido pelo fundo Cerberus. Por 200 imóveis do Novo Banco, o fundo que detinha o banco de que Haines liderou, comprou-os por 159 milhões, sendo o seu valor bruto contabilístico 478 milhões, uma perda de 328,80 milhões. A gestão sem mácula é esta, tirar do de um banco resgatado para encher os bolsos do Cerberus, fundo muito fundo onde foram parar riquezas de um banco que está a ser pago por todos os portugueses.

Entretanto parece que finalmente a mais fina figura do regime vai a julgamento. Haja Deus. Homem sério, condecorado, sempre bem acompanhado das mais figuras do reino, de boas famílias, o dono disto tudo era realmente um homem capaz de mil e um negócios…ele e os outros, do BPN ao BANIF, ao BCP…Vamos ver.

As últimas notícias da distribuição da riqueza no mundo são também bastante esclarecedoras:  o número de grandes fortunas e de milionários cresceu 8,8% em 2019, face a 2018. São fortunas que tornam ainda mais dolorosas as situações que dizem respeito a mais de metade da Humanidade que vive com cerca de dois ou três dólares por dia. Não está em causa, nem devia estar a maior capacidade de certas pessoas de conseguirem obter e fazer prosperar negócios de um modo extraordinário. O que está em causa é a total incapacidade do sistema para deixar na mais completa miséria mais de um quarto da Humanidade.

Se o sistema cria desequilíbrios desta grandeza, tal mostra a sua incapacidade para dar resposta a uma questão tão simples como esta: é ou não possível haver uma vida decente para todos? O que se tem visto é que a atual globalização não tem respondido a este desígnio, apesar do índex e da poluição de gente a dizer que estes são os bons gestores. O que conta não são os resultados; é tal realidade dolorosa que é preciso continuar a negar, não é Galileu?

https://www.publico.pt/2020/07/12/opiniao/opiniao/nao-galileu-galilei-1924102

Ainda o ato de contrição sem penitência de Durão Barroso

O ato de contrição de José Manuel Durão Barroso, em entrevista ao Atlantic Talks, a propósito da invasão do Iraque e do seu apoio incondicional na Cimeira dos Açores é um traço da sua personalidade, uma espécie de modus operandi. Ficou-lhe do tempo das autocríticas importadas dos jovens generais maoistas.

Durão Barroso ao longo destes últimos cinquenta anos soube fazer o que tinha de fazer para ser o que queria ser. Está-lhe no ADN a ambição e jogar no tabuleiro indicado para alcançar o objetivo seguinte.

Nos anos imediatamente antes do 25 de abril combateu com todas as suas forças o PCP para lhe roubar influência na juventude universitária. Era destemido a defender os camaradas Marx, Lenine, Stalin e Mao. Até no boné que usava. Um fogoso revolucionário que anunciava a chegada do vento Leste e o educador da classe operária, entretanto falecido.

Com a revolução de Abril o Zé Manuel levou o seu anticomunismo ao expoente de proclamar que a revolução não passava de um golpe de Estado do PCP com a camarilha militar. Era no tempo em que defendia que os pides morriam na rua e os professores da Faculdade de Direito, salvo raras exceções deviam ser saneados e alguns julgados pelos bandos do MRPP a funcionarem como tribunais populares.

O seu ímpeto anticomunismo em nome do verdadeiro comunismo tinha de o levar ao PPD, como era dos livros. Lá foi com Eurico de Melo que escolhia a dedo os que interessavam ao partido. E dali nunca mais parou.

Com o estatuto de imperador do PSD, o partido que mais cedo ou mais tarde leva o líder a São Bento, formou governo com Paulo Portas, um dueto que garantiu a pés firmes que Saddam Hussein tinha armas de destruição massiva e que o Departamento de Estado as tinha mostrado e eles tinham-nas visto.

Traindo o espírito europeu de rejeição da guerra receberam nos Açores George W. Bush com Aznar e Blair. Colocaram o país ao serviço da perfídia do monumental embuste que mudou o mundo para pior.

O Iraque foi destruído. Centenas de milhares de mortos. Recrudescimento do jiadismo em todo o Médio Oriente e no mundo muçulmano. O mundo ficou muito mais inseguro e mentiram dizendo que ia ficar mais seguro.

O Iraque graças a estes dirigentes caiu nas mãos do Irão. Fragmentou-se nas suas comunidades religiosas e o sectarismo tomou conta da vida iraquiana. Os cristãos perseguidos e os direitos humanos espezinhados de modo mais grave que no tempo de Saddam que Bush, o amigo de Zé Manel e de Paulo  Portas não descansou enquanto não o enforcaram e assim calá-lo per omnia seculae et seculorum.

Por ordem de George W. Bush centenas de milhares de pessoas morreram. Os que o apoiaram são cúmplices. É pena que só a História os julgue.

Durão Barroso sempre a pensar no passo seguinte e mais adiante, impetuoso quanto à ambição, mal viu as coisas mal paradas no país com fracos resultados eleitorais numas municipais, deu o salto para Bruxelas. Entre o seu patriotismo e o apego ao mais profundo sentimento de “grandeza europeia” à americana não se conteve. Os seus amigos não faltaram à chamada e foi parar a Bruxelas. Voilá…

Por lá andou a fazer de conta que mandava na Europa. De um canto do mundo para outro. À grande e à alemã. Até ao dia em que cumprido o mandato, um tremendo apelo vindo da mais fina estirpe de banqueiros impolutos e recheados de figuras respeitadíssimas o levou a um novo trono – chairman da Godman Sachs.

Ele que servira o combate à esquerda antes e depois do 25 de Abril, que criara a partir da figura esfíngica de Eurico o seu baronato no PPD e chegara a Primeiro-Ministro e que passara por Bruxelas como Presidente, ei-lo capaz de novo martírio e guindar-se a um dos mais altos cargos na Goldman Sachs. Glória ao grande camarada.

 

https://www.publico.pt/2020/07/03/opiniao/opiniao/ato-contricao-penitencia-durao-barroso-1922856

Medo, desaforo e temeridade

 

O medo vem dos primórdios dos humanos; ele fez os primatas evoluíram e substituírem o instinto pela consciência dos perigos. O medo de algum modo fez o homem. Vem de muito longe, do tempo em que os hominídeos viviam rodeados de inimigos, de outras espécies que para sobreviverem faziam deles alvos. Nasceu connosco e de nós não se separará.

Esta componente do nosso sistema de vida está em alta com a chegada da pandemia, impondo-nos uma conduta distinta da vivida até ao seu aparecimento. É o medo que nos faz ser cautelosos e medir riscos e evitar os mais perigosos. É uma ferramenta que nos permite agir com prudência. Mal utilizado pode ser castrador.

O medo nomeadamente da Inquisição, do senhor feudal, do polícia, das ditaduras são elementos que integram o nosso passado. Portugal viveu muitos medos que se entranharam na mentalidade do país.

O medo da pandemia atirou os portugueses para dentro de casa, confinou-os, antes até da própria decisão governamental. É o medo positivo. O medo sacana é o que faz os cidadãos açambarcarem produtos que fazem falta à comunidade. É o oportunismo egoísta que Saramago tão bem descreveu no Tratado sobre a cegueira.

O medo do coronavírus foi o chicote que meteu o rebanho em casa. A terrível carantonha do inimigo invisível confinou-nos.

Os medos infantis quase nos paralisavam, mas passámo-los. Cinquenta anos vivemos sob o manto negro do medo que nos fazia suspeitar de todos. Os portugueses viverem muito tempo sob o medo. Está ainda no seu ADN.

Claro que houve mulheres e homens a quem o medo não ditou as suas leis e enfrentaram a ditadura. Foram eles que aceleraram a História e encurtaram o período das trevas salazarentas.

Os médicos, os enfermeiros e todos os operacionais de saúde são os bravos que nos defendem, mesmo correndo sérios riscos. O medo impõe-lhes prudência, mas não os tolhe.

Como teria de ser, chegou a hora o desconfinamento e de respirar fora das quatro paredes caseiras e de regressar em parte à vida que o vírus nos roubou.

Entretanto uma mistura explosiva varre o país, um pouco por todo o lado: a desgraça de quem vive e trabalha em condições miseráveis, o empacotamento dos velhos sob o olhar ausente das autoridades, a insanidade de quem organiza festas e engana autoridades, as próprias condições de quem trabalha na saúde e os que do alto do esplendor da idade viram costas aos deveres de proteção da comunidade.

Que o vírus contagie os que não lhe podiam fugir dadas as condições compreende-se, embora doa.

Que os idosos gerem rendimentos chorudos aos donos das prateleiras de empacotamento resulta da irresponsabilidade governamental que aparece depois das desgraças a dizer que vai fazer um inquérito e apurar responsabilidades que desaparecem no passar dos dias e com a ausência mediática do assunto.

E que dizer da pompa e circunstância da dupla Marcelo/Costa a anunciarem que vem aí a final da Champions…e a dedicou aos trabalhadores da saúde. Esta lengalenga cheira a ranço, tem um lastro de propaganda à maneira do antigo regime. É algo abominável. Só faltou o cardeal. Ter-se-ão esquecido?

De tanto elogiarem o comportamento dos portugueses enveredaram pelo nacional-porreirismo. Em vez de assumirem condutas responsabilizantes e responsáveis andam a apagar fogos de festa em festa, de lar em lar, de bairro degradado em bairro degradado.

É preciso coragem, mais coragem do que contas sobre votos. Vivemos uma pandemia. O Portugal desconfinado à espera da final da Champions, do turismo que acende e apaga, que mantém na pobreza mais de um quarto da população que não tem condições para cumprir com as redras da DGS, que consome carradas de ansiolíticos e notícias dos luxos da Cristina Ferreira mete medo. Medo.

https://www.publico.pt/2020/06/23/opiniao/opiniao/medo-desaforo-temeridade-1921638

 

Quem matou um ucraniano no aeroporto de Lisboa, Dr. Rio?

 

Rui Rio tem aquele ar bonacheirão que gera uma certa empatia. Ele pega nas palavras e utiliza-as de coração nas mãos. Diz coisas que um político em geral não diz. Percebe-se que não preenche o chamado figurino made in PPD/PSD das últimas décadas, daí a intestina guerra que lhe movem.

O homem pragmático, conservador tem tendência a ter de si uma ideia de que o importante é gerir o status quo sem ondas. É avesso a sobressaltos. Não é um homem inquieto, mesmo quando Montenegro e tutti quanti lhe fazem a vida negra.

Foi Secretário-Geral do PSD quando Marcelo era Presidente. Marcelo, o irrequieto e ambicioso, Rio o pacato, o burocrata a guardar a estrutura das tolices de Marcelo sempre pronta a mergulhar somewhere .

Rio na entrevista dada à TVI no dia 8 deste mês entre o politicamente correto e o seu conservadorismo/autoritarismo largou a embraiagem e seguiu em frente – indignado com as manifestações antirracistas, se fosse ele que mandasse proibia tais manifestações. George Floyd foi assassinado nos EUA, porquê manifestações em Portugal? Para a mente de Rio nada o justificava… é a sua alma.

Rio falou com o coração e daí o seu espírito conservador não poder alcançar os sentimentos de indignidade perante aquele horror. Isto de manifestações é mais da esquerda do que do conformismo que ainda abraça uma imensa percentagem dos portugueses. Racismo na mente de Rio já não existe porque viola a lei. Esqueceu-se que um ucraniano foi morto à pancada no aeroporto de Lisboa dentro do SEF por polícias.

Assumiu que proibiria as manifestações, se mandasse. Só faltou dizer que enviava a tropa de choque. Em Portugal as manifestações não precisam de autorização, esqueceu-se.

No domínio da economia ele também não passa da iniciativa privada. O risco, a alma do capitalismo, é tempo passado. O Estado é gastador se “desperdiçar” dinheiro em serviços públicos robustos. Mas já não o é se socorrer os privados, investir milhares de milhões e voltar entregar a quem não é capaz de gerir empresas e bancos. A superioridade da gestão privada em muitos casos assenta no princípio que o Estado é a ambulância para a salvação, custe o que custar. Banqueiros e certos empresários façam o que fizerem, quem paga é o mexilhão. A imoralidade roça a indignidade – os cortes passados das pensões em contraste com os mais de vinte mil milhões para o sistema financeiro.

Rio chegou a líder do PSD, um partido que se foi tornando cada vez mais direitista onde muito do conservadorismo da pequena e média burguesia, em certas circunstâncias, se sente cómoda.

Rio gostaria que a política fosse um universo no qual haveria um chefe que ditaria os comportamentos de todos, e tudo conforme a lei e as próprias Escrituras. O que mais o aflige são os sobressaltos. Ele não nasceu para eles.

O PSD já conheceu de tudo, desde Sá Carneiro destemperado, passando pelo Homem que nunca se enganava, pelo alcoviteiro Rebelo de Sousa, por um ex-maoista, sem esquecer o que atualmente na SIC garantiu que o BES era seguríssimo e que costumava jogar a sueca com Eurico de Melo, e que dá cartas sem contraditório naquela estação.

Rio tem aquela espécie de sorriso permanente naif. É um homem descansado que não entende que se façam manifestações contra o racismo em tempo de pandemia, como se nos EUA não houvesse pandemia. Uma manifestação é uma aflição. Rio há muito comprou a ladainha de que em Portugal não há racismo, mesmo com escândalos como o do homicídio de um ucraniano no aeroporto de Lisboa. Ele vê o que imagina, o mundo conforme à conformidade.

 

https://www.publico.pt/2020/06/12/opiniao/opiniao/matou-ucraniano-aeroporto-lisboa-dr-rio-1920252

O homem que não conseguia respirar e morreu

 

Um homem manietou outro homem. Tem-no a seus pés. O homem que detém todo o poder sobre o outro homem derrubado e estendido no chão sabe quem é o homem que tem ao seu dispor.

O homem que segura o manietado e indefeso jazendo no asfalto decide acrescentar toda a sua autoridade e força sobre o homem que nada faz no asfalto – carrega no pescoço do indefeso todo o peso do seu corpo com o seu joelho.

Como se o debaixo fosse uma presa, pois de um negro se trata e para o de cima um negro é alguém a quem se pode colocar um joelho no pescoço, como se fosse uma presa de caça.

Quem está com o joelho no pescoço do homem sente que ele começa a não poder respirar. E o debaixo que tem o joelho no pescoço diz ao de cima que não pode respirar.

O de cima já sabia que ele tendo o joelho com todo o peso do seu corpo em cima do pescoço do outro, ele não poderia respirar.

Quando o debaixo confirma que ele não pode respirar, o de cima atingiu muito provavelmente o resultado pretendido, pois todos os homens do mundo sabem que se colocarem um joelho no pescoço de outro homem carregando com o seu peso, o debaixo não respirará.

Neste caso o debaixo diz ao de cima aquilo que é evidente – Não consigo respirar. O de cima vê ratificado o que já sabia, que o está sob a pressão do seu joelho não pode respirar.

O de baixo implora ao de cima para tirar o joelho porque não consegue respirar e o de cima bem o ouve. Porém, o de cima tem farda e é branco e também sabe que um homem que não pode respirar não respira e se não respira pode morrer. É o que todos sabem, brancos e negros.

Só que o branco fardado tem debaixo do seu joelho o pescoço de um preto que ele conhece e o que ele possa dizer pouco importa porque ele é o dono do outro, tanto assim é que o tem como um animal de caça e sabe que é razoável que não possa respirar. Ele já sabia que ele não poderia respirar, tanto que lhe confirma já quase desmaiado que não respira.

O homem fardado não está só. O que está só é o que tem o joelho no seu pescoço e já não consegue respirar.

Passado algum tempo o homem não respira. O de cima era um polícia. O debaixo um negro. Quando o polícia carregou o seu joelho e o seu corpo sobre o pescoço de George Floyde sabia que ele não respiraria.

O que ele não sabia é que o seu joelho não sufocou apenas George Floyde, mas toda a Humanidade. Todos os homens decentes do mundo se sentiram sufocados como se tivessem no pescoço o peso do joelho daquele polícia de Mineápolis.

E a América, a grande América levantou-se para não se deixar sufocar. Será que voltará a ser grande e mais nenhum polícia poderá assassinar negros da América?

 

https://www.publico.pt/2020/06/03/mundo/opiniao/homem-nao-conseguia-respirar-morreu-1919094