O sorriso de Pinto da Costa

Os Presidentes do futebol populistas que se guindaram ao cargo, tendo como objetivo derrotar o FCP, tanto no SLB como no SCP, tiveram um triste destino.

O primeiro foi Vale e Azevedo correu com José Mourinho e percorreu o país a vociferar contra o FCP e Pinto da Costa. Abusando da demagogia chegou a ir às Antas para o meio dos adeptos benfiquistas, como se isso lhe desse a vitória que havia de se emergir das quatro linhas, onde perdeu.

Como é sabido acabou fugido e mais tarde preso e condenado por crimes graves. Vale e Azevedo sendo advogado e tendo muitos recursos na arte de ludibriar desconhecia então as artes subterrâneas próprias dos bichos de focinho afiado.

Por muito que o tempo passe convém ter presente como acabou o reinado de Vale e Azevedo. Apesar do apoio entusiasta dos adeptos que ficam cegos com as promessas sempre adiadas, mas sempre anunciadas em clima de histeria contra o “inimigo”, Vale e Azevedo acabou muito mal.

Agora foi o SCP que elegeu um Presidente que se “chateia” com as brutais agressões aos seus jogadores e treinadores, que acha que é o normal porque há que conviver com o crime, e que foi eleito tendo como um dos objetivos derrotar o velho e ultrapassado Pinto da Costa, totalmente fora de tempo.

Foram muitas as tiradas ignominiosas contra a idade de Pinto da Costa, contra o FCP e por aí fora. Tudo num clima de perfeita histeria.

Mais tarde contra o SLB. O homem, justiceiro, o único, o que confunde família e SCP, que delira andar nas bocas do mundo e nas revistas cor-de-rosa, afinal é o que é, o que sempre foi, um bluff, um zero, um fulano que só promete e nada consegue. Um egocêntrico totalmente destrambelhado. Alguém que face à violência gratuita e brutal em Alcochete contra os jogadores e a equipa técnica do SCP, afirma displicentemente que é chato assistir aos telefonemas dos jogadores para a família a queixarem-se. Que pensa o homem que deviam fazer os agredidos? Pedir-lhe socorro?

Foi a este homem que os sportinguistas deram mais de 90% dos votos para o amansar, dado que a fera ameaçava ir-se embora e deixar os notáveis e os fundamentalistas solitários na sua vontade de ganhar. E ganhar a todo o custo, seja no andebol seja no futebol.

Bruno de Carvalho vai cair com todo o estrondo, provavelmente pisado pelos seus apoiantes. Os que o guindaram a vedeta nos media dão-lhe agora o cadafalso.

No Porto, Pinto da  Costa de cima da sua idade ri-se. E arrecada mais um título.

Anúncios

Todos estes palestinianos mortos não valem a expulsão de um diplomata?

 

 

Israel matou noventa e dois manifestantes palestinianos, desarmados, e feriu de dois mil.

A maioria foi morta e ferida no dia em que Trump ilegalmente inaugurou a embaixada dos EUA em Jerusalém.

No seu apontamento Trump afirmou estender a mão aos vizinhos e, nesse gesto de paz, o seu grande amigo Netanyahu mandou os seus soldados puxarem pelo gatilho e matarem a peito descoberto mais de cinquenta palestinianos.

Parece que o mundo pouco se importa que sejam assassinados centenas ou milhares de palestinianos …

Do que o mundo ocidental se importou foi com os alegados mortos sírios com gás. Esses que ninguém confirmou terem sido assassinados com gás tiveram uma relevância que levou a que Trump, Theresa May e Macron ordenassem o bombardeamento da Síria. Porém, na frente de todo o mundo, na terra palestiniana ilegalmente ocupada Israel, sentindo as costas quentes com o apoio de Trump, os soldados israelitas, por ordem do governo, assassinaram a tiro dezenas de palestinianos que se manifestavam no solo dos seus antepassados.

E, no entanto, nenhuma potência ordenou o bombardeamento de Israel; nenhuma potência expulsou diplomatas do país fora da lei; e em Belém, e no Palácio de São Bento e nas Necessidades ninguém chamou o embaixador.

Neste mundo em que as palavras são atravessadas pelo veneno das conveniências e interesses mesquinhos quantos milhares de palestinianos têm de morrer para que termine esta carnificina e a lei internacional seja cumprida?

Sim, já compreendemos que de Trump só se pode esperar brutalidade, irresponsabilidade e desfaçatez.

É o que se tem visto. Mas a outra pergunta que cabe fazer pode ser esta – mas o mundo tem de se agachar e submeter-se à brutalidade e à desfaçatez?  Ainda de outro modo: mesmo que Merkel, Macron, May e tutti quanti se agachem, é possível ao mundo erguer-se contra esta brutalidade?

É possível porque o que se passou em Timor-Leste mostrou-nos que os poderosos, a partir de certa altura, já não podem continuar a puxar pelo gatilho porque o mundo não aceita.

Temos, então, que aguardar por quantos mais dezenas, centenas ou milhares de mortos palestinianos para que o nosso mundo desligue do seu quotidiano e dê atenção aos palestinianos que tiveram a azar de viver ao lado de uma das potências mais ofensivas do nosso planeta.

Não é com balas reais que se enfrenta quem se manifesta pela sua liberdade de afirmar que os territórios ocupados depois da guerra dos seis dias em junho de 1967 são palestinianos e reconhecidos pelas Nações Unidas como tal e que Jerusalém Leste deve ser a capital da Palestina.

Aqui não são precisos peritos, nem perícias, o que é preciso é apenas respeitar a Resolução 242 do Conselho da Segurança da ONU.

Quantos diplomatas israelitas vão ser expulsos? Que vai fazer a União Europeia? E Portugal?

Desde que Trump rasgou o Acordo assinado com o Irão a escalada do conflito não parou de subir.

Netanyahu sente-se bem com o apoio de Trump. É também a forma de fugir aos graves crimes de que é acusado no seu país, aliás tal e qual como o que se passa com Trump, sempre na mira de diversas investigações criminais.

São estes homens que detêm o poder de ordenar aos soldados que disparem e matem friamente.

Será a humanidade capaz de ir em socorro dos que na sua terra são mortos como se fossem presas de caça e exija que se respeite a lei e as Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina?

(Texto publicado no Público online)

 

 

A corrupção da palavra amigo

 

A amizade é um sentimento nobre que torna os seres humanos melhores e capazes de se suplantarem a si próprios, enquanto portadores de interesses da sua esfera individual.

A amizade percorre a vida parede meias com a solidariedade e ambas caminham de mãos dadas fazendo a diferença com os outros reinos animais.

Talvez, para além do amor, a amizade possa ser o sentimento mais nobre pelo seu altruísmo.

Na vida, por mais que nos esforcemos, entram e saem amigos; nunca sabemos quanto dura uma amizade.

As amizades, porém,  não têm a mesma fonte. Há as que são “puras” que resultam do encantamento da vida e tudo o que se dá ou recebe vem de um impulso generoso e espontâneo.

Há, porém, outros conceitos de amizade que não se encaixam nesta bitola. É um mal de todas as épocas, mas que na atualidade tende a desenvolver-se pela transformação dos sentimentos numa espécie de produto dos mercados que comandam nas nossas vidas.

Nesta ordem de ideias se o que interessa é ter meios materiais capazes de determinar uma posição social de relevo a quem os possui, então ter amigos poderosos constitui um meio caminho andado para vir a ser como um deles, bastando fazer as coisas certas, nos momentos certos.

Ser amigo pode ser uma alavanca para subir na vida.  Dizia-se e ainda se diz que quem tem amigos não morre na cadeia, tendo em conta os tempos em que se podia ir parar à cadeia por falta de pagamento de dívidas.

A palavra amigo foi também corrompida nos seus diversos sentidos. A corrupção também entra na semântica. Se tudo pode ser corrompido, por que carga de água havia a semântica de ficar fora dela?

Ser amigo pode, por isso ser uma arte, um modo de vida. O amigo insinua-se junto do outro amigo. Cativa-o, não à maneira da preconizada por Saint Exupéry, mas com ela fisgada… se o amigo for dos de cima, dos que mandam, dos que têm pasta, dos que são considerados no plano social, é bom cativar, é bom pertencer ao círculo e acabar por tirar partido da riqueza, do poderio, da influência do amigo…

Estabelece-se com alguma facilidade um círculo de amigos que se unem para em nome de uma causa dela se aproveitarem e fazerem entrar no seu património riquezas( grandes ou pequenas) que de outro modo não alcançariam.

Nestas circunstâncias pode (admite-se) haver amizade, mas o que existe é um pacto expresso ou consentido entre estes indivíduos para tirarem partido dos poderes de cada um ou de um deles.

Neste momento , na sociedade portuguesa tresanda a presença de Ricardo Salgado em tudo o que constitui casos de grande corrupção. Ele e os seus homens bem colocados.

Esses amigos traçaram planos para que as coisas fossem capazes de acontecer de modo a que tirassem benefícios patrimoniais ou de outro tipo.

É de admitir que haja nesta amizade alguma humanidade, mas o que marca a alma destes protagonistas é tudo fazerem para enriquecerem em prejuízo da comunidade.

Em princípio, quem se considera amigo de um suspeito de ter cometido graves crimes ou é porque de todo não o imaginava capaz de os cometer ou vindo a saber esse factos com eles se conforma e continua a agir como se aquele cidadão fosse o que não foi e não é. E é cúmplice no terreno da cidadania.

Quando não se deixa cair um amigo na cadeia tem-se em vista salvar alguém que por um azar da vida e dos negócios acabou na miséria e eventualmente praticou ilícitos criminais que o amigo considera serem passiveis de comiseração e ajuda.

Outra coisa é a imputação de graves crimes a alguém que exercendo altíssimos cargos se apoderou de bens que lhe não pertenciam em prejuízo do bem público, fazendo-se passar por um desses ricalhaços capaz de tudo comprar.

Só pode merecer o repúdio porque a amizade não deve ser um jogo para subir na vida.

Os amigos, é verdade, são para as ocasiões, mas as negociatas geram homens e mulheres interesseiros, capazes de sacrificar os interesses da comunidade em seu proveito.

Trata-se também, para além do problema de caráter criminal, de um problema político que não se resolve por via legislativa, antes com mulheres e homens honrados que se não deixam aprisionar pelo poder económico.

Texto publicado no Público online hoje

 

 

Os acordos são para rasgar, segundo Trump?

 

Pacta sunt servanda, sustentavam os juristas romanos e com toda a razão. Na verdade, os pactos são para serem cumpridos. Assim agem todos os que negoceiam de boa fé e com sentido de honestidade. Um acordo significa o fim de um caminho, por vezes longo, em que os diversos pontos em conflitos se alisam de modo a que todos os envolvidos sintam que podem selar o resultado final, isto, é o acordo.

Esta filosofia é válida para contraentes particulares como para os Estados, aplicando-se aos primeiros o direito privado e aos segundos o direito internacional.

O Acordo que envolveu o Irão, os EUA, a Rússia, a Alemanha, a França e o Reino Unido foi o resultado de anos de negociações e que levou a que todas as partes o assinassem e pudessem concluir um conjunto de clausulas negociadas ao milímetro, através das quais, em suma, o Irão renunciava ao fabrico da arma nuclear e eram levantadas as sanções que sobre aquele país impendiam.

Com Trump na presidência dos EUA, os acordos celebrados não valem nada. Só valem os que lhe interessarem – Trump first . Sejam os acordos celebrados com os seus advogados com uma atriz de filmes pornográficos, sejam os Acordos de Paris sobre clima, sejam os Acordos com o Irão, sejam o que forem com quem forem. Para Trump o que conta são os seus interesses e os dos multibilionários que o apoiam.

A desgraça é que esta figura saída dos fundos mais reacionários da América do Norte suscita na União Europeia a condescendência de muitos governos, designadamente da França de Macron ofuscado pelo brilho doirado das riquezas de Trump, de Teresa May e ao que parece também de Angela Merkel a propósito dos Acordos assinados com o Irão.

Se o que estivesse em causa não fosse o perigo de uma guerra devastadora pareceria uma peça teatral de baixo nível e de mau gosto com Netanyhau a desempenhar o papel de ponto e a esganiçar-se para apontar o dedo às armas nucleares do Irão, que só ele as vê.

A encenação está gizada: Macron, o reformador da sociedade a favor dos super-ricos, foi a Washington “convencer” Trump a não rasgar os Acordos.

Para tanto ele e Trump exigiriam ao Irão que eliminasse os seus misseis com alcance superior ao das suas fronteiras, sendo que Israel, Arábia Saudita manteriam os seus e Israel continuaria a deter a arma nuclear apesar de ser o Estado mais fora da lei do mundo.

Tal como Trump, os dirigentes israelitas entendem por direito internacional um conjunto de procedimentos que lhe permita, seja qual for o preço, impedir o respeito dos direitos nacionais do povo palestiniano tal como decorre da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU.

Ou seja o prevaricador deverá ser premiado e o Irão que assinou acordos com as principais potências através dos quais assumiu não produzir a arma nuclear (que Israel tem) deve ser brutalmente penalizado e ser privado das suas defesas.

Há alguém em seu perfeito juízo que pense que o Irão, um país milenar, de onde saiu parte da nossa civilização, vá aceitar semelhante traição aos seus próprios interesses nacionais…Claro que todos sabem que não aceitará e que os EUA, Israel e ao que parece Macron, May e Merkel se colocarão ao lado de Trump e Netahyhau para impor sanções ao Irão com o pretexto da ameaça dos misseis iranianos sendo, em abono da verdade, que os misseis israelitas e sauditas que matam palestinianos na sua própria terra, iemenitas no seu país, são bons porque são dos amigos do coração ou made in USA a troco de cheques que fazem a América great again

No fundo Trump e os desavergonhados que o apoiam nesta maquiavélica encenação o que propõem é mais ou menos isto: o Irão não pode ter misseis, mas os Estados do Golfo  podem continuar a ter porque esses misseis são bonitos e inteligentes produzidos no complexo militar-industrial dos States.

Para Trump o mundo resume-se às Torres na 5ª avenida e ao seu campo de golf na Florida ao pé das Caraíbas onde outrora reinavam os flibusteiros. Trump quer reduzir o direito internacional a uma arena onde se digladiam não Estados e nações com normas a regularem o seu comportamento, mas verdadeiros piratas a imporem a lei do saque.

 

Texto publicado no Público de 08/05/2018

La pauvre France de Macron

Os franceses têm, ultimamente, eleito Presidentes da República com enormíssimas votações, arrependendo-se mais tarde.

Sarkozy foi copiosamente derrotado por Hollande, que por sua vez nem se recandidatou e fez com que o PS quase desaparecesse do mapa eleitoral. Entretanto, entronizaram como Presidente o homem da economia de Hollande, que saiu a tempo do governo para se lançar à conquista da França.

Bastou para tanto anunciar que ia reformar e mudar a politica e ao que parece os franceses gostam destas mise-en-scène, ou seja, têm uma certa sedução por serem enganados e poderem continuar a criticar os de cima, isto é, aqueles que elegeram para mandar nos de baixo.

A grande França que De Gaulle encarnava posicionava-se como ponte entre o Ocidente e o Leste eclipsou-se. Com Pompidou e Giscard, ainda houve uns ares de De Gaulle.

Com o socialista Miterrand começou o grande alinhamento com a NATO, os EUA e a Alemanha, sobretudo depois da guerra contra a Jugoslávia.

Chirac teve a grande dignidade de não embarcar na invasão do Iraque a toque de caixa de Bush/Blair/Aznar/ e os ajudantes de campo Barroso e Portas.

Agora com Macron no Eliseu, a França, que no terreno económico-social perde cada vez mais competitividade, vira-se para onde pensa que é grande, por ser potência nuclear, tentando mostrar à Alemanha a sua indispensabilidade como parceiro maior.

Macron, o homem dos poderosamente ricos, foi visitar o amigo Trump, outro que tal a adorar salas cheio de peças de oiro e de requintes de grande riqueza.

Macron, levado pela mão de Trump, deslumbrou-se de tanto protocolo, de tanta “importância” ao lado do Presidente do país mais rico do mundo à espera de receber Merkel, para quem Macron e Trump perdem em termos da economia dos respetivos países.

Antes da chegada de Merkel, Macron foi a correr para andar de mão dada e aos beijos ao Presidente mais impopular dos EUA e que quer apunhalar a Europa com a anulação do acordo com o Irão assinado pelos EUA, Alemanha, Reino Unido, França, Rússia e Irão, além de querer impor eventuais taxas sobre produtos provenientes da U.E.

Macron ficou deslumbrado com o fausto das várias encenações trumpianas para o ouvir vacilar quanto ao modo de lidar com o Irão.

Macron levou a França a rastejar diante de um homem que não deve saber, nem sequer conhecer a história da França tão cheia de contributos para a civilização que vivemos.

Macron sempre esteve com os mais poderosos da terra, nomeadamente os Rotschild, depois foi para o governo para dar o salto, abandonar Hollande e ficar no Eliseu, imaginando-se nas Torres de Trump , onde tudo reluz e ou tremeluz.

O homem que corta os impostos aos muito ricos em França e castiga os pobres só podia dar-se muito bem com o homem que quer fazer um corte histórico de impostos aos mais ricos dos EUA. Têm ambos a mesma ambição, serem benzidos pelas poderosas mãos dos fabulosamente ricos.

Para esse fim Macron participou ao lado de Trump nos bombardeamentos à Síria, portando-se como ex-potência colonial daquele país, criando a ideia, não comprovada, de que o regime sírio teria lançado armas químicas contra a população, no preciso momento em que os “rebeldes” jiadistas que atacam a França e os franceses eram derrotados pela aliança entre os sírios e os russos.

A França que vive por estes dias cinquenta anos de comemoração das barricadas de Maio, levou a Washington, à sala oval, um Presidente a deixar cair máscara com que tapava o verdadeiro rosto de um homem igual a tantos outros que passaram pelo Eliseu para defender os muitos poderosos e atacar os povos e países de África e do Médio-Oriente. França, a grande França, transformada na pobre França de Macron.

Texto publicado no Público de 01/05/2018       

 

 

A minha última noite

Quando o Jorge me abordava com o peso do mundo no olhar e me dizia:

– Camarada Estrada precisamos de uma casa para reunir – era como se a circulação do sangue acelerasse e eu sentisse nas fontes o bater do coração aos saltos. Tudo se passava num primeiro instante, depois o coração não explodia.

A casa situava-se na Rua Passos Manuel, raso ao do Jardim Constantino. Do quarto avistávamos, naquela longínqua noite de vinte e três de abril de mil novecentos e setenta e quatro, a rua no sentido da Estefânia.

As regras conspirativas impunham que os estores fossem corridos, e quando caíram num lanço firme três jovens sentados combinaram que se a polícia viesse e quisesse saber o que fazíamos responderíamos que estávamos a combinar a encenação de uma peça de teatro, eramos os três do Cénico de Direito.

As notícias que o Jorge tinha para me dar eram um punhal que entrou algures no mais fundo do lado invisível do corpo:

– Foste denunciado, deves ter em conta que podes ser preso, todos os cuidados são poucos. Deves manter-te afastado de nós e ao entrares e saíres de casa certifica-te que não há ninguém a seguir-te.

Concordaram que a primeira cautela era a de limpar o quarto de toda a propaganda, o que devia ser feito logo que eu pudesse.

A reunião foi curta. Por disciplina deveria seguir um rumo contrário ao que tomaria para ir para a minha morada.

Na Avenida Almirante Reis revoltado, pensei voltar para trás e desobedecer às regras conspirativas.

Por entre as gentes da noite sentia raiva, iria ser preso e, no entanto, os outros divertiam-se. E se eu deixasse cair a causa? Não era por mim que lutava… Aquela gente a divertir-se nas cervejarias cheias e eu carregando o peso de uma prisão e o da guerra colonial.

Havia instantes que a desistência parecia mais forte, depois voltava o imperativo da consciência.

Não sei como alguém que não conhecia de lado nenhum se me dirigiu a perguntar por algo que já não recordo. Acabamos a beber imperiais e a falar do que ele procurava, putas.

O meu interlocutor era caixeiro-viajante e viera da guerra de Angola e mesmo no Intendente só montava com a pistola por perto, ganhara o hábito nos longínquos cantos do leste angolano. Era certo que sem a pistola a coisa não funcionava; já experimentara mais do que uma vez e não dava.

Ao fim de três imperiais arranquei rua abaixo em direção à rua da Palma, Deixei o meu amigo de ocasião e segui a remoer a inconsciência dos meus compatriotas perante a ditadura; uns na cadeia, outros nos copos.

Era tarde, muito próximo de apanhar o último metro. Em Sete Rios hesitei se devia ir a pé ou autocarro.

Precisava de apanhar ar fresco, de assentar como devia fazer desaparecer os panfletos que tinha, sem que os colegas vissem. Fui retardando a entrada, esperando que todos dormissem no terceiro esquerdo, o último piso.

Numa pequena mala de viagem meti todos os panfletos. Pela escada de serviço subi ao telhado e deixei a mala no telhado do prédio da esquina da Estrada de Benfica, já na Rua Duarte Galvão. De cima do telhado avistavam-se os quintais nas traseiras da Estrada de Benfica e da Rua Duarte Galvão. Os reflexos da luz davam para ver as nêsperas já amarelas e assustei-me quando vi o guarda noturno a vigiar a rua. Depois acalmei eu via-o, mas ele não me via.

A noite não passava e eu não dormia. O que me atezanava a alma era ser preso, torturado e sabe-se que lá por quantos anos. Nestas ocasiões não conseguimos impedir que nos cheguem à mente os sentimentos mais inesperados: porquê arriscar tudo pelos outros? Merecerão? Que sacrifícios devemos consentir? Toda uma vida? Passar a vida na cadeia?

Há nestas alturas a perda da noção do próprio tempo, só tinha na mente aquela dolorosa incerteza.

E no meio do sobressalto tocou a campainha. Só tive tempo de me regozijar por me ter livre dos panfletos, mas vendo as horas não devia ser a PIDE, eram quatro horas; abri a porta; era V. que me atirou de chofre:

– Não estás a ouvir a rádio?

– Não!

– Há um golpe militar.

O susto foi ainda maior. V. era um homem dos seus quarenta anos. Fumava cigarros uns a seguir aos outros. Bastava-lhe um fósforo. Tinha quase a certeza que era do partido. Os olhos de V. pareciam luzes no meio da sua barba espessa.

Disse-lhe:

– Deve ser o Kaúlza. Estamos feitos. Se eles tomam o poder matam-nos.

  1. olhou para mim e só me perguntou:

– Liga o rádio!

Ouvimos um dos primeiros comunicados e continuamos na dúvida.

Depois um outro comunicado um pouco mais explícito, quanto aos fins, animou-nos. Acordamos os restantes colegas de casa. E ficamos colados ao rádio. Quando a madrugada queria vencer o reino das trevas ouvi nos prédios da Rua Duarte Galvão os estores ergueram-se, como se todos acordassem mais ou menos à uma; os rostos aparentavam estarem assustados, como se, sem falarem, perguntassem com os olhos o que sucedia.

O tempo parara. Talvez assustado pelo que adivinhava dentro dos seus interstícios. Era à janela que tudo se passava. Lentamente. A tempo de poder ver acontecer o sorriso mais fundo que cada um tem, um sorriso, porém, ainda por assentar. Depois o rosto tomou conta do sorriso. Ninguém parava de olhar com aquele novo rosto e via no outro o seu próprio contentamento. A alegria jorrava livre ao fim de tanto tempo.

A camarada Z. tocou a campainha. Olhei pelo ralo da porta. Era ela a clandestina que chegava à luz do dia e me disse:

– Vamos para a rua apoiar e exigir a liberdade, a libertação dos presos, o fim da guerra, vamos.

Só anos mais tarde me lembrei dos panfletos em cima do telhado vizinho. Aquela fora a minha última noite. A noite que acabou abrindo com um sorriso no rosto de todos e com a alegria a transbordar em todas as ruas.

Texto publicado, hoje 25 de abril, no Público     

 

O bombardeamento da Síria neste estranho mundo*

Não deixa de ser estranho que o homem envolvido em escândalos que, segundo a investigação tornada pública vão desde casos com prostitutas em Moscovo, com uma atriz de filmes pornográficos, com colaboradores do seu círculo mais íntimo, entretanto “fired”, possa ter o apoio do Reino Unido, da França e a compreensão da U.E., incluindo do governo português, para bombardear a Síria contra o direito internacional.

Este homem parece apostado em levar as relações com a Rússia a um grau de conflito extremo só para “mostrar” que não é amigo de Putin.

Esta tríade deve desprezar-se, por motivos óbvios, desde logo porque ele Trump não deve ter capacidade para manter uma conversa sobre o mundo que vá para além de um tuíte com mais ou menos palavras.

A necessidade de aparecer a mostrar a sua capacidade militar para continuar a vender armamento fá-los darem as mãos.

A este homem o que lhe importa é ele, os seus, e os amigos, se possível com dinheiro, como os multibilionários do Golfo, que atemorizados pelo ar do tempo, lhe compram armas para impedir que aconteça qualquer surpresa nas suas vidas e para que, em Riad, as cabeças possam continuar a rolar todas as sextas e o wabahismo, puro e duro, seja a religião da casa real saudita e, se possível, nos países vizinhos.

Na verdade, os bombardeamentos levados a cabo pelos EUA, Reino Unido e França contra a Síria, com o pretexto do regime de Bashar Assad ter utilizado armas químicas contra os jiadistas apoiados pela Arábia Saudita e outros países do Golfo, puseram em relevo o quanto a tríade está disponível para apoiar o reino saudita na sua estratégia para dominar a região.

EUA, Reino Unido e França precisam de vender armas à Arábia Saudita e esta precisa das armas daqueles fornecedores.

Os governantes sauditas têm bem perto da sua fronteira noroeste um regime laico, republicano dirigido por uma minoria muçulmana que desprezam.

Além disso, a aproximação dos sírios ao Irão é para a monarquia do Golfo um temor, pois internamente mantêm silenciadas a ferro e fogo e golpes de sabre a minoria chiita.

É esse o objetivo da guerra que a Arábia Saudita leva a cabo no martirizado Iemen, onde o  número de mortos, sobretudo civis não para de crescer.

É preciso ter presente que George W. Bush, Blair, Aznar, Barroso e Portas  orquestraram um dos maiores embustes até hoje ocorrido para justificarem a guerra contra o Iraque. Talvez, em termos internacionais, a maior mentira. As desgraças não param de ocorrer como réplicas à criminosa guerra contra um povo indefeso.

No presente quem fala a verdade? Alguém pode acreditar em Trump? E qual a razão para acreditar em T. May havendo um laboratório suíço que revela que o tal gás utilizado contra o espião e a filha era um agente químico denominado BZ…em quem acreditar?

Ele, May e Macron juntaram-se para retaliar um país antes que se apurasse o quer que fosse relativamente à utilização de armas químicas, num cenário de derrota inevitável dos jiadistas em Douma. Os peritos da OPAQ chegaram ao terreno no dia 17 do corrente mês depois dos bombardeamentos.

Ajudados no plano da guerra comunicacional por um conjunto de órgãos de informação sempre dispostos a dizerem sim aos “donos disto tudo” propagaram de imediato, através da exploração de fotos e vídeos de crianças filmadas não se sabe por quem, a ideia de que os malvados dirigentes sírios e os malignos russos mataram com gás cloro ou sarin inocentes criancinhas, meninos e meninas, como relatou o mais destemperado Presidente dos EUA, o homem que não escreve mais de dois ou três parágrafos seguidos.

Neste quadro, é lamentável que o governo português tenha declarado compreender os bombardeamentos que visaram não só a Síria, mas a própria ONU e o direito internacional.

Há muito que as principais potências ocidentais se querem ver livre do “espartilho” que é o direito internacional. Correm contra o tempo. Bem sabem que a multipolaridade do mundo vai limitar o seu espaço de intervenção militar. Por isso vendem armas a rodos para os seus amigos ricos.

O homem que declara contra a comunidade internacional que Jerusalém é a capital de Israel, é o mesmo, que de braço dado com a despistada T. May e o ex-socialista, amigo dos franceses mais ricos, bombardeia a Síria. É a esta tríade que Portugal e a U.E. manifestam compreensão, apesar de António Guterres ser o Secretário-Geral da ONU.

Que se pode esperar de um mundo assim?

*Publicado no Público online de 19/04/2018