Venezuela, a viagem dos eurodeputados e a ajuda humanitária

Os eurodeputados que no aeroporto de Caracas não tiveram autorização para entrar no país pelas autoridades constituídas, antes de viajarem, tendo em conta a sua experiência política e a dos respetivos partidos, tinham consciência que podiam enfrentar aquele desfecho.
Apesar disso foram e transformaram a viagem frustrada numa ação de propaganda, à qual se associou Santos Silva, Ministro dos Negócios Estrangeiros.
Os eurodeputados decidiram entretanto que voltariam, no dia 23 deste mês, acompanhando a ajuda humanitária que os EUA e Guaidó querem fazer entrar pela fronteira da Colômbia, não obstante a total oposição do Presidente Nicolás Maduro.
Trata-se, com efeito, de uma decisão arriscada, pois se as autoridades venezuelanas não permitirem a entrada da declarada ajuda, o que voltará a suceder é que os eurodeputados com ou sem Rangel não cumprimentarão Juan Guaidó.
Presumindo que saberão dessa possibilidade (não é preciso um coeficiente de inteligência elevado) cabe perguntar qual é o interesse desta viagem. Mostrar à Europa e ao mundo quem manda na Venezuela? Já se sabia… De novo surge o objetivo propagandístico, insistindo os senhores eurodeputados na desgraça que é o regime de Maduro por os não ter deixado ir ter um encontro com o autoproclamado Presidente Guaidó.
Os eurodeputados cuidarão que poderão responsabilizar o governo pelo facto dos camiões ao chegarem à fronteira venezuelana serem impedidos de entrar pelas forças do exército venezuelano e ganhar apoio na população por lhe ser negada a tal ajudal?
E, dentro dessa ordem de ideias, não restará aos donos da ajuda outra via que não seja a de imporem manu militari a entrada no território para salvar os venezuelanos que sofrem com a ineficácia do governo e com as duras sanções de Trump? E assim juntar à desgraça a pior de todas que é a guerra.
Dito de outro modo, estarão os eurodeputados e o Presidente dos EUA, empenhados em tentar demonstrar que o impedimento da entrada da tal ajuda humanitária é a gota de água para poderem intervir militarmente na Venezuela, à margem de todo o direito internacional?
Analisando a bondade da iniciativa por outro prisma: é aceitável que Trump congele bens venezuelanos e ameace com sanções todos os bancos e empresas que negoceiem com o regime, sabendo que desse modo impede o governo de socorrer a população? O homem do slogan America First e do muro a todo o custo converteu-se num generoso internacionalista? Quem acredita para além de Assunção Cristas?
É de admirar que poucas vozes se levantem a questionar, à luz do direito internacional, como podem os EUA, sem o aval da ONU, lançar uma guerra à Venezuela, provavelmente para se apoderar do petróleo, ouro e gás natural, tal como o fizeram no Iraque com todos os horrores que ainda hoje estão bem vivos no país, na região e no mundo.
A guerra está vedada à luz da Carta das Nações Unidas. E bem. Só situações absolutamente excecionais o poderiam justificar.
Mas essas situações não são as que decorrem da cabeça de Trump, mas das instâncias internacionais encarregados de darem o seu veredito. Trump pode arvorar-se em dar ordens aos generais venezuelanos para os intimidar, mas isso decorre da sua “filosofia” imperial que entende que a Venezuela só poderá agir como os EUA decidirem, de acordo com a velha doutrina Monroe.
É este o ponto em que se encontra a Venezuela. A viagem não passa de um condimento que Trump utilizará ou não para levar a cabo o seu plano de (se puder) de passar a ter em Caracas quem lhe telefone a saber o que há de fazer.

In Público online de 21/02/2019

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Oráculos virados para o passado

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Uma das características da vida atual é empanturrar os cidadãos com notícias e acontecimentos desde que acordam até que adormecem. Não se trata de informar, mas antes de os fazer saltar de um acontecimentos para outro, numa progressão rápida, que possa levar a que o que passou, passou , e o que vem a seguir é o que conta. Tudo sem que entre a cadeia dos acontecimentos possa haver tempo para pensar. A cada um é dado o poder de se enfartar com notícias até à paralisia de ser capaz de ligar as coisas e aos seus porquês.
Nesta ordem de ideias compare-se o papel do dono de um oráculo da SIC, o inenarrável Marques Mendes, com o tempo em que foi literalmente corrido da liderança do PSD por total incapacidade de fazer frente ao governo de José Sócrates. Não deixou no PSD qualquer resquício da sua passagem, e na hora da partida ninguém chorou por aquela espécie de líder que nem ao partido conseguiu agradar. Pois bem, desde que se foi, até a SIC o descobrir, faz de conta que é um analista, uma espécie erudita de Cristina Ferreira.
Tirésias, famoso arúspice tebano, tinha o condão de adivinhar, diziam os gregos, apesar de ser cego. No oráculo da SIC a pobreza das previsões de Marques Mendes mais parecem próprias de um cartomante que de um homem com dois olhos, ao contrário de Tirésias de Tebas.
É esta necessidade que a pós modernidade tem de ir debaixo de água, ao lodo, buscar o que antes rejeitara.
A estrondosa incapacidade de Santana Lopes como Primeiro-Ministro levou-o de São Bento para “andar por aí” até à Santa Casa da Misericórdia com o acordo de Passos e posteriormente confirmado por António Costa.
Santana derrotado por Rio não admite outro posto que não seja o de chefe, e prometeu colaborar com Rio, criando um novo partido, com militantes do PSD. Não alargou nenhum espaço e criou condições para que o PSD seja mais frágil para abrir caminho aos passadistas e ressurgirem com Montenegro de espada na mão, ou dizem os mais destemidos deixar Costa ganhar à vontade… Como Santana vai andar por aí na Aliança pode ser que voltem os passistas.
Santana nem no Sporting ganhou. Cultiva de si uma ideia que não tem nada a ver com a realidade. Ao que consta terá fechado numa gaveta o pensamento de Sá Carneiro, que fugiria a sete pés do espetáculo de Évora, onde a Vice-Presidente apresentou como currículo ser advogada da Madona, madona mia…
Portas abandonou o palco quando o Parlamento o não deixou governar de mão dada com Passos e Maria Luís e Cristas, após as últimas eleições legislativas.
Entretanto era preciso que o show continuasse para que tudo ficasse como está e a TVI ,por mero acaso, foi buscá-lo para aparecer com ares presidenciais depois de uma vida a saltar por entre cargos ministeriais.
Uma vez derrotados aparecem pimpões nas várias televisões a botarem sentenças, com ares sérios, como se a vida deles não tivesse sido o que foi.
Cristas toda lampeira a apoiar a greve cirúrgica dos enfermeiros sem o mínimo de decoro, pois apoiou o congelamento de salários dos enfermeiros, o aumento da carga horária e pavoneou-se pelas feiras de agricultura quando Passos mandou os enfermeiros saírem da zona de conforto para irem para o Golfo, o Reino Unido e a Escandinávia. Outra que tal, a senhora enfermeira Cavaco, nem tugiu, nem mugiu. Apoiou o empobrecimento dos enfermeiros e dos portugueses.
Impante, a cristianíssima Cristas, encostando-se a Trump, que não ao Papa, com palavras cheias de veneno defendeu a intervenção militar dos EUA a que chamou humanitária…
A velocidade das notícias e dos acontecimentos esconde o encadeamento dos fenómenos, a sua dialética, cujo resultado é uma espécie de amnesia que se abate sobre a sociedade fazendo com que o passado esteja um permanente reinvenção graças a esse esfregão que coloca o passado em cima do presente, para impor a austeridade e a pobreza e entoando ladainhas aos multibilionários intocáveis.

Venezuela, para que conste.

Há, em torno da crise venezuelana, um redemoinho infernal de notícias. A grande maioria das notícias foca a realidade do que se passa naquele país do seguinte modo: há um ditador e uma ditadura nascida com o chavismo de um lado e, do outro, os opositores à ditadura, que, neste momento, têm Guaidó como cabeça, e que é o Presidente da Assembleia Nacional (Parlamento). Isto é, há um Parlamento eleito democraticamente. Estranha ditadura… que chegou com Chavez, Presidente eleito em todas eleições a que concorreu , e reconhecidas por todo o mundo como tendo sido livres e limpas. Portanto, na Venezuela, não houve e não há uma ditadura.
Existe na Venezuela dois poderes – o que decorre da Assembleia Nacional que se opõe ao campo político de Nicolas Maduro e o que emana de Maduro, recentemente eleito, e cujas eleições são contestadas pela oposição venezuelana e sobretudo por Trump, a que mais tarde se juntou a U.E.
Não há ninguém com o mínimo de honestidade intelectual que não aceite que a crise venezuelana para além da incompetência e dos erros da ação governativa enfrenta pressões, ingerências e até um embargo dos EUA àquele país, tanto mais quanto os E.U.A. decidiram aplicar sanções às empresas que façam negócios com as petrolíferas venezuelanas. É para vergar o regime pela miséria que se juntam os que querem as riquezas daquele país.
A Venezuela é o país com as maiores reservas petrolíferas, e sabe-se por experiência trágica vivida na Iraque o quão forte é a gula daquele país por países com petróleo.
Trump, o nacionalista, o que só quer a América Grande, afinal também quer a Venezuela e na sua desbragada linguagem não descarta enviar tropas e a esta ameaça Guaidó olha para o céu, esperando que os tropas venham derrubar a estátua de Chavez, e que alguém em Portugal volte a comparar a invasão agora da Venezuela com o 25 de Abril de 1974…
Mas este estranho e paranoico mundo nem sequer dá conta que se está a falar de um país em que há eleições… e milhares de manifestantes nas ruas…
Olhemos para outro país riquíssimo em petróleo, a Arábia Saudita. Aqui as eleições são, à luz de teoria sunita made in Casa Real, uma heresia. A realeza saudita encarna uma espécie de poder divino que não se compadece com a sorte dos cidadãos, é a Casa Real que sabe, decide e impõe.
Pois, neste país não só não há qualquer vislumbre democrático como os seus dirigentes assassinam friamente os seus opositores, mesmo noutros países, e impõem uma guerra destruidora num pequeno país do Golfo, o Iémen, para esmagar a revolta dos hutis, árabes muçulmanos da corrente chiita.
Comparemos a desfaçatez destes senhores do mundo que se puseram de cócoras face à Arábia Saudita quando os seus dirigentes encomendaram o hediondo assassinato do jornalista Khashoggi, designadamente a pequenez do senhor Pedro Sanchez, que manteve a venda das fragatas aos senhores feudais da Arábia Saudita, mas que agora altivamente se colocam ao lado de Trump contra Maduro.
O problema não se coloca de apoiar ou não apoiar Maduro, mas com Maduro e todos os outros venezuelanos, incluindo Guaidó, encontrar saídas, que respeitem a soberania do povo venezuelano.
Portugal tem um Ministro dos Negócios Estrangeiros que nesta crise mais se parece com um galaró do que com um chanceler que respeita um país onde trabalham centenas de milhares de luso descendentes e quer ser respeitado nas atitudes que toma.
Rui Rio, ao apoiar o governo nesta matéria, fazia-o, disse, porque Portugal estava do lado dos mais fortes e, portanto, um pequeno país como o nosso lá vai como a maria-vai-com-as-outras.
Um país como o nosso não se deve pôr em bicos de pé, dar ares do que realmente não é, visando agradar aos poderes dominantes, desprezando posições que realmente podiam dar a Portugal outro protagonismo e outra capacidade na defesa da imensa comunidade portuguesa na Venezuela e das futuras relações com aquele país.
Essa postura a juntar-se à do grupo de contacto do Uruguai, México e outros, e à do Papa, ajudaria a criar novos posicionamentos que contribuiriam para uma saída menos dolorosa da crise.
Portugal calou-se covardemente diante de um país que nem às mulheres deixa sair à rua e que assassina e faz desaparecer o cadáver de Jamal Khashoggi. Põe-se agora a falar de cima do capoeiro, como se vozes de garnisé chegassem ao céu…
Chavez foi um amigo de Portugal, com quem foram realizados negócios bons para os dois lados, um Presidente democraticamente eleito e que ganhou em eleições livres e limpas. Não instaurou uma ditadura, nem defendeu ditadores como fez Bolsonaro. Para que conste. A ditadura fria, cruel, absolutista está em Riad de onde Trump e os líderes europeus enchem os bolsos com os triliões de dólares da venda de armamento.

O estonteante percurso de Marcelo até ao céu

Um homem é sempre um homem, seja na sua mais simples cidadania ou no exercício da mais alta magistratura. Tem sempre atrás dele um percurso que marca a sua personalidade. A coerência é uma qualidade que distingue aquele que apresenta uma marca indelével daqueloutro que se apresenta aos concidadãos girando em função dos interesses circunstanciais.
Trump, por exemplo, adverte que as suas declarações não são para ser levadas à letra, o seu significado é diferente daquilo que semanticamente se encontra na declaração.
Quando um homem diz, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, que se recandidatará ao cargo que exerce por ser aquele que está em melhores condições para receber o Papa, entra no caminho, tantas vezes condenado nos Evangelhos, da mais pura hipocrisia.
Na verdade como se pode saber que homem estará em melhores condições para receber o Papa?
O Papa é Chefe de Estado e é, segundo o catolicismo, o representante de Deus na Terra.
Vindo como Chefe de Estado, o que importa é o que as relações entre os dois Estados saiam reforçadas. Ninguém acreditará que o Presidente da República portuguesa não receba da melhor maneira o Chefe de Estado do Vaticano.
Se fosse possível imaginar o Papa em Portugal apenas como mais um católico quem poderia dizer, sem soberba, quem seria o que melhor para receber Francisco? Aquele que mais pudesse oferecer ou quem desse o que tinha, como a viúva referida nos Evangelhos que depositou na caixa das esmolas as duas moedas menos valiosas, mas que eram as únicas que tinha?
Em 2022 realizar-se-ão em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude Católica com a presença do Papa, que serão seguramente enquadrados nas excelentes relações existentes entre Portugal e o Vaticano. Serão um enorme evento, mas não deixarão de ser para o Estado português um acontecimento de caráter religioso. No entanto, a presença de tantas centenas de milhares de jovens e do próprio Papa terá um elevadíssimo significado e como tal será devidamente encarado.
A afirmação de Marcelo quanto à sua recandidatura, no momento do anúncio do país escolhido para acolher as Jornadas de 2022, constitui uma argumentação rasteira que exigiria, face à importância do evento, uma outra elevação de espírito.
É algo, em termos de honestidade intelectual, que raia a pouca vergonha, pois o que Marcelo está a querer dar a entender é que ele é o único capaz de receber o Papa … Marcelo confunde o seu beatismo católico com o cargo de PR, o que é muito grave. Habituou os portugueses, ao longo da sua vida política, aos mais estonteantes ziguezagues, ao sim e ao não sobre a mesma realidade, chegando, o ano passado, a fazer depender a sua recandidatura do modo como o governo resolveria as falhas do Estado… O que lhe chega ao toutiço, às vezes, sai cá para fora.

O facto de Marcelo ser católico não lhe dá nem lhe retira qualquer vantagem quando reunir enquanto Chefe de Estado com o outro Chefe de Estado, neste caso o do Vaticano, e o PR de Portugal deverá pautar a sua conduta nos exatos termos de artigo 41º da CRP, designadamente o nº4 …”… “As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização”…
Para receber como deve ser recebido o Papa não é preciso que venha ao de cima a confissão religiosa do Chefe de Estado português, basta atentar no modo como Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva os receberam.
Proclamar ser candidato a PR pelas razões expostas é algo muito feio, que convoca o que de mais primário pode haver em quem professa a religião católica e disso quer tirar vantagem.
Só a perda da noção da realidade material do mundo em que vive, substituindo-o por outro mundo virtual, onde o que se passa na cabeça de Marcelo é apenas realidade populista, capaz de o lançar num mergulho no Tejo ou numa viagem de camião, explica o destempero beático de sua Excelência o Sr. Presidente da República.
Um homem capaz das mais variadas artimanhas para continuar a ser o que sempre foi é a marca indelével de Marcelo.

Incontinência ou vampirismo?

As funções do Presidente da República estão bem definidas nos artigos 120º a 140º da Constituição da República. O que vale dizer que não podem ser inventadas, segundo o gosto de cada íncola do Palácio de Belém.
No quadro político-constitucional o Presidente da República não tem poderes executivos.
Nomeia o Primeiro-Ministro. Pode demitir o governo, dissolver a Assembleia da República e presidir ao Conselho de Ministros, sob proposta do Primeiro-Ministro.
Por isso, o Presidente da República deve deixar o governo governar e só intervir caso considere uma situação verdadeiramente anómala, tanto mais quanto o governo responde perante a Assembleia da República, de onde lhe vem a legitimidade democrática. Tal não significa que não se pronuncie sobre a vida política.
Quando o PR se afirma no exercício do seu mandato opinando sobre as matérias que estão em discussão na ordem do dia, ultrapassando os próprios titulares governamentais, cria distorções no equilíbrio dos vários poderes.
A tendência de aparecer, sobretudo na televisão, todos os dias, muitas vezes para dar conta da sua preocupação com assuntos que não há ninguém de bom senso que não esteja preocupado, cheira a vampirismo político.
Marcelo não pode desconhecer que a vida dos camionistas é dura. A ninguém passará pela cabeça que a vida profissional de um mineiro não é dura. E o mesmo se dirá dos homens que trabalham no fundo das pedreiras. A vida de um padeiro ou de um homem da limpeza das ruas ou das fossas não é pera doce, ou a de um piloto de aviões, pelo grau de responsabilidade.
O Presidente só conhecerá a verdadeira natureza de cada profissão mais dura se passar a fazer uma viagem com um camionista, se descer à mina durante um dia de trabalho, se “pilotar” um avião com um comandante, se passar um dia com um varredor das ruas ou com um limpador de fossas? E só saberá se os coletes amarelos mobilizam muita gente passando na manifestação, sendo notícia? E passando no estabelecimento prisional de Lisboa na altura de protestos quando há notícias em direto?
Quando Marcelo apanha boleia com um camionista alegadamente para chamar a atenção para a dureza da profissão ter-se-á apercebido de quantas profissões estarão em lista de espera? E se se apercebeu vai passar dias, meses e anos (até às próximas eleições) a fazer de conta que é enfermeiro, padeiro, mineiro, trolha, piloto, limpa chaminés, pintor de carros?
O titular do cargo de Presidente da República alertou na sua mensagem natalícia para o perigo do que designou populismo ou posturas eleitoralistas dos partidos, não havendo ninguém que não concorde com a ideia que numa campanha eleitoral a tendência é para facilitar as promessas, sendo certo e seguro que há alguns a prometer que batem todos os recordes …
Marcelo não está a prometer preocupações a mais, bem tendo consciência plena que cabe ao governo tratar do desgaste de cada profissão? Que pretende Marcelo? Levar a cabo um levantamento socioprofissional de cada profissão? Um levantamento sociológico? Ou ser notícia?
É intrigante esta atafona de Marcelo por aparecer diariamente a manifestar as suas preocupações. Não seria mais indicado que nas reuniões com António Costa exercesse com grano salis a sua magistratura de influência? Corre o risco de se banalizar a tal ponto que ninguém se importará com mais um mergulho ou mais uma preocupação ou mais um acompanhamento em direto de qualquer desgraça.
Entre uma rainha, como a da Inglaterra, que quase não fala e um Presidente que não se cala, a virtude está apenas na ida às urnas para eleger o Presidente; talvez, por isso, esta loquacidade marcelina.

Até passou na televisão…

A ideologia que vai ganhando terreno por todo o mundo tem tanto medo das suas próprias ideias que as esconde, declarando-se vazia de ideias, assetica.
Em suma, para esta desideologia, o que conta é o que cada um possui, pois todos podem ter o que quiserem, na base da nova doutrina liberal. Só os fracos, os que se excluem, os incapazes não alcançam o que pretendem.
As ideologias que se preocupam com a sociedade no seu conjunto são perniciosas. É preciso eliminá-las, tal como vêm proclamando Trump, Balsonaro, Orban e outros tantos.
A saúde, a educação, a justiça têm de obedecer ao primado dos mercados e serem entregues a quem souber tirar lucro.. O Estado é apenas uma grande empresa.
A beneficência dos poderosos, o seu deixar escorrer do topo da pirâmide para a base são a esmola que invocam, servindo-se dos Evangelhos.
O Estado mínimo é, por exemplo, no caso do Brasil, a atribuição aos cidadãos de umas quantas armas para que se possam defender. O cidadão é inimigo do cidadão, todos contra todos, ficando o Estado a intervir para proporcionar negócios aos que podem com o seu poder económico fazer o país andar.
Esta conceção ideológica passa também pela utilização da televisão para veicular doses cavalares de ingredientes de anestesia da consciência social, da pertença a uma profissão, a um território e até a uma identidade.
Para tanto o importante é absorver tudo que impeça de pensar o futuro em conjunto com os seus concidadãos. O que interessa é ingerir o que o rodeia, sem compreender a razão dos problemas.
Pela televisão entra tudo: fogos, desastres, corrupção, futebol, telenovela, noticiários, pesca, caça, touradas, o que for, sem ser preciso mergulhar no mundo podre circundante. Esse é o mundo das ideologias. O que conta é a realidade sem filtros, sem ideologias, dizem.
A televisão analisa o caso jurídico e dá a sua sentença; não perde tempo, como nos tribunais. Os tribunais buscam a verdade material, a televisão audiências e lucro.
Quando se diz que o “caso” até passou na televisão está claramente a assumir-se (consciente ou inconscientemente) que o que não passa na televisão, não existe.
Passa a desgraça das pedreiras de Borba, dos fogos, os meninos encerrados numa gruta da Tailândia, a queda de um avião e a explosão que o futebol proporciona.
Pode saber-se o que aconteceu à família de Ronaldo ou de Messi. Que interessam as desgraças do vizinho ou do companheiro de trabalho. Isso não releva. São os que têm uma “vidaça” que fazem inveja a qualquer um. Essas são vidas que passam na televisão.
É esta a ideologia que levou Trump a desfazer o pacote de saúde que nos EUA permitiam aos cidadãos fazerem seguros de saúde para acederem aos hospitais. Com Trump só entra no hospital quem puder. O Estado tem de ajudar os mais fortes, os que sabem dirigir a sociedade, tal como dirigem as suas companhias.
Paradoxalmente os corifeus da desideologia prosseguem a sua campanha ideológica. Para que não se pense. Para que se absorva. Para que os cidadãos não passem de lorpas. Pensar é que nunca.

Marcelo surfista na crista do canhão da TVI bateu Macnamara

Na mensagem de Ano Novo Marcelo convocou os portugueses a participarem nas eleições que se vão realizar este ano, destacando o seu significado mais profundo em termos de escolhas para o futuro.
De facto, em 2019 realizar-se-ão três atos eleitorais. Seria adequado, dado que as próximas são já em maio, que os partidos políticos, os media e os portugueses estivessem minimamente interessados nos programas e ou propostas dos que serão candidatos. Ainda mais incentivados pelo vibrante apelo do PR.
Os portugueses, no início deste ano, já tinham sido sacudidos da sua letargia decorrente das festas natalícias por uma tempestade de ideias que jorraram da entrevista da TVI a Mário Machado, especialista em mecenato, e da esperada e desesperada estreia na SIC do programa da Cristina Ferreira, após as suas férias de sumptuoso luxo nas Maldivas.
A nossa Lady Di escolheu para a glamorosa estreia o inebriante Luís Filipe Vieira que se apresentou bem-disposto a jogar à bisca com a senhora.
E para que ninguém tivesse dúvidas acerca da importância daquele conclave a dois, juntou-se via telefone Marcelo que intervalou no meio de uma reunião para desejar as maiores felicidades à fugitiva da TVI.
Em boa verdade qualquer reunião (salvo se outros forem os regulamentos) é passível de um intervalo.
Aceita-se assim que Marcelo intervale. Como não fuma, dado o seu frenesim, aceita-se também, em ano com três eleições, que ele, na esteira da sua mensagem de Ano Novo, entre nas discussões relevantes, não tivesse deixado sozinhos os dois grandes pensadores da manhã da SIC.
O programa foi marcado por uma revelação totalmente inesperada – a promessa de Luís Filipe Vieira de ter um novo treinador que poderia ser Mourinho que só o soube pela imprensa. Explicou a mágoa pelos lenços brancos e, qual adivinho, augurou que os benfiquistas ainda se vão arrepender de ele (Vieira) ter mandado o Vitória para as areias quentes da Arábia Saudita. E deixou implícita a sua recusa em tornar definitiva a escolha provisória.
No outro canal Luís Goucha bem se tinha esfarrapado para passar a perna à Cristina ,tendo levado para o seu “programa” Mário Machado, conhecida personalidade do mundo da bondade, repleto de condecorações conferidas nas prisões por onde passou dada as opiniões controversas de sua autoria.
O ano tinha terminado (lembram-se?) com Marcelo a alertar para os perigos das disputas eleitoralistas e populistas, e começou o novo com o apelo ao debate sereno e cívico para defender o regime democrático.
Ora aqui estamos nós entre a SIC, TVI, RTP e CMTV ungidos por grandes debates acerca das condições em que os portugueses vivem, a importância do Parlamento europeu, as consequências do Brexit, o futuro da geringonça e as escolhas da Madeira.
O que vale o anúncio de três ou quatro novas estações de metro em comparação com a nova cláusula de rescisão de Eder Militão? Ainda se António Costa seguisse o conselho de Assunção Cristas e mandasse abrir vinte novas estações de metro…Resta-nos a saga da luta mortal entre Montenegro(nome de espadachim) e Rio, o conciliador.
Razão tinha Marcelo na sua mensagem…“Debatam tudo, com liberdade… Podemos e devemos ter a ambição de dar mais credibilidade, mais transparência, mais verdade às nossas instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar… “Et voilá, os grandes debates em curso, animados pelo mais alto magistrado da nação, mostram que a SIC, a TVI, a RTP e a CMTV, estão atentas. E daí esperar que continuem a levar grandes figuras aos seus écrans, muito futebol, a vida sexual e luxuosa dos famosos e seus escândalos, a explicação dos crimes, e muitos beijinhos de felicidades. Sem televisão os portugueses não saberiam escolher. Sem Marcelo que seria do surf? Bem hajam no país de tantos basbaques.