Uma característica marcante da vida atual é a excessiva politização a partir quase sempre dos mesmos temas cuja resolução não tem fim à vista seja nos governos do PS ou nos do PSD. Servem para justificar a razão de ser da oposição aos governos ou a defesa das políticas governamentais.
Na verdade, a crise da habitação não nasceu agora; nem a falta de um novo aeroporto em Lisboa; nem o necessário aumento dos salários; nem a melhoria da qualidade dos serviços públicos; nem o redimensionamento do SNS para poder dar respostas aos portugueses; nem a má Justiça portuguesa; nem a necessidade de simplificação de serviços e a de um maior investimento tanto público como privada ; nem a Regionalização; nem a de uma política externa diversificada e de valorização da comunidade dos PALOP como pilar do universalismo português; nem a da defesa dos interesses nacionais; nem o abandono do interior do país com os incêndios a flagelarem essas zonas.
Acontece que os partidos políticos e os interesses corporativos ligados ao chamado encenam com grandes turbulênciasnum mero copo de água, até uma próxima atoarda.
Como os cidadãos se desconectaram da vida política, os partidos têm de captar a sua atenção com essas mensagens tonitruantes, mas ocas de sentido, valendo pela agressividade do adjetivo.
É uma característica das sociedades sem esperança, onde cada um perdeu a ligação à comunidade e se fecha no seu mundo, recebendo uma torrente comunicacional desde os hipermercados às propostas de namoro até para aprender a ver-se livre dos fungos e do colesterol ou de como dormir bem.
O Chefe da Igreja católica descreve de uma forma eloquente a diferença entre o bem comum e os interesses individualistas na sua encíclica Magnifica Humanitas.
Talvez a maior pobreza na nossa Humanidade, sem ofensa aos muitos milhões que vivem com um ou dois euros por dia, seja a perda da esperança. O ser humano é feito a congeminar permanentes invenções fruto da sua extrema curiosidade e dos sentimentos de satisfação por cada descoberta; o que só é possível por via da esperança.
Quando os de cima conseguem anestesiar os debaixo e carregar o horizonte de medos e de pobreza, então os autores desta façanha têm de carregar no verbo para que o verbo descarregue a grosseira adjetivação de quem nada mais tem a não ser o verbo amargar travestido de uma invocada produtividade, como se ela nunca dependesse dos empresários.
Veja-se Luís Montenegro e a ministra do “Trabalho” em nome da ameaça de um futuro sem futuro, caso os trabalhadores não aceitem trabalhar mais e mais sem a respetiva remuneração. A luta dos trabalhadores impediu que Ventura desse o passo que era suposto dar.
A frase de Passos Coelho acerca dos políticos do mainstream, como sendo prostitutos que se vendem às ideias dominantes, surgida por um acaso cuidadosamente preparado, não passa exatamente de o que se acaba de descrever – carregar na conflitualidade por falta de ideias substantivas. Para que fosse mais ribombante quis dizer o que disse ao lado de André Ventura, o político que substituiu as ideias por adjetivos. Veja-se a quantidade de adjetivos que Trump usa sobretudo para ameaçar que é o verbo com que se deita e se levanta.
A frase é uma marca do tremendo vazio em que mergulhou a política do mainstream na atualidade; a incapacidade de encarar o futuro com esperança e, portanto, a aposta numa ação política altamente conflituosa para esconder a desgraça da governação. O significante e o significado destoam. O que é preciso é turvar as águas do neoliberalismo para que não assentem e assim possam esconder a realidade tal como existe – o empobrecimento de quase todos e enriquecimento de poucos.