O FOGO E OS COMENTADORES DO TERCEIRO E QUARTO MUNDOS

https://www.publico.pt/2017/10/20/politica/opiniao/o-fogo-e-os-comentadores-do-terceiro-e-quarto-mundos-1789454?page=/&pos=2&b=opiniao

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MARIANA PINEDA NA BARRACA

 

A Barraca tem em cena a peça Mariana Pineda de Garcia Lorca, encenada por Maria de Céu Guerra.

Trata-se de um espetáculo muito bem conseguido representado por atores de grande versatilidade.

Dentro da encenação Céu Guerra utilizou de modo soberbo a guitarra e a voz do músico de nome Paco que conhece bem o lado trágico do flamengo andaluz.

Desde cedo se perceciona algo de dramático face ao que Mariana não vai dizendo, mas se vai intuindo.

Na verdade, logo aos primeiros minutos, o espectador perscruta nas palavras e nos gestos de Mariana que algo de terrível vai suceder.

Ficamos a saber que as ruas de Córdoba e de Granada estão desertas porque naquelas cidades há um medo avassalador, comandado por um tal Pedrosa, juiz do absolutismo.

Mariana adere aos liberais tendo-se apaixonado por Pedro, um dos chefes liberais, condenado à morte, que com ela urdiu um plano para fugir a essa à condenação à morte.

É tão forte o amor de Mariana por Pedro que ela pede a um jovem loucamente apaixonado por ela que vá levar a Pedro o passaporte para fugir. E o seu apaixonado, por amor a Mariana, salva Pedro.

A partir desse momento a pressão que se abate sobre o espectador é brutal, como se o oxigénio que se respira fosse denso e custasse a entrar nos pulmões.

Mariana borda a bandeira da liberdade para a entregar a Pedro no dia da revolta popular que não sucede porque os conjurados são presos e mortos.

Pedro foge para Inglaterra. Todos aconselham Mariana a deixar cair a causa.

Ela resiste, apesar do tenebroso Pedrosa lhe declarar amor e pretender resgatá-la dos ideais liberais. Mas ela resiste.

Céu Guerra, apoiada nos dotes da atriz Rita Lello, dando mais luz ao texto de Lorca, leva ao limite a contradição entre o morrer por amor que se confunde com a causa da liberdade (o amor de Mariana por Pedro confunde-se com o próprio amor pela liberdade) e o viver por amor aos filhos, à família e aos amigos.

A simplificação dos cenários confere ao texto as múltiplas vibrações da palavra seja no plano lírico, apelativo/argumentativo, lúdico (as estórias para adormecer os dois filhos de Mariana).

Lorca configura uma Mariana inquebrantável por um amor e pelo amor à liberdade. Ela não irá trair os companheiros.

Mariana, mulher, vai enfrentar um mundo de homens. Pedro vai para Inglaterra. Foge. Ela acreditava que ele a viria salvar, tal como prometera. Tal conduta não mata o amor de Mariana à causa da liberdade. Fica em aberto se ela acredita ou deixa de acreditar no amor de Pedro, mas o amor à causa da liberdade vai com ela para a forca, mesmo sabendo que se renunciasse não seria enforcada.

E aí de novo o choque entre todas as coisas “pequenas” da vida e a de Mariana que se agiganta sacrificando, no altar da liberdade, a vida para que a Humanidade seja melhor.

Mariana preferiu morrer deixando dois filhos menores e uma casa de uma senhora de elevado estatuto, a ter de se vergar ao rei absolutista. Enforcada tornou-se imortal. Num mundo entalado entre futebóis, telenovelas e famosos esta viagem ao interior do mais nobre do ser humano, o da sua generosidade sem limites, vale como um grito extraordinário no coração da cidade de Lisboa, no 150º aniversário da Abolição da Pena de Morte.

Rita Lello é brilhante no seu desempenho. Com o andar das representações e do “choque” com o público a sua representação ainda vai tornar-se mais vibrante, emotiva e de certo modo, mais serena, apesar de saber que vai enfrentar os algozes que a conduzirão à morte. Não é que não seja já; a experiência no desempenho do papel de Mariana vai trazer maior refinamento.

Ao sair, frente ao largo de tantas árvores, uma brisa vinda do rio ajuda-nos a respirar e a compreender que o teatro nos ajuda a ser melhores. Nem todas as mulheres e nem todos os homens teriam aquela força, mas só de o sabermos que houve, há e haverá faz de nós seres melhores. De tal modo que a pena de morte foi abolida em dezenas e dezenas de países, sendo hoje a vergonha de alguns.

 

 

 

 

 

 

 

 

 A PESSIMISTA

No primeiro andar continua em cena a Pessimista, um monólogo de uma jovem atriz que nos faz pensar na mesquinhez humana que através do pessimismo estudado ajuda a fazer da vida uma vidinha bem cuidada.

Teresa Sampayo não deixa o espectador distrair-se a não ser com o humor e com a seriedade, porque tudo flui como se estivéssemos a dialogar com alguém que fala com ela própria. Muito interessante.

Teresa Sampayo, apesar de juventude tem um arsenal de capacidade que lhe permitem sentir-se como peixe na água e através das dezenas de representações sentir-se ainda mais segura no diálogo com o público a partir do seu monólogo consigo mesma. Teresa Sampayo pode estar otimista. Temos atriz. E a Humanidade menos pessimista, pois o texto é um libelo acusatório para os que se servem de todos os oportunismos para tratar da vidinha. O texto é do encenador da peça, Helder Costa.

 

domingos lopes

 

 

AINDA AS ELEIÇÕES ESTRONDOSAMENTE REAL

Passos Coelho, à frente do PSD, guinou à direita e seguiu à bolina empurrado pelo vento neoliberal.

O PSD assumiu a opção de tornar os ricos mais ricos para tornar o país mais competitivo por via do empobrecimento geral da população.

Como comandante da coligação com o CDS nem se apercebeu que, em certa medida, ultrapassou pela direita o CDS.

O CDS não precisava de assumir os temas mais caros à direita porque o PSD o fazia. Passos jogou tudo no falhanço da governação do PS e perdeu tudo; teve de ir falar com o diabo que se instalou no seio do seu partido.

A votação do PSD em Lisboa é o resultado de aquele partido não ter tido quase nada a propor nem como programa, nem em termos de candidaturas. Foi uma trapalhada. O CDS só teve que colher no terreno do PSD devido à incapacidade até ao último suspiro de Passos Coelho de se adaptar à realidade.

É caso para dizer como faria o pio Cavaco que Passos bem piou mas esbarrou estrondosamente na realidade. Nunca foi capaz de ter rins para mudar. Cegueira? Autismo? Espírito aventureiro?

Esse esbarranço na realidade saída do acordo do PS com PCP e BE levou o PSD para a situação que se encontra.

O partido ainda não saiu do estado comatoso e perfila-se Rui Rio, um político com trabalho feito no Porto, que desde que saiu da câmara daquela cidade hesitou sempre entre o que afirmou ser os deveres profissionais e o combate político. Finalmente decidiu.

Só que a sua decisão veio trazer do passado do PPD o eterno jovem Pedro Santana Lopes. De novo na ribalta. A ver o que vale para um partido que se fechou nos corredores do poder e perdeu a sua ligação mais profunda às bases porque estas se ligaram ao conjunto de interesses que os poderes locais, legislativo e executivo conferem aos seus “donos”.

O PSD que segundo Teresa de Sousa tem futuro ( ela lá saberá porquê) está em maus lençóis a curto/médio prazo porque António Costa já reafirmou a sua rejeição do bloco central.

Só por mero suicídio o PS que cresceu encostando-se à esquerda e resolvendo problemas económicos e sociais, iria, nesta fase da vida política, retroceder e encostar-se à direita. Sublinha-se, só por suicídio.

Na Europa o único partido socialista/social-democrata em alta é o PS português, daí constituir uma verdadeira aberração política guinar para a direita, pretendendo fazer o que já fez e deu em crise no PS.

No que concerne ao CDS a sua máquina não é tão pesada como a do PSD e apresenta maior agilidade, como foi caso de Lisboa.

Assunção Cristas percebeu o erro estratégico de Passos e lançou-se para um combate municipal que podia ter dimensão nacional, enquanto o PSD ficou prisioneiro da sua estratégia nacional e desvalorizou a sua estratégia eleitoral em grandes cidades com dimensão nacional.

O PCP enfrentou o efeito mobilizador do eleitorado de esquerda que o PS alcança quando sai da sua ligação à política de direita.

É a velha discussão que se travou no interior do partido aquando da coligação com PS em Lisboa com Jorge Sampaio e João Soares.

Uma convergência ou coligação com o PS por parte do PCP para resolver problemas nacionais ou regionais ou municipais exige dos comunistas uma atitude totalmente diferente daquela que têm tido quando o PS é o adversário puro e duro.

Aí o partido está treinado e experimentado. O que o partido não está é capacitado de uma forma cabal e global é para se apresentar de uma forma a fazer a diferença com o PS quando este converge com o PCP.

Aqui é que reside o busílis. O problema não é a convergência. O problema é a capacidade de mostrar porque apesar dessa convergência é importante votar no PCP porque é nele que se encontra a resposta para resolver problemas tanto no plano local, como no plano nacional.

A velha discussão em torno do branqueamento do PS sempre que este se aproxima do PCP e este daquele é uma discussão sectária e estéril. A aproximação entre os dois partidos não é feita para resolver problemas partidários, mas para dar resposta a problemas que a direita não é capaz de resolver. Isto porque nem o PS, nem o PCP são capazes de resolver sozinhos, independentemente da expressão eleitoral de cada um. Claro que um PCP forte condiciona mais o PS que um PCP menos forte.

Portanto o PCP não se deve queixar dos outros, mas apenas de si próprio. Não há anticomunismo que pare à entrada de Loures, ou de Évora, ou de Vila Viçosa e que se infiltre em Almada, Beja ou Alandroal.

A coragem e a autocrítica são apanágio de partidos revolucionários. O atirar as culpas para os outros é próprio de quem pretende sobreviver.

AINDA AS ELEIÇÕES – ESTRONDOSAMENTE REAL

 

Passos Coelho, à frente do PSD, guinou à direita e seguiu à bolina empurrado pelo vento neoliberal no rumo neoliberal .

O PSD assumiu a opção de tornar os ricos mais ricos para tornar o país mais competitivo por via do empobrecimento geral da população.

Como comandante da coligação com o CDS nem se apercebeu que, em certa medida, ultrapassou pela direita o CDS.

O CDS não precisava de assumir os temas mais caros à direita porque o PSD o fazia. Passos jogou tudo no falhanço da governação do PS e perdeu tudo; teve de ir falar com o diabo que se instalou no seio do seu partido.

A votação do PSD em Lisboa é o resultado de aquele partido não ter tido quase nada a propor nem como programa, nem em termos de candidaturas. Foi uma trapalhada. O CDS só teve que colher no terreno do PSD devido à incapacidade até ao último suspiro de Passos Coelho de se adaptar à realidade.

É caso para dizer como faria o pio Cavaco que Passos bem piou mas esbarrou estrondosamente na realidade. Nunca foi capaz de ter rins para mudar. Cegueira? Autismo? Espírito aventureiro?

Esse esbarranço na realidade saída do acordo do PS com PCP e BE levou o PSD para a situação que se encontra.

O partido ainda não saiu do estado comatoso e perfila-se Rui Rio, um político com trabalho feito no Porto, que desde que saiu da câmara daquela cidade hesitou sempre entre o que afirmou ser os deveres profissionais e o combate político. Finalmente decidiu.

Só que a sua decisão veio trazer do passado do PPD o eterno jovem Pedro Santana Lopes. De novo na ribalta. A ver o que vale para um partido que se fechou nos corredores do poder e perdeu a sua ligação mais profunda às bases porque estas se ligaram ao conjunto de interesses que os poderes locais, legislativo e executivo conferem aos seus “donos”.

O PSD que segundo Teresa de Sousa tem futuro ( ela lá saberá porquê) está em maus lençóis a curto/médio prazo porque António Costa já reafirmou a sua rejeição do bloco central.

Só por mero suicídio o PS que cresceu encostando-se à esquerda e resolvendo problemas económicos e sociais, iria, nesta fase da vida política, retroceder e encostar-se à direita. Sublinha-se, só por suicídio.

Na Europa o único partido socialista/social-democrata em alta é o PS português, daí constituir uma verdadeira aberração política guinar para a direita, pretendendo fazer o que já fez e deu em crise no PS.

No que concerne ao CDS a sua máquina não é tão pesada como a do PSD e apresenta maior agilidade, como foi caso de Lisboa.

Assunção Cristas percebeu o erro estratégico de Passos e lançou-se para um combate municipal que podia ter dimensão nacional, enquanto o PSD ficou prisioneiro da sua estratégia nacional e desvalorizou a sua estratégia eleitoral em grandes cidades com dimensão nacional.

O PCP enfrentou o efeito mobilizador do eleitorado de esquerda que o PS alcança quando sai da sua ligação à política de direita.

É a velha discussão que se travou no interior do partido aquando da coligação com PS em Lisboa com Jorge Sampaio e João Soares.

Uma convergência ou coligação com o PS por parte do PCP para resolver problemas nacionais ou regionais ou municipais exige dos comunistas uma atitude totalmente diferente daquela que têm tido quando o PS é o adversário puro e duro.

Aí o partido está treinado e experimentado. O que o partido não está é capacitado de uma forma cabal e global é para se apresentar de uma forma a fazer a diferença com o PS quando este converge com o PCP.

Aqui é que reside o busílis. O problema não é a convergência. O problema é a capacidade de mostrar porque apesar dessa convergência é importante votar no PCP porque é nele que se encontra a resposta para resolver problemas tanto no plano local, como no plano nacional.

A velha discussão em torno do branqueamento do PS sempre que este se aproxima do PCP e este daquele é uma discussão sectária e estéril. A aproximação entre os dois partidos não é feita para resolver problemas partidários, mas para dar resposta a problemas que a direita não é capaz de resolver. Isto porque nem o PS, nem o PCP são capazes de resolver sozinhos, independentemente da expressão eleitoral de cada um. Claro que um PCP forte condiciona mais o PS que um PCP menos forte.

Portanto o PCP não se deve queixar dos outros, mas apenas de si próprio. Não há anticomunismo que pare à entrada de Loures, ou de Évora, ou de Vila Viçosa e que se infiltre em Almada, Beja ou Alandroal.

A coragem e a autocrítica são apanágio de partidos revolucionários. O atirar as culpas para os outros é próprio de quem pretende sobreviver.

domingos lopes