Edital
Foi afixado
nos locais do costume
que É PROIBIDO MENDIGAR.
Logo mão que se descobre
escreveu a tinta por baixo
MAS NÃO É PROIBIDO SER POBRE.
Joaquim Namorado, in “A Poesia Necessária”
Nos Editais/locais de costume, os preços afixados das rendas das casas são implacavelmente altos à ordem dos Fundos e Cª que implacavelmente impõem a sua lei altruísta feita à medida pelo governo de Montenegro, deixando sem casa centenas de milhar de cidadãos, sobretudo jovens.
Na verdade, as palavras que nos ligam e nos unem podem ser atropeladas violentamente por quem as usa do alto do poder apenas para esconder a violência de uma política implacável contra os que precisam de uma casa, a coisa mais banal do mundo e que a política neoliberal de espalhar pobreza não é capaz de realizar. O senhor doutor Montenegro nunca durante a campanha eleitoral prometeu aprovar esta lei e desancar com cassetetes policiais os que pedissem habitação a preços normais.
É de lamentar que os agentes que se manifestam a pedir melhores condições materiais, pois , segundo alegam, têm de viver nos carros, ataquem os seus compatriotas com brutal violência por exatamente pretenderem lutar pelo acesso a uma habitação.
Não havendo casas no mercado atarraxado por leis obscenas, os senhores Montenegro e Pedro Duarte querem que os cidadãos regressem às cavernas ou vivam pendurados em árvores ou habitem em carros ou altruisticamente se dirijam a São Bento e à Câmara Municipal do Porto implorarem por todos os santinhos e santinhas que lhes conceda o especial favor de viverem em tendas num local determinado por tais Excelências. E sempre tudo feito de modo cordato, sem que qualquer conduta possa pôr em causa o princípio altruísta de permitir aos Fundos e quejandos obter os maiores lucros à custa do esvaziamento das casas e dos poucos pertences de quem neste país vive vegetando, sem desprimor para as árvores também elas egoístas face à vontade de as derrubar para bem da financeirização em andamento.
As palavras devem estar horrorizadas com a sua manipulação. As palavras que nos deviam fazer entender uns aos outros viraram pedregulhos de arremesso contra os de baixo atiradas pelos de cima.
Uma mulher e um homem que com a sua tenda expõem na rua a sua impossibilidade de adquirirem casa são egoístas. E tal como na ditadura salazarenta, face à luta pela democracia, são acusados de estarem ao serviço de uma causa internacional e devem ser implacavelmente arrancados do chão de que são filhos.
No fundo Montenegro está tão cheio de medo que já usa a força bruta para governar. Ele tem razão – a sua política é totalmente incompatível com a possibilidade de neste país adquirir casa quem dela precise.
A ditadura de Salazar proibia os pobres de pedirem para os esconder. O governo de Montenegro proíbe que os que não têm acesso a uma casa exibam as tendas como marca da sua política de habitação. Implacável pobreza. Rendição incondicional ao egoísmo ultrajante dos Fundos e quejandos. É de tristeza triste que é feito o meu país.
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