As alfurjas do Chega

 

Quem se atreveria a imaginar que o capitão Bolsonaro, vinte anos deputado, encostado à dolce vita parlamentar brasileira, sem qualquer relevo a não ser pelo recalcitrante apoio à ditadura militar, pudesse vir a ser Presidente de um dos maiores países do mundo? O seu currículo resumia-se a defender os piores crimes da ditadura de modo grosseiro e banal, um cavernícola nunca levado a sério no que toca a ser eleito Presidente. Não passava de um capitãozeco extravagante de segunda ordem.

Mais ao Norte, naquele mesmo continente, quem imaginaria os EUA serem dirigidos por um magnata da construção civil que trazia consigo um lastro de corrupção, negocismo, de fuga aos impostos, supremacismo branco, homofobia, racismo e a mais completa incompetência para o cargo? Quem imaginaria esta personagem dos reallity show Presidente do país de Lincoln? Quem poderia imaginar esta personagem a receitar cloroquina para atacar o coronavírus, depois de aconselhar lixívia? Sim, é verdade, não é realismo fantástico, a cruel realidade vinda dos EUA…

A História a todos surpreende pelo seu elevado grau de imprevisibilidade; os fenómenos não são todos determinados pelos mais estudiosos, e nem por isso o mundo deixa de ser o que é – a anormalidade que de repente se normaliza.

Vale a pena fazer esta pergunta: Houve ou não um olhar benevolente para estes dois homens, sempre encarados como outsiders? Foi feito o que devia ser feito para o impedir?

Até certa altura o seu extremismo era tão evidente que por esse facto pensava-se que seriam barrados pelo apego democrático às instituições das populações de ambos os países.

Pois é, mas não foi. Quando se ouvem inúmeras vozes de democratas a defenderem que se não dê combate a André Ventura porque daí resulta a sua valorização e importância, vale a pena refletir com base na experiência de outras situações similares.

A eleição de Bolsonaro é a esse respeito elucidativa. E a de Trump também. Ambas subavaliadas quanto às suas possibilidades.

Em todos os povos há classes parasitárias e largas camadas sociais que se deixam atrair pelo oportunismo imediatista, pela promessa de autoridade que resolva problemas graves, pelo nacionalismo cego, pela violência contra as minorias, por homens assumidos como providenciais que dizem o que se diz no café ao contrário dos políticos que se entendem fora do parlamento para se governarem, e o rol é vasto. Sabemos que Salazar e Caetano se aguentaram 48 anos…é caso para pensar. A autoridade ditatorial a impor-se a um povo conformado, salvo honrosas e extraordinárias exceções.

Quando Ventura propõe a deportação de Joacine, o confinamento dos ciganos, o regresso à cadeia de todos os presos libertados, a castração dos pedófilos, o aumento das penas de prisão, e quando propala mentiras evidentes sobre o que Catarina Martins não disse, quando destila ódio contra o 25 de Abril e incensa a relogiosidade, poderá haver dúvidas que os antifascistas devem combater com serenidade, lucidez e inteligência este político que se tornou graças ao futebol e à CMTV/Correio da Manhã conhecido e seguido por franjas da sociedade portuguesa?

Poderá haver qualquer dúvida sobre o extraordinário trabalho do jornalista Manuel Carvalho acerca dos meandros do Chega e do seu mundo que o sustenta e que trouxe à luz do dia as alfurjas tenebrosas do Chega?

Caminhamos para dias muito difíceis com desemprego a níveis assustadores, com miséria e fome e uma U.E. nas encolhas e com um governo a esquecer-se dos que vivem muito mal, arrombando a Segurança Social para que as grandes empresas beneficiem dos descontos de que trabalhou e descontou.

Neste terreno medram os profetas evangélicos e outros, os adoradores do autoritarismo, os seguidores do mais boçal primarismo, os vendedores do divisionismo, os que se agacham na democracia para a morderem. Haja quem os combata desmitificando e esclarecendo as virtudes da vida democrática e das suas instituições. Que ninguém subestime a bestialidade e que não se deixem surpreender.

https://www.publico.pt/2020/05/29/opiniao/opiniao/alfurjas-chega-1918531

PS, fofinho ao centro

 

A financeirização das economias à escala global retirou aos Estados importantes instrumentos de intervenção passando a governação a fazer-se em estreitos parâmetros, reduzindo o leque de políticas alternativas. São precisos políticos e políticas prontas a vestir e em regime de take away. Tudo já feito e certificado por uma caterva de burocratas cuja função é certificar que ninguém tem mais um centímetro, nem meia dúzia de quilos a mais, nem alma. Os serviços públicos fortes são gorduras a mais.

Os países devem entrar todos, independentemente do estado de desenvolvimento das suas forças produtivas, no mesmo torniquete. Os mais fortes ficam mais ainda, e os menos, menos. Uns, poucos, recebem por contrair dívidas, outros ficam sem poder investir deixando serviços públicos essenciais à míngua.

A pandemia resultante do coronavírus mostrou o quão importante é um SNS forte para proteger a comunidade, em vez de um serviço de saúde baseado no lucro, onde a cura depende da conta bancária. Veja-se o que está acontecendo no Brasil e nos E.U.A…Aliás só o SNS salvou Portugal, pois os “eficientes” privados retiraram-se para se proteger do contágio.

A mesma U.E. que impôs o programa de empobrecimento, vem agora com todo o desplante afirmar que Portugal descurou a Saúde… pois, com a U.E a exigir mais cortes.

Nesta crise brutal que já provocou desemprego, miséria e até fome, as vozes que se erguem e são ouvidas são sobretudo as dos empresários de peso porque as dezenas e dezenas de milhares sucumbem sob o peso da crise pandémica.

O que se vai percebendo do posicionamento da CIP que se multiplica em encontros confinados a Belém e São Bento, é que o Estado passaria a ser um entreposto para a passagem do dinheiro vindo de Bruxelas a ser pago pelos cidadãos em impostos que consideram inevitáveis, em contraste com a inevitabilidade da redução dos impostos sobre os lucros…e até a distribuição de dividendos e de prémios aos espantosos e maravilhosos gestores do Novo Banco.

A tal subvenção decidida a dois, um(a) grande e outro pequeno, fazendo a Europa encafuar entre Berlim e Paris, como se o resto fosse paisagem. Merkel a fazer de conta que a França ainda tem la grandeur que já não tem, mas está falida de recursos de Saúde como se viu, graças à invasão dos privados na Saúde à custa do Estado.

Neste mar de difícil navegação António Costa não fez como Ulisses, não pôs cera nos ouvidos, não amarrou César, nem Siza e parece reacertar o rumo do PS em direção à velha política, àquela que dizem não ter alternativas a não ser respeitar as regras dos sacrossantos mercados financeiros, como no caso do Novo Banco, a fazer de conta que o Estado será reembolsado pelos amigos do Rei dos frangos…

Sem coragem, entre Cila e Caríbdis, Costa decretou o confinamento do PS ao rei dos afetos, o pantomineiro mor do reino, o inefável Presidente, Primeiro-Ministro, Ministro da Saúde e Diretor Geral do Reino e tendeiro do Minho ao Algarve, passando por Tio em Cascais…e chico esperto a anunciar como foge aos polícias para dar um mergulho na abertura da época balnear.

Costa encolheu o PS, desvitalizou-o para as presidenciais. O PS de César e Santos Silva é um doce conventual para ser degustado em soirés confinadas entre Rio, Costa e os outros, com harmoniosos convívios servidos com canapés de Cascais, entre gente afetuosa, sem laivos de qualquer agressividade, salvo se a destinatária for Ana Gomes. Tudo uma doçura. O canto das sereias foi mais forte que a alma dos seus dirigentes.

https://www.publico.pt/2020/05/22/opiniao/opiniao/ps-doce-conventual-cesar-santos-silva-1917613

Marcelo e Costa sem máscaras

 

Hoje os banqueiros sabem que podem arruinar bancos que os Estados por via dos impostos dos cidadãos virão em seu socorro. Claro que há uma parte do “socorro” que se entende e que tem a ver com as poupanças dos clientes. O resto é arenga para manter a santidade dos mercados a funcionar. Vale a pena ter em atenção que em Portugal os banqueiros “arruinados” continuam a fazer a mesma vida, enquanto milhões de portugueses viveram dias dificílimos. Com a troica a pobreza ficou muito próximo de um quarto da população. Vamos ver como fica no fim da pandemia.

Tenha-se em conta o comprometimento do antigo triunvirato Cavaco/Passos/Carlos Costa no que ao BES se refere. Deram todas as garantias de que era um banco seguro. Depois quando já não era veio Maria Luís Albuquerque jurar que partiam o banco em dois e o Novo Banco seria bom e o outro o mau. Quem já se esqueceu? O banco bom já nos levou 7.876 milhões de euros… E quanto mais irá levar?

Entretanto, o país assistiu à bravata em torno da alegada falta de informação de Mário Centeno a António Costa da decisão tomada no Conselho de Ministros quanto ao momento da transferência dos 850 milhões de euros para o banco bom. Sabia-se, melhor, intuía-se que o enlevo de Costa por Centeno passara para Sisa.

Quando Costa se atirou com toda a repugnância ao Sr. ministro das Finanças dos Países Baixos havia no adjetivo qualificativo uma intensidade que parecia ir para além do destinatário. O vigor ecoou nas paredes das salas de reuniões do eurogrupo. Era repugnante o que o ministro dissera, e o silêncio do eurogrupo?

O próprio pedido de desculpas de Costa a Catarina dava ares de serem setas atiradas ao novo São Sebastião das Finanças.

A surpresa chegou mais tarde com o encontro na Autoeuropa alemã de António Costa/ Marcelo. Ambos sem máscara a encavalitaram-se ao colo para declararem que no regaço levavam uma eleição presidencial, eram votos no regaço esclareceram a quem os quis ouvir. Não eram rosas.

Na guerra com Centeno, Costa ganhou Marcelo. Este, na batalha pelo plebiscito presidencial, ganhou Costa e o PS ficou órfão, sendo o maior partido neste momento. O encontro de ambos poderá vir a figurar nos manuais de amor ao próximo.

Marcelo tem raízes capazes de chegarem a qualquer lado, a distância entre Belém e o Rato é significativa, mas pelos vistos alcançável. E sem ser a nado.

Portugal confinou-se ainda mais. Em Belém a música não mudará face à entronização de São Marcelo. São Bento que se cuide se se fiar na virgem. A sedução está concluída. O PS fica a ver o andor de São Rebelo. À esquerda pelo que se vislumbra haverá uma competição pela liderança da segunda Liga, num país em que a direita é minoritária.

Costa e Marcelo envolveram-se a fundo nos destinos de cada um, sendo que Marcelo depois de eleito fica de mãos livres e Costa não.

Enterraram Centeno, mesmo que o funeral tenha sido adiado. E para que conste o Estado continuará a pagar o Novo Banco, não se esqueçam.

https://www.publico.pt/2020/05/18/opiniao/opiniao/costa-marcelo-mascara-1916910

A desventura de André Ventura

 

Os humanos são seres muito especiais. Vêm de muito longe, diz-se que do fundo dos tempos. Quem viu o magnífico filme de Stanley Kubrik “Odisseia no espaço” terá certamente registado o instante em que de um grupo de macacos se destaca e servindo-se de um osso de um outro animal “dá conta” que o pode usar com violência contra outro. Descobre o instrumento/ferramenta.

Não se sabe com precisão o momento que os macacos se ergueram e iniciaram a sua marcha a caminho de se humanizar.

Sabe-se, no entanto, que esta verdade trouxe grandes dissabores a Darwin e continua a trazer a outros defensores do evolucionismo, dado o poder dos negacionistas que só aceitam a fórmula do Génesis e do casal desgraçado (Adão e Eva) para toda a eternidade devido à sua ambição em querer abarcar o conhecimento, o qual estava reservado à divindade.

Do grupo às tribos, às comunidades, às cidades, às nações e países, foi um longo percurso a desbravar ignorâncias e a abarcar conhecimentos.

Os filósofos gregos, não renegando as múltiplas divindades, defenderam o homem como medida das coisas. Epicuro foi mais longe e lançou a primeira pedra do materialismo.

As mãos que matavam e faziam razias podiam ter outros gestos e acarinhavam. Veio a escravatura e logo se impôs Espartacus.

Na velha Galileia Cristo era Deus feito homem. São Paulo defendia que todos os homens eram irmãos, mas a própria Igreja se esqueceu dessa irmandade ao adotar as práticas do velho Império romano, incluindo a escravatura.

Portugal e Castela trouxeram a primeira globalização e com ela o colonialismo sustentado em Impérios.

E o mundo humano continuou na sua senda e a rodar e o que parecia eterno afinal não era.

Vieram séculos de ignomínia com as perseguições aos judeus e hereges, a mando da Inquisição.

O colonialismo foi-se. E ficaram Gandi e Mandela.

Hitler insistiu na estrela amarela na lapela dos judeus. E abriu fornos de cremação para quem não pertencia à raça ariana, incluindo ciganos e judeus.

Passaram há dias 75 anos da derrota do nazismo. A Europa e o mundo sofreu 50 milhões de mortos.

Parecia que havia um tempo gasto, morto. Mas a verdade é outra. Vozes enterradas fazem-se ouvir com o seu ódio, aproveitando o desencanto de um mundo com tanta desigualdade.

Quando a significância de André Ventura resulta de assumir posições que no passado levaram às maiores desgraças é assustador. A defesa do confinamento dos ciganos, da deportação de Joacine ou outros atoardas sobre o 25 de abril insere-se num roteiro de aproveitamento político de alguém que se quer apresentar contra o sistema, mas sempre viveu dele desde o futebol à política mais reles.

Representa em termos políticos o que de mais simbólico existe de desventura humana – a perseguição a outros seres humanos.

https://www.publico.pt/2020/05/11/opiniao/opiniao/desventura-andre-ventura-1916031

A motosserra do Sr. Rodrigo G. Carvalho

 

É hoje forte o sentimento na nossa comunidade que o SN de Saúde foi até à data o serviço público que tratou e salvou os doentes COVID-19, apesar de descapitalizado, atacado e desprezado pelos vários governos. Sem o SNS a pandemia teria dizimado muitos milhares de portugueses.

Aliás os países com um forte SNS responderam muito melhor à crise que os países onde os cidadãos que queiram ter acesso à saúde têm de a pagar.

Na verdade, serviços públicos fortes, modernos, desburocratizados e ao serviço das populações são elementos chave de um Estado moderno, democrático e vocacionado para proteger.

Ora esta conclusão óbvia não se encaixa nas ideias dominantes de sobrevalorização do papel do indivíduo prevalecente sobre o da comunidade que está em sintonia com a elevação da empresa a um novo paradigma de proteção estatal fundado num quase direito natural.

O que parece contar é a sorte das empresas, sobretudo as grandes. O Estado, a entidade “despesista e gastadora”, de repente tem de ir socorrê-las para a sua salvação. O tal Estado malfadado faz-lhes falta quando a iniciativa privada não está capaz de responder aos seus desafios próprio das sacrossantas leis do mercado. Vejamos de outro ângulo – quando há lucros fabulosos a ordem é arrecadar, quando há prejuízos a ordem é para lançar impostos e os cidadãos pagarem.

Há até quem candidamente defenda que o Estado garanta um empréstimo à TAP de 300 milhões de euros para salvá-la e entrega-la a reluzir à sociedade Barraqueiro/Neelman…que grandes capitalistas…

Parece ser uma nova religião que preconiza que o Estado subvencione os mais poderosos e sobrecarregue os que vivem da força do seu trabalho, como se o salário fosse um peso e sempre imerecido. Felizmente que muitos são os patrões que não têm esta visão, mas esses não têm voz nos media.

A iniciativa privada é essencial numa sociedade moderna, mas de acordo com as regras do mercado e não baseada no critério de que na sua atividade o risco é do Estado e o lucro do capital.

Aliás os lucros de algumas dessas empresas vão direitinhos para os “repugnantes” holandeses enchendo-lhes ao cofres e deixando o maldito Estado português à míngua, mas obrigado a socorrer os mesmos de sempre.

Quando chegar a hora de fazer contas vira o disco e toca o mesmo – austeridade. Não se pode tocar nos lucros, só nos rendimentos dos que trabalham e nesses pode ser à bruta porque aguentam, aguentam, como afirmou o célebre banqueiro…

Dinheiro já (não pode ser amanhã de manhã) a fundo perdido. E a vida das famílias, dos trabalhadores com menos um terço do vencimento?…Alguém deu conta da necessidade de remunerar mais dignamente os enfermeiros, os médicos, os cientistas das várias áreas sem os quais as mortes eram aos milhares…Já foi feito o ato de contrição sobre o sair da zona de conforto que levou milhares de enfermeiros e médicos portugueses a sair do país? Um dos rostos desse período negro aparece confortavelmente e todo pimpão, com ares de cientista, pianinho, pianinho, a botar postas de pescada sobre o coronavírus. Refiro-me a Sua Excelência o Paulino das Feiras, dos retornados, dos ex-combatentes, do irrevogável, do Vice-Primeiro-Ministro que ultrapassou na corrida Maria Luís e todo lampeiro perora na TVI. Ele é que sabe e por isso estendem-lhe a passadeira…Depois de tudo o que foi agora é virologista formado na Rua do Caldas.

Na SIC, em entrevista à Ministra da Saúde, o Sr. Rodrigo atirou-se como uma fera a propósito da comemoração do 1º de maio da CGTP e instou-a a esclarecer o que lá fazia Jerónimo de Sousa de cima dos seus setenta e três anos. Veja bem Sra. Ministra aquele velho desconfinado, um dirigente do PCP nas comemorações do 1º de maio…

O Sr. Rodrigo estabeleceu uma linha fortificada que ia da Alameda até à Cova da Iria. Queria a todo o custo saber porque não autorizara a peregrinação e a missa no santuário, em contraste com o que se passara na Alameda.

Marta Temido explicou o conteúdo da decisão presidencial contida no Estado de Emergência sobre aquela data e referiu as conversações com a Igreja que não passaram pelo modelo da Alameda.

Porém, como o Sr. Rodrigo se achava portador do inconfessável propósito da Ministra, a entrevista tornou-se num interrogatório. Com toda a simplicidade do mundo, um sorriso e um olhar firme teve de responder ao Sr. Rodrigo que estava ali para esclarecer e para tanto esclareceria. Foi então que ele deu conta que se acabara a gasolina da motoserra. Ficou a imagem de Marta Temido feliz com a resposta do SNS.

https://www.publico.pt/2020/05/04/opiniao/opiniao/sns-motoserra-senhor-rodrigo-g-carvalho-1914955

 

ANTES DE 25 ABRIL 74 NUNCA ESTIVE CONFINADO, SÓ PRESO

 

 

Antes de 25 de abril de 1974 nunca estive confinado, antes preso no forte de Caxias. E a razão da prisão: exercer os direitos cívicos mínimos – expressão, reunião, associação. Era dirigente da Associação Académica de Coimbra. Para me prenderem apontaram-me uma arma e levaram-me. Na prisão tiraram-me o cinto, os cordões dos sapatos, a esferográfica e os papeis que tinha. Cortaram-me o cabelo. Encerraram-me numa cela que mesmo durante a noite tinha uma luz acesa. De tantas em tantas horas abriam o postigo e olhavam para dentro da cela. Quando chegou o pijama tinham tirado o cinto.

O recreio de uma hora só dava para ver o céu e o caminho da cela ao terraço bloqueado de muros de muros altos era cuidadosamente preparado para não ver nenhum outro preso. Vinham a meio da noite e levaram-me de Caxias para a Rua António Maria Cardoso para por meio da tortura do sono fazer com que eu confessasse que pertencia ao Partido Comunista, o que significava no mínimo dois anos de cadeia. Ali estive “confinado” a pé sem me poder sentar sequer três ou quatro dias e noites, já não me recordo.

As cartas que escrevia eram entregues abertas e as que recebia abertas estavam com o carimbo da DGS, a PIDE com outro nome. Os maços de cigarros vinham abertas e a comida inspecionada e cortada para ver se lá havia algo.

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. E a mudança de turno dos GNRs. Ouvia o ruído da vida através das grades. Raramente via passar pessoas ao pé do forte. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Uma vez deu me vontade de assobiar para alguém, mas o castigo esperado impediu-me de o fazer. No recreio, às vezes, via gaivotas, pardais e um ou outro avião.

Com tantos companheiros presos só ouvia as carrinhas partirem e chegarem. Para saber quantos eram os dias de torturas tomava nota do dia da partida do preso e depois esperava para o ver chegar se fosse de dia.

Quando me deixaram chegar livros, estudava e lia. Aprendi a comunicar por pancadas na parede, mas os guardas também conheciam o abecedário.

No recreio atirava miolo de pão com um papel dentro com o meu nome à espera que o vizinho fizesse o mesmo.

Não entrava nenhum jornal, nem rádio. Não havia notícias no reino do terror. Quem ali chegasse devia saber que não era dono de si próprio e teria de vomitar o que a PIDE queria. A única notícia seria a confissão, se houvesse.

Havia um silêncio feito de terror que oprimia a alma até quando se dormia com a tal luz acesa vinte quatro horas. Silêncio e no lado da minha cela livre o vento no seu lúgubre assobio, indiferente à sorte dos que não podiam ir fazer compras, nem passear o cão… Apenas com quatro ou cinco metros entre a porta e as grades, sem nunca poder sair, a não ser “acompanhado” pelos Guardas.

Tudo isto sob o manto da infamante justificação de que era o resultado de atentarmos contra a segurança do Estado, isto é, de não nos resignarmos e deixar cair os braços para o fascismo pudesse dominar o país na tal segurança. Num dos registos da PIDE era acusado de incentivar a população a recensear-se para poder votar.

Diante de uma pandemia tão poderosa como a do coronavírus os cientistas de vários ramos dentro dos seus saberes aconselharam os governantes a determinar mediadas de confinamento para proteção da população. E foi o que se fez através do estado de emergência.

O confinamento permite a cada um defender-se e defender a comunidade num elevado exercício de cidadania e solidariedade. O sacrifício que impõe não visa os que não concordam com o governo. Visa a defesa da comunidade. É um confinamento relativo, pois há espaço para ir fazer exercício físico e compras e até passear o animal de estimação. É seguramente aborrecido. Mas entre esta medida de elevado grau de civismo e o terror a diferença é monumental.

Não há qualquer semelhança entre o terror e a consciência de uma medida que visa a proteção de toda a comunidade.

 

https://www.esquerda.net/…/antes-de-25-abril-74-nunca…/67571

A coragem venceu o medo

Havia um tempo em que o medo chegava a todo o lado, chegava aos ossos e à própria alma.

O medo tinha medo de si próprio. Quando raptava os que o enfrentavam fazia-o de noite para que se não visse a ignomínia.

O ofício do medo era infiltrar-se, entrar nas células, fazer os cidadãos vergarem-se e tomar as rédeas do destino.

Ao pé do mar, em Caxias, o forte prisão esmagava os que não tinham medo do império do medo.

A Norte de Lisboa, em Peniche, a tocar no mar, outro forte, e a dor a esbarrar no mar imenso. Detrás das grades a força das vontades indomáveis.

A ideia maligna da ditadura de enclausurar os presos frente ao mar. Sem saída. A solidão frente ao mar. E, no entanto, a esperança sempre.

O medo entranhou-se quase cinco décadas nos poros para sufocar a alma de cada um.

Medo até de dizer o que se tinha para dizer aos familiares e amigos. A palavra livre não estava autorizada, só a domesticada podia correr no ar.

O medo existia para impedir o enfrentamento com a poderosa máquina de maldade e para poder continuar a dilacerar as vontades e a todos enfiar no carreiro…

O medo, porém, tinha um mal de nascença – a coragem de quem desfraldava a esperança quotidiana.

Como foi possível esperar sem desistir e porfiar pelo tempo novo?

O medo chegava aos ossos, à alma, mas não era bastante. O medo tinha medos – para conjurar o medo da juventude despejou nas Faculdades gorilas para impor o terror.

Levou a guerra aos que muito longe não tinham já medo e impôs aos jovens de cá irem combater e servir de carne para canhão.

O medo perseguia, prendia, torturava e assassinava, tal era o desvario.

Não impediu, contudo, que no regaço do tempo nascesse fecundado pela coragem outo tempo.

Havia de vir o dia feito da longa esperança. Chegaria? Havia de chegar. Como seria? Quando? Seria uma revolta geral? Uma revolução? Como seria esse tão esperado dia? Será que seria? Seria. O tempo que prendera o tempo havia de escoar-se, secar e morrer.

Foi de madrugada que veio o dia e o novo tempo, em Lisboa. Depois correu louco o país inteiro. Abriram-se as janelas e depois as ruas. A alegria ressoou nos corações da amada pátria. Vestiu-se de olhares festivos e deslumbrantes. Foi há 46 anos, a madrugada mais longamente esperada. E o dia 25 de abril foi tudo.

 

https://www.publico.pt/2020/04/25/politica/opiniao/coragem-venceu-medo-25-abril-1913424