Ainda o ato de contrição sem penitência de Durão Barroso

O ato de contrição de José Manuel Durão Barroso, em entrevista ao Atlantic Talks, a propósito da invasão do Iraque e do seu apoio incondicional na Cimeira dos Açores é um traço da sua personalidade, uma espécie de modus operandi. Ficou-lhe do tempo das autocríticas importadas dos jovens generais maoistas.

Durão Barroso ao longo destes últimos cinquenta anos soube fazer o que tinha de fazer para ser o que queria ser. Está-lhe no ADN a ambição e jogar no tabuleiro indicado para alcançar o objetivo seguinte.

Nos anos imediatamente antes do 25 de abril combateu com todas as suas forças o PCP para lhe roubar influência na juventude universitária. Era destemido a defender os camaradas Marx, Lenine, Stalin e Mao. Até no boné que usava. Um fogoso revolucionário que anunciava a chegada do vento Leste e o educador da classe operária, entretanto falecido.

Com a revolução de Abril o Zé Manuel levou o seu anticomunismo ao expoente de proclamar que a revolução não passava de um golpe de Estado do PCP com a camarilha militar. Era no tempo em que defendia que os pides morriam na rua e os professores da Faculdade de Direito, salvo raras exceções deviam ser saneados e alguns julgados pelos bandos do MRPP a funcionarem como tribunais populares.

O seu ímpeto anticomunismo em nome do verdadeiro comunismo tinha de o levar ao PPD, como era dos livros. Lá foi com Eurico de Melo que escolhia a dedo os que interessavam ao partido. E dali nunca mais parou.

Com o estatuto de imperador do PSD, o partido que mais cedo ou mais tarde leva o líder a São Bento, formou governo com Paulo Portas, um dueto que garantiu a pés firmes que Saddam Hussein tinha armas de destruição massiva e que o Departamento de Estado as tinha mostrado e eles tinham-nas visto.

Traindo o espírito europeu de rejeição da guerra receberam nos Açores George W. Bush com Aznar e Blair. Colocaram o país ao serviço da perfídia do monumental embuste que mudou o mundo para pior.

O Iraque foi destruído. Centenas de milhares de mortos. Recrudescimento do jiadismo em todo o Médio Oriente e no mundo muçulmano. O mundo ficou muito mais inseguro e mentiram dizendo que ia ficar mais seguro.

O Iraque graças a estes dirigentes caiu nas mãos do Irão. Fragmentou-se nas suas comunidades religiosas e o sectarismo tomou conta da vida iraquiana. Os cristãos perseguidos e os direitos humanos espezinhados de modo mais grave que no tempo de Saddam que Bush, o amigo de Zé Manel e de Paulo  Portas não descansou enquanto não o enforcaram e assim calá-lo per omnia seculae et seculorum.

Por ordem de George W. Bush centenas de milhares de pessoas morreram. Os que o apoiaram são cúmplices. É pena que só a História os julgue.

Durão Barroso sempre a pensar no passo seguinte e mais adiante, impetuoso quanto à ambição, mal viu as coisas mal paradas no país com fracos resultados eleitorais numas municipais, deu o salto para Bruxelas. Entre o seu patriotismo e o apego ao mais profundo sentimento de “grandeza europeia” à americana não se conteve. Os seus amigos não faltaram à chamada e foi parar a Bruxelas. Voilá…

Por lá andou a fazer de conta que mandava na Europa. De um canto do mundo para outro. À grande e à alemã. Até ao dia em que cumprido o mandato, um tremendo apelo vindo da mais fina estirpe de banqueiros impolutos e recheados de figuras respeitadíssimas o levou a um novo trono – chairman da Godman Sachs.

Ele que servira o combate à esquerda antes e depois do 25 de Abril, que criara a partir da figura esfíngica de Eurico o seu baronato no PPD e chegara a Primeiro-Ministro e que passara por Bruxelas como Presidente, ei-lo capaz de novo martírio e guindar-se a um dos mais altos cargos na Goldman Sachs. Glória ao grande camarada.

 

https://www.publico.pt/2020/07/03/opiniao/opiniao/ato-contricao-penitencia-durao-barroso-1922856

Medo, desaforo e temeridade

 

O medo vem dos primórdios dos humanos; ele fez os primatas evoluíram e substituírem o instinto pela consciência dos perigos. O medo de algum modo fez o homem. Vem de muito longe, do tempo em que os hominídeos viviam rodeados de inimigos, de outras espécies que para sobreviverem faziam deles alvos. Nasceu connosco e de nós não se separará.

Esta componente do nosso sistema de vida está em alta com a chegada da pandemia, impondo-nos uma conduta distinta da vivida até ao seu aparecimento. É o medo que nos faz ser cautelosos e medir riscos e evitar os mais perigosos. É uma ferramenta que nos permite agir com prudência. Mal utilizado pode ser castrador.

O medo nomeadamente da Inquisição, do senhor feudal, do polícia, das ditaduras são elementos que integram o nosso passado. Portugal viveu muitos medos que se entranharam na mentalidade do país.

O medo da pandemia atirou os portugueses para dentro de casa, confinou-os, antes até da própria decisão governamental. É o medo positivo. O medo sacana é o que faz os cidadãos açambarcarem produtos que fazem falta à comunidade. É o oportunismo egoísta que Saramago tão bem descreveu no Tratado sobre a cegueira.

O medo do coronavírus foi o chicote que meteu o rebanho em casa. A terrível carantonha do inimigo invisível confinou-nos.

Os medos infantis quase nos paralisavam, mas passámo-los. Cinquenta anos vivemos sob o manto negro do medo que nos fazia suspeitar de todos. Os portugueses viverem muito tempo sob o medo. Está ainda no seu ADN.

Claro que houve mulheres e homens a quem o medo não ditou as suas leis e enfrentaram a ditadura. Foram eles que aceleraram a História e encurtaram o período das trevas salazarentas.

Os médicos, os enfermeiros e todos os operacionais de saúde são os bravos que nos defendem, mesmo correndo sérios riscos. O medo impõe-lhes prudência, mas não os tolhe.

Como teria de ser, chegou a hora o desconfinamento e de respirar fora das quatro paredes caseiras e de regressar em parte à vida que o vírus nos roubou.

Entretanto uma mistura explosiva varre o país, um pouco por todo o lado: a desgraça de quem vive e trabalha em condições miseráveis, o empacotamento dos velhos sob o olhar ausente das autoridades, a insanidade de quem organiza festas e engana autoridades, as próprias condições de quem trabalha na saúde e os que do alto do esplendor da idade viram costas aos deveres de proteção da comunidade.

Que o vírus contagie os que não lhe podiam fugir dadas as condições compreende-se, embora doa.

Que os idosos gerem rendimentos chorudos aos donos das prateleiras de empacotamento resulta da irresponsabilidade governamental que aparece depois das desgraças a dizer que vai fazer um inquérito e apurar responsabilidades que desaparecem no passar dos dias e com a ausência mediática do assunto.

E que dizer da pompa e circunstância da dupla Marcelo/Costa a anunciarem que vem aí a final da Champions…e a dedicou aos trabalhadores da saúde. Esta lengalenga cheira a ranço, tem um lastro de propaganda à maneira do antigo regime. É algo abominável. Só faltou o cardeal. Ter-se-ão esquecido?

De tanto elogiarem o comportamento dos portugueses enveredaram pelo nacional-porreirismo. Em vez de assumirem condutas responsabilizantes e responsáveis andam a apagar fogos de festa em festa, de lar em lar, de bairro degradado em bairro degradado.

É preciso coragem, mais coragem do que contas sobre votos. Vivemos uma pandemia. O Portugal desconfinado à espera da final da Champions, do turismo que acende e apaga, que mantém na pobreza mais de um quarto da população que não tem condições para cumprir com as redras da DGS, que consome carradas de ansiolíticos e notícias dos luxos da Cristina Ferreira mete medo. Medo.

https://www.publico.pt/2020/06/23/opiniao/opiniao/medo-desaforo-temeridade-1921638

 

Quem matou um ucraniano no aeroporto de Lisboa, Dr. Rio?

 

Rui Rio tem aquele ar bonacheirão que gera uma certa empatia. Ele pega nas palavras e utiliza-as de coração nas mãos. Diz coisas que um político em geral não diz. Percebe-se que não preenche o chamado figurino made in PPD/PSD das últimas décadas, daí a intestina guerra que lhe movem.

O homem pragmático, conservador tem tendência a ter de si uma ideia de que o importante é gerir o status quo sem ondas. É avesso a sobressaltos. Não é um homem inquieto, mesmo quando Montenegro e tutti quanti lhe fazem a vida negra.

Foi Secretário-Geral do PSD quando Marcelo era Presidente. Marcelo, o irrequieto e ambicioso, Rio o pacato, o burocrata a guardar a estrutura das tolices de Marcelo sempre pronta a mergulhar somewhere .

Rio na entrevista dada à TVI no dia 8 deste mês entre o politicamente correto e o seu conservadorismo/autoritarismo largou a embraiagem e seguiu em frente – indignado com as manifestações antirracistas, se fosse ele que mandasse proibia tais manifestações. George Floyd foi assassinado nos EUA, porquê manifestações em Portugal? Para a mente de Rio nada o justificava… é a sua alma.

Rio falou com o coração e daí o seu espírito conservador não poder alcançar os sentimentos de indignidade perante aquele horror. Isto de manifestações é mais da esquerda do que do conformismo que ainda abraça uma imensa percentagem dos portugueses. Racismo na mente de Rio já não existe porque viola a lei. Esqueceu-se que um ucraniano foi morto à pancada no aeroporto de Lisboa dentro do SEF por polícias.

Assumiu que proibiria as manifestações, se mandasse. Só faltou dizer que enviava a tropa de choque. Em Portugal as manifestações não precisam de autorização, esqueceu-se.

No domínio da economia ele também não passa da iniciativa privada. O risco, a alma do capitalismo, é tempo passado. O Estado é gastador se “desperdiçar” dinheiro em serviços públicos robustos. Mas já não o é se socorrer os privados, investir milhares de milhões e voltar entregar a quem não é capaz de gerir empresas e bancos. A superioridade da gestão privada em muitos casos assenta no princípio que o Estado é a ambulância para a salvação, custe o que custar. Banqueiros e certos empresários façam o que fizerem, quem paga é o mexilhão. A imoralidade roça a indignidade – os cortes passados das pensões em contraste com os mais de vinte mil milhões para o sistema financeiro.

Rio chegou a líder do PSD, um partido que se foi tornando cada vez mais direitista onde muito do conservadorismo da pequena e média burguesia, em certas circunstâncias, se sente cómoda.

Rio gostaria que a política fosse um universo no qual haveria um chefe que ditaria os comportamentos de todos, e tudo conforme a lei e as próprias Escrituras. O que mais o aflige são os sobressaltos. Ele não nasceu para eles.

O PSD já conheceu de tudo, desde Sá Carneiro destemperado, passando pelo Homem que nunca se enganava, pelo alcoviteiro Rebelo de Sousa, por um ex-maoista, sem esquecer o que atualmente na SIC garantiu que o BES era seguríssimo e que costumava jogar a sueca com Eurico de Melo, e que dá cartas sem contraditório naquela estação.

Rio tem aquela espécie de sorriso permanente naif. É um homem descansado que não entende que se façam manifestações contra o racismo em tempo de pandemia, como se nos EUA não houvesse pandemia. Uma manifestação é uma aflição. Rio há muito comprou a ladainha de que em Portugal não há racismo, mesmo com escândalos como o do homicídio de um ucraniano no aeroporto de Lisboa. Ele vê o que imagina, o mundo conforme à conformidade.

 

https://www.publico.pt/2020/06/12/opiniao/opiniao/matou-ucraniano-aeroporto-lisboa-dr-rio-1920252

O homem que não conseguia respirar e morreu

 

Um homem manietou outro homem. Tem-no a seus pés. O homem que detém todo o poder sobre o outro homem derrubado e estendido no chão sabe quem é o homem que tem ao seu dispor.

O homem que segura o manietado e indefeso jazendo no asfalto decide acrescentar toda a sua autoridade e força sobre o homem que nada faz no asfalto – carrega no pescoço do indefeso todo o peso do seu corpo com o seu joelho.

Como se o debaixo fosse uma presa, pois de um negro se trata e para o de cima um negro é alguém a quem se pode colocar um joelho no pescoço, como se fosse uma presa de caça.

Quem está com o joelho no pescoço do homem sente que ele começa a não poder respirar. E o debaixo que tem o joelho no pescoço diz ao de cima que não pode respirar.

O de cima já sabia que ele tendo o joelho com todo o peso do seu corpo em cima do pescoço do outro, ele não poderia respirar.

Quando o debaixo confirma que ele não pode respirar, o de cima atingiu muito provavelmente o resultado pretendido, pois todos os homens do mundo sabem que se colocarem um joelho no pescoço de outro homem carregando com o seu peso, o debaixo não respirará.

Neste caso o debaixo diz ao de cima aquilo que é evidente – Não consigo respirar. O de cima vê ratificado o que já sabia, que o está sob a pressão do seu joelho não pode respirar.

O de baixo implora ao de cima para tirar o joelho porque não consegue respirar e o de cima bem o ouve. Porém, o de cima tem farda e é branco e também sabe que um homem que não pode respirar não respira e se não respira pode morrer. É o que todos sabem, brancos e negros.

Só que o branco fardado tem debaixo do seu joelho o pescoço de um preto que ele conhece e o que ele possa dizer pouco importa porque ele é o dono do outro, tanto assim é que o tem como um animal de caça e sabe que é razoável que não possa respirar. Ele já sabia que ele não poderia respirar, tanto que lhe confirma já quase desmaiado que não respira.

O homem fardado não está só. O que está só é o que tem o joelho no seu pescoço e já não consegue respirar.

Passado algum tempo o homem não respira. O de cima era um polícia. O debaixo um negro. Quando o polícia carregou o seu joelho e o seu corpo sobre o pescoço de George Floyde sabia que ele não respiraria.

O que ele não sabia é que o seu joelho não sufocou apenas George Floyde, mas toda a Humanidade. Todos os homens decentes do mundo se sentiram sufocados como se tivessem no pescoço o peso do joelho daquele polícia de Mineápolis.

E a América, a grande América levantou-se para não se deixar sufocar. Será que voltará a ser grande e mais nenhum polícia poderá assassinar negros da América?

 

https://www.publico.pt/2020/06/03/mundo/opiniao/homem-nao-conseguia-respirar-morreu-1919094

As alfurjas do Chega

 

Quem se atreveria a imaginar que o capitão Bolsonaro, vinte anos deputado, encostado à dolce vita parlamentar brasileira, sem qualquer relevo a não ser pelo recalcitrante apoio à ditadura militar, pudesse vir a ser Presidente de um dos maiores países do mundo? O seu currículo resumia-se a defender os piores crimes da ditadura de modo grosseiro e banal, um cavernícola nunca levado a sério no que toca a ser eleito Presidente. Não passava de um capitãozeco extravagante de segunda ordem.

Mais ao Norte, naquele mesmo continente, quem imaginaria os EUA serem dirigidos por um magnata da construção civil que trazia consigo um lastro de corrupção, negocismo, de fuga aos impostos, supremacismo branco, homofobia, racismo e a mais completa incompetência para o cargo? Quem imaginaria esta personagem dos reallity show Presidente do país de Lincoln? Quem poderia imaginar esta personagem a receitar cloroquina para atacar o coronavírus, depois de aconselhar lixívia? Sim, é verdade, não é realismo fantástico, a cruel realidade vinda dos EUA…

A História a todos surpreende pelo seu elevado grau de imprevisibilidade; os fenómenos não são todos determinados pelos mais estudiosos, e nem por isso o mundo deixa de ser o que é – a anormalidade que de repente se normaliza.

Vale a pena fazer esta pergunta: Houve ou não um olhar benevolente para estes dois homens, sempre encarados como outsiders? Foi feito o que devia ser feito para o impedir?

Até certa altura o seu extremismo era tão evidente que por esse facto pensava-se que seriam barrados pelo apego democrático às instituições das populações de ambos os países.

Pois é, mas não foi. Quando se ouvem inúmeras vozes de democratas a defenderem que se não dê combate a André Ventura porque daí resulta a sua valorização e importância, vale a pena refletir com base na experiência de outras situações similares.

A eleição de Bolsonaro é a esse respeito elucidativa. E a de Trump também. Ambas subavaliadas quanto às suas possibilidades.

Em todos os povos há classes parasitárias e largas camadas sociais que se deixam atrair pelo oportunismo imediatista, pela promessa de autoridade que resolva problemas graves, pelo nacionalismo cego, pela violência contra as minorias, por homens assumidos como providenciais que dizem o que se diz no café ao contrário dos políticos que se entendem fora do parlamento para se governarem, e o rol é vasto. Sabemos que Salazar e Caetano se aguentaram 48 anos…é caso para pensar. A autoridade ditatorial a impor-se a um povo conformado, salvo honrosas e extraordinárias exceções.

Quando Ventura propõe a deportação de Joacine, o confinamento dos ciganos, o regresso à cadeia de todos os presos libertados, a castração dos pedófilos, o aumento das penas de prisão, e quando propala mentiras evidentes sobre o que Catarina Martins não disse, quando destila ódio contra o 25 de Abril e incensa a relogiosidade, poderá haver dúvidas que os antifascistas devem combater com serenidade, lucidez e inteligência este político que se tornou graças ao futebol e à CMTV/Correio da Manhã conhecido e seguido por franjas da sociedade portuguesa?

Poderá haver qualquer dúvida sobre o extraordinário trabalho do jornalista Manuel Carvalho acerca dos meandros do Chega e do seu mundo que o sustenta e que trouxe à luz do dia as alfurjas tenebrosas do Chega?

Caminhamos para dias muito difíceis com desemprego a níveis assustadores, com miséria e fome e uma U.E. nas encolhas e com um governo a esquecer-se dos que vivem muito mal, arrombando a Segurança Social para que as grandes empresas beneficiem dos descontos de que trabalhou e descontou.

Neste terreno medram os profetas evangélicos e outros, os adoradores do autoritarismo, os seguidores do mais boçal primarismo, os vendedores do divisionismo, os que se agacham na democracia para a morderem. Haja quem os combata desmitificando e esclarecendo as virtudes da vida democrática e das suas instituições. Que ninguém subestime a bestialidade e que não se deixem surpreender.

https://www.publico.pt/2020/05/29/opiniao/opiniao/alfurjas-chega-1918531

PS, fofinho ao centro

 

A financeirização das economias à escala global retirou aos Estados importantes instrumentos de intervenção passando a governação a fazer-se em estreitos parâmetros, reduzindo o leque de políticas alternativas. São precisos políticos e políticas prontas a vestir e em regime de take away. Tudo já feito e certificado por uma caterva de burocratas cuja função é certificar que ninguém tem mais um centímetro, nem meia dúzia de quilos a mais, nem alma. Os serviços públicos fortes são gorduras a mais.

Os países devem entrar todos, independentemente do estado de desenvolvimento das suas forças produtivas, no mesmo torniquete. Os mais fortes ficam mais ainda, e os menos, menos. Uns, poucos, recebem por contrair dívidas, outros ficam sem poder investir deixando serviços públicos essenciais à míngua.

A pandemia resultante do coronavírus mostrou o quão importante é um SNS forte para proteger a comunidade, em vez de um serviço de saúde baseado no lucro, onde a cura depende da conta bancária. Veja-se o que está acontecendo no Brasil e nos E.U.A…Aliás só o SNS salvou Portugal, pois os “eficientes” privados retiraram-se para se proteger do contágio.

A mesma U.E. que impôs o programa de empobrecimento, vem agora com todo o desplante afirmar que Portugal descurou a Saúde… pois, com a U.E a exigir mais cortes.

Nesta crise brutal que já provocou desemprego, miséria e até fome, as vozes que se erguem e são ouvidas são sobretudo as dos empresários de peso porque as dezenas e dezenas de milhares sucumbem sob o peso da crise pandémica.

O que se vai percebendo do posicionamento da CIP que se multiplica em encontros confinados a Belém e São Bento, é que o Estado passaria a ser um entreposto para a passagem do dinheiro vindo de Bruxelas a ser pago pelos cidadãos em impostos que consideram inevitáveis, em contraste com a inevitabilidade da redução dos impostos sobre os lucros…e até a distribuição de dividendos e de prémios aos espantosos e maravilhosos gestores do Novo Banco.

A tal subvenção decidida a dois, um(a) grande e outro pequeno, fazendo a Europa encafuar entre Berlim e Paris, como se o resto fosse paisagem. Merkel a fazer de conta que a França ainda tem la grandeur que já não tem, mas está falida de recursos de Saúde como se viu, graças à invasão dos privados na Saúde à custa do Estado.

Neste mar de difícil navegação António Costa não fez como Ulisses, não pôs cera nos ouvidos, não amarrou César, nem Siza e parece reacertar o rumo do PS em direção à velha política, àquela que dizem não ter alternativas a não ser respeitar as regras dos sacrossantos mercados financeiros, como no caso do Novo Banco, a fazer de conta que o Estado será reembolsado pelos amigos do Rei dos frangos…

Sem coragem, entre Cila e Caríbdis, Costa decretou o confinamento do PS ao rei dos afetos, o pantomineiro mor do reino, o inefável Presidente, Primeiro-Ministro, Ministro da Saúde e Diretor Geral do Reino e tendeiro do Minho ao Algarve, passando por Tio em Cascais…e chico esperto a anunciar como foge aos polícias para dar um mergulho na abertura da época balnear.

Costa encolheu o PS, desvitalizou-o para as presidenciais. O PS de César e Santos Silva é um doce conventual para ser degustado em soirés confinadas entre Rio, Costa e os outros, com harmoniosos convívios servidos com canapés de Cascais, entre gente afetuosa, sem laivos de qualquer agressividade, salvo se a destinatária for Ana Gomes. Tudo uma doçura. O canto das sereias foi mais forte que a alma dos seus dirigentes.

https://www.publico.pt/2020/05/22/opiniao/opiniao/ps-doce-conventual-cesar-santos-silva-1917613

Marcelo e Costa sem máscaras

 

Hoje os banqueiros sabem que podem arruinar bancos que os Estados por via dos impostos dos cidadãos virão em seu socorro. Claro que há uma parte do “socorro” que se entende e que tem a ver com as poupanças dos clientes. O resto é arenga para manter a santidade dos mercados a funcionar. Vale a pena ter em atenção que em Portugal os banqueiros “arruinados” continuam a fazer a mesma vida, enquanto milhões de portugueses viveram dias dificílimos. Com a troica a pobreza ficou muito próximo de um quarto da população. Vamos ver como fica no fim da pandemia.

Tenha-se em conta o comprometimento do antigo triunvirato Cavaco/Passos/Carlos Costa no que ao BES se refere. Deram todas as garantias de que era um banco seguro. Depois quando já não era veio Maria Luís Albuquerque jurar que partiam o banco em dois e o Novo Banco seria bom e o outro o mau. Quem já se esqueceu? O banco bom já nos levou 7.876 milhões de euros… E quanto mais irá levar?

Entretanto, o país assistiu à bravata em torno da alegada falta de informação de Mário Centeno a António Costa da decisão tomada no Conselho de Ministros quanto ao momento da transferência dos 850 milhões de euros para o banco bom. Sabia-se, melhor, intuía-se que o enlevo de Costa por Centeno passara para Sisa.

Quando Costa se atirou com toda a repugnância ao Sr. ministro das Finanças dos Países Baixos havia no adjetivo qualificativo uma intensidade que parecia ir para além do destinatário. O vigor ecoou nas paredes das salas de reuniões do eurogrupo. Era repugnante o que o ministro dissera, e o silêncio do eurogrupo?

O próprio pedido de desculpas de Costa a Catarina dava ares de serem setas atiradas ao novo São Sebastião das Finanças.

A surpresa chegou mais tarde com o encontro na Autoeuropa alemã de António Costa/ Marcelo. Ambos sem máscara a encavalitaram-se ao colo para declararem que no regaço levavam uma eleição presidencial, eram votos no regaço esclareceram a quem os quis ouvir. Não eram rosas.

Na guerra com Centeno, Costa ganhou Marcelo. Este, na batalha pelo plebiscito presidencial, ganhou Costa e o PS ficou órfão, sendo o maior partido neste momento. O encontro de ambos poderá vir a figurar nos manuais de amor ao próximo.

Marcelo tem raízes capazes de chegarem a qualquer lado, a distância entre Belém e o Rato é significativa, mas pelos vistos alcançável. E sem ser a nado.

Portugal confinou-se ainda mais. Em Belém a música não mudará face à entronização de São Marcelo. São Bento que se cuide se se fiar na virgem. A sedução está concluída. O PS fica a ver o andor de São Rebelo. À esquerda pelo que se vislumbra haverá uma competição pela liderança da segunda Liga, num país em que a direita é minoritária.

Costa e Marcelo envolveram-se a fundo nos destinos de cada um, sendo que Marcelo depois de eleito fica de mãos livres e Costa não.

Enterraram Centeno, mesmo que o funeral tenha sido adiado. E para que conste o Estado continuará a pagar o Novo Banco, não se esqueçam.

https://www.publico.pt/2020/05/18/opiniao/opiniao/costa-marcelo-mascara-1916910

A desventura de André Ventura

 

Os humanos são seres muito especiais. Vêm de muito longe, diz-se que do fundo dos tempos. Quem viu o magnífico filme de Stanley Kubrik “Odisseia no espaço” terá certamente registado o instante em que de um grupo de macacos se destaca e servindo-se de um osso de um outro animal “dá conta” que o pode usar com violência contra outro. Descobre o instrumento/ferramenta.

Não se sabe com precisão o momento que os macacos se ergueram e iniciaram a sua marcha a caminho de se humanizar.

Sabe-se, no entanto, que esta verdade trouxe grandes dissabores a Darwin e continua a trazer a outros defensores do evolucionismo, dado o poder dos negacionistas que só aceitam a fórmula do Génesis e do casal desgraçado (Adão e Eva) para toda a eternidade devido à sua ambição em querer abarcar o conhecimento, o qual estava reservado à divindade.

Do grupo às tribos, às comunidades, às cidades, às nações e países, foi um longo percurso a desbravar ignorâncias e a abarcar conhecimentos.

Os filósofos gregos, não renegando as múltiplas divindades, defenderam o homem como medida das coisas. Epicuro foi mais longe e lançou a primeira pedra do materialismo.

As mãos que matavam e faziam razias podiam ter outros gestos e acarinhavam. Veio a escravatura e logo se impôs Espartacus.

Na velha Galileia Cristo era Deus feito homem. São Paulo defendia que todos os homens eram irmãos, mas a própria Igreja se esqueceu dessa irmandade ao adotar as práticas do velho Império romano, incluindo a escravatura.

Portugal e Castela trouxeram a primeira globalização e com ela o colonialismo sustentado em Impérios.

E o mundo humano continuou na sua senda e a rodar e o que parecia eterno afinal não era.

Vieram séculos de ignomínia com as perseguições aos judeus e hereges, a mando da Inquisição.

O colonialismo foi-se. E ficaram Gandi e Mandela.

Hitler insistiu na estrela amarela na lapela dos judeus. E abriu fornos de cremação para quem não pertencia à raça ariana, incluindo ciganos e judeus.

Passaram há dias 75 anos da derrota do nazismo. A Europa e o mundo sofreu 50 milhões de mortos.

Parecia que havia um tempo gasto, morto. Mas a verdade é outra. Vozes enterradas fazem-se ouvir com o seu ódio, aproveitando o desencanto de um mundo com tanta desigualdade.

Quando a significância de André Ventura resulta de assumir posições que no passado levaram às maiores desgraças é assustador. A defesa do confinamento dos ciganos, da deportação de Joacine ou outros atoardas sobre o 25 de abril insere-se num roteiro de aproveitamento político de alguém que se quer apresentar contra o sistema, mas sempre viveu dele desde o futebol à política mais reles.

Representa em termos políticos o que de mais simbólico existe de desventura humana – a perseguição a outros seres humanos.

https://www.publico.pt/2020/05/11/opiniao/opiniao/desventura-andre-ventura-1916031

A motosserra do Sr. Rodrigo G. Carvalho

 

É hoje forte o sentimento na nossa comunidade que o SN de Saúde foi até à data o serviço público que tratou e salvou os doentes COVID-19, apesar de descapitalizado, atacado e desprezado pelos vários governos. Sem o SNS a pandemia teria dizimado muitos milhares de portugueses.

Aliás os países com um forte SNS responderam muito melhor à crise que os países onde os cidadãos que queiram ter acesso à saúde têm de a pagar.

Na verdade, serviços públicos fortes, modernos, desburocratizados e ao serviço das populações são elementos chave de um Estado moderno, democrático e vocacionado para proteger.

Ora esta conclusão óbvia não se encaixa nas ideias dominantes de sobrevalorização do papel do indivíduo prevalecente sobre o da comunidade que está em sintonia com a elevação da empresa a um novo paradigma de proteção estatal fundado num quase direito natural.

O que parece contar é a sorte das empresas, sobretudo as grandes. O Estado, a entidade “despesista e gastadora”, de repente tem de ir socorrê-las para a sua salvação. O tal Estado malfadado faz-lhes falta quando a iniciativa privada não está capaz de responder aos seus desafios próprio das sacrossantas leis do mercado. Vejamos de outro ângulo – quando há lucros fabulosos a ordem é arrecadar, quando há prejuízos a ordem é para lançar impostos e os cidadãos pagarem.

Há até quem candidamente defenda que o Estado garanta um empréstimo à TAP de 300 milhões de euros para salvá-la e entrega-la a reluzir à sociedade Barraqueiro/Neelman…que grandes capitalistas…

Parece ser uma nova religião que preconiza que o Estado subvencione os mais poderosos e sobrecarregue os que vivem da força do seu trabalho, como se o salário fosse um peso e sempre imerecido. Felizmente que muitos são os patrões que não têm esta visão, mas esses não têm voz nos media.

A iniciativa privada é essencial numa sociedade moderna, mas de acordo com as regras do mercado e não baseada no critério de que na sua atividade o risco é do Estado e o lucro do capital.

Aliás os lucros de algumas dessas empresas vão direitinhos para os “repugnantes” holandeses enchendo-lhes ao cofres e deixando o maldito Estado português à míngua, mas obrigado a socorrer os mesmos de sempre.

Quando chegar a hora de fazer contas vira o disco e toca o mesmo – austeridade. Não se pode tocar nos lucros, só nos rendimentos dos que trabalham e nesses pode ser à bruta porque aguentam, aguentam, como afirmou o célebre banqueiro…

Dinheiro já (não pode ser amanhã de manhã) a fundo perdido. E a vida das famílias, dos trabalhadores com menos um terço do vencimento?…Alguém deu conta da necessidade de remunerar mais dignamente os enfermeiros, os médicos, os cientistas das várias áreas sem os quais as mortes eram aos milhares…Já foi feito o ato de contrição sobre o sair da zona de conforto que levou milhares de enfermeiros e médicos portugueses a sair do país? Um dos rostos desse período negro aparece confortavelmente e todo pimpão, com ares de cientista, pianinho, pianinho, a botar postas de pescada sobre o coronavírus. Refiro-me a Sua Excelência o Paulino das Feiras, dos retornados, dos ex-combatentes, do irrevogável, do Vice-Primeiro-Ministro que ultrapassou na corrida Maria Luís e todo lampeiro perora na TVI. Ele é que sabe e por isso estendem-lhe a passadeira…Depois de tudo o que foi agora é virologista formado na Rua do Caldas.

Na SIC, em entrevista à Ministra da Saúde, o Sr. Rodrigo atirou-se como uma fera a propósito da comemoração do 1º de maio da CGTP e instou-a a esclarecer o que lá fazia Jerónimo de Sousa de cima dos seus setenta e três anos. Veja bem Sra. Ministra aquele velho desconfinado, um dirigente do PCP nas comemorações do 1º de maio…

O Sr. Rodrigo estabeleceu uma linha fortificada que ia da Alameda até à Cova da Iria. Queria a todo o custo saber porque não autorizara a peregrinação e a missa no santuário, em contraste com o que se passara na Alameda.

Marta Temido explicou o conteúdo da decisão presidencial contida no Estado de Emergência sobre aquela data e referiu as conversações com a Igreja que não passaram pelo modelo da Alameda.

Porém, como o Sr. Rodrigo se achava portador do inconfessável propósito da Ministra, a entrevista tornou-se num interrogatório. Com toda a simplicidade do mundo, um sorriso e um olhar firme teve de responder ao Sr. Rodrigo que estava ali para esclarecer e para tanto esclareceria. Foi então que ele deu conta que se acabara a gasolina da motoserra. Ficou a imagem de Marta Temido feliz com a resposta do SNS.

https://www.publico.pt/2020/05/04/opiniao/opiniao/sns-motoserra-senhor-rodrigo-g-carvalho-1914955

 

ANTES DE 25 ABRIL 74 NUNCA ESTIVE CONFINADO, SÓ PRESO

 

 

Antes de 25 de abril de 1974 nunca estive confinado, antes preso no forte de Caxias. E a razão da prisão: exercer os direitos cívicos mínimos – expressão, reunião, associação. Era dirigente da Associação Académica de Coimbra. Para me prenderem apontaram-me uma arma e levaram-me. Na prisão tiraram-me o cinto, os cordões dos sapatos, a esferográfica e os papeis que tinha. Cortaram-me o cabelo. Encerraram-me numa cela que mesmo durante a noite tinha uma luz acesa. De tantas em tantas horas abriam o postigo e olhavam para dentro da cela. Quando chegou o pijama tinham tirado o cinto.

O recreio de uma hora só dava para ver o céu e o caminho da cela ao terraço bloqueado de muros de muros altos era cuidadosamente preparado para não ver nenhum outro preso. Vinham a meio da noite e levaram-me de Caxias para a Rua António Maria Cardoso para por meio da tortura do sono fazer com que eu confessasse que pertencia ao Partido Comunista, o que significava no mínimo dois anos de cadeia. Ali estive “confinado” a pé sem me poder sentar sequer três ou quatro dias e noites, já não me recordo.

As cartas que escrevia eram entregues abertas e as que recebia abertas estavam com o carimbo da DGS, a PIDE com outro nome. Os maços de cigarros vinham abertas e a comida inspecionada e cortada para ver se lá havia algo.

Da minha cela via um pouco de mar e a estrada que ia para Caxias e Cascais. E a mudança de turno dos GNRs. Ouvia o ruído da vida através das grades. Raramente via passar pessoas ao pé do forte. Havia uma ou duas crianças que às vezes surgiam numa das curvas da estrada e pensava como seria Portugal quando tivessem a minha idade de então – 21 anos. Uma vez deu me vontade de assobiar para alguém, mas o castigo esperado impediu-me de o fazer. No recreio, às vezes, via gaivotas, pardais e um ou outro avião.

Com tantos companheiros presos só ouvia as carrinhas partirem e chegarem. Para saber quantos eram os dias de torturas tomava nota do dia da partida do preso e depois esperava para o ver chegar se fosse de dia.

Quando me deixaram chegar livros, estudava e lia. Aprendi a comunicar por pancadas na parede, mas os guardas também conheciam o abecedário.

No recreio atirava miolo de pão com um papel dentro com o meu nome à espera que o vizinho fizesse o mesmo.

Não entrava nenhum jornal, nem rádio. Não havia notícias no reino do terror. Quem ali chegasse devia saber que não era dono de si próprio e teria de vomitar o que a PIDE queria. A única notícia seria a confissão, se houvesse.

Havia um silêncio feito de terror que oprimia a alma até quando se dormia com a tal luz acesa vinte quatro horas. Silêncio e no lado da minha cela livre o vento no seu lúgubre assobio, indiferente à sorte dos que não podiam ir fazer compras, nem passear o cão… Apenas com quatro ou cinco metros entre a porta e as grades, sem nunca poder sair, a não ser “acompanhado” pelos Guardas.

Tudo isto sob o manto da infamante justificação de que era o resultado de atentarmos contra a segurança do Estado, isto é, de não nos resignarmos e deixar cair os braços para o fascismo pudesse dominar o país na tal segurança. Num dos registos da PIDE era acusado de incentivar a população a recensear-se para poder votar.

Diante de uma pandemia tão poderosa como a do coronavírus os cientistas de vários ramos dentro dos seus saberes aconselharam os governantes a determinar mediadas de confinamento para proteção da população. E foi o que se fez através do estado de emergência.

O confinamento permite a cada um defender-se e defender a comunidade num elevado exercício de cidadania e solidariedade. O sacrifício que impõe não visa os que não concordam com o governo. Visa a defesa da comunidade. É um confinamento relativo, pois há espaço para ir fazer exercício físico e compras e até passear o animal de estimação. É seguramente aborrecido. Mas entre esta medida de elevado grau de civismo e o terror a diferença é monumental.

Não há qualquer semelhança entre o terror e a consciência de uma medida que visa a proteção de toda a comunidade.

 

https://www.esquerda.net/…/antes-de-25-abril-74-nunca…/67571