A agressão dos EUA e de Israel ao Irão «justificada» com vários fins – mudar o regime, liquidar o programa nuclear (já obliterado em junho 2025, segundo Trump), destruir os mísseis balísticos – esconde outro, talvez o mais importante, impedir o rumo ao multilateralismo e para tanto retirar o Irão dos BRICS e da aliança com a China e a Rússia, retalhá-lo e torná-lo irrelevante na região
Percebe-se ainda melhor hoje tendo por referência a invasão do Iraque. A política dos EUA em relação a países com uma política independente, no plano internacional, e riquezas como o já citado Iraque, a Líbia, a Venezuela e o Irão tem como finalidade submetê-los aos seus desígnios.
Neste pressuposto o importante não é a mudança do regime, nem a democracia, no Irão, mas sim destroçar e inviabilizar o país maior que a Europa, com cerca de noventa e três milhões de habitantes, o quarto produtor de petróleo e com minorias impactantes dentro do país e nos países vizinhos.
A clareza exige luz: no Irão impera um regime que persegue todos os progressistas, sejam jovens, mulheres ou homens, comunistas – que o diga o Partido Tudeh – ilegalizado e perseguido, assassinado o seu Secretário-Geral – os sociais-democratas ou simplesmente democratas.
Tal como no Iraque de Saddam. Veja-se o caso da Síria em que os democratas europeus vão a Damasco abençoar o terrorista transformado em respeitável. As ditaduras síria e iraquiana nunca incomodaram os governos no Ocidente, o que os incomodava era serem ditaduras não moldáveis aos seus interesses, como são as do Golfo.
Os que, por este decadente mundo ocidental, se deleitam com as cidades opulentas para os ricos oligarcas russos, ucranianos, europeus ou estadunidenses, invocam a democracia para o Irão, mas fecham os olhos às ditaduras cruéis e sanguinárias de todos os Estados do Golfo, começando desde logo pela monarquia absolutista da Casa Saud, onde para este lado europeu é apresentada como grande avanço democrático as mulheres em certas condições poderem conduzir, enquanto alguns clérigos importantes têm dúvidas acerca da verdadeira condição humana da mulher. O sabre pode continuar a cortar cabeças que na expressão do novo Calígula o que importa é o big money. O assassinato a frio de um jornalista – Jamal Kasshoggi- no consulado turco em Istambul é para esquecer.
Já não há lugar para ingenuidade: no Irão para Israel e para os EUA, quanto menos democracia houver no Irão melhor, pois com liberdade e democracia mais fácil é organizar a luta anti-imperialista, ou não foram os EUA que derrubaram o líder iraniano Mohammed Mossadegh em 1953 e impuseram o novo regime monárquico dos Reza Palhvi, com todo o cortejo de horrores à solta e sob o comando da famigerada polícia secreta SAVAK.
A dimensão do desafio da agressão conjunta assume tal envergadura que o imperialismo europeu, apesar das queixas face ao império de Washington, alinhou, sem hesitações com Trump (salvo Sanchez e a Irlanda, honra lhes seja feita) mostrando que na verdade a UE não tem qualquer estratégia europeia, a não ser seguir o Rei de Mar-a-Largo, o novo centro do mundo.
O conflito é muito mais amplo e pode descambar numa loucura mundial. A agressão da parceria de Trump e Netanyahu ao Irão trouxe à superfície alguns elementos bem relevantes do ponto de vista das alianças dos EUA e do comportamento dos dirigentes da UE.
Independentemente do que se possa pensar da China, da Rússia e do Irão não há dúvidas que a luta pelo fim da hegemonia do Ocidente com os EUA à cabeça, estes três países são a linha avançada deste novo rumo.
Tal como na Ucrânia o conflito é entre o Ocidente alargado e o Sul global, aqui o conflito insere-se no mesmo patamar – a necessidade de abrir um novo relacionamento mundial que não será perfeito (bem longe disso) mas que pode abrir novos espaços de cooperação e seguração que se oponham à unilateralidade dominante e em certo grau em decadência.
Nunca haverá, nos séculos mais próximos, se houver Humanidade, países guia, bondosos, mas sim países com interesses próprios e muitas vezes ferozmente hostis a outros.
O que se decide no Irão é em boa medida o futuro do mundo, a toque de caixa dos EUA ou um novo relacionamento, certamente imperfeito, mas com maiores possibilidades de todos se apresentarem entre iguais.
Atenta a linha que separa os vários conflitos sobressai a lógica do poder brutal. Não há potências boazinhas, há as que querem impor os seus interesses e países a defender os seus, ficando de fora sucessivos governos portugueses cujas lideranças fracas e dependentes do exterior se curvam diante dos grandes à espera de côdeas face ao bom comportamento.
Há séculos que a burguesia portuguesa se caracteriza por ser parasitária, rastejante e com muito pouca dignidade, o que fez criar na população portuguesa a ideia de que o que é de fora é bom e que é ótimo estar na UE para parecermos com eles…
Nunca esquecer a fantástica monarquia inglesa, nossa aliada, que nos impôs o Tratado de Methuen em 1703, obrigando-nos a trocar vinho por têxteis e nos expropriou o Mapa Cor de Rosa 1886 e que levou ao massacre repressivo no Porto dos que resistiram.
Só um governo sem honra e dignidade se presta a esta vassalagem a uma Administração que ficará na História como exemplo acabado da crueldade e da arrogância cujo líder é tanto de violento como de ignorante. É a este homem que o governo e o Estado português se vergam. Registe-se e arquive-se para memória futura.
Neste momento o mundo está em roda livre para os prepotentes de todos os quadrantes e para tanto a primeira linha de argumentação que estabeleceram é a de que têm as melhores e mais poderosas armas mandam e, portanto, os outros têm de se submeter.
O mundo está a explodir de conflitos e não se veem os menores sinais de que há no tempo que corre espaço para a resolução pacífica desses mesmos conflitos. Antes pelo contrário.
A cartada de Trump e do seu parceiro de Israel é muito alta. Certamente que poderão atingir duramente o Irão. Mas vê-se a dureza com que o Irão está a atingir os interesses dos EUA e do Ocidente nos países do Golfo cujas aristocracias se encostaram aos USA por medo dos povos e não sabem o que fazer quando veem as bases militares de segurança serem realmente obliteradas.
Resta-nos ainda a força de confiar na paz como forma de os humanos organizados em nações poderem sobreviver e respirar sem a corda no pescoço ou o sabre ao pé da nuca.
É verdade que neste momento é maior o poder da anestesia que o da mobilização, mas os humanos são como são e às vezes são como não parecem; levados ao limite reagem. Esse é o defeito que nenhuma máquina de IA é portadora. O mundo, não obstante, todas as manipulações, ainda não perdeu os sentimentos.
Trump pode ter feito um cálculo errado. Se assim for, o que pareceria um poder incrível, pode revelar-se uma fraqueza igualmente incrível. Pode chegar à China, se se mantiver a viagem em abril, e ter perdido uma ocasião. Veremos. Se não derrotar o Irão irá pela porta baixa, mesmo que Xi Jiping o não diga. Sentir-se-á, mesmo à hora do chá.