O RISO E A FORNICAÇÃO

Fatima Nejjar, dirigente do Movimento Unicidade e Reforma , ala religiosa  do Partido islamista marroquina, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder em Marrocos, nas sua prédicas islamistas considerava que certos risos das jovens se podiam classificar como fornicação. Assim. Sem mais.

O riso delas e não o deles era equivalente a fornicar. Elas com o diabo no corpo. Eles estúpidos, seduzidos, desgraçados animais sem capacidade de reagir, apenas cio.

Ela, Vice-Presidente daquele Movimento religioso, foi no início desta semana, apanhado de madrugada, num carro de alta cilindrada, com o outro Vice-Presidente do mesmo movimento a fornicar.

A dois meses de eleições legislativas foram demitidos dos seus cargos, embora alegassem que se tratava de uma conspiração contra ambos, pois tinham casado segundo o “costume”.

A polícia marroquina a quem tentaram subornar, segundo os media, não referiu se também se a Dona Fatima se ria na altura em que foi surpreendida.

Ela viúva e ele casado alegaram que não tinham cometido adultério dado o casamento de circunstância, mas sem que a esposa do Vice-Presidente , o senhor Moulay Omar Benhamarad, conhecesse o caso.

Não há nas notícias nada que informe se a senhora Fatima tinha o costume de rir e que tipo de riso teria, caso se risse.

As notícias insistiam no facto de ser uma dirigente altamente colocado e seguidora de um islão duríssimo, onde o riso era considerado ao nível da fornicação.

Provavelmente a senhora Fatima nunca se riu. Mas foi apanhada a rir-se com um senhor.

Muitas vezes o ódio das mulheres e dos homens às mulheres não passa de reflexo das perturbações mentais de quem não se segura em termos de pulsões .

Bem pregava dona Fatima, mas que se ria, ria.

domingos lopes

O SUDESTE ASIÁTICO, CORAGEM PATRIÓTICA PRECISA-SE

 

Um país é o que foi e o que pretende ser. Para construir o presente e o futuro o seu passado faz parte desse objetivo. Na História de Portugal encontram-se linhas que são auxiliares do percurso do país quanto ao seu futuro.

Uma linha que se descortina é a dificuldade de se afirmar na Europa. Tinha à frente os poderosos reinos de Castela, Leão e Aragão e o que se lhe seguia até à poderosa Inglaterra. O ultramar seduzia o periférico Portugal: África, o Oriente e a América aí estavam para lhe dar força no quadro europeu e mundial. Esta linha começou a ser gizada após consolidação da independência. A partir do século XV é uma constante. Levada ao extremo pela loucura colonialista de Salazar e Caetano que transformaram uma visão universalista da política externa portuguesa numa política de total isolamento internacional a pontos dos aviões portugueses não poderem sobrevoar a maior parte dos países africanos. O império impedia Portugal de ter peso no mundo no século vinte e sobretudo após a segunda guerra mundial.

Há quem defenda que o mundo conquistado por Portugal na fase dos Descobrimento era tão grande e pesado que lhe caiu nos pés e nunca mais nos deixou ser uma nação que fosse capaz de se desenvolver e afirmar-se na Europa e no mundo.

Certo é o facto de ao longo de toda a sua História a Europa ter sido sempre um obstáculo à afirmação de Portugal como país com peso continental. Foi na senda africana, asiática e americana que Portugal ganhou peso na Europa.

Quem tem a possibilidade de viajar pelo mundo encontrará presença portuguesa nos vários cantos do mundo.

Foi com imensa emotividade que em Malaca, Malásia, no quarteirão de descendentes de portugueses, encontrei, no mês de Julho, nos seus habitantes o seu profundo orgulho pela vitória de Portugal no Euro 2016. E curiosos acerca do que se passa no nosso país.

Quando alguém avisou na pequena comunidade piscatória que havia ali portugueses logo apareceram a dar conta do seu orgulho e da sua fé cristã.

Deram conta dos festejos da vitória portuguesa no Euro 2016 e da grande festa de São João que fazem todos os anos com a procissão como se fazia no tempo dos portugueses.

Na Birmânia, hoje Myanmar, na região de Bagan, Maniwa e Mandalay há também influência de descendentes portugueses, embora a sorte dos primeiros portugueses naqueles reinos não fosse a mais feliz.

Por volta da conquista de Malaca por Afonso Albuquerque em 1511 é enviada ao reino de Sião coma capital em Ayuatthaia uma missão diplomática para o estabelecimento nesta cidade de pequenas comunidades portuguesas e aí foram construídas igrejas, uma das quais se mantem, a de S. Domingos.

Tendo em conta a forte relação de Portugal em Timor-Leste e a importância de Singapura e Malásia na política daquela região, qualquer política externa portuguesa que se pretenda digna e adequada à situação portuguesa passa por recolocar no radar estes países.

Em Malaca as pessoas pediram-nos para que Portugal não os abandone e se lhes envie professores de português para manterem a língua, o que não sucederá se o governo português não o fizer.

Um maior investimento e aproveitamento das possibilidades numa região com alguns países em sério crescimento ajudaria Portugal a diversificar as suas relações e a criar melhores condições para se afirmar, sobretudo contrabalançar a grande dependência da União Europeia em termos de importações.

Por isso tirar vantagens da nossa História e de uma conduta universalista em detrimento de um afunilamento para a zona euro em crise e com os poderosos desta zona a atarraxar os mais frágeis no torniquete da austeridade para salvar os bancos desses países é fundamental.

Uma abertura de espírito para estes países, aliada às potencialidades dos países de língua oficial portuguesa, é uma questão vital para a nossa República.

É um dever patriótico não desperdiçar o que os nossos antepassados construíram de bom por este país em situação tão difícil do ponto de vista das suas dependências.

Haja coragem, firmeza e inteligência na defesa de Portugal e ter consciência que o afunilamento das relações externas nos faz mais pequenos e frágeis face aos Schäubles e às Merkeles e aos burocratas desta Europa sem alma.

domingos lopes

 

A QUEM ROUBOU PROMETEU O FOGO?

 

 

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O homem apesar de ser moldado pelas circunstâncias materiais que o envolvem, encerra em si uma tremenda necessidade de espiritualidade.

O impacte de tudo quanto o rodeia tem uma enorme repercussão na forma de o reproduzir e de o suplantar.

Talvez a consciência da morte e a efemeridade da vida o obriguem a sonhar, a recriar a existência e a aspirar à imortalidade.

Quando Prometeu, de acordo com a mitologia grega, criou a raça humana e lhe concedeu o dom de raciocinar, deixou Zeus colérico.

Para se aproximar das suas criaturas roubou o fogo do Olimpo: o que levou Zeus a castigá-lo e a agrilhoá-lo no alto do monte Cáucaso por trinta mil anos (nada para um imortal) e a ser picado todos os dias por uma águia que lhe comia o fígado quase todo. Afinal Prometeu tinha fígado como os humanos.

Estas e outras estórias nos foram narradas por humanos porque a Prometeu nunca ninguém o ouviu falar. O destaque vai para Ésquilo que no século quinto A.C. que escreveu a tragédia “Prometeu agrilhoado”.

Os humanos são seres extraordinários para o bem e para o mal. Inventaram princípios religiosos que os ajudaram a viver com maior coesão, mas tão depressa os inventaram como os pisaram. E outras normas criaram.

Prometeu foi inventado? Ou foi Prometeu que inventou os humanos? Quem inventou o fogo?  Não terá sido o homem a ir levar o fogo a Prometeu, apesar de Ésquilo?

Há na Birmânia templos magníficos que encerram outro tipo de espiritualidade, a devoção a Buda.

Há os que são verdadeira arte e outros que são apenas locais de culto. No cômputo geral são dezenas de milhares.

Na Ásia, nomeadamente no Sudoeste asiático, a relação com os deuses é bem mais liberta de formalismos.

Entram nos templos, aproximam-se do altar, oferecem o que trazem e pedem o que os move.

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Entra um casal de jovens tão compenetrados do seu amor e do ramo para oferecer a Buda e dirigem-se à imagem e ali o deixam após se curvarem.

É humano pedir a quem se considera ser superior. Ás vezes esperando pelo milagre para cumprirem a promessa, outras vezes pagando antecipadamente.

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Não parece haver dúvidas que na viagem dos humanos por este mundo não lhes basta a realidade material. Precisam de mais. Precisam de inventar. Criar. Reinventar.

E imaginar o poder que não têm, saber o que não sabem. E usufruir o que a vida nem sempre oferece, mas que se imagina.

Há, também, por isso, muito encantamento e beleza que só as palavras dos poetas descobrem.

Os artistas que imaginaram o templo de Mahamuni Paya,  em Mandalay, seguramente tinham dentro de si um inflamado fervor espiritual de devoção a Buda.

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Ali diariamente milhares de pessoas, a maioria pobres, vão colocar pequeníssimas folhas de ouro na estátua de bronze de Buda e pedir para terem a sorte.

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Os homens são seres incríveis. Fazem estátuas e imagens de divindades e de ídolos. Dão -lhes e pedem–lhes  o que não têm.

domingos lopes

QUANTOS PARAÍSOS?

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`A medida que se atravessam países, regiões e continentes, damos conta do impacte tremendo da religião na vida das pessoas, povos e Estados.

No sudoeste asiático o budismo está omnipresente. Em Bagan, na Birmânia, há mais de dois mil e trezentos templos.

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No Médio-Oriente domina o Islão, assim como em toda a Ásia Central.

N a Europa, na América e na Austrália reina o cristianismo.

Face a esta diversidade de deuses e divindades cabe perguntar: estarão os crentes de cada religião convencidos que só eles terão acesso ao paraíso? Os cristãos creem que chineses, birmaneses, tailandeses, cambodjanos não irão para o paraíso por serem budistas?

Haverá para os muçulmanos um paraíso só para eles e infernos para os outros?

E se houver só um, como creem os crentes de cada uma das religiões? Os seguidores das outras ficam à porta ou vão para o inferno ou encarnam em animais que não queriam? E as excelentes pessoas de cada religião ficam de fora do paraíso onde entrarão outras com menos excelência seguidoras do deus único?

Ao longo dos milénios contabilizamos tanta fome, tanta miséria, tanto morticínio, tanta guerra, tantas montanhas de cadáveres inocentes para agradar aos deuses…ou em seu nome.

Verdade seja dita que os ensinamentos vão noutra direção. Mas o homem foi aos deuses buscar a legitimação da maldade pura para aniquilar o semelhante! E eles tão poderosos nada disseram…

Em Kuala Lumpur, num templo taoista, o deus venerado, o deus da guerra, tinha na sua representação uma carantonha horrível e, no entanto, os crentes vinham, ajoelhavam-se e queimavam incenso…

Qual será a divindade perfeita? A verdadeira? E o que sucede aos outros face a quem entender que a “sua” é a verdadeira e única?

O homem, esse caminhante desde os primevos é capaz de colocar na conduta de outrem a justificação da sua. Os deuses servem que nem uma luva. Inventámos ou fomos inventados? Que tempo será o do futuro? E o dos deuses? Virão novos com o novo tempo? E serão os deuses abandonados pelos homens? Ou os homens abandonados à sua sorte?

domingos lopes