VINICIUS JR E O INCONSCIENTE COLETIVO

Desde que Carl Jung se debruçou sobre o inconsciente coletivo tornou-se mais acessível a compreensão de certos fenómenos que têm origem nas memórias mais antigas da Humanidade.

 Os humanos herdam todo um conjunto de arquétipos dos seus ancestrais que repousam no fundo das placas onde estão calcados pelo ego consciente.

Uma multidão de filiados de um clube de futebol, transforma-se noutra “coisa” com práticas contrárias, muitas vezes, ao perfil de cada elemento da multidão. Se lhe juntarmos o inconsciente coletivo salta para a superfície uma das mais deploráveis características humanas – o racismo.

Vinicius Junior, jogador de futebol do Real Madrid, negro, espalha com a sua arte, nos mais diversos estádios de futebol, a sua grandeza enquanto profissional dessa modalidade desportiva.

Face ao desespero da sua habilidade duas coisas se juntam numa só: o mais primário inconsciente coletivo – ser preto – e a irracionalidade das multidões enfurecidas pelo ídolo adversário que leva à derrota do seu amado clube.

Um negro proveniente dos países que os brancos escravizaram ousar em território branco derrotar os clubes que enfrenta leva-os ao desespero, à cegueira, ao inconsciente coletivo, ao tempo em que os negros eram coisas que se vendiam e cujo valo era pouco; mesmo que disso não tenham consciência.

Pois bem, Vinicius espalha a alegria subversiva pelos campos de futebol e nem todos os colegas adversários e apoiantes destes aceitam a trágica derrota. Uns e outros vão ao fundo dos fundos buscar o que de pior os humanos guardaram.

Se acontece muitas vezes é apenas porque muitas vezes a sua técnica espalha o terror entre os vencidos. E como nada mais têm para apresentarem face ao descalabro, gritam o que os envergonha se estivessem sozinhos e a coberto das multidões exibem toda a repugnância.

Como os tarados sexuais que justificam a sua violência com a conhecida frase – «estava a pedi-las».

Na hora da derrota nem todos se afirmam reconhecendo a grandeza do vencedor.

TRÊS SALAZARES EM BELÉM… DO QUE PRECISAMOS DE NOS LIVRAR.

A primeira volta da eleição presidencial evidenciou algumas características dominantes na vida política nacional.

A primeira é a crise profunda das instituições do regime. Se num exercício de memória nos quisermos lembrar de temas discutidos e que fossem próprios das funções do PR é quase certo que ninguém se lembrará de nenhum.

As discussões foram sobre a espuma mediática que ora corria da Ucrânia para a Gronelândia, ora do SNS para a imigração, ora da habitação para o pacote laboral para cumprir com os mandamentos eleitorais.

Para ainda adocicar mais esta vertente Mendes era o experiente; Gouveia e Melo o Portugal; Cotrim uma espécie de gentleman de garras neoliberais; Ventura o agitador que não concorre a PR; Seguro pouco disse, mas fez um desenho para os eleitores não porem os ovos no mesmo saco do PSD; António Filipe à espera de Godot; Catarina Martins a dar vida ao BE; Jorge Silva quando se apercebeu do erro já era tarde.

Montenegro congeminou que os portugueses estavam mais propensos a aceitar o desígnio triste da AD do que a ter vontade de respirar melhores ares. Enganou-se. Marques Mendes que, nesta visão estava já ungido da função, face ao espalhanço do Sr. Almirante, fica com a “experiência” de não bastar andar anos e anos a debater com a ressonância da caixa de correio da SIC.

Os debates não saíram das televisões. Nas ruas e nos locais de trabalho pouco se discutiu. Os cidadãos desaprenderam a discutir. Refugiam-se nas suas in(certezas) e fogem da disputa. A República vive solitariamente.

Quer a esquerda, quer a direita, desvalorizaram a eleição, pensando erradamente que não haveria muito a fazer e só faltava saber aguardar os resultados para Montenegro ter em Belém um camarada ou aparentado.

A direita mais para ali ou mais para acolá fragmentou-se e só Ventura segurou uma boa parte do seu eleitorado, mas com perdas importantes.

A derrota de Montenegro foi tremenda. A sua intervenção na noite eleitoral foi a de um dirigente sem rumo, aparecendo equidistante entre Seguro e Ventura, o que correspondeu a outro novo erro de avaliação se, entretanto, não mudar o rumo.

Gouveia e Melo e os seus conselheiros esqueceram-se que um bom diretor de recursos, mesmo fardado de Almirante, não basta para ser PR.

A figura cavalheiresca de Cotrim, todo cheio de juventude, apesar da idade, mesmo com o descalabro do PSD, ficou-se pelos 16% que é um bom resultado, mas perdeu uma grande oportunidade …

No lado do PS, Seguro tinha a aura de indeciso e titubeante, teve a coragem de avançar e colher os frutos dessa coragem por se posicionar numa postura centrista. Talvez a lógica de reequilibrar os poderes tenha dado ao socialista mais mole a vitória.

No lado das esquerdas do PS a situação começa a ser verdadeiramente dramática, pois nestas eleições valem umas décimas a mais de 4%…um resultado catastrófico.

António Filipe, sendo o único que revelou conhecimento das funções presidenciais, foi o primeiro a declarar ser candidato, e tal levou a que o PCP visse nessa atitude justificação para o tornar o candidato destas áreas, o que se revelou uma ideia sem sustento, contribuindo para impossibilitar uma candidatura abrangente destes espaços.

A candidatura do BE não trouxe, em termos de apoio, nada de novo ao próprio partido e ganhou a António Filipe umas décimas a mais de votos.

A prova de vida dos dois partidos não os tirou dos cuidados intermédios com prognósticos reservados.

O candidato do Livre não se livrou de um enorme susto e levou o partido a um resultado jamais imaginado nas melhores cabeças do partido.

A crise que afasta os cidadãos da política agrava-se com a crise dos partidos que têm na generosidade uma das suas linhas principais de ação. Sem esquerdas fortes, o país avançará pelo rumo do empobrecimento, como se vê por todo o lado.

A luta pela sobrevivência de cada um só muitíssimo remotamente interessa ao chamado povo de esquerda.  Ou ampliam o campo de ação unitária e de renovação, abandonando a obstinada política de afirmação sectária que atinge o paradoxo dos paradoxos — quanto mais reduzida é a sua influência, mais se fecham sobre si mesmos — ou novos sujeitos nesta área virão a terreiro.   

Entretanto a crise vai continuar, imagine-se o que seria com Ventura em Belém, com três Salazares. UF… do que precisamos de nos livrar.

OS MEUS JOGADORES, NA SUA MAIORIA, GOSTAM DE MIM

DIZ MOURINHO

Tanto quanto é possível saber-se os jogadores de futebol têm para com o seu treinador, quer gostem dele ou não – o dever de seguir as suas orientações e de vencer.

Quando Mourinho por tudo e por nada fala do passado, como se alguém o esquecesse, em certa medida faz lembrar o clube que representa que invoca constantemente o passado.

O passado é muito importante desde que não se viva, em termos profissionais, como se o presente não contasse. O passado pode ser inspirador para o presente; se não for é meramente passado.

Para mostrar os seus créditos, Mourinho vem alegar que a maioria dos jogadores gosta dele, admitindo deste modo que há uma minoria que não gosta dele.

Porém, a verdade é esta: Mourinho não foi contratado para a maioria ou a minoria dos jogadores gostarem dele. Relembrando – ele foi contratado para com os jogadores que tem, ganhar os jogos, incluindo ao Braga. Veremos no Porto para a Taça.

TRINTA MULHERES

Um novo 31

Há trinta mulheres que saírem a terreiro a dizer de Cotrim, candidato a Presidente da República, o que não era necessário vir dizer- que é um homem que as respeitou enquanto mulheres.

Reparem: respeitar as mulheres com quem trabalhou passou a ser uma notícia. Como é possível? Podemos imaginar um Presidente da República a ser notícia porque as mulheres com quem trabalhou foram respeitadas?

O respeito que estas trinta mulheres dizem recebido de Cotrim não vale nada porque pretende esconder o desvalor de uma mulher ter denunciado que foi objeto de assédio.

É aqui que está o quid, embora sem nunca perder de vista que uma denúncia é apenas uma denúncia, nada mais.

As trinta fizeram rebentar com grande estrondo o que uma fizera estalar na vida pública. Sim, as condutas criminosas são quase sempre exceções.

Não se pode dizer que os cidadãos com condutas criminosas passam a vida a cometer crimes, salvo raríssimos casos.

As trinta esqueceram que tal respeito só é notícia porque foi posto em causa. Mais valia não terem criado um novo 31 mediático.

 A NUDEZ DO IMPÉRIO

A conferência de imprensa de Trump e Cª na tarde de sábado dia 3 de janeiro é talvez o melhor espelho da atual Administração estadunidense.

A linguagem corporal de Trump, Hegeseth, Rubio é absolutamente clara quanto ao que lhes vai na alma.  Estavam ali ao pé do microfone para de forma cruel explicar a agressão militar para raptar Nicolas Maduro, Presidente da Venezuela. Como num filme hardcore, o argumento era o mesmo de princípio ao fim da conferência. O plano era cristalino, Trump travestido de Calígula, não precisava de argumentos, salvo a velha lengalenga de que os venezuelanos tinham roubado os EUA e agora iam pagar porque iriam controlar aquele país. A outra justificação que ninguém acredita é a de que Maduro espalhava droga, homicídios e violações nos EUA. Porém, garantiram que doravante os venezuelanos não voltariam roubar os EUA e irão ter de lhes pagar o que irão fazer para enriquecer a população venezuelana.

Garantiram a cada trecho que são o país mais poderoso, com as melhores armas e que todo o hemisfério sul é zona dos EUA e ainda os que se colocam fora desta opção suceder-lhes-á o mesmo que a Maduro, desde logo Cuba como referiu Marco Rubio, refugiado cubano.

Numa conferência de imprensa dirigida pelo dedo de Trump com respostas antes das perguntas concluírem, tudo ficou às claras – a vida é um grande negócio, disse o novo Calígula.

Este é o novo imperador do império ocidental a quem os súbditos europeus se atropelam para lhe cair na graça, havendo até quem o considere, com muito afeto, tratando-o como paizinho, como o caixeiro-viajante Mark Rutte.

Trump ameaçou tudo e todos, sobretudo as potências que lhe podem fazer frente. Quis passar a ideia da sua força, precisamente no momento do seu declínio acentuado.

A droga campeia nos EUA porque a vida naquele país para uma grande parte da população é um inferno e os sem abrigo crescem em todos os Estados. A pobreza espalha-se. Os massacres no país continuam, apesar dos anúncios de tranquilidade de Trump.

Trump e os multibilionários que constituem o seu governo vivem numa bolha que é negada pela realidade.

A ação armada contra a Venezuela para raptar o Presidente Maduro parece ser o início de um processo de ações violentas contra todos os países que se não subjuguem às ordens do império.

Cabe aos países amantes da liberdade e da cooperação internacional, aos povos, às instituições internacionais, desde logo à ONU, não se submeterem à velha ordem canhoneira para espoliar os países e os povos dos seus recursos naturais porque como diz Trump a vida é um grande negócio. Mas a vida pode ser a mais bela epopeia se ela for vivida entre todos com os melhores sentimentos de que os humanos são portadores.

PIRATARIA INTERNACIONAL

O que melhor define a conduta internacional de Donald Trump é o cerco, o ataque e a captura do Chefe de Estado venezuelano, Nicolas Maduro, na madrugada de sábado dia 3 de janeiro.

Trata-se, como é óbvio, de uma ação de pura pirataria da potência dominante na região, com base no monumental embuste da proteção do tráfico de droga do país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

Tal como no Iraque a mentira do tamanho do mundo foi a existência de armas de destruição massiva, aqui é a da exportação de droga.

Os EUA são o país com um total de trinta e quatro intervenções militares em todo o mundo, 752 bases militares espalhadas pelo planeta, 168 044 militares em vários países; um país que só reconhece os seus interesses como pertencendo ao núcleo dos seus interesses vitais.

O país que comanda o destino da NATO e trata os aliados como sendo seus vassalos, designadamente no caso da Gronelândia.

Choca, pois, a posição da Alta Representante da UE para a política externa que justifica a conduta de Trump com a falta de “legitimação democrática” de Maduro, como, se um qualquer país tivesse algum mandato respaldado no direito internacional para atacar militarmente outro país pertencendo à comunidade internacional, como se kallas defendesse uma intervenção militar na Arábia Saudita para a realização de eleições.

O “mandato” da intervenção militar por ordem de Trump que Kallas apoia, como o faz em relação à ocupação de Gaza e Cisjordânia por Israel, é o da força brutal, restabelecendo o domínio das nações com base na exibição da bandeira imperial.

Trump prossegue a política de agressão de Kennedy, Johnson, Nixon na Indochina, de Clinton na Jugoslávia, de George W. Bush no Iraque, de Obama no Médio Oriente, de Bush no Afeganistão.

O mundo está frente a uma bifurcação: ou a lei da selva ou a multilateralidade com o respeito de todos por todos.

A ação armada dos EUA na Venezuela é um sinal do caminho que os EUA/NATO/UE pretendem percorrer.

Que os países latino americanos se unam para encontrar uma solução pacífica para sarar a crise aberta com a agressão militar dos EUA. E que todos a apoiem.

As mulheres e os homens deste mundo não podem continuar a virar a cara para o lado, fingindo que o que se passa no mundo não lhes diz respeito. Fazemos a História que nos faz. Que a indiferença não passe à frente dos sentimentos da empatia e da solidariedade.

ALFAIATE DAS ESQUERDAS, PRECISA-SE!

A ideia central do neoliberalismo de empobrecer a população para depois a “enriquecer” tem muito de ideais que estiveram presentes ao longo dos séculos. A mais extraordinária a este respeito é a das religiões que pregam a felicidade depois da morte, inatingível neste vale de lágrimas.

Se a conjugarmos esta centralidade com a meritocracia temos a síntese perfeita: os que querem, vencem, como diz Montenegro, a propósito de Cristiano Ronaldo, como se uma andorinha fizesse a primavera. São milhões os pobres e só meia dúzia passam no crivo. Esta é a justificação simples para meter na cabeça das pessoas. Se não vences é porque não queres. E todos os dias o martelo martela.

Assim se justificam os ataques aos direitos alcançados porque é preciso que a sociedade se mexa e que dê aos multibilionários mais biliões para distribuírem as migalhas que tombam da pirâmide. Desde logo fatiando as sociedades até ao indivíduo isolado, bem sabendo que esta é a melhor maneira de prosseguir o empobrecimento da maioria e o enriquecimento de uma ínfima minoria.

Esta máquina de empobrecer está em marcha anunciando paradoxalmente que esta é a maneira de enriquecer. E depois dos falhanços do socialismo soviético, da social-democracia e das próprias democracias cristãs, neste chão de desesperança e de competição brutal germina esta ideologia requentada, servida com nova roupagem. Agora os amortecedores sociais estão a mais, e anunciam a transformação dos indivíduos em empreendedores, e os que não vencem só se podem queixar de si próprios.

Neste contexto as várias esquerdas enfrentam desafios hercúleos e a partir do enfraquecimento do chão onde o movimento sindical, operário, democrático e cultural devastado pelos ataques constantes dos governos (pacote laboral, entre tantos) e pelo frenesim do extremo individualismo e egoísmo.

Muita da velha solidariedade foi arredada. Cada um olha para si. Os outros estão distantes e parece que nada se ganha com rebeldia. Há uma nova formatação. O importante é vencer, mesmo que não se vença.

Ora, neste mundo tão inóspito de solidariedade e de esperança as primeiras correntes políticas a serem atacadas são as esquerdas nas suas identidades na medida em que o seu núcleo histórico e atual está, em todas elas, na luta e na solidariedade.

Se cada corrente crescer à custa das outras o que sucede é o enfraquecimento global de toda a esquerda porque as organizações existentes preenchem espaços de certa forma impreenchíveis pelas outras. Parece ter acabado o tempo de quem chegar primeiro ganhar o estatuto de ser representante de si e dos outros. E não é tempo de os novos pretenderem substituir os que já cá estão há mais de cem anos. Nos Descobrimentos erguiam-se os padrões e os povos ficavam debaixo da jurisdição da Metrópole colonial.

Assisti ao debate entre Catarina Martins e António Filipe. Consegui descobrir diferenças na questão da invasão da Ucrânia, mas sem serem inultrapassáveis. Jorge Pinto do Livre apresenta mais diferenças em relação a CM e AF, mas passíveis de serem dirimidas. Por que não se reúnem? Estão à espera de quê? Se as três forças tivessem apenas uma candidatura a negociação com os socialistas seria muito diferente. Já não há tempo, mas a vida política não morre em 18 de janeiro de 2026.

Fazer política não é a arte de exaltar as diferenças; me parece ser a arte de encontrar caminhos comuns por muito limitados que sejam. A unidade para vencer batalhas. As diversas esquerdas representam aspirações da maioria da sociedade. Se as esquerdas se aliarem, a ínfima minoria dos mandantes neoliberais ficará ainda mais à vista.

A importância da unidade sindical na greve geral foi decisiva. O trabalho que costurou o impossível, pode ser o caminho para um alfaiate das esquerdas costurar um novo fato. O sectarismo é uma doença que revela senilidade face aos desafios. O tempo que vivemos precisa de uma renovação à esquerda e fazer com que a força agora mais limitada das esquerdas se amplie com propósitos e ações de unidade. Só assim voltarão à importância de que precisam para os combates por uma alternativa ao governo das direitas, por uma vida digna para todos e por um mundo de paz.

AS DEMOCRACIAS LIBERAIS E A(S) GUERRA(S)

Na Antiguidade, em Atenas, houve largos períodos de vida democrática entre os cidadãos, isto é, os ricos. Os metecos, as mulheres, os escravos e eupátridas estavam excluídos da participação da vida social.

A democrática aristocracia governante passava a vida em guerras a rapinar os povos vizinhos ou longínquos para aumentar a sua força e riqueza.

Sintetizando, desde então, até ao advento do liberalismo as guerras dominaram o panorama mundial.

A democracia liberal não veio espalhar a paz na Europa e no mundo. As burguesias europeias emergentes da revolução liberal, muitas vezes, entraram em guerras entre si e para subjugar os povos das colónias.

Quando no Ocidente se pretende fazer passar a ideia de que a ordem liberal se funda na difusão de valores e da paz, estamos diante de uma enorme manipulação da História.

O exemplo dos mais paradigmáticos desta manipulação grosseira é a dos Estados Unidos da América que se fundaram com imigrantes europeus forçados ou fugitivos (alguns condenados, outros perseguidos) que liquidaram praticamente os povos autóctones.

A classe dirigente dos EUA é de origem europeia. Dominou o país à custa de uma espécie de genocídio dos nativos dos territórios que hoje integram os EUA. E ainda da guerra de anexação de grande parte do México.

Os EUA invadiram o Vietname, o Laos e o Camboja. São mais de 5 milhões de mortos e o início da guerra química com o agente laranja lançado pelo exército estadunidense nas florestas tropicais daqueles países com todos os horrores subsequentes na Natureza e nas populações. Deve acrescentar-se ainda os bombardeamentos atómicos da Hiroshima e Nagasaki no Japão. As intervenções estadunidenses ultrapassam as três dezenas, nomeadamente são trinta e cinco até este dia.

 Foi a democracia francesa com o General De Gaulle como Presidente que tentou manter a Argélia como colónia francesa e durante oito anos (1954 a 1962) anos a guerra colonial na Argélia causou cerca de um milhão de mortos argelinos e vinte e sete mil e quinhentos soldados franceses.

A não menos democrática Inglaterra tentou sufocar a luta libertadora dos povos da Índia, Birmânia, Afeganistão, Chipre, Quénia e Tanzânia com a guerra e o cortejo de horrores e mortos.

Em geral as democracias da NATO não se incomodaram muito com as guerras coloniais portuguesas na Guiné-Bissau, em Moçambique e em Angola.

O Ocidente tentou e tenta ainda passar a ideia de que o colonialismo foi um bem para os povos do Sul e que as guerras que desencadeou foram para os civilizar e até para lhes dar um Deus que se não o aceitassem acabavam nas fogueiras da Inquisição.

Os regimes liberais deram seguimento, nas relações internacionais, ao velho princípio de impor regras a partir das posições dos mais fortes. As burguesias triunfantes do século XIX não abriram no plano mundial uma nova era de paz e de cooperação, antes substituíram no comando das nações as velhas aristocracias imperiais, mantendo o domínio dos povos.  

Em 2003, a invasão do Iraque pelos EUA com o apoio da NATO e particularmente de Tony Blair, de Aznar e de Durão Barroso demonstra à saciedade a manipulação de que as democracias fazem guerras limpas e justas.

A narrativa ocidental continuou a mesma linha manipuladora e rapace não hesitando com base num monumental embuste provocar por via da guerra a morte de cerca de meio milhão de iraquianos e lançar todo o Médio-Oriente num caos do qual não saiu até hoje, tendo-se agravado com o apoio ao Estado mais fora da lei do mundo e ao seu dirigente com laivos de carniceiro, Netanyahu.

Ao apontar o dedo ao imperialismo ocidental, não deixamos de ter presente a doutrina da URSS que considerava que na sua área de influência se fosse preciso para defender o “socialismo” mandavam os tanques, espezinhando de modo cruel o ideal libertador dos povos que deveria ser o apanágio do socialismo.

É preciso pensar e não encarneirar. Pensar é ver as coisas como elas são na realidade. Na verdade, basta olhar como o Ocidente encara a guerra resultante da invasão da Ucrânia com a guerra de ocupação de Gaza para se compreender a terrível duplicidade de critérios.

A Europa enfrenta o perigo de uma guerra no seu território e tal sucede porque na UE a política de submissão aos EUA (independentemente de quem administra) é de tal ordem que a torna cega, descurando que este confronto com a Rússia, se levado até às últimas consequências, se travará em solo europeu num braseiro nuclear em que os sobreviventes provavelmente invejarão a sorte dos mortos. Do outro lado do Atlântico, os EUA seguirão bem longe a loucura europeia, esfregando as mãos por se desfazer dos europeus míopes.

Os valores que os povos, os países e as nações prezam – paz e cooperação não encontram eco na milionária burocracia europeia. Ali campeia a defesa dos privilégios. Os seus valores estão na defesa dos valores da alta finança.

O liberalismo trouxe muito de positivo face ao feudalismo, mas no seu bojo já trazia a exploração dos povos. A sua audácia revolucionária claudicou para não perder os privilégios da nova classe emergente, a burguesia. Os valores são os mercantis, aliás por todo o lugar do planeta se erguem altares ao novo Deus, o mercado, o bem supremo do liberalismo agora com a roupagem de neoliberalismo. O resto é treta.

O HOMO NEOLIBERALIS – ALGUNS TRAÇOS   

O capitalismo na sua fase atual deu uma impressionante guinada no sentido de refundar um novo consenso social com a financeirização da economia e colocando a enorme massa dos assalariados e das classes médias num empobrecimento acelerado.

À falta de melhor qualificativo tem sido designada esta vaga de fundo como neoliberal exatamente em oposição ao liberalismo revolucionário da burguesia emergente do final do século XXVIII e de todo o século XIX.

As dificuldades de competição do sistema visível nos anos 70 do século passado levou as políticas de Margret Tatcher e Reagan ao abandono das políticas sociais do capitalismo para dar todo o poder aos bilionários, criando as condições para cavar um fosso brutal entre as elites financeiras e capitalistas e o resto da população.

Uma das suas características é a natureza impiedosa dos de cima para com todos os outros. Veja-se como o banqueiro do BPI se referiu aos trabalhadores que não puxam a carroça, como se fossem burros, para justificar os despedimentos selvagens da proposta da nova legislação laboral do governo.

Concomitantemente é preciso apagar a memória, esquecer nomeadamente a crise provocada pelo setor financeiro com a derrocada de bancos, a qual foi paga pelos cidadãos a quem os Estados se apropriaram dos rendimentos provenientes dos vencimentos e pensões. Passos Coelhas e Portas e Montenegro foram para além da troica exibindo a sua face de algozes sociais. A novas mudanças ao Código de Trabalho mostram com clareza a natureza impiedosa deste governo, impondo designadamente trabalhar duas horas sem retribuição.

A direita, o centro e a social-democracia deixaram cair as características do Estado Social para entregarem o poder aos grandes grupos económicos, designadamente aos dominantes do setor financeiro. O poder político passou para as mãos do poder económico, nuns casos diretamente, noutros por procuração. Veja-se o caso dos EUA, um governo de plutocratas.

Não existe, segundo Tatcher sociedade, apenas indivíduos. A sociedade é um amontoado de “eus”. O que não vence é porque não merece o reino dos que têm tudo. Quem não vencer nunca passará de uma espécie de um Zé Ninguém.  Se nem a Raspadinha o salvou, resigne-se. Ninguém o irá ajudar. Desista.  Acabou o tempo das solidariedades, agora é o dos empreendedores e dos gestores.

Cada um deve tornar-se num empreendedor de si próprio. Enriquecer o patrão para ser um bom colaborador e com sorte viver melhor e vir a ser patrão. Eis o novo Credo/Código neoliberal.

Na verdade, também está bem presente é a ideia da resignação, a acomodação, a perda de esperança na possibilidade de mudar a vida, daí o ataque aos sindicatos. O trabalhador deve ficar só face ao empregador.

As pessoas baixam a cabeça e agem como se estivessem anestesiadas, sem rumo, não acreditando que podem transformar a vida e escolher outro caminho. Já Éttiene de La Boétie escrevia sobre a servidão voluntária nos finais do século XVI.

O homo neoliberalis está sempre em competição, desde que se levanta até que deita. Não admite outra coisa que não seja o êxito. Vai em busca de quem possa fazê-lo vencer. Tem excelentes coaches que o adestram na arte de vencer. São os seus novos sacerdotes. No altar construído em cima da pobreza está o novo Deus, o Lucro.

Mas esta verdade também é feita de outras verdades. Tudo tem o seu tempo. Agora o tempo parece perdido, mas dentro dele vem outro tempo, seguramente.

Há 51 anos em Abril de 1974, no casulo do tempo, as coisas mudaram. Não tem de ser sempre por via de revoluções, mas quando o rio enche a tal ponto que as margens ficam estreitas, elas acontecem. Tudo vai depender da loucura dos plutocratas e do poder dos cidadãos. Os plutocratas são tão ínfimos que bastava uma leve tomada de consciência desse poder. Veremos.