A coragem e o desassombro de Ana Gomes

Conheci Ana Gomes na Faculdade de Direito da Universidade Clássica de Lisboa vai fazer meio século. Expulso da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra, aterrei na Faculdade de Direito de Lisboa onde o MRPP tinha grande implantação com alguns quadros hoje de grande relevo (Saldanha Sanches, Maria José Morgado, Durão Barrosos, Ana Gomes, entre muitos outros).

Houve um momento raro, talvez 1973, em que todos convergimos em tentar enfrentar os gorilas plantados na Faculdade e lembro a brutalidade da repressão e da Ana a ser espancada por polícias de choque em frente à Reitoria. Tentavam pegar-lhe pelos braços e pelas pernas e ela esperneava e tentava impedir o impossível, ou seja, fugir dos carrascos.

Num mundo insonso, um tanto ao quanto encarneirado, à espera do que está à mão, faz falta a coragem.

Muita História passou nestes cinquenta anos e fui encontrando Ana Gomes na luta pela Palestina, pela eleição de Salgado Zenha, pela independência de Timor Leste, contra a invasão do Iraque e noutras situações. Casos houve em que estivemos e ainda estamos em campos diferentes.

A verdade é que o desassombro da Ana nunca a abandonou. Aliás, quero crer, que esse desassombro fez e faz dela a cidadã admirada, mesmo pelos que não partilham os seus pontos de vista.

Há quem diga em voz baixa que um tal desassombro não seria o indicado para um cargo tão alto. Aconselho a consulta ao dicionário para encontrar o significado do verbo desassombrar e há que não temer as palavras, nomeadamente as que são fortes. Tirar da sombra e aclarar só pode ser de louvar.

Colocando então a questão deste modo mais simples: deve ou não ser o(a) Presidente da República alguém corajoso(a) que diz o que tem a dizer, desassombradamente, porque do alto do seu poder aclara, ilumina, ou deve ser alguém que não diz o que pensa, alguém que pensa no que outros pensam e vai atrás dessa corrente em vez de forjar marés de esperança?

Sejamos claros, merece ou não a luta contra a corrupção desassombro? É ou não a corrupção um mal nacional? A afirmação desse combate não preenche a vida da candidata como é sobejamente conhecido. O impulso e a tensão nesse combate são relevantes. E esse é também o desassombro ao não tergiversar.

A coragem é um dos atributos mais valiosos nos cidadãos que assumem cargos de enorme poder. Portugal e o mundo exigem que haja coragem por parte de quem exerce o poder, e desde logo no vértice.

É preciso a coragem de remar contra as marés do conformismo, do esbatimento ideológico, da traficância de interesses.

Num mundo cada vez mais uniformizado, atrelado aos interesses dos Todo-Poderosos, faz falta a coragem.

Claro que há mais mulheres e homens de coragem, quer no PS, no BE, no PCP, nos outros partidos e fora deles, mas o combate que temos pela frente exige que saibamos ver quem está em melhor posição para fazer frente a Marcelo que muito antes de ser eleito já estava em campanha nas televisões que o projetaram, após inúmeras derrotas eleitorais. Nem com mergulhos no Tejo se safou como tão bem o retratou Natália Correia.

Não interessará tanto saber quem tem mais pergaminhos, tanto mais quanto não foi possível (desgraçadamente) encontrar nas esquerdas um(a) candidato(a).

Um último argumento: a maior desgraça a sair das eleições de 24 de janeiro seria André Ventura ficar em segundo lugar. Só Ana Gomes garante o alívio desse pesadelo.

Assim não poderá haver grandes dúvidas, apesar de lacunas, sobretudo no mundo laboral, que Ana Gomes se coloca na melhor posição para dar combate à candidatura de Marcelo, o homem que vive sob a forma de tropismo mediático, que para estar em todo o lado, não está de verdade em lado nenhum.   

Ao dar o passo e dizer ao seu partido que há gente no PS corajosa e capaz, independentemente do anúncio pessoal de Costa na Autoeuropa, Ana Gomes mostrou a fibra de que é feita – avançar quando podia fazer cálculos e mais cálculos. A sua candidatura é a que tem mais espaço e possibilidades para se bater com Marcelo.

https://www.publico.pt/2020/11/30/opiniao/opiniao/coragem-desassombro-ana-gomes-1941126

O califa de Telavive acha que as mulheres são como animais, mas com direitos

Extraordinário. Que descoberta. Que inteligência. Que surpresa. Que bondade. Que sabedoria. Que justiça. Que avanço. Que beleza. Que sofisticação. Que poderoso. Ai que as mulheres são como os animais, mas com direitos. Não se pode bater. Disse o Califa de Telavive – Alnetaniyahu. O amigo de Trump e de Bolsonaro. Que que. Nas mulheres que são como os animais não se pode bater. E nos homens que são  como Netanyahu?

A um Deus de mil ardis

Maradona era de Lanus, perto de Buenos Aires. Por ali cresceu e percorreu el Caminito para La Bambonera. Jogava futebol como se fosse um Deus de mil ardis. Tudo com o pé canhoto.

O Deus maior dos cristãos nasceu homem a mangar filho de um carpinteiro e de uma mulher porque segundo os livros sagrados foi um disfarce de Deus para salvar a Humanidade. Assim se escreveu e se diz.

Maradona nasceu como um humano sem ser a fazer de conta. A bola fez dele uma divindade impura e como tal partiu cheio de pecados para o céu dos homens. No braço esquerdo levava uma bola para se safar face à balança do Bem e do Mal.

Rio – finalmente CHEGA o diabo às costas de Centeno

Rio quando foi eleito líder do PSD logo anunciou urbi et orbe que dali em diante a política do vale tudo ia acabar. Com ele ao leme bem podia Emanuel Kant jazer tranquilamente que o primado da ética singraria. A paz e a moral repoisariam eternamente no nosso quadrado. Amen. Até ao dia em que precisou do Chega para ser governo regional. O partido mais votado já não seria chamado a formar governo como garantira aquando da formação do governo PS com apoio à esquerda. Explicou: foi o PS que furou a regra no Continente, por que razão não haveria de formar um governo com o apoio do Chega já que as condições impostas são inócuas?

Por serem inócuas nos Açores, Rio deixou claro na TVI que o sendo no Continente também haverá acordo. Mas disse e repetiu com estardalhaço que nunca um governo dele ficará nas mãos do Chega. Só que não explicou o seguinte: Se o Chega tirar o apoio ao governo nos Açores o governo cai, a conclusão é óbvia que se no Continente o PSD precisar do apoio do Chega e este lho der e depois lho retirar o governo cai, dado que a lei da gravidade de Newton também se aplica aos corpos parlamentares. O que é relevante nesta tirada à conselheiro Acácio está no facto do senhor doutor não fazer contas. Normalmente os economistas fazem contas, mas as de Rio não chega(m) a este elevado valor aritmético.

Rio para justificar o acordo alega ainda a inocuidade das condições; pois bem se o são para o PSD são também para o Chega, o que vale dizer que chegam bem um para o outro. Se calhar são um faz de conta. No dia em que o Chega achar que é melhor mandar o governo ao charco por ser contra o sistema, lá vai o governo fazer fila para entrar no Peter`s no Faial para depois ir à vela.

Entretanto convém recordar que o acordo governamental é com o CDS, PPM, mas quem aparece em todo o lado é o Chega por obra e graça de Rio.

Mas Rio foi mais longe e afinal veio dar razão a Passos Coelho avisando que vem aí o diabo. Vai chega(r) com a aprovação do orçamento. E invocou o salmo de São Centeno a propósito dos apoios sociais aos portugueses em risco. Rio e pelos vistos Centeno acham sempre que se pode apoiar a banca com milhares de milhões para o estoiraram, mas apoios aos mais desfavorecidos nunca, estes é que têm de apoiar a banca e o Estado deve existir para tal. E os culpados são alguns dos reformados que vão ter mais dez euros por mês e alguns funcionários públicos mais uns tantos euros poucochinhos e o SNS mais enfermeiros e médicos.

Se se reparar bem é a ladainha de Ventura – as funções sociais do Estado devem ser reduzidas ao mínimo e passar a pagá-las aos privados, os que estão em cheio por trás do apoio ao Chega para o virem a recuperar em força.

Que importa a Rio que Ventura mande a deputada Joacine para África? Ou insulte a etnia cigana? Ou queira introduzir a prisão perpétua e a castração química? Ou a laqueação dos ovários às mulheres que abortarem no SNS, às outras que podem ter acesso aos privados nem pensar. Ou que continue a espalhar ódio e racismo?

Rio o que quer é ser Primeiro-Ministro e para tanto está disponível para vender a alma a André Ventura. Porém, como se sabe, até hoje, o diabo nunca fez maus negócios, desde que foi escorraçado do Céu para atormentar os mortais.

https://www.publico.pt/2020/11/23/opiniao/opiniao/rio-finalmente-chega-diabo-costa-centeno-1940320

Ventura vive do esgoto do sistema

André Ventura é candidato a Presidente da República e licenciado em Direito. Conhece as competências do PR definidas nos artigos 133 e 134 da CRP, mesmo sendo totalmente contra a Constituição. É a que existe e a que o PR jura cumprir e fazer cumprir.

O PR é o Presidente de todos os portugueses seja qual for a sua etnia e a todos tem o dever de defender e de representar. André Ventura sabe que são portugueses todos os que  têm a nacionalidade portuguesa, cujos  requisitos constam da lei da nacionalidade.

É uma rasteirice servir-se do sistema para fazer de conta que a candidatura a PR é para deputado e eventualmente para governar.

Ventura sabe perfeitamente que a sua proposta desumana de castração química dos pedófilos é totalmente inviável e que no país, na Europa e no mundo civilizado não seria aceite. Ele sabe que assim é. Mas joga com os sentimentos mais primários dos seres humanos, com a parte mais obscura que existe na Humanidade, a que está disponível para assistir ao esturricamento na cadeira elétrica e comentar o cheiro a carne assada.

Ventura sabe que ao dar aquele passo atrai para ele essa “multidão” e vai instigá-la a salivar esse primarismo mais retrógrado.

Quando no Congresso do Chega surgiram propostas para retirar os ovários às mulheres que abortem, a finalidade é a mesma – fazer a Humanidade regressar ao tempo da queima das bruxas, bem sabendo André Ventura que tal proposta visa espaço mediático e que o mundo atual vai noutro sentido. Trump enjaulou crianças vindas da América Central, mas vai ter de fazer a mala.

Ventura decidiu transformar a sua candidatura a PR numa rampa de lançamento para obter maior apoio no eleitorado de direita, usando o arsenal do populismo de extrema direita. O seu método habitual é o da trafulhice e da rasteirice – dizer hoje algo que amanhã é desmentido. O pior que o sistema tem; jamais faria acordos com os partidos do sistema…Veja-se o que fez nos Açores graças a Rui Rio.

Ventura sabe e tem consciência perfeita que Ana Gomes é uma candidata saído do PS. Sabe que tem um passado e uma vida de que se pode orgulhar. Mente, portanto, quando afirma que é a candidata da etnia cigana. Sabe que os ciganos são seres humanos e como todos os seres humanos têm a dignidade de todas as pessoas. É um mau cristão.

Ventura sabe que Marisa Matias é eurodeputada e dirigente do BE, tendo obtido uma excelente votação há cinco anos. Ventura mente com todos os dentes que tem quando afirma que Marisa Matias é a candidatura marijuana. Não sabe debater. Engana. Simula. Não joga leal.

Ventura  atira-se aos outros. Insulta. As ideias que anuncia(2 ou 3) são sanguinárias. Ventura sabe que o seu mestre- Oliveira Salazar não introduziu no Código Penal a pena de prisão perpétua. E sabe que os países com penas mais duras como a pena de morte são os que têm mais altas taxas de criminalidade. Nem o sabre da degola saudita às sextas impede o crime. A Espanha tem prisão perpétua, mas Portugal não tem nacionalidades.

Ventura sabe que não há sistema judicial no mundo que não tenha decisões abstrusas. Todos têm. Ventura elogia os juízes, mas não os respeitando e lançando os mais abjetos anátemas, como no caso de Paulo Pedroso. Pega na justiça, como na restauração, como  na corrupção, como na vergonha (sem a ter) porque na verdade ele é como os cucos, aproveita os ninhos dos descontentamentos para lá pôr os ovos. Ventura se tivesse um bocado de um pingo de vergonha dava conta que tudo o que diz nada tem a ver com o que faz e que os outros têm olhos e ouvidos. Procura a bomba propagandística e lança-a à procura dois incautos ou dos parecidos com ele e o Chega. Representa o pior que há no sistema, vive do seu esgoto. Suja quem o acompanha.

O PR é o Presidente de todos os portugueses seja qual for a sua etnia e a todos tem o dever de defender e de representar. André Ventura sabe que são portugueses todos os que  têm a nacionalidade portuguesa, cujos  requisitos constam da lei da nacionalidade.

É uma rasteirice servir-se do sistema para fazer de conta que a candidatura a PR é para deputado e eventualmente para governar.

Ventura sabe perfeitamente que a sua proposta desumana de castração química dos pedófilos é totalmente inviável e que no país, na Europa e no mundo civilizado não seria aceite. Ele sabe que assim é. Mas joga com os sentimentos mais primários dos seres humanos, com a parte mais obscura que existe na Humanidade, a que está disponível para assistir ao esturricamento na cadeira elétrica e comentar o cheiro a carne assada.

Ventura sabe que ao dar aquele passo atrai para ele essa “multidão” e vai instigá-la a salivar esse primarismo mais retrógrado.

Quando no Congresso do Chega surgiram propostas para retirar os ovários às mulheres que abortem, a finalidade é a mesma – fazer a Humanidade regressar ao tempo da queima das bruxas, bem sabendo André Ventura que tal proposta visa espaço mediático e que o mundo atual vai noutro sentido. Trump enjaulou crianças vindas da América Central, mas vai ter de fazer a mala.

Ventura decidiu transformar a sua candidatura a PR numa rampa de lançamento para obter maior apoio no eleitorado de direita, usando o arsenal do populismo de extrema direita. O seu método habitual é o da trafulhice e da rasteirice – dizer hoje algo que amanhã é desmentido. O pior que o sistema tem; jamais faria acordos com os partidos do sistema…Veja-se o que fez nos Açores graças a Rui Rio.

Ventura sabe e tem consciência perfeita que Ana Gomes é uma candidata saído do PS. Sabe que tem um passado e uma vida de que se pode orgulhar. Mente, portanto, quando afirma que é a candidata da etnia cigana. Sabe que os ciganos são seres humanos e como todos os seres humanos têm a dignidade de todas as pessoas. É um mau cristão.

Ventura sabe que Marisa Matias é eurodeputada e dirigente do BE, tendo obtido uma excelente votação há cinco anos. Ventura mente com todos os dentes que tem quando afirma que Marisa Matias é a candidatura marijuana. Não sabe debater. Engana. Simula. Não joga leal.

Ventura  atira-se aos outros. Insulta. As ideias que anuncia(2 ou 3) são sanguinárias. Ventura sabe que o seu mestre- Oliveira Salazar não introduziu no Código Penal a pena de prisão perpétua. E sabe que os países com penas mais duras como a pena de morte são os que têm mais altas taxas de criminalidade. Nem o sabre da degola saudita às sextas impede o crime. A Espanha tem prisão perpétua, mas Portugal não tem nacionalidades.

Ventura sabe que não há sistema judicial no mundo que não tenha decisões abstrusas. Todos têm. Ventura elogia os juízes, mas não os respeitando e lançando os mais abjetos anátemas, como no caso de Paulo Pedroso. Pega na justiça, como na restauração, como  na corrupção, como na vergonha (sem a ter) porque na verdade ele é como os cucos, aproveita os ninhos dos descontentamentos para lá pôr os ovos. Ventura se tivesse um bocado de um pingo de vergonha dava conta que tudo o que diz nada tem a ver com o que faz e que os outros têm olhos e ouvidos. Procura a bomba propagandística e lança-a à procura dois incautos ou dos parecidos com ele e o Chega. Representa o pior que há no sistema, vive do seu esgoto. Suja quem o acompanha.

https://www.publico.pt/2020/11/17/opiniao/opiniao/ventura-vive-esgoto-sistema-1939569

Pensamento em volta de uma noz – nós precisamos mais da noz do que ela de nós.

Ao mastigar uma noz dei conta da seguinte interrogação – este fruto escondido na sua carapaça forticada quantas centenas de milhares de anos ou até milhões de anos precisou para chegar a ser noz? A minha ignorância apenas me permite imaginar o tempo até que a noz se tornasse noz.

E aqui chegado o pensamento logo se desdobrou para imaginar as etapas que sob o Sol e sobre a Terra que foram precisas para que germinassem as sementes e estas por sua vez dessem azo a um novo ciclo para se chegar às árvores que dão a linda flor neste hemisfério em fevereiro/março.

Este caminho que a mente humana despreza enfrenta desafios tremendos.

Um primeiro e atroz em tempo de pandemia é o de que a nossa sobranceria sobre a vida do Planeta pode conduzir-nos ao apocalipse. Nós somos os mais vulneráveis e arrogantes. O Planeta passará bem sem nós, incluindo a pequenina noz.

As árvores, os rios, os mares, os animais e a Humanidade são o resultado de um processo evolutivo de muitas centenas de milhões de anos. Os humanos foram os últimos a surgir. Inteligentes, altamente sofisticados, vêm pisando esta nossa Terra como se fossem seus donos. Mais recentemente obnibulados pelos avanços técnicos, tecnológicos e científicos ditam mão a tudo o que o Planeta tem para o submeter à sua cruel ambição. A Terra dá sinais de enfarte nas suas estruturas. Os rios carregam dejetos . Os mares aquecem e milhões de toneladas de plástico ameaçam as vidas no e do mar. O globo arde em muitas regiões. Um vírus se espalha. A Terra já não consente tanto desvario. O mundo não pode ser um negócio, cujo fim é o lucro. O mundo no seu conjunto é muitíssimo mais que a Humanidade. Podemos perecer enquanto espécie. Ele é eterno. E isso faz de nós seres muito efémeros diante da eternidade. Ea ganância ganha à paz e à generosidade.

Se tivessemos presente o que se andou para chegar à noz, talvez nós fôssemos mais naturais no sentido de que o nosso domínio sobre a Natureza nunca será total. Temos ferramentas ótimas que nos permitem construir aviões, naves e ponte de mais de cinquenta quilómetros, Certo. Como diria o saudoso Joaquim Namorado contemplando a Torre de Pisa com trinta metros de altura com uma pupila de dois milimetros de largura.

O Planeta que recebemos está doente devido à ação humana. Ou paramos ou o Planeta nos enterra.

Uma noz é uma noz. E nós somo nós. Nós precisamos mais da noz do que a noz de nós. Alguém as comerá sempre, mesmo que não sejamos nós.

Teses do XXI Congresso do PCP – petrificação doutrinária

Um organismo que não se renova petrifica, o que é um mal, quase sempre, incurável. A incapacidade para se renovar pode decorrer da própria natureza do organismo ou de quem o dirige. A renovação implica ter a noção da importância da manutenção da força para atuar de modo consequente no presente e no próprio futuro.

A perpetuação de um grupo dirigente no poder é mais do que meio caminho andado para o anquilosamento, na medida em que estabelece um conjunto de princípios visando, no essencial, assegurar a continuidade no comando, e afastar ativistas que não são fiéis.

Quando se proclamam certos princípios intemporais, sem demonstração da atualidade, dogmatiza-se a teoria. Se em finais de 2020 se age como se o mundo fosse o de novembro de 1917 ou chegou a cegueira ou se pretende afastar quem se empenha em atualizar o pensamento e a ação no mundo dos nossos dias. A identidade não é estática, está em constante atualização. O Livro das Mutações foi escrito na China há mais de quatro mil anos e Camões há mais de quinhentos já falava que todo o tempo é composto de mudanças.

O programa do PCP defende que a soberania reside no povo e, por outro lado, nas Teses para o XXI Congresso defende como condição essencial…”a existência de uma força revolucionária de vanguarda capaz de, em cada país, dirigir a luta pela conquista do poder pelos trabalhadores…”. O que quer isto dizer? Uma ladainha para afastar quadros que nunca engoliriam esta mixórdia e assim manter na direção do partido um conjunto de quadros contentes com o poder que ainda têm, mesmo que diminua a olhos vistos ou é para ser lido tal como implica a semântica? Neste caso cabe perguntar tendo em conta os resultados eleitorais nada abonatórios com que trabalhadores vai o PCP assegurar a conquista do poder?  

Já nem o PCUS, nos seus últimos anos de vida, defendia ser vanguarda estatutariamente, o que Álvaro Cunhal acolheu, pois que a existência de uma vanguarda não pode ser conferida constitucionalmente, mas antes na sua capacidade de influenciar e dirigir.

Ora o PCUS com os seus vinte milhões de membros, fora a Juventude do Komssomol (50 milhões), não foi capaz de mobilizar metade de um por cento dessa militância para fazer frente a Boris Yeltsin que com alguns milhares de manifestantes se apropriou do poder. Grande partido de quadros de vanguarda sentados nas suas cadeiras de mando.

A defesa “teórica” de um modelo em que uma direção se perpetua visa afastar do partido mulheres e homens que mobilizados para a luta pelo ideal socialista não aceitam aqueles supostos dogmas jazentes no caixote do lixo da História.

 Os dirigentes da URSS viraram donos das fábricas, salvo raras exceções. Virou o disco, mas os regentes da orquestra são quase todos os mesmos.

Na análise que o PCP faz do mundo na entrada das Teses revela uma obstinada petrificação destinada a manter os fiéis unidos em torno de um mundo imaginário que é o mundo dos que pensam e agem como a direção do PCP, que aliás são cada vez menos.

Por isso, os constantes alertas e denúncias em relação aos que dizendo-se comunistas não passam de reformistas e liquidacionistas por se afastarem dos princípios definidos pelo PCP, o guardião do cofre dos princípios vazios de vida. O que parece contar é o verbalismo, a recitação de grandes tiradas desfasadas da realidade, incapazes de fazer o partido avançar. Que bem os retratou Vladimir Illich Ulianov (na obra acerca da doença infantil do comunismo) que não foi um santo, mas o chefe dos bolchevistas que liderou a revolução russa há 103 anos. Se lhe seguissem o exemplo no que concerne ao estudo das ideias de Marx e dos seus seguidores posteriores, mas ficaram-se pelos camaradas Suslov e Ponomariov que proclamaram a URSS eterna e a metros do comunismo. Como se viu. A petrificação é uma doença incurável, nada a fazer.

https://www.publico.pt/2020/11/11/politica/opiniao/teses-xxi-congresso-pcp-petrificacao-doutrinaria-1938804

As faltas, a falta de pernas e de fair play e a falta crónica de humildade de Jesus

Após o mais forte ter derrotado o mais fraco, é muito provável que se tenha aberto um caminho de reflexão na cabeça do derrotado para saber o que tinha de fazer para vencer.

Cada um pensou nas forças e debilidades próprias. Cada qual aprendeu a olhar para si e para o outro estudando-o o melhor possível para definir os passos e as manobras para vencer.

Na História ficaram registados confrontos extraordinários em que os mais fracos venceram os gigantes. Desde logo David que venceu Golias. E a derrota de Sansão porque habilidosamente lhe cortaram o cabelo.

Todos os povos e todas as nações devem ter tido batalhas decisivas que se travaram em condições adversas. Aljubarrota não deve ser única.

Sempre aquele que estava em situação muito mais desfavorável procurou travar o confronto em condições que impedissem o mais forte de espraiar a sua força.

A primeira tarefa é manietar a força do mais forte, levando o opositor para terrenos onde não possa manifestar o seu poderio, encurralando-o, desaparecendo, atacando inesperadamente e fugindo, ferindo, obrigando-o a um esforço superior e à instabilidade no terreno e emocional.

Quando o “exército” português face ao de Castela escolheu travar a batalha naquele terreno – Aljubarrota- e da forma organizada como o fez teve sempre em vista que o mais forte podia ficar mais fraco verificadas um conjunto de situações planeadas e a executar.

Quando o Benfica se desloca ao terreno do Boavista a disparidade da força é enorme. Ou do Porto em Paços de Ferreira.

Aquele que tem menos poder vai escolher e planear ao milímetro o modo como se defender e atacar. Vai escolher as suas melhores armas. Não vai lançar-se em turbilhão contra o Benfica. Vai esperar pelo repertório do outro e quando lhe for possível apresentar as suas armas e desferir os seus golpes. Tanto melhor quanto mais convencido estiver o mais forte que acabará por ganhar devido ao seu estatuto.

Jorge Jesus não nasceu no Benfica, nem no Flamengo, nem no Braga para o futebol. Veio há muitas dezenas de anos, desde o Freamunde e passando por muitos parecidos.

Às vezes essa situação ajuda os que sobem ao topo a ter os pés assentes na terra; outras vezes não. Um treinador pode dizer muitas coisas, mas as que disser, se mais tarde foram incoerentes com outras, os comandados tendem a não as esquecer e elas , as incoerências, não matam, mas moem.

O Benfica é um clube português que joga a 1ª Liga e precisa da melhor classificação para chegar à Champions. E não chegou aos melhores porque foi pior que o PAOK. A verdade nua e crua. Para ir onde não foi, o Benfica tinha de ter sido melhor. E na Grécia faltaram-lhe pernas. Faltas.

A mania das grandezas nunca fez bem a ninguém. Há sempre um clube “safardana” que mostra que os Reis também têm nudez. Foi o que fez o Boavista. À arrogância, Vasco Seabra respondeu com a máxima humildade.

E não deixou o GRANDE BENFICA DE JORGE JESUS jogar. Manietou-o. Quando um jogador de muitos milhões do Benfica tinha a bola apareciam os operários do Boavista em número suficiente para o não deixar jogar, às vezes cometendo faltas.

As faltas sempre existiram e existirão. Quando um dos chamados GRANDES entra em campo contra um dos outros já sabe ao que vai. Tem de saber que o menos forte vai quebara o ritmo, enervar, carregar e tentar sair das tenazes do mais forte. As faltas são componentes do jogo e reguladas nas suas leis, logo dele fazem parte. Os meninos betinhos que não querem sujar os calções gostariam que os meninos do bairro se aninhassem e deixassem os dos milhões vencerem.

Quando assim for( o que nunca será, malgré Jorge Jesus) acabaria a competição. O futebol são onze contra onze e no fim não ganham os alemães, talvez ganhem mais vezes não por serem alemães, mas por serem mais organizados e combativos. E isso já o demonstrou o nosso engenheiro contra a França em 2016. E quiçá o venha a demostrar mais vezes.

Concluindo – as faltas não podem ser a justificação para a falta de pernas , Mister Jorge Jesus. Haja fair play.

Que surpresa – nem parecia o Marcelinho das selfies

Sim, é verdade, um vírus, algo que se não vê a olho nu, ameaça a Humanidade. Toda a fragilidade humana veio ao de cima. Bem podemos ir à Lua, ficar meses a fios no Espaço a desafiar a gravidade, descobrir vírus, que nem por isso deixamos de ser seres efémeros, que morremos e acabamos literalmente, ou seja, passamos a nada. Depois do nada já vai da crença de cada qual.

Sabe-se da importância da vida e da morte no caminhar da Humanidade. E do amor. Se repararmos bem os grandes temas desde Homero a Shakespeare, de Goethe a Saramago, de Ovídeo a Camus são sempre os mesmos retratados à luz das circunstâncias. A morte enche a vida. Há até uma televisão lusitana que tem correspondentes em todo os cantos para apanhar todas as mortes desde o trator que vira à mãe que mata o filho algures.

Os media descobriram que nos podiam ter ligados todo tempo se nos falarem do vírus que se espalha e mata.

É o confronto entre o hedonismo de uma sociedade super individualista e a efemeridade de quase tudo, embora o vírus tenha escolhido atacar os mais frágeis, como em tempo de globalização em que os grandes engolem os pequenos.

Todos os animais “aceitam” a efemeridade porque dela não têm consciência, enquanto os humanos padecem desse mal/bem. E daí os seus Deuses, alguns que vieram para transformar a efemeridade em felicidade eterna nos paraísos diversos consoante os Deuses, suplantando a efemeridade terrena.

Quem sabe diz que se sabe um pouco mais do que no início do ano, mas que falta saber muito. Assim se pronunciam os sábios, os que se empenham até aos cabelos em descobrir o que falta. Porém há quem não sabendo o que os sábios sabem, sabem navegar entre os difíceis caminhos sinuosos e contraditórios próprios dos peregrinos da ciência.

E descobrem o que está descoberto – que neste caminho há contradições, suposições que se não verificam, erros muitos, falta de planeamento. É verdade isso e muito mais. Que é difícil saber o que fazer o que seja mais certo entre conter a pandemia e manter a economia para não se viver penúrias de bens e as suas consequências.

Na passada segunda feira José António Teixeira avançou para entrevistar Marcelo com uma planificação bem detalhada. Colocando Marcelo entre Sila e Caribe bem lhe assobiou para o atrair ao ataque aos denominados erros crassos do governo e sobretudo de Marta Temido. Marcelo regressou à Faculdade e deu uma aula acerca da história do vírus e de outras pandemias. Só que não era essa a planificação da RTP1 apostada por via do entrevistador em mostrar as fraquezas da ministra, do SNS, do governo e da própria comunicação das autoridades político/sanitárias etc,.

Marcelo, muito hábil, aproveitou para deixar os cânticos das sereias onde estavam e partiu explicando ao que ia, defender no essencial o que foi feito. Ele bem sabia porque o fazia, assumindo-se como o primeiro responsável por tudo quanto sucedeu.

António José Teixeira levou uma lição de estratégia bem planeada e logo ele que ia todo lampeiro falar da falta de planeamento estratégico do governo.

A pandemia está por todo o lado a colocar em cima da vida a nossa finitude, a morte que nos acompanha há milhares de anos. É essa consciência tão evidente que deprime e cansa. Ainda por cima sem fim à vista, como é próprio das vagas. Raramente se está preparado para a morte e muito menos está uma sociedade que esconde a velhice e atrai para a tona da vida o que brilha de jovem. É a sociedade do atira ao lixo o que não dá lucro. A efemeridade é a sua força de atração. Os velhos já deram lucro. Estão agora em contramão. Empacotados morrem sem ninguém que o vírus não deixa.  

Os que mais fizeram para que as coisa se encontrem neste pé, pois a iniciativa privada é fundamental para confinar os velhos face ao abandono do Estado, até no licenciamento, são agora os que mais zurzem e atacam a situação que também criaram.

Valha-nos a lição de Estado de Marcelo à RTP1. Nem parecia o Marcelinho das selfies.

https://www.publico.pt/2020/11/03/opiniao/cronica/surpresa-parecia-marcelo-selfies-1937778

Ai os nossos deuses, que parecidos connosco…criaturas ou criadores?

É curioso observar as divindades que a Humanidade foi criando desde os primórdios até à contemporaneidade. Os homens não passavam sem os seus deuses e as suas deusas.

Em diversos momentos trágicos ou alegres inventaram as divindades adequadas a esses momentos e circunstâncias.

Os humanóides que se ergueram para caminharem e percorrerem novas distâncias vendo o mundo de outro modo talvez ousassem nas suas representações da realidade alcançar o inalcançável. Imagine-se o ribombar do trovão, o barulho lúgubre dos terramotos, a força das ondas do mar, a escuridão da noite e os seus reflexos na cabeça de quem não tinha explicação para decifrar a Natureza.

Não espanta pois que muitas das primeiras divindades fossem o Sol, a Lua, a própria terra que dava alimento.

Os deuses da Grécia da Antiguidade não passavam de representações das mentes humanas.

Sendo a civilização mais avançada e pronta a dominar tudo em volta, os gregos das cidades Estado da imaginaram deuses à medida dos seus sonhos e aspirações.

Tal como na sociedade tinham um vértice também entre as muitas divindades. Umas obedeciam a Crono, Deus máximo derrotado e escorraçado por Zeus.

Segundo Ésquilo, Prometeu ajudou Zeus a derrotar Crono, mas tal como, em geral, os humanos, uma vez no poder os amigos já não faziam tanta falta e Prometeu afastou-se de Zeus, tal como descreveu Ésquilo, supostamente.

Não que sem antes quando soube que era vontade de Zeus substituir os humanos, seres efémeros, por outros, aniquilando-os, Prometeu com pena deles colocou à sua disposição a arte de adivinhar”… a mais bela de todas as ciências, as dos números e a composição das letras que conserva a memória…” a farmácia, arte de jungir os animais, as estações do ano, e sobretudo o fogo.

Prometeu a bem dizer deu tudo o que fez dos humanos verdadeiramente humanos.

Zeus nunca mais lhe perdoou. E condenou-o a ficar amarrado em cima de uma montanha no Cáucaso por milhares de anos dada a sua natureza imortal. O fígado de Prometeu alimentava uma águia que nele se cevava.

Esta posição de Zeus não teve a unanimidade dos deuses. Poucos ficaram do lado de Prometeu. Os humanos mal-agradecidos viraram as costas ao altruísmo de um imortal a favor dos mortais.

Muito mais tarde, Cristo seria crucificado e o povo da Judeia e Galileia nada fez pela sua libertação, deixando-o morrer na cruz. Três dias depois ressuscitaria. Prometeu aguardou por Atlas para o libertar cerca de vinte mil anos mais tarde.

Os deuses da Antiguidade eram como os homens desse tempo, fossem eles gregos ou romanos.

Os deuses que os humanos tinham na Antiguidade já não eram mais necessários. Os oprimidos do Império romano precisavam de outro Deus e apareceu Jesus Cristo, o filho de Deus, que veio ao mundo para anunciar a vida eterna. E então todos os outros deuses de séculos atrás tinham de ser esmagados pela nova Anunciação.

Os judeus na mesma linhagem monoteísta, mas sem aceitarem que Deus se tenha tornado homem para redimir os pecados. Abraão, o patriarca, acaba por se insurgir contra a idolatria e defende um Deus único.

O mesmo sucedeu aos beduínos e comerciantes do Próximo Oriente. Um novo Deus foi anunciado. O Profeta anunciou que só havia um Deus, o único e todo-poderoso Alá.

Na região do Médio e Próximo Oriente, na zona então civilizada e civilizadora, nasceram as três grandes religiões monoteístas que nunca mais acabariam de se digladiar fazendo das suas guerras de uns contra os outros montanhas de cadáveres, a maior parte de vítimas inocentes.

Aqueles Deuses – Jeová, Cristo e Alá – foram pretextos para verdadeiras guerras de saque e consequentes razias e mortandades. Era o tempo em que os homens invocavam o interesse de Deuses que sempre se mantiveram até hoje no mais completo mutismo. Até há muito pouco tempo. Até ao presente.

No Oriente mais longínquo onde o monoteísmo não teve tanto impacto nem por isso hindus, budistas e confucionistas deixaram de pregar a superioridade dos seus ensinamentos levando-os pela força das armas a quem não os seguisse.

Após releitura da tragédia “Prometeu”