A MULHER QUE IA NO CARRINHO DE MÃO

 

A mulher tem 76 anos. E o companheiro 59. E moram em Alpedreiras de Cima, no Bairro das Pias, ao rés da EN 4 que liga Elvas a Badajoz.
Ela não se aguenta em pé, doente. E eles precisam da sua reforma. O homem de 59 anos mete a mulher num carrinho de mão e leva-a à segurança social para receber a reforma.
A notícia não revela se ela é exibida à funcionária dentro ou fora do recinto da segurança social, nem se o carrinho entra nas instalações.
Fica-se a saber que a mulher de 79 anos vai deitada no carrinho de mão, onde os trolhas e os pedreiros levam pedras, sacos de cimento, ferramentas, inertes e os hortelãos transportam o estume para a horta. É obrigada a deslocar-se deitada no carrinho de mão pelo menos seis quilómetros, sem se saber quantas horas precisavam para essa missão e para ir à farmácia comprar os medicamentos que ela precisa e os obtém com o montante da reforma. Nem se sabe o que acontece se a mulher tiver de fazer alguma das suas necessidades.
É de presumir que o homem faça o transporte por amor ou amizade à mulher idosa de 79 anos.
Os funcionários da segurança social que olhavam e não viam que a “utente” ia deitada num carrinho de mão, como um monte de pedras, não eram cegos. Apenas olhavam e não viam.
O homem que transportava aquela mulher transportou-nos a todos para o mundo escondido da miséria mais brutal que se esconde nalguns cantos do nosso país.
Ele leva um peso físico de uma mulher doente ao longo daqueles quilómetros e os que lemos a notícia a dor que revolve a alma de raiva.

domingos lopes