Passou no Nimas na retrospetiva de Luchino Visconti durante quatro horas, Luís da Baviera uma obra-prima cinematográfica. Quatro horas de puro deleite.
Visconti, um artista fascinado pelos processos de decadência humana e social consegue fazer os espectadores não só aproximarem-se das múltiplas contradições das personagens do mundo da mais alta aristocracia da Baviera, Áustria e Prússia como a partir dos intricados problemas psicológicos conduzi-los aos problemas de Estado da Baviera do Rei Ludwig e ainda das monarquias daquela parte da Europa.
O entorno, quase sempre, crepuscular, notívago e rodeado de neve, lagos e a florestas cerca quem o vê. Quando passa do exterior para o interior das sumptuosas residências, dos austeros ou quase infantis palácios e dos castelos a raiar as fábulas no plano da excentricidade, Visconti aproxima-nos também, por esta via, da alma de Ludwig, das suas complexidades, dos seus devaneios, da sua fé católica e da sua incapacidade para encarar a sua homossexualidade.
Os planos em que Ludwig é filmado em muitas cenas, só pela movimentação da câmara, torna-se numa personagem que carrega uma desgraça, um abismo. Ficamos a perceber que vai acabar mal. A pose real entra em total incongruência com aquilo que a câmara nos transmite sem palavras.
A decadência de Ludwig vive em simultâneo com a decadência das monarquias europeias entrelaçadas por múltiplos casamentos dentro de si.
Depois Visconti descreve com os planos da câmara, sem o dizer, a solidão de Ludwig, que talvez não fosse só sua, mas também de grande parte da alta nobreza. Aqui surge espantosamente bela, determinada a viver a sua vida, já longe dos seus problemas matrimoniais, a princesa Elisabeth, Sissi, a Imperatriz da Áustria, representada pela belíssima Romy Schneider, capaz de se adaptar à vida que Ludwig jamais se adaptará.
Neste mundo, à parte do mundo real, tal como acontecia na coorte de Maria Antonieta, tão bem retratado no livro de Stefan Zweig, Maria Antonieta, onde as realezas se perdiam dentro dos seus privilégios, faz lembrar a nova Europa dos nossos dias.
Perdida de si própria, dos seus múltiplos Estados espremidos no torniquete financeiro e militarista em que se transformou a UE, vive os seus dias entre regulamentos e resmas de papel, fechada num mundo que não corresponde à realidade atual no continente e no mundo, pregando os valores que não respeita, a riqueza que não tem e a pobreza dos povos como consolação para justificar a financeirização e o militarismo.
A UE liderada por políticos desligados das realidades de cada país, propugnando soluções para todos como se cada estivesse no mesmo plano dos que decidem, caminha, tal como noutras circunstâncias históricas, para a decadência. O mundo de Ursula/Costa/Kallas está tão longe dos europeus, como o de Ludwig na Baviera no final do século XIX.
Os diversos retratos de decadência que Visconti nos passou ajuda-nos a compreender esses processos na atualidade. Basta olhar para a “nobreza” de Bruxelas e para o imperador Trump e o seu engraxador Rutte. Que mil Viscontis desabrochem! E que o peso das armas não se sobreponha à leveza da cultura.