Na morte de Carlos Brito- a ver se nos entendemos.

Carlos foi um destacadíssimo dirigente do PCP com um passado heroico, aliás como o de outros militantes e dirigentes do partido. Desempenhou importantes tarefas e até elevados cargos institucionais, ao que tudo indica e se conhece com grande competência.

Com a crise na URSS e no movimento comunista internacional, Carlos Brito entendeu colocar a Álvaro Cunhal a problematização da orientação marxista-leninista do partido e, no plano interno, a questão do centralismo democrático. Para tanto foi convidado por AC a levantar o assunto no Comité Central, o que fez.

Resumindo, Brito colocou a AC uma questão e este atirou-a para o CC. E Brito seguiu o que foi indicado. Ele entendeu que era necessário discutir se os princípios estavam a alimentar ou a enfraquecer o partido, se estavam adaptados ao tempo que se vivia, se a sua aplicação tinha dado resultados ou se tinham sido causa da implosão da URSS.

A consequência é conhecida. Foi suspenso. Um grande número de militantes indignou-se, muitos saíram, outros desligaram das suas células.

É evidente que a crise do comunismo não se resolvia, nem se resolve apenas com a discussão das traves fundacionais dos partidos comunistas. Exigia e exige muito mais. Portanto, mesmo que Cunhal e a maioria da Comissão Política e do Secretariado não acompanhassem Brito, a realidade implicava discussão aberta, fraterna para acertar o caminho. Nunca sancionamentos, muito menos a quem colocou o problema no quadro partidário. E menos ainda a quem tinha o passado do militante Brito.

A verdade é esta – a partir deste episódio foi lançado uma campanha interna contra os “liquidacionistas”, sendo que neste termo cabiam todos quantos levantavam questões acerca do funcionamento do partido e da sua influência.

O chamado remédio contra os supostos desvios serviu para a direção se ver livre de militantes críticos da orientação, alguns dos quais davam o melhor de si.

Neste contexto era fundamental que os críticos saíssem e, se possível, seguissem o caminho para o PS para encontrar uma justificação para a campanha contra os desvios dos princípios. Só que desta vez o movimento era diferente, eram comunistas que queriam continuar a ser comunistas e não o conseguiam ser no PCP face ao clima reinante. Ou seja, para a direção só é comunista quem for leninista e seguir o centralismo democrático, mesmo após a implosão da URSS.

É aqui que bate o ponto, pois quem reparar a discussão de muitos em defesa da Nota de Imprensa vai no sentido que Brito não merecia porque passou a ser social-democrata, quase traidor, ou mesmo traidor, e até aparece uma fotografia com Mário Sores…

Brito não aderiu ao PS, nem à social-democracia e se quisesse tê-lo-ia feito. Tinha a sua conceção de partido comunista. E não se trata de concordar ou discordar em várias destas matérias importantes. Os comunistas são poucos para tarefa tão grande – resgatar a causa comunista.

O que estava em causa na hora da partida de um combatente era reconhecer o seu destacadíssimo exemplo de luta pela liberdade e pela democracia dentro do PCP e afirmá-lo de cara lavada. Brito honrou o PCP. Divergiu, mas as prisões e as torturas ninguém lhas tira, ainda por cima ao serviço do PCP e da liberdade dos portugueses.

Haverá politicamente quem se aproveite. Seguramente. Haverá quem o faça por oportunismo. Com certeza. Mas Brito foi grande porque o seu partido o educou na grandeza, na força das convicções. Como pode alienar um dos seus, mesmo que com divergências? Quantos dos atuais dirigentes do PCP entrariam na clandestinidade, abandonariam tudo para prosseguir a atividade partidária ao serviço da liberdade e da democracia?

O facto de Brito considerar dever discutir se o marxismo-leninismo é a melhor orientação para um partido comunista não lhe retira o que ele fez pelo partido e pela revolução e não apenas pela vida parlamentar como afunila a Nota. E discutia cara na cara o que pensava ser o melhor para o partido. Mostra que estava no partido por convicção e não por carreirismo.

Cada um segue o seu caminho, mas nesse caminho as vistas dão para ver o que se fez e o que não se fez. Não aceitar que possa haver comunistas que assim se consideram e não estão inscritos no PCP é uma miopia muito grave do partido, designadamente, no caso de Brito, pois a direção que suspendeu Carlos Brito por querer discutir se aquela orientação era a melhor.

A direção do partido só ganharia em assinalar o modo como na clandestinidade educou e forjou quadros como Carlos Brito.

Parece que a direção do partido fica mais contente que um comunista saia do partido para o PS do que se mantenha como comunista, mesmo que não seja no PCP. Não há um molde único para se ser comunista. No movimento comunista há várias orientações, desde logo o maior, o da China. não segue o marxismo-leninismo.

Carlos Brito merecia na hora da morte por parte da direção do PCP mais respeito, mais humanismo, mais magnanimidade, mais coração. Não se pede a quem não tem para dar camaradagem revolucionária, mas pedia-se coragem para reconhecer que um antigo dirigente, pelo seu heroísmo, aprendido no partido, merecia a humana comoção e não uma Nota seca e azeda.

Volto ao início deste texto, cada um defende o que considera mais correto para o futuro socialista de Portugal. Os que defendem outras orientações, não são traidores, como certas opiniões querem fazer crer. São apenas opiniões diferentes. Por que não podem caber dentro do partido?

Carlos Brito é um exemplo de alguém que estava convencido de que o melhor para o seu partido era seguir outra orientação. A direção achou que por esse facto devia ser sancionado e sancionou-o. Injustamente.

Apesar de tudo, na hora da sua morte, a direção do PCP que é o repositório de todo o património político do partido, tinha o dever de por si enaltecer os feitos de Brito ao serviço do seu partido. Ao não o  fazer, afastou-se de muitos militantes, simpatizantes e eleitores do partido e de homens e mulheres progressistas. É pena.

 HOMENAGEM A CARLOS BRITO

Carlos Brito, inteligente e comprometido com a causa do socialismo, tinha forçosamente de questionar os motivos da implosão da URSS e das causas da crise dos partidos comunistas. Não podia fazer de conta, por preguiça revolucionária e ideológica, que o mal estava simplesmente, no que se considerou na dogmática marxista-leninista, no afastamento dos princípios.

Os princípios não podem constituir o fim de uma ideologia, pois esse viés encobre que o fim último do socialismo é erigir uma sociedade democrática, desenvolvida, culta, cuidadora do ambiente, de igualdade entre os cidadãos, apontando a um mundo melhor e muito mais humano e justo para com todos, inclusive com a Natureza.

Quando os princípios se afastam da realidade e se constituem como refúgio de uma elite justificativa da manutenção do poder dessa mesma elite, então e sempre a coragem deve vir ao de cima e questionar o que se tornou incapacidade para superar o percurso da estrada, mesmo que se tenha de ir às fundações, caso estas não resistam ao tempo, como acontece com tudo na vida, salvo os que aceitam os dogmas salvíficos, e mesmo alguns desses têm, por vezes, revelado grande capacidade de compreender o miolo do tempo, veja-se a Igreja.

Foi com este animus que Brito entendeu que tinha chegado a hora da renovação do ideal comunista porque é certo e seguro que tudo o que é obra humana está sempre em movimento, em modo de superação de contradições e, quem não vê e corre contra o tempo das mudanças, acaba em desastre.

Interessa, pois, para além de tudo o mais (e não é pouco) saber quem estava certo: se os seus camaradas que puniram C.Brito ou todos quantos defenderam a renovação do ideal comunista.  

Para responder à questão controversa basta olhar para a perda de influência social e eleitoral do PCP. Os que argumentavam que a direção de Carlos Carvalhas conduzia o partido para irrelevância e, portanto, tinha de se acabar com o desvio liquidacionista, o resultado está à vista – o PCP está perdendo influência a cada dia, seja no plano social, seja no plano eleitoral. Infelizmente corre o risco da irrelevância.

Os factos são factos. Só a direção do PCP está satisfeita, todo o universo comunista vive tempos de angústia por não ver saídas face a um discurso repetitivo e seco.

Sucumbe assim toda a “argumentação” que consistia em defender que a récita da enunciação de princípios mal-amanhados significaria que o PCP voltaria à influência substantiva nacional e local reconhecida urbi et orbe.

O giro dogmático, verbalista e obreirista do PCP aí está a confirmar que o desafio de Carlos de Brito, independentemente dos termos e do modo, era totalmente certo e absolutamente inultrapassável para os comunistas portugueses.

Na hora de dizer adeus a um combatente corajoso, lúcido e responsável, é também hora de levantar bem alto o ideal pelo qual milhões de seres humanos deram de si o melhor que tinham.

 Como sempre nestes caminhos velhos de tanto homem e mulher, em nome do ideal, que outros conspurcaram, obrigando as gerações vindouras a distinguir entre o ideal e o oportunismo mais ou menos violento e criminoso.

 O ser humano nunca será santo, nem um poço de virtudes por mais atrativo que seja o ideal.

Ao fedorento ideal da meritocracia deve erguer-se o da fraternidade dos humanos, o da prevalência dos bens da comunidade, o do socialismo em detrimento do capitalismo, onde cada vez mais conta os interesses dos plutocratas, uma ínfima minoria da humanidade sobre todos os restantes.

Carlos Brito foi um comunista que acreditou tanto no seu partido que dentro da sua bondade nunca imaginou que no resto dos seus anos não tivesse lugar nas suas fileiras.

Merece nesta hora de despedida a homenagem mais sincera de todos quantos lutam, sejam quais forem as ideias, por um mundo melhor. Toda a vida de Carlos Brito foi o cumprimento de um dever de dar o melhor de si pela causa pública, pelos interesses democráticos e populares. Essa vida merece o apreço de todos os democratas. Honrou o ideal que abraçou. Bem-hajas Carlos!

Homenagem a Carlos Brito | Opinião | PÚBLICO

O David, a sementeira de amor e de amizade de um resistente

Conheci o David nos bancos da Faculdade de Direito de Coimbra em 1967. Reinava, então, no país, a lei do silêncio plúmbeo. Tudo era proibido na Universidade, menos a praxe e as bebedeiras. A grande Lei – não se meter em política, não discutir religião e não namorar para garantir o sonho de vir a ser doutor e assegurar o futuro.

Nas ruelas da Baixa e nas escadarias que conduziam à Sé havia uns quartos esconsos onde se trocava dez escudos por certas descargas.

Numa reunião de curso alguém se lembrou de propor, contra o uso obrigatório de gravata nas aulas práticas, que levássemos camisola de gola alta e gravata por cima. Arranjei uma gravata para o David.

Discutíamos, então tudo, todos os ismos e despachávamos qualquer tema com o materialismo histórico e o dialético. Era o tempo contra o tempo e ao mesmo tempo a favor do próprio tempo. Um tempo de espera confiante. No interior do tempo o casulo já havia gerado a futura borboleta da liberdade. Por aí andávamos orgulhosos da nossa república Ninho dos Matulões, onde dormíamos com todos os sonhos ao rés da vigília, incluindo com impressoras e estêncis.

A crise de 1969 revolveu as entranhas da Universidade e nada mais foi como tinha sido. O David participou de alma e coração nessa extraordinária aventura de revolta e generosidade que colocou Coimbra, cidade ocupada pela GNR e pela PIDE nas bocas do mundo. Sempre no seu jeito anónimo de estar onde era preciso estar. Lá estava. Ele e a sua cabeça no ar à procura das gaivotas da ria que lhe banhava quase a casa de onde seu pai partira para a Venezuela.

Esgotou os adiamentos na incorporação militar. Eu tinha sido expulso da Faculdade de Direito e fui parar a Lisboa à Estrada de Benfica. Passámos, então, a contar com o alferes Ramos, oficial miliciano que, entretanto, haveria de fazer-se ao mar até aos Açores e assentar arraiais onde estavam oficiais do quadro da estirpe de Melo Antunes e Vasco Lourenço. Abraçou o MFA. O David lá esteve como militar no 25 de Abril. Um postal no 224, 3ºEsq. que a PIDE não detetou era um sinal do tempo novo. Sempre na frente do barco que estava a sair da negritude para a Luz da liberdade.                

Quis o destino que a partir de junho de 1974 passássemos a trabalhar em São Bento: eu no gabinete do Ministro de Estado Álvaro Cunhal e ele no gabinete do Primeiro-Ministro Vasco Gonçalves. Poupadinhos íamos e vínhamos no mesmo Volkswagen com pisca de sair para os lados. Tínhamos cada um direito a um transporte com motorista, mas aquele era um tempo de generosidade, uma democracia que nascia de tanto sacrifício e de tanta esperança. Saímos cedo e regressávamos altas horas na senda de construir algo novo, um país como a pintura da Vieira da Silva, com todos na rua, como naquele Primeiro de Maio que deixou vazias as casas de Lisboa.

O David era um homem culto. De uma honradez à prova de bala. Um ser humano que fazia da amizade e da tolerância um passaporte único.

Passou pela Vértice em Coimbra, o Diário, o Diário de Notícias, o Expresso e o Público. E publicou preciosidades sobre gastronomia.

Era um irmão para além dos cinco que tive de meu pai e de minha mãe. Ainda hoje, quando tenho algum problema mais difícil, sinto um vazio por não poder ir falar com ele. Tantas vezes nos ouvimos ao longo da vida…dos amores e dos desamores, incluindo partidários. Em Coimbra ou em Pardilhó, em Lisboa ou em Amorim ou em Capelins. O David era um esteio de bondade e de disponibilidade. Um homem de porta aberta, como se diz de São Bento, o que não deixa de ser curioso sendo ele ateu, mas daqueles cuja porta nunca fechava a nenhuma hora para quem precisasse.

Permito-me chamar a atenção que no “Banquete”, Platão abordou o tema do amor com Sócrates e outros no meio de uma grande jantarada.

 A gastronomia de que o David tratou nos jornais e praticou para os amigos era também um Tratado de amor, pois quem tudo dá a costurar comida para os amigos, outra coisa não tece, que não seja amor. Uma vida de sementeira de amor e amizade. Uma vida de luta pelos ideais que ajudou a levantar como a sempre eterna madrugada daquele Abril a tocar no Maio de todas as esperanças.

Tínhamos outra paixão, os melros. Acho que algures nas margens da ria onde o seu mano Arménio cumpriu um mandamento, o David continua a ouvir os melros de Pardilhó com o Assis Pacheco. Bem-hajas David.

David Lopes Ramos, a sementeira de amor e de amizade de um resistente | Crónica | PÚBLICO

Peter Hegseth, ministro da guerra de Trump nasceu há 3 400 anos e ainda tem aquele ar de playboy barato

De acordo com vários relatos da imprensa escrita, o ministro da guerra leu uma oração que disse ter sido dada pela primeira vez por um capelão militar às tropas que capturaram o Presidente da Venezuela Nicolás Maduro.

“Que cada disparo encontre o seu alvo contra os inimigos da justiça e da nossa grande nação,” rezou Hegseth durante o serviço transmitido em direto. “Concede-lhes sabedoria em cada decisão, resistência para o teste que têm pela frente, unidade inquebrável e uma violência esmagadora de ação contra aqueles que não merecem misericórdia.”

“Persegui os meus inimigos e alcancei-os, e não voltei atrás até que foram consumidos,” leu nos Salmos.

Hegseth invoca frequentemente a sua fé evangélica como chefe das forças armadas, retratando uma nação cristã a tentar vencer os seus inimigos com poder militar.

A retórica cristã de Hegseth tem atraído um novo escrutínio, incluindo a sua defesa passada das Cruzadas, as brutais guerras medievais que colocaram cristãos contra muçulmanos.

Vale a pena confrontar o pensamento sublime de Hegseth com o Velho Testamento, concretamente no livro Josué cap. 6: versículos 16-21

16.Na sétima vez, quan­do os sacerdotes deram o toque de trombeta, Josué ordenou ao povo: “Gritem! O Senhor entregou a cidade a vocês!

17.A cidade, com tudo o que nela existe, será consagrada ao Senhor para destruição. Somente a prostituta Raabe e todos os que estão com ela em sua casa serão poupados, pois ela escondeu os espiões que enviamos.

Já nessa altura havia espiões…

….

21.Consagraram a cidade ao Senhor, destruindo ao fio da espada homens, mulheres, jovens, velhos, bois, ovelhas e jumentos; todos os seres vivos que nela havia.

Passando ao livro Deuteronômio cap.20: versículos16-18

16.“Contudo, nas cidades das nações que o Senhor, o seu Deus, vos dá por herança, não deixem vivo nenhum ser que respira.

Quer no Números, quer no Juízes quer no Samuel vários versículos apregoam a mesma misericórdia de Deus Todo Misericordioso.

À luz da «civilização» de há quase três mil e quinhentos anos entende-se. O que não se entende é que Hegseth tenha conseguido sobreviver até esta data, contando com quase 3 500 anos  para ir combater os muçulmanos. Na verdade, não pediu a morte de todos os que respiram.

Omar Kayyam, o rei Sassanida Bahrâm e Trump

Omar Khayyam, viveu no século XI e XII, homem de grande cultura e sabedoria, poeta, matemático, geómetra e astrónomo e discípulo de Avicena, tem um livro de poemas intitulado Rubaiyat, publicado na Moraes Editora com prefácio de E.D. de Melo e Castro que aconselho a leitura.

A sua sabedoria está presente nas Rubaiyat, espécie de quadras ou a poesia japonesa haiku, que transmite sempre uma materialidade plena de espiritualidade.

Escreveu uma Rubaiyat que invoca a insignificância de um rei persa da dinastia Sassanida, Bahrâm ou Vararanes I.

Embora o poema se refira a Bahrâm, pela analogia, apesar do tempo, podia ser referido a Donald Trump pela condensação do poder e da sua inutilidade.

Imaginem, no quadro da equidade e do direito internacional público, a sanção aplicada à Administração Trump: na sala Oval da Casa Branca, J.D. Vance e Rubio serem obrigados diariamente a recitarem a Trump o poema que se segue substituindo Bahrâm por Trump até que ele o decorasse e o recitasse até ao fim dos seus dias, estivesse onde estivesse.

O palácio de Bahrâm é agora refúgio de gazelas

Os leões vagueiam nos seus jardins, onde cantavam as músicas

Bahrâm, que capturava onagros selvagens

dorme agora sob um outeiro onde pastam os burros

A hipocrisia continua a escorrer no Ocidente

O homem que pensa ser o dono do mundo e que só conhece a força, a perfídia e os negócios como forma de se relacionar na comunidade internacional, deu ao Irão 48 horas, logo seguidas de 120 para abrir o Estreito de Ormuz.

O cavalheiro que cercou e bloqueou Venezuela e Cuba, não deixando passar navios para aqueles países, exige agora aos governantes iranianos que abram o Estreito, fechado para barcos que o Irão considera inimigos pelo facto de apoiarem a brutal agressão a este país.

Que o novo Calígula de Mar-a-Largo assim proceda faz parte da sua natureza impiedosa e arrogante. Contudo, espanta que os dirigentes da UE, que nem sequer foram informados do ataque conjunto com Israel, incluindo os governantes portugueses e que apoiaram as ações do novo Imperador no cerco e bloqueio àqueles países, respaldem agora o ultimato pífio do Presidente do país que utiliza qualificativos para os europeus nada abonatórios como por exemplo, entre outros, covardes.

Os eurocratas não têm alma, se entendermos por alma aquilo que nos distingue de outras espécies, a integridade, a honradez, a lisura e a equidade.

Os dirigentes de Bruxelas, mulheres e homens, assemelham-se a seres sem alma, perdida há muito nas contas da vidinha. Há um tal Mark Rutte que já nem o Diabo lhe quer a alma porque almas vazias no Inferno não têm lugar; vogam eternamente à espera de um dono que lhe dê ordens como a do caixeiro-viajante que todos os dias envia graxa para o patrão.

É arrepiante que os dirigentes da UE sejam tratados como capachos pelo Rei de Washington e depois lhe batam com o rabo nas pernas, como prova de bom comportamento. A hipocrisia já dava para encher um grande rio de vergonha.

Músicas do Mundo

Noruz na Gulbenkian

O concerto acabou, mas a música continua dentro de mim. V. Truba, pintor checo, pintou um quadro em que se vê a porta do concerto do concerto fechar, porém, notas de música saem através dela. Continuamos a sentir a música e, no caso do quadro, a imaginar como teria sido.

No concerto de ontem na Gulbenkian, nas Músicas do Mundo, para celebrar o Noruz, a primavera nos países do Cáucaso e outros da Ásia Ocidental, Azerbaijão, Afeganistão, Irão e Paquistão, a música foi de tal modo vibrante e melodiosa que dei comigo a pensar acerca de o que os humanos «inventaram» primeiro, se a música, se as palavras.

A razão de ser é que este agrupamento, nomeadamente a arte da rubab de Homayoun Sakhi, nascido em Cabul, fugido dos talibans que não deixam ouvir música, embala-nos de tal modo nas vibrações da rubab e da tabla de Siar Hashimi, que me ficou (talvez também durante o sono) a pergunta, será que os sentimentos humanos de alegria ou tristeza nasceram primeiro na música e só depois as palavras os lavraram numa reflexão posterior?

Explico a minha dúvida – ouvindo as melodias da rubab de Sakhi ou as suas arrancadas telúricas que me deixaram sem fôlego, como se a mão direita do músico fosse possuída por uma força magnética de alguma divindade que vivesse debaixo da terra, pois as divindades que habitam os céus não possuem tal ritmo.

É a música uma corrente imparável na aproximação dos humanos. É um rio que vem de longe e para longe vai. Um rio de sorrisos, dores, alegrias e ritmo. Onde todos somos iguais.

A Ásia Ocidental sofre a violência de uma civilização que já só tem armas para conquistar corações, o que nunca sucederá, mesmo quando temporariamente pode parecer que sucede.

A força da música de Sahhi e a voz sublime de Aqnazar Navo, cantor das montanhas de Badakhshan, continuam dentro de mim, talvez para sempre, mesmo quando já não nos lembramos do concerto. Como as notas do quadro do pintor.

A arte não dorme dentro de cada um. Está numa penumbra à espera da chegada de algo que sempre chega.

Esperemos, pois, a chegada de o que parece adormecido e acordará como nos diz este caminho de tantos séculos. A primavera que sempre chega também o confirma.

DIA MUNDIAL DA POESIA

Lembrando o grande poeta persa Ommar Kayyam

A poesia está atordoada no país de Ommar Kayyan, agora que se acaba de comemorar o Noruz, a chegada primavera, a vitória da luz sobre as trevas, a renovação constante e irreversível.

As rosas de Shiraz, de Teerão, Isfaan e de tanto lugar, até as dos desertos, devem estar a morrer apavoradas com a metralha selvagem dos novos bárbaros que envergonhariam os antigos pela sua cobardia de mandar matar e morrer sem algum risco de vida para si próprios.

Neruda escreveu que poderiam arrancar todas as flores, mas não conseguiriam impedir a primavera.

 O novo imperador de Mar-a-Largo não tem capacidade para compreender que o mundo é muitíssimo mais que uma boa partida de golfe ou que o funcionamento da Bolsa de Valores ou a um bom negócio.

 É um homem perdido nas suas mansões de negócios e horríveis cenas de gente desprotegida em mãos de plutocratas sem escrúpulos, seus amigos de aventuras.

No país de Ommar Kayyam, as rosas que ele tanto amava e exaltava estão a morrer da tristeza da pobre gente iraniana que carrega às costas o destino de ter nascido na terra onde nasceu uma civilização e um país onde cabe um continente.

Kayyam cantava o amor, o vinho, as coisas mais simples da vida. Disse num poema que apesar da sua condição muçulmana nunca tinha rezado, o que é capaz de ser uma blasfémia para o poder em Teerão.

Kayyam escreveu que era vil um coração incapaz de amar…se tu não amas como podes apreciar a ofuscante luz do sol e a doce claridade da lua?

O homem que ordenou a morte de milhares de compatriotas de Kayyam não sabe que ordenou a sua própria morte.

O pai da História, Herodoto, conta que Creso, o último Rei da Lídia, antes de atacar o império persa cujo imperador era Ciro, se dirigiu ao oráculo de Delfos para consultar se devia atacar Ciro.

A resposta foi …«Se Creso faz a guerra contra Ciro, um grande império será destruído…»E foi. Creso foi esmagado e os lídios derrotados. A ambição era de tal monta que a Creso não deu pela ambiguidade da resposta.

Mas hoje, apesar da guerra do novo Creso de Washington, é o Dia Mundial da Poesia.

Devíamos corar de vergonha por aceitarmos ter como aliado e amigo um homem que em algum momento no exercício das suas funções manifestou o menor sentimento de empatia, a não ser pelo Big Money.

A poesia não resolve os males do mundo, mas tem no seu interior a força de vermos para além da tristeza, a força da amizade entre os humanos e os respetivos povos. Não temos de viver em guerra. Que com o Noruz venha a paz. Nada é tão doce como a paz.