A minha A.R.C.A

 

O tempo mede-se no próprio tempo e todo o tempo traz dentro dele outro porque fora dele, para nós humanos, parece nada existir para além da pura abstração.

Nos anos sessenta Portugal fervilhava, sobretudo a juventude que tinha pela frente uma ditadura e uma guerra perdida e injusta a milhares de quilómetros.

As Universidades agitavam-se e o país apercebia-se que naquele tempo haveria outro em gestação.

Era também o tempo de juntar vontades e corporizar as energias em projetos que respondessem à ânsia de ser livre e capaz de, ao lado dos outros, erguer modos de dar à vida um novo sentido.

Sucedeu em Amorim, freguesia da Póvoa de Varzim, que jovens estudantes com outros jovens trabalhadores e um padre totalmente devotado à comunidade amorinense  se lançaram à obra de criar recreio e cultura.

Era o tempo em que o tempo dava para tudo; construir recintos para futebol e  cumprir o desígnio de ter um grupo de teatro que encenaria, entre outras obras, a Barca do Inferno do Mestre Gil Vicente.

O que marcava aquele período era o de uma irmandade em que cada um era protagonista e todos forjavam a obra.

Um tempo que de Norte a Sul do país era pontuado por estas destemidas vontades de rasgá-lo e construir outro que havia de nascer a madrugada pura de 25 de Abril de 1974.

Faz agora 50 anos que foi criada a Associação Recreativa e Cultural de Amorim (A.R.C.A.) que tinha nas suas folhas de sócios a esmagadora maioria dos jovens e a maioria da população.

Esta ARCA não era mais do que todas as milhares de ARCAS que se criaram no país. Mesmo nas noites mais escuras de solidão havia quem levantasse o recreio comunitário e a cultura sempre desafiante.

Esta ARCA é para mim, como o rio da aldeia do poema de Fernando Pessoa, a mais importante  porque é a da aldeia onde nasci.

Os tempos são outros, dirão. É verdade. Só que estes serão outros e os que virão outros serão.

E é no tempo presente que se constrói o tempo futuro. Os jovens da década de sessenta e setenta construíram o tempo da liberdade e da democracia.

O paradoxo estará em que com a liberdade implantada de lés a lés do país pareça que, neste tempo de solidão tecnológica, se esvaia a seiva criadora de construir espaços capazes de gerar recreio e cultura que a todos una na diversidade de vontades.

Não se trata de comparações com base em mérito ou demérito, mas tão só de ter em conta esse precioso fio do tempo que nos liga à comunidade. Somos também o que fomos. Seremos igualmente o que somos.

Neste tempo de exaltação das virtudes individualistas já se sente a amargura desse hedonismo social.

Não é contra o vizinho, nem encarando o companheiro da escola ou de profissão como alguém para atropelar para se ascender ao olimpo, que se construirá o tempo novo pela qual se anseia desde que os humanos se lembram.

Há 50 anos o tempo era outro, sendo o mesmo. Era outro porque nós éramos outros, sendo hoje também os mesmos, mas diferentes na nossa qualidade de humanos.

As tecnologias trouxeram-nos um fantástico mundo novo, mas nós somos seres sociais. Sem a sociabilidade não há humanos. A cultura, o recreio e o desporto são também a nossa humanidade mais humana. Como seremos nos próximos 50 anos? Como se organizarão os jovens para alcançarem uma vida que valha a pena? Acaso a tecnologia tornará todos seres solitários, acendendo e apagando, como semáforos humanos respondendo a estímulos de máquinas, mesmo que sejam inteligentes? Que nos reserva a arca do tempo?

In Público online 19/10/2019

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Arriba España

 

 

Os colendos conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça de Espanha devem ser pessoas que leem jornais e livros; veem televisão e estarão minimamente informados do que se passa no seu país onde há nacionalidades e línguas distintas do castelhano. E não será abusivo julgar que em relação ao mundo circundante terão certamente alguma ideia.

Saberão melhor que ninguém que para se ser juiz não basta conhecer de fio a pavio as leis; isso, aliás, para além dos juízes, muitos sabem.

Dizem os que sabem Direito e o relacionam com a Justiça que as leis nas mãos das mulheres e dos homens dão para quase tudo.

A arte de um juiz não deverá ser a de deixar-se cegar pela lei, antes tê-la em conta para a aplicar nas circunstância do tempo e o das condutas a apreciar.

No entanto há juízes e juízas que não obstante o que se sabe lembram os tempos que o nosso genial poeta António Gedeão retratou no julgamento de Galileu pelos excelsos juízes da Santíssima Inquisição. Eles, os juízes, é que sabiam. Sabiam tanto que nem sequer davam conta que eles e Galileu giravam, mais o rio Arne da muito bela Florença, em torno do quietíssimo Sol que ardia com arde hoje indiferente às veleidades humanas, incluindo a dos severíssimos conselheiros.

Os colendos juízes do excelso STJ de Espanha (ou espanhol?) condenaram a duríssimas penas ( Oriol Junqueras a 13 anos) os cidadãos dirigentes da Catalunha que defendem a independência da Catalunha por meios democráticos e pacíficos, bem sabendo e tendo a mais completa consciência que ao fazê-lo iriam desencadear na Catalunha e em todos os catalães(muitos que não defendem a independência) uma revolta porque a sua identidade foi( neste novo milénio de consagração dos direitos humanos e no limiar do fim das grilhetas que impedem a autodeterminação dos povos) ofendida dado o grau absurdo da desproporcionalidade das penas face às condutas dos dirigentes políticos catalães.

A ação dos nacionalistas catalães presos é do domínio da política; ninguém acreditará que os presos são criminosos de direito comum. São catalães que entenderam, naquelas circunstâncias de tempo e lugar, corresponder daquele modo à aspiração independentista dado que a maioria dos catalães se pronunciaram em eleições a favor da independência da Catalunha.

Ao criminalizar com estas severas penas os presos, o STJ bem sabe que incendiou os corações de todos os catalães. São catalães condenados em Madrid por quererem, em liberdade, em democracia e de modo pacífico, a sua autodeterminação.

Os juízes do STJ para além de condenarem os patriotas catalões deixaram gravado a letras de fogo esta ideia – ou aceitam Espanha ou vão para a cadeia, caso não aceitem. Se pudessem talvez escrevessem no douto Acórdão que a Catalunha seria para sempre espanhola.

Chegados aqui, o fim da estrada parece estar percorrido – os catalães que não queriam a independência deixaram de ter essa opção.

Será por cegueira, por despotismo, ou por consciência de que se não houver esta brutal repressão a Espanha não se consolida como Estado de várias nações? Acaso alguém acreditará que neste tempo um povo tão cheio de História se deixará vergar porque o coletivo de juízes do STJ que entende que  a aspiração à autodeterminação dos catalães é crime que merece duras penas? Registe-se a correria do governo do PSOE a proclamar que as penas são para cumprir. Arriba España!

O garrote de Franco no s últimos estertor ainda matou anarquistas, mas o franquismo finou, mesmo que às vezes pareça que perdura.

In Público

Abandono do leninismo?

 

 

Em matéria de perceção de aceleração o tempo em que vivemos, a leitura de duas obras (“O esquerdismo doença infantil do comunismo” e “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, de Lenine e Cunhal respetivamente) que há quarenta e muitos anos os marxistas leram sofregamente, fica-se com a dimensão dessa aceleração.

O interessante é que há cinquenta anos quem lia o livro de Lenine não sentia essa tremenda diferenciação entre o movimento operário de então e o do início do século passado. Como mudaram as circunstâncias…

Mesmo em relação a toda esta problemática, no fim dos anos sessenta, tratada por Álvaro Cunhal, voltando ao livro, parece que mergulhamos em algo que a sociedade já não reconhece.

Tudo isto vem a propósito da velha e estafada discussão no movimento revolucionário e progressista sobre os compromissos.

A resposta de Lenine independentemente de se perfilhar ou não o leninismo é clara …”A história do bolchevismo antes e depois da revolução de outubro está cheia de exemplos de acordos, de conciliações e de compromissos com os outros partidos, sem excetuar os partidos burgueses”… Pag.94 Edições Avante.

Álvaro Cunhal escreveu …”cada etapa tem fases diversas, que não podem estabelecer-se segundo esquemas, que apresentam sempre novidades e imprevistos, um processo complexo e irregular, mas exigem que se defina o alvo do golpe principal”… Pag.63 Edições Avante.

Esta constatação e muitos outros dados explicam a razão que levou a que o PCP tivesse estado nos governos provisórios com Sá Carneiro e Mário Soares e tivesse aconselhado a votar em Mário Sores para derrotar Freitas do Amaral.

A fase da luta, dentro das orientações saídas dos últimos Congressos do PCP, é

por uma democracia avançada que se insere na estratégia mais geral da luta pelo socialismo.

O alvo principal é o grande capital, a burguesia parasitária nativa, e em boa medida a direita, independentemente das suas contradições que é preciso explorar… voltando a Lenine ( é obrigação dos leninistas conhecerem Lenine) “.… só se pode triunfar sobre um adversário mais poderoso à custa de uma extrema tensão de força e com a condição obrigatória de tirar partido, com a maior atenção, minúcia, prudência e inteligência, dos menores “desentendimentos” entre os inimigos, dos menores oposições de interesses entre burgueses de diversos países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia no interior do país e também das possibilidades de se assegurar um aliado numericamente forte, ainda que seja temporário, hesitante, condicional, pouco sólido e pouco seguro…Pag.95.

Assim o eixo principal da ação política é contra todos os que pretendem impor empobrecimento ao país e a todos os que vivem do trabalho.

São aliados todos os que, pelas mais diferentes razões, não estão interessados no empobrecimento e na austeridade que permita ao grande patronato e ao sistema financeiro / banca esmifrar o povo português através da chamada competitividade, ou seja, no apagamento dos direitos laborais, sociais, culturais e ambientais.

Nestas circunstâncias cabe perguntar –  é ou não possível fazer propostas que “obriguem” o PS a sair da sua tendência claudicante e conquistar novos, mesmo que pequenos avanços, na reconquista de direitos que a troica e a direita roubaram?

É ou possível no domínio do SNS propôs medidas que impeçam a sua destruição ou a degradação dos mesmos?

É ou não possível em relação à Escola Pública pequenos avanços que façam todos readquirir maior confiança no sistema educativo?

No domínio da Segurança Social é ou não possível avançar com aumentos por mais pequenos que sejam, mas que se vejam, em relação às pensões mais degradados?

No que se refere à Função Pública é ou não possível negociar acordos de aumentos salariais?

É ou não possível encontrar medidas para minorar a desgraça em que se encontra o interior do país?

É ou não possível encontrar meios de tornar a Justiça mais acessível e menos morosa?

Se não são possíveis avanços nada de compromissos. Se são possíveis, há que avançar. Embora o tempo e as circunstâncias das lutas se tenham alterado por referência àquelas obras, aqueles princípios acima referidos permanecem válidos, mesmo para quem nunca é capaz de reconhecer erros próprios não deve deixar de ter em conta o que os seus mestres ensinaram.

In Público online

 

 

As mamas da Cristina

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Como se pode ler a nossa mais famosa personagem – a que recebe telefonemas em direto de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, o mais alto magistrado da nação – o Senhor Professor Marcelo Rebelo de Sousa – descobriu, agora já bem adulta, que as mamas crescem com a idade…o que é absolutamente notável, e como é evidente notícia de primeira página, assegurando assim destaque para a atribuição no próximo ano do Nobel da Física ou daqui a alguns anos quando ela descobrir um certo descaimento eventualmente proporcional ao crescimento das respetivas.

A proeza desta descoberta está a preocupar largos setores da comunidade científica que sem qualquer explicação tinham passado ao lado do achado.

Há quem pense que com a idade cresce a ponderação e um certo grau de maturidade, aliás, diga-se em abono da verdade, que este sentimento é maioritário; porém o abalo desta verdade resultante da experiência da vida está a a sacudir as mentes mais brilhantes dado que por distração jamais lhes passara pela cabeça que também as mamas cresciam com a idade, pensando erradamente (pelos vistos) que as mesmas ficavam sempre  estaticamente e esteticamente iguais.

Há coisas extraordinárias como o ovo de Colombo e esta descoberta de Cristina.

Bem haja o Correio da Manhã e a Cristina por nos trazerem de mão beijada tão elevado achado.

 

 

 

Afinal o diabo veio

Afinal o Diabo veio. E tão dado a simbolismos chegou precisamente um dia depois do feriado que Passos/Portas/Cristas tinham cortado do calendário, o dia da implantação da República.
A conclusão não é nova, mas há coisas que valem sempre – não se deve anunciar o Diabo.
Os partidos da troica foram de novo a exame no passado dia 6 . Chumbaram com maior estrondo. Uma coisa era o peso e a chantagem brutal sobre os portugueses de que não havia alternativa à punição por terem vivido acima das possibilidades. Os chicotes feriam a Lusitânia e o povo baixou-se face à medonha realidade. Há quatro anos ergueram-se a custo. E levantados quiseram mostrar aos defensores do castigo do empobrecimento que não se esqueceram do mal que sofreram.
O problema não é Rio. É muito mais fundo. É não terem tido nada a propor a não ser casos de polícia. O seu programa verdadeiro é continuar a cortar e a empobrecer para uma minoria enriquecer à grande. E isso escondem.
O PS ganhou e cresceu bastante. É a primeira vez que o PS após estar no governo se reforça. Vai ter de negociar para governar. Se se quiser sentir como dono e senhor deste canto ibérico pode olhar para trás e ver o que lhe sucedeu após blocos centrais , limianos, absolutamente só com Sócrates…É tudo uma questão de aceitar constrangimentos ou querer governar à larga, como se não houvesse dia seguinte ao fim da governança. A tal estabilidade que é importante conquista-se ganhando maioria dos corações dos portugueses não só no dia das eleições, mas todos os dias para que as palavras batam com a prática.
O CDS da candidata a Primeiro-Ministro quase desaparecia. Assunção Cristas foi vítima de si própria e quis fazer dos portugueses estúpidos. Ela tinha sido um dos rostos da desgraça e falava como se o mal feito por ela e o seu partido fossem de outrem. Viveu de incêndios e de Tancos. E quando engoliu o disco de reduzir impostos todos se lembravam do governo que quase todos os dias aumentava impostos. O CDS tem muito que penar para voltara ser o que foi.
O BE mostrou que é possível fazer acordos e não sofrer o desgaste de ver o PS ganhar com acordos à esquerda. Não se reforçou, mas não perdeu deputados, mesmo nesse quadro em que o PS se reforça substancialmente. É um resultado que confirma que fazer acordos com o PS não implica perder inexoravelmente apoio eleitoral.
O PCP/CDU é vítima da sua atitude de se comportar como se fosse o único certo ao serviço de uma realidade que em boa medida inexiste na sociedade portuguesa, num mundo que a juventude não conhece e, por isso, a sua fraquíssima implantação nos jovens.
Não são explicações por parte do PCP a noticiar que para além das eleições a luta continua, pois continuará sempre com ou sem PCP. É preciso sublinhar que em certos distritos o peso eleitoral do partido é bem superior à sua força social, embora só tenha ganho em dois concelhos, Mora e Avis.
Sejamos claros – a situação não era fácil fosse para Jerónimo fosse para quem fosse Secretário-Geral, mas a sociedade que há para transformar é esta, com esta gente, estas televisões e estas mentes. O partido ou tem a humildade de aceitar a realidade e os grandes desafios reconhecendo nos militantes e simpatizantes a força maior para alterar o que não está bem incluindo no plano interno, abandonando a peregrina ideia de estar sempre certo, uma espécie de superioridade política dos dirigentes que nunca erram e que os leva a olhar para os outros como uma espécie de incapazes atrofiados.
O PAN ganhou. Vamos ver o que vai trazer de novo. A ideia de que não é de direita nem de esquerda pode parecer fofinha e nova, mas é velha e déjà vue. Vamos ver como se vai desenvencilhar com o Serviço Nacional de Saúde para animais. E o resto.
A entrada do Livre abre um novo espaço de esquerda no parlamento e pode ser mais um interlocutor que se afirme na sua identidade própria mostrando as suas diferenças das outras esquerdas.
As outras direitas que tiraram votos ao CDS e ao PSD vão querer ganhar mais votos ao CDS e ao PSD. Vão obrigar o PSD a mostrar se é tão de direita quanto tem sido ou se quer ganhar espaço no centro. O CDS que se cuide. Já tem dois partidos à perna e a morder os calcanhares. E se o PSD se recentra para onde vai o CDS?
A direita chamou muitas vezes o Diabo para tramar as esquerdas “geringonçadas” e afinal ele veio para tramar quem a chamou.
In Público online de 06/10/2010

As alianças do PS – poderosos factos

Para podermos julgar o papel do ao longo destes 45 anos de vida democrática vale a pena ter em conta o que aconteceu ao PS após ter governado só ou em coligações, nomeadamente com o CDS e o PSD; sim, o PS até 2015 sempre se entendeu em termos governamentais com o CDS ou com o PSD.
O exercício de memória é saber como reagiu o eleitorado ao primeiro governo contranatura do PS (Mário Soares) com o CDS (Freitas do Amaral). Um verdadeiro desastre para o PS em termos eleitorais.
Além disso deu origem a um processo que levaria a direita ao poder com a formação da AD (PSD, CDS e PPM).
Após o falhanço da AD, o PS casou com o PSD (o bloco central) e o resultado foi igualmente muito mau para este partido e para o país, levando de novo a direita ao poder.
Só em 1999, no limiar este milénio, o PS voltou ao governo com António Guterres que por falta de um deputado fez um acordo “encoberto” com um deputado do CDS de Ponte de Lima.
O resultado foi a fuga de Guterres e a chegada de novo da direita ao poder com Durão Barroso.
Veio a hora de Sócrates com uma maioria absolutíssima e governou como D. Dinis, fez tudo quanto quis. Quase. Perdeu muito eleitorado. Quis governar sozinho em minoria, mas de facto apoiado (por muito que custe ao PSD e CDS) nos partidos da direita.
Os resultados dos governos do PS foram até 2015 desastrosos para o próprio PS. O que levava o PS aos braços da direita só lhe trouxe dissabores; e quando governou sozinho foi o que se viu com Guterres e pior ainda com o todo-poderoso José Sócrates. Portugal era do PS, isto é, do engenheiro, graças à fantástica maioria absoluta. Há factos poderosos, mesmo no meio da estridência da campanha eleitoral.
Em 2015 Costa mudou o rumo às alianças do PS. E sucedeu o que está a suceder – o PS em vez de naufragar vai crescer. Nestas circunstâncias pode afirmar-se que para além dos méritos do PS a política levada a cabo por PS com apoio parlamentar do PCP, do BE e dos Verdes foi boa para o país e pelos vistos muito boa para o PS.
Outrora sozinho ou mal acompanhado, o PS, após os governos onde esteve só ou mal acompanhado, perdeu sempre uma significativa votação.
Vale a pena então perguntar por que motivos aparecem certos dirigentes do PS a clamar por maioria absoluta?
Baseado nestes 45 anos de vida democrática estes apelos só podem resultar da vontade de ter o poder todo com a correspondente abertura de possibilidade de acesso a centenas e centenas de cargos e tornar o aparelho governamental totalmente cor-de-rosa; sendo que essa gula se revela superior à vontade de continuar a dar força ao PS, e que foi a política de entendimentos à esquerda. Há quem prefira a defesa do egoísmo interesseiro em detrimento dos interesses do próprio PS .
Dar maioria absoluto ao PS é dar-lhe carta branca para agir sem os tais “constrangimentos”, ou seja, para agir de acordo com os seus múltiplos interesses partidários.
Entre um PS prestigiado por ter escolhido governar convergindo com os partidos das esquerdas e um PS preocupado em se assenhorear de tudo, o eleitorado decidirá não trocando o certo pelo incerto – obrigando o PS a negociar com as esquerdas para prosseguir o caminho que deu certo.

in Público de 01/10/2019

O assassinato da Toina, a religiosa de S. João da Madeira

Neste nosso mundo, nosso porque também o fazemos, há exemplos espantosos de bondade. E, ao contrário, de pura indiferença que talvez seja um dos maiores males que corrói a nossa vida em comunidade.
Metidos na nossa casa, na nossa vida, no nosso admirável mundo tecnológico, ficamos distantes da maior aventura humana que é o próprio ser humano de carne, osso, nervos e tudo mais.
Apesar do encómio ao que é rico e poderoso, ainda há quem abdique de quase tudo para se dedicar aos desfavorecidos e inválidos, aos sem afeto e sem posses, aos mais pobres dos pobres.
Uma dessas criaturas extraordinárias era Maria Antónia Paulo, uma religiosa de S. João da Madeira, que na sua motorizada levava a quem mais precisava a bondade que possuía. Dedicar-se aos que têm quase tudo não é amor, é conveniência, muitas vezes impostura.
As vestes religiosas da “Toina” eram claramente assinaláveis como sendo de grau de vulnerabilidade máxima. Talvez, por isso, a covardia do criminoso o fizesse mover-se para tão horrendo crime.
A Maria Antónia tinha sessenta anos, não estaria na sua força máxima, antes, no declínio da sua força, e foi assassinada de um modo cruel e bárbaro, sendo depois violada.
A sua coragem era a bondade e o empenho em ajudar, em partilhar. Escolheu aquele caminho, que não é o do sucesso dos famosos, nem do empreendedorismo, antes o de servir os outros. Por isso era admirada por muitos. Ao assassiná-la, mau seria que o criminoso também matasse o exemplo.
Quando em nome de uma pulsão sexual um homem agride, viola e assassina uma mulher, está a cometer uma violência que sabe poder fazer contra alguém menos forte fisicamente. É uma tremenda covardia.
Sempre que uma mulher é morta as mãos de um algoz que entende ter direito à vida da vítima, o mundo no seu conjunto sofre, e ai dos que não sentem esse sofrimento, tal será a densidade do grau de indiferença.
E o mundo tem de comover-se, de se agitar, de se mover para fazer parar ou pelo menos diminuir crimes tão abomináveis como os que vêm sendo praticados contra mulheres indefesas.
Por mais diferentes que sejam os caminhos do amor ao próximo, da bondade, da generosidade, da solidariedade nas sua várias militâncias, todos temos de dar as mãos e no nosso espaço denunciarmos, exigirmos do Estado maior proteção das mulheres e que os meandros da justiça não permitam a quem deva estar preso agir em liberdade para cometer crimes.
A religiosa Antónia é, pois, um exemplo de que a generosidade vive. Quem não pode sentir-se atingido por essa crueldade? E pela do assassinato de Gabriela Monteiro em Braga com dezassete facadas?
Que mil mãos de todas as mais diferentes latitudes religiosas, ideológicas e políticas sejam capazes de defender os exemplos dos que amam o próximo e resistem à indiferença. Que a morte não mate o exemplo, eis o desafio.
In Público de 20/09/2019