Rio e Cotrim assim assim a dizer que sim


Dois cavalheiros da estirpe liberal; um, mais quê, o outro menos quê; um mais contido (noblesse oblige), o outro mais desenfreado. Um a esticar para a direita a roçar o extremo, o outro com medo do arrastão e no dia 30 perder a ocasião.

Foi um debate à medida daquelas duas almas. E das outras que se seguiram, que não vão a votos, mas decidem quem venceu, substituindo o soberano. Senhoras e senhores cheios de razões, sabichões, espertalhões. Lindas e lindos.

O debate foi giro( diz-se assim) de se ver. O que se viu? Uma coisa tão simples, tão simples que pode ter passado despercebida – os dois cavalheiros são visceralmente contra tudo o que apresente prejuízos e como tal se a CGD der prejuízo, Rio e Cotrim catrapim privatiza-se, o mesmo sucedendo à RTP ou a o que quer que seja.

Podem explicar por que não aplicam esta fúria ao BES, BPN, Milenium, e a todos os bancos que iriam à falência, com milhares de milhões de prejuízo, se não fosse o malvado do Estado com o dinheiro de todos os cidadãos salvá-los?

Vá lá expliquem esse apelo à fantástica gestão privada com o seu melhor representante preso em Durban, fugido à justiça? Então, como é?

Se o que der prejuízo privatiza-se, o que dá montanhas de prejuízo no privado é para ser salvo pelo público e entregue aos privados? Ou nacionaliza-se?

Nesta senda sorrateiros acham que se o SNS não responde a tempo o Estado deve entregar ao privado pagando o Estado, ou seja, o Estado desinveste no SNS, torna-o ineficaz para entregar os cuidados de saúde ao privado pagando-os; grande negócio – o Estado perde, ganham os espertos, os privados cujos governos os protegem. É o negócio diz Rio e Cotrim que sim.

A escola pública deve ser boa diz Rio, mas se calhar tratando mal os professores e todo o pessoal não será. Que fazer? Entrega-se aos privados. Os governos deixam o setor público tornar-se ineficaz e sem investimento e a conclusão é entregá-lo a quem vai receber do Estado o que este não investiu. Olha os cavalheiros verdadeiros vendedores da banha da cobra.

Sendo a gestão privada tão boa e eficiente por que precisa do Estado? Quem a impede de investir no Ensino, na Saúde, onde quer que seja? Invistam, invistam, quem os impede? Mostrem que são melhores, deem o exemplo.

 Em cima da mesa o exemplo esplendoroso é a banca corrupta e corruptora, salvo poucas exceções.

Cotrim na sua pose liberal quer que todos tenham acesso à escola privada pagando-a. Com quê?

Se os portugueses quiserem pagam com votos não lhos dando para impedir estas manigâncias.

Dois cavalheiros da estirpe liberal; um, mais quê, o outro menos quê; um mais contido (noblesse oblige), o outro mais desenfreado. Um a esticar para a direita a roçar o extremo, o outro com medo do arrastão e no dia 30 perder a ocasião.

Foi um debate à medida daquelas duas almas. E das outras que se seguiram, que não vão a votos, mas decidem quem venceu, substituindo o soberano. Senhoras e senhores cheios de razões, sabichões, espertalhões. Lindas e lindos.

O debate foi giro( diz-se assim) de se ver. O que se viu? Uma coisa tão simples, tão simples que pode ter passado – os dois cavalheiros são visceralmente contra tudo o que apresente prejuízos e como tal se a CGD der prejuízo Rio e Cotrim catrapim privatiza-se, o mesmo sucedendo à RTP ou a o que quer que seja.

Podem explicar por que não aplicam esta fúria ao BES, BPN, Milenium, e a todos os bancos que iriam à falência, com milhares de milhões de prejuízo, se não fosse o malvado do Estado com o dinheiro de todos os cidadãos salvá-los?

Vá lá expliquem esse apelo à fantástica gestão privada com o seu melhor representante preso em Durban, fugido à justiça? Então, como é?

Se o que der prejuízo privatiza-se, o que dá montanhas de prejuízo no privado é para ser salvo pelo público e entregue aos privados? Ou nacionaliza-se?

Nesta senda sorrateiros acham que se o SNS não responde a tempo. Então defendem que o Estado deve entregar ao privado pagando-lhes, ou seja, o Estado desinveste no SNS, torna-o ineficaz para entregar os cuidados de saúde ao privado pagando-os; grande negócio – o Estado perde, ganham os espertos, os privados cujos governos os protegem. É a cartilha. É o negócio diz Rio e Cotrim que sim.

A escola pública deve ser boa diz Rio. Mas tratando mal os professores e todo o pessoal não é. Que fazer? Entrega-se aos privados. Consultemos uma vez mais o manual das instruções – Os governos deixam o setor público (neste caso a escola pública) tornar-se ineficaz e sem investimento e a conclusão é entregá-lo a quem vai receber do Estado. Olha os cavalheiros verdadeiros vendedores da banha da cobra. É o negócio diz Rio, Cotrim que sim.

Sendo a gestão privada tão boa, tão boa por que precisa do Estado? Quem a impede de investir no Ensino, na Saúde, onde quer que seja? Estes gestores de alto coturno o que pretendem é que o Estado os subsidie dado a sua tradicional inclinação para viver à custa do setor público. Invistam, invistam, quem os impede? Mostrem que são melhores, deem o exemplo. Em cima da mesa o exemplo esplendoroso é a banca corrupta e corruptora, salvo poucas exceções. Olhem para os Rendeiros deste país, só eficiência a meter o negócio nos bolsos.

Cotrim na sua pose liberal quer que todos tenham acesso à escola e à saúde privadas. Com quê?

Se os portugueses quiserem pagam com votos, não lhos dando para estas manigâncias.

Os debates que o não são, por que não roubou Prometeu aos Deuses tempo para o dar aos humanos?

Os debates de vinte e cinco minutos não são bem debates para esclarecer as propostas dos líderes dos partidos e deste modo as diferenças entre eles; são uma espécie de ringue em que o primeiro a expor troca a exposição por meia dúzia de pontapés no adversário obrigando o atingido a passar o “debate” a correr atrás do outro para ripostar com outra “sova” e assim em redemoinho até ao trucidamento final de um ou dos dois.

Está montado o Coliseu romano para vitoriar os vencedores da arena e vituperar os que não sabem usar os punhos e as espadas.

No Coliseu de Roma não havia moderador, só o poder absoluto do Imperador. De algum modo os moderadores nas estações de televisão têm um poder similar, trocam o sinal do polegar pelo estribilho – O tempo acabou.

Depois recomeça com tempo “infinito” – o do debate dos comentadores; os hierofantes, os que interpretam in nomine populi quem venceu. É o tempo da estação, avara em o conceder a quem pode esclarecer e de cancelas abertas para quem interpreta o que milhões de seres humanos no seu íntimo atendem em parte ou na totalidade face aos argumentos veiculados, quase sempre aos chutos.

A velocidade do tempo que vivemos e nos escraviza impõe esta maneira de encarar a democracia, submetendo-a ao tempo mediático; o dono de todo o tempo comunicacional obriga o debate democrático conter-se dentro de duas dúzias de minutos.

Num tal contexto o debate deriva muitas vezes para um tipo de pronunciamentos agressivos impossíveis de verificar ficando no ar o lado da política espetáculo que agrava a desconfiança dos cidadãos no seu exercício.

Na fábrica ou no escritório o dono do tempo é o patrão, na democracia atual o tempo do debate é uma espécie de arremesso democrático, ou seja, um cheirinho que acompanha a democracia.

O modelo escolhido torna evidente o rebaixamento do debate democrático a uma repetição quase burocrática de um conjunto de frentes a frente em que é impossível na prática qualquer interveniente apresentar as propostas, obrigando-os a recorrer a uma série de slogans fortes que substituam ideias e propostas. A chamada e apregoada preparação não passará da finta, da rasteira com que o outro não conta, substituindo-a pela afirmação mais ou menos serena das ideias e dos projetos.

Choca o tempo atribuído aos debates com o tempo conferido aos comentadores a explicar o sucedido no “confronto” das posições e o foguetório em que muitas vezes as suas opiniões não passam de ecos das suas opções políticas.

Este tempo de debate é o terreno ideal para os populistas; ali medram, inventam, insultam, aldrabam e espojam-se na lama por si criada.

Talvez Prometeu nos tivesse trazido mais felicidade se tivesse roubado tempo para desfrutarmos em vez de nos entregar o fogo; os debates atuais na televisão apenas confirmam esta realidade. Nem nos debates eleitorais os candidatos, de onde sairá um primeiro-ministro, têm tempo e aceitam-no. Glória às televisões nas alturas. Amen.

Por uma maioria de votos de esquerda plural


Em 2015, os entendimentos à esquerda permitiram reverter medidas socialmente
injustas e economicamente contraproducentes impostas pela troika e pelo governo de
direita. Mostraram também que foi possível fazer convergências à esquerda em torno
de objetivos concretos, mesmo no quadro de constrangimentos europeus que
continuam a limitar o alcance das mudanças. A longevidade da solução política então
encontrada superou todas as expectativas iniciais.
Os signatários desta carta, que apoiaram desde a primeira hora as convergências à
esquerda, entendem que a devolução do voto aos cidadãos, no atual contexto, não
tem de ser um drama. Pode e deve ser uma oportunidade de clarificação sobre o
projeto de desenvolvimento para o país.
Apesar de não termos militância partidária, entendemos que os progressos políticos
verificados desde 2015, mesmo quando insuficientes, não teriam sido possíveis sem o
empenho do BE, do PCP e do PEV, no quadro de uma maioria parlamentar de esquerda
com o PS. Sem prejuízo do balanço diferenciado que fazemos das razões que levaram à
interrupção da legislatura, sabemos que a concretização de uma agenda
socioeconómica mais ambiciosa é uma tarefa que o PS, sozinho, não poderá cumprir.
Defendemos um Serviço Nacional de Saúde público e universal, que valorize os seus
profissionais, travando assim a crise que a pandemia acelerou. Defendemos os direitos
do trabalho, revertendo as leis laborais do tempo da troika, recusando que a evolução
da economia nacional seja baseada nos baixos salários e na precariedade. Defendemos
uma política de habitação pública que responda à especulação que expulsa jovens,
pobres e a classe média dos centros das cidades e promove a segregação social e
racial. Defendemos a escola e a universidade públicas, assim como a produção cultural
e o respeito pelos seus profissionais. Defendemos a preservação do planeta,
recusando encarar a urgência climática como uma oportunidade de negócios.
Sabemos, porque quase meio século de democracia nos ensinou, que isto só é possível
se garantirmos e reforçarmos a diversidade e pluralidade do campo da esquerda.
Sabemos, porque 2015 nos ensinou, que todos os deputados que elegemos contam e
que o próximo governo será formado pela conjugação da vontade das diversas forças
parlamentares, independentemente de qual venha a ser o partido mais votado. E
sabemos que a reedição, formal ou informal, do bloco central só pode ser evitada se as
esquerdas parlamentares saírem reforçadas.
O nosso apelo é que o dia 30 de janeiro sirva para promover uma maioria plural de esquerda. A
mesma pluralidade que impediu o aprofundamento do retrocesso social que a troika e o governo
de direita quiseram impor. A mesma pluralidade que permitiu avançar com medidas para a
justiça social e económica neste país. Seja qual for o futuro, só essa pluralidade pode construir o
diálogo, a alternativa e a resistência. Sem ela, a esquerda derrota-se. Com pluralidade, a agenda
de esquerda para um desenvolvimento mais justo e sustentável de Portugal sairá reforçada.
3 de Janeiro de 2022.
Os 100 subscritores:
Abílio Hernandez (professor universitário); Alberto Melo (professor); Álvaro Siza Vieira (arquiteto); Américo
Monteiro Oliveira (membro da CE CGTP-IN); Ana Benavente (socióloga); Ana Cordeiro Santos (investigadora); Ana
Costa (professora universitária); Ana Drago (socióloga); Ana Ferreira (investigadora); Ana Luísa Amaral (poetisa); Ana
Petronilho (investigadora); André Carmo (professor universitário e sindicalista); António Pinho Vargas (compositor);
Artur Cristóvão (professor universitário); Bárbara Bulhosa (editora); Bernardino Aranda (livreiro); Boaventura Sousa
Santos (professor universitário); Carlos Seixas (programador); Carlos Vargas (jornalista); Carmo Afonso (advogada);
Constança Cunha e Sá (jornalista); Cláudio Torres (arqueólogo); Daniel Oliveira (jornalista); Diogo Martins
(economista); Domingos Lopes (advogado); Elisabete Moreira (professora); Fátima Sá (professora universitária);
Fernanda Rodrigues (assistente social); Fernando Nunes da Silva (professor universitário); Fernando Paulouro das
Neves (jornalista e escritor); Francisco Bethencourt (professor universitário); Gabriela Moita (psicóloga); Gonçalo
Leite Velho (professor ensino superior); Guadalupe Simões (enfermeira e sindicalista); Henrique Barros (médico de
saúde pública); Henrique Sousa (investigador social); Isabel do Carmo (médica); Isabel Lindim (jornalista); Ivan Dias
(produtor); Joana Craveiro (encenadora e dramaturga); João Fazenda (ilustrador); João Leal (professor universitário);
João Leal Amado (professor universitário); João M. Almeida (quadro superior); João Rodrigues (professor
universitário); José António Bandeirinha (professor universitário); José Aranda da Silva (ex-bastonário da Ordem dos
Farmacêuticos); José Carlos Martins (enfermeiro e membro da CE CGTP-IN); José Feliciano Costa (professor e
sindicalista); José Luís Peixoto (escritor); José Maria Silva (dirigente associativo); José Neves (professor universitário);
José Reis (professor universitário); José Vítor Malheiros (consultor); Lúcia Amante (professora universitária); Luís
Miguel Correia (realizador); Magda Henriques (programadora cultural e professora); Manuel Correia Fernandes
(arquiteto); Manuel João Ramos (professor universitário); Manuel Lisboa (sociólogo); Manuel Morais (agente
principal unidade especial de polícia e antropólogo); Manuel San-Payo (artista plástico); Manuela Barreto Nunes
(bibliotecária); Manuela Mendonça (professora e sindicalista); Manuela Ribeiro Sanches (professora universitária);
Manuela Silva (médica); Margarida Santos (investigadora social); Maria Augusta Sousa (enfermeira); Maria Irene
Ramalho (professora universitária); Maria José Espinheira (administrativa ); Mário de Carvalho (escritor); Mário
Laginha (músico); Marta Delgado Martins (advogada); Marta Lança (jornalista e tradutora); Miguel Gonçalves
Mendes (realizador); Miguel Real (escritor); Nuno Serra (geógrafo); Nuno Teles (professor universitário); Patrícia
Bastos (professora universitária); Paula Cabeçadas (ativista política); Paulo Pedroso (sociólogo); Pedro Abrunhosa
(músico); Pedro Estêvão (sindicalista e investigador); Pedro Messias (sindicalista e bancário); Pedro Vieira (escritor);
Pilar del Rio (jornalista); Ricardo Paes Mamede (professor universitário); Rogério Moreira (gestor); Rui Bebiano
(professor universitário); Rui Graça Feijó (investigador); Sérgio Antunes (arquiteto); Sérgio Tréfaut (realizador);
Tatiana Salem Levy (escritora); Teresa Beleza (professora universitária); Teresa Dias Coelho (artista plástica); Teresa
Villaverde (cineasta); Tiago Rodrigues (encenador); Ulisses Garrido (sindicalista); Victor Louro (engenheiro
silvicultor); Vitorino Salomé (músico)

 Maiorias absolutas? Ponham os olhos nas maldades históricas e nos “frugais”

Os dirigentes políticos têm a tendência de considerarem o momento político como sendo decisivo e as eleições as mais importantes. As próximas são importantes pela simples razão de que delas sairá o parlamento que escolherá o governo.

Tendo em conta a anunciada gula de encher o pote com a maioria absoluta, importa ter presente alguns ensinamentos da nossa História recente.

Comecemos pelas maiorias absolutas de Cavaco Silva. O homem governou como o Rei D. Diniz – fez o que quis. Destruiu setores produtivos (marinha mercante, pesca, indústria e agricultura) em troca de uns subsídios do género de trocar um porco por três ou quatro chouriços.

 No seu reinado ocorreu uma caterva de crimes cometidos por desvio de subsídios e as conhecidas manigâncias do setor bancário e financeiro encostado a um poder quase absoluto. A marca de Cavaco ficou ligada aos tipos de jipes dos jovens agricultores dos passeios de Lisboa. Lisboa parecia o Paris/Dacar. Era a agricultura do capitalismo popular.

 E convém ter presente todos os ministros ligados ao BPN, o glamoroso banco da elite do PSD.

A maioria absoluta de José Sócrates deu autoestradas e mais autoestradas e um número bastante significativo de acusações da prática de crimes gravíssimos em apreço nos tribunais ou à espera de prescrição. O PS atolou-se de tanto poder ter abocanhado.

É preciso lembrara que o PS sozinho, à solta com uma maioria absoluta, é um perigo, até para si próprio. Não se trata de qualquer sectarismo.  A experiência portuguesa mostra que quanto maior é a maioria do PS mais débil é a governação do PS e os factos não desmentem desde o Acordo do queijo Limiano de Guterres, passando por Sócrates.

Imagine-se o que aconteceria à gestão dos fundos da bazuca com uma maioria absoluta do PS; Costa, mesmo sem a tal maioria, correu o país a criar a ideia de que a bazuca era do e para o PS. E o PSD não tem estaleca para dar lições.

Há depois algo de irracional no modo como Costa, um político inteligente e experiente, coloca de modo tão infantil o suposto dilema entre ele e Rio. E porquê? Porque Costa dentro desta lógica ilógica perdeu as eleições em 2015 e apesar disso foi nomeado Primeiro-Ministro; ganhou as Regionais dos Açores e perdeu o governo Regional, exatamente porque as maiorias se formam nos parlamentos. Porquê esta manipulação? Para justificar posteriores acordos à sua direita?

A maioria absoluta traz poder quase absoluto e dá a quem a tem a falsa ilusão de que pode fazer o que quiser, desprezando os diversos interesses representados no parlamento, dado ter uma espécie de fiéis que votarão o que a direção lhes encomendar; longe vão os tempos das rebeliões dos deputados.

A maioria absoluta despreza os restantes partidos, corrompe, fecha o partido em si próprio e na luta por distribuição de lugares e cargos. Encerra a política nos interesses do partido maioritário. Esta realidade não traz estabilidade, faz sangrar a seiva democrática pela sufocação do controlo da vida política pela maioria absoluta.

As maiorias que os partidos formam no parlamento dão força à política no seu sentido mais nobre, o de encontrar com outros os superiores interesses da população e do país. Impede a crescente descrença nas instituições porque um parlamento que se transforma numa caixa de eco do governo é pobre e deixa na população a ideia de que os deputados não servem para nada e, por outro lado, alimenta a extrema-direita que medra neste pântano de desesperança.

A política tem de ser entendida como atividade nobre e digna que exige compromissos e elevação no respeito pela defesa dos interesses populares, a partir das maiorias que se formarem no parlamento.

Além do mais, com tantos europeístas e admiradores da Alemanha, seria bom ter presente que naquele país foram precisos três meses para se formar uma coligação; ao lado, nos frugais Países Baixos (pouco frugal esta designação) foram precisos nove meses para formar um governo de coligação e nos países escandinavos governam coligações de vários partidos. Então? Ponham os olhos nos frugais. E nas maldades históricas das maiorias absolutas.

https://www.publico.pt/2021/12/30/opiniao/opiniao/maioria-absoluta-ponham-olhos-maldades-historicas-frugais-1990198

Gato escondido com Rio de fora

Rio ajudou a que o PR dissolvesse a AR por ter votado contra o orçamento, tal como o PCP, BE, CDS, IL, PEV e Chega. O governo caiu e haverá eleições a 30 de janeiro.

Depois de ter derrotado o assertivo Paulo Rangel veio cheio de nove horas propor ao PS o seguinte: se o PS for o mais votado, o PSD durante dois anos deixa passar o orçamento; se for o PSD, o PS fará o mesmo.

Ora se o PSD não se importa que o PS, caso tenha mais votos que o PSD, governe mais dois anos, por que não o fez aquando da votação do O.E.?

Se à partida está disponível, mesmo sem conhecer o conteúdo, a deixar passar o governo PS, durante dois anos por que votou contra por mais um ano apenas?

RIO E AS MINIS

A notícia reza que Rui Rio tem uma espécie de mini base para formar governo, o que é único e admirável.

Esgotam-se os adjetivos tal é a envergadura da dita. Aliás, mais ninguém tem. Só os hipermercados. E a mini, dado o caráter renovador, tem na base ex-ministros. Extraordinário. Somos todos mini, não somos?   

Viva o PSD e a mini base. E quem a apoiar. Coitadinho do Natal.

A liderança

Haverá quem pense que o futebol é só alienação e não seja capaz de compreender o enraizamento profundo na vida popular. A simplicidade do jogo é uma das principais razões da adesão popular. É a sua simplicidade contagiante que leva os miúdos a jogarem e os graúdos a regalem-se com as jogadas do fim do mundo. Naturalmente que a hiperindustrialização e os mais escuros negócios abalam a relação com a comunidade.

Mesmo sem essa nova variante já era há 60, 70, 80 anos o desporto rei, e era aquele que as crianças queriam praticar e virem a ser como os seus ídolos.

Vem isto a propósito do clássico disputado ontem entre o Porto e o Benfica. Já foram escritos comentários e análises teóricas sobre o apagamento da equipa da Luz.

Eu queria, pelo lado da liderança, referir outro ângulo, muito mais presente em quem jogou futebol e que é o seguinte.

Acontecia muitas vezes ainda as equipas estavam à espera do apito e sentia-se no outro uma disponibilidade que impunha respeito. Repito, ainda a bola não tinha começado a rolar, era apenas algo que sobressaía na disponibilidade física e mental. Sentia-se aquela galhardia, uma espécie de concentração/confiança.

Esse lado “oculto” em parte “condicionava ” o adversário. E mal o jogo começava se aquele primeiro felling correspondia à determinação de dar tudo, então esse lado subjetivo transformava-se numa imensa objetividade que realmente condicionava o outro.

Se viram o jogo entre o Porto e o Benfica saberão daquilo a que me quero referir – à disponibilidade mental e física para impedir o outro de ser o que é e passar a ser o que a outra equipa quer que seja. Questão de liderança.

Um Presidente que não comenta e um hierofante que acerta mal

Os portugueses estavam todinhos à espera que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, comentasse o caso da demissão do Sr. Dr. Cabrita.

Mas não comentou, ou seja, comentou a dizer que não comentava, não fosse o povo português ficar horas ou dias à espera, havendo quem temesse elevado abstencionismo nalguns locais de trabalho. Está a chegar o dia da ginjinha e deste modo entendeu e muito bem que fosse o hierofante Marques Mendes a botar comentário que botou.

Marques Mendes faz-me lembrar o Manel Pataco, um recatado homem de Amorim(a freguesia onde cresci até outras paragens e deixou de ser freguesia devido aos sátrapas da troica Merkeliana que estavam aterrorizados com os gastos das freguesias, na terra deles não gastam 1 € em freguesias) que nasceu a 29 de fevereiro há já uns largos anos, por altura do fim da guerra mais pico, menos freguesia.

O Manel ficou célebre porque tinha uma pergunta fatal que era esta – Diga lá que idade tenho eu Sr. João Lopes?

O meu pai respondeu-lhe, pela tua pinta deves ter uns trinta. Aguardou o resultado.

– Acertou mal.

– Acertei mal?

-Sim senhor, há anos que não faço anos.

Ora o nosso sempre prazenteiro Marques Mendes também acerta mal. Nos mapas acerta e nos livros que apresenta também; o resto é mais para o 29 de fevereiro do Manel Pataco.

RENDEIRO FALIDO E CHEIO DE DINHEIRO, O INDULTO, AS SAUDADES DAS CADELAS E A JUSTIÇA

Quando um(a) cidadão(ã) se senta no banco da sala de audiências, frente ao juiz, há, desde aquele simples momento, uma espécie de um mundo invisível que percorre o julgador, mesmo que seja no domínio do inconsciente. Não se vê, mas está lá, como a alma ou o espírito, presente na atmosfera da sala do julgamento, no modo como certos arguidos colocam as palavras e as adoçam.

Alguém bem vestido, de boas maneiras, cortês gera no tribunal uma atitude de perplexidade, mesmo que sem esse propósito. No fundo, é alguém que os juízes podiam ter conhecido nos bancos da Faculdade.

Quem, por outra banda, alguém se senta no mesmo banco mal vestido, de maneiras mais ou menos rudes, de acordo com as famosas regras da experiência comum, é algo que se aceita que possa acontecer.

Não é, em geral, uma atitude consciente e premeditada; é a condição humana a funcionar de acordo com o que apreendeu consciente ou inconscientemente desde o berço à universidade e à vida.

Um banqueiro é polido. Licenciado. Bem-falante, melhor vestido e engravatado e sapatos a condizer.

Este mundo não foi feito para os de cima se sentarem no banco dos tribunais, onde normalmente se sentam os de baixo.

Aliás, tenha-se em conta que, neste país de vivaços, os banqueiros aguardam anos e anos para serem julgados e antes de o serem ficam loucos ou morrem ou fogem.

Há quem defenda que o mal está nos recursos, como se o mal nos incêndios estivesse nas florestas e árvores. O mal está em empobrecer de tal modo a máquina judiciária que o longo tempo de decisão se torna uma marca inultrapassável e desprestigiante, mas nunca inevitável, bastava para tanto alocar meios. A justiça não dá votos, logo não é importante.

A justiça, pilar básico do Estado de direito democrático, está de rastos e não acontece nada. Todos, inclusive os magistrados, independentemente do brio profissional, já perceberam que este país aceita nesta matéria quase tudo. Esperar 10 anos por uma sentença. Pagar custas caríssimas. Aguardar anos e anos pelas decisões dos recursos. E nada acontece. Nem um tremelique, quanto mais um sobressalto. Num país de gente cordata, a cerviz tanto baixa como sobe, tudo depende de quem está à frente.

Há menos de dez anos os juízes mereciam a confiança dos portugueses. Hoje já não a merecem. Dá que pensar.

Na verdade, desacreditar a justiça é meio caminho andado para instaurar o clima de medo e de desconfiança nas instituições democráticas. É o objetivo da extrema-direita e dos criminosos. Uma justiça que se faz notar como sendo molinha com todos os Rendeiros inspira desconfiança. É um sintoma de uma peste que corrói a alma e a esperança de Portugal e não só.

Os Rendeiros de todas as espécies ao espezinharem a justiça gozando com tudo e com todos, a começar pelos próprios juízes, estão a matar a justiça que devia fazer parte do pão nosso de cada dia.

O banqueiro escarnece do país quando anunciou à CNN que iria processar o Estado português devido ao atraso da justiça. Ele, que jogou tudo com a sua equipa de advogados na lentidão da justiça, anuncia uma ação contra o Estado. É próprio de um criminoso recalcitrante, incapaz de se colocar na ordem jurídica vigente, um fora da lei.

Os gestos, as palavras adocicadas, a vestimenta e os modos na frente dos juízes são parte da máscara usada para conseguir enganar o tribunal e ficar com o passaporte e viajar quando e como quis.

Seria possível acontecer com um desconhecido?  O nosso espantoso Presidente responderia a quem fora de tempo exigisse um indulto para regressar? O Presidente despacha sobre indultos inexistentes? E que diz ele das saudades das cadelas anunciadas à CNN por Rendeiro? Com os diabos, afinal é mesmo assim, um banqueiro é um banqueiro, um homem cheio de dinheiro, mesmo dizendo-se falido.

https://www.publico.pt/2021/12/02/opiniao/opiniao/rendeiro-falido-cheio-dinheiro-indulto-saudades-cadelas-justica-1987138