No interior da solidão dominante, no país dos abandonados

 

De repente os que têm governado o país descobriram que o interior está desertificado, sem gente, sem serviços, com a agricultura abandonada, sem futuro.

É extraordinário. Os que têm governado desde 1976 até 2015 e nunca saíram dos cinquenta quilómetros da faixa do litoral e só agora na triste luta política em torno dos incêndios, descobriram o interior… Que andou a fazer Mário Soares? Cavaco? Sampaio? Durão?  Guterres? Sócrates? Passos Coelho?

Alguns fizeram auto estradas que davam para exportar, mas os camiões vinham de lá para cá e eram poucos os que iam para lá.

Este modelo de desenvolvimento impulsionado pelo marcelismo e desenvolvido nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 é o responsável pelo estado de coisas atual.

Que bem que fala Fernando Negrão a proclamar a  necessidade de dar atenção ao interior. A viagem dele e dos seus pares devia ser ao interior das suas consciências e deixar de fazer de conta que o abandono não é obra sua também.

Mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que foi líder do PSD nunca falou do interior como fala agora. Falhou à frente do PSD. Foi-se. Dava mergulhos no Tejo para ver se ganhava a Câmara de Lisboa e não mergulhava no interior. Descobriu-o agora. Mesmo como comentador omnipresente pouco ou nada falou do interior. Claro, mais vale tarde que nunca. Sem dúvida. Mas caramba, os filhos têm nome e os pais é que lhes dão os nomes. Este é o tipo de desenvolvimento que Cavaco apoiou entusiasmado cortar vinhas e olivais, o abandono do interior. Não há memória? Ponham as mãos no interior das consciências; deixem-se de pantominices.

A criação de uma burguesia compradora que investiu em hipermercados e similares levou grande número de agricultores à ruina. Importar para vender no Pingo Doce, no Continente, no Intermarché, no Mini Preço… Telefonar, encomendar e vender. Este é o mote. Campanhas publicitárias agressivas. Grandes promoções. E aqui estamos. Por obra e graça de quem governou e dos que no tecido económico apoiaram esta política.

É quase como aquelas e aqueles que por tudo e por nada falam dos valores da família, só que é para família ver, pois os horários de trabalho, as distâncias entre o local de residência e o posto de trabalho  e os ritmos não deixam tempo para a família. É um faz de conta, tão em moda neste país a cair para o mar e desertificado no seu interior.

Como se pode imaginar que os jovens fiquem no interior onde nasceram, se, ali, olhando em volta, só veem velhice? Se não têm onde arranjar um emprego digno? Se os municípios sãos maiores empregadores… Se até se fecha estações de correios, e até os balcões da CGD… Se os hospitais estão a dezenas e dezenas de quilómetros… Se os exames médicos estão à mesma distância, se a saída é emigrar ou ir para a polícia ou para as Forças Armadas? Como podem falar em coesão social, se o Estado não investe no interior? Se Bruxelas do alto do seu potestas não o permite e o governo amoucha porque é assim a nossa vidinha de mão estendida a ver se este ano, os Comissários, espécie de sátrapas persas, cortam menos porque, como diz Marcelo, somos bons alunos. E como disse Santos Silva, devíamos dar graças a Deus porque podia ser pior…

Em breve será muito pior. O número de votos cairá brutalmente e onde não há votos, não há investimento. Porque falam quando deviam calar-se no interior das sua vergonha?

É uma dor de alma viajar para o terreno da solidão dominante. É revoltante querer fazer dessa solidão dos abandonados, criados por políticas sucessivas rotuladas de sucesso, arma de arremesso, como no caso dos incêndios. Triste vida. Triste sina.

Texto publicado no Público online

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Kim e Trump e o destino das Coreias

 

A Península coreana está localizada numa zona nevrálgica da Ásia; basta para tanto ter em conta a sua longa fronteira com a China, a Rússia e, por mar, com o Japão.

Acresce a esta situação a presença militar dos EUA com mais de trinta mil militares com armamento nuclear.

A linha divisória das Coreias, no paralelo 38, é a zona mais explosiva do mundo, tanto mais quanto os dois países, outrora um, estão tecnicamente em guerra, pois não assinaram qualquer tratado de paz desde que acabou a guerra da Coreia, vigorando ainda um armistício. A situação é tanto mais grave quanto as partes beligerantes detêm armamento nuclear.

Pude testemunhar em Panmunjon a prontidão e o grau de hostilidade entre as tropas que se encontram frente a frente. Era de arrepiar. Ao menor descuido tudo podia suceder.

Até por isso ninguém ousará duvidar que este passo dado por Trump e Kim (seja pelo que seja e pelo que cada um tem em mente) é um sinal que faz diminuir a tensão e faz com que o mundo possa respirar melhor.

Por uma questão de rigor factual e histórico sublinha-se que foi no Sul que se instalaram as armas nucleares e se passaram a realizar exercício militares (Team Spirit) que simulavam o seu emprego. A razão dos EUA é boa de ver – a sua presença era parte integrante da estratégia de confronto com a URSS e China. O Sul ficava assim totalmente dependente da estratégia e arsenal nuclear dos EUA.

O Norte só após a implosão da URSS desenvolveu o seu próprio arsenal, o que lhe permitiu negociar tête à tête com os EUA, sem o Sul.

Esta cimeira de Singapura acontece tendo em conta que o Norte pode atingir nuclearmente território dos EUA, as sérias dificuldades económicas devido aos seus problemas e às brutais sanções, a aspiração do Sul a uma clima de estabilidade e ainda a um facto relevante como é o caso de Trump precisar de apresentar aos EUA e ao mundo um êxito político-diplomático no meio de um mar de críticas.

Além do mais a China a última coisa que desejaria seria uma guerra na sua fronteira ou uma política que leve a centenas de milhares de refugiados a entrar no país.

A realização da cimeira deu uma nova visibilidade ao conflito e ao apresentar como objetivo dela emanado a desnuclearização total da Península é altamente positivo. O comunicado é claro e estatui a desnuclearização total, o que implicará um longo processo que se espera que a ONU se associe em pleno, até para abrir os caminhos mais sinuosos entre os negociadores.

Se Trump precisava de um sucesso, kim precisa de investimento na sua depauperada economia. Trum prometeu-lhe uma “pipa de massa”…vamos ver.

No Sul é indiscutível que o nível de vida é de outra qualidade. Diga-se que o Norte outrora campeão da reunificação das Coreias, deixou cair essa aspiração e talvez se perceba. Na defunta RDA a diferença do nível de vida com a RFA era bem diferente e bem se viu o que sucedeu.

Não é despiciendo pensar que os EUA jogam em alterações políticas no Norte, embora não o digam e até Trump levou o seu feeling de negociador a elogiar Kim e a convidá-lo pra a Casa Branca, mas toda a gente sabe que o que Trump diz é como o que dizia Frei Tomás.

O regime dinástico do Norte não está em condições de se abrir em larga escala sob pena de eventual implosão. Talvez o caminho da China nos anos da abertura parcial em certas zonas sirva de paradigma.

O problema maior é o grau de concentração do poder num núcleo familiar restrito que numa nova situação política pode enfrentar problemas. Atente-se neste pormenor: o Presidente da RDP da Coreia é o falecido avô do atual líder que é Presidente dos Assuntos do Estado…

Com maior comércio entre ambos os países e fluxo entre eles e a própria China (mesmo limitado) as coisas podem vir a alterar-se.

A China conseguiu fazer essa travessia, apesar de Tianamen, e é hoje a segunda potência mundial.

Os coreanos são um povo abnegado, cultivando historicamente a obediência aos seus dirigentes. Porém, como em tudo na vida, há limites.

Neste complexo exercício, o peso da realidade impôs-se a Kim, Trump e até Moon que não esteve, mas gostaria de ter estado em Singapura.

Trump precisava de mostrar as suas aptidões de negociador e Kim de ganhar estatuto junto da população e no mundo.

 

 

 

 

 

António Centeno Primeiro-Ministro da Junta de Freguesia Portugal

 

Como quem não quer assumir Costa envia sinais de estar a alterar o rumo da política que segundo ele deu bons resultados, aliás visíveis por toda a gente, menos por Cristas e Rio.

A austeridade que Passos transformou em eixo da sua política de empobrecimento está nestes meses de 2018 a emergir e até com o mesmo argumentário, ou seja, não há dinheiro, o que não é verdade, nem sequer no anunciado montante referente à despesa com a progressão dos professores na sua carreira.

Quer Tiago Rodrigues, quer Costa não discutem o problema com base em qualquer outro fundamento que não seja o da inexistência dos alegados seiscentos milhões de euros…Ou seja atiram para cima de todos os professores a aleivosia de se quererem apoderar de algo que o país não tem, e com esse despropósito criar sérias dificuldades em Bruxelas e Berlim onde tudo se decide. Trata-se de um problema interno, onde os portugueses são relegados para uma espécie de nativos coloniais que têm na chancelerina e no Président Macron os seus tutores ou ajudantes da missa como os Monsieur Moscovici E Monsieur Drombrovsky, os Comissários europeus das Finanças e da Economia…apesar de por cá o Presidente omnipresente invocar a qualidade de bom aluno, uma verdadeira Junta de freguesia entre o mar e a raia de Espanha.

Os professores  são apresentados como uma classe que não olha a meios para atingir os seus fins e ameaça com greve os pobres dos alunos, como se os pais dos alunos não tivessem tido a possibilidade de subir na sua carreira profissional.

Marcelo, Costa, Santos Silva e Centeno quando se trata enfrentar Bruxelas pelos cortes brutais nos fundos de coesão já acham que menos sete por cento é bem melhor que menos quatorze , como se Portugal se apresentasse à U.E. de mão estendida e internamente, diante de uma classe estratégica para o desenvolvimento do país, de pau em riste. É caso para perguntar onde está a paixão pela educação?

O argumento do bom aluno do Eurogrupo que Marcelo gosta de invocar serve para tentar meter na cabeça dos portugueses que o terror austeritário é o único critério para governar e assim manter o país com as reformas que consistem sempre em cortes na despesa pública, satisfazendo as novas divindades, os mercados.

A situação acentuou-se desde que Centeno foi levado para Presidente do Eurogrupo, que ninguém sabe bem o que é do ponto de vista institucional.

Ainda gostava de ver Centeno defender que na Alemanha o tempo de trabalho dos professores alemães não contava para a progressão na carreira profissional. Cairia, em Berlim, a torre da televisão na Alexanderplatz e o rio Spree saía do leito…Até a Madame Europa, como a tratam com toda a sabujice  alguns jornalistas, se revoltaria contra tal despautério.

Claro que para esta elite de cá uma coisa são os professores da Presidente da Europa e outra coisa são os nossos professores da Junta de freguesia Portugal.

Os professores pertencem a um grupo profissional absolutamente indispensável para fazer o país progredir, dado o relevo da educação nas novas condições da produção. Acentua-se, como bem se sabe, a substituição da produção manual pela altamente especializada

Só através da extensão e sofisticação da educação se pode chegar ao desenvolvimento económico que o país necessita. Tenha-se na devida conta que nos países com maior índice de desenvolvimento humano a profissão de professor é das mais concorridas e prestigiadas.

Só o governo de um país desinteressado nesse tipo de desenvolvimento ataca os professores no seu conjunto acusando-os de chantagistas, tentando atirar a opinião pública contra eles, em vez de os defender.

Se diante do país o Primeiro-Ministro acha que não há dinheiro para o direito mais elementar na vida de um cidadão forçosamente transmite a ideia que o Estado é alguém em que se não pode confiar com todas as consequências negativas advenientes.

Costa parece estar a absorver a filosofia centeneana que por sua vez absorveu a bruxelense, isto é, a de Portugal não passar de uma Junta de freguesia da Europa alemã.

Texto publicado hoje no Público online

 

Morrer como uma pedra

Foi uma pancada seca, vinda de dentro de mim que me atirou para o chão sem que eu pudesse fazer nada. Fiquei colada ao chão, sem me poder mexer. Nos meus olhos via uma parede branca de leite e, às vezes, distinguia as coisas. Dei conta que não me podia mexer, ao fim de uns instantes. Estava ali como uma pedra. Não podia falar e ainda pensei gritar, não conseguia. Estava tombada para o lado direito. Quando pensei em me virar para me levantar só a tal parede branca aparecia à frente do meu olhar. Era uma pedra colada ao chão.

A minha filha haveria de estranhar tanto tempo na casa de banho. Mãe, mãe, que tens tu? E eu ouvia. E, sem poder responder, fiquei naquela maldição que viera de dentro de mim e me fizera destroçar a pontos de ficar estendida no chão, como uma pedra.

Quando vi a minha filha fiz um esforço tão grande, tão grande para dizer Cristina leva-me ao hospital, desisti. Nem a mão lhe pude estender. Ela aproximou-se de mim e tentou levantar-me, não consegui porque um corpo morto que não se mexe pesa mais que o corpo normal. E o meu era uma pedra colada ao chão.

No meio daquele rio de branco, pensei que ia morrer. Não me mexia, colada ao chão, como uma pedra.

Na ambulância dos bombeiros a ideia da minha morte chegou com muita força. Estava a caminho dela. Chegara sem qualquer aviso. Eu ia como vai o azeite por um funil, sem poder voltar de novo para trás, de encontro ao regaço da morte.

E no hospital, quando ouvi os médicos dizerem uns para os outros que ia ficar assim colada à cama decidi dizer à milha filha que não queria viver, e quando ela me veio ver e eu lhe ia dizer o que queria dizer então não fui capaz e só disse a palavra morrer, mas mal dita, só que ela percebeu porque me respondeu, ó mãe, morrer, qual morrer, tens cada ideia, tira essa ideia da cabeça.

A minha aflição era não conseguir dizer que não queria ser uma pedra. E fiquei danada com a Cristina porque tinha a obrigação de me deixar morrer e veio com aquela conversa. Eu era uma pedra colada à cama do hospital. Eu não falava, não mexia um dedo. Eu era um estorvo para mim mesma e não queria continuar a ser. Uma vez ou outra ouvi a enfermeira a pedir fraldas.

E então eu dizia para mim mesma que ia deixar de comer. Elas vinham dar-me de comer e eu não abria a boca. Cerrava os dentes. Então meteram-me uma sonda e um tubo no braço. Só que eu não me podia mexer para atirar aquilo pelos ares.

Dizia à minha filha, à minha Cristina a palavra morrer muito mal dita e ela virava a cara, já não respondia, virava-se.

A certa altura já nem a palavra morrer podia dizer. Nem os restos da palavra. Já não dizia nada.

Então disse para comigo quando a Cristina e o Fernando e a Inês viessem, ia fechar os olhos enquanto eles cá estivessem para que soubessem que eu não os queria ver.

Eu estava morta, como uma pedra. E ninguém ia visitar pedras. Dentro de mim já não havia palavras. Já nem à minha filha, nem ao meu marido, nem à minha neta eu queria ver; só queria morrer. Morrer. E de um dia para o outro nem a palavra morrer eu era capaz de dizer.

Então para que eles soubessem bem o que eu queria fechei os olhos para sempre. Mal abriam a porta eu fechava os olhos. Quando uma vez ou outra me levaram numa cadeira de rodas a dar uma volta, eu fechava os olhos. Ali estive anos de olhos fechados, como uma pedra. À espera. Como uma pedra.

Nova vaga de prisões na Arábia Saudita

 

Na Arábia Saudita, nas últimas semanas de maio, foram presas, segundo noticias várias, dezassete ativistas dos direitos humanos e, pelo menos, sete são mulheres que ousaram falar para os media, o que põe em causa a segurança do reino, de acordo com as autoridades.

As prisões aconteceram precisamente antes do início da entrada em vigor da nova lei que permitirá às mulheres fazer exame de condução, e são um aviso aos ativistas dos direitos humanos que a opressão e a repressão continuam vigentes e não irão permitir outras veleidades, como sejam a de as mulheres se considerarem cidadãs, como os homens.

A monarquia saudita constitui um caso totalmente anacrónico no nosso mundo. O reino vai-se o aguentando com os lucros fabulosos dos poços de petróleo e através da repressão cruel contra a população que não aceite o absolutismo e, em especial, contra as mulheres, tidas como seres inferiores.

Pode imaginar-se imaginar um país onde estão proibidas salas de cinema? Em que uma mulher só pode sair à rua com a permissão do marido ou de um homem da família? Ou em que o marido ou outro homem é que decide do tratamento médico a dar à mulher doente? Ou em que as mulheres não podem conduzir veículos automóveis?

Bem pode o príncipe herdeiro Mohammed Ben Salmane anunciar, com pompa e circunstância, o seu programa “Visão 2030” como um conjunto de reformas para dar às mulheres um papel de cidadania que nunca tiveram.

Bastou algumas mulheres falarem aos media para que o reino dos sabres se sentisse em perigo e logo caísse e repressão prendendo esses dezassete ativistas dos direitos humanos.

O terror quotidiano que se abate sobre os sauditas é um incómodo para os governos ocidentais. A monarquia saudita, devido aos cheques pela compra de montanhas de armas para ocupar o Iemen e intimidar vizinhos, não teme os vendedores.

Nessa “Visão 2030” as mulheres poderiam em certas circunstâncias conduzir a partir de 24 de junho tal, como noutras, já puderam ir aos recintos desportivos.

Nessa “Visão 2030” que Trump elogiou a primeira das condicionantes é saber quem vai dar aula de condução às mulheres dada a proibição de homens e mulheres interagirem naquele país.

Se até 24 de junho as mulheres não podiam conduzir, certamente não haverá instrutoras para ministrarem as aulas teóricas e práticas.

Serão seguramente homens que ensinarão as mulheres a conduzirem, o que chocará com os fundamentos daquele país, na medida em que colocará um homem a falar com uma mulher dentro de um carro, o que constitui um sacrilégio…

Bem pode a “Visão 2030” proclamar que as mulheres poderão, por exemplo, frequentar estádios desportivos, porém mantem-se a questão – as mulheres podem andar sozinhas na rua? Se não podem, como é possível irem aos estádios?

A campanha para embelezar o reino das degolações nas madrugadas das sextas-feiras é um verniz para esconder a sujidade de quem não é capaz de aceitar que os cidadãos, particularmente as mulheres, sejam minimamente livres de falar, reunir, organizar-se e de ter a crença religiosa que decidirem.

O verniz é de tal ordem que uma das princesas Hayfa bint Abdullah-Saudi se sentou ao volante de um luxuoso descapotável na capa da revista Vogue, mas apenas para tentar com a foto enganar o mundo e tapar a realidade. Na verdade, como se vê na Vogue, a princesa pode sentar-se num descapotável e ao volante…e o resto? Aliás a foto suscitou em todo o mundo árabe inúmeros comentários desmistificadores da “Visão 2030”.

Entretanto as cadeias continuam à espera de quem ouse dizer que o reino saudita é o que é, uma instituição que não se compadece com os maiores anacronismos e iniquidades como sejam o de respeitar os mais básicos direitos que se respiram no mundo e sufocam naquele país. Na verdade, qual é o país que impede uma mulher de andar na rua sozinha? De ir ao médico sem um homem? De ir aos estádios? De conduzir?

Texto do Público online

Trump troca uma cimeira por uma carta e uma ameaça

TRUMP TROCA UMA CIMEIRA POR UMA CARTA

 

Haveria alguém, neste mundo, que acreditasse que a liderança da Coreia do Norte fosse desmantelar o seu arsenal nuclear e deixasse que no Sul continuassem intactos centenas ou milhares de misseis nucleares prontos a atingirem o Norte ou a servirem de chantagem para a sua rendição?

Haveria alguém, neste mundo, que acreditasse que Kim Jong Un e os seus correligionários fossem desmantelar o seu arsenal nuclear com base em promessas sem qualquer garantia de que se efetivassem?

O Sul sabe que precisa dos EUA, mas também sabe que em caso de conflito nuclear a Coreia no seu conjunto ficará reduzida a montes de escombros, bem se sabendo que em matéria de novas tecnologias e na indústria automóvel competem diretamente com os EUA.

A Coreia do Sul não quer ficar à mercê de Trump, sempre imprevisível e arrogante. É legítimo pensar que o Sul ainda queira, tal como o Norte, desnuclearizar toda a Península, afastando deste modo as possibilidades sempre reais de um conflito nuclear.

No fundo as duas Coreias ficariam livres desse pesadelo e libertariam recursos para outros fins.

A viagem súbita e inesperada de Moon-Jae-In a Washington logo que Kim Jong Un adiantou a hipótese de um adiamento da cimeira com Donald Trump, mostrava a importância que tinha para aquele país a realização da cimeira.

Não era credível que Kim Jong Un tivesse aceitado a cimeira com Trump com base no seguinte pressuposto: liquidar o arsenal nuclear, sem mais nada da outra parte.

Podia haver “bluf” dos dois lados. Do lado da Coreia do Norte para se apresentar com outro estatuto na comunidade internacional e, do outro lado, para amortecer o choque da declaração a rasgar o Acordo Nuclear como Irão e os restantes países signatários.

A Coreia é uma nação milenar, com uma cultura ímpar, que enfrentou poderosos inimigos ao longo da sua história. Tem passado. Sabe o que é uma negociação, podendo, como todos os negociadores, fazer uma má avaliação dos seus trunfos, tanto do lado Norte como do Sul. Mas também tal erro era possível por parte de Donald Trump, sobretudo se partir para as negociações com imposições que para Kim Jong Un eram inaceitáveis.

Haveria alguém, ao cima da Terra, que acreditasse numa negociação em que uma das partes( como foi referido por Pompeo) tinha zero de concessões a fazer e a outra entregava de mão beijado o seu único ás ?

Em linguagem simples o que o Secretário de Estado propôs à Copreia do Norte foi a rendição pura e simples e não uma negociação. Era de crer que Kim Jong Un aceitasse?

Não era de esperar que o regime coreano aceitasse pura e simplesmente desmantelar o seu arsenal nuclear, sem ter garantias de que não ficava à mercê dos EUA que têm cerca de trinta mil soldados e armas nucleares estacionadas no Sul.

Admite-se como muito provável que o Presidente Moon-Jae-In quisesse afastar um perigo enorme que sobre o Sul recai, em caso de conflito.

Se o Norte desmantelasse o seu arsenal, se na parte Sul deixasse de haver armas nucleares, era claro que haveria um alívio para toda a Península.

E os vizinhos também poderiam respirar melhor, dado que a China o grande vizinho, a última coisa que deve desejar é um conflito na sua fonteira; tal como a Rússia.

Kim Jong Un quis assegurar que ficaria à frente do Norte para negociar com o Sul, muito mais desenvolvido e poderoso. Seria possível esta última hipótese? Era a única possível para afastar o perigo de guerra.

Trump nada tinha para negociar com a Coreia do Norte. Zero como afirmou Pompeo. Como Kim Jong Un não se rendeu, voltará a linguagem da guerra, que costuma trazer maus tempos. O mundo fica agora mais perigoso.

Texto publicado no Público online de hoje

 

Segredo de justiça- vergonha às escâncaras

 

Como todos os portugueses têm constatado elementos cruciais dos processos penais que envolvem figuras “famosas” do país aparecem escarrapachados em jornais, revistas e televisões.

Sejam processos de dirigentes desportivos, sejam outros ligados aos poderosos políticos ou à área do poder económico.

Bem podem as autoridades judiciais alegar que os processos estão em segredo de justiça. A verdade é que interceções telefónicas, documentos, e outros meios de prova aparecem a alimentar a voracidade dos cidadãos.

Ora o Estado é uma entidade que detém o poder de reprimir o crime, de proteger os cidadãos, incluindo os arguidos, assegurando o exercício do segredo de justiça, nos casos em que ele é declarado, dado que em geral vale a publicidade do processo.

Dito de outro modo: o Estado não deve falhar naquilo que são as suas atribuições, as quais foram definidas pelo legislador, o que lhe impõe essa obrigação, tendo, como se sabe, meios para fazer. E se os não tem, deve adquiri-los

Quando o Estado não é capaz de fazer cumprir uma das obrigações mais elementares do Estado de direito democrático, a de manter em segredo indícios que levam alguém a ser constituído arguido, e permite que seja vertido na praça pública aquilo que devia estar circunscrito aos agentes da justiça, lança na comunidade a discussão destemperada em que todos opinam a partir dos elementos soltos e de pura conveniência para a investigação ou arguidos.

Esta realidade significa que funcionários, magistrados ou advogados (menos hipóteses) que têm acesso aos autos passam para os media o que não deviam passar.

Há arguidos que por clubismos, outros por dinheiro, aliciaram ou tentaram aliciar quem pudesse favorecer determinados clubes.

Haverá, pois, no meio judicial, quem, a troco não se sabe bem de quê, passe para os media elementos que era obrigatório estarem em segredo.

Tal situação vem demonstrar que o Estado, apesar de todos os meios de que dispõe, não é capaz de fazer cumprir um comando legal cujo impacte social é enorme.

Quando o Estado não é capaz reiteradamente de fazer cumprir essa determinação significa que falha estrondosamente.

E se ao longo de décadas não é capaz de assegurar esse objetivo só tem um caminho: declarar que não é capaz. E explicar a razão de não ser capaz de assegurar o mínimo dos mínimos.

Cada vez que abre um inquérito para averiguar as falhas e as violações do segredo de justiça, toda a gente vislumbra o resultado: arquivamento.

Assim sendo, o Estado, nomeadamente, por via do poder executivo (governo) deveria ter a coragem de terminar com este faz de conta.

Ao manter-se a atual situação ela apenas serve para desacreditar ainda mais a justiça que já anda pelas ruas da amargura.

Sempre que o segredo de justiça envolve os grandes é desnudado na praça pública e, como fica impune, todos os que o violam se sentem aliciados a continuar. Seja por dinheiro. Seja por tática processual. Seja pelo que seja. É uma vergonha. Dá para pensar que há quem viva nos meios judiciais deste expediente e pareça estar mais preocupado em condenar na praça pública do que Domus Justitiae.

Quantos arguidos foram condenados na praça pública de crimes gravíssimos de que mais tarde vieram a ser absolvidos?

É uma vergonha que os media possam ser uma espécie de ata onde os cidadãos se podem refastelar com os segredos que são usados como alimento das multidões e forma expedita de fazer justiça, sem a fazer .

Um Estado que no seculo XXI age deste modo não está em bom estado. Se os portugueses têm razões ancestrais para desconfiar do Estado, com este estado de coisas ainda ficam com mais.

Ou o Estado assegura o segredo de justiça nos casos em que deve garantir o seu cumprimento, ou então que assuma a coragem de declarar que não é capaz de fazer respeitar a Lei Fundamental e o C.P.P.