A minha covid

A MINHA  COVID

Como já reparamos algumas das grandes notícias desta pandemia são as dificuldades das filas de ambulâncias em descarregar os doentes nos hospitais. Ou a falta de oxigénio no Amadora/Sintra. Ou vacinas estragadas. Ou algo ainda mais inesperado, pois que que tempos de pandemia nada é inesperado.

Todos vemos, ouvimos e lemos os grandes títulos que têm até a virtude de ser muito comentados por políticos em desuso, mas que se esfarrapam a ver se entram de novo no uso.

A pandemia anda por aí a bater às portas. A mim calhou-me um telefonema do meu filho a dar conta que estava sem cheiro e sem sabor e a saber como me sentia. Uma ligeira dor de cabeça disse-lhe. Antes do teste acertei.

Não venho trazer nada de extraordinário, apenas um serviço SOS 24 que dignifica a nossa comunidade. Começo por dizer que não é fácil ser atendido e quando se é atendido e se vai todo lampeiro a nossa interlocutora ao passar-nos para outra enfermeira afunda-nos. Volta tudo à estaca zero. E quando nos dizem que vão passar a outra sentimos que vai tudo por água abaixo. E foi.

Voltei ao contacto e decidi que tinha sintomas de covid. Tudo mais simples. Foi me passado o teste que deu positivo.

Fiquei em casa quase sem sintomas. Todos os dias me ligavam do centro de saúde de 7 Rios a saber como tinha passado. Sem novidades. Ligeiríssimas dores de cabeça. Hoje anunciou-me o fim da clausura e amanhã dia 30 a rua será minha, mesmo minha, mais ainda do que antes da covid. Se virem alguém a olhar para a velha Estrada de Benfica como se fosse nova é apenas mais uma consequência destas pequeníssimas notícias que enchem a nossa comunidade.

Estas notícias não chegam nem de perto, nem de longe às garrafais notícias. Porém, sem todo este arsenal de médicas, médicos, enfermeiras e enfermeiros, não seriam seguidos e aconselhados dezenas de milhares de portugueses.

Tenho consciência das dificuldades que o país atravessa. Há dezenas de milhares de técnicos a ajudar. Aqui deixo a minha mais sentida homenagem pelo trabalho invisível que torna a nossa comunidade mais forte e humana.

Asfixia da justiça

Os problemas com o Ministério da Justiça estão ao rubro, mas em causa estão problemas relativamente superficiais que assentam em placas bem fundas na sociedade que impedem a máquina da Justiça de funcionar como devia. A Justiça em Portugal é refém de um bloco central alargado. Acresce que num país de muita gente submissa porque precisa de um encosto para se governar, a Justiça é encarada como uma enorme reverência, sobretudo no que aos juízes diz respeito. Poder é poder. E o poder impõe respeito e o respeitinho é muito bonito.

Estabeleceu-se uma espécie de Tratado entre o poder político e as magistraturas – os magistrados funcionam, e o poder político atende as suas reivindicações mais prementes.

Depois cada um vai para seu lado e faz mais ou menos o que quer sem grandes sobressaltos.

Não é preciso ser um grande crânio para entender que, num país onde um ex-Primeiro-Ministro é acusado de gravíssimos crimes, se impunha o julgamento mais célere possível dos arguidos para se apurar até que ponto as acusações seriam provadas ou não provadas.

Qualquer cidadão tenha ou não votado no Engenheiro Sócrates sente a importância de se confirmar ou não a acusação.

A República Portuguesa e as suas instituições só ganharão se os tribunais condenarem um criminoso ou absolverem um inocente.

O que nenhuma instituição, nem a vida pública ganharão é que se prolongue há quase oito anos este processo que ainda aguarde decisão instrutória.

Sejamos claros – nada, mas mesmo nada justifique este pântano onde vai apodrecendo a credibilidade da Justiça. A partir do mesmo que o Ministério Público considera que um ex-Primeiro-Ministro está envolto em crimes gravíssimos (num momento de expansão do populismo de extrema-direita) impunha-se por parte do governo afetar todos, mas todos os meios, para que o processo tramite o mais rapidamente possível, afetando o que for necessário para que se faça o julgamento, caso a instrução conclua desse modo.

É um escândalo que meses após meses se aguarde a decisão instrutória depois de anos e anos de investigação e anos de instrução.

É o Estado que tem toda a responsabilidade. Sócrates e os restantes arguidos usam os direitos que a lei processual penal lhes confere. O Estado tem todos os meios para fornecer às magistraturas o que elas precisam para que o país acorde com a realização de um julgamento equitativo e limpo. Se o Estado não se importa, assobia, faz de conta e deixa que o processo ao cabo de oito anos ainda aguarda decisão instrutória está a permitir que os cidadãos desconfiem das instituições e deixem de acreditar nas instituições, incluindo na Justiça. As magistraturas têm algo a dizer e importa que não continuam a olhar para ontem, esquecendo o hoje.

Não se morre se a justiça for deturpada, amesquinhada, ou se chegar a más horas. Todo o tecido social se gangrena quando se deixa envolver por morbidezes que impedem a sua regeneração.

Os governos têm os meios. Ao não conceder esses meios está a contribuir para a erosão social que anima o desânimo, o populismo, o pelotão dos desesperados, que favorece a corrosão das instituições. De que têm medo os governos que permitem este estado de coisas?      

https://www.publico.pt/2021/01/24/opiniao/opiniao/asfixia-justica-1947712

A argamassa do Bem e do Mal de André Ventura vem de muito longe

O ser humano é “naturalmente” de direita no sentido que escreveu Eduardo Lourenço na obra “A esquerda na encruzilhada ou fora da História, Edição Gradiva” ”… o triunfo da força sobre a fraqueza, como fazendo corpo com os privilégios de toda a espécie … assumidos e vividos como forma de privilégio social…”. O que é, aliás, mais consentânea com a própria Natureza e daí a luta sem tréguas em que os fortes esmagam os fracos. Já António Vieira no século XVII falava dos peixes grandes que comem os pequenos numa alegoria à sociedade esclavagista e profundamente desigual.

O discurso de ódio de Trump contra os imigrantes, as minorias, as mulheres, os homossexuais, com os argumentos mais primários dirigem-se a esses sentimentos de brutalidade próximos da Natureza com as suas leis de sobrevivência; como se a comunidade humana se baseie nas leis da Natureza, como se todos os degraus civilizacionais voltassem ao chão da selvajaria.

Assinala António Damásio que o ser humano caracteriza-se igualmente pela elevação dos sentimentos de sentir compaixão pela dor dos outros e daí até as primeiras manifestações pelos mortos; uma espécie de passaporte sentimental como é o caso dos primeiros sepulcros na expressão de Edgar Morin (“L`homme  et la mort”, Edição Points ), para não deixar os mortos à mercê das bestas.

E que caminhos se percorreram desde a pré-História até hoje, quantos milénios? E a natureza humana sendo a mesma que no tempo de Homero e Sócrates capaz de dar guarida aos refugiados como nas tragédias de Ésquilo, é também a mesma que persegue e legitima o esclavagismo, a servidão da gleba e o imperialismo. A mesma que derrubou a monarquia e o feudalismo em França na revolução de 1789, o czarismo em 1917. A mesma que colocou Hitler no poder. A mesma que deu maiorias a Trump e a Bolsonaro. A mesma que em Portugal abriu as portas com Abril de 1974. Tanto caminho para se chegar aqui.

Já se discutiu nos EUA (não há muito) se, tal como acontece na Arábia Saudita, as pessoas podem assistir às execuções públicas, como há séculos nas punições da execução por fogueira do Santo Ofício. Talvez o cheiro da crueldade seja a aspiração máxima deste desmando de crueldade. Somos todos filhos do tempo, todos.

Os sentimentos mais básicos, mais primários que existem dentro de cada ser humano poderiam eventualmente dar maioria à pena de morte e levar a desistir da reinserção social, princípio luminoso que nos norteia enquanto sociedade avançada e civilizada.

A ideia de uma ditadura do Bem sobre o Mal insere-se nessa faceta terrível do percurso humano, pois quem define o Mal é quem define o Bem, ou seja, o Bem e o Mal nas mãos da mesma entidade totalitária, detentora desse poder absoluto capaz de decidir o que é o Bem e o Mal.

O Bem para André Ventura é a canalização das energias primárias contra os outros numa espécie de guerra santa para legitimar a violência contra os excomungados no plano social, para ir laminando por camadas os diversos inimigos até ficarem só os eleitos da ditadura do Bem. A “guerra” anunciada em cartazes por todo o país é contra os mais fracos e desprotegidos para os eliminar por constituírem um insucesso e darem prejuízo. Os seres humanos equiparados a empresas que devem fechar os olhos em caso de insolvência ou falência.

Por outro lado, é um recuo milenar às velhas religiões do Bem e do Mal, como o zoroastrismo, só que com a introdução dos velhos preceitos religiosos para a esfera política, o que constitui a liquidação do Estado de Direito democrático.

A sociedade dividida entre os puros e os impuros com a ideia subjacente de que os puros têm o direito de se livrarem dos impuros – ciganos, judeus, migrantes, refugiados, pobres e marginalizados e outros.

Esta ideia só faz percurso porque há nas sociedades atuais muita gente desprezada, humilhada que se quer “vingar” do sucedido e na sua visão o que tem de imediato no plano social para responsabilizar por essa situação é o mais fácil, os que Ventura aponta como quase delinquentes. É neste rebanho que o pastor André prega e recruta almas para as vender aos seus patrões.

A argamassa do Bem e do Mal de Ventura vem de muito longe | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Desgorgomilados, os frugais holandeses

Os austeros governantes holandeses sempre vigilantes em relação aos países do Sul que só pensam na boa vida foram apanhados com a mão em milhões de euros que pertenciam aos cidadãos e famílias daquele país.

Austero de aparência, mas com alma de esmifrador, o governo frugal deu instruções aos funcionários das Finanças para levar à desgraça de pelo menos vinte e seis mil famílias holandesas através de falsas acusações de fraude fiscal.

São assim os puros, isto é, os frugais, os que põem mulheres nas montras de Amesterdão para chamar os pecadores do Sul. Os que para apresentar belos défices promovem falsas acusações de fraude fiscal aos seus concidadãos. São os mesmos que de braços abertos recebem os lucros do Pingo Doce e Cªa.

Que alarvidade, perdão, que frugalidade.

Um Presidente de direita e um candidato em segundo lugar da extrema direita?

Se Marcelo for o eleito e se André Ventura ficar em segundo lugar haverá uma nova situação política.  O Chega é um partido que quer destruir (declara-o) o sistema saído da revolução e plasmado na Constituição aprovada por todos os partidos, menos o CDS.

Marcelo tem afirmado nos debates ser da direita social. André Ventura tem repetido à saciedade que pretende destruir tudo o que se fez nos últimos 46 anos. Por isso não se estranha que tenha aparecido com Marine Le Pen de braço dado em 8 de janeiro em campanha eleitoral. Quer mesmo aparecer como é, chefe do partido irmão da Frente Nacional.

Ventura gaba-se do seu ódio aos mais desfavorecidos desde os precários aos desempregados, aos trabalhadores, aos migrantes, aos ciganos, aos que vivem nos bairros sociais, a quem vive do seu labor. Bajula os multibilionários que na sombra manejam os cordelinhos. Ventura anuncia com grande clamor vontade de arrasar o que o 25 de Abril moldou na nossa vida coletiva. É  testa de ferro de um setor da burguesia compradora que disputa com outro setor da burguesia o poder para alterar as regras e abocanhar riquezas que estão no setor público e criar outras condições para outros voos e grandes negócios, eventualmente mudar de mandarins externos.

 Pretende arrebanhar os diversos descontentamentos de camadas desprezadas ou fustigadas pelos dramas sociais e através de uma linguagem boçal tentar junto dessas camadas procurar o que de mais primitivo está em todos os seres humanos. Acena com o mais primário, com o que sai sem qualquer travão, isto é, a vulgaridade. Serve-se da superfície e esconde onde assentam os problemas e dispara. Anuncia a destruição do mal, como se fosse um pregador, quase um evangélico. Daí o seu sistemático ataque ao Papa Francisco. Prega como na Idade Média a violência para exorcizar o Mal e impor o seu Bem. Não anuncia a fogueira, apenas a prisão perpétua e a castração química. E penas, mais penas, escondendo que os países com medidas penais mais pesadas não resolveram os problemas da criminalidade e são os que têm maior índice de criminalidade violenta.

Ele não quer ser o Presidente de todos os portugueses, apenas o dos nababos dispostos a fazer dos outros uma espécie de servos modernos recebendo o que lhes quisessem pagar. Querem o país só para eles, desde as escolas aos hospitais passando pelo próprio ar que respiramos. Querem a rédea solta.

Nesta conceção, governar não é a arte do compromisso, mas sim a violência da força do Estado contra os outros à boa maneira de Trump.

Se André Ventura ficar em segundo lugar seguramente que irá ter mais força para avançar com o seu projeto. Já chegaram ao governo nos Açores. Querem agora ganhar força e cercar o PSD para lhe impor acordos em que importantes ministérios ficariam nas suas mãos.  Animado pelas vitórias de Bolsonaro, Trump, e pelo avanço da extrema-direita Ventura sente-se embalado.

Os democratas não podem fazer de conta que não sabem o que aconteceu no Brasil e nos EUA. Os resultados estão à vista. Trump incitou à invasão do Capitólio. Depois do fiasco condenou. Ventura que se gabava de ser uma espécie de gauleiter de Trump, tendo sabujado um convite para a Convenção Republicana, também condenou, noblesse oblige . O seu ídolo já “condenara”.

Ventura segue na mesma senda. Vai aos debates para “arrasar”, deve ser de ter sido comentador de futebol. Debater consiste em pegar numa fotocópia, exibi-la e está feita a prova que o adversário é um destruidor e um aniquilador da economia. Sente-se no seu olhar aquela mistura de subserviência aos de cima e de crueldade para os outros, sobretudo para os mais desfavorecidos, culpando-os por serem o que são, como se estivesse apenas na sua mão o seu destino social.

As sondagens dão a Marcelo a vitória. E se assim for é de crer que as esquerdas maioritárias no país permitam que para o cargo mais alto da nação seja da direita. E o lugar da extrema direita? Que cada candidato analise o que está em cima da mesa. O PS estendeu a passadeira ao candidato da direita. O BE e o PCP estão a medir forças. Que é preciso fazer para impedir que a extrema direita fique em segundo lugar? Que cada candidato ou candidata assuma a responsabilidade. O Chega e o Sr. Ventura estão à esquina de dentes afiados. Ventura já disse o que queria. Quem não o ouviu?

https://www.publico.pt/2021/01/11/opiniao/opiniao/presidente-direita-segundo-candidato-extremadireita-1945770

Debate na TVI24 – o atropelador e a fachada socialista de uma monarquia absolutista.

No debate de ontem na TVI24 uma vez mais o dirigente do Chega mostrou ao que ia. Atropelar. Impedir João Ferreira de debater. O seu propósito é conseguir que o adversário morda a isca e entre no “sistema”. O senhor André é o dono da palavra. É dele o palco. A este tipo de personagens só há uma resposta – o silêncio, até que se cale ou alguém no canal televisivo o ponha no seu lugar. Imaginem este homem a Presidente.

A História está prenha de dinastias. Milhares e milhares de dinastias governaram os países de todo o mundo. Nada de novo. As linhagens decidiam a ocupação do trono. Ainda hoje em vários países europeus num sistema de monarquia constitucional e no Próximo e Médio Oriente com sistema de absolutismo.

O novo na História das monarquias foi a transformação de uma República Popular na Coreia do Norte numa monarquia de carater absolutista.

Na verdade, o Presidente da República Popular e Democrática da Coreia, Kim Il Sung, o grande Líder, morreu e o seu lugar foi ocupado pelo seu filho, Kim Jong Il, o Querido Dirigente, que morreu e foi substituído pelo seu filho, Kim Jong Un, a aguardar cognome.

Relatam as crónicas oficiais que quando os grandes líderes deste morreram foram registados estranhos fenómenos atmosféricos, fazendo crer que a dor chegara ao Céu. De igual modo vários arco-íris saudaram o nascimento destas figuras únicas.

Na Coreia do Norte, o Comité Central do Partido do Trabalho da Coreia transformou-se nas Cortes que escolhem de entre os descendentes da dinastia dos Kim quem é o grande líder, eliminando da corrida algum descendente ilegítimo, mesmo fora de portas, como foi o caso de Kim Jong Nam.

Causa, pois, a maior perplexidade que João Ferreira dirigente de um partido enraizado na causa republicana revolucionária gagueje quando se trata de declarar que esta dinastia constitui uma afronta aos ideais do socialismo. O socialismo é a fachada com que pintam a tirania. Enxovalham o ideal socialista.

A pobre pega e a lição do pê.

A pega pega pelas penas da perdiz morta à beira do beiral do prédio. A pega com que pego na perdiz morta à beira do beiral do prédio não pega nas penas, a perdiz está pelada.

Pela pele pelava-se a pega que não pegou na pele da perdiz morta porque a pele da perdiz pelos vistos está pelada.

Pobre pega. Pobre pega que não pegou na perdiz pelada. Pobre perdiz morta à beira do beiral do prédio que a pega não não pega. Abençoado o pê do nosso português.

CARLOS DO CARMO-ETERNO E TERNO

Conheci Carlos do Carmo em 1976 na Rua da Saudade, ora em casa do Fernando Tordo ora na do Ary dos Santos, eram em cima uma da outra. Nesses longínquos convívios exaltantes, à espera dos dias felizes para sempre, tínhamos abolido as fronteiras entre o dia e a noite. Sonhávamos. E sonhávamos. Não havia mais espaço nas nossas vidas.

O Ary criava as letras e os músicos arranjavam-nas. Naquelas duas casas os sonhos tinham a dimensão da revolução, da música e a música a do sonho de um Portugal feliz. A palavra sonho será um lugar comum, mas nem por isso sonhar deixa de ser sonhar. Pensávamos no país à imagem do sonho. A diferença era entre viver com o impulso do sonho ou viver como calhar. Sonhávamos.

O Carlos era dos convivas o mais sereno. E assim o conheci sempre. Serenamente comprometido com o povo da sua cidade e do seu país. Um homem na cidade que amava, E do mundo que percorria com ternura. A sua voz era limpa, serena como a luz de Lisboa, versátil, terna, doce, apaixonada, arrebatadora. Uma voz que se ouvirmos bem está em todos os cantos da cidade de Lisboa. Ponham o ouvido à escuta. E vão em busca das melodias que nos encantam e que são o chão onde o Carlos foi cantar os putos, o Tejo, o castelo, as castanhas, as andorinhas, os elétricos, o céu e o amor. Já não há Lisboa sem a voz do Carlos. É um amor tão recíproco que jamais se separará. Agora e sempre. O Carlos não morreu tendo morrido. Atingiu a eternidade. Abraçado ao fado fará parte de todos nós hoje e amanhã. Sempre.

Mensagem do Presidente da Ucrânia, Vlodomyr Zelensky

Caros amigos,

Pediu-me Sua Excelência, o Senhor Presidente da República de Portugal, Professor Doutor Marcelo Rebelo de Sousa, que lhe pedisse para enviar uma mensagem ao povo ucraniano a fim de com tal gesto contribuir para o estreitamento das relações entre os nossos dois países.

Depois de muito ponderar e atento tão elevado objetivo decidi que concordaria se ele me pedisse para igualmente enviar uma mensagem ao povo de Portugal.

Aqui, portanto, estou eu, a saudar o valoroso povo lusitano que há cerca de cinco séculos decidiu partir para África, Ásia, América e não (infelizmente) partir de Bragança ou Valença para o Centro e o Leste europeu.

Portugal é um país com pouco mais de um terço da velha Crimeia russa ocupada, mas o seu peso na História é gigantesco.

O vosso Presidente causou-me a mais viva impressão de simpatia tendo falado comigo em russo que segundo ele aprendeu numa curta estadia em Vladivostoc, a caminho do Japão. Era clara a sua pronúncia siberiana. Adiante. Nós na Ucrânia não somos muito apreciadores da língua russa. Decidi responder-lhe em italiano dada a sua queda para o Vaticano.

O Presidente Marcelo não me convidou para o próximo Conselho de Estado, como fez ao Presidente de Cabo Verde, aquando do homicídio do estudante de Cabo Verde em Bragança porque neste seu mandato já não há mais Conselhos de Estado. Uma contrariedade para ambos que já fomos jornalistas.

É coma maior satisfação que vos informo em primeira mão que recebi várias comunicações de todos os Presidentes dos países de língua oficial portuguesa para saberem como é que tinha conseguido convencer Marcelo a pedir o envio da mensagem, dado o seu feitio (permitam-me a expressão) ser muito reservado e nada dado a este tipo de “devaneios”.

Por mera gentileza sugeri-lhes que seria de explorar o envio de um nacional com parecenças com o malogrado Ihor e quando ele chegasse ao aeroporto que declarasse aos inspetores que queria trabalhar nas obras ou algo parecido.

Nesta conformidade podia ser que Marcelo pedisse a estes países para enviar uma mensagem de saudação no caso de suceder a desgraça que sucedeu ao nosso Ihor.

Para a eventualidade de as coisas não resultarem, expliquei eu, talvez valesse a pena enviar um cidadão mais quezilento. Só experimentando é que se podia saber se tinham sorte e a tal mensagem que nós recebemos e ninguém compreendeu, apesar de ser em português.

Queridos portugueses, a mensagem já vai longa. Peço-vos mais dois minutos.

O nosso Ministério dos Negócios Estrangeiros é bem competente, honra lhe seja feita. Antes de eu decidir se aceitava o pedido do vosso Presidente recebi do Ministério vários dossiês sobre a estrondosa personalidade do vosso Presidente.

Chocou-me um vídeo de uma entrevista de um invejoso de nome Paulo Portas que nada mais fez que atacar da forma mais vil o Ilustre Presidente de Portugal.

Suscitou-me repulsa tudo quanto o Senhor Paulo Portas, por mera ambição, disse atacando atabalhoadamente o vosso Presidente, se bem que na altura não lhe passasse pela cabeça ser Presidente, sendo o seu sonho ser Primeiro-Ministro e dono de uma televisão.

Nessa ignominiosa entrevista Paulo Portas afirmou que Marcelo era filho de Deus e do Diabo, sem nunca dizer quem era a mãe. Inaceitável.

Bom ano e muita saúde.

https://www.publico.pt/2021/01/01/opiniao/cronica/mensagem-excelencia-volodimir-zelenskii-presidente-ucrania-1944775

Há trintas anos Marcelo concorria para acabar com a carreira política de Cunhal

A propósito do homem que disse que os portugueses tinham sido enganados pela Ministra da Saúde, o mesmo que chamou à pressa a um domingo à noite ao seu Palácio o chefe da Polícia, lembrei-me de um filme da minha juventude, “Um homem para a eternidade” realizado por Fred Zinnemann, com os atores Paul Scofield, Vanessa Redgrave, Robert Shaw e Orson Welles.

No filme dramático ressalta a integridade de Thomas More, o Chanceler do reino, católico, que se assumiu contra o divórcio de Henrique VIII que queria esposar Ana Bolena, apesar de casado com Catarina de Aragão. O Chanceler não abdicou dos seus princípios morais e não jurou reconhecer os filhos do Rei com Ana Bolena como legítimos, como exigiu o Rei a todos os funcionários públicos. Ordenou a sua prisão e foi decapitado.

Há homens e mulheres assim, que assumem a vida política como uma sublime vocação (palavras do Papa Francisco) e outros que imaginam a política como uma sala de espelhos côncavos e convexos que transmitem imagens distorcidas da realidade. Estes, mesmo do alto dos seus atributos, o que fazem é baralhar, é turvar as águas para pescar e trazer as redes cheias de votos e o cargo. São os pescadores de almas e de votos. Gogol imaginou o homem que comprava almas mortas, agora é tudo mais pós-modernismo, compram-se frases que assassinam, à boa maneira populista.

O homem que aparece em todo o lado é o mesmo que defende que não pode exprimir condolências à viúva de Ihor, o cidadão ucraniano assassinado por inspetores do SEF e que o tinham à sua guarda. Mas é o mesmo que chama o Comandante Magina da PSP a Belém para discutir a restruturação do SEF sem dar cavaco ao Ministro, como se este já fosse um cadáver político.

É o mesmo que na véspera das eleições autárquicas de 1990 declarou que se candidatava a Presidente do Município de Lisboa com o objetivo primordial de pôr um ponto final da carreira política de Álvaro Cunhal, pois o PCP concorria coligado com o PS.

O homem que aparece em todo o lado onde há televisões é o mesmo que não quer aparecer onde já apareceu impante de veleiro a caminho do Brasil.

O homem que leva as televisões atrás dele quando vai participar numa ação de distribuir refeições aos sem abrigo é o mesmo que aplaudia o programa da troica que causou grande número de sem abrigo. É o mesmo que quer que todos saibamos que vai à ginginha ao Barreiro, ele que gosta muito mais de votos que de ginjas. Sabe-lhe que nem ginjas aquela pesca.

O homem que disse numa entrevista à RTP1 que assumia os erros (na sua opinião) da Ministra da Saúde é o mesmo que passados dias disse sobre o mesmíssimo assunto que a Ministra enganou os portugueses, sem sequer se dar ao cuidado de dar conta das explicações da Ministra, se é que as pediu.

O homem que vive a pensar quais são os dividendos que pode tirar seja de que facto ou acontecimento for não é um homem para as estações do ano. É o homem que pensa na estação em pode furar o bloqueio da Polícia Marítima para ir dar um mergulho e aparecer lampeiro nos telejornais, enquanto os compatriotas estavam confinados.

O seu dia a dia é o minuto a minuto à procura do que se passa, do que poderá ter o valor mais alto na cotação mediática dos acontecimentos.

Ele sabe conviver. Já conviveu com tudo. Com o regime fascista, elogiando os carniceiros. Com os gorilas na Faculdade de Direito de Lisboa sem um triste pio. E continuaria a conviver se os democratas e patriotas não tivessem derrubado a ditadura. Já esteve nos jornais. Passou a líder do PSD e perdeu sempre. Ganhou as televisões e graças à deserção do PS foi para Belém e por lá vai continuar. E conviveu com Costa. O tapete vermelho da Autoeuropa pode sair caro a quem não o tiver na devida conta.

O que é que isto tem a ver com Thomas More? Tudo e nada. De relance, a propósito de um tranquiberneiro surge a figura plena, luminosa, eterna, a do Chanceler, a do homem que escreveu a Utopia. Ao menos agora que se aproxima um novo ano, vale sempre a pena sonhar. Atrás dos tempos, outros tempos virão.

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