A tabuada escondida de António Costa

Às vezes as coisas são mais simples que aquilo que parecem. Quando Costa destronou Seguro e se candidatou a Secretário-Geral para o PS ser o partido mais votado, tal não aconteceu. Quem teve mais votos foi a coligação do PSD com o CDS.
A essas eleições o PS concorreu com um programa, o BE e o PCP cada qual com o seu.
Se o PS tinha um programa e negociou com o PCP e o BE, tal significou que teve de haver um ajustamento entre os vários programas, como sucede em qualquer acordo. Simples.
Se ao cabo da legislatura as coisas correram bem a explicação reside no facto de PS, BE, PCP e Verdes terem adaptado em parte os seus programas e funcionarem com o objetivo de cumprirem o que acordaram. Dois e dois são quatro, é da tabuada.
Não se sabe (pode imaginar-se) o que seria um governo apenas do PS, tanto mais que o lastro deste partido sozinho no governo é de má memória, até para muitos socialistas…
Desde o Congresso do PS que uma série de dirigentes daquele partido têm vindo pedir à boca cheia a maioria absoluta. Se não fosse esse o desígnio do líder certamente que não seriam tantos a pedir o fim dos “constrangimentos”.
Por outro lado, o silêncio do líder poderá significar ficar a ver o que dá esta agitação das águas. Costa é muito hábil, gosta de treinar o campo de manobra, mas (há sempre um mas) a jogada é de tentar a maioria absoluta.
De repente passou a criticar os parceiros por causa dos programas de cada um, embora no debate com Jerónimo na SIC tenha deixado elogios ao PCP, o que se insere na sua bizarra manobra de obter o que quer, dando a entender que não é bem a maioria absoluta que quer, mas se lha derem…coitadinho, tem de aceitar.
Com base nos resultados dos acordos à esquerda dá ares de ter sido só o PS o obreiro do trabalho dos quatro partidos e empalma os louros.
Pedir, por vias subliminares, ao país uma maioria absoluta, dizendo que a não pretende, com a direita de gatas é o caminho para jogar à cabra cega com os eleitores.
A direita está derrotada. Fez tanto mal com o programa da troica que poucos portugueses a querem. Não tem quem seja capaz de apresentar alternativa aos acordos que deram sustento à legislatura que se mostrou bem mais estável que a de Passos /Portas/Cristas. Bem chamaram o Diabo e ele vai aparecer-lhes quatro anos depois com todo o esplendor no dia 6 de outubro por volta das 19h do tempo do meridiano de Greenwich.
Há na direita mais sábia quem queira impedir uma nova geringonça votando PS para este ter maioria absoluta e assim tentar evitar esse acordo com as esquerdas.
Nestas eleições o que vai ser decisivo são os votos no BE e no PCP. O PS já ganhou as eleições. Ninguém duvida dessa verdade. O que se não sabe é que votações vão ter os parceiros da geringonça. Se reforçarem as suas posições haverá de novo acordos. A chantagem à espanhola é manobra para encher o saco do PS e ameaçar com a instabilidade que ninguém consegue descortinar. Não houve em quatro anos.
Costa será de novo Primeiro-Ministro. Só falta saber se terá votos suficientes para enviar o PCP e o BE para a oposição. Essa é a questão para Costa e o PS – ter ou não ter todo o poder.

In Público online de 03/09/2019

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Maria Moreira- carteira de Perre( in Público online)

Na Cena II do Ato II de Hamlet de um dos maiores escritores de todos os tempos, o iluminado conhecedor da alma humana, William Shakespeare, a personagem Rosencrantz, um biltre ao serviço do monstruoso rei que tinha assassinado o irmão, vai ter com Hamlet, filho do malogrado, e este pergunta-lhe por notícias, ao que o outro responde: “Nenhumas, só se fosse que o mundo deu-lhe agora para ser honrado…”
Já no século XVI no contexto da sociedade inglesa, a honradez não era o registo dominante. O renascimento veio trazer para a tona da vida o lado injusto em que assentavam as sociedades de então.
Como se sabe, nos nossos dias, a honradez que não está cotada em nenhuma Bolsa, é coisa de pouco valor, aliás fazendo dela bandeira a pouco lado se vai.
As redes sociais estão cheiinhas de exibições narcísicas que vão desde o nu integral da Kim Kardashian ao encontro do marchand de arte com a sua esposa em Nova Iorque, algo de extraordinário que se não fosse exibido fazia temer o descarrilamento do mundo.
E que dizer da notícia dos suspiros/berros da nossa Cristina, que tendo nascido sem sangue real devia ter sido levada ainda em gestação para os palácios da família real inglesa, essa sim, a sério, no que a sangue azul diz respeito. Aí sim, tínhamos princesa…
Raramente no quotidiano aparecem notícias sobre as qualidades que os cidadãos devem cultivar, desde logo a honestidade e a honradez. O que conta é ser famoso e as notícias incidem mais nos figurões cheios de riqueza, muita dela adquirida sabe-se lá como. O que conta é o que se vê. O que se tem e a exibição do que se tem, porque ter e não se mostrar que se tem é um desperdício no mundo de tantos vazios interiores. A era do vazio precisa do estardalhaço, da exuberância, de que se seja visto, de que se seja admirado pelo que se expõe.
Na edição online do Público apareceu no dia 27 deste mês uma notícia extraordinária de significado e que constitui a prova de que os seres humanos continuam a precisar de vivenciar os sentimentos bondosos de que tanto fala António Damásio no seu livro “Estranha ordem das coisas”.
Maria de Jesus Moreira, carteira, encontrou nas Festas da Senhora da Agonia, uma caixa com 3700 € e algum ouro e por ter um telefone no seu interior ligou ao seu dono e entregou-lhe o que lhe pertencia e tinha perdido.
Esta mulher de 58 anos, viúva, humilde, pobre, é a chama da honradez que se não deixou apagar pelo vento da cupidez.
Se ela quisesse poderia apropriar-se daquele montante. A grande notícia neste mundo é a que a honestidade e a honradez, apesar do despudor do mundo, não morreu. Bem-haja quem nos faz acreditar nos melhores sentimentos.
*ADVOGADO

“Em 1974, Marcelo disse-me que era marxista não leninista”

Entrevista ao Público de 20/08/2019

Domingos Lopes, secretário de Cunhal nos governos provisórios, dirigente da secção internacional do PCP, escreveu o relato de uma militância de 40 anos até ao desencanto.

Nuno Ribeiro

De 1968 a 1980 foi feliz no partido, como os comunistas se referem à sua organização. Entre Coimbra e a República dos Matulões, passando por Lisboa, a prisão e tortura em Caxias, e os primeiros anos após a Revolução de Abril. Resistência e liberdade foram os bons tempos. Abandonou a disciplina partidária quando Carlos Brito foi suspenso, Edgar Correia e Carlos Luís Figueira expulsos e o Novo Impulso passou ao índex. Admirou Álvaro Cunhal, mas por seis vezes é crítico com o seu legado que também refere como lastro. Aponta contradições insuperáveis e, em dois momentos, ironiza com o discurso propalado pela direcção comunista da certeza histórica e de errados estarem sempre os outros. Conta também episódios e histórias: “Em 1974, Marcelo disse-me que era marxista não leninista.” Foi uma confidência do então jovem assistente da Faculdade de Direito de Lisboa. “Já nessa altura capaz de coisas extraordinárias”, comenta com sorna, revelando estórias das suas memórias a serem publicadas em breve.

Está a ultimar as suas memórias onde narra a vida do camarada Estrada até ao desencanto. Ainda é comunista?

Acho que sou comunista no sentido de portador de um ideal que permita à sociedade viver na ausência da exploração capitalista actual, de uma sociedade em que os principais meios de produção estejam ao serviço da comunidade sem que tal signifique a liquidação da miríade de capitalistas e a proletarização que Marx previu. A massa de assalariados que existe não corresponde a essa ideia de proletarização. Se hoje perguntar a um desses assalariados se se identifica com o proletariado, ele até se assusta. O capitalismo não é o fim da História, a seguir a esta formação económica há-de surgir outra. Independentemente da palavra estar conspurcada por factos e acontecimentos que não são exactamente os propalados pelo socialismo, creio que a nova sociedade será socialista. Como se passará para o comunismo é mera utopia, mas era mais utópico Espártaco imaginar o fim do esclavagismo de que pensarmos numa sociedade em que não haja esta desigualdade social tão profunda para a qual o capitalismo parece não encontrar resposta. Por isso é necessário esse salto para uma sociedade socialista. E, nesse sentido, o ideal comunista de um comunista sem partido, pode corresponder a uma sociedade utopicamente designada como comunista.

É incómodo ser um comunista sem partido?

É incómodo em todos os sentidos, é quase como ser um órfão de pai e mãe.

Sente essa orfandade ou sente uma libertação?

Sinto as duas coisas. Por um lado, uma certa libertação porque não optei pelo PCP por obrigação, mas por uma opção muito livre. Ter saído do partido criou-me essa angústia de não ter organização e, ao mesmo tempo, a libertação de pensar exclusivamente pela minha cabeça. Mas creio que as sociedades não são feitas de homens sós, não somos a soma de milhões de indivíduos sós.

Há muita gente como você?

Na situação portuguesa acho que existem bastantes activistas políticos, mesmo muitos, que foram quase todos do PCP, que não se sentem identificados com o PCP.

Da sua reflexão, depreende-se que pode haver democracia com capitalismo. Foi esse o engano histórico de Álvaro Cunhal?

Álvaro Cunhal partiu de um pressuposto que não se verificou e, nesse sentido, errou. E deixou um lastro que não é favorável ao PCP. Álvaro Cunhal considerou que em Portugal liberdade e democracia não eram compatíveis com os monopólios, sobretudo porque a ditadura correspondeu a uma aliança com o capitalismo monopolista de Estado. Numa primeira fase do PREC [Processo Revolucionário em Curso] foi possível esboçar um projecto de reforma agrária e as nacionalizações, pelo que Cunhal viu confirmada a sua tese. Só que a História não acabou aí, prolongou-se. Não se confirmou a ideia de que em Portugal nunca a liberdade e a democracia se podiam compaginar com o capitalismo. O que levou a que na luta política, em determinados momentos, se considerasse que os partidos democráticos eram o PCP e pouco mais. Às vezes nem o PS. Este facto criou na sociedade e dentro do próprio partido uma dificuldade de relacionamento com outras forças políticas, incluindo o PS. Não estou a retirar as responsabilidades próprias do PS que em circunstâncias várias, não só então mas ainda hoje, prefere alianças muito mais á direita do que à esquerda. Mas tal não obsta a que se diga que não se verificou essa visão das liberdades democráticas serem incompatíveis com o capitalismo.

Afinal, o PS sempre pode ser sócio. O PCP explicou bem aos militantes os limites da geringonça?

O PCP vive essa contradição insuperável de se considerar único e ao mesmo tempo perceber que não o é. De compreender que são importantes alianças para avanços na sociedade e ao mesmo tempo não ser capaz, face ao seu discurso e ao lastro que vem do tempo de Cunhal, de colocar o PS no exacto ponto em que ele está. O PS é um partido sem o qual nem o PCP nem o Bloco de Esquerda conseguem fazer alterações na sociedade portuguesa. A partir daqui, ou se parte para uma definição estratégica revolucionária de luta armada, o que seria uma loucura, é impensável, ou é com o PS. E para ser com o PS é necessário que estes dois partidos [PCP e Bloco de Esquerda] ganhem influência na sociedade. Lembro que o PCP esteve no Governo com o Mário Soares, o Sá Carneiro, o Magalhães Mota nos primeiros executivos provisórios e o partido não perdeu força, ganhou-a. Ir para o governo não significa, necessariamente, perder força. Pelo contrário, significa criar condições para melhor explicar que conta na sociedade. Quando na Câmara de Lisboa o PCP fez acordos com Jorge Sampaio a única coisa que tinha a fazer era trabalhar melhor com a sociedade. Dizer mal, às vezes com razão, das posições do PS não chega, é necessária outra habilidade e capacidade para mostrar quais são as propostas do PCP e o que se conseguiu. É normal neste contexto, com o lastro que vem de trás, que haja militantes que não percebam que o PCP prestou um serviço notável à democracia portuguesa ao contribuir para travar o empobrecimento a que Pedro Passos Coelho, Paulo Portas e Assunção Cristas queriam levar o país. Na noite das eleições de 2015, quando Passos Coelho teve mais votos que António Costa, Jerónimo de Sousa disse que só não havia governo se o PS não quisesse. É de se lhe tirar o chapéu, abriu a porta à possibilidade de um acordo.

Ter apoiado o Governo de António Costa é a realpolitik de Jerónimo de Sousa?

O acordo entre o PCP e o PS para que os orçamentos destes quatro anos fossem aprovados com melhoria das condições pode ser realpolitik. Diz-se que a realpolitik não é a política que se pretende, mas a possível. Se o PCP considerar como mera realpolitik e não como a política e o caminho de facto, não é entregar-se ao PS mas conseguir na luta um projecto de avanço na sociedade em que o PS é parceiro inultrapassável, continuamos na realpolitik de dizer uma coisa e fazer outra. Assim, nunca os militantes do PCP vão compreender. É preciso que a gente mais nova perceba a importância de um projecto em que o PCP conta com a sua política e não com uma coisa que tem de ser à martelada, uma espécie de óleo de fígado de bacalhau. Esta é a única política em Portugal para que PCP, Bloco e PS possam fazer o país avançar. Independentemente das vicissitudes do processo e que o próprio PS tenha.

De eleição em eleição, de mau resultado para mau resultado, para onde vai o PCP?

É uma angústia para uma pessoa que esteve 40 anos no partido. Essa pergunta até era mais fácil de responder se dentro do próprio partido houvesse um sobressalto, um assumir de que este não pode ser o caminho. De que as pessoas de esquerda estão erradas e de que a direcção do PCP é a única certa. O PCP não é capaz de explicar, e aí está o seu mal, como em Loures não há anticomunismo e em Almada há. Os resultados das últimas eleições municipais foram os que foram e a postura do PCP tem de ser da maior humildade, da procura do caminho para encontrar a resposta às suas deficiências. Não há dúvida que houve deficiências no trabalho de Almada, que não foram as mesmas de Setúbal, onde o partido se reforçou. No Alandroal, por exemplo, perdeu, mas em Vila Viçosa ganhou. Tem de haver mais densidade e maior responsabilidade mesmo que tal signifique correcções. Parece que é disso que a direcção do PCP tem medo. Alguém que não tenha necessidade de se corrigir, de verificar o que está certo ou errado, está petrificado. E o PCP, que tem sempre razão e são os outros que estão errados, é um partido que não tem futuro. Espera-se que o mais antigo partido de Portugal, que tanto deu a este país, possa ter um assomo de responsabilização de si próprio e mudar a sua postura.

Acha possível?

Sou um homem de 70 anos, já vi muita coisa, mas temo que seja tarde demais. Se reparar, pela Europa fora, aqueles que não mudaram a tempo desapareceram.

O PCP corre esse risco?

O PCP pode definhar, definhar, até deixar de contar. Eu, que não tenho partido, espero que não seja isso que aconteça, porque, mesmo que outras forças de esquerda pensem que ganham com isso, não ganharão. Há sectores dos trabalhadores e da população portuguesa que só se identificam com o PCP.

Em França, foram para o populismo de Le Pen…

Daí a importância do PCP ser capaz da correcção. Não podemos dizer de eleição para eleição que o mal é sempre dos outros.

Foi um dos protagonistas de uma derrota de Cunhal no comité central com o Novo Impulso. Acabou por sair. Saiu triste?

Sim, bastante. É uma dificuldade para uma geração como a minha que desde a juventude, da força da idade, se identifica com uma causa e passa a funcionar no partido, verificar com a mesma intensidade com que lutou que o partido não vai mudar, como se acha que devia mudar. Enveredaram pelas sanções disciplinares a Carlos Brito, Edgar Correia e Carlos Luís Figueira, numa política de terra teimada no momento em que por todo o mundo se discutia o ideal comunista a seguir à implosão da URSS. Quando se pretende discutir como o partido se deve organizar, o que só mostra vontade de participar e de melhorar, e dizerem que a ideia está liquidada e que se deve ser expulso, que se está no índex depois de 40 anos de partido, deixa uma tristeza profunda.

Esperava comportamento diferente de Cunhal, com quem trabalhou anos e anos?

Quando conhecemos ao longo dos anos o involuir de uma pessoa já não é uma surpresa muito grande perceber que o camarada Álvaro Cunhal pudesse desembocar nisto. O que é para mim uma surpresa muito grande, e uma certa tristeza, é que Cunhal tudo tenha feito para que as opiniões dos dirigentes do PCP passassem sempre pelo crivo da direcção. Que ele tenha feito disto um cavalo de batalha e tenha sido o primeiro a dar uma entrevista ao El Mundo, um jornal de direita em Espanha, criticando a direcção de Carvalhas por ser oportunista e liquidacionista quando surgiu o Novo Impulso… Sabermos até onde cada um de nós pode chegar, até onde pode chegar um dirigente político, é sempre a imprevisibilidade da natureza humana. Achava que Cunhal não seria capaz, tanto mais que foi ele quem batalhou para que fosse Carlos Carvalhas o adjunto, de considerar que aquela direcção era liquidacionista só porque pretendia nas zonas onde havia dificuldade do partido singrar abrir à militância para que os militantes pudessem ser donos do seu partido.

Porque é que o PCP define como socialistas regimes no mínimo ridículos?

Tenho a convicção de que este também é um legado de Álvaro Cunhal. Custa muito aos que trabalharam e estiveram no partido, que incarnaram a figura de Cunhal como extraordinária, de um homem muito capaz e dedicado, perceber a sua postura perante os países socialistas. De a URSS ser o sol da terra e não permitir críticas, sem distanciamento. O mais grave é que esse mundo desapareceu e não vai voltar. Quando houver, de novo, esforços na construção do socialismo, porque vai haver, não será assim. Aquilo acabou, está no caixote do lixo da história, ninguém mais quer. Reparem no que o socialismo gerou: Victor Orbán, Merkel, os polacos, toda esta gente estava nos partidos ou próxima dos partidos líderes de então. O que essas sociedades trouxeram foi isso. Não estamos no tal homem novo. É o Putin? É muito importante analisar isto, porque foi esta a educação dos militantes do PCP durante anos, anos e anos sempre a pregar as virtudes do socialismo. Hoje é difícil recuar, mas é necessário ultrapassar isso. Nesse sentido, Álvaro Cunhal tem enormes responsabilidades de ter deixado este legado ao partido.

Tudo começou com um tímido apoio à perestroika…

Primeiro, houve um distanciamento claro. Depois, quando se verificou que era irreversível, houve congressos que deram passos corajosos, que consideraram muito mal ter-se impedido os membros do partido de criticarem aspectos negativos, crimes inclusivamente, de Estaline contra comunistas e contra a população em geral. Mas isto coexistia com outro discurso. Quando as coisas não correram bem à perestroika, aquela linha que achava que se podia lançar o menino com a água ganhou força, em vez de perceber que não havia retorno.

Depois, houve dois comunicados sobre Tianamem…

E dois comunicados sobre os acontecimentos de Moscovo…

É problemático o mapa mundi do PCP?

Quando encaramos as sociedades e um projecto político não estamos a falar de química ou física, a decompor água em oxigénio ou hidrogénio. Essa incerteza torna mais difícil aceitar que se possa ter ido tão longe nesse subjectivismo de ligação de um partido tão forte como o PCP a outros partidos e experiências que se vieram a revelar fora da história. Por um exercício de que é grande responsável, Álvaro Cunhal criou a ideia no partido de que havia países progressistas que estavam a caminho do socialismo. Hoje vemos como estão a Etiópia, o MPLA, a FRELIMO. Quando o mundo dava mostras de mudança e da incapacidade da URSS de prosseguir a sua política, para o PCP, dado o seu voluntarismo, o processo revolucionário continuava a aprofundar-se.

Viveu vários tempos, da resistência a funcionário, de estudante a dirigente. Com qual PCP fica?

Com o PCP de 1969/70 até 1980.

Não com o PCP que o inquiriu por uma visita a Nova Iorque?

Não, de certeza que não. Esse é o PCP que não tem futuro, se não mudar não tem futuro.

Em 1974, na Faculdade de Direito, parou in extremis o “julgamento popular” do professor Cavaleiro Ferreira, antigo ministro da Justiça de Salazar. Que mais memórias tem do seu PREC?

Nessa altura, havia em Portugal uma organização política que se declarava marxista-leninista-estalinista-maoista de onde saíram quadros como Durão Barroso, Saldanha Sanches, Maria José Morgado, Ana Gomes, gente hoje muito importante neste país, que achava que os pides deviam morrer na rua. Estavam sempre disponíveis para ultrapassar o PCP, consideravam que o 25 de Abril era um golpe de Estado para evitar a revolução dos ventos de Leste que devia mudar Portugal. Hoje parece ridículo, mas era assim. Portanto, qualquer pide não era preso e sujeito a julgamento, mas morria na rua. Nesse clima provocatório fui alertado de que estava a decorrer um tribunal popular na Faculdade de Direito em que estava a ser “julgado” Cavaleiro Ferreira. Tinha sido eu que a 29 de Abril de 1974 lhe dissera que não dava mais aulas, e quando me viu nem sabia o que podia esperar. Falei, falei, falei, até chegar o COPCON e o tirar da Faculdade. Havia professores, como Magalhães Colaço ou Palma Carlos, que achavam que a UEC [União dos Estudantes Comunistas] era uma força construtiva. Naquela altura, em que todos eram socialistas, também lá havia um assistente, o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa. Já nessa altura capaz de coisas extraordinárias. Uma vez disse-me que era marxista não leninista. Olhava-se para ele e via-se logo que era um pilar do marxismo.

Foi torturado e a sua prisão em Caxias levou a um intenso episódio familiar. A revolta do seu pai contra o regime…

O meu pai, que era católico e conservador, trabalhou no volfrâmio e tinha subido a pique, achava que António de Oliveira Salazar tinha sido um homem extraordinário. Não acreditava que fosse possível existirem as prisões que a oposição dizia existirem. Aliás, a maior parte do país não tinha a noção. Havia uns tipos que eram presos, mas ninguém sabia o que era Caxias, o que era Peniche, a não ser aqueles que por lá tinham passado. Quando fui preso, para um homem do regime como o meu pai não poder abraçar o filho no parlatório nem sequer dar-lhe um cigarro… Foi para ele um choque tremendo. Uma coisa que nunca mais pôde aceitar. Nesse aspecto provocou-lhe uma mudança muito grande.

Ele nunca suspeitou das suas actividades?

Ele não era estúpido, era esperto, mas nunca ao ponto de pensar que lhe iam buscar o filho a casa. Claro que desconfiava, tenho quase a certeza que vivia numa enorme angústia, mas sempre pensando que, por ser a pessoa que era, não lhe iam buscar o filho.

Sentiu que eram poucos os que estavam à vontade com aquele regime?

Muitas vezes tive essa noção. Inclusivamente, em 1973 queria ir a Londres, quando então a cidade fina da esquerda era Paris, e não me davam o passaporte. O meu pai era amigo do Governador Civil de Aveiro e ele disse-lhe para me perguntar se eu voltava. Se ele voltar, tem o passaporte, garantiu-lhe. Fui e voltei.

Nem tudo era a branco e preto…

No PCP, durante a resistência e a ditadura, o maniqueísmo existia mais nos dirigentes. Os que estávamos com os pés na terra, que estávamos no terreno, não podíamos ser maniqueístas porque senão não tínhamos o apoio de ninguém. Nessa altura, o prestigio de um sindicalista bancário, dos seguros, dos electricistas, dos transportes fazia com que tivesse a classe atrás de si. O maniqueísmo estava mais acima, nem tudo era a branco e preto.

A esquerda perdeu essa paleta diversificada?

Por vezes, o complexo do partido faz perder a capacidade de ver para além do próprio partido. E o Bloco também aparece já com essa atitude. É muito importante que as formações partidárias não se fechem ao mundo, que não fiquem dentro de si próprias, que possam ir para além e deixem de ver os que não são como tendo de ser iguais. Essa necessidade de compreender as diversas camadas da população na sua crueza impõe que caiam os óculos partidários para ganhar a riqueza que vem da ligação à vida.

O “já” do Dr. Pardal.E depois?

O tempo onde estamos mergulhados acelerou, sobretudo no que faz acontecer. Tudo parece voar.
A apreensão do tempo é a perceção de saltos de acontecimentos que se dão e, em grande medida, nos são transmitidos pelos media. O tempo é o grande invólucro onde tudo sucede, se incumba e se transforma. As sociedades humanas vivem a um novo ritmo.
Uma característica desta velocidade é trazer no seu bojo mutações rápidas que alteram a realidade da produção e consequentemente o modo dos seus atores percecionarem a realidade circundante.
Por via dessas mutações sobretudo tecnológicas gerou-se uma atomização propenso ao individualismo. O que conta é o imediato. É a realidade pós moderna.
Tudo parece volátil e vazio, pois os instantes dão lugar a outros instantes. A um ritmo frenético. E ponto. Quase como se não houvesse passado e o futuro fosse já, o que se vive, o imediato. Como se o genial poeta persa, Omar Kháyyám, voltasse a incitar a beber vinho porque o dia de amanhã não interessa, apenas a alegria do instante. O amanhã para o grande vate era o nada a que todos estão condenados.
O sindicalismo vive também tempos de mudança. Por ação das forças que comandam as relações produtivas e dos seus impactos na mente dos atores dos processos.
É interessante tentar a esta luz compreender como a luta de uma classe ( ou um setor, no caso o dos motoristas de matérias perigosas) que exige unidade, determinação, sacrifício e ação coletiva se revê num dirigente cujo perfil é exatamente o oposto da própria natureza do mundo que representa.
No caso destes motoristas estão em causa condições de trabalho duras e o seu principal líder assume uma vida de capa de revista de famosos e alega ter uma atividade como advogado de renome internacional o que lhe assegura, segundo o próprio, um escritório de enorme sucesso mundial. O seu aspeto bem cuidado nada tem de ferrugem, antes está mais próximo do glamour.
A forma de luta adotada – uma greve de abastecimento de combustível por tempo indeterminado – visa criar tal impacto na vida da comunidade que obrigaria por pressão do governo a ANTRAM a ceder.
Ora no domínio da luta política é necessário e obrigatório ter em conta as armas do patronato e, no caso presente, ainda as do governo que tentou a conciliação e não o conseguindo certamente usaria os poderes de que dispõe, e que são imensos. Todos se recordarão do impacto da greve de abril. E seria de supor que o governo não se deixasse surpreender.
Obriga ainda a refletir o sentido que leva o sindicato de motoristas de matérias perigosas a não se rever na CGTP ou UGT e a identificar-se com um líder cujo perfil está a léguas da realidade de quem conduz camiões e autotanques.
Por outro lado, são muitos os que trabalham e pedem aos patrões para não fazer descontos porque o peso do presente é infinitamente superior ao tempo futuro; o que vale dizer que o futuro que se lixe.
Uma sociedade, comandada por valores em que o futuro não conta, vive do imediatismo. Uma greve por tempo indeterminado ou é um êxito imediato ou um desastre.
Do que se lê e do que se ouve do Dr. Pedro Pardal Henriques ele acredita que com esta liderança assegurou o seu futuro. Os mercadores das vontades são uma espécie de cucos que fazem ninho em terreno que não é deles.
Esta é uma nova realidade que salta aos olhos de todos. Mesmo no mundo sindical. O que conta é o já. Aliás o já é bem mais fácil que o e depois?
O mundo está a mudar. O ritmo é avassalador. Não voltará aos tempos antigos, mas certamente que o passado voltará a pesar. As lições destes imediatismos custarão a ter em conta, mas será inevitável apreender e aprender o caminho das lutas futuras.
Nem sempre os cálculos baseados no imediatismo batem certo, porque os outrostambém os fazem e podem opor-se com sucesso, o que qualquer dirigente deve ter em conta na condução das batalhas.
In Público de 14/08/2019

Hiroshima e Nagasaki, há tão pouco tempo

Há setenta e quatro anos a Administração dos E.U.A lançou sobre Hiroshima uma bomba atómica com base em urânio enriquecido, apesar de o Japão já estar derrotado. Dois dias depois fizeram explodir em Nagasaki outra bomba atómica à base de plutónio.
Os E.U.A queriam apresentar-se ao mundo como detentores da arma que lhes assegurava o domínio mundial. E para tanto sacrificaram as indefesas populações daquelas duas cidades. As dezenas de milhares de mortos nada pesaram na consciência dos governantes estadunidenses.
A ilusão durou pouco tempo. A URSS fabricou as suas bombas atómicas e outros países se seguiram. O mundo ficou à mercê de meia dúzia de Estados.
Na altura grande parte da imprensa mundial louvava a capacidade de se resolverem conflitos por aquela via, o que se apresentava como sendo mais simples e menos oneroso esturricar dezenas de milhares de civis e militares na explosão atómica e nos efeitos da radiação. A capacidade de matar de um só golpe dezenas de milhares de seres humanos passou a ser considerado positivo, pois o facto de alguém a possuir impedia a guerra. Hoje as armas nucleares têm uma potência destruidora muitas vezes superiores às duas deflagradas. Um país como Portugal em caso de sofrer uma explosão nuclear derivado de uma bomba poderia ser totalmente destruído tendo em conta as mortes instantâneas e os devastadores efeitos das radiações.
Na guerra morrer de uma golpe de espada, de uma mina, de um tiro é sempre tirar vidas. A morte provocada pela guerra é algo bárbaro, sobretudo quando a Humanidade alcançou um patamar de civilização que deve permitir beneficiar de uma vida em paz.
A guerra é hoje considerada pelo direito internacional como sendo ilegal. E na consciência cívica é um horror.
O nosso mundo é pequeno demais para tanta ambição de domínio. As armas nucleares estejam nas mãos de quem estiverem são uma verdadeira ameaça à vida humana e à da própria natureza.
Rasgar tratados que impediam a corrida aos armamentos é um toque de chamamento à corrida ao refinamento das armas de destruição massiva, fazendo-os matar mais e mais. Algo que fará a Terra repousar em cima de potencialidades destruidoras terríveis.
É caso para perguntar como se pode perseguir semelhante desígnio bem sabendo que outros tentarão sempre alcançar ou até ultrapassar a capacidade de destruição das vidas existentes? Que loucura nos invadiu? Sim os governos são os principais responsáveis, mas nós temos o poder de nos mobilizar para que se impeça que continue este caminho para o precipício.
Imaginemos apenas que por erro um país é atingido por uma arma nuclear, o que se seguiria? Os destinos da Humanidade não podem estar apenas nas mãos dos governantes.
É possível mudar o rumo. Basta que se exija dos governos que jamais sejam os primeiros a utilizar as armas nucleares, mesmo quando prometem fazer do seu país grande independentemente dos outros. A Terra é de todos. A comunidade internacional é constituída por todas as nações. Todos precisam de viver em paz. O domínio não é uma palavra que se adeque ao novo século. Que o digam todos os impérios que se consideraram invencíveis.
Setenta e quatro anos depois do bombardeamento de Hiroshima e Nagasaki é tempo de interiorizar que o sonho milenar de viver em paz é possível. Basta querer e não deixar os outros fazerem da maldade suprema o norte do mundo. Não se pode fugir a este desafio. O mundo é pequeno demais para os ambiciosos loucos que o que querem só para si.

In Público online

Quo vadis PS?

Portugal, um pequeno país periférico, digno de uma História que grandes países não têm, vai a votos em outubro.
Não é demais ter presente a importância de diminuir a taxa de pobreza que se encontra por cima dos vinte por cento. Este é talvez o maior desafio que devia estar no centro do debate político – empobrecer como foi obra de Passos Coelho/Portas/Cristas ou manter e aprofundar o ciclo iniciado há quatro anos, recuperando rendimentos cortados? Tornar o país mais competitivo com salários baixos ou fazê-lo crescer com melhores rendimentos?
Para tanto o PS tem de ser claro no seu posicionamento: navegar à bolina como referiu Ferro Rodrigues ou manter a política de entendimento à esquerda? Ou ainda com desassossego procurar uma maioria absoluta e ter uma parlamento do género Yes Minister?
É agora o tempo de clarificar. E se os quatro anos de governo deram força ao PS e às esquerdas permitindo melhorias para a população por que mudar de rumo?
Em que aspetos o PS de César e Capoulas se sentiu constrangido? O que não fez o PS que o PCP e BE não deixaram e que fez o PS com o BE e o PCP que não queria fazer?
Continua a ser necessário elevar as condições de vida dos portugueses e criar mais e melhores empregos, o que parece ser do interesse dos três partidos.
As desigualdades sociais, no contexto europeu, são uma chaga que não engrandece o país. É com estes três partidos que elas podem diminuir.
Portugal precisa de serviços públicos modernos e eficientes com funcionários, quadros e dirigentes motivados. Com quem o PS pensa que o pode conseguir?
O SNS precisa de responder melhor às necessidades da população. O PS não pode querer um SNS que empurre para o privado a parte da população com rendimentos médios, deixando aquele para os pobretanas.
O mesmo se passando com a Escola Pública. Sem uma Escola Pública de qualidade o desenvolvimento do país não se alcança. Só com o empenho de professores motivados e tratados com dignidade se atingirá tal desígnio.
O chamado interior tem de deixar de ser notícia por causa das desgraças dos incêndios. É preciso um plano de discriminações positivas para aquelas regiões a todos os níveis para travar essa desgraça. Como pode o PS não se entender com os partidos à esquerda nesta área?
Como fazer crescer o país com uma tal elevado défice externo? E com os constrangimentos do Pacto de Estabilidade e Crescimento? Aqui haverá muita pedra para partir, mas entre a necessidade de investir e crescer e a camisa de sete varas há possibilidades de encontrar pontos que assegurem um melhor futuro. O PS aceitará que não é justo aplicar exatamente as mesmíssimas regras a países cujo grau de desenvolvimento é muito diferente? Por aqui será o caminho e não o do chamado bom aluno ou seja o da ausência de cerviz.
É preciso que haja quem invista em setores produtivos, já que há a nossa burguesia compradora tão patriótica coloca os seus rendimentos noutros países para fugir ao pagamento de impostos aprovados soberanamente.
Nestas circunstâncias um PS virando-se consoante os ventos é voltar ao velho PS com um rumo que o deixou mal visto e, por isso, há quatro anos Costa teve menos votos que Passos; convém aos socialistas terem presente esse dado.
O caminho é o de continuar a dar aos portugueses mais e melhores rendimentos e combater as desigualdades. É o caminho da modernidade contra o velho mundo da desesperança.

In Púlico online de 28/07/2019