O JULGAMENTO DE CAVALEIRO FERREIRA NA FACULDADE DE DIREITO PELO MRPP EM 1974 E O TEXTO DO SOL NASCENTE

O Semanário Sol Nascente resolveu fazer uma incursão ao que chama Arquivo Histórico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e deteve-se num dos episódios mais provocatórios ocorrido pouco pois do 25 de Abril do qual conta coisas e loisas. Aqui a memória em muitos aspetos está fresca, tal a intensidade do acontecido. Nem sempre sabemos a razão por que nos lembramos de certos acontecimentos, mas de outros sabemos. Saio a terreiro porque nesse episódio estiveram envolvidas personagens e registaram-se confrontos político-ideológicos dignos de relevo. E de algum modo paradigmáticos dos caminhos de então.

Morava com outros colegas na Estrada de Benfica e numa tranquila tarde o meu namoro foi interrompido pela campainha frenética que engasgada não parava de chamar. Era o Justino António aflito. Os émeérrepêpês tinham apanhado o Cavaleiro Ferreira na Faculdade (depois de ter sido saneado) e iam julgá-lo.

Lembrei-me de um alerta, dias antes, do Carlos Brito para estarmos atentos às provocações do MRPP na Faculdade. Fui para a Faculdade. Aí chegado o espetáculo era algo que se podia situar entre o trágico e o surrealista. À entrada da Faculdade um cordão de ativistas do MRRP de maus modos a notificaram-me que não podia entrar porque o que se estava a passar nada tinha de estudantil, decorria um julgamento popular e gritavam” os pides morrem na rua”. Assim. Tentei entrar e levei uns pontapés. Falei, à parte, com o Justino e combinamos que ele iria ao MFA dar conta do que se passava e para virem a fim de evitar o tal “julgamento popular”. E lá foi o Justino. Já não sei muito bem qual foi o estratagema que usei para entrar, julgo que foi o de propor aos participantes se eu podia entrar; talvez pensassem que a maioria iria deixar-me à porta, o que não aconteceu.

O Professor estava a um canto da sala. Tinha sido eu quem se levantou na aula de Direito Penal para propor a expulsão do Professor e consequente saneamento. Ele encarou-me e deve ter pensado o pior.

As intervenções iam no sentido de condenar aquele dignitário do fascismo.  Pedi a palavra e o “Tribunal” não ma concedeu. Usei o mesmo esquema – a assembleia era soberana e decidiria se podia ou não usar da palavra. Grande confusão. Dada a primeira votação, temeram o que veio a suceder, foi me concedida a palavra. Para ganhar tempo em relação ao cumprimento da tarefa do Justino lá fui protelando a intervenção e já no uso da palavra que prolonguei ad nauseam até ouvir o burburinho dos militares a chegarem e a entrarem no anfiteatro para levarem Cavaleiro Ferreira.

Ao contrário do narrado no Arquivo da História nenhum professor se encontrava no anfiteatro, nem um. Nessa altura andavam cheios de medo, quase todos. Quase.

Do lado dos Estudantes Comunistas estávamos dois, o Justino e eu. Não estava mais ninguém da Comissão Pró Eleições. O “julgamento” era à tarde e não havia aulas. A sala não estava cheia e muitos dos presentes não pertenciam ao MRPP, eram estudantes, alguns voluntários (que tinham feito a tropa e tinham um regime diferente) que estavam a assistir e não alinhavam com aquela loucura, como se viu pelas duas votações.

Omiti propositadamente nomes dos principais juízes e instigadores, muitos deles figuras de proa de Portugal, em vários setores da sociedade dos nossos dias.

O que me move não é qualquer ajuste de contas, antes repor a verdade do sucedido. É o registo histórico do que poderia ter sido a brutal provocação ao novo regime se, por acaso, os intentos daquela trupe, autodenominada marxista-leninista-maoista, tivessem sido levados até ao fim.

Quem era capaz de proclamar que o 25 de Abril teve como objetivo impedir a revolução proletária que o vento Leste trazia, era capaz se perfilar como juízes de um tribunal “popular” cujos juízes eram os mais ativos militantes da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas ao serviço do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP. O vento Leste foi uma poderosa inspiração que levou muitos deles e delas às cadeirinhas dos vários poderes. Aquele era o tempo e o modo; depois o tempo já era outro e o modo também e tudo se justificou para abandonar os princípios do Livro Vermelho. Os convertidos abraçados ao ímpeto da conversão estão sempre mais próximos do Alto.

https://www.publico.pt/2022/03/03/opiniao/opiniao/julgamento-cavaleiro-ferreira-faculdade-direito-lisboa-mrpp-1974-1997411

Sejamos coerentes, não há nenhuma guerra boa

Toda a guerra é criminosa; salvo a guerra de libertação nacional e a guerra desencadeada face a um ataque absolutamente iminente. Os normativos da Carta das Nações Unidas são claros, assim como a doutrina posterior acerca da guerra justa e da ameaça iminente.

Foi criminosa a guerra da NATO para impor o Kosovo independente a invasão do Iraque por parte dos EUA e os seus sicários.

A guerra na Ucrânia não é uma guerra de libertação, é uma guerra de opressão nacional. É uma guerra condenada à derrota, mesmo que Putin ponha em Kiev um sátrapa, na linguagem usada por Lénine que o ex-dirigente do KGB abomina por ter reconhecida a Ucrânia como um povo e uma nação e não uma província do império russo.

Um dos orgulhos que os comunistas brandiam nos céus humanos era a grandeza dos bolchevistas em reconhecer após a revolução a independências dos povos e contraste com a opressão czarista. Milhões de mulheres e homens aderiram ao comunismo também com base nessa política de reconhecimento dos povos à autodeterminação, independentemente do que se seguiu.

Um dos orgulhos dos comunistas é o primeiro decreto do novo governo russo em 1917 – o Decreto da Paz- a Rússia saía da guerra, o que levou ao fim da primeira guerra mundial.

Só a perda total de referenciais inegociáveis pode levar um partido comunista a evitar condenar com toda a veemência a invasão da Ucrânia, agravando um historial de apoio a invasões perpetradas pela URSS.

Nada justifica esta guerra. Nem o desafiante e desequilibrador alargamento da NATO em forma de tenaz em redor da Rússia, e muito menos a retórica de tipo imperialista de Vladimir Putin. Nem a ameaça futura à Rússia. Os meios para conjurar essa ameaça nunca podiam ser esta guerra para impor em Kiev a humilhação e um lacaio.

A utilização da metralha por mais sofisticada que seja nunca pode ser algo conforme ao ideal comunista no sentido da libertação do indivíduo e da sociedade. Esse é o lado desumano dos fabricantes de armas que tudo apostam no último modelo de matar em massa para vender aos seus homens e mulheres, fregueses ávidos de possuir o direito de matar aos milhares e milhares, caso não sejam seguidos.

Putin está a matar ucranianos que lutam pela sua terra, pela sua língua, pelo seu país e pelo seu futuro.

Putin conseguiu reforçar a máquina de guerra que é a NATO e limar para já as inúmeras contradições entre as suas várias potências. Macron esqueceu os submarinos vendidos pelos EUA à Austrália a substituir os franceses e Scholtz e a Europa ficaram sem o gás que passará a vir muito provavelmente dos EUA.

Esta guerra é injustificada e injustificável por mais razões que a Rússia tenha (e tem) para se sentir ameaçada. Havia que dar tempo para que prosseguissem as negociações e se elas falhassem considerar outros meios, que não seriam a guerra.

Esta guerra não vai resolver nenhum dos problemas de segurança da Rússia; antes pelo contrário, vai desencadear uma campanha contra aquele país porque ninguém de boa vontade e bom senso poderia aceitar que a invasão e ocupação da Ucrânia do tamanho da Alemanha e França poderia ser uma solução. A guerra abriu as portas a um clima de histeria contra a Rússia.

É curioso que nem a CEE, nem a NATO, nem as potências mundiais decretaram sanções de meia dúzia de cêntimos contra os EUA aquando da invasão do Iraque.

A guerra é um crime, seja onde for. A mim faz me doer a alma ver tanta gente importante tão justamente furiosa contra a Rússia e que em 2003 furiosamente justificou a invasão daquele país.

Temos o mundo que temos. Haverá sempre espaço para os homens e mulheres justos, mesmo que não pareça.

Se formos coerentes a começar por cada um de nós o mundo será mais coerente e justo.

Para todos podermos viver de um modo decente e justo não aceitemos as guerras, sejam quais forem os Senhores que as comandam. Precisamos de paz, sobretudo no meio de uma guerra.

O anjo da guarda e o PCP

Lembro-me de na catequese nos ser incutida a ideia de que andava sempre connosco um anjo da guarda que nos dizia o que era bem e o que era mal. Se quiséssemos ouvíamos o anjo da guarda a dizer-nos se as nossas ações eram pecaminosas ou se agradavam ao Senhor.

Naquela idade o terror do Inferno era medonho. Ser precipitado num forno com labaredas incomensuráveis aterrorizava toda e qualquer adulto quanto mais uma criança cujo bem e o mal tinha fronteiras ainda mal definidas.

O certo é que o anjo não aprovava apanhar os ovos de um ninho de um qualquer passarito, mas a tentação era mais forte e embora o anjo viesse pelas cangostas e caminho dos matos a ralhar, logo passava porque outras tentações surgiam.

Às vezes, antes de adormecer, depois de botar o terço em família, o anjo da guarda surgia no escuro a ralhar comigo por isto e por aquilo e mais aquilo de pensar nas pernas da criada (era assim que se dizia) que vislumbrara de longe quando ela se baixara para apanhar a cesta da roupa. Não o via. Na minha crença originada nos ensinamentos da catequista eu imaginava a voz do anjo e não o desimaginava. Qualquer pensamento que me levasse àquelas pernas lá vinha ele abanar me e enxotar-me do pecado.

A verdade é que o anjo da guarda estava sempre ao meu lado para me impedir de cair em tentação.  

Tudo isto e muto mais se passou há muito, muito tempo. Porém, há uns dias fui surpreendido por grandes cartazes cujo conteúdo me levou a essa infância remota. Nos cartazes ali estavam as mensagens – Sempre a teu ladoTodos os dias contigo – e dei comigo a pensar no anjo da guarda.

Esta ideia de que há sempre alguém a meu lado tem o seu quê de enigmático quer nos tempos dos medos dos infernos, quer em termos políticos, pois o estar sempre ao lado é algo difícil de medir por melhores intenções que haja de quem oferece a proteção.

A palavra sempre é um advérbio de tempo, como o nunca, e nunca se deve dizer nunca, sempre também será de evitar porque o sempre é uma eternidade e como tal incomensurável.

Já dentro do comensurável – Sempre a teu lado- também tem os seus quês. Tratando-se, presumindo- de uma classe, a dos trabalhadores, sabe-se hoje e já se sabia, que uma classe, com tantas camadas e segmentos sociais, não se guarda num redil. Assim sendo, estar –Sempre a teu lado – é algo indistinto para quem carrega bem carregada as distinções sociais e faz da sua visão de classe(?), à sua maneira, a sua Bíblia. Ora saber ler é hoje atributo de quase todas as classes e deste modo o destino da mensagem é muito ambíguo e contraditório. A seguir às perdas eleitorais pode compreender-se o esforço, mas um slogan tão indistinto dá que pensar quanto aos destinatários.

Ademais é um tiro no escuro e fora do alvo dada exatamente a ambiguidade dos abrangidos. Por outro lado, o Sempre tem o seu quê da eternidade salvífica ou da terrível perdição.

Vamos supor que o beneficiado, indistinto, não quer ninguém a seu lado a não ser quando ele o solicitar, ou não quer em quaisquer circunstâncias ou apenas quem ele escolher? O cheque preenchido deste modo assume uma obrigação cega, ou seja, faça o que fizer o alegado protegido está sempre coberto e sem riscos. Só Cristo foi tão longe quando recomendou que depois de levar uma bofetada se desse a outra face.

Aqui chegados, coloca-se a pergunta em toda a sua esplendorosa simplicidade, esta afirmação não derivará da ideia velha e desgastada ideia de que há uma espécie de elite- vanguarda- que sabe o que os trabalhadores querem e, portanto, é essa vanguarda que marca a luta o destino está traçado – Sempre ao teu lado– porque no fundo está ao lado do que o “protetor” decidiu? Caso contrário como é bom de ver trata-se de um cheque em branco. Quem pode afirmar com rigor estar todos os dias contigo e a teu lado? Há dias em que nem o próprio está a seu lado. A consciência do si é uma leveza, mas também um peso, mesmo sem anjo da guarda.

Há bifanas ou o que há?

As bifanas têm o seu quê, que se não vê. As de Vendas Novas falam por si, há décadas. Há quarenta anos não havia caçador que a meio da noite não parasse no Boavista. Havia uma longa fila para saborear as bifanas a pingar de gordurinha.

Agora no Porto Alto há uma nova casa de bifanas. E ficamos sem saber o que realmente há.

Se bifanas estranhamente confecionadas com palavras e ideias, à poeta, mais escorreitas, como é das Letras.

Ou se as bifanas são fonte de inspiração espiritual, apesar da gordurinha a escorrer da carcaça; os poetas já não vivem à míngua de uma boa bifana.

À vista há bifanas à Poeta e há que provar. Pode ser que ponham o país a ler à larga.

Um enorme manto de vergonha caiu sobre o mundo – entre Biden e Putin – a paz

Este 16 de março devia encher de ridículo todos quantos anunciaram que era o dia em que a Rússia invadiria a Ucrânia. E de vergonha. O dia em que os capachos ficaram pornograficamente capachos. O dia em que os papagaios deviam ver-se ao espelho e sem penas a sua nudez é incomodativa.

Darwin nunca imaginou esta sobrevivência dentro de certos membros desta espécie que corre o risco de ser substituída por robôs de inteligência artificial, tal o desprezo pela nobreza de uma das mais belas e profundamente humanas profissões.

O anúncio da morte saiu à rua sem um pestanejar, sem um porquê. Saiu. Disseram-lhes para a fazer sair em anúncio e anunciaram cansados de tanto a repetirem.

O Sr. Biden e o Sr. Jonhson, cheios de problemas nos seus países, queriam um ambiente de guerra para convocar o povo contra o poderoso inimigo prestes a fazer uma carnificina na desgraçada da Ucrânia.

O Sr. Biden tem brevemente eleições e está mal colocado.

Talvez em tempo de guerra o Sr. Boris pudesse continuar as glamorosas festas no nº10 da Downing Street em honra dos santos liberais.

Claro que mais de cem mil soldados russos junto à fronteira da Ucrânia são uma ameaça. E misseis Pershing II e Cruzeiro da NATO a quatro ou cinco minutos de parte do arsenal russo arsenal não o seriam. Misseis russos sê-lo-iam no Canadá ou em Cuba ou no México? E se fossem, o que fariam os EUA?

Uma invasão da Ucrânia seria uma catástrofe e uma violenta violação do direito internacional. Mas é curioso que nenhum país da NATO pediu sanções duras e brutais pela invasão, ocupação, destruição e humilhação do Iraque apesar dos muito mais de cem mil mortos.

Quem se lembrar, encontrará os repetentes e recalcitrantes: EUA, Reino Unido. Desta vez não foi preciso ir aos Açores, mas Marcelo, Costa e Rui Rio, em santa aliança, vão enviar tropas para proteger os desígnios de Biden.

Não apareceu Durão Barroso, mas Santos Silva podia lá ficar fora do festim e apelou ao regresso dos portugueses que se encontram a trabalhar naquele país. Fica bem.

E quem se lembra da França humilhada pelos EUA na venda dos submarinos à Austrália? E das declarações nada ameaçadoras de Biden a Schlotz dando conta que o gás russo não chegará à Alemanha?

Claro que isso são coisa entre os EUA e aqueles pequenos países europeus; com o gigante luso bateriam a bola baixinho.

No dia mundial da mentira e da vergonha as tropas russas começaram a desmobilizar. As negociações vão prosseguir. Há um certo alívio. Entre Biden e Putin há que escolher a paz, e só a paz. E essa não passa por enviar soldados portugueses para a loucura em que o Leste europeu se está a tornar.

Os resultados eleitorais, o sectarismo, o radicalismo verbalista de fachada comunista

O que parecia improvável aconteceu. A manobra convergente de Marcelo e Costa resultou em pleno para o primeiro e deixou o segundo com a página mais que virada, sem possibilidade de lá escrever o que quer que seja a não ser – maioria absoluta.

O que fez ressuscitar a maioria absoluta? A irresponsabilidade do PCP e do BE e a manobra tática de Costa.

O PS apoiou-se na esquerda para governar. Ganhou apoio popular num país claramente situado ao centro esquerdo. Cavou no centro e na esquerda. Reforçou a sua base eleitoral. Sentiu-se mais forte. Quis reposicionar-se; não queria os constrangimentos que o PCP e BE lhe colocavam. Apresentou o orçamento com a espada de Dâmocles, ou votam ou vamos para eleições. Marcelo esfregava as mãos.

Os resultados revelam que a manobra não foi compreendida em toda a sua extensão pelo PCP e BE que caíram na esparrela de não deixar passar o orçamento (o PCP para eventualmente competir com o BE); deixaram-se responsabilizar pelo chumbo que impedia algumas melhorias em áreas socias; nunca explicaram porque havia contradição entre deixar passar o orçamento e continuar a lutar por outros avanços nos salários, no SNS, nas pensões e na escola pública. Comportaram-se como anjinhos no céu socialista de Costa.

O descalabro dos partidos à esquerda do PS foi geral. Pagaram o preço de navegarem fora da realidade. Como podem explicar que ao longo de todos estes anos não tenham sido capazes de se encontrar para aumentar a sua força negocial junto do PS e do eleitorado de esquerda?  Só a cegueira explica esta competição sectária desastrosa.

Como pode o PCP atribuir, como sempre, as culpas a outros e não assumir qualquer espécie de erro? Veio Jerónimo gasto e desgastado culpar a bipolarização e é caso para perguntar, então não sabia que chumbando o orçamento o que ia acontecer era a bipolarização agravada pelo facto do PS ter no orçamento o aumento do salário mínimo, das pensões, e a mudança nos escalões do IRS que eram bandeiras do PCP? Se não sabiam é porque são incapazes de ler a realidade. O modo de fazer notar a diferença existente não passava por andar a provocar eleições ou dito de outro modo se as não queriam não fossem jogar no campo de quem as engendrou. PCP e BE declararam tonitruantes que estavam preparados e não estavam, como se está a ver.

  Em Évora a bipolarização que existia entre PCP e PS passou a ser entre PS e PSD. E o que explica a dramática derrota em Santarém para lá da de Évora? O mundo está a mover-se sob o nosso olhar e a direção do PCP está sem olhos que vejam; fala para sociedade imaginária que existe nos livros dos clássicos que leram(?) sem os saber aplicar às realidades de hoje.

O PCP vai perdendo a pouco e pouco a sua influência eleitoral de um modo que parece irreversível. Ao contrário do que afirmava Cunhal a influência social é muito inferior à eleitoral, apesar desta vir a diminuir. A direção do PCP cavou um fosso dentro do próprio partido entre os seus ativistas interessados na progressão do partido do que nos lugares que ocupavam ou ocupam. A direção sabe que precisa deste tipo de radicalismo verbalista sem qualquer correspondência prática para justificar a sua incapacidade. Vem substituindo essas perdas de influência por um discurso verbalista/radicalista de fachada comunista.

A direção de Jerónimo para tentar iludir a sua fraqueza declarou do alto do 6º andar da Soeiro Pereira Gomes que não assinava acordos com o PS e passou esta mensagem sem qualquer substância para um partido exaurido de quadros corridos, desprezados, marginalizados perdendo assim as raízes que um dia teve.

A não haver um sobressalto dentro do partido o destino está escrito nas estrelas.

Por último, o país uma vez mais pronunciou-se que que quer o SNS tal como foi adotado, a Segurança Social e a escola pública sem a invasão do liberalismo, salários mínimos decentes e novos escalões do IRS. Por isso votou como votou e mandou Rio para a sua inutilidade superveniente.

A direita reconfigurou-se. O CDS descansa em paz. O Chega está no sistema contra o sistema. Vamos ver como passa a ser sem ser o André. A IL vai preenchendo espaços deixados pelo CDS e certas camadas do PSD. A direita ficou minoritária uma vez mais. A vida continua.

HÁ “Fantasmas” na Barraca – imperdíveis

A Humanidade sempre viveu com fantasmas e sempre viverá, não obstante andarmos à procura do caminho para o planeta Marte. Talvez os exploradores os encontrem no caminho, como os companheiros de Vasco da Gama, segundo Luís Vaz de Camões

A Humanidade tem avançado a muito custo largando ao longo do tempo práticas, conceitos, preconceitos, violências, injustiças e discriminações quer entre classes e camadas socias, quer entre géneros, quer entre os membros da própria família.

Para trás ficou a escravatura, perseguições religiosas (algumas persistem), o morgadio, a maldição da mulher, a desigualdade monárquica, a discriminação no sufrágio entre muitas outras.

Mas também ficaram preconceitos e inerentes ao sistema dominante e muitas hipocrisias que fazem de muitos seres humanos gente medíocre e injusta até nas próprias relações familiares.

A moral burguesa do século dezanove também estava impregnada de duplicidades e injustiças medonhas. Ibsen, na obra Fantasmas, urdindo o drama, acentuando ambiguidades, usando a ironia e o humor, traz para a superfície da vida as contradições e a hipocrisia dentro da família e na própria religião cristã imperante na Noruega daquele tempo.

O cenário, não obstante o sofá, é sóbrio, apesar da riqueza da dona da casa do que se depreende dos diálogos entre a proprietária e o pastor; ele mais interessado nos bens materiais e ela voando mais à larga. O pastor, cuja pastorícia devia ter lugar nas almas dos habitantes da pequena cidade, onde se desenrola a ação cénica, centra-se no vil metal.

Rita Lello dirigiu os atores e a atriz pelo caminho luminoso das dificuldades das personagens tremendamente densas, como é timbre de Ibsen. E conseguiu quer através do espaço cénico despindo-o e apostando em dois ou três elementos que pudessem definir sobretudo o caráter da senhora Helena. A rebeldia que são os livros que o pastor esconjura e o tricô em oposição à rebeldia. A densidade do ser humano está nas suas contradições. Helena é esposa que achava que devia perdoar a vida debochada do marido, mas ficamos com a ideia de que no íntimo sofredor ela não perdoou, provavelmente querendo perdoar. Não saímos seguros do que pretendia aquela mulher, mas saímos mais conhecedores da aventura humana.

Ela quer o “seu” bem para o seu filho 0svald, mas ao aperceber-se que esse “seu” bem não é o que o filho pretende, adere ao bem do filho; que por sua vez sabe que a alegria de viver que ele persegue não vai ser possível porque sofre de uma doença incurável e adapta-se apesar da sua opção de enfrentamento do status quo amolecer ao pretender Regina, sua irmã, filha de uma relação do seu pai com uma empregada e que ele desconhecia. Aqui entram as comezinhas contas humanas entre o largo horizonte de uma possível alegria de viver e o inevitável ramerrame da vida coitadinha.

Helena encerra em si a moral da altura e deixa antever uma nova moral imprecisa, fazendo-a oscilar entre o velho e esse tal novo indefinido.

Rita Lello agarra com toda a força a força de Helena. Às vezes comove-nos, outra vezes deixa-nos estarrecidos com a coragem e outra ainda petrificados pela incapacidade de se livrar da moral dominante de aquela família é expressão. Tanta versatilidade exigia um talento superlativo que a atriz demonstrou ter. Magnífica interpretação.

Em todo o esplendor é a família burguesa que é posta em crise pelas convenções, preconceitos e anátemas que sobre ela se abatem.

Fora da família estão o pastor e um biltre que se assume submisso para se colocar por cima usando a vilania para se encostar ao pastor devido ao incêndio que destruiu o orfanato que seria de Regina e que o pastor aconselhou Helena a não fazer seguro na sua lógica de homem dado ao dinheiro, sendo o pregador da salvação das almas.

O pastor, à boa maneira do invocador do santo nome de Deus em vão, é o corifeu dos situacionistas que a História e a vida confirmam. É a encarnação do caruncho interior face à representação de figura de boa índole. O biltre sabe por ladinice a que porta há de bater e o pastor não a fecha. Business.

Regina é da família sem o saber e de nariz ao alto qual perdigueira, no meio daquele mundo de hipocrisias, aprendeu a saber movimentar-se desde casar com o irmão antes de saber que era até finalmente aceitar ficar à frente de um prostíbulo que Jakob- o biltre- vai montar, tendo ela no início da ação recusado frontalmente.

Os atores e atriz que desempenham estes papeis estão ao nível das exigências de Ibsen. Souberam-nos transmitir a força, a cobardia, a bondade, as ambiguidades, as fraquezas e a hipocrisia dominante na Noruega de então.

Ibsen desvendou com mestria certas características que os humanos não revelam a olho nu; fê-lo às claras e a meia luz e na sombra do que se não diz e se vê pelo poder da palavra ou de certos silêncios mais presentes nas duas mulheres.

A encenação foi capaz de colocar em cima do palco toda essa riqueza que Ibsen congeminou. Saímos daquele Teatro mais humanos, mais retratados, mais curiosos e quiçá mais capazes de compreender os fantasmas que existirão enquanto houver vida humana. Imperdível.

 O prolongamento da campanha eleitoral por outros meios, diria Clausewitz

Não se pode negar o incalculável valor dos media na intermediação das sociedades. E num mundo de vida sufocada, de corrida em corrida, de desassossego em desassossego o tempo de cada qual é chegar a casa sentar-se, ver e ouvir o que dizem as televisões, às vezes como uma remota companhia, mesmo se acompanhados. A televisão vale muito mais que os vizinhos. Está ali à mão, dia e noite. É um estranho mundo aquele em que vivemos

Em tempo de eleições assistimos a um novo desdobramento do ato eleitoral que consiste no facto de os dirigentes políticos debaterem em direto e no final de cada debate dado por terminado, ele continuar por interpostas pessoas que não concorrem e intervêm com tanta ou mais força que os verdadeiros atores do processo eleitoral.

De certa forma começa um debate monocolor em que meia dúzia de escolhidos “pescam” umas tantas frases dos dirigentes partidários durante um tempo quase sem limite, ao contrário do tempo de debate, elegem quem perdeu e quem ganhou. E ganham quase sempre os mesmos, salvo honrosas exceções.

O que é importante é que mal acabe o debate ou a notícia algum comentarista venha a correr à televisão dizer o que pensa para não deixar que se pense.

Não se trata de anular o comentário acerca do que foi dito por A, B ou C. Aqui o que acontece é prolongamento do debate por outros meios como diria Clausewitz que visa de um modo enviesado fazer prevalecer o ponto de vista ideológico do comentarista. Trata-se de uma deslealdade, pois esse elemento é escamoteado. Ou os media assumem a sua preferência por tal ou tal partido e o leitor/espectador não é ludibriado ou não faz de conta que é imparcial, mas vai plantar o comentário no campo da direita com os mais estapafúrdios “argumentos”, sendo o mais gasto a imutabilidade do status quo graças ao Santo Mercado.

Repare-se na velocidade de reciclagem dos media que apostavam nas entre linhas e fora das linhas na vitória de Rangel e hoje levam Rio aos ombros.

Ele é crescendo da campanha do PSD, ele é o inesperado fulgor de Rio, as suas propostas que ninguém ousa a propósito da justiça, ele é a baixa de impostos, ele é a descida do IRC; o que mais virá em tempo de promessas. Ele é um mar de virtudes quando há dois meses era um mar de defeitos. Que conversão, nem Martinho que viria a ser santo; porém Rio só vai dar a capa a quem pagar IRC…e aos médicos assistentes dos privados e a outros similares; os que pagam IRS ficarão à espera que as grandes empresas engordem mais.

No domingo foi um enlevo ver o casal Maques Mendes/Clara de Sousa. Um verdadeiro platonismo. Os sorrisos, os trejeitos, as buchas, o que se não diz e se vê. Marques Mendes na SIC, Paulo Portas na TVI. Tudo às mil maravilhas. Dois dos principais dirigentes da direita a falar sobre as eleições com imparcialidade. O irrevogável Portas e o ex Presidente do PSD. Que pluralismo. Que coisa linda.

 Pode ser que as televisões, à custa de serem tão iguais e previsíveis, continuem ligadas e os cidadãos desligados. Os media não vão a eleições ou vão?