Pandora papers e o poema de J. Namorado-Port Wine

Os pandora papers aí estão a pôr a nu a tremenda hipocrisia em que assenta a atual ordem política/económica. O mundo ficou a saber que certos figurões são por fora beatitude e por dentro podres.

O mesmo mundo alienado que tem poder para lhes tirar o poder e, em grande medida, os deixa ficar com os seus biliões, deixando a maioria da população do Planeta à fome. Até quando?
Lá está o que impôs com o seu amigo Sócrates a austeridade aos trabalhadores portugueses; capaz de comprar um apartamento em Nova Iorque com dinheiro do BES que estamos a pagar. Fez o dinheiro andar aos saltos por vários paraísos (assim se chamam os infernos da fuga aos impostos) até entrar na sua órbita.

Lá está ele a gozar com a vida de todos os que vivem ou sobrevivem do seu trabalho.

Lá está ele a exemplificar de forma sublime que para certos indivíduos a política serve apenas para fazer o jogo do poder e receber as contrapartidas devidas.

 Morais Sarmento, Vice-Presidente do PSD, escolhido por Rio, também se serviu dos paraísos para fazer valer o seu enorme apetite pelo dinheiro “apunhalando” a moralidade que Rui Rio queria instaurar.

Lá está ele, o Ministro de Durão Barroso e de Santana Lopes, a mostrar que no PSD se pensa alto e bom som no que toca a dinheiro. Basta a ocasião e logo vem a ganância. O país que estava de tanga no seu glorioso tempo de Ministro da Presidência, pode vê-lo agora nu.

E que dizer do Dr. Canas o Vitalino, sempre pronto a voar para altos cargos? Afinal no PS a coisa fia fino no que toca a figurões de fazer esta figura de impor impostos e de ter altos dirigentes a fugir ou a ajudar clientes a fugirem. Também tu Vitalino…diria Cícero que não é Costa, embora em boa verdade Vitalino não conspire contra António Costa, ao contrário de Catilina que dava cabo da paciência de Cícero.

E de entre a galeria dos mais famosos lá está ele Tony Blair, o biltre, que levou o Reino Unido à invasão do Iraque com base numa colossal mentira. O que pedia austeridade para quem trabalhava e ao mesmo tempo se aboletava com quantias brutais fugindo àquilo que impunha com toda a força à população.

 Lá está ele, o que armou em Trabalhista, para disfarçar e tratar da vidinha.

Lá está ele sossegado a gozar a vida depois de ter pela sua ação provocado a morte de mais de uma centena de milhar de iraquianos. E agora de cofre cheio. Ele, o Trabalhista, o biltre.

Lá estão mais umas centenas de fulanos, todos em altos cargos, alguns da Realeza, outros dos espetáculos musicais ou futebolísticos. Todos repimpados com o vil metal que os senhores governantes do mundo permitem este estado de coisas. Talvez a pensar no seu futuro.

No dicionário Priberam este tipo de pessoas que apresentam com um rosto escondendo o verdadeiro podem ser designadas como trapaceiros e um trapaceiro não passa de patife ou um mequetrefe. É escolher. Talvez biltre.

E assalta-me o poema de Joaquim Namorado” Port Wine” que termina assim…Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
Liberta-te, meu povo! – ou morre.

Podem os homens que têm tanto medo da mulheres governar o Afeganistão?

Na década de sessenta do século passado, quando os países do Médio Oriente se levantaram contra as potências coloniais, o Islão foi incorporado como elemento constitutivo do movimento de libertação nacional na maioria dos países árabes, com exceção da Arábia Saudita que sempre esteve fechada no seu mundo absolutista da dinastia da casa Saud.

O movimento do chamado renascimento árabe Al Bath na Síria e no Iraque, a FLN na Argélia com Houari Boumediene, no Egito de Nasser, no Iémen do Sul são exemplos vibrantes de sociedades renascidas da ocupação em que o papel das mulheres assumiu relevo.

Era perfeitamente possível ver nas ruas do Cairo, Aden, Argel, Damasco ou Bagdad jovens namorados e casais de braço dado e era muito raro encontrar mulheres nos centros urbanos de cara tapada com hijabe ou nicabe e muito menos com burca.

Na OLP era perfeitamente visível o extraordinário papel das mulheres na luta mais geral do povo palestiniano pelo direito a edificar o seu Estado livre e soberano da ocupação israelita.

Estes países tinham uma conceção do Islão que permitiu aos movimentos de libertação nacional integrá-lo de forma positivo nesse quadro político e sociológico.

O Afeganistão dos anos 60/70 era nesta matéria um país ainda mais avançado nos grandes centros urbanos onde as mulheres tinham o seu papel nos mais variados setores da vida económica, social e cultural.

A partir dos anos oitenta, a Arábia Saudita com todo o seu poderio financeiro e económico foi investindo um pouco por todos os países árabes e muçulmanos grandes somas para difundir a sua conceção fundamentalista e retrógrada do Islão. Financiavam a construção de mesquitas, enviavam religiosos e acenavam com novos investimentos.

A Arábia Saudita espalhou por todo o mundo muçulmano os seus pregadores e as suas escolas de difusão do wahabismo sunita, a versão mais fundamentalista e retrógrada do Islão.

Com a invasão do Afeganistão pela URSS, a Arábia Saudita investiu com os EUA somas incalculáveis de dólares no apoio aos auto- designados mujahidins.

A implosão da URSS também contribuiu para uma viragem do nacionalismo árabe para uma visão fundamentalista que a Arábia Saudita impulsionou. Fez medrar uma nova guinada no sentido do mais recalcitrante conservadorismo que foi da Al Qaeda ao Daesh, ao Hamas, e aos talibans apoiados pelo Paquistão e saídos das entranhas da guerra contra a URSS e que os EUA e a Arábia Saudita apoiaram.

Como sempre seguindo as peugadas da História as criaturas foram nos seus desígnios muito para além dos seus criadores.

A desastrosa invasão do Iraque criou em todo o mundo muçulmano um desespero e uma revolta que muito contribuiu para esta viragem nos valores do Islão dada a ausência de alternativas no plano das políticas dos países árabes. O Islão apareceu aos muçulmanos como a sua única identidade.

Esta nova visão misógina e retrógrada, própria das sociedades tribais de mentalidade atrasada, foi promovida pela Arábia Saudita.

O papel da mulher na Arábia Saudita serviu também de inspiração aos talibans. Foi daquele país que se transpôs a sharia para ser a lei fundamental, ou seja, a Constituição do país, a qual não tem normas e resulta do que se diz do que o Profeta disse e de umas tantas citações do Corão.

Na Arábia Saudita as mulheres para estudarem precisam do parecer favorável de um familiar masculino, as Escolas não são mistas; uma mulher que precise de uma intervenção cirúrgica tem de ter o parecer favorável do familiar masculino mais próximo e têm obrigatoriamente de ser vistas por médicas. Não podem andar na rua sós. Nas mesquitas em que podem entrar, ficam atrás dos homens. O seu depoimento como testemunhas vale metade do dos homens e no direito sucessório recebem metade do que recebem os herdeiros homens. Já podem tirar carta de condução, mas não é fácil.

Os jiadistas sunitas beberam até a última gota este fel/inferno que impõem às mulheres onde tomam o poder desconsiderando e perseguindo-as como seres inferiores.

Os talibans acabam de criar o Ministério da Promoção da Virtude e Prevenção do Vício, encarregado de promover a pureza da sharia.

Num mundo em que o tempo acelera, os talibans vão tentar impor o regresso ao passado com todo o cortejo de horrores. Não querem que as mulheres calcem sapatos para não ouvirem o barulho que fazem as suas pernas a andar na rua porque os perturba.

Podem os homens que têm tanto medo das mulheres governar um país? Vamos ver.

https://www.publico.pt/2021/09/25/opiniao/opiniao/podem-homens-tanto-medo-mulheres-governar-afeganistao-1978717

Marcelo- palavras de Ferro ou malabarista?

Marcelo declarou, em Roma, na terça-feira, que a ignomínia levada a cabo pela turba de arruaceiros contra o Presidente da Assembleia da República, quando almoçava com a esposa, é um caso de justiça e não comentava.

Dando o dito por não dito comentou acrescentando que em Portugal a esmagadora maioria da população é a favor da vacina e a hiperbolização das minorias não pode esconder esse facto.

Foi o que a mais alta figura do Estado disse sobre as ameaças, os insultos, as ofensas e as provocações feitas à segunda figura mais relevante do Estado.

Marcelo sabe, não pode deixar saber, e desse facto tem consciência, que o sucedido nada tem a ver a ver com o facto de haver uma minoria de portugueses que não se vacinam e que o episódio frente ao restaurante é um insulto à imensa maioria dos que se não querem vacinar e rejeitam liminarmente aquele tipo de violência.

O grupo que já se tinha perfilado atrás de um senhor juiz igual a ele, insultando e dando-se ares de ser superior, ofendeu e ameaçou de modo grave Ferro Rodrigues.

A turba não se limitou no exercício do seu direito de se exprimir, manifestar e reunir de expor as sua ideias sobre o malefício das vacinas, o que as leis portuguesas lhe permitem. Nada disso. O grupo insultou Ferro Rodrigues, ameaçou-o de o perseguir até ao fim dos dias e em relação ao dono do restaurante de ficar marcado para sempre. É um ataque brutal ao Estado de Direito democrático na pessoa do Dr. Ferro Rodrigues.

Uma minoria deve poder expressar as sua ideias dentro do quadro legal vigente. Quer a maioria, quer a minoria não têm o direito de saltar por cima das leis, violá-las e ameaçar seja quem for.

A mais alta figura do Estado, Professor de Direito Constitucional, não pode e não deve confundir maiorias e minorias com condutas criminosas de turbas arruaceiras de duas ou três dezenas de associados na maldade quimicamente pura.

 Ao fazê-lo, Marcelo, o Presidente da República, está a prestar um péssimo serviço às instituições da República, desde logo àquela que lhe deu posse e onde jurou cumprir e fazer cumprir a Constituição.

Este grupo de foras da lei aterroriza sem sentido e merecia de Marcelo um comentário bem diferente e que infelizmente deixou no vazio da sua mente.

Marcelo é o que é, esteja onde estiver, ocupe o cargo que ocupar. Poder-se-ia então concluir pela sua coerência, o que não corresponderia à verdade dos factos. Diz que não vai opinar e opina. Toda a sua vida foi feita de ziguezagues, uns estonteantes e muito comprometedores, outros próprios de menino traquinas e destemperado. Balsemão classificou-os nas suas memórias.  

O caso do ataque covarde ao Presidente da Assembleia da República exigia do mais alto magistrado da nação outra atitude, mas Marcelo é Marcelo, sempre enredado em jogos e mais jogos e mais jogos, un jongleur.

https://www.publico.pt/2021/09/16/opiniao/opiniao/marcelo-palavras-ferro-malabarista-1977611

De quem é o 7?

A notícia ganhou asas e voou de um canto ao outro do planeta. Havia o dono do número e havia o eterno 7 que se fora e voltara. A quem se devia confiar o mágico número?  Por esse mundo fora, embora sem voto na matéria, as opiniões sucediam-se e coincidiam – só podia ser do eterno 7.

Sendo o número perfeito, mágico, referido na Bíblia 360 vezes, é natural que o candidato agora chegado o cobiçasse devido a todos os seus atributos. Deus ao sétimo dia mandou toda a gente descansar para a Ele se poder dedicar. Quando o 7 entra a coisa fia fino. Lisboa tem 7 colinas e não é por acaso. Se tivesse 8 colinas a coisa não caía bem. 7 cai. Há 7 mares e 7 ventos e 7 dias tem a semana.  7 pecados mortais. E há o 7 estrelo que o Zeca Afonso cantava  “que sabe sempre onde ir”, pelo menos na cantiga dos Emigrantes.

De cima da abóbada celeste, habituada aos humanos desatinos, o Céu dos monoteístas, manteve-se na sua placidez. Que resolvam os mortais o imbróglio que tinham criado. E deixou correr o marfim.

A notícia chegou no dia 1 de setembro. Glória ao homem que rebenta todas as escalas e à ilha da Madeira que assistiu ao seu nascimento encantatório. A grande questão que pairou em toda a Terra foi resolvida a bem de todos. A perfeição chegou e o que tinha o 7 devolveu-o ao que o queria. Dizem os especialistas de mercados financeiros que o de futuros amainou e os 7 ventos passaram a correr de feição. Num só dia a camisola 7 vendeu centenas de milhares.

Os mercados moderaram as suas irritações logo que o 7 foi para quem devia. As bolsas recuperaram. Naquele estertor do dia, o de mil ardis recuperou o que só a si podia pertencer, dado o seu caráter meio humano, meio divino quando se trata de marcar golos.

 O Olimpo admirou-se de Marque Mendes não ter adivinhado a quem iria ser atribuído o 7.

O desportista que faz inveja a todos, o que ganha fortunas ao dia, e à hora o que quase ninguém ganha, fez as crianças mais pobres do mudo erguer os braços de contentamento.

Elas sonham ser o 7 que não serão, quando muito apenas 1 será o 7, se for. Os meninos do planeta pularam quando viram que o 7 era finalmente dele de novo e quando ele, nesse mesmo dia, tirou a camisola com o 7 depois de ter cabeceado a bola às redes da Irlanda como o verdadeiro 7 que antes costumava ser o a tributo do 9.

Ele, o sonho acordado, tinha de ser o dono do número.  A magia do 7 só podia ter o destino daquele que fez o 7 o sonho de todas as crianças dos bairros de todo o mundo desde a Tailândia à Palestina, do Brasil a Conacry, do Japão à Venezuela e ao Afeganistão.

E dos que gostam de futebol e da arte de marcar golos. A magia do 7 fez jus ao velho provérbio – O seu a seu dono.

https://www.publico.pt/2021/09/09/opiniao/cronica/7-1976528

Uma imensa “Noite sem lua”, o Afeganistão

O prémio Nobel da Literatura de 1962, John Steinbeck, escreveu esta obra que se desenrola algures numa ilha ocupada militarmente. A dada altura, o narrador revela o pavor dos ocupantes” …começaram a detestar a terra conquistada…até que por fim o medo começou a crescer no coração dos conquistadores…medo de serem caçados por aquele ódio intenso…”

Não é difícil imaginar o ódio dos afegãos a todos quanto os quiseram dominar, os ingleses no século XIX, os soviéticos no XX e os americanos no XXI. O ódio gera medo, nos que odeiam e nos que são odiados; talvez a partir de certo ponto mais nos ocupantes, como bem dá conta Steinbeck.

As tropas afegãs, montadas, treinadas pelos ocupantes, acabaram por se sentirem no seu íntimo estrangeiras, a tal ponto que bastou Biden marcar a data da saída para desertarem e fugirem. O medo dominava-as.

O Presidente colocado pelos EUA arrancou logo que conseguiu encher o avião ou os aviões com o dinheiro made in USA.

E medo tinham as dezenas e dezenas de milhar de jovens, mulheres e homens que trabalharam para o Império e seus ajudantes. Em três ou quatro semanas o medo invisível escancarou-se.

O exército dos EUA, o maior e mais bem equipado do mundo, retirou num clima de caos.

O Afeganistão não é só um dos países mais pobres do mundo, é também o país de medos ao cabo de vinte anos de ocupação. E já o era nos tempos dos talibans e da ocupação soviética.

Mas esta última guerra do Afeganistão tem também um lado surreal e bizarro porquanto o objetivo anunciado, no seu início, foi acabar com o terrorismo.  Derrotados os talibans, aberto o caminho para um oleoduto a passar por aquele país torneando o Irão, tudo levava a crer que os derrotados seriam escorraçados do país. Só que, passados vinte anos, os invasores (EUA e NATO) bateram com os calcanhares e entregaram o poder aos terroristas que tinham derrotado, deixando um país em disputa entre estes terroristas e os terroristas do Daesh-K., constituindo este abandono uma verdadeira confissão de que a invasão não serviu para nada.

Nesta guerra as tropas ocupantes viviam cercadas por arame farpado e minas, gerando no seu estado psicológico ódio ao país que os obrigava a viver nos antípodas das suas vidas no mundo ocidental.

Eis parte do balanço: 47.245 civis afegãos, 66.000 militares e polícias afegãos, 2448 soldados, mortos, e 28.189 feridos dos EUA, num total de 775.000 militares que naquele país combateram. A guerra custou 2.261.000.000.000 dólares. Mais de uma centena de milhar de mortos e várias centenas de milhar de feridos. Como se pôde ter chegado a este ponto para devolver o poder aos talibans?

Em simultâneo, a ocupação permitiu a expansão a números nunca antes vistos da plantação de papoilas e mais tarde o tráfico do ópio.

Ninguém responde por tão medonho fiasco? Os que prometeram reconstruir um país aqui e no Iraque ficarão incólumes?

A ocupação soviética para além de ter acelerado a implosão do regime soviético serviu para colocar no poder os talibans, quando antes da ocupação existia um regime que cooperava com a URSS em todos os domínios.

Portugal participou nesta guerra e recentemente (24/05/2021) João Cravinho considerou a participação de alcance histórico devido ao” …contributo nacional para a estabilidade e segurança de um país…”

A cartilha da estabilidade e da segurança do Afeganistão tem alguma coisa a ver com o que se está a passar diante dos nossos olhos? O que estiveram as tropas portuguesas a fazer? A treinarem quem não queria combater? Nunca deram conta desse facto? Foi por “isto” que os militares portugueses combateram? Pode o país confiar num aliado que decide exclusivamente em função dos seus interesses, incluindo o dia da retirada, sem consulta?

Tanta pergunta a que se foge virando o disco para a importância (real) de acolher refugiados resultantes desta loucura. Nem uma palavra sobre o porquê de tudo isto. Uma escuridão como a das noites sem lua.

https://www.publico.pt/2021/08/31/opiniao/opiniao/imensa-noite-lua-afeganistao-1975782

As freiras missionárias reparadoras do coração de Jesus, o bispo, o padre e o Cabo da GNR- tudo na Mêda

Rezam as crónicas que o padre da paróquia da Mêda, de seu nome Basílio Firmino, quando botava a missa, acompanhado pelo bispo de Lamego, D. António Couto, foi interrompido pelos paroquianos que tinham a seu lado três freiras, todas elas pertencentes à Congregação das Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus. O nome vai assim compridote, mas sendo essa a designação, como tal deve ser tratada, cada um ou uma com seu quê, tanto mais quanto o caso é raro e de especial melindre.

Diziam os paroquianos e freiras manifestantes à porta do templo católico, onde se passava a missinha no passado domingo dia 15, que o cura da Mêda tinha maltratado as freiras cuja função era de grande nobreza, embora de difícil alcance, pois tratar do coração do Criador é algo de difícil imaginação, mas para a imaginação não há limites.

Correram as notícias que as freiras fizeram queixa à Madre da Congregação que, diante dos factos assentes entre as religiosas e ela, as transferiu. Não se sabe se foram transferidas para o caso amainar ou até morrer ou se à falta de outra saída, o melhor era a transferência. Acontece muito nos grandes clubes de futebol no que às transferências se refere.

Só que o povo da paróquia por isto ou por aquilo se juntou às três freiras, e quando o homem da bata negra rezava a missa, foi expressar o seu desacordo pela ocorrência, deixando à vista de todos que a transferência pode ter sido um ponto de reagrupamento de forças.

Elas e eles e eventualmente a Madre entenderam voltar à lide num outro patamar, o que em vocabulário estratégico se designa como uma etapa superior de luta, ou seja, passando-a para a rua.

Aqui chegados, as trincheiras eram estas – as ofendidas respaldadas pelos paroquianos e o padre e o bispo. Voilá.

Para complicar o teatro das operações surgiu, chamado pelo padre Basílio Firmino, o cabo da GNR da Mêda, o qual interpelado pelo bispo de Lamego lhe respondeu que o direito de manifestação era livre.

Retorquiu D. António Couto que não era bem assim porque não estava a ser respeitado o artigo 251º do Código Penal que assegura o exercício do culto livre de ingerências.

Fácil é de ver que a situação se complicou tanto mais quanto a própria Diocese de Lamego em nota pública considerou a manifestação sem tino e enviou para o MP queixa contra as religiosas, os manifestantes e o próprio cabo-chefe da GNR de Lamego. Foi à medida grande.

No entendimento da Diocese o cabo entrou armado na igreja, o que não podia, alega a dita. E em vez de amansar os manifestantes entendeu que exerciam um direito legítimo, o de se manifestarem.

E visível neste conflito entre freiras alegadamente maltratadas e o padre Basílio Firmino o que em Direito se chama uma colisão de direitos; não é só no Cosmos que há colisões.

Ou seja, a colisão entre o direito dos cidadãos de se manifestarem e o direito do exercício de culto que no entender da Diocese foi desrespeitado.

Esta colisão de direitos em que ambos os conflituantes se sentem protegidos legalmente vai ser apreciada no MP.

 De todos os modos, a Diocese invoca a falta de tino das freiras e dos manifestantes. E ao enveredar pela via do tino fica-se com a ideia que não é de bom tino abespinhar-se, tanto mais que as freiras são religiosas reparadoras do Sagrado Coração de Jesus, sendo igualmente religiosos o padre e o bispo, gente a quem se impõe ter tino.

Quanto ao artigo 251 do Código Penal haja tino e deixem-no lá estar, que está muito bem e chamá-lo não havia necessidade a fim de reparar as desavenças entre religiosos e seus paroquianos. Ite, dita missa est.

https://www.publico.pt/2021/08/23/opiniao/opiniao/freiras-missionarias-bispo-padre-cabochefe-gnr-meda-1974975

Se Ventura não passasse os dias a rezar, o que aconteceria? E em Cabul onde se reza cinco vezes?

Vivo, há largos anos, neste país. Já vi muita coisa. Vivi muito, mesmo muito. De muito pouco me arrependo.

Lembro-me do aparecimento das primeiras bicicletas para mulheres e de preferir ir para o liceu da Póvoa de Varzim numa delas; eram mais lanseiras.

As dos homens impediam as mulheres de as usarem por causa das saias; elas não usavam calças in illo tempore.

Numa homília o padre Amorim da freguesia de Amorim, por sinal um homem bom, mas tão conservador como seco de carnes, amaldiçoou as mulheres por andarem de bicicleta por mostrarem as pernas e beliscava as jovens até ficar a marca por trazerem os braços ao léu. Pelos vistos, Amorim de então, não ficava muito longe da Cabul de hoje.

Um certo dia um par de guardas da GNR, andavam sempre um de cada lado da estrada, abordou um daqueles homens valentes que ia a fumar em cima da bicicleta. Foi mandado parar para mostrar a licença de isqueiro. Foi pancadaria de criar bicho porque o nosso homem tinha pedido lume a outro na taberna do Rupila.

Em Coimbra em 1971 um PIDE apontou-me uma arma e fui parar a Caxias com muitos outros estudantes da Universidade de Coimbra. Fui expulso para Lisboa, só havia Faculdades de Direito em Coimbra e Lisboa.

Participei na revolução e na conquista da Liberdade e da democracia. Ajudei a enterrar o fascismo. Vivi dias e noites como se dia e noite não fossem separadores do tempo.

Assisti ao nascimento do meu filho Pedro e lembro de ter escoado as lágrimas quando virou a cabeça e lhe vi a cara, chorava; pura magia.

Assisti à implosão do chamado socialismo real desvirtuador do ideal socialista/comunista e sem que ninguém naqueles países o tivesse defendido. Nem a chamada pomposamente ditadura do proletariado foi capaz de o fazer, mesmo ditatorialmente. A gangrena impediu-o.

Assisti comovido à libertação de Nelson Mandela, esse gigante da vontade humana, qualquer que seja o rumo entretanto escolhido pelo ANC.

Assisti aos horrores das guerras da Jugoslávia, do Iraque e do Afeganistão. Os resultados estão à vista e o rosário das impiedades.

Vi, no início do milénio, em Nagasaki e Hiroshima mesmo todos os anos passados, a loucura humana. Não estou seguro de que a cruel ambição não possa ampliar, por muitos milhares de vezes, a barbárie nuclear. E é chocante a indiferença humana face a esta corrida armamentista. Ou pelo descalabro climático a que o nosso Planeta está a ser conduzido. Que é esse isso comparado com a marquise de Cristiano Ronaldo no cimo do prédio mais caro de Lisboa? Ou as férias da senhora da Malveira?

Mas o mundo não para de surpreender. O Chega de Vila Real quando soube que o seu líder estava infetado com Covid-19 e não se vacinara, achou muito bem porque os enfermeiros e pessoal da saúde do governo de António Costa certamente o injetariam com veneno, bastaria reconhecê-lo no local da vacinação.

 Segundo o post do Facebook do Chega de Vila Real (não desmentido) …”A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o Chega”…  Que grande combate entre André e a China com a “Nossa Senhora de Fátima” a desequilibrar.

Mas se repararmos o post da Distrital de Vila Real recomenda “… aos militantes do CHEGA que não se identifiquem como tal quando vão tomar a vacina. Incomodamos muita gente e vão fazer de tudo para nos parar. Tomem cautela. O André já nos enviou uma mensagem de WhatsApp a garantir que está tudo bem e que tem passado o dia a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet…” Mas será que em Vila Real, aos que se vão vacinar, se pergunta se são do Chega?

Há, no entanto, uma certeza – André está a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet. E nos Açores já faz parte da solução governativa regional, acrescento, graças a Rui Rio.

Nestes dias de ira totalitária disfarçada de alguma candura, os taliban já mandam no Afeganistão e irão impor ao país que se reze cinco vezes. André, segundo o Facebook do Chega de Vila Real, reza todo o dia. Amen.

https://www.publico.pt/2021/08/17/politica/opiniao/ventura-nao-passasse-dia-rezar-aconteceria-cabul-onde-reza-apenas-cinco-vezes-1974363

SE MESSI VIER PARA PORTUGLA JÁ PODE TIRAR O CARTÃO DE CIDADÃO NO ALANDROAL

Portugal deixou há cerca de um mês e meio a Presidência da União Europeia, a União mais avançada do Planeta, diz-se.

No próximo mês de novembro, Lisboa vai ser capital do Web Summit. São aguardadas mil comunicações e participarão mil duzentas e cinquenta start-ups.

No solo de Marte máquinas estadunidenses e chinesas escabulham o solo daquele Planeta.

Os multibilionários da Terra dão passeios aeronáuticos fora da gravidade e voltam.

No Alandroal, na Conservatória do Registo Civil, enquanto aguardava pela emissão de certidões de óbito e nascimento que não podiam ser obtidas online, um casal e dois filhos esbaforidos aguardavam a sua vez para tratar do cartão de cidadão. Tinham saído de Lisboa muito cedo para chegar a tempo de tratar dos cartões, pois em Lisboa não havia vaga em qualquer conservatória.

E como também precisavam de obter os passaportes dos filhos iam de escantilhão do Alandroal para o Entroncamento para tratar dos respetivos documentos, embora morassem em Lisboa. Percorreram mais de duzentos quilómetros e continuariam a volta a meio Portugal para o Entroncamento, mais cerca de cento e oitenta quilómetros e regresso a Lisboa mais cento e vinte.

Enquanto os robôs escavavam o solo de Marte, este casal gastou doze horas porque em todas as Conservatórias em redor de Lisboa até um raio de mais de cem quilómetros não aceitavam o encargo.

A mim já me sucedera com o pedido do registo criminal no ano passado. Impossível obtê-lo em tempo útil. Consegui- o no Tribunal de Redondo a cento e oitenta quilómetros de Lisboa.

Os governos de Portugal deviam ter mais humildade e em vez de proclamar grandes avanços de modernidade serem capazes do mínimo dos mínimos – assegurar aos cidadãos a obtenção e renovação do cartão de cidadão.

A causa desta situação tem a ver com a míngua imposta à função pública impedindo a entrada de novos funcionários para substituir os que saem.

Um país que não é capaz de assegurar este mínimo dos mínimos não cativa os seus cidadãos, antes lhes causa raiva face à impotência de obter documentos absolutamente indispensáveis em pleno século vinte e um.

Como o país fugiu para o litoral, os serviços tendo menos funcionários implodem e não é tida em conta a nova situação.

Há nesta realidade algo de doloroso. Só que essa realidade impõe que se não desista e em vez de os cidadãos se atirarem aos seus compatriotas dos Serviços, deviam com toda a prontidão exigir o cumprimento dos deveres do Estado.

Será que a tal bazuca contempla o reforço destes Serviços para que os meios disponíveis sejam bem empregues e respondam a necessidades tão prementes como esta ou Bruxelas não deixa porque segundo a sua bitola ainda há funcionários públicos a mais?

No Cosmos, em Marte, máquinas comandadas da Terra prosseguem as suas pesquisas. Lisboa incapaz de renovar cartões de cidadão vai receber o Web Summit. Finalmente é conhecido o destino de Messi e os media respiraram de alívio, não fosse ele ficar sem cartão de cidadão.

https://www.publico.pt/2021/08/12/opiniao/opiniao/messi-vier-portugal-ja-tirar-cartao-cidadao-alandroal-1973933

Depois do Iraque segue a tragédia no Afeganistão. Messi no PSG.

Garantiram ao mundo, mesmo violando da forma mais grosseira o direito internacional no caso do Iraque, que a guerra era o melhor meio para impedir aquele país de usar as armas de destruição maciça que afinal não tinha.

Os traficantes da manipulação, incluindo Barroso e Portas, viram o que não existia, tal o grau de perversão das personagens.

Depois veio o Afeganistão invadido com o apoio Ocidental para edificar um regime democrático e mandar os taliban para o Inferno. Foi o que prometeram.

Centenas de milhares de mortos. Dois países destruídos. Miséria. Fome. Desgraças. Tudo por causa do Império e dos seus ordenanças.

Agora os EUA vão fugir do Afeganistão e regressarão em força os fascistas teocráticos apoiados pelo Paquistão e sabe-se lá quem mais.

Os EUA deixam nas mãos dos carrascos aqueles a quem garantiram proteção. Que se defendam, disse Biden. Só não disse com o que se podiam defender.

O povo afegão viverá mais uma tragédia. O mundo virará a cara. Leonel Messi está no PSG.

O vazio de Marcelo

Marcelo anda muito preocupado com o vazio político. Quer uma alternativa ao atual governo. E como não a vê, anda à procura.

As funções presidenciais não têm nada de vazio. Estão elencadas e são fundamentalmente aquelas que constam nos artigos 133 a 135 da CRP. Os legisladores constituintes encheram as funções, não resultando qualquer encargo que passe por andar a preencher o que está vazio.

Neste tempo doloroso causado por uma pandemia que teima em manter-se, é uma agonia o prato vazio de dezenas de milhar de portugueses. É um duplo vazio, as ausências de comida e da dignidade.

Vazio está o sonho de centenas de milhar de portugueses de terem uma vida decente para si e a sua família.

Vazio está ainda o sentido de vida, pois aumentaram em muito os pobres e os que já eram muitíssimo ricos ficaram ainda mais. A crise que o país vive lançou muitos milhares no desespero e umas poucas dezenas a encherem-se de riqueza, à custa dos que trabalham duro ou dos próprios pobres.

Mais vazio está o país de gente que nas aldeias, vilas e cidades a partir de uns trinta ou quarenta quilómetros do litoral, pois os seus naturais não têm onde poder ganhar a vida e fogem da terra onde nasceram, sem que ninguém apresente uma mão de propostas para que o esvaziamento cesse. 

Há um vazio abismal de gente na maior parte do território nacional. É um vazio não só no sentido patriótico e estratégico, mas até de solidariedade nacional. O que custaria encontrar um programa mínimo a subscrever por todos os partidos, associações sindicais, patronais e demais interessados? Há alguém que queira o país vazio de gente no interior?

A esperança que vinha dando sentido às novas gerações de poderem viver melhor que a de seus progenitores esvaziou-se. Amargamente a juventude não sabe como vai ser o futuro. O devir está vazio; não só o de encontrar uma profissão digna, mas em boa medida vazia está a esperança de lutar pelo sonho. Alguém é capaz de achar que tem sentido uma vida vazia de um sonho de viver melhor? Verdadeiramente inquietante – este sonho de viver melhor já não cabe na economia, cabe o défice e pouco mais. Já não são precisos economistas, bastam capatazes.

A vida não pode ser uma soma de vazios. Tem de haver a dignidade que a preencha e que faça que todos se sintam esperançados em que o futuro não seja essa soma.

Pois bem, apesar de muitas fragilidades deste governo, o vazio que há à direita tem a ver com o próprio vacuidade desse campo. Que têm a propor?

 A direita, até ao momento, não apresenta ideias em que os portugueses se revejam. E não se revendo, deixam esses partidos sem o apoio necessário para governarem. Esse é o seu drama e não do país. Marcelo sofre de dores por tal vazio, mas isso deve-se ao facto de passar de PR a comentador.

Passos tinha o empobrecimento e logrou empobrecer os remediados e os pobres. E Rio? Alguém conhece as propostas do PSD?

Dentro do próprio PSD fala-se do regresso de Passos. Um certo crescimento da IL e do Chega à sua direita deixa-o como o tolo em cima da ponte, sem rumo.

O CDS tenta fazer prova de vida dado o vazio em que caiu com o surgimento da IL e do Chega.

A direita está entalada entre o seu deserto de ideias e o Chega cuja ideia máxima é convocar e gritar contra o que chama de vergonha.

 Parece haver nos portugueses um grau de imunidade significativa contra esse vazio, e uma certa sabedoria de experiência feita – isto não está bem, mas para pior já basta assim.

O vazio de Marcelo | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)