Homo sapiens ou homo demens?  

A esquizofrenia da guerra.

Cada geração vive a seu modo o seu tempo. Tive a suprema felicidade de participar vitoriosamente na luta pelo derrube da ditadura fascista e de assistir à vitória dos povos submetidos ao colonialismo português; assisti a mudanças quase inimagináveis no mundo, a implosão do socialismo na URSS e logo de seguida a libertação de um gigante que deu pelo nome de Mandela.

Outros acontecimentos de um significado relevante foram destruindo o velho mundo e criando bases de um novo onde paradoxalmente  a força está a ser o único critério para avaliar as condutas, tal como aconteceu na guerra da Jugoslávia, na invasão do Iraque, na destruição do Iémen e agora a invasão da Ucrânia.

Vivi o sonho e vivo o pesadelo de um mundo que ganha as novas gerações para a ideia da competição à outrance, como se em substituição do homo sapiens fosse gerado o homo demens na linguagem clarividente de Edgar Morin.

Um mundo quase esquizofrénico tão assustador cujos governos aplaudiram a invasão do Iraque e agora se levantam em armas contra a invasão da Rússia para proteger um governo de corruptos a começar no seu Presidente apanhado nos Panama Papers e a acabar numa entourage de oligarcas oriundos da mesma cepa que domina em Moscovo.

Um mundo incapaz de dar comida e água a mais de metade do mundo e em que um por cento das pessoas têm quase metade de todos os rendimentos do Planeta. É este o mundo que o chefe do Vaticano denuncia no livro Fratelli Tutti, mas que os crentes católicos deitam os olhos ao chão e fazem de conta que não veem e não ouvem.

Não é decifrável para onde caminhamos com a invasão da Ucrânia, a escalada suicida decorrente da estúpida necessidade da Ucrânia/OTAN e Rússia de afirmarem que irão vencer o conflito.

O homo sapiens afirma-se como homo demens na feliz expressão de Edgar Morin. Sem dúvida, o mundo encontra-se à beira de um abismo a todos os níveis e que a falta de coragem para enfrentar o desafio faz com que a Humanidade anda a toque de caixa de um conjunto de dirigentes alheios ao destino dos humanos e do próprio Planeta.  

No novo milénio, onde estamos, a força não pode ser o critério para regular as relações entre Estados e nações.

Não se pode aceitar a invasão iraquiana e ao mesmo tempo desencadear um conjunto brutal de sanções conta a Rússia que por sua vez estão a transformar a vida dos que trabalhadores num inferno devido ao aumento do preço dos combustíveis, eletricidade e gás.

Não se pode aceitar a anexação dos Montes Golan da Síria e repudiar a anexação dos territórios ucranianos de larga maioria russófonos. O direito internacional não é uma linha que se torce em função dos interesses de cada um, ou seja, os crimes do imperialismo dos EUA/OTAN são para apoiar e os da Rússia são para escalar até à beira de uma guerra mundial.

A UE e os EUA não estão a combater pela democracia na Ucrânia pela simples razão de a Ucrânia não cumpre os requisitos de um regime democrático, sendo os seus oligarcas tão corruptos como os da Rússia.

O que o imperialismo estadunidense aliado ao imperialismo europeu estão a fazer é aproveitar a invasão russa para tentar derrotar a Rússia e apoderar-se das riquezas da Eurásia, região decisiva para o futuro mundial.

A invasão da Ucrânia insere-se numa resposta imperialista a ou outro tipo de política imperialista conduzida pelos EUA/OTAN para o domínio dos países que antes faziam parte da URSS fazendo-os entrar na sua área de influência, mesmo contrariando os acordos celebrados aquando da implosão da URSS.

O que espanta é a quase total ausência de vozes (exceção feita ao Papa Francisco) para lançar propostas no sentido de encontrar uma solução política que permita à Ucrânia, à Rússia e ao conjunto da Europa encontrar políticas de segurança que satisfaçam a todas as nações e povos do continente. Já não há na Europa quem se atenha à defesa da paz? Os que defendem a paz rendem-se à propaganda de guerra dos que afirmam que vão vencer porque a Rússia não tem combustível para os tanques ou armas capazes de se baterem com as da OTAN? Ou são incapazes comparados com aqueles que fugiram a sete pés do Afeganistão não há muito tempo?

A UE pode prescindir do gás russo, mas vai ter de o ir buscar a algum sítio, perde a UE e a Rússia e fácil é ver o quanto ganham os EUA.

A ideia defendida por Biden e os vassalos da UE de que a solução para o conflito é militar é próprio de gente irresponsável a raiar o homo demens, a decadência de uma civilização incapazes de encarar o futuro onde todos os povos possam coexistir com as suas aspirações próprias que não têm de ser as mesmas, pois a Humanidade será sempre diversa sob pena de perecer.

Não se pode aceitar a invasão da Ucrânia, que tem de ser condenada. Uma vez que aconteceu ou se negoceia uma solução ou se escala a guerra (que neste momento é cada vez mais uma guerra da OTAN com os ucranianos a servirem de carne para canhão) para patamares cada vez mais elevados e que a continuarem nestes moldes acabarão por envolver a Europa direta ou indiretamente e a forte possibilidade de utilização de armamento nuclear tático, o que será o passo diabólico para outro patamar.

Cada um deve assumir as responsabilidades e responder a esta questão: já não é possível uma solução política ou ainda é?

Isto significa que cada governo em vez de seguir o capataz da manada deve pensar pela sua própria cabeça e saber se o melhor para cada país europeu é uma solução pacífica, mesmo não sendo a melhor e eventualmente mais justa ou escorregar para o abismo?

O que a Humanidade tem de melhor- jovens, mulheres e homens lúcidos e justos- não se devem deixar encurralar na lógica de guerra e ficar atrelado a esse carro; é preciso que a justiça encaixe na racionalidade e se assuma que um acordo é mil vezes melhor que uma vitória sobre escombros de um conjunto de países ou continente(s).

E a defesa deste ponto de vista não visa absolver a condenação da brutalidade da invasão russa; visa antes de tudo que não entremos por um túnel de onde já seja impossível sair.

Aos que apregoam a vitória seja de um lado, seja de outro, a melhor arma é a não entrar nessa escalada e antes que seja tarde e permitir ao cabo destas dezenas de milhares de anos que o homo demens prevaleça sobre o homo sapiens que um pouco por toda a Europa está a levantar a cabeça e a ressuscitar os diabólicos propósitos do fascismo.

A sustentável leveza do documentário de Sofia Pinto Coelho

Um documentário é algo relativo a documentos ou a situações vividas e que são relatadas a partir de elementos verosímeis do ponto de vista da estrutura do que é narrado.

Sofia Pinto Coelho a partir de um conjunto de elementos ou dados da vida de um homem e do seu relacionamento propõe-nos na linguagem cinematográfica dar-nos a sua visão de uma parte da vida de Daniel, cidadão mulato nascido em Cabo-Verde que vem estudar em Portugal e vai como como técnico agrícola trabalhar em S. Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau.

O que nos revela através da sua câmara prende-nos e essa é a primeira virtude do Daniel e Daniela.

Desde o início que Daniel é uma personagem – a pose, a eloquência, a vida , o relacionamento com a filha Daniela, a gravitas ou a leveza do que diz vão enchendo o documentário e “agarrando” o espectador.

Parece que Sofia Pinto Coelho pretendeu através de Daniel e Daniela revelar um documento escorreito da personagem e de tudo o que a rodeou e que não foi pouco – a luta de libertação dos povos das ex-colónias portuguesas na sua grandeza e nas suas misérias.

Daniel dá-nos a visão dele e de algum modo o distanciamento de sua filha em relação a esse mundo; em diversos diálogos entre as duas personagens é visível quão são diferentes os dois mundos ligados por um amor incontornável entre aquele pai e aquela filha e até na passagem pela Guiné-Bissau entre a mãe e a filha Daniela.

As viagens por Cabo-Verde, S. Tomé e Guiné-Bissau numa espécie de peregrinação para que a fila mulata saiba de onde veio tem o seu quê de divertido e até uma certa leveza, mas isso é a força do documentário. Daniela desarma o pai quando este do pedestal de um homem “sábio” não compreende o mundo dos jovens como o da sua filha tão distante do mundo da sua juventude. Ela “só” quer ser médica, enquanto Daniel sonha com outros voos para Daniela.

Sofia maneja a câmara de modo a proporcionar-nos o melhor dos diálogos e a beleza daqueles países africanos, desde logo os vários crepúsculos desde o equador aos trópicos e a luxuria verde de S.Tomé, a paisagem lunar de Cabo-Verde , as suas estradas inóspitas e há um momento em que nos consegue pôr a viajar dentro da Hyace que sobe os pequenos planaltos do país.

O que nos queria contar contou e coloca-se a vela questão da arte – e o modo como contou fez-nos pensar no tempo, no fim do documentário ou manteve-nos amarrados ao que se passava no ecrã?

A mim manteve-me preso ao que ia mostrando. Desde o tempo brutal do colonialismo, ao da libertação, ao dos erros do processo e ao tempo de um homem que viveu com toda a força e nos mostrou como vive entre muitas outras coisas com a sua filha Daniela.

Ele amante de livros, possuidor de uma biblioteca extraordinária, é obrigado a descer â terra e dar conta que os eu amor pelos livros não diz grande coisa à filha, mas o seu amor e o dela estão para além disso, é a vida de um a acabar e a de outra no seu esplendor. Quando Daniel deu o nome à sua filha Daniela talvez desde esse momento se escrevesse o amor que os haveria de marcar como nos conta o documentário.

Isto vale um documentário? Não há receituários acerca das complexidades daquilo que é o mais simples, a vida.

Não é preciso peso para que um documentário seja um exemplar da boa arte cinematográfica. A leveza das pessoas e das coisas é uma arte.

A RÃ E O ESCORPIÃO

No tempo em que os animais falavam aconteciam coisas extraordinárias como aquela em que um escorpião pediu à rã para atravessar o rio nas suas costas e, como se sabe, contou mais tarde o escorpião muito falador, acabou por picá-la. C`est la vie, dir-se-á em tempos de salve-se quem puder, coitadinhos dos que não têm ferrão.

António Costa em 2015 alegou que era necessário um tempo novo. Durante o seu primeiro governo não se pode, em abono da verdade, falar de um tempo novo, mas foi possível vislumbrar o que seria um tempo novo, ou seja, um tempo diferente daquele PS/PSD/CDS nos habituaram, um tempo de repartição de sinecuras entre os destinatários da governança e de apoio à gente do dinheiro que se declaram a favor de um Estado mínimo, mas com o máximo de apoios públicos aos seus empreendimentos.

 Um tempo novo seria o de atenção para com os mais desfavorecidos, de lisura, de transparência, de honradez em vez de cupidez e corrupção, de palavra respeitada face à palavra dada. Como se sabe, esse tempo anunciado finou; outro veio em que a estabilidade era o tudo para permitir a Costa prosseguir o caminho da bazuca.

Não é preciso os animais falarem para dar conta que a maioria absoluta traz cada dia novas instabilidades e o regresso à pior matriz do PS a mandar “nisto tudo” e sem travões na AR. O PS do tempo velho está de regresso, até na Saúde.

O empobrecimento dos portugueses levado a cabo por Passos/Portas/Montenegro quando formaram governo volta ao quotidiano dos portugueses que vivem muito pior desde que o PS passou a governar só.

 Agora com a bênção de Marcelo e o seu elogio ao líder do PSD que ele quer ver a Primeiro-Ministro, segundo a revelação na famosa viagem a caminho de Viseu ao volante e sem azinheiras para configurar uma revelação quase divina.

As medidas anunciadas com toda a pompa a fim de enganar os papalvos vão exatamente em sentido contrário ao anunciado. Em outubro, os portugueses receberão mais 125 € e a partir daquela data é só empobrecer, pois até a palavra dada é desrespeitada e não haverá a atualização das pensões de acordo com a taxa de inflação.

 Lampeiro Marcelo o que disse? Que estava bem, mas que podia não estar e quem tinha estado bem era o líder do PSD, que também acha que sim, mas que não, devido às duas caras do feijão careto ou frade, conforme as terras.

Sempre que o PS governa em maioria absoluta ou similar as questões essenciais como o Ensino e Educação, Saúde, Segurança Social e Justiça esbarram com interesses privados que encontram na direção do PS uma tendência para lhes satisfazer os apetites, em claro contraste com a tendência para tornar a vida dos que vivem do rendimento do trabalho mais difícil. Até hoje foi sempre assim, salvo quando houve a geringonça.

O PS fechou-se ao clamor dos trabalhadores dos mais diversos ramos da produção tanto material como espiritual. Segue o tempo velho que levou ao desastre o Partido Trabalhista no Reino Unido e o PS francês e os PPSS da Internacional Socialista.

Lamentavelmente para António Costa é mais importante o poder dos mercados financeiros, sem qualquer escrutínio, que as aspirações legítimas dos seus eleitores, originando cá, como em toda a Europa, a mesma política do garrote, a crise de distanciamento das populações das instituições que na sua lógica os esmagam com uma vida cada vez mais difícil, num país onde mais de um terço da população é pobre e os muito ricos cada vez mais ricos. Este é o programa dos social-democratas ou dos liberais?

Os entusiastas da desregulamentação do mercado energético na U.E. (comandados à distância por certos interesses dos EUA) obrigam os povos da União a sacrifícios brutais em contraste com os lucros sem medida das empresas que dominam o mercado. Nem aqui o PS assume a coragem de taxar lucros desmedidos.

No vértice do Estado à vista desarmado tudo parece beijinhos e abracinhos, pois. Claro porque agora os animais falam muito pouco, mesmo nada, estão sem língua.  Se falassem contariam a história de um líder do PS que era Primeiro-Ministro e que por mero acaso se encontrou na Autoeuropa com o Marcelo que estava hesitante se havia de se candidatar a PR e dizem os sapos que assistiram que ficou combinado o PS levar às costas Marcelo ao altar de Belém. O resto perguntem ao escorpião, se ele falar.

Luto pelo luto e não luto pelo luto, mas pela amizade

Portugal está de luto, declarou o governo da República portuguesa implantada vai fazer 112 anos no próximo dia 5 de outubro que Passos/Montenegro/Portas aboliram como feriado nacional. Costa justamente repô-lo.

A Rainha do Reino Unido foi tão só a mulher que teve o privilégio de ter nascido naquela família e seria sempre rainha até ao fim da vida, mesmo se estalassem escândalos maiores que os do filho Carlos a propósito de Camilla Parker, o que agora é, apenas por ser filho da rainha, Carlos III.

A família real inglesa com os seus muitos milhões de libras não paga impostos e tem a sua riqueza protegida por sigilo.

O interessante é que muitos dos nossos liberais e direitolas altamente preocupados com as gorduras do Estado não se preocupam com estas magruras.

Voltando ao luto, não é conhecida qualquer passo, iniciativa ou contributo a favor de Portugal por parte de Sua Majestade falecida e apesar disso o governo da República decretou três, três, 3 dias de luto.

 O Reino Unido é o nosso mais velho aliado, salvo quando fez de Portugal um protetorado na altura em que D. João VI fugiu para o Brasil.

Ficou célebre a iniciativa do general Beresford (o sátrapa que mandava em Portugal durante as invasões francesas) de mandar executar o grande patriota, o general Gomes Freire de Andrade, a quem foi cortada a cabeça e o corpo queimado espalhado, por ser liberal no tempo do absolutismo.

Ficou célebre o Ultimatum inglês a propósito do Mapa cor de Rosa em 1890 na África Austral que foi de tal forma violenta que os sargentos do Porto se ergueram em 31 de janeiro de 1891 contra a traição da Côrte e pela República.

O tratado de Methuen é outro exemplo da vocação do nosso aliado para impor fardos insuportáveis.

Morreu a rainha do Reino Unido e o seu filho Carlos virou rei, como é do conhecimento público. O soberano inglês vai ter de despedir cem funcionários da sua Casa Real. Cem. E vai continuar a exigir que os seus criados andem atrás ou à frente de si a retirar tudo o que o possa estorvar como uma esferográfica BIC ou uma toalha desconhecida; deve ser por seguir os preceitos homeopáticos de que é entusiasta, pois para ele o Iluminismo deu cabo disto tudo, pois deu, pelos vistos no Reino Unido ainda não.

A Inglaterra está perdoada; no último século em Liverpool foi criada a banda musical The Beatles.

Se os ingleses e escoceses e galeses e irlandeses gostam da monarquia pois que fiquem bem com a casa real e todas as princesas, príncipes, duquesas e duques. Há 112 anos resolvemos o assunto.

Estamos de luto pelo luto de um país que adora o penacho e nós o dos outros.  Resta ressalvar que apesar dos britânicos terem aquele desvelo pela monarquia a prisão de manifestantes que defendiam a República envergonha o Reino.

Que fique a amizade entre o povo português e os povos do Reino Unido.

Bolsonaro- o imbroxável fóssil

O que Bolsonaro fez a MRS revela na plenitude a desfaçatez do cara. Na frente dos dois Presidentes foi colocado um cartaz com a bandeira do Brasil com a inscrições – Brasil sem abortos, Brasil sem drogas. Naturalmente que o cartaz não apareceu ali por mero acaso.

Há quem defenda que MRS devia permanecer com aquele cartaz insultuoso à República portuguesa onde o aborto é permitido e as drogas não têm ligação alguma ao aborto e entre as drogas as diferenças são enormes como J.B. sabe.

Em minha opinião, MRS devia ter dito ao Presidente brasileiro que ou saía o cartaz ou saía ele. MRS representava naquela cerimónia o Portugal democrático.

MRS foi participar no bicentenário das comemorações da independência do Brasil e não num comício eleitoral de Bolsonaro servindo-se da data um autoelogio próprio de um fóssil.

Só um obstinado vendedor da banha de cobra se lembraria naquela ocasião de falar das suas autoproclamadas faculdades, dando a noção do que é o Brasil para aquele homem que nasceu no tempo da ditadura militar e que lá tem o seu coração vivo; tendo embalsamada a alma de democrata, mas ao menor descuido o verniz quebra e aparece o fóssil.

Bolsonaro já tinha deixado MRS sem um almoço combinado, agora atraiu-o à teia urdida por um personagem primário que encurralou no seu labirinto o inteligente MRS. Foi pena que MRS não pusesse na ordem o homem que fossilizou nos predicados da ditadura.

Morreu a rainha do Reino Unido, vem aí um rei

Morreu a rainha do Reino Unido. Reinou quase setenta anos por ter nascida filho da família real e como tal, por inerência, ter em pleno milénio XXI um conjunto de privilégios que custam ao erário público milhões de libras.

Parece que os ingleses e outros povos do Reino Unido gostam da monarquia, ou seja, terem uma família real, mesmo que os escândalos avultem.

Numa sociedade em que cada dia que passa a realidade é cada vez mais dura e a roçar o individualismo selvagem, a existência de uma família real cheia de príncipes, princesas, duques, duquesas, castelos, mordomos e mordomias, os ingleses apreciam este faz de conta e acreditam que tendo estas reais criaturas são detentores de uma História que se prolonga nestes dias em que façam o que façam os governantes a rainha/rei nada tem a ver com isso. Existem apenas para uma espécie de decoração que sai cara ao erário público, mas o povo gosta e, portanto, the show must go on.

Parece que o Reino Unido vai ter um rei, o Carlos, aquele que tem um mordomo que o veste, e que leva a tampa da sanita para que o real cu não seja contaminado por qualquer bactéria de pendor republicano.

Se os ingleses gostam deste cerimonial, pois bem, que se aguentam com aquele olhar de Carlos, sempre à procura de quem lhe diga o caminho.

Morreu a Rainha, paz à sua alma, a Inglaterra vai ter um rei e uma rainha consorte, a famosa Camilla Parker Bowles.

NA MORTE DE GORBATCHOV

Morreu Mikhail Gorbatchov, o líder do PCUS que tentou salvar o socialismo, desencadeando para tanto dois eixos – a perestroika e a glasnost. O socialismo real tinha desembocado num beco sem saída, exaurido economicamente, atolado na guerra do Afeganistão e hipercentralizado com cerca de 50 milhões de membros, contando com a Juventude Comunista, inscritos, na sua imensa maioria por mero interesse de privilégio que assegurava o cartão do PCUS para obter acesso à Universidade ou aos melhores empregos. Para tanto era essencial enclausuras os direitos e as liberdades.

O que Gorbatchov se propôs levar a cabo foi resgatar o ideal socialista/comunista cortando com um regime onde as liberdades democráticas inexistiam e o PCUS era uma vanguarda policial em vez ser uma organização capaz de defender os interesses dos povos da URSS.

Já não foi a tempo. O próprio partido, dominado pelos glutões do dinheiro, ficou mudo e quedo e aconteceu a ascensão do inenarrável Boris Yeltsin, grande figura do Bureau Político, para o comando do partido.

O que fica para a História é a desgraça dum partido que se acomodou, se fechou, e que entregou o poder a uma casta que se comportava como os donos de tudo.

Isto não foi obra de um homem, isto foi o culminar de um afastamento do PCUS dos mais elementares princípios democráticos dirigidos a defender os interesses de todos os povos da URSS. É absolutamente inaceitável que um partido com cinquenta milhões de membros não tenha mobilizado alguns milhares para defender o regime. Os cidadãos já não sentiam como sendo o seu regime, mas apenas o regime das elites que saídas do partido se apropriaram dos fantásticos recursos daquele país; estavam todos no PCUS ou muito próximo.

Naturalmente que o imperialismo jogou o seu papel e venceu. A coexistência pacífica, tão cara a Lenin levou à derrota daquela espécie de “socialismo”.

Ficou uma tragédia em que os EUA e a NATO se sentiram senhores do mundo e numa atitude de revanchismo alargaram as fronteiras da organização até às fronteiras da Rússia.

Em vez de aproveitar a grande oportunidade para encetar um caminho de desnuclearizar e de estabelecer bases para uma cooperação para resolver gravíssimos problemas como a fome e as alterações climáticas, os EUA invadiram o Iraque, atacaram a Jugoslávia, reconheceram a independência do Kosovo e puseram o mundo em estado de insegurança.

A imperdoável invasão da Ucrânia pela Rússia veio mostrar que hoje o mundo assiste a uma competição brutal por certas zonas tidas como estratégicas.

A guerra continua na Europa. Em qualquer momento a situação pode levar ao alargamento dos beligerantes. A UE perdeu uma oportunidade de se impor como força autónoma. Juntou-se a um Presidente dos EUA cujas linhas de força são a corrida aos armamentos e com sérios problemas internos e incapaz de lhes fazer frente.

O mundo está à beira de uma tragédia. E, no entanto, HÁ nos povos uma fuga para fazer de conta e não enfrentar a situação. É compreensível, caíram sonhos, não se vislumbram alternativas; o mundo está muito confuso; há um sentimento de orfandade nas forças que se propõem mudar o sistema.

A verdade é que nunca, como hoje, o socialismo entendido como um sistema democrático com mais direitos e liberdades que o capitalismo faz falta. Socialismo só pode ser paz.

Tudo muda e atualmente a mudança acelerou. Agir como se o mundo fosse o que já foi, não traz nada de novo. Ficar amarrado ao passado que os povos não querem é um grave erro e enfraquece o ideal socialista. O que morreu está morto, acabou, é preciso um novo socialismo.

Os comunistas não podem desistir e deixar de tirar as devidas consequências dos erros, desvios da construção do socialismo e traições ao próprio ideal.

A História não terminou. Vai continuar. É ainda possível aos homens e mulheres continuarem a escrever a sua história.

Os fusíveis de Marcelo ficaram sem o fio de ligação à terra

Marcelo Rebelo de Sousa entrou numa fase da sua vida política cuja característica essencial, utilizando a sua linguagem de eletricista, na sua louca viagem com uma jornalista até Aracataca, perdão Macondo, perdão Viseu, é deixar o diferencial da caixa de segurança sem fio de ligação à terra.

É de crer que nem o Gabriel Garcia Marquez do alto dos Andes colombianos inventaria semelhante viagem, o máximo que conseguiu foi imaginar a viagem de Candida Erêndira e de sua avó desalmada para ver o mar.

Pois Marcelo fê-lo; e agora trocou os poderes dos orgãos de soberania e declarou solenemente o seguinte “…Prefiro uma gestão do SNS mais autónoma e independente do Ministério da Saúde…” depois de ver Marta Temido pelas costas com o seu ligeiríssimo encosto.

Sua Excelência não é de modas, é de atropelos e zás, a cada dia que passa proclama o que o governo deve fazer em nome da tal autonomia que é a sua raiz de ser.

Sua Excelência encontrou-se por mero acaso com o Excelentíssimo líder do PSD em Viana do Castelo porque numa agonia de solidão meteu-se a caminho e ao dobrar da esquina a caminho de Santa Luzia saiu-lhe a a caminho Dom Luís Montenegro.

Sua Excelência foi a Angola ao funeral de J.E.dos Santos dada a sua importância do falecido”…conviveu com todos os presidentes de Portugal…”. Nem o que ia a Santarém. Vejam bem a importância. Mas não se ficou por aqui, saudou o povo irmão angolano e falou do Estado irmão. Partidos irmãos nos objetivos, pode ser. Povos irmanados na mesma luta, pode ser. Estados irmãos, ó Sr. Professor…talvez os islâmicos e mesmo assim…

Sua Excelência que votou contra o SNS na AR, sai agora a terreiro dando as suas instruções a quem o quer ouvir. E lá vai a procissão do PS, a começar pelo destrambelhado coordenador da Comissão de Saúde, a curvar-se diante do homem que tinha o sonho de ser Primeiro-Ministro, que nunca será e agora o de ver Montenegro no cargo.

Este homem que se diz fusível de segurança tirou, ao longo, da sua vida a habilidade de tudo curto circuitar. Aproximam-se incêndios.

Ai Marta, Marta, sedotta e abbandonata

Para nos posicionarmos num dado facto – a demissão de Marta Temido – ajudará dar uma “oftalmológica” (falamos de saúde) pelas tomadas de posições dos vários partidos e dos representantes dos interesses instalados.

Sobressai uma certa euforia dos que sempre a combateram na defesa que ela fez do SNS.

O principal argumento é o caos em que se encontra o SNS devido ao facto de não ter aberta as portas ao setor privado (como se elas estivessem fechadas, escondendo que o pretendido é lapardar nos recursos públicos).

O mal é a rigidez ideológica, vejam bem, um SNS capaz de responder aos problemas da população e apoiado por um financiamento que o sustente. É esta rigidez segundo esta estirpe que o levou à atual situação e consequente demissão.

Nesta altura de enfrentamento enviesado a ministra precisava que quem a convidou para o lugar a não deixasse a navegar sem energia para o percurso.

 É conhecida a determinação de Costa em defender ministros quando quer estejam eles ou elas envoltos nas mais variadas polémicas.

Pelos vistos Costa não foi capaz de defender a camarada que colocou há pouco tempo na mesa do Congresso dos seus eleitos para o substituir.

Marcelo, que gostou de se encostar a Marta quando era glamoroso, esfrega as mãos, de acordo com o seu voto contra o SNS.

Mas verdadeiramente espantosa é a declaração do coordenador de uma Comissão do PS para a Saúde(?) a sublinhar que Marta Temido já se devia ter demitido em março. Fantástica solidariedade da comissão do partido que a escolheu para ministra.

Como sempre, o tempo dirá se Costa deu um tiro nos pés e se deixou enternecer pela bondade dos privados em ajudar a resolver a grave situação do SNS.

 Ou se a Comissão de Saúde do PS há muito tinha mandado às urtigas a ministra. E, melhor que ninguém, ele conhece o PS.

 Costa já nos habituara a defender à outrance alguns ministros. Deixa ao Deus dará cair a ministra. Ai Marta, Marta, quem havia de dizer.