Homenagem a duas vidas vivas na casa do Alentejo

DOIS BRAVOS DO PELOTÃO

Dizer algumas palavras sobre o Paulo e o Fernando seria dizer apenas duas e estava tudo dito – dois bravos. Porém, em vez destas duas escrevi 939.

Nasceram no começo da segunda guerra mundial; quando entraram na escola terminara há dois anos, passados alguns começava a guerra colonial, tinham vinte anos.

O nazi/fascismo fora derrotado, mas, em Portugal e na Espanha, cada regime à sua maneira, mantinha-se à custa do medo e do terror.

Tempos brutais, próprios para incorrigiveis resistentes. Tempo fechado dentro do tempo. Envenenado.  Tempo de bravura, de ter nas mãos a força para ajudar a abrir o tempo de Abril.

E ambos pegando na candeia que alumiava o rumo assumiram a coragem de lutar.

No percurso do Fernando e do Paulo não há faltas às batalhas. Presente, disseram eles.

São da fornada de homens e de mulheres que fizeram de Portugal um palco de esperança acontecida. Derrubamos o fascismo. Acabamos com a guerra.

Trazem a alma e as mãos limpas no sentido de se terem colocado no fio da navalha e de não temer a fronteira entre a coragem e a desistência. Conhecemo-nos demasiado bem e, muitas vezes, esse facto faz-nos desvalorizar o empenho de décadas à causa da liberdade, da democracia e do socialismo de muitos que aqui estão e de outros que aqui podiam estar.

Evoco a coragem do Fernando que foi preso pelos esbirros da PIDE para sofrer 19 noites de tortura do sono. Tornou-se símbolo na resistência de então. Quando saiu de Caxias o mundo era pequeno para ele. 

Não se trata de parar o tempo ou de viver como se o passado fosse presente. É preciso que a memória seja memória para que seja sempre só memória.

 Sei que o tempo é de outro molde, mas sabemos todos os que estamos aqui que em política as sementeiras se colhem, mesmo que tardiamente.

O Paulo e o Fernando atravessaram metade do século passado, desde que tiveram consciência da sua cidadania e todos estes anos ao lado das lutas por um Portugal e um mundo melhores.

Militantes e dirigentes que foram do Partido Comunista Português levaram a sua força e a sua experiência e trouxeram a confiança que só aquele partido, naquele tempo histórico, podia dar.

Um, construtor da Festa do Avante desde o primeiro minuto, quando a Festa era magia, arte, e política no melhor sentido do termo; nesse tempo até os adversários gostariam de ser como nós.

Saíram do PCP para poderem continuar a ser o que sempre foram – comunistas. Não foram, tal como muitos de nós, folhas secas que o vento fez tombar. Há comunismo para além do PCP, do carreirismo, do verbalismo radicalista de uma orientação desprovida de futuro.

O Paulo na sua nobre profissão de professor, prestigiado dirigente sindical, tendo sido fundador do SPGL e da FENPROF e eleito Secretário-Geral desta última Federação e membro da Comissão Executiva da CGTP.

Mas foi mais, um homem de cultura, aliás dois homens de cultura. O Paulo poeta e ensaísta. Quantos livros apresentou o Paulo? Quando se cansará de escrever sobre livros? Quantos artigos sobre literatura escreveu? Com quantos escritores e cantores conviveu e ouviu dúvidas e complexidades acerca do refinado laboratório que é a escrita.

Há quase trinta anos membro do Conselho Nacional da Educação, traz no rasto da sua vida uma ligação à vida associativa cultural e humanista, como foi a ligação aos Bombeiros de Águeda e ao Orfeão de Águeda como Presidente da AG de ambos. Um ativismo sindical, político, humanista, recreativo e artístico.

E o Fernando, o engenheiro, à frente de espaços livreiros onde artes diversas foram acarinhadas e impulsionadas e editando livros de enorme qualidade que o situacionismo financeiro não pegava?  E promovendo com o seu companheiro de armas, o Zé Tavares, não só a literatura, mas também promovendo exposições de pintura e fotografia. E abrindo o espaço a debates onde participaram dezenas de intelectuais e ativistas.

Um país cujos jornais não têm suplementos literários não é bem um país, é uma espécie de desgraça incapaz de assegurar para que os seus criadores sejam valorizados e promovidos. Em vez de promover a cultura, os media, em geral, optam pelo vulgarismo primário, convidativo a fazer dos cidadãos basbaques, meros consumidores de reallity shows.

O Fernando no seu labor de formiga, contra a corrente, foi acendendo luzes de cultura, remando contra a corrente, sem desfalecer, mesmo quando todos nós porventura nem sempre soubemos dar o devido valor.

O Paulo sempre, sempre disponível para ler e reler os trabalhos que vão pedindo e as opiniões chegam sempre a tempo. De tal modo que em termos jurídicos o costume ganhou consistência de lei.  Por isso, a espera pelos livros dele, Paulo, se nos impacienta.  

É difícil num tempo de basbaqueira criar cidadãos ativos comprometidos com projetos de cultura. Em volta reluz o vil metal. Vende-se o que dá na televisão. O que dá na televisão dá fama e esta é dinheiro em caixa e daí a luta pelas audiências a anestesiar os seres humanos cansados de tanta injustiça e incapazes momentaneamente de fazer do seu casulo o casulo da História e mudar o rumo da vida.

Esta geração que, no Paulo e no Fernando, saudamos aqui está para nos dizer que as coisas não são como parecem e há sempre um tempo para o tempo; o tempo da mudança virá. O nosso maior escritor, Luís de Camões, já o dizia, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, todo o mundo é composto de mudanças.

Acresce que, para além de tudo o mais, são dois excelentes amigos. Dois bravos do pelotão. Bem hajam.  Esperemos pelos noventa.

Rangel, o durão, na versão de Andrea Bocelli Quizás, Quizás, Quizás

Paulo Rangel entrou a todo o gás na campanha para líder do PSD. NA sua linguagem contundente encostou Rui Rio ao PS. Advertiu que com ele manda o PSD ou o PS. Dando guarida aos críticos internos de Rio apontou as baterias ao PS e a Rio por ser complacente com o PS, o que ele não admite.

 Por estas ruas e veredas se vai espraiando Rangel naquela sua imagem dorida de quem carrega aos ombros um mundo de cargas pesadas.

Na entrevista ao Pública de sábado Rangel depois de todo o aranzel acerca das virtudes da sua candidatura e da moleza de Rio largou esta espantosa e duríssima ideia de combate ao PS: PSD e PS devem fixar para sempre o número de ministérios e até (valente) o nome de cada qual.

Há que concordar que é um achado. Imagina-se Miguel Poiares Maduro, seu trunfo eleitoral, à mesa com o mandatário do aggiornamento do PS, talvez o ex-líder da JS, o Sr. Sousa, a tratar do número de ministros e dos nomes dos ministérios e talvez com este ímpeto o próprio nome dos respetivos ministros. E surge a luminosa voz de Andrea Bocelli na sua interpretação de Quizás

Siemppre que te pregunto

Que cuándo, como y donde,

Tu sempre me respondes

Quizás, quizás, quizás

O fato e a gravata do sr. engenheiro Santos

Uma das grandes diferenças entre Portugal e a Sérvia no jogo de domingos foi esta: a Sérvia morria para ir ao Qatar, Portugal ia ver como decorria o jogo.

Enquanto Portugal quis (cerca de dois minutos) foi capaz, com gana roubou a bola e marcou golo.

 Depois acreditou que já estava no Qatar e do alto do seu estatuto e em sua casa deixou que os sérvios mandassem até final.

Quando o Nuno Mendes ou o Cancelo queriam sair o caminho estava bloqueado e no centro Ruben Dias e Danilo tinham o médio mais próximo atrás de três ou quatro sérvios.

Os médios portugueses só viam a floresta dos médios sérvios, os avançados portugueses estavam no Dubai a caminho do Qatar.

Tirando Bernardo Silva, o resto foi de uma mediocridade inolvidável. O treinador sérvio avisou que vinha para ganhar e que havia sempre uma primeira vez. O sr. engenheiro não queria que o jogo começasse porque o empate servia; servia a Portugal, não servia à Sérvia.

O sr. engenheiro foi de fato e gravata e Dragan Stojkovic, o treinador sérvio, em camisa. Quando o sr. engenheiro fala, quem o ouve? A sua gravata?

Tráfico de diamantes e guerra, as missões militares de Portugal

Uma guerra é sempre uma guerra; sempre desprezo pela humanidade, incentivo à prática de crimes, liberdade de violentar, destruição e morte. A guerra é a violência institucionalizada.

Portugal, um pequeno país, periférico, saído de três palcos de guerras coloniais, vem mantendo contingentes militares em países africanos devastados por guerras intestinas alimentadas do exterior.

Dizem os responsáveis políticos e militares que estas missões prestigiam o país. É o que dizem; eles e os que lhes incentivam a participar nestas missões. Como se fossem os comandos portugueses os únicos e mais capazes.

A operacionalidade das Forças Armadas portuguesas parece estar cada vez mais ligada a estas missões. A sua estratégia será combater por esse mundo fora, desde o Afeganistão, passando pelo Mali e a República Centro-Africana, entre outros países. Também voam no Báltico. Quem manda, acha que este é o papel de Portugal. Dúvidas não poderão existir que os vencimentos são bem mais altos neste desempenho de guerra do que noutros.

O mal da guerra é a própria guerra e o seu cortejo de barbaridades. Onde quer que aconteça, sejam quais foram os protagonistas.

As notícias que ligam os crimes de tráfico de diamantes, ouro, droga, branqueamento de capitais à missão na República Centro-Africana são consequências da guerra.

Quando alguém de arma na mão pode matar (a última fronteira a cair contra os outros humanos) pode fazer tudo. Não porque lho digam, mas porque o sentem do alto do poder das armas e de toda a parafernália que ela envolve. Numa guerra o controlo esvai-se. Fica o poder bruto.

Os militares indiciados por gravíssimos crimes cometidos sob a bandeira de Portugal, independentemente da consciência total dos crimes que estavam a cometer (a provarem-se) não os teriam cometido se não estivessem a milhares de quilómetros de Portugal, no centro do continente africano, a impor uma ordem que ninguém no país e até na Europa sabe qual é.

É este o papel que o PR e o governo vislumbram para as Forças Armadas num Portugal democrático, pacífico e de bem com todas as nações? Ir para onde houver guerras engendradas e alimentadas por outros?

 BECO SEM SAÍDA? O PS, O BE E O PCP QUEREM CORRER ESSE RISCO?

Tudo arrancou em 2015. Os resultados falam por si. As coisas mudaram. Acabou o discurso do empobrecimento. Ficou provado que era possível fazer melhor e fez-se. Até por isso, o PS voltou a ganhar as eleições, sem maioria absoluta. O veredito do soberano há dois anos foi claro.

Nessa altura inexplicavelmente a direção do PCP declarou que não aceitava acordos escritos. Foi o que o PS quis ouvir. Ficou com as mãos livres e a depender dos acordos por ocasião do OE. Negociava como, quando, com quem e o que queria.  O PS lembrava-se dos “parceiros” por ocasião do OE e sobretudo do PCP, após o voto contra do BE, o ano passado. Assistia a uma espécie de competição entre PCP e BE, cada um entregue à sua estratégia, desprezando questões essenciais que tinham e têm em comum.

 Neste jornal, em 27/10/2021, o dirigente do PS, Ascenso Simões explicou: À esquerda continuaremos o caminho pelo Estado Social…; com o centro continuaremos a nossa caminhada pela economia de mercado…; com a direita, continuaremos a tentar valorizar o nosso compromisso europeu, a nossa partilha atlântica, o compromisso institucional…

O PS determinará a sua postura em função de cada momento, às vezes ao centro e à direita, outras à esquerda. Está explicada a razão pela qual o PS manteve afincadamente várias medidas no mundo laboral de Passos Coelho impostas pela troica.

Entretanto, como o povo soberano decidiu não corresponder ao apelo do PS e não lhe deu maioria absoluta, Costa teria de ter em conta, se quisesse governar com a esquerda, as posições das outras esquerdas. Não podia, por ser o mais votado, partir do princípio que governava como queria e quando precisasse do apoio dos outros partidos de esquerda eles aí estavam pimpões a fazer de bombeiros ao serviço do PS.

Nas negociações em torno do OE, o governo deu passos no sentido positivo, só que num quadro da escolha de um menu integrado do OE. Encerrado o assunto do OE, encerrava a política de compromissos.

Chegados a este ponto, face aos avisos inesperados e intempestivos de Marcelo, colocava-se a questão: não seria melhor deixar passar o OE e assegurar as melhorias porque, em caso de eleições, a direita poderá ganhar?  Os passos positivos serviriam para responder aos desafios energéticos, aos da Saúde com o esvaziamento constante de estruturas, serviços, e diminuição de enfermeiros e de médicos, aos do abandono escolar, aos da gravíssima crise na Justiça, aos da míngua em que vivem os trabalhadores da Função Pública? O PS com quem viria a fazer frente a estes desafios? Seria o tempo de aliviar o carrego nos mais fracos ou o de permitir ao mercado que descarregue a sua ira competitiva implacavelmente nos assalariados, agradando ao setor dominante de Bruxelas que quer a periferia periférica? Portugal terá inscrito o maldito fado de viver na área laboral com a legislação de Passos/Portas/Moedas? E a oferecer salários baixos que explicam que um em cada cinco portugueses sejam pobres? O PS não respondeu, e o seu rasto é conhecido.

Por outro lado, há três partido à esquerda, sendo que o PS é significativamente o maior, mas tal facto não implica que possa fazer o quiser. Vejamos o caso da anterior coligação das direitas – o CDS não tem é maior representação parlamentar que o BE ou o PCP, antes pelo contrário, porém, a sua responsabilidade no governo de Passos era enorme, ao contrário da irrelevância que o PS atribui aos “seus” parceiros. O PS menoriza os partidos à sua esquerda. Sem entendimento dos partidos de esquerda não há política de esquerda.

O PCP e o BE votaram contra o OE e devem ter tido em conta que havendo eleições a situação ficaria melhor ou similar porque se tal não acontecer erraram, aliás como o próprio PS incapaz de ceder em pontos ao alcance da negociação.

 A política deve ter em conta os passos que se dão. Não se pode avançar dando armas e terreno aos adversários. Jerónimo de Sousa disse à RTP3 que os portugueses admiram e aplaudem o passo que o PCP deu. Se perder votos e peso na negociação, o argumento é uma falácia. O PCP não pode fugir ao desafio que assumiu e para o enfrentar não pode acantonar-se cheio de “razão” e com menos influência.

Condicionar o governo é o que pretendem todos os partidos antes de serem os mais votados. Apesar de todas as limitações do governo de Costa um governo de Rio ou Rangel criaria toda uma outra dinâmica que mudaria Portugal para muito pior.

Saibam os três partidos, pelos menos agora, não persistirem nas recriminações dando trunfos a Rio/Rangel. Será que o PS se quer apresentar ao eleitorado clamando que só há um modo de governar, sozinho? Quer correr esse risco? Ainda não deu conta que conseguiu governar mais de seis anos virado para a esquerda? Perdeu o retrovisor?

https://www.publico.pt/2021/11/05/opiniao/opiniao/beco-saida-ps-be-pcp-querem-correr-risco-1983784

O CDS e as Associações estudantis

Do alto da sua irrevogável sabedoria disse o ex-líder que aquilo que ele dirigiu se parece com uma Associação de Estudantes.

Dado que aquilo ainda existe, embora por pouco tempo, pela aragem que vem da coisa, o Senhor comentador de vírus e similares associou aquilo às nobres instituições académicas que muito contribuíram para que pudesse dizer o que disse.

Se o comentador não fosse o que é, saberia certamente que a esmagadora maioria dos dirigentes políticos desde Abril de 74 até há uns anos tiveram nas Associações académicas as sua Escolas de Altíssimos Estudos, tendo nessas escolas superiores sido forjados Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Ministros, Conselheiros e uma caterva de quadros e dirigentes das várias instituições da República.

O Senhor do boné bem conhecido nas feiras de Norte a Sul chegou a Vice-Primeiro Ministro e saiu de cena após os anos troicanos. E como tinha de dizer algo sobre a criatura que ajudou a engendrar lembrou-se de atacar as Associações estudantis comparando-as àquilo que aquilo é hoje.

Talvez falte ao CDS quadros e dirigentes formados nas velhas Escolas que foram as Associações estudantis. Nada de estranhar, pois muitos dos ativistas que se colocaram ao lado do governo fascista passaram para o CDS a seguir ao 25 de Abril. Talvez seja parte da explicação.

Marcelo o facilitador

Na entrevista concedida a Miguel Sousa Tavares, na despedida do jornalista, MRS com toda a pompa e circunstância, declarou, por um lado, que esperava uma alternativa à direita e, por outro lado, que se o OE fosse chumbado, dissolveria a AR. Esta decisão do PR é totalmente de sua responsabilidade, nada na lei o impõe. Trata-se da sua leitura política.

Desde então Marcelo não para. Todos os dias, a todo o momento, Marcelo clama ainda mais os microfones e as câmaras e os media são dele. Ele corre atrás de todas as lebres que encontra. Tudo serve para aparecer a marcar a sua agenda há muito anunciada- criar uma alternativa à direita.

Neste frenesim atrapalha-se e atrapalha os outros. Imiscui-se na vida parlamentar. No seu imparável ativismo recebeu o candidato a líder do PSD sabe-se lá para quê… Alega o mestre do frenesim que foi a pedido do candidato a líder. E pronto.

Diz a experiência comum que o empenho numa conduta mostra o empenho do agente dessa conduta. Et par cause, Marcelo está imparável. Ele persegue o sonho.

Os desejos, os sonhos, as aspirações e os recalcamentos de MRS não chegam para alterar as competências constitucionais. Bem pode intervir para que essa alternativa à direita se forme, mas a verdade é que o faz contra legem.

Marcelo é Professor de Direito constitucional. Deu muitas aulas e muitos pareceres sobre vastas matérias. Criou um lastro. Sabe melhor que ninguém que não é o PR que decide quais são as competências do PR. Sabe melhor que ninguém que estão taxativamente fixadas no artigo 133 da CRP.

É uma subversão das competências do PR. Mas para MRS quando se mete uma ideia na cabeça não para. E todos conhecemos a esse nível o ilimitado repertório da personagem. Disse um dia que tinha tido o sonho de Primeiro-Ministro. Terá agora o sonho de arranjar um?

O PS vai provavelmente provar o copo de fel que ajudou a fabricar. Quem se junta com incontinente pode sair molhado, diz o velho provérbio popular com outras palavras.

Um gajo nunca mais é a mesma coisa, mas um(a) gajo(a) pode sair outra coisa se for ao teatro em Almada

Uma camarata na forma de um abrigo e quatro homens que vão aparecendo interpretando diferentes personagens e uma mulher que entra na mesma rotação. Tudo simples. Como se fosse a casa de uma aldeia de onde partiam os soldados para combater os “terroristas” nas colónias portugueses. Às vezes a camarata faz de acampamento militar e de cenário de guerra. Não saberiam onde era Lisboa, mas poderiam ter estado em Nambuangongo, Wiriamu ou Medina de Bué ou nas florestas tropicais onde se entrincheirara o inimigo que afinal não o era, o que nunca é dito, pois do que se trata é da visceral violência da guerra.

A ação é feita de solavancos. Há um fio condutor, a tremenda fragilidade humana. As pulsões do Eros e do Tanatos. O mesmo ser capaz de estripar, matar, violar não compreende o porquê do divórcio e capaz de correr os riscos de combate para proteger o camarada de armas.

Freud e Einstein interrogaram-se em cartas trocadas acerca do porquê da guerra – Warum die Kriege? Porquê a pulsão destrutiva? O que faz o ser humano fazer a guerra e desumanizar os outros seres humanos aniquilando-os?

Nos almoços dos camaradas de armas que recordam os mortos em combate ou posteriormente há uma terrível identidade. É a de terem ido à guerra e quem vai à guerra nunca mais de lá sai o mesmo.

A guerra que os fez sentirem-se heróis, fez deles depois da revolução de Abril de 1974 homens do lado errado da História ou passados estes anos todos “criminosos” a aproximarem-se daqueles que estão hoje mais próximos do ponto vista político dos que lhe impuseram a guerra.

A falta de respostas a múltiplas questões, a própria insegurança de um futuro ao rés do fim de vida, lançam-nos num desespero que desperta as memórias de um passado cheio de desafios vencidos como foi o de participar numa guerra e voltar vivos, mesmo que estilhaçados por dentro.

Um homem que andou de metralhadora na mão a matar inimigos e regressa triunfante não compreende que a mulher que por ele esperou se queira divorciar. Nem o filho que se apaixona por uma jovem com sangue africano nas veias que por sua vez o vai largar porque acaba por defender algumas atitudes do pai em aldeias do interior que à entrada e à saída têm afixados cartazes da extrema-direita.

A extrema violência da guerra não foi sós tiros disparados contra os guerrilheiros angolanos, guineenses ou moçambicanos. Nos solavancos da ação que Rodrigo Francisco nos faz move, a violência é também a que faz os militares servirem-se das mulheres ou do modo como consideram os negros.

A violência brutal da guerra não é coisa que se esqueça. Os homens que estiveram na guerra e mutilaram, mataram, torturaram e violentarem podem encontrar-se nos almoços dos batalhões a que pertenceram, mas a mente de todos eles está povoada de terrores que continuam a viver. Muitos não podem dormir com janelas fechadas; muitos outros têm sonhos onde lhes sucede o que nunca sucedeu; outros ainda não suportam um noticiário que tenha notícias de guerras.

A enorme virtude de” Um gajo nunca mais é a mesma coisa” é trazer para o supremo laboratório que é a vida este passado escondido e que se torna necessário desenterrar para lhe dar um sentido e pacificar e dar tranquilidade a dezenas e dezenas de milhares de homens que estiveram a combater por uma causa perdida que partiram heróis e chegaram facínoras, como diz um dos atores. E, no entanto, foi a própria guerra que acelerou a libertação de Portugal e das colónias portuguesas.

Freud na troca de correspondência com Einstein acreditava que um grande esforço de educação talvez fosse possível suplantar as pulsões da destruição que acompanham a Humanidade desde o seu início.

Quem for ver “Um gajo nunca é mesma coisa” também sente que por instantes nunca mais é a mesma coisa.  Pelo poder da arte cénica, um homem ou uma mulher pode sentir que o Eros pode ser mais forte que Tanatos, não obstante a loucura e a violência da guerra.

Tudo isto só é possível porque a encenação desde os atores ao espaço e à música nos transformam, nos emocionam e nos transportam para o mundo do teatro onde tudo acontece no palco, mas podia acontecer na vida. Vale a pena ver a peça para um gajo(a) não sair de lá a mesma coisa.

O que fazia Ricardo Salgado sofrer, segundo o padre Avelino

Disse o padre Avelino, no seu depoimento no 7º Juízo Criminal de Lisboa, na sua tremenda inocência e candura, que Ricardo Salgado (coitadinho, digo eu), não lhe deram tempo para resolver o problema dos lesados.

Fica, pois, no ar aquela negação do pretérito perfeito do verbo dar. ..Não lhe deram…E o recado – se lhe tivessem dado tempo…E ideia enviesada que ele queria resolver e não o deixaram.

O sujeito da frase… Não lhe deram… é indeterminado; quem não lho deu só podia ser quem tinha poderes para tal e daí o senhor banqueiro querer e não lhe deram tempo. Ele o pobre em luta com os poderes do Estado…

Segundo o padre, que disse conhecer o arguido “há mais de 20 anos” e que todos os domingos se encontravam na missa, além de ter partilhado almoços e jantares em casa do antigo líder do BES, Ricardo Salgado “sempre foi uma pessoa com regras”, de “grande confiança” e cujo “porte firme” reconheceu admirar.

O padre Avelino utilizou a expressão abstrata em relação às regras que seguia, no que coincide com o despacho de acusação e até em parte como da pronúncia onde são definidas as regras que o banqueiro seguia e mostravam o seu porte firme em se apoderar do que não era seu. Aliás a sua “grande confiança” no que estava a fazer.

O Senhor cura lá foi em socorro do banqueiro com quem partilhava almoços e jantares, pois não é homem de deixar o seu amigo…”Convivi com ele nestes momentos mais difíceis porque os amigos não devem fugir nestas ocasiões. Nestas adversidades ele tentou explicar o assunto, mas eu não quis saber. A nossa amizade está acima dessas controvérsias”.

Na verdade, o amigo Avelino não faltou às regras e não se esqueceu dos convívios em almoços e jantares.

Na Bíblia os homens da estirpe do banqueiro não foram muito bem acolhidos no Templo que Cristo visitou. É verdade que os almoços e os jantares não eram na Igreja, mas em casa de Ricardo Salgado.

 Claro que faz diferença, mas o homem de regras que um padre deve ter a nível moral ao declarar que não deixaram o seu amigo resolver o problema dos lesados talvez esteja a violar regras que na melhor consciência cristã não devia violar porque deixou pairar a ideia sibilina de que o impediram de fazer.

Ricardo apoderou-se do que não era seu e arruinou a vida de milhares de cidadãos que confiaram no homem que não cumpriu com as regras que o BES dizia cumprir.

Não há detergente que lave esta desgraça. Tentar alijar as responsabilidades de quem teve esta conduta descrita na acusação/pronúncia é interceder na justiça terrena por quem não o merece, tendo em conta o referencial religioso do padre Avelino. Muito provavelmente Ricardo Salgado já se esqueceu que Avelino é padre, segundo a sua recente enfermidade.

No que toca à outra justiça, a divina, fundada na crença em que Deus tudo sabe, não irá na ladainha dos convívios de almoços e jantares e não deixará de avaliar o modo como o padre Avelino intercedeu pelo banqueiro, sempre na perspetiva defendida pelo padre Avelino em relação à justiça divina, a de zelar pelo supremo Bem e não pelo Mal dos pecadores/criminosos.

E o 8º mandamento de Deus…Não levantar falso testemunho… lá estará em equação, dado que na justiça divina a omnisciência do Deus conhece por dentro e por fora a real intenção do senhor padre Avelino.

Cá por baixo na Terra Ricardo Salgado teve tempo para tudo, até para se apoderar do que não era seu e arranjar este seu bom amigo.

A solidão do PCP e do BE na negociação do orçamento

Enquanto o governo do PS negoceia com os partidos à sua esquerda, é curioso assinalar que entre o PCP e o BE, tudo se passa como se lhes fosse aparentemente indiferente o que cada um deles coloca à mesa com o governo.

Salta à vista desarmada que, estando estes dois partidos muito mais próximos nas questões nevrálgicas das negociações, continuam de costas voltadas a sentar-se com o governo do PS como se cada um levasse uma imensa solidão, desprezando o peso negocial que teriam se entre eles houvesse uma clara posição comum nas questões laborais, SNS, Segurança Social, entre outras.

Parece que nas negociações, para além de naturalmente marcarem as suas posições, pretendem sair-se bem e deixar o outro amarrado ao ónus da viabilização ou ao da queda de um governo que não é claramente o que a direita gostaria de ter.

Ou seja, se PCP e BE nesta sede fizessem uma aproximação sobre os pontos em que têm a mesma posição não davam ao governo a possibilidade de escolher à la carte os pontos em que pode ceder a cada um, deixando eventualmente um dos parceiros de fora a votar contra na perspetiva de colher supostamente benefícios à frente em caso de queda do governo. Ou mesmo os dois, sem que esteja claro o que esteve exatamente em causa.

O governo é minoritário e daí ter de aceitar que não há ultimatos. E o PCP e o BE em conjunto deveriam fazer notar ao PS que para continuar a ser governo tem de ceder algo, querendo manter a marca original de ser o que é com a viabilização orçamental dos dois partidos de esquerda mais relevantes. Essa posição em nada alterava a identidade de um e do outro.

Na hora das decisões o PS, o PCP, o BE, o PAN e os Verdes assumem a enorme responsabilidade de apresentar um orçamento e um conjunto de medidas que marquem a diferença de uma governação da direita ou centro-direita.

Provavelmente saíram todos castigados se tendo esta grande maioria na AR não fossem capazes de encontrar saídas para o impasse.

O PS que se lembre bem do passado e sobretudo do que aconteceu há dias em Lisboa e não só.

O PCP e o BE, sem perder a face, que nunca se esqueçam que foram precisos muitos anos para mostrar que era preciso que o eleitorado compreendesse a importância de votar em ambos impedindo a maioria absoluta do PS e assim poder condicionar o governo, como acontece neste momento.

Aqui chegados haja cabeça fria e inteligência para defender o futuro onde estes partidos possam continuar a escrever melhores dias. Se assim não for, a direita assistirá à luta entre eles pela responsabilização do sucedido. Quando voltarão a governar ou a poder influenciar diretamente a governação?