A orfandade do PS nas presidenciais e a importância de ser segundo

Aproximam-se a passos largos as eleições presidenciais. Merecem reflexão. Marcelo caminha levado pelo glamour do som tremendo para a reeleição e amparado nos media que o acompanham desde o mergulho em qualquer riacho até à impenitente vontade de servir a pátria exibindo a peitaça para receber a vacina contra a gripe.

São conhecidos os imensíssimos saberes de Marcelo. Poucos se podem gabar de possuírem uma panóplia de conhecimentos como ele. É o último vendedor de fumo de palha.

O problema sendo esse, é também outro, sobretudo para os cidadãos comprometidos com os ideais republicanos, laicos e socialistas. Sim, socialistas. Os ideais socialistas persistem e ganham outra força face à deriva neoliberal capitalista.

Sim, o Presidente da República não é a rainha do Reino Unido. Tanto que não é que o vemos por tudo e por nada, basta um acidente ou um trepador ganhar uma etapa. É muito mais. Portugal ganhou outra modernidade em 05/10/1910. Outros optaram pelo passado. E mantêm esse passado no presente, até o filipismo passadista se tornou presente na vizinha Espanha.

Pois bem, seria de esperar que correntes laicas, republicanas, socialistas e de esquerda não se entrincheirassem cada uma a pensar em si oferecendo em bandeira de luxo a Presidência da República a alguém que durante o seu percurso de vida se afirmou contra os postulados laicos e socialistas.

O PS há muito desistiu de lutar por ter um Presidente que responda aos seus valores. Sócrates hipotecou o cargo fazendo penar Alegre até ser segura a vitória do enfatuado de Boliqueime, o doutor de York.

Costa arranjou-se com um capaz de arranjar tanta audiência como a Cristina, com quem partilha angústias existenciais.

Costa, órfão de si próprio, escolheu o omnipresente, deixando também o PS órfão; aliás fê-lo bem sabendo que seria assim, tendo na Autoeuropa feito ao PS o que Brutus fez a Júlio César, na versão shakesperiana.

O mal, para além desse, é outro, não menos grave e que tende a passar despercebido.

As outras forças situadas à esquerda do PS em vez de se esforçarem por encontrar uma mulher ou um homem que federasse as várias sensibilidades avançou cada uma  com os seus candidatos, sabendo que apenas estão a competir entre si, a ver quem é mais do que o outro.

Com Costa e Marcelo irmanados e com tantos problemas existentes, velhos e novos com a pandemia, alguém que sendo o pior que o sistema tem, apresenta-se  “contra” o sistema para tentar capitalizar o descontentamento da situação.

Um grande problema será barrar o caminho de modo que o ex-comentador da CMTV não fique em segundo lugar nas próximas eleições.

Costa quer Marcelo e acredita no seu chapéu. Com esta crença deixa o PS entregue ao homem de circunstância. Amalgamados funcionam como o sistema, assim pretende o pescador de águas turvas. Os que neste concreto momento escolheram ver quem fica à frente de quem ajudam à festa, mesmo sem o querer.

https://www.publico.pt/2020/10/28/politica/opiniao/orfandade-ps-presidenciais-importancia-segundo-1937077

Ponham bem os olhos no vírus “chinês”

A China tInha no dia 18 de outubro 90.955 casos de infeção, 4.739 mortos e 421 casos ativos, sendo a população mil milhões quatrocentos e dois mil e quinhentos e nove habitantes; os EUA 8.140.728 casos, 219.599 mortos e 4.700.425 casos ativos, sendo a população 329.634.908; Portugal 99.911 casos, 2.181mortos e 38.730 ativos e a população 10.276.617.

É brutal a diferença entre a capacidade da China de fazer frente à pandemia, reduzindo-a a uma insignificância e os EUA, o país mais rico e poderoso do mundo, que também acabou por ganhar a liderança na incapacidade de combater o vírus, apesar de toda a capacidade científica instalada, sobretudo nas mãos das transnacionais e centros universitários privados.

A capacidade de um Estado proteger a saúde dos seus cidadãos é seguramente um fator de relevo para a sua apreciação interna e também externa.

Quando o mundo acorda todos os dias atordoado pela capacidade destrutiva do vírus espalhando-se assustadoramente, e não se vê nos tempos que se aproximam como pará-lo, seria interessante dar maior atenção ao porquê da diferença abissal entre uma e outra situação.

Com todo o seu milenar modo de ser, os chineses recomeçaram a sua vida e estão de novo a crescer do ponto de vista económica, enquanto todo o resto do mundo levou um valente trambolhão, estando numa situação muito difícil, sobretudo, na Europa os países cuja divida era acentuada, como o caso de Portugal.

A população da China é cento e cinquenta vezes maior que Portugal e tem 421 casos ativos.

Independentemente do juízo de valor que cada um(a) possa fazer sobre o regime político no poder na China, a verdade é que aquele país tem dado (até agora) uma lição serena, sem se pôr em bicos em pé, de como debelar o vírus e proteger a sua população, mantendo a economia a funcionar em pleno e a crescer.

Contrasta com o destrambelhamento esquizofrénico da Administração Trump, incapaz de conter o vírus e de proteger a saúde da população, tendo até ao dia 18 quase 220.000 mortos.

Quando Trump envereda pelo caminho tortuoso e ridículo da curandice, apresentando a sua infeção (se é que a teve) como dádiva de Deus, há que pensar o que está a acontecer às instituições liberais daquele país para que das suas fragilidades surja uma criatura autocrática pronta para não aceitar os resultados eleitorais para tanto dando força a organizações de caráter fascista , racista e supremacista muito próximas do Ku Klux Lan.

Se não fosse um ignorante, e tivesse vergonha, respeitaria a comunidade científica ou era coerente até ao fim e embebedava-se de lixívia em vez de tomar (se é que tomou) Regeneron.

O mundo não está bem, já não estava, mas a pandemia tudo agravou. Parece valer a pena estudar o que a China está a fazer, tendo em conta os resultados, pelo menos até agora e atento os dados disponiveis.

https://www.publico.pt/2020/10/19/opiniao/opiniao/ponham-bem-olhos-virus-chines-1935877

Pode o mais fraco vencer o mais forte?

A resposta poderá à partida ser – não, o mais forte vence o mais fraco. Porém, o simples facto de se enunciar a possibilidade, ela passa a existir. Prometeu deu aos mortais, segundo Ésquilo, a cega esperança. É com ela que com toda a lucidez o mais fraco pode derrotar o mais forte.

O mais fraco para vencer o mais forte tem de escolher muito bem as suas armas e ter um elevado espírito de sofrimento.

O que significa saber escolher as armas? O mais fraco deverá saber que todos os fortes têm alguns, mesmo que poucos, pontos fracos. Saber identificá-los é fundamental. E depois saber como aproveitá-los e esperar com toda a paciência pela oportunidade para desferir os seus golpes.

Pode até deixar o mais forte atacar à bruta criando-lhe a convicção que a vitória chegará. Terá sempre em mente que o sofrimento do ataque do mais forte poderá suportar um contra ataque, como numa guerrilha.

O Benfica é bem mais forte que o Rio Ave. Se é. A lei da normalidade imperou porque o Rio Ave se comportou como se fosse igual ao Benfica e não é. Esse foi o erro de palmatória.

Gosta de sair a jogar curto. Chegou a ser confrangedora a forma como os vileiros perdiam a bola face à pressão dos benfiquistas. Em vez de lançar a bola por cima dos médios do Benfica que estavam adiantados a suportar a pressão alta andavam em rodriguinhos e perdiam a bola a poucos metros da baliza. O segundo golo é um exemplo do que se acaba de dizer – entretidos a brincar com a bola perderam-na e deixaram quatro contra dois.

Não estudaram a lição dada pelo Marítimo no Dragão. Se o tivessem feito e fossem mais humildes podiam ter colocado outros problemas ao Benfica. Assim levaram três e podiam ter levado mais tantas foram as perdas de bola frente à baliza.

Conclusão:

Para o mais fraco bater o mais forte não se deve comportar como se fosse o que não é. Para vencer terá de sofrer e escolher os ataques cirúrgicos ao mais forte e resistir. Só assim o mais fraco poderá vencer.

Uns pingos de decência e a direita perde a cabeça

No debate que tem vindo a ocupar o espaço público em torno das prioridades quer orçamentais, quer da futura aplicação dos fundos provenientes da União Europeia, é interessante dar conta da abordagem da direita acerca destas prioridades.

A direita tradicional invoca a proteção em abstrato da família como legado cristão, mais da Igreja católica que das outras fés cristãs, particularmente importante como a protestante do Centro/Norte da Europa.

Como se sabe no tempo de Jesus Cristo não havia empresas, a imensa maioria do povo judeu sob ocupação romana era constituída por agricultores, pescadores e artesãos.

Conhecendo-se bem a predileção de Cristo pelos pobres é curioso observar que este mundo está no essencial determinado pelo mundo da finança, dos super-ricos e sacerdotes desse ofício ou simples seguidores dos caminhos do ouro.

Neste contexto global nunca é demais ter consciência que em cada crise que tem surgido nas últimas décadas os ricos têm ficado mais ricos e os pobres mais pobres.

Em Portugal no final de 2016 havia 2.399.000 portugueses em risco de pobreza segundo os dados do INE. Apesar de alguma recuperação com o governo de António Costa, apoiado nos partidos da esquerda, a pandemia empurrou os números em mais algumas centenas de milhares.

2153 bilionários detêm mais riqueza que 60% de toda a população mundial, segundo a ONG- Oxfam, antes da pandemia.

Na discussão do OGE o que pretendem o CDS, JL e o próprio PSD? Face às mais que tímidas medidas viradas para a proteção social do Estado (muito insuficientes para acudir à população) desencadeiam uma guerra mediática contra o investimento público (irrisório) e contra o apoio às famílias, exigindo maior apoio às empresas, como se as pessoas existissem em função das empresas e não as empresas para servirem as pessoas. A empresa foi uma extraordinária invenção para servir os seres humanos. Entretanto, o Presidente do CDS chega ao cúmulo de atacar as famílias por receberem subsídios em vez das empresas, criticando, ao mesmo tempo, o governo  por deixar as famílias ao abandono. Círculo quadrado.  Isto é, o líder o CDS entende que o apoio às famílias deve ser dado às empresas para que os donos delas utilizem os dinheiros ao seu serviço, o qual não é necessariamente do interesse das famílias, entretanto abandonadas. Aliás, como se o apoio a umas fosse incompatível como apoio a outras.

Para quem agita a família como sendo um dos valores dos centristas, bem direitistas, sempre se há de concordar que se trata de algo a roçar o domínio da hipocrisia.

As despesas no SNS, na Escola Pública, na Função Pública, na Justiça são absolutamente essenciais para proteger a saúde, a educação, o acesso a serviços públicos e à justiça. A direita rejeita-as porque os quer abocanhar para deles tirar o lucro, exigindo depois subvenção ao Estado para os pôr a funcionar no mínimo.             Os serviços excelentes são para os da estirpe dos donos disto tudo.

O grande problema da direita reside no facto de temer que os serviços públicos cheguem a funcionar moderna e eficientemente. Basta à direita uns pingos de modernidade no OGE para se agitar à outrance. Se houvesse coragem não seriam apenas pingos para refrescar, mas serviços de qualidade como por exemplo na Alemanha.

https://www.publico.pt/2020/10/14/opiniao/opiniao/pingos-decencia-direita-perde-cabeca-1935257

POOL POSITION NA GRELHA DE ABOCANHAR

Ainda não chegou um cêntimo de Bruxelas e os abocanhadores já lutam ferozmente pela pool position na grelha do enfartamento.

  Com o “social-democrata” Cavaco Silva no posto de 1ºMinistro o abocanhar atingiu tal desnorte que foi necessário produzir legislação para criminalizar o desvio de subsídio, certas zonas das grandes cidades pareciam o Paris/Dacar com tanto jipe a circular.

O nosso capitalismo antes e depois do 25 de Abril foi sempre pouco arrojado. Então vivia protegido pelo Estado. Agora parasita nas suas entranhas à custa de tanto vociferar contra o próprio fornecedor de combustível, o que torna a própria essência do sistema falseada pela ausência do espirito de risco.

A CIP, a CAP, a Confederação  do Comércio e similares já se levantaram a reivindicar direitos adquiridos (o de serem privados) à frente de toda a comunidade.

Está escrito algures nos buracos negros que os fundos de Bruxelas têm de ir primordialmente para os nossos empresários, sob pena do país afundar.

O nosso sistema financeiro precisa do sacrifício de vítimas, isto é, dos contribuintes, tal como ocorria no tempo dos Maias na América Central. A ira dos mercados é implacável. Os contribuintes contribuem para apagar os buracos negros no BPN, CGD, BCP,BES e Cª. É preciso aplacar essa ira, cortando despesas. Tudo o que se corte deve ir direitinho para esse deus insaciável, o mercado financeiro. Sacerdotes já é o que mais há. Basta ligar as televisões, de manhã à noite. Amen.

Ora o país saído de uma grave crise provocada pela gula dos banqueiros acaba de entrar na brutal crise pandémica.

A União Europeia afetará, nestas circunstâncias excecionais, centenas de milhares de milhões de euros a fundo perdido.

Este dinheiro provém das contribuições dos cidadãos da U.E. E deve ser destinado a fazer frente ao cortejo de desgraças que a pandemia está a criar.

Assim a primeira grande questão é esta a quem devem ser destinados? Devem ir sobretudo para os bolsos dos que buscam essencialmente o lucro ou deverão ser instrumentos do Estado que ao serviço da comunidade tem agora uma oportunidade quase única de investir para robustecer os serviços públicos, designadamente SNS, Escolas públicas, habitação social, Justiça e transportes públicos.

As notícias dão nota que a pandemia fez os muito ricos atingirem novos picos de riqueza – https://www.publico.pt/2020/10/07/economia/noticia/fortuna-ricos-atingiu-novo-pico-durante-pandemia-1934252. Devem os subsídios continuar a aprofundar esta linha ou invertê-la?

Claro que há corrupção no Estado, mas não é menor nos privados, aliás o que acontece neste domínio é uma espécie de parceria Público/Privado para exaurir os recursos públicos e levá-los para o bolso de muitos gestores, alguns condecorados com as mais altas distinções da República.

Uma coisa é o Estado dever zelar pelo interesse da comunidade (fazendo-o ou não), sujeito por via das diferentes eleições a alguns dos seus órgãos ao escrutínio das populações.

Outra é o abocanhamento de subsídios sem controlo e que servem apenas, em numerosos casos, para fazer fortunas aos premiados numa certa zona obscura que é a da atribuição do subsídio. Basta ver ainda hoje como são aplicados.

Não se pretende de modo nenhum erigir o Estado em figura exemplar; nada disso.

Apenas sublinhar que o controlo dos cidadãos sobre o Estado, sendo escasso, apesar de tudo é maior que o controlo sobre os privados.

Manda a tradição que se desconfie dos dois, e que ambos devem ter apertada vigilância, mas apesar de tudo a capacidade de questionar as opções dos governantes é bem maior que a dos longínquos empresários, sem, no entanto, esquecer que os há e muitos no melhor sentido da palavra.    

https://www.publico.pt/2020/10/08/opiniao/opiniao/pole-position-grelha-abocanhar-1934360

O vira e a chula da corrupção

A corrupção é um problema sério e a sua expansão só é possível por encontrar um terreno fértil.

Enquanto o salazarismo pregava e abençoava a pobreza como forma bem original de felicidade, o novo regime resvalou rapidamente, sobretudo após o período da adesão à CEE, para a glorificação do mundo dos ricos, modo de ir para o céu da Terra.

Deng Xiaoping na China dizia que ser rico era ser belo e maravilhoso. Do lado de cá, na Lusitânia, os ricos que se acagaçaram com o 25 de Abril quiseram recuperar do susto com uma voracidade nunca vista, sendo que enquanto uns recuperavam terras, bancos e empresas, outros os novos-ricos, enveredavam pelo capitalismo parasitário, sem investir, ou investindo pouco e criando junto dos governantes novos modos de acumulação, o que supôs o pagamento de contrapartidas.

Ora se o Presidente do SLB arranjava tachos e penachos ao senhor Desembargador, este por sua vez arranjava com os seus pares modos de pagar os favores daquele que de banco em banco ia colhendo centenas de milhões. Este é um exemplo, mas eles estão em todo lado, em Ministros, em Presidentes de Municípios, em Juntas de Freguesia, em deputados e sempre, sempre nesse mundo de empresários (alguns feitos à medida dos partidos) que  sabem pagar à sua maneira os favores recebidos.

A complexidade do fenómeno densifica-se ao constatarmos que a reação da comunidade não deixa de merecer estupefação.

Nos partidos do arco do governo, aqueles desde 1976 governam o país (PS, PSD e CDS) têm sido identificados dezenas de casos de dirigentes e quados que corromperam ou se deixaram corromper, e nem por isso a população deixa de votar neles.

As notícias acerca de cidadãos que estão sob investigação são muitas; e no entanto, na nossa pátria à beira mar plantada tudo não passa de mais uma notícia, voltando os pacatos cidadãos, feitos basbaques, ao redil, arengando contra os corruptos à mesa do café, mas votando neles.

O elogio da vida fácil, do nacional espertismo com base no “encosto” de quem tem conhecimentos no Estado, mesmo para os que passam a vida a atacá-lo, sempre prontos a semear abóboras ou ervilhas no meio do mato e a receber chorudos subsídios vindos da PAC, ou a reclamar proteção que negam no que se refere à edificação de serviços públicos robustos, ou à proteção social, é também causa desta situação.

Onde pretendemos chegar é ao ponto mais complexo do fenómeno – a substituição de uma atitude de repúdio, desde logo no momento crucial – o das eleições, optando sempre, no essencial, pelos partidos onde há a maioria dos casos de corrupção, o que revela pactuar com ela tacitamente.

Entre pegar o toiro pelos cornos e gesticular e vociferar, esta última é a optada pela simples razão de que é uma fuga ao confronto e um grande número de portugueses gosta de confrontos com quem pode menos que eles, ou pelo menos com quem não pode mais. Veja-se como barafustam com os funcionários públicos, com as caixas dos supermercados, com os concidadãos que seguem a seu lado nas viaturas ou até com os peões e ciclistas.

A corrupção é um mal terrível porque cria um mundo opaco e sem esperança, um mundo de foras da lei que se governam e esmagam os outros, os mais honrados, os mais competentes, os mais capazes abafando o seu mérito.

Sem ter no governo quem apoie a luta contra a corrupção a causa é tremendamente difícil. Só mudando o disco, acabando com o mesmo vira e a mesma chula.

https://www.publico.pt/2020/09/30/opiniao/opiniao/vira-chula-corrupcao-1933369

Tempestade perfeita

Não é próprio da estirpe dos poderosos multibilionários vergarem-se perante as leis da República, sobretudo aquelas que defendem o bem público. Estas, no entanto, já não são obstáculos totalmente intransponíveis, dada a predisposição daqueles para se focarem nos meios para atingir os fins – a versatilidade de quem tem um longo e histórico rasto de atrair, seduzir e comprar. Sim, o dinheiro é tudo para quem o tem como cisco. É preciso saber fazer falar o “vil metal”. Eles sabem.

Ademais, é hoje dominante que os donos do dinheiro também o são de quase tudo, até das almas dos cidadãos, é o insustentável poder do ter. Os compradores de almas vivas existem, as almas mortas eram compradas no romance genial de Nicolau Gogol.

Só o poder destrambelhado do Presidente do SLB justifica o alegado telefonema para o Tribunal de Sintra a pedir satisfações face ao atraso de uma decisão que envolvia a empresa do filho.

Já se podia imaginar que a corrupção não parava à porta dos tribunais, mas a passagem do abstrato ao concreto mostra a realidade com uma outra força. Traz-nos ao mundo real.

O processo Lex bateu com força no Tribunal da Relação de Lisboa e mostrou a facilidade com que aqueles Desembargadores fizeram jeitos uns aos outros; e pelos vistos não foram só jeitos. Há jeitos e jeitos.

O problema para além dos implicados é outro, o de saber se aquela voracidade pelo dinheiro apenas diz respeito aos visados na acusação.

A justiça é feita por mulheres e homens e como tal passível de todas as humanas vulnerabilidades, porém, aos juízes são exigidas qualidades acima da média, dado o seu poder enorme sobre a vida dos cidadãos tanto na esfera da Família, do Cível, como do Crime, do Fisco e da Administração.

É suposto que aos tribunais superiores cheguem os melhores. E se no Tribunal da Relação de Lisboa isto acontece, o mesmo não acontecerá em Évora, Guimarães e no Porto? A dúvida num país descrente é terrível.

O que poderá acontecer é o seguinte: qualquer sentença mais estrambólica ou inesperada, para além do erro de julgamento ou da ignorância humanas, será quase impossível deixar de pensar se quem julgou o fez sem isenção. É muito importante que também aqui não se agrave a desconfiança nas decisões judiciais. Não se pode deixar arrombar a última porta do Estado de Direito. Os magistrados têm de redobrar os esforços para contribuir para credibilizar a Justiça. E todos os outros – advogados e funcionários judiciais.

A loucura alienante que invadiu o mundo do futebol, como se o amor ao clube fosse um ideal libertador, chegou também a certos magistrados, basta olhar para o Facebook.

Mas não é só aos juízes, é aos próprios dirigentes políticos, aos governantes, e ao próprio Primeiro-Ministro. Claro que todos podem ter um clube de simpatia. Mas essa simpatia não pode aparecer como se fosse uma envolvência de tal modo intrínseca entre o mundo do futebol e da política que inquine o ambiente democrática onde estamos inseridos. O futebol é um desporto e atualmente um grande negócio de muitos e muitos milhões. É estranha esta atração.

Se o Presidente do Benfica considera que o país é demasiado pequeno para o seu clube, dá para detetar a ideia vesga de julgar que o cargo o coloca acima da lei. A gula é um pecado mortal. Pela boca morre o peixe.

Seria importante aprofundar, no mundo do futebol, as ligações de certos dirigentes com o mundo opaco de negócios de vão de escada por onde passam milhões e milhões. E o percurso de certos figurões que se tornaram famosos por terem sido adeptos fervorosos de grandes clubes e depois se tornam candidatos políticos de extrema-direita, ironia das ironias contra o sistema onde foram paridos.

Se futebol e política é uma mistura explosiva que dizer de futebol, política e justiça. É a tempestade perfeita.       

https://www.publico.pt/2020/09/22/opiniao/opiniao/tempestade-perfeita-1932409

No telhado só as gatas, virgens sensatas

Na nota tornada pública, o presidente do Benfica diz que se vivem “tempos em que a justiça passou a ser feita no Facebook, nas redes sociais e nos media”. Tempos, acrescenta, “em que os juízes foram substituídos por jornalistas e comentadores”. Profissionais que diz terem agido num “registo de excessos, sem conhecimento dos factos, mas com a cumplicidade de quem os vai parcialmente alimentando com o único objectivo de contaminar a percepção pública, vão minando o espaço mediático”. Tempos ainda, refere, “em os jornais pré-anunciam condenações e em que líderes partidários e políticos mais populistas, propositadamente, esquecem um dos princípios básicos em que se assenta o nosso Estado de direito”.“Tempos em que falta seriedade e rigor. Tempos em que, quando a justiça finalmente chega, já não há justiça. Tempos em que o bom-nome e a reputação das pessoas se perdem na avalancha mediática que atropela qualquer presunção de inocência”, acrescenta.

E tempos acrescento eu em que certos fulanos sacam centenas de milhões aos bancos e não pagam, fazendo assim cumprir os princípios em que assenta o nosso Estado de direito, demonstrando o seu apego ao rigor e à seriedade…. E tempos ainda de tanta inocência que os jornais anunciaram Cavani porque resolveram inventar a vinda do uruguaio, digo eu.

Tempos de virgens ao sol poente,pelas estradas ermas a cantar…António Nobre , e que o grande O`Neil glosou …Assim, sim, virgens sensatas no telhado só as gatas…É verdade, tempo de telhados de vidro e de consciências sensatas porque nos telhados só as gatas.

O país triste

Hoje nas ruas de Portugal a população olhava para o chão para esconder a tristeza. Havia os que faziam da tristeza(poucos) uma bandeira e desfraldavam-na para exibir o seu amor à causa da tristeza.

Luís Filipe Vieira já tinha dito -as vitórias do Benfica são a felicidade do povo português. Ele já tinha avisado.

António Costa leu bem o presságio e correu em socorro do homem incompreendido por tanta suspeição.

Disse Vieira a caminho de Tumba que havia uma campanha caluniosa contra o impoluto Presidente benfiquista. E mais não disse.

São grandes dizeres: que o povo é feliz se ele for feliz e que o andam a perseguir.

Por isso, esta manhã a tristeza silenciosa dos portugueses ouvia-se por todo o lado, incluindo para as bandas de S. Bento.

Em Salónica não era bem ele o perseguido; eram os jogadores do Benfica, pois os PAOKes tinham outro andamento e perseguiam a bola a outra velocidade. Faltavam-lhes pernas.

Se tivessem ganho sentenciou JJesus iam muito longe. O problema é que não foram. Ficaram.

Que tristeza. Que desgraça. Por onde anda a alegria?

O país e o seu Primeiro-Ministro andam tristes. Que tristeza. Valha-nos Jesus sempre super satisfeito consigo próprio. Se ele fosse em frente…Se.O se é uma palavrinha tão pequeninha e vejam a sua contradição com o propósito do catedrático das táticas e o seu desígnio de grande treinador como muito poucos na Champions. Ai se a rã não tivesse passado ao lado da vaca. Se…

O erro estratégico de António Costa

Costa, fazendo de Frei Tomás, trajado de 1º Ministro, anunciou, em visita à Autoeuropa, em 13/05/2010, o apoio à candidatura presidencial de Marcelo; o que supõe, em quem anda a virar frangos há muitos anos, que sabiam ambos ao que iam.

Bem pode clamar pelo dever de contenção que ele virou a esse nível uma incontinência, tanto em política, como em futebol. Costuma acontecer a quem navega à vista e descura os elementos estratégicos.

O PS é, neste momento, o partido com maior influência eleitoral, bem maior que a do PSD. O PS e a esquerda tem uma confortável maioria no país.

O PS tem a vocação de ir a todas, incluindo às mais pequenas freguesias. Cabe então a pergunta – por que desistiu Costa de ter um Presidente da República da área do PS, em vez do trambiqueiro da área do PSD?

Não bate certo alegar que nunca dependerá no governo do PSD e ao mesmo tempo apoiar um homem que toda a sua vida se guiou pelo combate ao PS, ao SNS, ao Ensino Público e à Função Pública.

Dando o seu apoio ao candidato Marcelo apoiado pelo PSD e CDS, Costa abandona uma batalha entregando a vitória aos seus adversários, independentemente do papel que o cidadão Marcelo possa vir a ter. Certo, certo é o PS entrar na luta pelo mais alto cargo da República ao lado da direita, quando esta é francamente minoritária.

Uma estratégia consequente tem nos seus desenvolvimentos essenciais elementos que estão direcionados no mesmo sentido. Não será um bom estratego aquele que para governar diz querer apoiar-se na esquerda e para o cargo de PR apoia a direita ou centro direita, grosso modo. Baralha e desarma os que vão ao combate, pois, como é bom de ver, põe os socialistas ao lado do PSD e CDS nas presidenciais, e nas legislativas contra os mesmos partidos.

Costa pode ter uma fina perceção tática, mas como se sabe não basta para ter um rumo capaz de aglutinar uma mobilização para um combate tão difícil como é o atual em tempo de pandemia.

Teve a coragem de acordar com o BE, o PCP e o PEV quatro anos de legislatura, virando uma página na política portuguesa que durava desde 1976.

Mas tem dentro dele um pendor para que uma determinada perspetiva seja sempre balanceada por outra guinada que trava esse horizonte.

Os quatro anos da gerigonça permitiram ao PS reforçar as suas posições, o que nunca tinha sucedido após quatro anos de governo.

O avanço precipitado de Costa de apoio a Marcelo deixou o PS em termos do cargo- PR- nas mãos de um homem que já mostrou ao país que é um verdadeiro catavento espalhafatoso, como um alfaiate, a alinhavar o cargo fazendo dele uma espécie de concorrência mediática com a sua amiga, a nova administradora da TVI.

Este segundo mandato (em que a conflitualidade social vai aumentar) será muito importante, tendo em conta as características do semipresidencialismo português.

Marcelo dá tudo e mais o que não tem para ser protagonista, veja-se a propósito do apoio de Costa a Vieira o que ele disse publicamente com ar contrito, que ia falar com ele. O PR fala com o PM nas suas reuniões semanais às quintas, mas o veneno é servido como se fosse um copo de ginja, só que é em Belém. E aí está o erro de Costa.     

https://www.publico.pt/2020/09/15/opiniao/opiniao/erro-estrategico-antonio-costa-1931616