Godinho, Veríssimo e Cª não basta trajar de negro e ter um apito.

O problema não é errar, mesmo quando o erro levaria ao chumbo de qualquer candidato ao apito de juiz de campo.

O problema é o conjunto de erros gravíssimos no mesmo estádio, quase à mesma hora levado a cabo pelos senhores que do alto do apito se julgam donos do destino de um jogo de futebol de equipas envolvidas na luta pelo título e pela final da Taça.

Para ser juiz de campo não basta trajar de preto, nem andar numa espécie de onda punitiva pelo facto de Sérgio Conceição e o FCP não gostarem mesmo nada de perder e às vezes reagirem à flor da pele.

 Uma coisa é uma reação e uma crítica por mais dura que seja (normal numa sociedade democrática), outra é o poder intocável, divino, de alguém que não presta contas e é totalmente irresponsável. 

No nosso país o respeitinho pelos poderosos é muito bonito, mas já se sabe que as águas dos rios quando apertadas pelas margens transbordam.

Para ser respeitado e acatado é preciso que quem manda mande bem e não de modo arbitrário, tanto mais que estes são os únicos juízes cujas decisões são irreversíveis, o que impõe a busca de mulheres e homens para desempenhar o cargo com elevado sentido do cumprimento da Lei e da Justiça.

Um bom árbitro não é um juiz do Santo Ofício que de cima do seu poder absoluto vai exigir à vítima que concorde com o castigo brutal e desprovido de qualquer fundamento.

Como pode o cangalheiro de apitos ir explicar a Luis Diaz que ele fez o que não fez? De que espécie de tecido é feita alma do senhor Godinho?

Já sabíamos que a alma do senhor Veríssimo era feita das personagens que o Mestre Gil Vicente meteu na Barca do Inferno, pois achavam que deviam surfar a onda e mostrar cartões a quem não os mereceu e deixar no caso do Corona o Porto sem o seu melhor jogador durante mais de trinta minutos.

O bom árbitro é o que se não vê, o que julga com total imparcialidade e não inventa leis inexistentes que no caso da Pedreira atingem sempre o mesmo e os melhores em campo.

À mesma hora, no mesmo local, expulsar os melhores, sem qualquer justificação, duas vezes seguidas é o quê? Um exercício de intolerância para com a equipa dos expulsos?

Recuemos até ao Jamor. Ali o guarda redes dos de Belém atinge brutalmente Nanu. Nada. Foi involuntário. Haverá alguém para além dos senhores Hugo e Godinho que seja capaz de dizer que o chuto na bola de Luis Diaz era para partir o tornozelo ao David Carmo?

Então se todos viram o momento de azar de David Carmo, como é possível que Hugo Miguel tenham visto o que ninguém viu?

 Godinho, Hugo Miguel e Veríssimo têm um apito e vestem de preto; não chega. Não basta dar cartões a jogadores nucleares de certas equipas para o poder ser.

O grande e enorme Goethe criou uma figura fantástica – o Fausto que fazia negócios com o Diabo que segundo as tradições cristãs veste de preto.

O que têm em comum com Fausto estes cangalheiros do apito que aparecem nos estádios para desinquietar o povo do futebol e as próprias regras que se aplicam ao jogo? Quem lhes deu o apito? Para quê?

Japão 2021- Jogos Olímpicos – O tempo da palavra para os homens e o corte do tempo para as mulheres

O Presidente do Comité organizador dos Jogos Olímpicos, Yoshiro Mori, que já foi Primeiro-Ministro entre 2000/2001, considerou que as intervenções das mulheres nas reuniões prolongam-nas por muito tempo. E segundo o senhor Yoshiro, as mulheres são altamente competitivas pelo que basta uma pessoa levantar o braço para as mulheres logo levantarem os seus. E concluiu que o melhor seria limitar o tempo de intervenção das mulheres.

Há a registar que o senhor Mori reconhece que as mulheres falam, o que pode constituir um avanço civilizacional em terra dos idos samurais que mais do falar o que contava era a habilidade com a catana para acabar com a fala. E, em abono da verdade, o Presidente do Comité não propôs o corte da língua, apenas da palavra.

As mulheres segundo Mori falam demais. E como sabemos nós que falam demais? São competitivas… O que Yoshiro Mori não revelou foi quanto tempo falava cada homem e cada mulher, dado que se os tempos estiverem limitados não interessa o género, apenas o cumprimento da limitação.

A grande questão deve ser essa : A palavra das mulheres mete medo aos homens medricas.

A HIPOCRISIA DE ALGUNS DESGORGOMILADOS EM TEMPO DE PANDEMIA

Portugal está, neste momento, mais desgarrado pela pandemia, embora com elementos constitutivos (fronteiras, língua, cultura) que podiam fazer dele um país como nenhum outro na Europa. Não precisa da prisão perpétua para abafar autonomias e ou independências. Do Minho ao Algarve a unidade é total, dando a volta aos arquipélagos.

Desgarrado ainda no sentido que há uma enorme parte do país que é uma espécie de res nullius, onde as populações à medida que envelhecem vão ficando com menos serviços (CTT, CGD, Centros de Saúde,farmácias), com o coro de galfarros indignados contra o excesso de Estado, pois como é sabido não são estes os velhos que interessam para dar lucro, como, por exemplo, os que vêm de outros países para o Algarve e trazem libras. Ademais, os nossos velhos entram nos lares entregando as reformas que às vezes não chegam para poderem ir morrer.

E Portugal tem há séculos a nossa velha e sempre formosa Lisboa, o nosso centro de tudo. Mesmo sem Império, a Lisboa tudo vem ter. Até de Bruxelas. Daqui sai pouco.  Há uma linha de água que se perde quando nos afastamos algumas dezenas de quilómetros do mar para o interior. A partir daí é um deserto pontuado de velhos casarios a aguardar pela erosão implacável do tempo.

 Aliás, o resto do país já não se interessa pelo seu país, apenas por Lisboa. O sonho de cada jovem é fugir para os bairros de Lisboa. Fugir. Nas suas aldeias não há nada, apenas velhos armazenados. Ninguém quer viver num país com aldeias onde só quase se morre, e não se nasce.

 Já se fugiu de um país que dava miséria e de todo o lado se saltaram os muros. Agora os novos não querem morrer de inação. E os velhos querem sossego para partirem.

A somar a esta dura realidade, o país não precisava de uns tantos galfarros a empestar a paisagem política com sentenças cheias de Estado a mais que logo se vê de que trata é de Estado a menos.

Uma das técnicas de propaganda política é dizer por exemplo até à exaustão no meio de crise pandémica terrível, num país cansado de maldades, que há Estado a mais. Assusta quem ouve que nem cabeça tem para sair do número de mortos infetados.

 Mais eficaz só a VERGONHA do Sr. Ventura. Os hospitais, num país pobre que tira dinheiro aos contribuintes para o entregar aos banqueiros, tratam da saúde dos infetados. Os que entram recebem o que melhor tem o SNS. Fossem os outros serviços públicos capazes do mesmo desempenho. Mas chegados aqui (a bengala passou da fundamentação das sentenças/acórdãos para a linguagem política) convém saber como foi possível.  

Creio ser pacífico que o descalabro da pandemia resultou também dos facilitismos do Natal e Ano Novo. É bom ter presente que Costa/Temido/ decidiram aliviar as medidas com base nas auscultações aos partidos que sobre esta matéria foram unânimes no alívio.

É, pois, cobardia degenerada atribuir a este governo a responsabilidade por esta agudização da pandemia. Tem a sua, mas que todos se lembrem que Chega, IL, CDS, PAN, PEV, PCP, BE, PSD, PS entenderam que deviam comportar- se irresponsavelmente. Todos foram favoráveis à liberalização dos contactos natalícios.

Muita gente tem morrido devido a uma dose generalizada de irresponsabilidade nacional. Um país único que podia ser mais coeso e cuidador e não um madrasto a quem vive fora das grandes cidades a aguardar a ida para os lares ou cuidados de saúde. E os novos a fugirem de tanta morte e com filhos para fazerem. Apesar disso, os desgorgomilados falam de Estado a mais. E de novas oportunidades de negócio. Talvez explique o permanente ataque a Temido.

https://www.publico.pt/2021/02/03/opiniao/opiniao/hipocrisia-desgorgomilados-tempo-pandemia-1948943

Os frugais de Amesterdão e o sexo. Sempre bingo.

Segundo o jornal Público de 03/02/2021, os habitantes da cidade de Amesterdão, antigos holandeses, maioritariamente católicos e protestantes querem mudar a roupagem à cidade e banir as trabalhadoras do sexo das janelas do centro da cidade, e em concreto levar o Red Light District para onde se não veja como agora se vê.

A autarquia destacou que as trabalhadoras da indústria do sexo se tinham transformado em atrações turísticas.

Bem vistas as coisas, as mulheres que estavam às janelas eram no projeto inicial para os antigos holandeses frugais muito poupadinhos em tudo. Acabaram em atração turística devido aos esbanjadores do Sul. E deram muito caroço à cidade.

É preciso rentabilizar novos e fecundos projetos de urbanismo onde as mulheres às janelas continuem a servir a frugalidade dos frugais até ao dia em que se transformem em atração turística e nesse caso muda-se o Red Light District. Sempre Bingo.

Qatar 2022, onde mora o pecado e a embriaguez

O jornal A Bola de hoje, dia 02/02/2021, noticia que” … o consumo de bebidas alcoólicas nos estádios do Mundial de futebol do Catar, em 2022, será permitido, mas apenas nos camarotes e para portadores de bilhetes de convidado…que garantiu que serão disponibilizadas bebidas espirituosas de alta qualidade…”

A notícia é um alívio. Afinal em terras onde se não poderia ingerir bebidas alcoólicas, o Qatar assegura-as com alta qualidade, nos camarotes. O poder de beber ainda não caiu na rua.

A diferença face à universal interdição do Profeta é a de que só nos camarotes se pode ingerir a tal alta qualidade espirituosa, impedindo deste modo que as classes baixas bebam, protegendo-as dos terríveis flagelos das vergastadas.

A lei é para todos os que tenham acesso aos camarotes poderem emborrachar-se sem qualquer constrangimento, dado que será muito provável que altos dignitários religiosos se encontrem ao lado do poder temporal nos sagrados camarotes. E mesmo que não queiram pecar, é reconfortante saber que as bebidas espirituosas são de alta qualidade. Sempre as poderão cheirar. E sentir o perfume do pecado amnistiado. Pela FIFA? Pelo Emir? Por ambos? Que embriaguez.

A minha covid

A MINHA  COVID

Como já reparamos algumas das grandes notícias desta pandemia são as dificuldades das filas de ambulâncias em descarregar os doentes nos hospitais. Ou a falta de oxigénio no Amadora/Sintra. Ou vacinas estragadas. Ou algo ainda mais inesperado, pois que que tempos de pandemia nada é inesperado.

Todos vemos, ouvimos e lemos os grandes títulos que têm até a virtude de ser muito comentados por políticos em desuso, mas que se esfarrapam a ver se entram de novo no uso.

A pandemia anda por aí a bater às portas. A mim calhou-me um telefonema do meu filho a dar conta que estava sem cheiro e sem sabor e a saber como me sentia. Uma ligeira dor de cabeça disse-lhe. Antes do teste acertei.

Não venho trazer nada de extraordinário, apenas um serviço SOS 24 que dignifica a nossa comunidade. Começo por dizer que não é fácil ser atendido e quando se é atendido e se vai todo lampeiro a nossa interlocutora ao passar-nos para outra enfermeira afunda-nos. Volta tudo à estaca zero. E quando nos dizem que vão passar a outra sentimos que vai tudo por água abaixo. E foi.

Voltei ao contacto e decidi que tinha sintomas de covid. Tudo mais simples. Foi me passado o teste que deu positivo.

Fiquei em casa quase sem sintomas. Todos os dias me ligavam do centro de saúde de 7 Rios a saber como tinha passado. Sem novidades. Ligeiríssimas dores de cabeça. Hoje anunciou-me o fim da clausura e amanhã dia 30 a rua será minha, mesmo minha, mais ainda do que antes da covid. Se virem alguém a olhar para a velha Estrada de Benfica como se fosse nova é apenas mais uma consequência destas pequeníssimas notícias que enchem a nossa comunidade.

Estas notícias não chegam nem de perto, nem de longe às garrafais notícias. Porém, sem todo este arsenal de médicas, médicos, enfermeiras e enfermeiros, não seriam seguidos e aconselhados dezenas de milhares de portugueses.

Tenho consciência das dificuldades que o país atravessa. Há dezenas de milhares de técnicos a ajudar. Aqui deixo a minha mais sentida homenagem pelo trabalho invisível que torna a nossa comunidade mais forte e humana.

Asfixia da justiça

Os problemas com o Ministério da Justiça estão ao rubro, mas em causa estão problemas relativamente superficiais que assentam em placas bem fundas na sociedade que impedem a máquina da Justiça de funcionar como devia. A Justiça em Portugal é refém de um bloco central alargado. Acresce que num país de muita gente submissa porque precisa de um encosto para se governar, a Justiça é encarada como uma enorme reverência, sobretudo no que aos juízes diz respeito. Poder é poder. E o poder impõe respeito e o respeitinho é muito bonito.

Estabeleceu-se uma espécie de Tratado entre o poder político e as magistraturas – os magistrados funcionam, e o poder político atende as suas reivindicações mais prementes.

Depois cada um vai para seu lado e faz mais ou menos o que quer sem grandes sobressaltos.

Não é preciso ser um grande crânio para entender que, num país onde um ex-Primeiro-Ministro é acusado de gravíssimos crimes, se impunha o julgamento mais célere possível dos arguidos para se apurar até que ponto as acusações seriam provadas ou não provadas.

Qualquer cidadão tenha ou não votado no Engenheiro Sócrates sente a importância de se confirmar ou não a acusação.

A República Portuguesa e as suas instituições só ganharão se os tribunais condenarem um criminoso ou absolverem um inocente.

O que nenhuma instituição, nem a vida pública ganharão é que se prolongue há quase oito anos este processo que ainda aguarde decisão instrutória.

Sejamos claros – nada, mas mesmo nada justifique este pântano onde vai apodrecendo a credibilidade da Justiça. A partir do mesmo que o Ministério Público considera que um ex-Primeiro-Ministro está envolto em crimes gravíssimos (num momento de expansão do populismo de extrema-direita) impunha-se por parte do governo afetar todos, mas todos os meios, para que o processo tramite o mais rapidamente possível, afetando o que for necessário para que se faça o julgamento, caso a instrução conclua desse modo.

É um escândalo que meses após meses se aguarde a decisão instrutória depois de anos e anos de investigação e anos de instrução.

É o Estado que tem toda a responsabilidade. Sócrates e os restantes arguidos usam os direitos que a lei processual penal lhes confere. O Estado tem todos os meios para fornecer às magistraturas o que elas precisam para que o país acorde com a realização de um julgamento equitativo e limpo. Se o Estado não se importa, assobia, faz de conta e deixa que o processo ao cabo de oito anos ainda aguarda decisão instrutória está a permitir que os cidadãos desconfiem das instituições e deixem de acreditar nas instituições, incluindo na Justiça. As magistraturas têm algo a dizer e importa que não continuam a olhar para ontem, esquecendo o hoje.

Não se morre se a justiça for deturpada, amesquinhada, ou se chegar a más horas. Todo o tecido social se gangrena quando se deixa envolver por morbidezes que impedem a sua regeneração.

Os governos têm os meios. Ao não conceder esses meios está a contribuir para a erosão social que anima o desânimo, o populismo, o pelotão dos desesperados, que favorece a corrosão das instituições. De que têm medo os governos que permitem este estado de coisas?      

https://www.publico.pt/2021/01/24/opiniao/opiniao/asfixia-justica-1947712

A argamassa do Bem e do Mal de André Ventura vem de muito longe

O ser humano é “naturalmente” de direita no sentido que escreveu Eduardo Lourenço na obra “A esquerda na encruzilhada ou fora da História, Edição Gradiva” ”… o triunfo da força sobre a fraqueza, como fazendo corpo com os privilégios de toda a espécie … assumidos e vividos como forma de privilégio social…”. O que é, aliás, mais consentânea com a própria Natureza e daí a luta sem tréguas em que os fortes esmagam os fracos. Já António Vieira no século XVII falava dos peixes grandes que comem os pequenos numa alegoria à sociedade esclavagista e profundamente desigual.

O discurso de ódio de Trump contra os imigrantes, as minorias, as mulheres, os homossexuais, com os argumentos mais primários dirigem-se a esses sentimentos de brutalidade próximos da Natureza com as suas leis de sobrevivência; como se a comunidade humana se baseie nas leis da Natureza, como se todos os degraus civilizacionais voltassem ao chão da selvajaria.

Assinala António Damásio que o ser humano caracteriza-se igualmente pela elevação dos sentimentos de sentir compaixão pela dor dos outros e daí até as primeiras manifestações pelos mortos; uma espécie de passaporte sentimental como é o caso dos primeiros sepulcros na expressão de Edgar Morin (“L`homme  et la mort”, Edição Points ), para não deixar os mortos à mercê das bestas.

E que caminhos se percorreram desde a pré-História até hoje, quantos milénios? E a natureza humana sendo a mesma que no tempo de Homero e Sócrates capaz de dar guarida aos refugiados como nas tragédias de Ésquilo, é também a mesma que persegue e legitima o esclavagismo, a servidão da gleba e o imperialismo. A mesma que derrubou a monarquia e o feudalismo em França na revolução de 1789, o czarismo em 1917. A mesma que colocou Hitler no poder. A mesma que deu maiorias a Trump e a Bolsonaro. A mesma que em Portugal abriu as portas com Abril de 1974. Tanto caminho para se chegar aqui.

Já se discutiu nos EUA (não há muito) se, tal como acontece na Arábia Saudita, as pessoas podem assistir às execuções públicas, como há séculos nas punições da execução por fogueira do Santo Ofício. Talvez o cheiro da crueldade seja a aspiração máxima deste desmando de crueldade. Somos todos filhos do tempo, todos.

Os sentimentos mais básicos, mais primários que existem dentro de cada ser humano poderiam eventualmente dar maioria à pena de morte e levar a desistir da reinserção social, princípio luminoso que nos norteia enquanto sociedade avançada e civilizada.

A ideia de uma ditadura do Bem sobre o Mal insere-se nessa faceta terrível do percurso humano, pois quem define o Mal é quem define o Bem, ou seja, o Bem e o Mal nas mãos da mesma entidade totalitária, detentora desse poder absoluto capaz de decidir o que é o Bem e o Mal.

O Bem para André Ventura é a canalização das energias primárias contra os outros numa espécie de guerra santa para legitimar a violência contra os excomungados no plano social, para ir laminando por camadas os diversos inimigos até ficarem só os eleitos da ditadura do Bem. A “guerra” anunciada em cartazes por todo o país é contra os mais fracos e desprotegidos para os eliminar por constituírem um insucesso e darem prejuízo. Os seres humanos equiparados a empresas que devem fechar os olhos em caso de insolvência ou falência.

Por outro lado, é um recuo milenar às velhas religiões do Bem e do Mal, como o zoroastrismo, só que com a introdução dos velhos preceitos religiosos para a esfera política, o que constitui a liquidação do Estado de Direito democrático.

A sociedade dividida entre os puros e os impuros com a ideia subjacente de que os puros têm o direito de se livrarem dos impuros – ciganos, judeus, migrantes, refugiados, pobres e marginalizados e outros.

Esta ideia só faz percurso porque há nas sociedades atuais muita gente desprezada, humilhada que se quer “vingar” do sucedido e na sua visão o que tem de imediato no plano social para responsabilizar por essa situação é o mais fácil, os que Ventura aponta como quase delinquentes. É neste rebanho que o pastor André prega e recruta almas para as vender aos seus patrões.

A argamassa do Bem e do Mal de Ventura vem de muito longe | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Desgorgomilados, os frugais holandeses

Os austeros governantes holandeses sempre vigilantes em relação aos países do Sul que só pensam na boa vida foram apanhados com a mão em milhões de euros que pertenciam aos cidadãos e famílias daquele país.

Austero de aparência, mas com alma de esmifrador, o governo frugal deu instruções aos funcionários das Finanças para levar à desgraça de pelo menos vinte e seis mil famílias holandesas através de falsas acusações de fraude fiscal.

São assim os puros, isto é, os frugais, os que põem mulheres nas montras de Amesterdão para chamar os pecadores do Sul. Os que para apresentar belos défices promovem falsas acusações de fraude fiscal aos seus concidadãos. São os mesmos que de braços abertos recebem os lucros do Pingo Doce e Cªa.

Que alarvidade, perdão, que frugalidade.

Um Presidente de direita e um candidato em segundo lugar da extrema direita?

Se Marcelo for o eleito e se André Ventura ficar em segundo lugar haverá uma nova situação política.  O Chega é um partido que quer destruir (declara-o) o sistema saído da revolução e plasmado na Constituição aprovada por todos os partidos, menos o CDS.

Marcelo tem afirmado nos debates ser da direita social. André Ventura tem repetido à saciedade que pretende destruir tudo o que se fez nos últimos 46 anos. Por isso não se estranha que tenha aparecido com Marine Le Pen de braço dado em 8 de janeiro em campanha eleitoral. Quer mesmo aparecer como é, chefe do partido irmão da Frente Nacional.

Ventura gaba-se do seu ódio aos mais desfavorecidos desde os precários aos desempregados, aos trabalhadores, aos migrantes, aos ciganos, aos que vivem nos bairros sociais, a quem vive do seu labor. Bajula os multibilionários que na sombra manejam os cordelinhos. Ventura anuncia com grande clamor vontade de arrasar o que o 25 de Abril moldou na nossa vida coletiva. É  testa de ferro de um setor da burguesia compradora que disputa com outro setor da burguesia o poder para alterar as regras e abocanhar riquezas que estão no setor público e criar outras condições para outros voos e grandes negócios, eventualmente mudar de mandarins externos.

 Pretende arrebanhar os diversos descontentamentos de camadas desprezadas ou fustigadas pelos dramas sociais e através de uma linguagem boçal tentar junto dessas camadas procurar o que de mais primitivo está em todos os seres humanos. Acena com o mais primário, com o que sai sem qualquer travão, isto é, a vulgaridade. Serve-se da superfície e esconde onde assentam os problemas e dispara. Anuncia a destruição do mal, como se fosse um pregador, quase um evangélico. Daí o seu sistemático ataque ao Papa Francisco. Prega como na Idade Média a violência para exorcizar o Mal e impor o seu Bem. Não anuncia a fogueira, apenas a prisão perpétua e a castração química. E penas, mais penas, escondendo que os países com medidas penais mais pesadas não resolveram os problemas da criminalidade e são os que têm maior índice de criminalidade violenta.

Ele não quer ser o Presidente de todos os portugueses, apenas o dos nababos dispostos a fazer dos outros uma espécie de servos modernos recebendo o que lhes quisessem pagar. Querem o país só para eles, desde as escolas aos hospitais passando pelo próprio ar que respiramos. Querem a rédea solta.

Nesta conceção, governar não é a arte do compromisso, mas sim a violência da força do Estado contra os outros à boa maneira de Trump.

Se André Ventura ficar em segundo lugar seguramente que irá ter mais força para avançar com o seu projeto. Já chegaram ao governo nos Açores. Querem agora ganhar força e cercar o PSD para lhe impor acordos em que importantes ministérios ficariam nas suas mãos.  Animado pelas vitórias de Bolsonaro, Trump, e pelo avanço da extrema-direita Ventura sente-se embalado.

Os democratas não podem fazer de conta que não sabem o que aconteceu no Brasil e nos EUA. Os resultados estão à vista. Trump incitou à invasão do Capitólio. Depois do fiasco condenou. Ventura que se gabava de ser uma espécie de gauleiter de Trump, tendo sabujado um convite para a Convenção Republicana, também condenou, noblesse oblige . O seu ídolo já “condenara”.

Ventura segue na mesma senda. Vai aos debates para “arrasar”, deve ser de ter sido comentador de futebol. Debater consiste em pegar numa fotocópia, exibi-la e está feita a prova que o adversário é um destruidor e um aniquilador da economia. Sente-se no seu olhar aquela mistura de subserviência aos de cima e de crueldade para os outros, sobretudo para os mais desfavorecidos, culpando-os por serem o que são, como se estivesse apenas na sua mão o seu destino social.

As sondagens dão a Marcelo a vitória. E se assim for é de crer que as esquerdas maioritárias no país permitam que para o cargo mais alto da nação seja da direita. E o lugar da extrema direita? Que cada candidato analise o que está em cima da mesa. O PS estendeu a passadeira ao candidato da direita. O BE e o PCP estão a medir forças. Que é preciso fazer para impedir que a extrema direita fique em segundo lugar? Que cada candidato ou candidata assuma a responsabilidade. O Chega e o Sr. Ventura estão à esquina de dentes afiados. Ventura já disse o que queria. Quem não o ouviu?

https://www.publico.pt/2021/01/11/opiniao/opiniao/presidente-direita-segundo-candidato-extremadireita-1945770