Em defesa do livro não deixem o vírus matar Camões

 Hoje, Dia Mundial do Livro, autores, editores e livreiros estão em perigo.

Tolstói ou Dostoievski, Shakespeare e Camões, Camilo ou Eça vivem, como Portugal, como o mundo, a situação calamitosa que afecta dramaticamente a nossa forma de vida, as pessoas e as empresas. Sim, os grandes romances, os grandes ensaios, os livros de ciência ou de filosofia, tal como os editores e livreiros que são a sua casa, acabam de sofrer um violento abalo. Fragilizados pelas crises económicas de 2008 e de 2011, editores e livreiros são agora, como resultado directo desta pandemia, confrontados com a mais dura ameaça que o livro já experimentou em Portugal. A espada de Dâmocles, que é a insolvência de editores e o fecho definitivo de muitas livrarias, paira sobre as nossas cabeças, sobre a cabeça dos grandes livros e dos grandes autores, o que o empobrecimento salarial dos leitores, já de si uma minoria da população, mais reforça.

E esqueçam os choradinhos e peditório economicista, por mais legítimo que ele seja. Não vos estou a falar só de uma actividade económica. Ao falar do livro, estamos a falar de um sector estratégico para o futuro de Portugal, de um sector fundador para todas as outras actividades económicas. Como as neurociências cada vez mais atestam, o livro, a leitura de livros, é imprescindível para a obtenção e solidificação do conhecimento.

Se o futuro de Portugal passa, como todos acreditamos, pelo conhecimento, pela ciência, pela matemática, pelo avanço tecnológico, então o livro é a pedra basilar desse edifício. É a mais avançada ciência do mapeamento do cérebro humano que o afirma, garantindo que esse livro a que os cientistas se referem não é apenas o livro escolar ou técnico, de pura aprendizagem. São todos os outros livros, a literatura, poesia e romance, o Dom Quixote e As Mil e Uma Noites, Fernando Pessoa e Walt Whitman, que alimentam a inteligência emocional dos leitores, oferecendo-lhes uma cultura e uma experiência que, só pela vida, seria impossível colher e que lhes dá empatia humana, vacinando-os contra autoritarismos e contra a arrogância do imediatismo de tuítes e redes sociais.

O livro – os livros de António Lobo Antunes, de Jorge de Sena, Agustina, Sophia – é vital para conferir a Portugal o conhecimento de que o nosso futuro precisa e é crucial para a expansão do imaginário e da identidade emocional da comunidade que somos, identidade essencial à construção de um desígnio comum. Por alguma razão, afinal, o Dia de Portugal tem como patrono um poeta e a sua obra, denominador comum para os portugueses. Essa escolha não pode, apenas, ser uma flor de retórica. E quem ama a literatura junta-lhe, num gesto ecuménico, as novas gerações de escritores de língua portuguesa, de África, das Américas e da Ásia, vencedores alguns do Prémio Camões, signo do ideal de universalidade a que aspiramos e que nos empolga.

Cartas na mesa: sem o livro, todas as actividades económicas se empobrecerão. Sem o livro, o futuro das nossas ciências e da nossa tecnologia perde competitividade. Se não escolher a defesa vigorosa do livro, Portugal perde voz no concerto das nações. E esse é o Portugal resignado e sem ambição que todos recusamos.

Salvar o livro deve ser, pois, desígnio dos portugueses, dos cidadãos, do Estado, dos sectores do conhecimento – e de todos os sectores económicos, que, com esse salvamento, estarão a proteger-se e a enriquecer-se. O livro tem de merecer um tratamento de excepção. Não deixemos que, com esta água do banho, se deitem fora esses embriões do conhecimento e do imaginário que são os livros, todos os livros.

Há duas acções imperiosas a desenvolver. Uma a montante, restaurando, junto das novas gerações, o hábito da leitura e o tremendo e poderoso prazer que nela se ganha. Cabe ao sistema educativo repensar métodos de atracção e sedução, cabe aos pais a descoberta do poder lúdico do livro para reforço dos laços afectivos familiares. Cabe ao sistema educativo reparar a catástrofe de tantas opções facilitistas que afastaram as novas gerações do livro. Essa é uma acção a médio e longo prazo.

Mas para que ela possa ser bem-sucedida há uma acção imediata, a jusante, que tem de ser já concretizada: é preciso salvar as edições d’Os Lusíadas, de Hamlet, d’O Principezinho, de Amor de Perdição, que estão nas estantes. É preciso salvar os editores e livreiros portugueses, única forma de garantir a preservação do livro. Salvando-os, salvam-se milhares de autores, de tradutores, de revisores, de tipografias. E salva-se a diversidade, liberdade e independência do livro, contra hegemonias privadas ou estatais indesejáveis.

Consciente de que para tempos excepcionais são necessárias medidas excepcionais, há acções urgentes que precisamos de fazer como quem faz respiração boca-a-boca em emergência crítica. Dou cinco exemplos:

  1. Injecção de volume de vendas com a criação de um cheque-livro familiar, adoptando esta forma simplificada: permitir que cada contribuinte, após a finalização do IRS, possa ainda, e além das deduções já existentes na lei, fazer a dedução integral de 100 €, contra a apresentação de facturas de compra de livros em livrarias. Esta medida tem a vantagem de deixar na mão dos leitores a decisão de compra dos livros, sem dirigismos e sem desvirtuar regras de concorrência.

  1. Aplicação excepcional ao livro (físico ou digital), após a retoma da actividade, da redução a 0 % do IVA, até 31 de Dezembro de 2020, o que permitiria capitalizar livreiros e editores.

  1. Amplo programa de extensão da Feira do Livro às capitais de distrito, envolvendo as autarquias e com a participação activa de livreiros locais.

  1. Alargamento da Lei do Preço Fixo, de 18 para 24 meses, estabelecendo o percentual de 5 % como desconto máximo a praticar por todos os agentes do mercado durante aquele período, evitando assim perdas irreparáveis na cadeia de valor do livro.

  1. Reforço do papel de diálogo, que é o do livro, no universo de língua portuguesa, dando Portugal o primeiro passo ao propor, no seio da CPLP e por período a estudar, a suspensão dos direitos alfandegários aplicados à importação de livros, defendendo a sua livre circulação entre Estados da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa.

Estas são acções fortes e necessárias para garantir que as novas gerações, com as ferramentas que só o livro e a leitura lhes põem nas mãos, dominem o pensamento e a linguagem, criando a ciência, o saber, a beleza, os valores e a democracia que farão de Portugal um país com futuro. É esta a missão a que todos os autores, editores e livreiros querem entregar-se. Vamos salvar Camões, Eça, Hemingway, Kant, Wittgenstein, Virginia Woolf ou Clarice Lispector do vírus fatal. Salvando-os, projectamos Portugal para um caminho de conhecimento, ciência e riqueza emocional. Hoje, dia 23 de Abril de 2020, Dia Mundial do Livro, não deixem o vírus matar Camões.

 

 

Coronavírus e o empacotamento dos velhos

 

As notícias já não são bem notícias, são uma espécie de roleta russa que nos vai revelando o número dos que não tiveram sorte. O mundo acorda e deita-se à espera de melhores dias que tardam. As pestes matam e corroem a alma aos que ficam.

Entretanto, nas águas negras do infortúnio, as televisões encontram o seu melhor mundo. Por ali passam todos os números da desgraça. Muitas vezes com rostos. Outros com os números que falam de óbitos e de mais casos, incluindo os que estão nos cuidados intensivos e até dos recuperados. Os donos dos microfones têm o poder de nos dizer o que eles nos querem dizer.

Mas também diga-se em abono da verdade que se não fosse o Covid-19 os velhos não existiam. Estavam nos tempos correntes empacotados em lares (estranha palavra que quer dizer atualmente despensa, mas que na origem significava as divindades protetoras da família – ainda me lembro de na infância se referir a ir para Penates, outros deuses protetores da casa) à espera que um fim- de- semana um familiar à vez os fosse visitar. Um velho, num mundo de sucesso, vale pouco. É uma canseira ter de pagar a um lar para ter um velho, pois num mundo de lufa-lufa um velho não dá lucro, apenas prejuízo. Num mundo dirigido pela implacável mão justiceira do mercado o velho é uma mercadoria que nem sequer dá para o inventário.

O Covid veio mostrar que afinal o mercado tem de ser ajustado, pois os velhos afinal têm um valor que não é completamente residual, antes constituem um nicho de mercado.

Ao morrerem como tordos são notícia porque apesar do frenesim da vida, as famílias ainda se lembram dos velhos empacotados ao pé de outros velhos que aguardam pacientemente que chegue o dia de alívio dos que os depositaram em Casas de Repouso. As televisões sabem quanto vale em termos mediáticos a morte dos velhos em tempos de Covid.

Na verdade, a morte de um velho, em tempos normais, não é grande notícia, não passa do esperado.

O que pode estar a acontecer é que ainda não se tenha extinguido a memória do familiar encavalitado noutros velhos em Casas de Repouso. E a televisão vai dando conta da via- sacra dos velhos infetados a caminho de onde os queiram, pois nem sempre se consegue empacotar nas devidas condições um velho, e muito menos um velho com Covid.

Nestas circunstâncias é sempre algo de muito apetecível verificar como desempacotar velhos que já não podem continuar a repoisar nos lares onde estavam a aguardar a visita do familiar, muitas vezes escolhido à sorte entre os tais familiares.

Os espectadores adoram ver estas coisas em direto, falta claro o cheiro a sujo, a urina, mas o velhinho ali está a passar um mau bocado porque afinal não repousava na casa do repouso; apodrecia.

A pandemia trouxe para a tona dos dias o quanto valem os velhos em termos mediáticos. O seu valor que andava muito por baixo subiu um pouco.

Se não fosse a cegueira do mundo talvez os que não são velhos tivessem tempo para pensar que um dia chegará a casa do empacotamento. A pandemia confina, fecha, mas pode abrir os olhos. É certo que os olhos só veem o que querem, mas se olharem e virem no presente o futuro aprenderão muito. A cegueira é a arma dos donos do tempo frenético. Outro tempo virá. O que mais tem o tempo é tempo; os velhos não.

https://www.publico.pt/2020/04/13/sociedade/opiniao/pandemia-empacotamento-velhos-1912025

 

 

 

A FALTA DO ABRAÇO

A pandemia caiu sobre a Humanidade confinando-a preventivamente nos diversos espaços onde cada indivíduo mora.

Quando a pós-modernidade enaltecia o hedonismo, a supremacia do individualismo, eis o choque para nos fazer regressar à nossa humanidade; sem os outros não nos salvaríamos. Somos seres ligados entre todos, cada vez mais, de Hubei a Nova Iorque, de Milão a Tóquio. Só em comunidade os indivíduos podem sobreviver e viver.

A juventude é a mais poderosa força de renovação humana, a que garante a continuidade da vida humana. Neste momento histórico, em que parecia estar de costas para o mundo, ensimesmada, entretida nas mil aplicações tecnológicas vale a pena reconhecer que o problema é outro.

Não são os mais velhos que são mais solidários. A rebeldia dos jovens das décadas de 60/70 estava marcada por um conjunto de circunstâncias únicas. Qualquer jovem que tivesse frequentado o liceu tinha um emprego; um licenciado era um privilegiado, não lhe faltavam boas saídas profissionais. Dispunham do futuro.

No mundo atual cada jovem para ter acesso a uma vida minimamente digna esmifra-se entre diversos ganchos, o que o favorece a atomização. A Juventude não optou pelo em consciência pelo egoísmo. As circunstâncias são estas. E elas moldam as mentes enquanto os quadros dessa normalidade se reproduzirem.

A vida esbarrou nesta crise. Não dependemos dos mercados para sobreviver. As nossas vidas dependem em última instância dos que trabalham na saúde. Pelo que nos é dado ver os enfermeiros são jovens e têm mais de um emprego para poder viver.

É curioso que, até há muito pouco tempo, muitos dos que hoje aplaudem os médicos e enfermeiros olhavam-nos com desconfiança pelas suas reivindicações. Alguns, poucos, é verdade, insultavam e chegavam a agredir enfermeiros e médicos.

São assim os humanos. Sem as leis da comunidade seriam predadores. Açambarcadores. Bichos.

Este é um tempo para enfrentarmos uma prova de fogo. Estamos todos fechados, novos e velhos, sofrendo, em solidão. Claro que podemos contactar uns com os outros e as novas tecnologias facilitam, mas um post é um post. Um abraço é um abraço. A falta que nos faz. Talvez o vírus venha a contribuir para dar ao simples abraço a sua dimensão original. Dois corpos unidos, quentes.

https://www.publico.pt/2020/04/07/opiniao/opiniao/abraco-falta-faz-1911384

 

 

 

Boris Johnson, o Coriolano

CARLOS MATOS GOMES

 

A resposta à epidemia e a metafísica

 

Há dez anos sofremos a crise do subprime, ou do Lehman Brothers. Uma crise longa, com resultados devastadores nas economias e na vida dos cidadãos europeus. Essa crise foi um fator influenciador do Brexit e da ascensão de vários políticos populistas ao governo dos seus países, na Europa e pelo mundo.

A crise do euro, dos resgates, das troikas foi aparentemente resolvida, os mais ricos ficaram mais ricos e os mais pobres mais pobres. Negócio habitual. Mas na Europa as feridas mantiveram-se e numa reunião de há dias, num conselho europeu destinado a discutir medidas de combate à pandemia do Covid-19, elas foram reabertas a propósito da questão essencial da solidariedade entre os estados da União Europeia. Vieram de novo ao cimo os nacionalismos mais ou menos racistas dos nórdicos (germânicos, também) e as visões mais integradoras dos países do sul. Ricos e pobres. Ressurgiu a velha fábula da formiga e da cigarra, a que o então ministro das finanças holandês Jeroen Dijsselbloem deitou mão, dirigindo-se aos países do sul: “não se pode gastar todo o dinheiro em mulheres e álcool e, depois, pedir ajuda”.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Os nacionalistas ricos ganharam então em toda a linha, impuseram medidas draconianas de rigidez orçamental, destruíram empregos, causaram uma crise social, transferiram riqueza do Sul para o Norte, acentuaram as desconfianças entre os povos, puseram em causa a utilidade e até a viabilidade do projeto europeu e, com o argumento da inutilidade da União (que eles promovem), fizeram eleger uma piara de dirigentes populistas à custa das críticas a estas políticas, que, no fundo são as suas, as do salve-se cada um como puder, sem olhar para o lado. O objetivo final era e é matar a União Europeia como espaço decisivo no xadrez político, militar e económico mundial.

A forma como na Europa foi enfrentada a crise iniciada há mais ou menos uma década promoveu a emergência de um discurso político e de atores que, no fundo, justificaram os sofrimentos com as leis naturais, salvaram-se os mais fortes, os mais espertos, pagaram os mais fracos e desprotegidos, evitou-se o crescimento da União Europeia e a sua entrada na arena das lutas decisivas pelo poder no mundo. Esses castradores (ou capadores), que tiveram Durão Barroso como voz do dono na presidência da Comissão Europeia, minando-a por dentro, cumprindo o papel de infiltrado por conta dos Estados Unidos e do Reino Unido, de Bush e de Blair, deram o que tinham para dar, estão agora na “banca privada”, são consultores eméritos, dedicam-se ao lobismo e à manipulação das opiniões públicas mascarados de comentadores. É fatal que esta presente crise ainda em desenvolvimento gere e promova novos atores, uma nova tropa de arruaceiros políticos armados com um discurso adaptado às circunstâncias e com os velhos truques embrulhados noutras roupagens.

Nas Américas, do Norte e do Sul, a nova pregação já está em pleno desenvolvimento (nunca deixou de estar) através dos evangelistas, do discurso milenarista, das mixórdias bíblicas, da promessa de uma salvação baseada na fé e no saque aos miseráveis, aos recursos naturais, no primarismo e no aproveitamento do desespero. No final, reinará o complexo militar-industrial americano. E na Europa, a nossa terra-mãe? A Europa, nunca tendo sido uma entidade política, exceto, talvez, durante as Cruzadas, dispõe de uma civilização com dois mil anos de fermentação, nascida na Grécia, uma religião milenar com o seu sistema de valores, produziu ao longo de séculos sistemas racionais de interpretação do mundo, separou a Igreja do Estado e resistiu com algum sucesso à epidemia do populismo, manteve-se em banho-maria. As injeções de venenos para matar a Europa como ator de relevo mundial têm, por isso, de ser ministradas por celebrantes mais sofisticados. A Europa é, numa imagem popular, um lar de velhas meretrizes que podem ser seduzidas, mas são relapsas às paixões. Para as rugosas madames se deixarem levar é necessário um sedutor competente, um proxeneta de alto gabarito, e os que apareceram a candidatar-se a galo da capoeira foram até agora figuras menores e sem credibilidade. A exceção foi Boris Johnson, o populista triunfante revelado no Brexit da Inglaterra.

Esse populismo triunfante parece ser o que apresenta as melhores condições para tomar o facho do populismo europeu no pós segunda crise. A situação na Europa está hoje politicamente muito mais apodrecida do que há dez anos, e os europeus mais disponíveis para acolher um salvador, alguém que convença as velhas damas de prazeres a desmontarem o bordel e a voltarem a trabalhar por conta própria. Julgo que o novo Messias do populismo da segunda vaga será Boris Johnson, apesar da imagem de desajeitado, de ser cambaleante, propositadamente desmazelado, de anti sex simbol, o que transmite confiança, pois não é agressivo, nem assusta. Há quem o apelide de palhaço. Seja. Mas o palhaço é a alma do circo! Boris Johnson lembra-me uma personagem de Shakespeare, Coriolano, por sua vez inspirado na obra de Plutarco «Vidas dos Nobres Gregos e Romanos».

A tragédia Coriolano deve ter sido a última escrita por Shakespeare e expressa a visão de um observador genial da humanidade no ocaso da vida. Coriolano reflete uma opinião desiludida, irónica, depressiva da humanidade, num anticlímax, como o que hoje vivemos. Shakespeare, em Coriolano, apresentou os poderosos do mundo fascinados por eles próprios, narcísicos, orgulhosos, atentos às circunstâncias e, principalmente às suas conveniências, mas também cegos e sem consciência dos seus limites. Personagens que atraem multidões e provocam emoções, como os cometas. Os ingleses utilizam a expressão “we are doomed!” (estamos condenados, ou lixados) quando querem referir a aproximação de um cataclismo, que tanto pode ser um raio letal, um asteróide, como um maltrapilho com poderes mágicos e de quem se espera o melhor e o pior. Apostam neles como nos cavalos de corrida! Já agora, ad latere, um dos grandes campeões no século dezanove teve até o portuguesíssimo e vernáculo nome de “Filho da Puta”!

Não sou, muito longe disso, especialista em Shakespeare (aliás, não sou especialista em coisa alguma), mas por razões que não vêem ao caso emprateleiram-se cá por casa muitas obras de Shakespeare em várias versões, maioritariamente em inglês, entre elas encontrei uma tradução em português, da antiga Lello & Irmão, do Porto, de que me voltei a servir com o gosto da releitura em circunstâncias diferentes. Coriolano já constituía para mim a personagem mais fascinante da galeria de Shakespeare. Era, em meu entender, a personagem mais diretamente envolvida na luta pelo poder. Apesar de Coriolano ser apresentado por alguns conceituados shakespirianos como um antipopulista trágico, agora, ao reler a tragédia com os olhos de hoje, deste tempo, vi nele a matriz do que imagino será a nova vaga de políticos populistas que irão surgir na babugem da crise e de que Boris Johnson me parece ter as condições para servir de referência, ou modelo. É a minha leitura. Rever a personagem de Coriolano pode ajudar a conhecer o mais brilhante dos seus sucessores, aquele que, julgo, será o líder populista do futuro na Europa.

Ler Coriolano ajuda-me a compreender Boris Johnson, que é, em minha opinião, o mais insidioso e eficaz vírus do populismo europeu. Shakespeare, através de Coriolano, explica não só como chegámos a esta espécie, como nos fornece pistas sobre modo de infetar dos vírus que lhe sucederão. Boris Johnson é um revelador das pandemias futuras, daí a sua importância.

Tal como Coriolano foi no seu tempo de cônsul romano, Boris Johnson é um aristocrata a vários títulos, por origem familiar, por pertença social, por cultura, o que o distingue das torres de Trump ou de vermes como Bolsonaro. Boris Johnson, tal como Coriolano, entende e assume que para os nobres como ele as virtudes e defeitos são naturais e equivalem-se, são inseparáveis e da mesma grandeza. Para ele, as virtudes, sendo privadas, servem pouco na arena amoral e impiedosa da política. As ações arbitrárias são bem-vindas sempre que reforcem o poder. O crime é um instrumento, nada mais. Desprezam a virtude, a moral, a ética. A natureza de personalidades como Coriolano ou Boris Johnson não se altera perante qualquer catástrofe, e apenas temem aquilo que Aristóteles designou como erro trágico, ou hamártia, o mal (o que neles equivale a uma ação com maus resultados) cometido pelo protagonista de uma tragédia, que origina a peripécia que o derruba.

Não deixa de ser revelador que seja o governo do Estado que desenvolve a política fiscal mais agressiva de captura de capitais dos outros estados, da sua riqueza, a Holanda, o menos solidário. Que seja o Estado mais próximo do gangsterismo neoliberal o que mais desenvergonhadamente acusa os outros de mau governo!

Boris Johnson, tal como Coriolano, governa em conflito, de um lado a sua arrogância pessoal, de aristocrata e do outro a realidade política, que o opõe aos tribunos populares, no caso atual os membros do parlamento inglês escolhidos para representar os interesses das pessoas comuns, os eleitores. No Brexit, Boris Johnson agiu como Coriolano contra os tribunos, os MP, incluindo o simpático que gritava Order!, pateticamente, e que tentavam bloquear as tentativas que levou a cabo de impor a sua vontade e de se apresentar ao povo como o herói que lhe satisfez as suas aspirações, incluindo as traições a Theresa May. Boris Johnson, tal como Coriolano, pretende governar saltando por cima dos deputados e do parlamento e fá-lo-á, está a fazê-lo. Este salto, ou by pass, é o sonho de todos os líderes populistas, mas ele conseguiu implantá-lo sem dor e com a conivência dos subjugados. Venceu a guerra sem combate, a prova do génio do general, segundo Sun Tzu. O Parlamento Inglês é hoje um balcão da geral dos teatros onde uma claque bate palmas ao cônsul Boris Johnson, agora com poder absoluto (apesar de infetado) depois de banir os adversários. Resistem os bárbaros escoceses, mas julgo que se servirá deles, soltando-os do Reino Unido sem real tristeza, para se servir da sua secessão como exemplo a seguir por outros nacionalismos europeus…

Na peça de Shakespeare, tal como na atuação de Boris Johnson, vemos num primeiro ato uma mistura de elementos aristocráticos e democráticos e, num segundo, a derrota do regime de poderes balanceados que existiu no senado até Coriolano tomar o poder. Boris Johnson, do mesmo modo que Shakespeare representou Coriolano, toma a multidão e seus tribunos eleitos como os inimigos da prerrogativa hierárquica e, no seu caso, aristocrática.

Os líderes populistas europeus pós crise vão copiar os métodos de Boris Johnson e seguir os seus princípios. O seu programa assenta no confisco do poder pela demagogia, mesmo à custa de provocar a anarquia, o que para os ingleses pode ser aliciante. A apregoada disciplina dos ingleses é aparente e fruto de uma sociedade estratificada e hierarquizada. Sóbrios, os ingleses são obedientes, nada mais. O modo como os lordes tratam os criados, os cavalos e os cães são exemplares da ordem inglesa. As assistências aos jogos de futebol da Premier League explicam a diferença entre a sobriedade e a bebedeira nas classes médias e baixas inglesas, nas multidões.

Em Coriolano os homens são guiados por uma luz que os cega. Boris Johnson sabe que a multidão é facilmente encadeável e manipulável. Não tendo nenhuma filosofia política consistente, a multidão seguirá qualquer pregador que saiba aliciá-la com promessas agradáveis. A partir da tomada do poder fornecerá um programa de venda contínua de emoções. Será um take away de promessas. Receberá o desprezo das multidões e o aplauso com o mesmo sorriso e o mesmo gesto de desgrenhar os cabelos. É o comportamento que vemos à porta do 10 de Downing Street, ou na entrada do Parlamento. Para ele a multidão, a populaça, é uma “hidra com muitas cabeças,” sem direção e irresponsável. Em privado, falando aos da sua classe, Coriolano descreve a multidão como uma turba mal cheirosa, “de hálito fedorento”, “pescoços enfumaçados”, “fétidos bonés engordurados” e “dentes sujos”. Os cidadãos romanos são um rebanho, “comedores de alho”, “patifes como as raposas e os gansos, insolentes e sediciosos”.

Esse retrato deliberadamente repulsivo de Coriolano sobre os romanos não é muito distinto do que Boris Johnson terá dos londrinos e dos ingleses em geral. Excrementos. É o mesmo que o ministro das finanças holandês tem dos latinos e os populistas latinos, que Le Pen, Salvini, o espanhol do Vox e o português do Chega têm, por sua vez, dos ciganos e imigrantes em geral.

Os novos tribunos que surgirão no rescaldo desta crise do Covid-19 estarão dispostos a desencadearem a violência da multidão para alcançarem os seus objetivos, encorajarão a “populaça” a agitar-se à sua ordem. A sua estratégia, como a de Coriolano, será a de fomentar o clamor, sobrepondo a histeria à razão, como escreveu Shakespeare. Na peça de Shakespeare os tribunos temem que Coriolano busque “um só trono, sem assistência” e que suprima as liberdades. Não é um medo infundado, e os próprios amigos de Coriolano o aconselham a somente atacar os tribunos, os eleitos, apenas depois de alcançar o poder, não antes.

A insolência aristocrática de Boris Johnson é a reprodução do desprezo de Coriolano pelo povo de Roma, a quem tratava como “trapaceiros discordantes” e como “cães rafeiros abaixo da abominação”. Boris Johnson demonstrou durante o processo do Brexit ser relutante no cumprimento da Constituição (de normas arrevesadas para um não indígena) e em submeter-se aos cidadãos, mas soube interpretar com falsa humildade o papel de leal servidor da Coroa que eles lhe pediram em troca doa seus votos.

Melhor morrer, definhar de fome
Que mendigar a paga que merecemos.
Por que ficar aqui em túnica de Job
A implorar a um José Ninguém
O seu voto dispensável

“É um papel, que eu até coro ao representá-lo,” confessa Coriolano aos seus amigos na peça de Shakespeare. Mesmo aqueles que admiram os seus talentos concedem que é desagradável aceitar bajular o povo para ter o seu amor, mas esse é o preço a pagar para não ter contra ele a sua má vontade, ou, pior, o seu desprezo. Coriolano professa em público o amor ao seu país, mas é um patrício e tornar-se-á um traidor contra uma Roma que dá voz política aos plebeus que ele tanto abomina. É assim também o seu patriotismo — o amor à Britânia pátria amada — de Boris Johnson e dos populistas que o imitarão. Aconteça o que acontecer, Boris Johnson acredita como Coriolano que as prerrogativas da aristocracia (seja a de sangue seja a dos negócios) são os únicos bastiões de Roma (tal como de Londres) contra o caos. Boris vê o povo como um seu rebanho privado, insaciável e irracional, instintivamente invejoso dos seus melhores, mas felizmente incapaz de compreender às subtilezas do governo — a série Yes Minister é uma boa caricatura da apreciação do povo feita pelos líderes populistas. Coriolano sabe que a tendência que hoje diríamos do politicamente correto, a moda, é a de agradar às exigências populares com o compromisso, mas os populistas preferem uma escaramuça a fingir de batalha, como Boris Johnson no conflito para a aprovação do Brexit. Ele tentará que os outros acreditem que o erro está no mundo em vez de em si.

A tragédia Coriolano descreve uma sociedade fascista? Coriolano era um proto-fascista? Há que analisar as situações no seu contexto histórico. O fascismo contém elementos de populismo, de egoísmo, de demagogia, de racismo, incluindo o de classe social e atores como estes da tragédia Coriolano, mas o populismo Boris Johnson e dos que o replicarão será uma adaptação do poder dos tiranos à capacidade de ler a realidade das contemporâneas sociedades caraterizadas por fracos laços de coesão, constituída por indivíduos atomizados e à mercê das tecnologias da manipulação.

Que antídoto para os Coriolanos? Identificá-los e barrá-los à nascença, por muito fascinantes que pareçam as suas promessas e até as suas vitórias. Levar Boris Johnson a sério ajuda. Como ajudou Ulisses a escapar ao canto das sereias, porque conhecia o resultado de seguir os seus cânticos.

Qual o fim de Coriolano?

Coriolano acaba morto por Aufídio, o general aliado, depois de o ter traído assinando uma paz com Roma. A sua morte foi necessária para que a sociedade romana pudesse reconstruir um regime republicano (democrático). Coriolano foi vítima do seu êxito, sacrificado para instaurar uma nova ordem. Boris Johnson sabe, como Coriolano, que o seu caminho só pode terminar com a sua morte política. Se negociar com Bruxelas um acordo, mesmo que seja um acordo favorável a Inglaterra, estará morto por não ter conseguido a vitória absoluta de destruir a União Europeia. Se tiver destruído a União Europeia estará morto porque nada mais lhe resta do que ser um herói inútil.

Na peça Galileu de Bertold Brecht, o seu destino é o do herói que não encontra quem precise dele.

Pandemia- Por um tempo novo

 

Já não nos bastavam os mortos queridos que carregamos. Agora a todos os minutos pesam-nos os mortos que em todo o mundo sucumbem à Covid-19.

De repente, o mundo do glamour de jovens apolíneos e cheios de saúde dá lugar a outro mundo esquizofrénico de desassossego constante acerca das mortes nos lares, nas casas de saúde e nos hospitais.

A globalização do individualismo narcísico está a dar o passo ao espetáculo da morte dos infetados.

O que ficava escondido nos reposteiros das camas dos lares e hospitais até ao derradeiro telefonema escancara-se agora ad nauseam.

Num ápice em vez do altar do individualismo cheio de brilho e de estrelas cintilantes, sempre renovadas porque o show must go on, surge um mundo em que os indivíduos para se salvarem têm de defender a comunidade e a própria Humanidade.

O mundo dos epicuristas exacerbados dá lugar ao dos estoicos.

Agora já não valem muitos os likes. É a vez de dar valor aos epidemiologistas, virologistas, matemáticos, médicos, físicos, cientistas, enfermeiros, os que sabem devido ao seu esforço. Os tais heróis que amanhã, se não aprendermos, voltarão à sua categoria de meros “empregados”, quiçá alguns precários.

De repente, eis o que o tempo, desde que não se sabe quando até aos seus confins, nos mostra a fragilidade de que são feitos os humanos.

Afinal não somos Deuses; mas apenas uma maquinaria tão bem afinada que, apesar disso, espera-nos inexoravelmente a finitude. Talvez, por essa razão, dizem os que pensam e sabem.

Eis, nestas semanas de chumbo, o valor do esforço dos que arregaçaram as mangas, enquanto as Bolsas de Valores oscilam, mostrando a sua verdadeira face. Uma crise é sempre uma oportunidade para quem souber jogar. O mal é para os não podem ir a jogo…

Os charlatães continuam a discorrer sobre tudo o que a sua ignorância não os envergonha. Em verdade esta não é a sua hora, mesmo que se chamem Bolsonaro ou Trump. O ridículo cobriu-os com o vestuário adequado aos personagens que são.

Já alguém tinha escrito com toda a verdade – não se pode enganar toda a gente todo o tempo.

Este é um tempo que nos obriga a pensar, tal como o fazem os prisioneiros, ou os confinados em defesa de todos. Um outro tempo sem ser a fazer de conta, uma espécie de carneiros ou Marias que vão umas com ou outras ou Maneis.

Dizendo-se, a nossa Europa católica/cristã, a esmagadora maioria está-se borrifando para o exemplo do judeu da Nazaré que aos 33 anos foi martirizado na cruz para salvação do mundo, segundo os que acreditam ou fazem de conta.

Todos estes mortos que nos batem às janelas da alma impõem que reflitamos sobre a nossa condição humana, devendo ser mais íntegros, mais solidários e que ultrapassemos o império do dinheiro, das desigualdades e da hipocrisia.

Há caminhos por fazer. Um tempo novo, com a consciência que no íntimo de cada um pouco se mudou desde Tales de Mileto, Einstein até aos nossos dias. Bom seria que se reflita mais sobre a nossa essência e se projete um tempo novo.

https://www.publico.pt/2020/03/29/sociedade/opiniao/pandemia-mortos-tempo-novo-1909972

 

 

 

A PANDEMIA, O ESTADO E A GARGANTA SEM VOZ DOS NEOLIBERAIS

 

É natural que aos ideólogos do neoliberalismo lhes falte a voz nesta altura em que o SNS constitui a defesa dos portugueses face à pandemia.

Os médicos e restantes trabalhadores da saúde do SNS são a primeira linha do combate o vírus assassino; não porque não haja nos que trabalham no setor privado gente solidária e competente, mas porque é o Estado o único capaz de o fazer. O setor privado não compareceu. Ou compareceu para ganhar mais uns “tostões” com os testes.

Não se trata de qualquer obsessão pelo Estado, mas é evidente que a sua centralidade num Estado de Direito democrático e Social se revela decisiva.

Portugal neste tempo de pandemia depende do SNS. Afirmá-lo em voz alta é tão natural como oxigénio que se respira.

Quem faz melhor quando o desafio tem esta envergadura? Que fez o sistema de saúde privado?

O SNS abandonado para salvar os bancos da ganância não é nenhuma maravilha, nem sequer adequado à missão, mas nesta luta titânica é ele que nos está a salvar.

Ao afirmá-lo não se quer dizer, ao contrário do que por aí se escreve, que os liberais não querem Estado. Querem, querem, ai se querem… A questão é – para quê? E a resposta é simples – para que do alto da sua maquinaria administrativa, securitária e militar assegure que o essencial da estrutura das sociedades dominadas pelo neoliberalismo se mantenha, isto é, que assegure que a riqueza produzida seja distribuída de modo a que o setor financeiro se locuplete à fartazana, que os multibilionários engordem à custa dos baixos salários ou dos despedimentos selvagens. Sem Estado os liberais não conseguiam esta “façanha”.

Sem o Estado a proteger a saúde dos cidadãos seria a corrida às armas, como acontece nos EUA. Nesta conceção de modo de viver os homens são os lobos (sem desprimor para esta espécie) do próprio homem. Veja-se o tipo de Estado e de sociedade com Trump ao comando. O importante é ter armas para se defenderem dos seus compatriotas, não é a saúde pública; cada um que trate de si e para tal armas na mão.

É o Estado através das suas funções na Saúde, Ensino, Segurança Social, Administração Interna quem pode deitar a mão aos portugueses, mesmo quando há tantas insuficiências e falhas. Essa é que é essa.

Não são gritos, nem gritinhos como alguém escreveu; são clamores de evidência de quem é capaz de tratar da saúde das portuguesas e dos portugueses.

Em 2008 pagamos a crise provocada pela gula do sistema financeira que recuperou à custa do empobrecimento geral e depois se instalou também na Saúde para fazer grandes negócios.

Apesar do empobrecimento que impôs o desinvestimento no SNS os ideólogos de direita engolem em seco, não gritam porque já muitos mais cidadãos estão a ver que o rei vai nu. Calam-se a ver se passa a pandemia e de novo se atirarem à Saúde à procura do lucro e quiçá capturando o Estado fazer do SNS um lugar impróprio e, em paralelo, fazerem reluzir a Saúde nos privados em belas parcerias pagas pelos impostos dos contribuintes.

Claro que os privados têm todo direito de terem negócios na saúde, mas que façam à custa exclusiva das suas capacidades e competências. Querem que o Estado que dizem abominar lhes assegure lucros fabulosos e limpos. Sem riscos. A crise pandémica tornou esta evidência mais clara. Por isso ficaram sem voz. Não gritam por parcerias para tratar os doentes Covid-19. Assobiam. E acenam com uns tantos ventiladores. E pouco mais. De todos os modos o que vier, se vier, fará falta. Que venha.

https://www.publico.pt/2020/03/24/sociedade/opiniao/pandemia-estado-garganta-voz-neoliberais-1909176

Não despedir. Apelos urgentes

O tempo que vivemos é de exceção e de emergência. Ninguém sozinho, nenhuma família, nenhuma empresa, nenhuma organização está por si só em condições de responder aos desafios com que se depara.

A resposta tem de vir da ação solidária de todos os cidadãos e de todas as organizações. As medidas que agora se adotam têm de responder às premências e prioridades de hoje e salvaguardarem condições para se reconstruir a normalidade.

Hoje preocupamo-nos em primeiro lugar com a proteção reforçada dos mais velhos, com a proteção na doença a todos, com o abastecimento de bens e serviços indispensáveis, com o melhor funcionamento possível da economia. Entretanto a pandemia está a gerar mudanças múltiplas, outros tipos de “vírus” e novas fragilidades que nos poderão tolher o futuro se, agora, não adotarmos precauções.

Temos a obrigação de tudo fazer para que a crise pandémica não se transforme numa crise social sem precedente. Urge combater o “vírus” da permissividade perante o despedimento, da complacência com o desemprego e as precariedades, da tolerância face ao não pagamento dos salários e à perda de rendimento dos trabalhadores “independentes”. A generalidade das empresas não se aguenta entregue às regras do mercado. Será uma violência contra quem trabalha e contra o desenvolvimento da sociedade, o trabalho e o emprego ficarem entregues às regras vigentes do “mercado de trabalho” e a decisões discricionárias de empregadores.

São acertadas as medidas que procuram evitar uma escalada de falências. Os milhares de milhões de euros em linhas de crédito às empresas de alguns setores, em benefícios fiscais e em garantias diversas é significativo mas, por certo, vão ter de ser feitos esforços financeiros ainda maiores: o país deve recorrer a tudo o que for possível para manter as empresas vivas ao longo da quarentena, por forma a que estas consigam regressar à atividade com pujança, quando os impactos da Covid-19 o permitirem. Mas os apoios públicos – dinheiro de todos – não devem ser concedidos sem a contrapartida de salvaguarda dos postos de trabalho.

A situação que a maioria dos empresários portugueses experimenta é, sem dúvida, extraordinariamente difícil e complexa. Muitos deles, se assumirem a solidariedade que a situação impõe, poderão ter de recorrer a ganhos amealhados ou até ao seu património. Contudo, há que pensar que grande parte dos que perdem o emprego ficam despidos em absoluto de rendimentos e até de dignidade. E a recuperação das empresas e do normal funcionamento da sociedade vai precisar de trabalhadores saudáveis e motivados. É imperioso um apelo a todos os empregadores, desde os grandes grupos económicos até aos empregadores domésticos: resistam à tentação de despedir aqueles de que momentaneamente não precisam.

O Governo tem de adotar os mesmos compromissos na Administração Pública, de garantir uma proteção social a todos e de dar mais atenção a debilidades existentes nas relações de trabalho. O crédito não pode substituir a proteção social. E as medidas adotadas na proteção social jamais substituem a responsabilidade de pagamento de salários e de salvaguarda do emprego.

Investigador e professor universitário