Por que não choram os mercados?

Os mercados passaram a ser entidades reverenciais que comandam a vida das nações e do mundo. A verdade é que nunca ninguém lhes viu a cara ou se lhes dirigiu com petições ou reclamações, nem neles alguma vez votou.

Fazem as suas operações de modo que a seguir a cada uma delas abocanhem milhares de milhões de dólares ou euros ou outra moeda sólida. É de sua natureza querer mais e mais e mais. Quando assim acontece por aí andam a meter o olho do alto do Olimpo deixando os humanos viver segundo os seus ditames.

Se por qualquer instinto de desconfiança sentem que podem deixar de encher todos os sacos do mundo manifestam a sua ira. É também uma das suas características, a ofensa ao terceiro pecado capital da lista apresentada pela Igreja Católica no século XIII.

 Deve, porém, acrescentar-se que tal como Zeus era o primeiro dos deuses da Grécia Antiga, a tendência da era pós-moderna é a nova divindade passar à frente das velhas divindades e daí muitas vezes os sacerdotes das antigas divindades, habituados a servir, se coloquem de joelhos face à nova. Não foi só o imperador Constantino que se converteu ao cristianismo. Mais houve e continua a haver.

Como estão por cima e acima de tudo têm quem por eles zele com máxima dedicação. Os novos zelotas glorificam esta nova divindade constituída una e diversificada e adoram-na dedicando-lhe todo o amor possível em troca do paraíso terreste.

Ao contrário do Reino de Cristo, de Jeová ou de Alá os seus altos sacerdotes não precisam de morrer para provar as delícias do paraíso, refastelam-se cá na Terra porque nunca sabem se após a morte fica alguma coisa para gozar. E sabem que é na sua dedicação sem limites que poderão desfrutar das delícias únicas dos servidores dos grandes Templos implantados nas Bolsas de Nova Iorque, Tóquio, a City ou FranKfort, sem esquecer Paris e Singapura.

A nova divindade é insaciável. A sua fé espalha-se por todo o mundo e engole deuses antigos, por vezes, servindo-se deles para sua prédica atingir em profundidade e largura o humano rebanho.  

Os Incas e os Maias tentavam aplacar a fúria dos deuses oferecendo-lhes sacrifícios humanos. Na Antiguidade grega, designadamente em Atenas os oráculos eram implacáveis e se necessário fosse para amenizar essa fúria divina eram sacrificadas crianças, adolescentes e virgens em cerimoniais de sangue inocente.

Por estas bandas ofereciam-se impuros queimados nas fogueiras para que Deus do seu alto assistisse imperturbável aos gritos lancinantes dos escolhidos pelos seus representantes na Terra.

Agora o mundo mudou: as novas divindades aprenderam com o passado, aceitam e impõem sacrifícios, mas sem espetáculos deprimentes e nauseabundos como o das fogueiras.

Agora castigam-se os simples cortando-se-lhes na subsistência de modo que se houver quem não subsista não se note porque nos hospitais as pessoas que não têm comida basta-lhes fazerem-se passar por doentes e uma refeição sempre hão de ter, se tiverem, certas vezes.

Um conhecido zelota a este respeito foi demolidor acerca da sua fé no novo Deus ao declarar que os pecadores confrontados com tanta pobreza haviam de aguentar os sacrifícios para salvar os deuses que fugiam da bancarrota a caminho da salvação terrena amparados pela celebérrima palavra – aguentam, aguentam.

São invisíveis as novas divindades, o que é da sua própria natureza. Têm muitos rostos. E estão espalhados onde já há os deuses antigos. Acomodam-se. A sua natureza só exige que os adore, mesmo que haja outros que sejam adorados por motivos meramente espirituais, o mundo destas divindades é a pura materialidade das moedas.

Eles vivem de outro tipo de devoção, querem cifrões e mais cifrões, tantos que os tiram a toda a Humanidade.

Em abono da verdade, pouco mais de umas tantas centenas destas divindades têm tanto como mais de metade de todas as mulheres e todos os homens da Terra.

Estão encastelados em locais fortificados e há quem diga que pensam ir par o espaço nos seus foguetões supersónicos, sempre estarão mais a salvo.

Eles dão ordens e logo os primeiros-ministros, os ministros das finanças e os governadores dos Bancos Centrais e até a luxuosa Madame Lagard transmitem o grave aviso de que os mercados estão furiosos e nada a fazer.

A City quando percebeu que Lisa Trusse não passava de uma figura sem rumo apresentou de imediato o cartão vermelho e a sua desgraça pode estar por semanas ou meses. Os mercados zelam pela ordem mercantil onde os humanos não passam de meros números.

Como é do conhecimento geral os mercados mandam nos governos. Deve ser por isso que as pessoas desistem de votar na medida em que os eleitos apenas prestam contas nos confessionários destas divindades e as promessas não são para cumprir.

O grande problema para os mercados é a capacidade de os humanos têm de reinventar permanentemente os seus deuses. Claro que entre o Aguentam, Aguentam e o não aguentam muita água corre por baixo das pontes.

Ultimamente os deuses viraram-se para outra grande divindade, Marte, o implacável deus da guerra que domina toda a Ucrânia.

Pode ser que os povos europeus furiosos, em vez de se matarem uns aos outros, proclamem o seu amor à paz e só aceitem divindades que sorriam, transmitam bondade e afeto entre todos os que por cá vão vivendo. Pode ser.

O “tranquilo” encerramento das maternidades

Surgiu a notícia do projeto de encerramento de seis ou oito maternidades e quem tiver memória não deixará de ter presente que bastava o encerramento de uma noite ou de um dia e os canais televisivos montavam repórteres para fazer diretos de manhã à noite. E os restantes media punham nas primeiras páginas com magno estardalhaço o malévolo facto.

 O país que se move de casa para o trabalho e regresso carregado de problemas a começar pelos próprios transportes não deve ter dado pela notícia.

Os que deram foi graças à prontidão da revolta dos autarcas dos concelhos onde estão as maternidades a encerrar. E repare-se que não foi o encerramento de um fim de semana ou de uma hora; será definitivo.

Pois, afastada Marta Temido, mesmo quando, como no caso dos distritos de Castelo Branco e Guarda as grávidas tenham de percorrer mais de cento e trinta quilómetros nalgumas situações, impera a triste notícia sem o ardor justiceiro e revoltado de então. Dá que pensar.

Costa e o crente Marcelo

Costa foi em socorro de Marcelo que sofre de prodigalidade e de entrar em transe em tudo o que envolve sotainas.

Ele disse o que disse e toda a gente percebeu o que ele disse menos António Costa que disse que ele não disse o que disse, sendo inaceitável a atribuição a Marcelo o significado que decorre das suas palavras.

Costa socorreu-se da hermenêutica para dizer que o que Marcelo disse deve ter uma outra interpretação que ele Costa sabe bem que não é a que salta do que Marcelo disse; coisas relativamente misteriosas.

O que também salta à vista desarmada é que Costa não segurou o guarda-chuva no Euro – 2016 por mero acaso e que a sua visão estratégica ao longo destes anos como chefe do governo, mesmo no período da geringonça, em relação a Marcelo é constante e até de pronto-socorro, como foi o caso presente.

Entre a pedalada sistemática de Costa e as guinadas de Marcelo, o Primeiro-Ministro do PS entrou forte e feio no eleitorado do PSD. No fundo indo em socorro de Marcelo ganhou simpatia onde Montenegro procura votos.  Coisas que ajudam a definir os dois homens. O sonho de Marcelo em relação a ver Montenegro onde agora está Costa levou uma pancadita.

O sofista e beato Marcelo

A República portuguesa é laica. A opção religiosa diz respeito a cada cidadão, incluindo a do mais alto magistrado da nação.

A Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República portuguesa, já não lhe bastava andar por aí a beijar as mãos dos cardeais e outros que tais.

Os seus alicerces político/ideológicos não se afundaram nas brumas da memória. Estavam sossegadas em profundas placas da mente de Sua Excelência.

A agitação criada com os crimes de violência sexual praticados por responsáveis religiosos em todo o mundo tem abalado a Igreja Católica e pelos vistos repercutiu-se no subconsciente do Presidente do modo mais primário, incompatível com a sua inteligência e compatível com o arreigado pendão ideológico de defesa das suas fidelidades. Tenha-se presente o sonho de ver Montenegro a Primeiro-Ministro.

Marcelo tem o destempero de considerar quatrocentos casos de pedofilia como insignificantes e horas depois eram insignificantes porque achava que seriam muitos mais, tal a confiança na Igreja.

O velho filósofo Sócrates, a quem muito devemos, fustigava os sufistas que eram capazes de inventar tudo para fazer valer a injustiça sobre a justiça. Marcelo que nunca se cala claramente está a padecer de prodigalidade em matéria ideológica; já perdeu o sentido da missão conferida pelo povo português para cumprir e fazer cumprir a Constituição.

A sua fé católica não o deve fazer cegar, ele é o Presidente da República portuguesa, não é advogado da Igreja católica, nem o sufista encarregado de branquear e ao mesmo tempo enegrecer a sua fé nos padres e bispos portugueses considerando que os vindos a público eram insignificantes face a milhares que Sua Excelência achava terem acontecido. A prodigalidade palavrosa é uma marca indelével de MRS.

O sufista e beato Marcelo

A República portuguesa é laica. A opção religiosa diz respeito a cada cidadão, incluindo a do mais alto magistrado da nação.

A Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República portuguesa, já não lhe bastava andar por aí a beijar as mãos dos cardeais e outros que tais.

Os seus alicerces político/ideológicos não se afundaram nas brumas da memória. Estavam sossegadas em profundas placas da mente de Sua Excelência.

A agitação criada com os crimes de violência sexual praticados por responsáveis religiosos em todo o mundo tem abalado a Igreja Católica e pelos vistos repercutiu-se no subconsciente do Presidente do modo mais primário, incompatível com a sua inteligência e compatível com o arreigado pendão ideológico de defesa das suas fidelidades. Tenha-se presente o sonho de ver Montenegro a Primeiro-Ministro.

Marcelo tem o destempero de considerar quatrocentos casos de pedofilia como insignificantes e horas depois eram insignificantes porque achava que seriam muitos mais, tal a confiança na Igreja.

O velho filósofo Sócrates, a quem muito devemos, fustigava os sufistas que eram capazes de inventar tudo para fazer valer a injustiça sobre a justiça. Marcelo que nunca se cala claramente está a padecer de prodigalidade em matéria ideológica; já perdeu o sentido da missão conferida pelo povo português para cumprir e fazer cumprir a Constituição.

A sua fé católica não o deve fazer cegar, ele é o Presidente da República portuguesa, não é advogado da Igreja Católica, nem o sufista encarregado de branquear e ao mesmo tempo enegrecer a sua fé nos padres e bispos portugueses considerando que os vindos a público eram insignificantes face a milhares que Sua Excelência achava terem acontecido. A prodigalidade palavrosa é uma marca indelével de MRS.

Coitadinho do passo preso à perna sem ordem de soltura

A moda do passo e da perna made in Centeno pegou e quer António Costa, quer Fernando Medina lá vão nos seus passos ter com a perna, a qual segundo esta liturgia tem de ter um tamanho que em que o passo nunca poderá ultrapassar a perna, como se não fosse a dita perna a dar o passo, colocando uma questão que Platão não imaginou, nem o seu venerado Sócrates, ou seja, pode uma perna dar um passo maior que aquele que dá?

Esta questão é tremenda e até hoje nenhuma escola política/filosófica foi capaz de resolver.

Em tempos idos um homem nascido em Santa Comba Dão aproximou-se deste intricado problema apresentando ao país subjugado uma versão em tudo similar, mas muito mais terra a terra, sem que se deixe de ter em conta que os passos curtos ou compridos assentam sobre a terra.

Ele, no seu jeito de chefe de família sem nunca o ter sido, por se ter casado com Portugal, criou as chamadas contas certas. A rubrica das despesas batia sempre certinho com a das receitas e para tanto um copinho de vinho e um punhado de azeitonas dava o sustento e uma casita pobrita e caiada constituía o ninho onde podiam repoisar os milhões de portugueses, salvo quando tiveram de ir bater com os custados na guerra colonial. Tudo certinho com as continhas que o homem do rol zelava por tudo e todos.

As contas certas inventadas pelos eurocratas de Bruxelas para amarrem os países periféricos a serem-no eternamente não são bem contas, são contos para adormecer.

Na verdade, as únicas contas certinhas (e mesmo assim há quem duvide) eram as dos primórdios do homo sapiens que trocava um animal por outro animal diferente e tudo ficava certinho. Quem diz um animal diz um machado de sílex por instrumentos semelhantes.

Imagine-se no mundo moderno um empresário que empreende dar o seguinte passo – pede o que não tem, contrai um mútuo para investir e dar um passo muito maior que a antiga perna e sair-se bem. Elon Musk tem pernas até onde todos têm, mas não tem passo para comprar o Twitter e de passo dá o passo muito maior que as pernas e um sindicato bancário empresta-lhe o vil metal, milhares de milhões de dólares, que grande passo.

Como vemos as contas certas, o passo não ser maior que a perna, não passa de uma “justificação” para que os que vivem dos seus vencimentos se vejam interditados de melhorar as condições de vida.

Isto é, enquanto a alguns é facilitado que quanto maior for o passo de gigante melhor é para a economia, para todos os outros o passo tem de ser como o das gueixas, muito curtinho, para que a economia só prospere para os gigantes de perna longa.

A economia fabricada por Bruxelas de que Costa é seguidor (sabe-se lá porquê) vai espremendo os muitos que geram muito, e o que daí resultar serve para que o passo nada tenha a ver com a perna; dito de outro modo todas os passos vão servir para as pernas gigantes como as de Musk ou similares.

A UE quer passinhos para os povos respetivos e verdadeiros papa léguas para os que têm a fome por quase toda a Humanidade. Por isso, um por cento têm tanto quanto cerca de metade da Humanidade.

Passos para a diminuição de rendimentos ou contas certinhas são a mesma patranha para justificar que uma meia dúzia de tubarões enriqueçam à tripa forra e todos os outros desde 2009 vejam, todos os dias graças a esses passinhos, a vida a piorar.

https://www.publico.pt/2022/10/10/opiniao/opiniao/coitadinho-passo-preso-perna-ordem-soltura-2023396

Marcelo no Chipre sem G3 e blindados para o ocupado

Em junho de 1974 a Turquia ocupou a parte Norte do Chipre. O pretexto foi a opressão da comunidade cipriota turca, minoritária face à cipriota grega. A ocupação foi condenada pela comunidade internacional. O ocupante é membro da OTAN. Até hoje mantém a ocupação e a Turquia é parceiro privilegiado do Ocidente impondo à Finlândia e à Suécia condições draconianas para entrarem na OTAN, designadamente quanto à perseguição dos curdos por parte do governo turco.

Na Europa os cidadãos que conhecem a amputação do Chipre são uma ínfima minoria. Ninguém fala da ocupação. A Turquia é um dos nossos. O Sultão da Turquia é muito bem visto por estes lados. Os amigos ocidentais (mesmo sendo em boa medida orientais) que ocupam países enteados, são bem aceites, são coisas da vida devido à localização do Chipre ao lado da Turquia. Que o diga Israel que não só pode ocupar os territórios palestinianos como anexar os Monte Golan.

O Chipre é um país milenar onde se diz ter nascido a deus do amor, Afrodite. É um porta-aviões no meio do Mediterrâneo frente à Síria, Israel e Líbano. Foi dura a luta contra os ocupantes ingleses, a opressão e a repressão foram violentas.

Apesar de pertencer à UE a ocupação do Chipre não mexe em nada com os sentimentos da Sra. von Leyen, nem do Sr. Borreli, nem do senhor professor Marcelo Rebelo de Sousa, Presidente da República. Estão ocupados, pois que fiquem, quem os mandou serem uma ilha com fortíssima influência grega? Quem vai fazer uma guerra por causa de Chipre?

Marcelo e os dirigentes europeus passam pelo problema cipriota como raposa em vinha vindimada. Assobiam. Foi o que fez Marcelo. Disse que havia um problema.

É um exemplo da tremenda hipocrisia dos dirigentes políticos da UE. São contra as ocupações de países como por exemplo a Ucrânia porque como todos os dias vemos podem enfraquecer a Rússia, o que não convém fazer à Turquia que é um regime muito parecido com o da Ucrânia e da Rússia, mas que é um aliado.

É esta duplicidade que mata o direito internacional e faz os cidadãos descrerem nos dirigentes que todos os dias inventam todos os pretextos para proteger uns em detrimento de outros.

Como pode doravante Marcelo falar da solidariedade à Ucrânia quando no Chipre ocupado, acompanhado por Cravinho, não levou no bornal uma fisga para os jovens cipriotas atacarem os tanques turcos. Triste mundo.

P.S. Marcelo quando lhe dá jeito alega que no estrangeiro não comenta a situação política portuguesa. Deve ter tido uma espécie amnésia e pensado que estava em Lisboa tão longe de Nicósia e tão perto da linha de ocupação. Podia lá estar calado tendo o sonho que tem de ver o Montenegro em S. Bento.

Fim ou recomeço da História?

O tempo da política acelerou e vivemo-la a nível vertiginoso. O mundo mudou com a implosão soviética. A invasão do Iraque culminava esse tempo de unipolaridade com os EUA como única superpotência. Era o chamado fim da História.

Só que a aceleração da História veio estilhaçar os que pretendiam fechá-la no cofre do tempo, como se fosse possível parar o tempo.

Afinal os EUA/OTAN, apesar de todo o seu poderio, não conseguiram vencer os talibans no Afeganistão.

Por outra banda, a maré neoliberal, que hoje agita o mundo e em muitos países se afirma vitoriosa, encheu-o de diabólicas impiedades, maior concentração de riqueza, um por cento da população tem quase metade de toda a riqueza produzida e a miséria, a fome espalharam-se por todo o Sul do Planeta. As naves vão ao encontro de Marte. Os telescópios descobrem o Universo profundo. E, no entanto, centenas de milhões de seres humanos não têm acesso a água e cerca de  mil milhões vivem com menos de um dólar por dia.

As classes médias seguem o caminho do assalariamento. As próprias profissões liberais vivem próximas da uberização. O mundo ocidental não escapa a esta viragem, mas a pauperização absoluta não se tornou realidade. O sistema precisa na sua dinâmica que os assalariados aguentem o consumo para que a produção siga o seu ciclo.

O sistema já não enfrenta o “socialismo” dos países socialistas, sente-se livre. Paradoxalmente as alternativas ao sistema dominante entraram numa espécie de hibernação.

As democracias não estão a ser capazes de responder aos desafios atuais. Às escâncaras assumem que não haverá emprego, nem saúde, nem habitação, nem escola pública, nem justiça, nem ambiente saudável porque o Estado tem de dar a vez aos privados.

Nos media, sobretudos nos canais televisivos, a intoxicação das mentes é em doses cavalares. O dogma ganhou foros de consagração quase religiosa, quanto mais ricos forem os ricos, melhor estarão as populações, mesmo quando vivem pior.

A vida comunicacional tem o dever de fazer sentir que a vida está má porque as pessoas não querem viver e lutar para estarem melhores. Se quiserem façam tudo, mas tudo para saírem da cepa torta, haverá quem consiga e os que não conseguirem não mereciam, é o reino da meritocracia, só poucos triunfam nesta guerra contra tudo e todos.

Nesta base as aspirações dos cidadãos a uma vida digna e decente não cabem nas baias das sociedades atuais. Tanto faz que governem os socialistas como os liberais como até a extrema-direita, seja Orban, Meloni ou os suecos do Partido Democrático, que não se notam grandes diferenças. A corrupção toca em todos eles. Os partidos marxistas perderam-se entre o dogmatismo e a claudicação. Não foram capazes de resgatar e reconfigurar o ideal do socialismo que foi seriamente abalado com a implosão socialista.

A UE rendeu-se ao monetarismo neoliberal e ao militarismo da OTAN. Nada tem a propor de diferente face às correntes mais dogmáticas do comércio livre, mesmo quando se aprisionam em termos de fornecimento de energia, aceitando que o Tio Sam destrua os pipeline que poderiam constituir uma saída para a crise.

Estes governantes europeus aceitam tudo desde que as ordens venham de Washington. Mesmo quando substituem os acordos de venda dos submarinos franceses à Austrália pelos dos americanos. E até aceitaram tratamentos discriminatórios quando a França e a Alemanha não apoiaram a invasão do Iraque.

O tempo novo já não vai buscar ao velho arsenal o fascismo tal como ele se impôs, visa um certo tipo de “fascismo democrático” livre dos aspetos mais brutais e assente num anestesiamento da sociedade fechando-a em relação aos horizontes possíveis. Neste arsenal já cabem os partidos da extrema-direita ou fascizantes. É de assinalar a convergência entre Marcelo e Montenegro quanto à hipótese do Chega fazer parte de uma solução de governo à direita.

O sistema perdeu o pudor e os racistas, xenófobos e fascizantes já podem ser parte da governação, mesmo quando as Constituições o interditam. A lei só é dura se não se colocar no meio do caminho como obstáculo.

Talvez valha a pena pensar no que se vai seguir. Vão os povos seguir em manada para o matadoiro ou haverá sempre uma candeia, mesmo na noite mais escura?

A guerra está às nossas portas. Está a ser um assunto de ameaças entre os EUA e a Rússia, embora quem a sofra seja o povo ucraniano. Os EUA estão prontos para o combate contra a Rússia até ao último ucraniano.

Putin lamentou a queda da URSS, mas não segue o compromisso da URSS de nunca ser o primeiro país a utilizar armas nucleares.

É preciso acordar e pegar no futuro e fazer a História. Haja quem saia a terreiro a exigir paz, antes que seja tarde. A razão, a sensibilidade e a paixão humanas podem vencer a irracionalidade, o militarismo, o racismo a brutalidade e o fascismo com verniz democrático. Mas só se quisermos.

RONALDO E SANTOS Lda

Começando por Ronaldo: parece um daqueles viciados em jogo. Daqueles que dizem a si próprios que vão ao casino pela última vez e ganhar para depois largar a adição ao jogo; como é dos livros a situação arrasta-se até pedirem, quando pedem, que os proíbam de entrar nas casas de jogo.

Ronaldo quer jogar e marcar para ressuscitar porque aparentemente não está a saber passar de melhor do mundo para um jogador ainda com muitas capacidades. Claro que se o problema fosse só dele a coisa não tinha grandes consequências.

O mal está em Cristiano transportar para os clubes essa sua ânsia de ser o que já não é e vai “envelhecendo” com muito má catadura.

No Manchester passou os meses de preparação à parte como se fosse muito mais importante que a equipa. Foi o que se viu, está sem ritmo e quando quer fazer o que fazia não consegue. Não aceita que não é o que foi. Entretanto, sendo o que ainda é, pode continuar a ser um grande jogador, inserindo-se como os outros no coletivo da equipa. Espero que não vá acabar mal. Precisaria de ler, se lesse, O Jogador de Dostoievsky. Adiante.

Santos é a terceira vez que lhe bastaria um empate e perde. É suficiente para se dar conta que nestes tempos de seleção lhe falta o fundamental de um líder – a coragem.

Santos não tem a coragem de tirar Ronaldo. Não tem coragem de ir para cima dos adversários e ganhar, tendo à sua disposição um naipe de jogadores que só duas ou três seleções de todo mundo têm.

Olha-se para o Sr. engenheiro e descortina-se, na sua própria linguagem corporal, um medo retorcido, do género de alguém que não sabe bem o que há de fazer e gesticula sem sentido, entre o faz de conta e o armado em sério.

Santos neste momento diz umas coisas que já são um disco riscado e que ao repeti-las ainda torna mais vazio o seu perfil de líder.

Santos trata bem do seu futuro e depois de mais esta derrota quando bastava “ferir” a Espanha com um empate lá foi dizendo que tem contrato até 2024, como se não se soubesse.

A sociedade Ronaldo/Santos não funciona. Ronaldo e Santos já não são o que eram.

Ronaldo anda perdido na metade atacante do campo à espera que lembrem que ele está ali, caso contrário ninguém dava por ele; quando se lembram dele espirra o taco e lá se perde a oportunidade.

Com a Espanha e com a Chéquia foi um desatino. Ele ainda pode dar muito à seleção, mas não é a partir de um pedestal, terá de ser a partir das suas possibilidades que ainda são muitas, mas não a partir daquilo que ele já não é, por mais cabriolas que ainda saiba fazer.

Haja alguém que diga a Ronaldo que ele não é a seleção e talvez não seja o capitão que Portugal precisa. Só um menino que é dono da bola atira a braçadeira daquele modo para o chão. Tem de mudar de braço.

Santos quer ficar até 2024 porque o melhor está para vir. Assim não virá. O medo é bom conselheiro, mas não pode ser impeditivo de Portugal jogar como pode e deve com a categoria dos jogadores que tem e que dão cartas na Europa e no mundo.

Ronaldo também está à espera da juventude que não virá. Santos à espera de um pontapé na sorte como foi o do Éder no Europeu de 2016.

E, como não podia deixar de ser, Marcelo comentou, o que é muito raro, dada a sua falta de loquacidade, só pela complexidade do tema se pronunciou – se o povo tem sempre razão, tinha ele dito antes, agora sobre a seleção, por que razão não haveria o senhor engenheiro de ter razão? E lá lha deu.

À espera, à espera estamos todos nós para que isto mude e não só no futebol.

O QUE É ISSO DO POVO TER SEMPRE RAZÃO? COM SONASOL?

Foi preciso ir para a Califórnia para descobrir que o povo tem sempre razão, aliás, declarando sem razão, como se viu, que não fazia comentários políticos sobre as eleições italianas, não fazendo outra coisa com declarações tão cheiinhas de narizes de cera que até mete impressão.

Mas o mais importante desta descoberta é ela ter surgido ao mesmo tempo com a do líder do PSD. Uma na costa do Pacífico a fazer de conta que joga baseball e outra cá.

Parece que ambos querem limpar o Chega e a IL e fazer o PSD dar o braço àqueles partidos para formar governo. O povo tem sempre razão, é agora o slogan do PSD e de Marcelo Rebelo de Sousa.

Uma coisa é o povo escolher livremente os seus representantes, outra é passar uma garrafa de sonasol no programa político de Meloni/Salvini/Berlusconi.

O facto de o povo italiano ter dado maioria àqueles partidos não apaga o passado de corrupção e brutalidades de Berlusconi, nem o caráter xenófobo de Salvini, nem a defesa do fascismo por parte de Meloni.

Aceitar os resultados eleitorais não impede que se denuncie que esta Santa Trindade não augura nada de bom para a Itália, nem para o mundo. Ponto.

Preocupa que o falhanço da política neoliberal não tenha gerado à esquerda uma alternativa e as populações vejam naqueles que se dizem opor ao sistema (sendo seus defensores a todo o custo em dimensões ainda mais desumanas) a alternativa que na realidade não é.

A existência de um certo oportunismo social faz com que se faça a experiência a ver o que dá. Tal como sucedeu com Trump e Bolsonaro. Não é só na Itália, a extrema-direita está hoje presente em quase toda a Europa, recentemente à medida que os socialistas se confundem com os neoliberais deixam de ser a alternativa, são quase similares, como se viu na Suécia que até em matéria da defesa dos direitos humanos e de uma política de paz afunilam para a OTAN.

Uma coisa é respeitar o voto popular outra é considerar que o povo tem razão votando numa herdeira de Mussolini. São coisas diferentes, como bem sabem Marcelo e Montenegro. O que os leva a descobrir o que já estava descoberto é o sonho confessado de Marcelo de fazer chegar Montenegro a São Bento o que o faz fundir os fusíveis, como nos vem habituando, o que não quer dizer que tenha razão, apesar dos seus resultados eleitorais.