Quem é mais famoso: A Cristina ou o Marcelo?

Todo o mundo sabe o quanto Marcelo se sente atraído pelos famosos, talvez porque tenha aceite o desfio introspectivo de se considerar o mais famosos de todos os famosos.
Tem parecenças com a Cristina Ferreira nos pinchos que dão; nos guinchos ganha ela.Nos pinchos ganha ele, apesar da idade.Ele está em todo olado a toda hora. Omnipresente.Cristina é mais de ir para paraísos de luxo e que ela entende deverem ser mostrado na suas contas. No fundo ela pensa que se não os mostrar ela não esteve lá. Só esteve porque os exibiu…É um modo de ser.
Uma famosa para o ser tem de exibir e exibir.
Pensemos em grande e interroguemo-nos: Que seria dos portugueses se a famosa da Malveira não mostrasse o luxuoso quarto onde dormiu nas Malvinas? Uma pasmaceira.
Marcelo não pode competir a esse nível. Já teve uns tiques com o Tio Ricardo Salgado a caminho das terras de Vera Cruz. Agora o mundo da presidência requer outra arte. Tem de ganhar nos afetos, nas preocupações e nas surpresas.
Quem havia de imaginar que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, ligaria de cima da sua “potestas” para dizer:- Olá Cristina, sabe quem fala? É o Marcelo, o Presidente, não me esqueci de si, e para que o Goucha não pense que o mar é só água, aqui estou eu a ligar para a SIC. Para mim SIC e TVI sempre. Aliás já avisei o país que lhe liguei, esteja descansadinha. Eu bem vejo a sua emoção; dê um abraço ao Filipe Vieira e já agora transmita-lhe se faz favor que um dia destes apareço na Catedral para lhe dar um abraço e ao barbas.Beijinhos, olhe diga-lhe que é melhor ao pé da Estátua do King.
Marcelo é quem é e não se imagina noutro lugar que não seja na primeira fila à frente, o mais famoso.Congemina a cada instante o instante que se segue; não falha.Ninguém o segura. Nada o detém. Nem o lado escuro da Lua. Já se ofereceu ao Presidente chinês para tripular a próxima nave.

Anúncios

A família e o lucro

No ar arrasta-se ainda o que resta da quadra natalícia e, como sempre, nela a família ocupa um espaço especial. É tradicionalmente o momento de invocação da importância da defesa da família.
A noção da família não foi sempre a mesma; a título de exemplo e para não recuar muito no tempo, na época do morgadio era diferente da gerada pela revolução industrial, e igualmente diferente da criada na globalização mundial.
Vale a pergunta se nos nossos dias o que conta é a família na sua plenitude como se defende ou haverá algo mais importante que a subordina.
A direita, no que toca à abordagem deste tema, proclama a todos os ventos a importância quase sagrada da família. A extrema-direita faz da família o alfa e o ómega. Bolsonaro, no discurso da tomada de posse, invocou a família a granel e exaltou as suas virtudes.
A igreja coloca a vida familiar no supremo altar dos valores, fazendo dela um núcleo essencial onde pretende apoiar-se, e daí a justificação do seu combate ao aborto, ao divórcio e à eutanásia.
Na grande maioria destas abordagens chocam as proclamações a favor da família e o modo como os diversos poderes dominantes esvaziam as bases em que ela assenta.
O mundo de hoje é marcado pela competição feroz em que o objetivo é garantir o lucro máximo que não se compadece com os problemas familiares de diversa ordem, tidos como menores face à magnitude da produção e da produtividade.
O novo Deus, o mercado, exige devoção, devendo os empregados terem presente que para aquele posto de trabalho está em fila de espera um vasto número de candidatos de mão estendida.
Com esta nova divindade chegou também a ideia que há direitos a mais. Os direitos adquiridos fazem, entre outros, dos funcionários públicos um bando de madraços, tornando-os ingratos, pois o que querem é ganhar mais e trabalhar menos.
A exigência cada vez maior aos trabalhadores por parte das entidades patronais não pode deixar de ter repercussões na vida familiar e até na queda da natalidade.
Se os horários de trabalho conjugados com o tempo gasto na deslocação para o local do trabalho ocupam grande parte do dia, a disponibilidade reduz-se a quase nada para a vida familiar que tende a secar por falta de combustível. Se há filhos passam a ser um pesado encargo.
A mulher é vista do lado na empresa como um encargo por causa da gravidez e do aleitamento.
A ideia de uma espécie de disponibilidade permanente choca com a necessidade de guardar energias e afetos para a vida em família. Se a sociedade vive em constante aceleração criando com os avanços tecnológicos novas dependências, em vez de libertações, os cidadãos estão a ser agrilhoados por estes novos avanços porque se soltam os ventos negativos da globalização que querem nivelar quem trabalha pelo mais baixo da escada.
Se a tudo isto juntarmos a deslocalização dos portugueses para o litoral, criando também graves problemas no domínio da habitação e no congestionamento da vida urbana, então, para além da disponibilidade para o emprego, há ainda a juntar as horas de vai e vem de casa para o local de trabalho.
Fazer filhos requer disponibilidade financeira e amor, o que nos tempos modernos só dá nas telenovelas. O que vale é que todos estão preocupados em defender a família…Só que uns colocam o lucro acima de tudo, mesmo falando da defesa da família. O lucro é a família dos mercados.

Marcelo, a ginginha e as eleições

Marcelo, o Presidente da República portuguesa, declarou, ao Jornal de Notícias de 24 de dezembro, no dia em que foi ao Barreiro beber uma ginginha ( não há nenhum português que não saiba que a ginginha é a sua bebida preferida desde a infância) que a campanha eleitoral começou mais cedo…
Marcelo tem uma perceção da realidade que vai muita para além do comum, pois a ninguém passaria pela cabeça que os partidos estivessem desde já preocupados com eleições e ele quando foi dirigente máximo do PPD/PSD jamais lhe passou pela cabeça ter em conta eleições cinco meses antes de elas terem lugar…
Marcelo, não está só preocupado com as campanhas antes do tempo, mas com tudo o que o rodeia, mas tudo mesmo – desde os enfermeiros aos camionistas, desde os coletes amarelos aos ferroviários, desde o INEM aos alfaiates, desde os estivadores aos professores e aos taxistas, mas o que mais o preocupa é o falhanço do Estado…Vive em sobressalto permanente por causa dos incêndios, das pedreiras, do furto do quartel de Tancos, do helicóptero que caiu em Baltar …
Marcelo tem cerca de dez milhões de preocupações que é o número de portugueses com que ele está preocupado, melhor dito, dada a quadra natalícia, preocupadíssimo.
Ele desmultiplica-se para chegar a todos os portugueses, mas claro dez milhões são qualquer coisa e não dá para todos, embora se lhe reconheça o esforço, como por exemplo, no mesmo dia em que foi visitar a Raríssimas foi à ginginha porque o Barreiro é a terra onde há ginjeiras por todo o lado; como se sabe por ordem do falecido Alfredo Silva.
Este estado de alma característico do nosso Presidente fá-lo lamentar-se e com toda a razão da gulodice dos partidos cinco meses antes das eleições europeias. É uma pena que não esperem mais três ou quatro meses…Não se contendo, o Presidente tinha de fazer o reparo, não fosse algum populista aproveitar-se e para que o terreno ficasse preenchido Marcelo ocupou-o, pois ele, como se sabe, não pactua com o populismo. Ele, diga-se em abono da verdade, não tem poderes para impedir que se lhe dirijam a pedir selfies, pedem-lhe e ele cede…Cede porque o povo é quem mais ordena tanto nas selfies como nos abracinhos e nos abraços que por esse Portugal inteiro ele vai espalhando, tudo para que o populismo não apareça.
Por essas e outras razões tinha de ficar espantado e chamar a atenção para o facto de a campanha eleitoral ter começado mais cedo.
Se os partidos fizessem como ele, não fariam campanha eleitoral como ele não fez.
Marcelo está de manhã à noite, todos os dias, nas televisões, nas rádios, nos jornais, preocupado com os portugueses. Para ele todos os dias são dias para aparecer preocupado. Quando chegarem as presidenciais ele não precisa de fazer propaganda. Só precisa de ir a um ou dois debates com uma caterva de candidatos que começam a campanha quatro ou cinco meses antes…

Abençoados aumentos dos lucros e amaldiçoados aumentos dos salários

O que está a passar em Portugal a propósito das greves dá que meditar. O que pedem os grevistas? Em geral aumentos e maior dignificação no seu trabalho.
Como se sabe os salários estiveram congelados desde Sócrates até à chegada do governo de António Costa com apoio parlamentar do PCP, BE, PEV, e PAN. Congelada esteve também a progressão na carreira nalgumas profissões do sector público. Também, por isso, os sindicatos reclamam aumentos. São estes profissionais que são obrigados a enveredar por formas de luta extremas.
Em contraste, repare-se que o anúncio trimestral / semestral dos aumentos dos lucros dos bancos é apresentado como um facto quase sublime. Quanto maiores forem os aumentos dos lucros maior é a bênção. Centenas de milhões de euros de lucros são impactantes. A pompa da circunstância faz esquecer tudo, o que vale é grandeza dos aumentos dos lucros, os quais assentam, muitas vezes, em despedimentos, cortes salariais, comissões e mais comissões para quem deposita os seus rendimentos…
Há, nesta nossa fase da vida social, uma espécie de um critério dúplice que serve para castigar os de baixo e para glorificar os de cima. O PSD através de alguns dos seus dirigentes reaparecem a defender a austeridade e a continuação do empobrecimento.
Um polícia que não tem rendimento para alugar um quarto em Lisboa ou no Porto dorme no carro não pode reclamar aumentos para não complicar as imposições de Bruxelas.
Os trabalhadores (sem os quais não haveria aumento de lucros) são uns ingratos por não aceitarem aumentos na casa dos 80 cêntimos diários; ou reclamarem trinta e cinco horas; ou quererem progredir na carreira; ou que o tempo que trabalharam conte (como não pode deixar de ser) para a reforma; ou como os estivadores não quererem trabalhar jorna, como há setenta anos…
Os que fazem greve são antipatriotas, mas os grandes patrões que ameaçam deslocalizarem as fábricas são patriotas…
Os cortes no SNS que levaram para fora do país enfermeiros e médicos, quantos portugueses mataram? Como se fazem essas contas? O desinvestimento no SNS quantos cidadãos mata?
A direita aplaude porque quanto maior for o desinvestimento no SNS mais avança a privatização dos serviços de saúde…
Quem está disponível para esperar trinta minutos ou mais ao telefone para que o atendam para tratar da marcação de uma consulta no Hospital de Santa Maria para informar que não pode ir àquela consulta naquela data?… e assim dar a vez a outro.
Se o aumento de um euro por dia desestabiliza a economia, por que motivo as centenas de milhões de lucros para os quais contribuíram a força de trabalho empregada não deve ser taxada de modo a que na redistribuição dos rendimentos a sociedade no seu conjunto possa beneficiar de melhores serviços? Se um euro é uma espécie de enormidade, por que motivo a ameaça de fugir com os lucros para outros países não é uma pressão gigantesca?
Os que mais se insurgem contra os que reclamam aumentos salariais são exatamente aqueles que na sua vertigem pelo lucro deixaram o país e a Europa numa crise profunda. Aliás são os de baixo que estão a pagar o destrambelho dos banqueiros.
Os bancos que se vangloriam dos aumentos dos seus lucros e pagam a preço de oiro os seus gestores são os mesmos que agitam espantalhos e demónios contra os seus empregados que pretendem, por via do seu contributo, ver aumentados os seus vencimentos, num país em que um quarto da população vive em pobreza.
Parece que a crise provocada pelos banqueiros e pelo sistema financeiro, incluindo por aqueles que garantiram que o BES, BPN, BP estavam firmes, são patriotas e beneméritos como comprovam as suas condecorações, e os de baixo, esmifrados pelas medidas anticrise, são o demónio.
Reclamar mais uns tantos euros por mês para que antes do dia vinte de cada mês não falte salário devia ser reconhecido como perfeitamente natural e humano.
É verdade que este governo parou o empobrecimento desvairado de Passos Coelho… Quantas mortes não terão acontecido em Portugal devido a essa austeridade como castigo dos portugueses, obrigando-os a entregar aos bancos mais de vinte mil milhões de euros… O que se podia fazer com esse montante?
Há os de cima e os de baixo. Os de cima podem ter lucros fabulosos, os de baixo têm de suportar esses lucros fabulosos…e amouchar. Só que os de cima são mesmo poucos, os de baixo são quase todos.

Entre a vida e a morte – Paulo Sucena a propósito do romance de Domingos Lopes – Nas margens do medo

Domingos Lopes, Nas Margens do Medo, Âncora Editora, 2018

Entre a Vida e a Morte

Paulo Sucena

Considero legítimo qualificar Nas Margens Do Medo como um romance rural, tendo em conta o contexto em que decorre, uma aldeia alentejana, Capelins, situada perto do Guadiana, num tempo que se estende pelos finais da década de 1930 até um ano que o narrador não revela mas que o discurso permite situar, no mínimo, nos finais da década de 1940, abordando uma temática que essencialmente se prende com a situação de fome e de trabalho precário e mal remunerado dos trabalhadores rurais do concelho de Alandroal. É a partir deste tópico que a narrativa se vai estruturar e enriquecer nos seus diversos segmentos de que avultam as jornadas do contrabando.
A ascendência deste romance não provém tanto de Júlio Dinis em que os/as protagonistas estão acima da comunidade rural pela sua origem familiar, pela sua cultura e riqueza de linguagem, mas mais de Fialho de Almeida e do modo como o excelente contista aborda a violência do trabalho dos ceifeiros alentejanos. De Aquilino Ribeiro herdou o narrador a atenção e cuidado que dispensa à expressão da fala das personagens de Nas Margens Do Medo, desde o vocabulário à organização morfo-sintáctica das frases, distanciando-se, todavia, de Aquilino quando, em vez de se colocar num nível superior de linguagem, aproxima o seu discurso do das personagens com o intuito de tornar mais coesa e fluente a matéria que pretende comunicar.
Essa comunicação faz-se deliberadamente sem sinais ou símbolos de natureza ideológica. O romance não está estruturado em função de uma progressiva tomada de consciência da classe trabalhadora conducente a uma revolta, colectivamente organizada, contra as forças opressoras. Nem tão pouco, Nas Margens Do Medo, ao contrário da corrente neo-realista, é construído sob a influência do pensamento marxista nem as suas páginas são percorridas por um sopro lírico capaz de abrir janelas de esperança para um horizonte onde já se divisassem dias felizes. Pelo contrário, a história e as personagens não rompem a desolação de uma aldeia parada num tempo parado, como era, aliás, a esmagadora maioria do Portugal rural daquela época. As inquietações e a turbulência dos actores não saem das fronteiras de suas mentes conservadoras que só vemos verdadeiramente indignarem-se e barafustarem perante um caso insólito que alguém descobriu e rapidamente difundiu: a vida em concubinato de Lurdes e Manolo que meia dúzia de anos antes um contrabandista português encontrou em Olivença, era ele ainda um rapazote, sem pai nem mãe, assassinados pelas tropas de Franco, e trouxe para Capelins onde no dia da chegada foi “adoptado” por aquela jovem de vinte anos, dona de uma venda que herdara dos pais.
Esta é a situação nuclear da qual o romance arranca num tempo em que a Espanha Republicana era sacudida pela brutalidade de uma guerra civil e em Portugal se vivia sob uma ditadura feroz cujo sinal de maior desumanidade e violência provinha do Campo de Concentração do Tarrafal, cemitério de dezenas de democratas deixados morrer sem assistência médica e sem dó nem piedade. Acabei há pouco de escrever uma das palavras que melhor definem esta narrativa, violência. Na verdade, a violência percorre intensamente esta obra de Domingos Lopes. Violência da guerra; violência do regime salazarista; violência da GNR, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e violência da PIDE; violência dos senhores da terra; violência doméstica; violência da fome e do desemprego; violência do trabalho nos campos e nas pedreiras; violência do sol e da chuva; violência da vida de contrabandista. É neste contexto profundamente disfórico que se movimentam as personagens de Nas Margens Do Medo, cuja acção se confina a parâmetros fortemente individualistas, com uma ou outra excepção. Seja a revolta dos ceifeiros que Zé Inácio protagonizou e que a pouco e pouco e de forma avulsa vai ganhando a adesão dos companheiros que reivindicavam condições de trabalho menos penosas. Seja a mobilização de toda a gente para combater um fogo que ameaçava a casa do Felisberto, sujeito que gozava de pouca simpatia na aldeia. Seja, na parte final do romance, a greve dos ceifeiros que desencadeou uma onde de forte repressão e várias prisões e fugas dos grevistas.
Não é, portanto, este um romance em que os trabalhadores protagonizam uma gesta colectiva, antes, pelo contrário, estamos perante uma história cujas unidades narrativas se circunscrevem a acontecimentos que se iniciam e terminam na esfera de acção das personagens, apresentando-se assim o romance como um mosaico de “experiências vividas”, usando palavras de Edmund Husserl, ou, se preferirem uma expressão mais tardia do filósofo alemão, como o mundo da vida (Lebenswelt) que sublinha melhor o carácter unitário e sintético do romance como uma totalidade.
Dessas experiências vividas destacam-se as de Lurdes e Manolo pelo peso psicológico e social que sobre ambos a sociedade fez pender e também a de João Comprido, oriundo de uma família muito pobre em que o pai alcoólico batia frequentemente na mulher até que o filho lhe fez frente e ele o expulsou de casa, lançando-o numa vida de extrema precariedade até ao dia em que Manolo o contrata e posteriormente convida para fazer par com ele na prática do contrabando.
Tendo em conta que o contrabando é um dos eixos fundamentais da história é necessário ressaltar o papel de Zé Fino que um dia traz dois miúdos, filhos de pais comunistas assassinados, para esconder em Portugal e que a GNR prendeu e torturou barbaramente num posto do Alandroal sem que Fino tivesse confessado o acto de que era acusado. E também a relevância do trabalho de Manuel Perleques que do seu moinho prestava auxílio aos homens do contrabando.
Acima destes ergue-se a figura de Cobra, o maestro de toda aquela actividade ilegal, que nos surge como um personagem destinador da vida e da morte. É ele que subtrai Manolo aos horrores da Guerra Civil e o traz para Portugal e para uma vida feliz ainda que mais tarde arriscada e percorrida, em alguns momentos, por uma soturna melancolia. É ele que ao confiar Manolo a Lurdes transforma os dias pardacentos que ela vivia em dias luminosos cujo acme é a concretização, anos mais tarde, de um secreto e sofrido amor por Manolo que nela foi crescendo quando o “filho adotivo” atingiu a juventude. Mas é o Cobra que também destina Manolo à morte ao pedir-lhe para passar para Espanha alguns portugueses fugidos à repressão da ditadura, sendo portanto ele que, indiretamente, leva Lurdes ao suicídio.
Será oportuno lembrar que como contraponto à disforia que perpassa pelas páginas deste romance apenas nos surgem alguns, poucos, momentos de euforia. Aqueles em que os intervenientes gozam os sabores de comedorias dignas do arroz de favas queirosiano e os que os fregueses da taberna da Lurdes desfrutavam nos quentes convívios em que o vinho oferecia aos bebedores tarde jubilosas. O vinho tem, aliás, uma presença quase tão constante como nos poemas de Omar Khayyam, ganhando mesmo um tonalidade, de alguma modo, evangélica. Cito Frei Bento Domingues:”Nas Bodas de Caná, a transformação de água em vinho é considerada o primeiro signo da novidade absoluta do Novo Testamento: Cristo surge como aquele que não pode com a tristeza do mundo. Mesmo nas situações mais desesperadas é preciso tudo fazer para que haja uma embriaguez de alegria.”
Direi, a terminar, que não sendo este um romance de teor revolucionário dele transcorre, de um modo implícito, a condenação da exploração dos trabalhadores, a opressão política, a violência das forças repressivas e ainda nele encontramos gente, no cairel do medo, a levantar-se do chão. Confesso que no fim da sua leitura me ficou a ressoar sob os olhos uma toada de amor e de morte, por isso algo me diz que nas margens do Guadiana se ouve o choro inúmero das águas lamentando a morte de dois amantes.

02/12/2018

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é um marco na longa marcha da Humanidade em direção a um mundo melhor. Consagra direitos como tendo caráter universal, o que equivale a dizer que os direitos que constam na Declaração aplicam-se em todo o lado, não são para serem exercidos em função de fronteiras. É, pois, uma nova Magna Carta que abraça a Humanidade.
A Declaração resulta, por um lado, dos ensinamentos retirados da barbaridade da guerra mundial levada acabo pelo nazi-fascismo, e, por outro lado, constitui uma aspiração de toda a Humanidade, que vem do fundo dos tempos, à liberdade, à democracia, ao progresso social, à paz e à segurança.
Emanando da Assembleia-Geral da ONU a sua aplicação/cumprimento depende sempre da boa vontade dos Estados e da capacidade dos cidadãos se mobilizarem para defender os direitos aí consagrados.
Hoje nenhum Estado às claras coloca em causa a Declaração, o que mostra o seu impacto dentro da comunidade internacional. O que não significa que não haja Estados que violem grosseiramente algumas normas, impedindo o exercício do direito de criar associações ou partidos políticos, o livre exercício da religião ou a liberdade de não praticar qualquer religião, o direito de sair ou regressar ao país de origem; não impedindo situações de verdadeira servidão; não impedindo discriminação religiosas, chegando mesmo a incentivá-las; não impedindo prisões arbitrárias, antes praticando-as; impedindo o livre exercício do direito de expressão e reunião livre sem quaisquer constrangimentos.
As forças mundiais dominantes têm como objetivo desmantelar direitos. Enquanto há setenta anos o mundo movimentava-se para afirmar o primado de um conjunto de direitos que fazem parte da Declaração, hoje o que se anuncia é a existência de direitos a mais, sendo necessário restringi-los, fazendo-os regredir não se sabendo até onde.
Vale a pena recuar no tempo até à revolução francesa de 1789 de onde surgiu pela primeira a ideia. A Declaração dos Direitos da Homem e do Cidadão, em plena revolução francesa, adotada pela Assembleia Constituinte em 20, 21, 23, 24 e 26 de agosto de 1789 é constituída por 17 artigos que incidem sobretudo sobre o conjunto dos direitos e liberdades individuais; não há praticamente direitos de caráter social.
Essa Declaração tem como principal objetivo dar corpo às aspirações da burguesia triunfante, enterrando o ancien régime monarca/feudal em que a nobreza detinha um conjunto de privilégios que já não faziam sentido face à evolução do processo produtivo e das relações sociais, de onde emergia o peso da burguesia triunfante.
Esta nova classe necessitava da liberdade de se poder consolidar e aprofundar no domínio das relações da produção; não aceitava as prerrogativas atribuídas à nobreza e daí a aprovação da Declaração.
Os cento e quarenta e nove anos que medeiam entre a aprovação da Declaração dos Direitos do Homem na revolução francesa e a Declaração Universal dos Direitos Humanos na Assembleia-Geral da ONU dão conta dos avanços de um texto para o outro.
Enquanto no primeiro a ênfase era colocada nos direitos individuais, no segundo mantêm-se esses direitos, mas aparecem já todo um conjunto de direitos novos que se pretendem universalizar.
Estão neste caso os direitos ao ensino e à educação, ao emprego, à saúde, à habitação.
Entretanto, à medida que a globalização se tornou dominante e o sistema financeiro cercou o mundo, as questões em torno dos direitos humanos assumiram crescente relevo na cena internacional.
Foram explorados até à náusea na questão do direito de ingerência que permitiria a um conjunto de países agrupados na NATO intervir em certas situações e segundo determinadas conveniências.
Como se sabe esteve muitas vezes em cima da mesa a opção de intervenção militar para impedir a violação de direitos humanos, sobretudo durante o consulado de George W. Bush (filho) que ameaçou os países do chamado “eixo do mal” ou países párias.
Todos recordarão a vergonhosa intervenção militar capitaneada pelos EUA no Iraque que levou à destruição do país, sendo que assentou numa cruel mentira e quando desmascarada Bush e Condoleza Rice logo agulharam que estavam a defender os direitos humanos naquele país.
Com o novo ciclo politico aberto com Donald Trump na presidência dos EUA, este enfoque parece ter mudado radicalmente. Trump diz colocar a América “first”. Como todos os líderes das potências em declínio, faz da reafirmação da grandeza da América, leia-se E.U.A., um objetivo capaz de dar resposta à crise que o país vive, sobretudo em setores profundamente afetados pela crise industrial e agrícola.
O retorno ao grande país dos sonhos é contraditoriamente martelado por Trump pela demagógica campanha em defesa dos americanos e em detrimento e até da repressão dura aos emigrantes, como se não fosse, ele mesmo, filho de emigrante. É como se a América não fosse um país de emigrantes que arrasaram praticamente os nativos.
Com Trump, os EUA fecham-se ao mundo numa visão nacionalista fundamentalista em que o que conta é América; tudo o resto são ameaças a essa grandeza.
Para tanto Trump escolheu parceiros como Netanyahu de Israel deslocando a embaixada para Jerusalém, e o príncipe Mohammed Bin Salman, o carniceiro de Khashoggi, declarando um relacionamento à prova daquele monstruoso crime com a Arábia Saudita.
O confronto do nacionalismo exacerbado com o multilateralismo, ou seja, o confronto entre os interesses egoístas de um Estado com os interesses multilaterais e globais de todos os Estados que constituem a comunidade internacional, está hoje em pleno na atualidade internacional. Mesmo quando alguns, no plano interno, se servem do nacionalismo e, no plano externo, defendem o multilateralismo, talvez quiçá por tática.
Concomitantemente a nível global prossegue a política de austeridade impondo sacrifícios aos de baixo e grandes benefícios a uma minoria. É contra este estado de coisas que a revolta tomou conta das ruas de França.
É este o mundo que vivemos. Um mundo em que as duzentas e vinte cinco maiores fortunas somam um total de mais de um bilião de dólares, o que equivale aproximadamente aos rendimentos anuais de dois mil e quinhentos milhões de pessoas mais pobres do mundo e que representam cerca de 42% da população mundial.
A seca deste ano no Afeganistão é tão dura que as famílias vendem os filhos para minguar a fome.
Os direitos humanos tal como estão plasmados na Declaração são uma aspiração longínqua para centenas de milhões de homens e mulheres.
Estes setenta anos corresponderam a grandes avanços, mas à nossa frente perfilam-se desafios gigantescos.
O primeiro é impedir que as forças retrógradas destruam estes direitos conquistados
O segundo é impedir que os fanáticos do império da força conduzam o mundo para uma terceira guerra mundial. A paz é o direito dos direitos, o supremo direito a viver.
O terceiro é erradicar a pobreza extrema que impede que mais de metade da Humanidade possa ter uma vida com o mínimo de dignidade.
A quarta é diminuir as desigualdades que levam a que uma ínfima minoria de pessoas tenham mais rendimentos que cinquenta por cento da Humanidade.
O quinto é dar força ao direito internacional e às Nações Unidas impedindo que os conflitos saiam desse quadro como pretendem as potências mais fortes.
Muitos outros desafios haverá. A conciliação entre os direitos e as liberdades individuais e os direitos sociais, económicos, culturais ambientais é o caminho para o mundo melhor e mais humano.
*ADVOGADO