RIO E AS MINIS

A notícia reza que Rui Rio tem uma espécie de mini base para formar governo, o que é único e admirável.

Esgotam-se os adjetivos tal é a envergadura da dita. Aliás, mais ninguém tem. Só os hipermercados. E a mini, dado o caráter renovador, tem na base ex-ministros. Extraordinário. Somos todos mini, não somos?   

Viva o PSD e a mini base. E quem a apoiar. Coitadinho do Natal.

A liderança

Haverá quem pense que o futebol é só alienação e não seja capaz de compreender o enraizamento profundo na vida popular. A simplicidade do jogo é uma das principais razões da adesão popular. É a sua simplicidade contagiante que leva os miúdos a jogarem e os graúdos a regalem-se com as jogadas do fim do mundo. Naturalmente que a hiperindustrialização e os mais escuros negócios abalam a relação com a comunidade.

Mesmo sem essa nova variante já era há 60, 70, 80 anos o desporto rei, e era aquele que as crianças queriam praticar e virem a ser como os seus ídolos.

Vem isto a propósito do clássico disputado ontem entre o Porto e o Benfica. Já foram escritos comentários e análises teóricas sobre o apagamento da equipa da Luz.

Eu queria, pelo lado da liderança, referir outro ângulo, muito mais presente em quem jogou futebol e que é o seguinte.

Acontecia muitas vezes ainda as equipas estavam à espera do apito e sentia-se no outro uma disponibilidade que impunha respeito. Repito, ainda a bola não tinha começado a rolar, era apenas algo que sobressaía na disponibilidade física e mental. Sentia-se aquela galhardia, uma espécie de concentração/confiança.

Esse lado “oculto” em parte “condicionava ” o adversário. E mal o jogo começava se aquele primeiro felling correspondia à determinação de dar tudo, então esse lado subjetivo transformava-se numa imensa objetividade que realmente condicionava o outro.

Se viram o jogo entre o Porto e o Benfica saberão daquilo a que me quero referir – à disponibilidade mental e física para impedir o outro de ser o que é e passar a ser o que a outra equipa quer que seja. Questão de liderança.

Um Presidente que não comenta e um hierofante que acerta mal

Os portugueses estavam todinhos à espera que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, comentasse o caso da demissão do Sr. Dr. Cabrita.

Mas não comentou, ou seja, comentou a dizer que não comentava, não fosse o povo português ficar horas ou dias à espera, havendo quem temesse elevado abstencionismo nalguns locais de trabalho. Está a chegar o dia da ginjinha e deste modo entendeu e muito bem que fosse o hierofante Marques Mendes a botar comentário que botou.

Marques Mendes faz-me lembrar o Manel Pataco, um recatado homem de Amorim(a freguesia onde cresci até outras paragens e deixou de ser freguesia devido aos sátrapas da troica Merkeliana que estavam aterrorizados com os gastos das freguesias, na terra deles não gastam 1 € em freguesias) que nasceu a 29 de fevereiro há já uns largos anos, por altura do fim da guerra mais pico, menos freguesia.

O Manel ficou célebre porque tinha uma pergunta fatal que era esta – Diga lá que idade tenho eu Sr. João Lopes?

O meu pai respondeu-lhe, pela tua pinta deves ter uns trinta. Aguardou o resultado.

– Acertou mal.

– Acertei mal?

-Sim senhor, há anos que não faço anos.

Ora o nosso sempre prazenteiro Marques Mendes também acerta mal. Nos mapas acerta e nos livros que apresenta também; o resto é mais para o 29 de fevereiro do Manel Pataco.

RENDEIRO FALIDO E CHEIO DE DINHEIRO, O INDULTO, AS SAUDADES DAS CADELAS E A JUSTIÇA

Quando um(a) cidadão(ã) se senta no banco da sala de audiências, frente ao juiz, há, desde aquele simples momento, uma espécie de um mundo invisível que percorre o julgador, mesmo que seja no domínio do inconsciente. Não se vê, mas está lá, como a alma ou o espírito, presente na atmosfera da sala do julgamento, no modo como certos arguidos colocam as palavras e as adoçam.

Alguém bem vestido, de boas maneiras, cortês gera no tribunal uma atitude de perplexidade, mesmo que sem esse propósito. No fundo, é alguém que os juízes podiam ter conhecido nos bancos da Faculdade.

Quem, por outra banda, alguém se senta no mesmo banco mal vestido, de maneiras mais ou menos rudes, de acordo com as famosas regras da experiência comum, é algo que se aceita que possa acontecer.

Não é, em geral, uma atitude consciente e premeditada; é a condição humana a funcionar de acordo com o que apreendeu consciente ou inconscientemente desde o berço à universidade e à vida.

Um banqueiro é polido. Licenciado. Bem-falante, melhor vestido e engravatado e sapatos a condizer.

Este mundo não foi feito para os de cima se sentarem no banco dos tribunais, onde normalmente se sentam os de baixo.

Aliás, tenha-se em conta que, neste país de vivaços, os banqueiros aguardam anos e anos para serem julgados e antes de o serem ficam loucos ou morrem ou fogem.

Há quem defenda que o mal está nos recursos, como se o mal nos incêndios estivesse nas florestas e árvores. O mal está em empobrecer de tal modo a máquina judiciária que o longo tempo de decisão se torna uma marca inultrapassável e desprestigiante, mas nunca inevitável, bastava para tanto alocar meios. A justiça não dá votos, logo não é importante.

A justiça, pilar básico do Estado de direito democrático, está de rastos e não acontece nada. Todos, inclusive os magistrados, independentemente do brio profissional, já perceberam que este país aceita nesta matéria quase tudo. Esperar 10 anos por uma sentença. Pagar custas caríssimas. Aguardar anos e anos pelas decisões dos recursos. E nada acontece. Nem um tremelique, quanto mais um sobressalto. Num país de gente cordata, a cerviz tanto baixa como sobe, tudo depende de quem está à frente.

Há menos de dez anos os juízes mereciam a confiança dos portugueses. Hoje já não a merecem. Dá que pensar.

Na verdade, desacreditar a justiça é meio caminho andado para instaurar o clima de medo e de desconfiança nas instituições democráticas. É o objetivo da extrema-direita e dos criminosos. Uma justiça que se faz notar como sendo molinha com todos os Rendeiros inspira desconfiança. É um sintoma de uma peste que corrói a alma e a esperança de Portugal e não só.

Os Rendeiros de todas as espécies ao espezinharem a justiça gozando com tudo e com todos, a começar pelos próprios juízes, estão a matar a justiça que devia fazer parte do pão nosso de cada dia.

O banqueiro escarnece do país quando anunciou à CNN que iria processar o Estado português devido ao atraso da justiça. Ele, que jogou tudo com a sua equipa de advogados na lentidão da justiça, anuncia uma ação contra o Estado. É próprio de um criminoso recalcitrante, incapaz de se colocar na ordem jurídica vigente, um fora da lei.

Os gestos, as palavras adocicadas, a vestimenta e os modos na frente dos juízes são parte da máscara usada para conseguir enganar o tribunal e ficar com o passaporte e viajar quando e como quis.

Seria possível acontecer com um desconhecido?  O nosso espantoso Presidente responderia a quem fora de tempo exigisse um indulto para regressar? O Presidente despacha sobre indultos inexistentes? E que diz ele das saudades das cadelas anunciadas à CNN por Rendeiro? Com os diabos, afinal é mesmo assim, um banqueiro é um banqueiro, um homem cheio de dinheiro, mesmo dizendo-se falido.

https://www.publico.pt/2021/12/02/opiniao/opiniao/rendeiro-falido-cheio-dinheiro-indulto-saudades-cadelas-justica-1987138

Homenagem a duas vidas vivas na casa do Alentejo

DOIS BRAVOS DO PELOTÃO

Dizer algumas palavras sobre o Paulo e o Fernando seria dizer apenas duas e estava tudo dito – dois bravos. Porém, em vez destas duas escrevi 939.

Nasceram no começo da segunda guerra mundial; quando entraram na escola terminara há dois anos, passados alguns começava a guerra colonial, tinham vinte anos.

O nazi/fascismo fora derrotado, mas, em Portugal e na Espanha, cada regime à sua maneira, mantinha-se à custa do medo e do terror.

Tempos brutais, próprios para incorrigiveis resistentes. Tempo fechado dentro do tempo. Envenenado.  Tempo de bravura, de ter nas mãos a força para ajudar a abrir o tempo de Abril.

E ambos pegando na candeia que alumiava o rumo assumiram a coragem de lutar.

No percurso do Fernando e do Paulo não há faltas às batalhas. Presente, disseram eles.

São da fornada de homens e de mulheres que fizeram de Portugal um palco de esperança acontecida. Derrubamos o fascismo. Acabamos com a guerra.

Trazem a alma e as mãos limpas no sentido de se terem colocado no fio da navalha e de não temer a fronteira entre a coragem e a desistência. Conhecemo-nos demasiado bem e, muitas vezes, esse facto faz-nos desvalorizar o empenho de décadas à causa da liberdade, da democracia e do socialismo de muitos que aqui estão e de outros que aqui podiam estar.

Evoco a coragem do Fernando que foi preso pelos esbirros da PIDE para sofrer 19 noites de tortura do sono. Tornou-se símbolo na resistência de então. Quando saiu de Caxias o mundo era pequeno para ele. 

Não se trata de parar o tempo ou de viver como se o passado fosse presente. É preciso que a memória seja memória para que seja sempre só memória.

 Sei que o tempo é de outro molde, mas sabemos todos os que estamos aqui que em política as sementeiras se colhem, mesmo que tardiamente.

O Paulo e o Fernando atravessaram metade do século passado, desde que tiveram consciência da sua cidadania e todos estes anos ao lado das lutas por um Portugal e um mundo melhores.

Militantes e dirigentes que foram do Partido Comunista Português levaram a sua força e a sua experiência e trouxeram a confiança que só aquele partido, naquele tempo histórico, podia dar.

Um, construtor da Festa do Avante desde o primeiro minuto, quando a Festa era magia, arte, e política no melhor sentido do termo; nesse tempo até os adversários gostariam de ser como nós.

Saíram do PCP para poderem continuar a ser o que sempre foram – comunistas. Não foram, tal como muitos de nós, folhas secas que o vento fez tombar. Há comunismo para além do PCP, do carreirismo, do verbalismo radicalista de uma orientação desprovida de futuro.

O Paulo na sua nobre profissão de professor, prestigiado dirigente sindical, tendo sido fundador do SPGL e da FENPROF e eleito Secretário-Geral desta última Federação e membro da Comissão Executiva da CGTP.

Mas foi mais, um homem de cultura, aliás dois homens de cultura. O Paulo poeta e ensaísta. Quantos livros apresentou o Paulo? Quando se cansará de escrever sobre livros? Quantos artigos sobre literatura escreveu? Com quantos escritores e cantores conviveu e ouviu dúvidas e complexidades acerca do refinado laboratório que é a escrita.

Há quase trinta anos membro do Conselho Nacional da Educação, traz no rasto da sua vida uma ligação à vida associativa cultural e humanista, como foi a ligação aos Bombeiros de Águeda e ao Orfeão de Águeda como Presidente da AG de ambos. Um ativismo sindical, político, humanista, recreativo e artístico.

E o Fernando, o engenheiro, à frente de espaços livreiros onde artes diversas foram acarinhadas e impulsionadas e editando livros de enorme qualidade que o situacionismo financeiro não pegava?  E promovendo com o seu companheiro de armas, o Zé Tavares, não só a literatura, mas também promovendo exposições de pintura e fotografia. E abrindo o espaço a debates onde participaram dezenas de intelectuais e ativistas.

Um país cujos jornais não têm suplementos literários não é bem um país, é uma espécie de desgraça incapaz de assegurar para que os seus criadores sejam valorizados e promovidos. Em vez de promover a cultura, os media, em geral, optam pelo vulgarismo primário, convidativo a fazer dos cidadãos basbaques, meros consumidores de reallity shows.

O Fernando no seu labor de formiga, contra a corrente, foi acendendo luzes de cultura, remando contra a corrente, sem desfalecer, mesmo quando todos nós porventura nem sempre soubemos dar o devido valor.

O Paulo sempre, sempre disponível para ler e reler os trabalhos que vão pedindo e as opiniões chegam sempre a tempo. De tal modo que em termos jurídicos o costume ganhou consistência de lei.  Por isso, a espera pelos livros dele, Paulo, se nos impacienta.  

É difícil num tempo de basbaqueira criar cidadãos ativos comprometidos com projetos de cultura. Em volta reluz o vil metal. Vende-se o que dá na televisão. O que dá na televisão dá fama e esta é dinheiro em caixa e daí a luta pelas audiências a anestesiar os seres humanos cansados de tanta injustiça e incapazes momentaneamente de fazer do seu casulo o casulo da História e mudar o rumo da vida.

Esta geração que, no Paulo e no Fernando, saudamos aqui está para nos dizer que as coisas não são como parecem e há sempre um tempo para o tempo; o tempo da mudança virá. O nosso maior escritor, Luís de Camões, já o dizia, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, todo o mundo é composto de mudanças.

Acresce que, para além de tudo o mais, são dois excelentes amigos. Dois bravos do pelotão. Bem hajam.  Esperemos pelos noventa.

Rangel, o durão, na versão de Andrea Bocelli Quizás, Quizás, Quizás

Paulo Rangel entrou a todo o gás na campanha para líder do PSD. NA sua linguagem contundente encostou Rui Rio ao PS. Advertiu que com ele manda o PSD ou o PS. Dando guarida aos críticos internos de Rio apontou as baterias ao PS e a Rio por ser complacente com o PS, o que ele não admite.

 Por estas ruas e veredas se vai espraiando Rangel naquela sua imagem dorida de quem carrega aos ombros um mundo de cargas pesadas.

Na entrevista ao Pública de sábado Rangel depois de todo o aranzel acerca das virtudes da sua candidatura e da moleza de Rio largou esta espantosa e duríssima ideia de combate ao PS: PSD e PS devem fixar para sempre o número de ministérios e até (valente) o nome de cada qual.

Há que concordar que é um achado. Imagina-se Miguel Poiares Maduro, seu trunfo eleitoral, à mesa com o mandatário do aggiornamento do PS, talvez o ex-líder da JS, o Sr. Sousa, a tratar do número de ministros e dos nomes dos ministérios e talvez com este ímpeto o próprio nome dos respetivos ministros. E surge a luminosa voz de Andrea Bocelli na sua interpretação de Quizás

Siemppre que te pregunto

Que cuándo, como y donde,

Tu sempre me respondes

Quizás, quizás, quizás

O fato e a gravata do sr. engenheiro Santos

Uma das grandes diferenças entre Portugal e a Sérvia no jogo de domingos foi esta: a Sérvia morria para ir ao Qatar, Portugal ia ver como decorria o jogo.

Enquanto Portugal quis (cerca de dois minutos) foi capaz, com gana roubou a bola e marcou golo.

 Depois acreditou que já estava no Qatar e do alto do seu estatuto e em sua casa deixou que os sérvios mandassem até final.

Quando o Nuno Mendes ou o Cancelo queriam sair o caminho estava bloqueado e no centro Ruben Dias e Danilo tinham o médio mais próximo atrás de três ou quatro sérvios.

Os médios portugueses só viam a floresta dos médios sérvios, os avançados portugueses estavam no Dubai a caminho do Qatar.

Tirando Bernardo Silva, o resto foi de uma mediocridade inolvidável. O treinador sérvio avisou que vinha para ganhar e que havia sempre uma primeira vez. O sr. engenheiro não queria que o jogo começasse porque o empate servia; servia a Portugal, não servia à Sérvia.

O sr. engenheiro foi de fato e gravata e Dragan Stojkovic, o treinador sérvio, em camisa. Quando o sr. engenheiro fala, quem o ouve? A sua gravata?

Tráfico de diamantes e guerra, as missões militares de Portugal

Uma guerra é sempre uma guerra; sempre desprezo pela humanidade, incentivo à prática de crimes, liberdade de violentar, destruição e morte. A guerra é a violência institucionalizada.

Portugal, um pequeno país, periférico, saído de três palcos de guerras coloniais, vem mantendo contingentes militares em países africanos devastados por guerras intestinas alimentadas do exterior.

Dizem os responsáveis políticos e militares que estas missões prestigiam o país. É o que dizem; eles e os que lhes incentivam a participar nestas missões. Como se fossem os comandos portugueses os únicos e mais capazes.

A operacionalidade das Forças Armadas portuguesas parece estar cada vez mais ligada a estas missões. A sua estratégia será combater por esse mundo fora, desde o Afeganistão, passando pelo Mali e a República Centro-Africana, entre outros países. Também voam no Báltico. Quem manda, acha que este é o papel de Portugal. Dúvidas não poderão existir que os vencimentos são bem mais altos neste desempenho de guerra do que noutros.

O mal da guerra é a própria guerra e o seu cortejo de barbaridades. Onde quer que aconteça, sejam quais foram os protagonistas.

As notícias que ligam os crimes de tráfico de diamantes, ouro, droga, branqueamento de capitais à missão na República Centro-Africana são consequências da guerra.

Quando alguém de arma na mão pode matar (a última fronteira a cair contra os outros humanos) pode fazer tudo. Não porque lho digam, mas porque o sentem do alto do poder das armas e de toda a parafernália que ela envolve. Numa guerra o controlo esvai-se. Fica o poder bruto.

Os militares indiciados por gravíssimos crimes cometidos sob a bandeira de Portugal, independentemente da consciência total dos crimes que estavam a cometer (a provarem-se) não os teriam cometido se não estivessem a milhares de quilómetros de Portugal, no centro do continente africano, a impor uma ordem que ninguém no país e até na Europa sabe qual é.

É este o papel que o PR e o governo vislumbram para as Forças Armadas num Portugal democrático, pacífico e de bem com todas as nações? Ir para onde houver guerras engendradas e alimentadas por outros?

 BECO SEM SAÍDA? O PS, O BE E O PCP QUEREM CORRER ESSE RISCO?

Tudo arrancou em 2015. Os resultados falam por si. As coisas mudaram. Acabou o discurso do empobrecimento. Ficou provado que era possível fazer melhor e fez-se. Até por isso, o PS voltou a ganhar as eleições, sem maioria absoluta. O veredito do soberano há dois anos foi claro.

Nessa altura inexplicavelmente a direção do PCP declarou que não aceitava acordos escritos. Foi o que o PS quis ouvir. Ficou com as mãos livres e a depender dos acordos por ocasião do OE. Negociava como, quando, com quem e o que queria.  O PS lembrava-se dos “parceiros” por ocasião do OE e sobretudo do PCP, após o voto contra do BE, o ano passado. Assistia a uma espécie de competição entre PCP e BE, cada um entregue à sua estratégia, desprezando questões essenciais que tinham e têm em comum.

 Neste jornal, em 27/10/2021, o dirigente do PS, Ascenso Simões explicou: À esquerda continuaremos o caminho pelo Estado Social…; com o centro continuaremos a nossa caminhada pela economia de mercado…; com a direita, continuaremos a tentar valorizar o nosso compromisso europeu, a nossa partilha atlântica, o compromisso institucional…

O PS determinará a sua postura em função de cada momento, às vezes ao centro e à direita, outras à esquerda. Está explicada a razão pela qual o PS manteve afincadamente várias medidas no mundo laboral de Passos Coelho impostas pela troica.

Entretanto, como o povo soberano decidiu não corresponder ao apelo do PS e não lhe deu maioria absoluta, Costa teria de ter em conta, se quisesse governar com a esquerda, as posições das outras esquerdas. Não podia, por ser o mais votado, partir do princípio que governava como queria e quando precisasse do apoio dos outros partidos de esquerda eles aí estavam pimpões a fazer de bombeiros ao serviço do PS.

Nas negociações em torno do OE, o governo deu passos no sentido positivo, só que num quadro da escolha de um menu integrado do OE. Encerrado o assunto do OE, encerrava a política de compromissos.

Chegados a este ponto, face aos avisos inesperados e intempestivos de Marcelo, colocava-se a questão: não seria melhor deixar passar o OE e assegurar as melhorias porque, em caso de eleições, a direita poderá ganhar?  Os passos positivos serviriam para responder aos desafios energéticos, aos da Saúde com o esvaziamento constante de estruturas, serviços, e diminuição de enfermeiros e de médicos, aos do abandono escolar, aos da gravíssima crise na Justiça, aos da míngua em que vivem os trabalhadores da Função Pública? O PS com quem viria a fazer frente a estes desafios? Seria o tempo de aliviar o carrego nos mais fracos ou o de permitir ao mercado que descarregue a sua ira competitiva implacavelmente nos assalariados, agradando ao setor dominante de Bruxelas que quer a periferia periférica? Portugal terá inscrito o maldito fado de viver na área laboral com a legislação de Passos/Portas/Moedas? E a oferecer salários baixos que explicam que um em cada cinco portugueses sejam pobres? O PS não respondeu, e o seu rasto é conhecido.

Por outro lado, há três partido à esquerda, sendo que o PS é significativamente o maior, mas tal facto não implica que possa fazer o quiser. Vejamos o caso da anterior coligação das direitas – o CDS não tem é maior representação parlamentar que o BE ou o PCP, antes pelo contrário, porém, a sua responsabilidade no governo de Passos era enorme, ao contrário da irrelevância que o PS atribui aos “seus” parceiros. O PS menoriza os partidos à sua esquerda. Sem entendimento dos partidos de esquerda não há política de esquerda.

O PCP e o BE votaram contra o OE e devem ter tido em conta que havendo eleições a situação ficaria melhor ou similar porque se tal não acontecer erraram, aliás como o próprio PS incapaz de ceder em pontos ao alcance da negociação.

 A política deve ter em conta os passos que se dão. Não se pode avançar dando armas e terreno aos adversários. Jerónimo de Sousa disse à RTP3 que os portugueses admiram e aplaudem o passo que o PCP deu. Se perder votos e peso na negociação, o argumento é uma falácia. O PCP não pode fugir ao desafio que assumiu e para o enfrentar não pode acantonar-se cheio de “razão” e com menos influência.

Condicionar o governo é o que pretendem todos os partidos antes de serem os mais votados. Apesar de todas as limitações do governo de Costa um governo de Rio ou Rangel criaria toda uma outra dinâmica que mudaria Portugal para muito pior.

Saibam os três partidos, pelos menos agora, não persistirem nas recriminações dando trunfos a Rio/Rangel. Será que o PS se quer apresentar ao eleitorado clamando que só há um modo de governar, sozinho? Quer correr esse risco? Ainda não deu conta que conseguiu governar mais de seis anos virado para a esquerda? Perdeu o retrovisor?

https://www.publico.pt/2021/11/05/opiniao/opiniao/beco-saida-ps-be-pcp-querem-correr-risco-1983784

O CDS e as Associações estudantis

Do alto da sua irrevogável sabedoria disse o ex-líder que aquilo que ele dirigiu se parece com uma Associação de Estudantes.

Dado que aquilo ainda existe, embora por pouco tempo, pela aragem que vem da coisa, o Senhor comentador de vírus e similares associou aquilo às nobres instituições académicas que muito contribuíram para que pudesse dizer o que disse.

Se o comentador não fosse o que é, saberia certamente que a esmagadora maioria dos dirigentes políticos desde Abril de 74 até há uns anos tiveram nas Associações académicas as sua Escolas de Altíssimos Estudos, tendo nessas escolas superiores sido forjados Presidentes da República, Primeiros-Ministros, Ministros, Conselheiros e uma caterva de quadros e dirigentes das várias instituições da República.

O Senhor do boné bem conhecido nas feiras de Norte a Sul chegou a Vice-Primeiro Ministro e saiu de cena após os anos troicanos. E como tinha de dizer algo sobre a criatura que ajudou a engendrar lembrou-se de atacar as Associações estudantis comparando-as àquilo que aquilo é hoje.

Talvez falte ao CDS quadros e dirigentes formados nas velhas Escolas que foram as Associações estudantis. Nada de estranhar, pois muitos dos ativistas que se colocaram ao lado do governo fascista passaram para o CDS a seguir ao 25 de Abril. Talvez seja parte da explicação.