A Mulher que Ia no Carrinho de Mão

A mulher tem 76 anos. E o companheiro 59. E moram em Alpedreiras de Cima, no Bairro das Pias, ao rés da EN 4 que liga Elvas a Badajoz.
Ela não se aguenta em pé, doente. E eles precisam da sua reforma. O homem de 59 anos mete a mulher num carrinho de mão e leva-a à segurança social para receber a reforma.
A notícia não revela se ela é exibida à funcionária dentro ou fora do recinto da segurança social, nem se o carrinho entra nas instalações.
Fica-se a saber que a mulher de 79 anos vai deitada no carrinho de mão, onde os trolhas e os pedreiros levam pedras, sacos de cimento, ferramentas, inertes e os hortelãos transportam o estume para a horta. É obrigada a deslocar-se deitada no carrinho de mão pelo menos seis quilómetros, sem se saber quantas horas precisavam para essa missão e para ir à farmácia comprar os medicamentos que ela precisa e os obtém com o montante da reforma. Nem se sabe o que acontece se a mulher tiver de fazer alguma das suas necessidades.
É de presumir que o homem faça o transporte por amor ou amizade à mulher idosa de 79 anos.
Os funcionários da segurança social que olhavam e não viam que a “utente” ia deitada num carrinho de mão, como um monte de pedras, não eram cegos. Apenas olhavam e não viam.
O homem que transportava aquela mulher transportou-nos a todos para o mundo escondido da miséria mais brutal que se esconde nalguns cantos do nosso país.
Ele leva um peso físico de uma mulher doente ao longo daqueles quilómetros e os que lemos a notícia a dor que revolve a alma de raiva.

Dijsselbloem e os Copos

O sr. Dijsselbloem, presidente do Eurogrupo e, Ministro das Finanças da Holanda, derrotado nas últimas eleições, é um homem cheio de virtudes e não gosta dos cidadãos do sul.

No sul vivem mais de cinquenta por cento de mulheres no total da população e o senhor entende que a situação económico-financeira desta região se deve ao facto dos sulistas gastarem o dinheiro em copos e mulheres.

O que significa que as mulheres do sul ou bebem muito ou gastam muito com as outras mulheres, o que é uma aberração ainda por cima vinda de um holandês.

É estranho. Muito estranho. Na Holanda, terra das liberdades, gastar dinheiro em copos e em mulheres é um ver-se-te a vias; no red light district é à grande e à holandesa…

Não há diversão que os habitantes dos Países Baixos não usufruam – copos, prostituição e etc… tudo a granel.

O fiel amigo do Senhor Schäuble deve estar a tratar do retiro depois da coça que levou e resolveu tentar continuar no cargo por outros meios e passou a engraxar as botas do ministro das finanças alemão.

Na Holanda, o país das tulipas, não deve existir a expressão portuguesa – é preciso ter lata; é que se houvesse o senhor talvez não tivesse coragem de injuriar os habitantes que adoram cerveja, pinga do sul e mulheres às carradas, inclusive nas montras para que as escolhas não possam ser erradas.

Esta ideia peregrina só podia sair de um lambe botas dos alemães quando os holandeses acabaram de o despachar para longe de Bruxelas…

As más-línguas, mesmo más, dizem que o senhor gosta tanto de copos como os do sul, só que quando está com os copos não tem tempero, é um destrambelhado.

Hipocrisia Rançosa

Há algo de intrigante no quotidiano político desta nossa nação à beira mar estendida a construir algo de novo neste velho continente. Algo cómico e revelador da fragilidade dos políticos que colocam os mercados e o capital financeiro acima dos portugueses e de tudo.

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A Alma que Sustenta o Corpo

Longo, muito longo tem sido o caminho dos humanos das cavernas até aos dias de hoje. E sempre em ascensão para novos patamares de conhecimento. E com a esperança de tornar o velho novo e de tudo desvendar. E de alcançar o que se não alcança. O estatuto de divindade.

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Trump Não É Um Nacionalista, É Um Imperialista

De repente os media e uma caterva de comentadores de uma penada passaram a considerar Donald Trump um nacionalista. Assim. Rui Tavares vai direto ao homem que escreveu o discurso de Trump, Steve Banon, que classificou o discurso de tomada de posse do Presidente como uma declaração de princípios básicos do seu movimento populista e nacionalista.

Então convém responder a esta questão – de todos os presidentes dos E.U.A. ( e não da América) qual foi o que não pôs os E.U.A em primeiro lugar? Um só, por favor…Quantas guerras os E.U.A não desencadearam para defender os seus interesses em primeiro lugar? A questão da NATO –  não foi criada sobretudo para defender os interesses dos E.U.A.?

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Regra de Ouro no PCP

O PCP defende o princípio a que chamou regra de ouro, segundo o qual no Comité Central (CC) do partido tem de haver uma maioria de quadros de origem  Dentro desta conceção e sopesando os perfis dos diversos quadros candidatos àquele organismo, o Comité Central cessante propõe ao Congresso um novo CC onde a maioria tem origem operária. Tal conceção, em abstrato, pode sobrepor-se a todas as outras possíveis virtudes que possam ter quadros empregados, intelectuais, agricultores ou pequenos empresários que se tenham distinguido no partido na luta pelos seus ideais.

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O Papa Francisco, a Manjedoura, as Palavras e o Ser

Jesus Cristo nasceu há dois mil e dezasseis anos. É o que consta na nossa civilização cristã, ocidental.

Ao que se diz numa manjedoura porque os seus progenitores nada mais dispunham onde ele nascesse. Escolheram um local onde os animais domesticados comiam numa gruta entre palhas para se abrigarem do frio dado que em Belém, em dezembro, naquela parte da Palestina faz frio.

Tendo sido enviado à Terra por quem foi …”Deus pai todo poderoso…” poderia ter nascido onde seu pai verdadeiro quisesse, dado que José foi uma espécie de justificação para ele se assemelhar aos homens.

Quando o papa Francisco no dia de natal beijou a figura de gesso do menino retirada do presépio na Igreja de São Pedro e olhando o esplendor circundante dá que pensar no que o Papa Francisco dizia acerca da pobreza e da exclusão.

As palavras eram belas e ao voarem para todos nós sabiam a justiça e de certo modo eram reconfortantes vindo de quem vinha e de quem tem pautado o seu “reinado” por tanta preocupação sempre mais próxima dos que nascem em manjedouras, bairros sem luz nem água, do que nos palácios ou apartamentos e torres de alto luxo. Sem muitos milhões os excluídos em contraste com a ínfima minoria de bilionários.

Sente-se o mesmo quando se visitam certas catedrais – a ostentação da riqueza em volta, desde os paramentos bordados a ouro à riqueza impressionante da Igreja de São Pedro até à indumentária dos guardas.

As palavras cheias de paz, de bondade, de fome de justiça contra o mundo do ter e aquele ambiente não batiam certo.

Todos aqueles homens estavam impecavelmente paramentados e as luzes cegavam de tão fascinantes. A melhor arte e peças e recantos nada tinham a ver com grutas, nem com manjedouras, nem com pobreza, nem com comiseração.

Francisco soltava palavras tremendas de significado. As televisões passaram-nas. E toda a gente as ouviu. E as esqueceu rapidamente porque o que conta é o que se tem e não o que se é. Ser- se, em verdade, não se é, se não se tem.

E daí a estranha sensação de um mundo de intenções a baterem nos muros da indiferença que começam no próprio templo onde tudo se parece com riqueza e longe, muito longe do mundo dos excluídos.

Não se exigiam grutas, nem manjedouras, nem gente andrajosa para se celebrar o natal. Nada disso. Apenas a sensação que ali não entrariam os pobres, nem os excluídos, pese embora as palavras de coragem de Francisco.

Diz-se que não basta dizer, embora o dizer já seja um começo de um caminho na boa ou má direção.

Falta, às vezes, às palavras a força das circunstâncias em que são proferidas e do compromisso que elas representam no caminho de um mundo mais justo e humano.

Quem se atreverá a discordar que o consumismo não é uma malignidade das sociedades atuais?

As palavras ditas, em Roma, na igreja de São Pedro, no meio da pompa da circunstância, podem perder grande parte do seu efeito pelo facto daqueles a quem era suposto se dirigirem já nada esperarem. E é pena. As palavras são grande parte do que somos; muito mais do que o que temos. São a leveza da alma. A opulência nega o que se é e o que se quer ser.

Texto publicado no Público Online de 28/12/2016.

A Arte de Bater nas Mulheres e Noutros Mamíferos

Há coisas na vida que acontecem e são tão horríveis que pela sua intensidade nos cansam. O grau de anormalidade tornou-se tão normal que já nos acostumamos.

Há meses, antes do dia Internacional das Mulheres, um painel de cientistas sauditas considerou que as mulheres são mamíferos e que nessa condição terão os mesmos direitos que os camelos, as cabras, os dromedários. Antes o estatuto era o de um objeto, do tipo móvel de casa.

Tal facto foi considerado naquele reino um avanço extraordinário, pois deixaram de ser coisas e passaram a ser mamíferos com direito a abrigo e alimentação.

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Fidel

Vivemos num mundo em que o que acontece só acontece se passa nas emissões televisivas ou no youtube ou registado numa selfie

A força indomável das multidões unidas vai dando lugar a uma solidão que as invenções tecnológicas sublimam. As trombetas anunciam sempre o mesmo destino, seja quem for que as sopre. Há uma espécie de medo por todo o lado que se apega à pele e não sai. Ontem, 25 de Novembro, morreu um homem que abanou o tempo nas suas entranhas e o segurou por breves instantes. Um homem dos pés à cabeça, daqueles que, como montanhas saídas dos vulcões sociais, provam que são os homens que fabricam a sua História.

Trocou a advocacia e a Universidade por um sonho. Se Luther King teve um sonho ele viveu a sonhar despedaçando pesadelos. Sem olhar para o que então se ensinava acerca das revoluções ele e mais uma centena e picos de corajosos lutadores partiram ao assalto de Moncada para derrotar o ditador protegido pelos yankees de seu nome Fulgencio Batista. O assalto fracassou e a maioria morreu frente aos homens do protegido do grande vizinho. Fidel foi preso, julgado e condenado.

Animado de indomável vontade, contrariando a ideia assumida que a História passava nas grandes cidades da Florida ou mais ao norte, lançou-se de novo à empolgante aventura humana de acreditar que o sonho pode comandar a vida. Esse era um tempo em que as revoluções deviam acontecer segundo as ideias dos revolucionários diplomados em Moscovo ou em Pequim.

Não havia nos manuais das revoluções Sierra Maestra ou Gramna, nem o próprio partido comunista de Cuba o admitia. Só Fidel, Che, Camilo e tantos no meio de tão poucos. El Comandante expulsou Fulgencio, o sátrapa de Washington, e trouxe a dignidade a Cuba. A juventude do mundo pôs os olhos em Cuba. Um caminho absolutamente singular, nunca antes teorizado, levou um conjunto de homens com a sua coragem a interpretar as aspirações de um povo muito personalizado, apesar dos casinos yankees.

Mesmo debaixo das barbas do Grande Império, Fidel abria uma nova escada por onde os povos poderiam trepar e arranhar os céus da liberdade. O povo cubano tem uma forte identidade e orgulho nacional que Marti tantas vezes elevou nos seus escritos patrióticos. Fidel foi sobretudo cubano, mesmo quando se protegeu com a aliança com a URSS. Nunca abandonou aquilo que considerou ser o melhor caminho para Cuba.

Ajuda a explicar a razão de o regime se ter mantido quando se esboroou na Europa. Na verdade tem de se reconhecer convicções e princípios a Fidel. O trajeto de Cuba é tão singular que o 1º Congresso do Partido Comunista de Cuba se realizou nos finais de 1975, dezasseis anos depois da vitória sobre a ditadura de Batista.

Fidel procurou em todas as ocasiões um caminho muito própria para a revolução cubana, afastando-se em muitos aspetos do modelo soviético ou chinês. Precisava da URSS e aproximou-se daquele país. Na era de Gorbatchov virou-se para os chineses após anos de violentos ataques. Cuba tinha relações diplomáticas com Portugal, mesmo antes do 25 de Abril, havendo um encarregado de negócios em La Havana e uma Secção Comercial em Lisboa, o que não acontecia com os restantes países socialistas.

Durante a revolução de abril voltou a marcar o terreno com a sua política própria aproximando-se de Otelo e de outros grupos, sem descurar as relações com o PCP, mas não se ficando por aí… Fidel procurou para Cuba um caminho muito especial, mesmo que passasse por estar com os indonésios no caso de Timor-Leste.

Num tempo em que os dirigentes políticos no poder saem dos governos para os círculos financeiros e a riqueza do mundo se concentra nas mãos de uma ínfima minoria e a política se circunscreve aos desígnios dos mercados, morreu um homem que escreveu a História de outro modo. Um gigante. Uma figura messiânica. Um homem que mostrou que SI, SE PUEDE.

Muita coisa precisa de ser mudada em Cuba. E os cubanos sabem-no. O percurso de Fidel, com tanta glória e pontos negros, vai começar a ser julgado agora que morreu e a História implacável, como sempre, dará luz à luz e fará luz sobre o escuro de muitas coisas.

(Originalmente publicado no Público Online)