O Riso e a Fornicação

Fatima Nejjar, dirigente do Movimento Unicidade e Reforma , ala religiosa  do Partido islamista marroquina, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder em Marrocos, nas sua prédicas islamistas considerava que certos risos das jovens se podiam classificar como fornicação. Assim. Sem mais.

O riso delas e não o deles era equivalente a fornicar. Elas com o diabo no corpo. Eles estúpidos, seduzidos, desgraçados animais sem capacidade de reagir, apenas cio.

Ela, Vice-Presidente daquele Movimento religioso, foi no início desta semana, apanhado de madrugada, num carro de alta cilindrada, com o outro Vice-Presidente do mesmo movimento a fornicar.

A dois meses de eleições legislativas foram demitidos dos seus cargos, embora alegassem que se tratava de uma conspiração contra ambos, pois tinham casado segundo o “costume”.

A polícia marroquina a quem tentaram subornar, segundo os media, não referiu se também se a Dona Fatima se ria na altura em que foi surpreendida.

Ela viúva e ele casado alegaram que não tinham cometido adultério dado o casamento de circunstância, mas sem que a esposa do Vice-Presidente , o senhor Moulay Omar Benhamarad, conhecesse o caso.

Não há nas notícias nada que informe se a senhora Fatima tinha o costume de rir e que tipo de riso teria, caso se risse.

As notícias insistiam no facto de ser uma dirigente altamente colocado e seguidora de um islão duríssimo, onde o riso era considerado ao nível da fornicação.

Provavelmente a senhora Fatima nunca se riu. Mas foi apanhada a rir-se com um senhor.

Muitas vezes o ódio das mulheres e dos homens às mulheres não passa de reflexo das perturbações mentais de quem não se segura em termos de pulsões .

Bem pregava dona Fatima, mas que se ria, ria.

A Quem Roubou Prometeu o Fogo?

 

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O homem apesar de ser moldado pelas circunstâncias materiais que o envolvem, encerra em si uma tremenda necessidade de espiritualidade.

O impacte de tudo quanto o rodeia tem uma enorme repercussão na forma de o reproduzir e de o suplantar.

Talvez a consciência da morte e a efemeridade da vida o obriguem a sonhar, a recriar a existência e a aspirar à imortalidade.

Quando Prometeu, de acordo com a mitologia grega, criou a raça humana e lhe concedeu o dom de raciocinar, deixou Zeus colérico.

Para se aproximar das suas criaturas roubou o fogo do Olimpo: o que levou Zeus a castigá-lo e a agrilhoá-lo no alto do monte Cáucaso por trinta mil anos (nada para um imortal) e a ser picado todos os dias por uma águia que lhe comia o fígado quase todo. Afinal Prometeu tinha fígado como os humanos.

Estas e outras estórias nos foram narradas por humanos porque a Prometeu nunca ninguém o ouviu falar. O destaque vai para Ésquilo que no século quinto A.C. que escreveu a tragédia “Prometeu agrilhoado”.

Os humanos são seres extraordinários para o bem e para o mal. Inventaram princípios religiosos que os ajudaram a viver com maior coesão, mas tão depressa os inventaram como os pisaram. E outras normas criaram.

Prometeu foi inventado? Ou foi Prometeu que inventou os humanos? Quem inventou o fogo?  Não terá sido o homem a ir levar o fogo a Prometeu, apesar de Ésquilo?

Há na Birmânia templos magníficos que encerram outro tipo de espiritualidade, a devoção a Buda.

Há os que são verdadeira arte e outros que são apenas locais de culto. No cômputo geral são dezenas de milhares.

Na Ásia, nomeadamente no Sudoeste asiático, a relação com os deuses é bem mais liberta de formalismos.

Entram nos templos, aproximam-se do altar, oferecem o que trazem e pedem o que os move.

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Entra um casal de jovens tão compenetrados do seu amor e do ramo para oferecer a Buda e dirigem-se à imagem e ali o deixam após se curvarem.

É humano pedir a quem se considera ser superior. Ás vezes esperando pelo milagre para cumprirem a promessa, outras vezes pagando antecipadamente.

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Não parece haver dúvidas que na viagem dos humanos por este mundo não lhes basta a realidade material. Precisam de mais. Precisam de inventar. Criar. Reinventar.

E imaginar o poder que não têm, saber o que não sabem. E usufruir o que a vida nem sempre oferece, mas que se imagina.

Há, também, por isso, muito encantamento e beleza que só as palavras dos poetas descobrem.

Os artistas que imaginaram o templo de Mahamuni Paya,  em Mandalay, seguramente tinham dentro de si um inflamado fervor espiritual de devoção a Buda.

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Ali diariamente milhares de pessoas, a maioria pobres, vão colocar pequeníssimas folhas de ouro na estátua de bronze de Buda e pedir para terem a sorte.

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Os homens são seres incríveis. Fazem estátuas e imagens de divindades e de ídolos. Dão -lhes e pedem–lhes  o que não têm.

Quantos Paraísos?

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À medida que se atravessam países, regiões e continentes, damos conta do impacte tremendo da religião na vida das pessoas, povos e Estados.

No sudoeste asiático o budismo está omnipresente. Em Bagan, na Birmânia, há mais de dois mil e trezentos templos.

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No Médio-Oriente domina o Islão, assim como em toda a Ásia Central.

N a Europa, na América e na Austrália reina o cristianismo.

Face a esta diversidade de deuses e divindades cabe perguntar: estarão os crentes de cada religião convencidos que só eles terão acesso ao paraíso? Os cristãos creem que chineses, birmaneses, tailandeses, cambodjanos não irão para o paraíso por serem budistas?

Haverá para os muçulmanos um paraíso só para eles e infernos para os outros?

E se houver só um, como creem os crentes de cada uma das religiões? Os seguidores das outras ficam à porta ou vão para o inferno ou encarnam em animais que não queriam? E as excelentes pessoas de cada religião ficam de fora do paraíso onde entrarão outras com menos excelência seguidoras do deus único?

Ao longo dos milénios contabilizamos tanta fome, tanta miséria, tanto morticínio, tanta guerra, tantas montanhas de cadáveres inocentes para agradar aos deuses…ou em seu nome.

Verdade seja dita que os ensinamentos vão noutra direção. Mas o homem foi aos deuses buscar a legitimação da maldade pura para aniquilar o semelhante! E eles tão poderosos nada disseram…

Em Kuala Lumpur, num templo taoista, o deus venerado, o deus da guerra, tinha na sua representação uma carantonha horrível e, no entanto, os crentes vinham, ajoelhavam-se e queimavam incenso…

Qual será a divindade perfeita? A verdadeira? E o que sucede aos outros face a quem entender que a “sua” é a verdadeira e única?

O homem, esse caminhante desde os primevos é capaz de colocar na conduta de outrem a justificação da sua. Os deuses servem que nem uma luva. Inventámos ou fomos inventados? Que tempo será o do futuro? E o dos deuses? Virão novos com o novo tempo? E serão os deuses abandonados pelos homens? Ou os homens abandonados à sua sorte?

Que Pensarão os Deuses?

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O pagode budista Shwedagon, em Yangon , capital da Birmânia, brilha de tanto ouro. São três toneladas e meio de ouro a cobrir a cúpula de cem metros do pagode incrustada de diamantes, rubis, esmeraldas e do melhor jade do mundo.

Ao cair da tarde quando o sol baixa e bate na cobertura de ouro tendo o azul do céu como limite, o que se vê é uma verdadeira apoteose de beleza.

Tanto ouro e tanta pedra preciosa a honrar Buda faz meditar acerca dos templos sagrados que os humanos vão edificando.

Na verdade deus ou os deuses ou as divindades têm pelo menos mais de mil anos, tendo alguns vários milhares, no que se refere às suas aparições.

Desde então, o que se sabe é o que as testemunhas disseram e os vindouros replicaram.

Da boca dos deuses nunca ninguém nada ouviu e já lá vão estes anos todos. São os humanos que na sua ânsia de lhes agradar vão criando os gostos aos deuses que pretendem honrar que imaginam como se deve adorá-los.

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Vendo a devoção do guia no grande pagode perguntei-lhe o que pedia a Buda.

Disse-me que pedia que lhe saísse a lotaria…e outras vezes que reincarnasse num homem rico …

E todos pedem isso, perguntei-lhe.

– Não, há quem peça para reincarnar em Buda, em anjo ou que não reincarne em animais.

O sol continuava a baixar e o brilho do ouro era mais resplandecente. Os fieis curvavam-se, juntavam as palmas das mãos e acendiam incenso ou lavavam a imagem de Buda. E pediam sorte. A um canto um casal jovem pedia a proteção para ter um filho.

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Ali estavam curvados os humanos admirando as imagens cobertas de ouro e safiras e diamantes. Os deuses de quem nunca ouvimos uma palavra que pensarão desta multidão de gente tão carente? Eles que são omnipotentes e todo-misericordiosos por que não respondem? Será que nada ouvem? E se não ouvirem? Quem sabe o que lhes vai na cabeça, se a têm? Tanto ouro não os enfastiará? Tantas safiras e tantos diamantes não os incomodará? Será que apreciam tanta opulência? Quem é que o sabe? Ou ninguém sabe, nem eles?

Uma coisa parece ser certa: curvados diante das suas divindades os homens oferecem-lhes tudo. Esperando que lhes saia a sorte.

Yangon, 26/07/2016

As Torres de Singapura e Rodin

 

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No hall do arranha-céus do Banco da América Merril Linch, em Singapura, está por estes dias a escultura (réplica?)de Rodin o Pensador.

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Rodin concentrou na expressão do rosto e na tensão do corpo, nomeadamente na postura do tronco, o significado do ato de pensar. Não haverá ninguém que se não deixe impressionar pela capacidade de vermos na escultura o quanto pode o pensamento. Olha-se e franze-se a testa contagiados pela força do pensamento daquela humana criatura.

O banco está situado numa zona onde os edifícios nos fazem sentir pequenas formigas esmagados pela imensidão de arranha-céus. São verdadeiros gigantes espantados para o céu, obra da humana mão guiada pelo pensamento de quem os imaginou e assegurou a construção segura.

Só o cérebro humano é capaz de semelhante ousadia. Só os humanos são capazes de criar obras daquela envergadura. Só com o pensamento se lá chega.

No entanto cá por baixo os que ergueram até ao cimo os prédios nem sempre alcançam o seu poder.

Esmagados por esta força das novas divindades que são os templos onde se encontram todos os paraísos,os de cá de baixo, que fizeram as torres a bater nas nuvens, enfrentam a ferocidade dos deuses das alturas.

Supõe-se que os deuses ou deus esteja nas alturas. Os diversos templos sempre tentaram aproximar-se o máximo das alturas, sem nunca tocar no paraíso. Agora nestes arranha-céu estão os paraísos. Fiscais. E outros, aqueles que dão tanto poder que podem mudar o modo de vida dos que vivem da capacidade do seu labor.

Mas o pensamento pode permitir na linguagem dos donos das torres alavancar a energia de todos quantos pensam. E se pensarem e se disponibilizarem a agir de acordo com este pensamento simples na esteira do grande poeta Vinicius de Morais: afinal fui eu quem tudo construí, afinal eu e todos os que como eu pensamos, se quisermos podemos também construir uma vida digna. Com ou sem templos.

O pensador de Rodin embora com, salvo erro, setenta e dois centímetros, é um sinal, um aviso – o pensamento tem muita força, mais força que as torres. Elas existem graças aos pensadores. É com o pensamento que tudo se constrói. Incluindo o futuro dos homens.

Não Dar Ponto Sem Nó, Durão

Há certos homens cuja vida se resume numa frase…”não dar ponto sem nó…” O último nó do Dr. José Manuel Durão Barroso é paradigmático em relação à sua vida política.

A política para ele foi uma espécie de tirocínio para outros voos bem mais altos e que enchem de alegria os seus bolsos sempre abertos à receção de generosos convites para o setor financeiro.

Os grandes bancos estão sempre de olho nos políticos capazes de não se deixarem prender por terem cães à sua guarda. Eles sabem quem os defendeu, quem mergulhou a Europa numa crise brutal paga pela austeridade imposta aos povos.

O Dr. Durão foi em socorro dos que, com o dinheiro dos depositantes, fizeram implodir o sistema financeiro, criando mais tarde as condições para de novo se recompusessem e prosseguissem as suas cruzadas em prol do lucro.

Durão ousou sempre mais que os outros, no maoismo, no PPD, em Bruxelas, wherever, e no nojo.

Durão é um homem capaz. Indubitavelmente. E querendo vai onde o seu desígnio o leva. Certamente. Só que vai sempre para o lado dos todo-poderosos senhores do mundo. E se for preciso larga o país par ir ao cume. Foge na hora de marcar o penalty; prefere ir mais além, olhar o horizonte e ver de onde vêm os ventos do sucesso.

A Goldman Sachs é um dos vértices. Ali se reúnem os grandes deste mundo para traçar o destino das multidões humanas. Ser Presidente não-executivo é para Durão irrecusável. Há muito que o deve saber. E a Goldman também.

Quando ofereceu os Açores aos aventureiros desavergonhados, ele sabia que abriria portas nunca dantes abertas; as portas dos homens que mais ganham no mundo. Era o que ele pretendia. Absolutamente legítimo; só que que não à luz de princípios de igualdade dos cidadãos e dos Estados de que tanto falou na sua vida. O que ele queria quando falava dessas virtudes era guindar-se a um cargo como o de Presidente não-executivo da Goldman.

Esse é o caminho dos homens ziguezagues, dos homens interesseiros, dos homens cujos princípios são o seu bem-estar, as entradas nos seus bolsos. Durão nunca foi um banqueiro. Pois vai passar a sê-lo para encher o cofre de dólares. É este o seu destino. O dinheiro. Há quem se regozije. Como Passos. Aguardemos. Há mais bancos.

O Facebook e os Amigos que Não Conhecemos

Um homem vive a vida a plenos pulmões. Enfrasca-se até ao íntimo neste ato glorioso de se levantar e antes de abrir a janela achar que vai valer a pena. Às vezes ressacado de tudo. Outras vezes mais leve que um pintassilgo, cheio de cores e de confiança que o sonho vai ser um facto real.

E para além de tudo o mais há os amig@s. A quem queremos e a para quem vivemos. Aquel@s a quem obrigamos a conhecer os nossos sucessos ou fracassos.

Atingida certa idade sabemos o quão difícil é manter as velhas e as novas amizades. Na borda desta caminhada quanta amizade ficou…e, no entanto, sonhamos sempre com novas amizades, mesmo após tanta desilusão.

Há um choro mansinho de lágrimas que caem no coração por termos perdido esta e aquela amizade. Acontece que há casos que nem sabemos como foi; quando damos conta o túnel do esquecimento já é tão longo que fica, quando fica, o que resta do sorriso à flor dos olhos de quem já não sabemos nada, depois de sabermos quase tudo.

Um mundo tão volátil, tão cheio de coisas rápidas tenderá certamente a envolver nesta capa de efemeridade os nossos sentimentos mais fortes e vergá-los à esquadria deste novos tempos.

Sentimentos fortes não se dão bem com a superfície da vida, pois precisam de raízes que vão fundo buscar o alimento e ganhar enrijamento para aguentar ventos e tempestades.

É por isso que “ter” amig@s é um desafio constante; uma espécie de prova de vida; uma afirmação de que por muito que admiremos a toupeira e sua arte de escavar, a amizade é uma avenida engalanada das árvores onde a solidão está vedada a verde. À superfície dos olhares. Como estrelas a cintilar.

Eu sei lá o que faria pelos meus amigos que conheço um a um ou uma a uma. Sem exceção, tal é a exceção.

E, no entanto, nos últimos dias tenho sido atingido por inúmeras mensagens  a anunciar-me que tenho mais amigos do que penso. No Facebook.

Certamente não tenho. Não sei quem são. Os que tenho, poucos, por defeito meu, sei bem quem são e estão guardados onde se não veem. Nem eu os vejo. Sinto-os ao compasso do bater do coração.

Não é por nada; um amigo que não conhecemos não é um amigo; é um desconhecido. E desconhecidos devo ter mais de cinco mil milhões.

O Oxigénio de Rosa Luxemburgo e de Togliatti

A tese que o fascismo nasceu do marxismo não tem nada de inocente. Vivemos um tempo de apagamento teórico das lutas das classes, falando-se do fim da história, da entronização do neoliberalismo, como defendeu Fukuyama.

Tudo rola sobre as esferas liberais; sem conflitos de maior, aguardando que a riqueza dos muito ricos caia do vértice das pirâmides e role para os debaixo. Daí ir ao passado procurar teses que deem corpo a este mundo imaginário.

Alertou certa opinião pública pelo facto do seu autor ser pivô da RTP. Estar na TV é estar no céu no mundo dos basbaques. Daí que os seus livros vendam toneladas.

Sempre houve gente que abjurou ideias. Um dos mais famosos foi Judas. Mas desde o “Manifesto Comunista” até aos nossos dias vão mais de cento e oitenta anos. Já é algum tempo.

Houve marxistas que o deixaram de ser. Ontem e hoje. Os que fazem o ideário não são os que o abandonam; são os que lhe permanecem fieis.

Pretender que as origens do fascismo estão no marxismo porque A, B, ou C que se consideraram marxistas e deixaram de o ser passando para o campo dos fascistas é o mesmo que dizer que o PPD/PSD teve origens no fascismo porque Sá Carneiro e Magalhães Mota foram deputados pelo partido único, ou ainda que o PSD de hoje pode ter tido origens no comunismo porque Passos Coelho foi da JCP…

Houve e haverá gente que por um conjunto de motivos abandonou o ideário que partilhou.

Não passa pela cabeça de ninguém fazer prova de que o ideário fascista dos novos convertidos teve origem no ideário primitivo.

O marxismo visava e visa implantar o socialismo. O fascismo visava e visa implantar uma ditadura do capital financeiro suprimindo todos os liberdades e tentando esmagar os conflitos sociais.

O fascismo visou impedir que a crise do capitalismo criasse condição para que os marxistas e outros organizassem as lutas que levassem à revolução socialista.

O fascismo nasceu da crise capitalista e numa época de uma grande mobilização das massas copiou consignas e modos de agir dos marxistas para que pudesse chegar ao coração do operariado, da pequena burguesia e de setores da intelectualidade, fazendo-se passar pelo que não eram.

Enquanto os marxistas russos, alemães, italianos visavam levar a cabo as revoluções socialistas, os fascistas italianos e alemães defendiam o capitalismo, impondo o terror que implantaram naqueles países e tendo como inimigos implacáveis os marxistas.

Salazar, um fascista encolhido que sobreviveu ao final da segunda grande guerra, abominava o marxismo e o socialismo; edificou um Estado policial de perseguição a todos os que lutavam pelo socialismo.

O facto de Sorel, Otto Bauer, Michels, Mussolini e outros terem andado por águas marxistas e mais tarde terem-nas abandonado não pode de nenhum modo responsabilizar o marxismo pelas origens do fascismo.

A ideia que as ideologias se confundem e não se separam vai de encontro aos defensores que todos os partidos são iguais, que tudo é a mesma coisa.

Impingir esta tese não tem nada de inocente e entronca nas teorias do fim da História e do branqueamento das fronteiras ideológicas.

Haja ou não haja eleições, o que conta são as regras da moeda única. Essas são sagradas; estão por cima de tudo.

A atoarda chamou a atenção vinda de quem entra na casa das portuguesas e portugueses. O que se passa na têvê tem pernas para ser visto…

Togliatti e Rosa Luxemburgo respiraram do mesmo oxigénio que Mussolini e Hitler; aprenderam as mesmas operações aritméticas e muitas coisas idênticas; provavelmente…as origens do fascismo estão em Adão e Eva.

Conferência na Associação 25 de Abril

NO 40º ANIVERSÁRIO DA CONSTITUIÇÃO

LIBERDADE E JUSTIÇA!

A CRP garante aos portugueses no art.9º os direitos liberdades fundamentais, princípios basilares do Estado de direito democrático.

O art.2º declara que a República portuguesa é um Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e organização política democráticas, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.

Os artigos 24 a 47 elencam os direitos e liberdades de natureza pessoal que usufruem os cidadãos portugueses.

Os artigos 48 a 52 enumeram os direitos, liberdades e garantias de participação política.

Os artigos 53 a 57 enumeram os direitos, liberdades e garantias dos trabalhadores; os artigos 58 a 62 os direitos e deveres económicos; os artigos 63 a 72, os direitos e deveres sociais.

Estes são os direitos, liberdades e garantias que os portugueses gozam.

Para os poder gozar têm a justiça para impedir os obstáculos à sua não realização.

Por isso o artigo 202, nº1 estatui …” Os tribunais são os órgãos de soberania com competência para administrar a justiça em nome do povo.”

Esta ligação íntima como se pode constatar entre os direitos, liberdades individuais e os direitos sociais, económicos e culturais dos cidadãos é um elemento estratégico na lei fundamental do país.

Trata-se na verdade de um diploma que assegura a modernidade no sentido de afirmar o mais avançado que há nas sociedades, neste domínio.

Todas as constituições têm uma matriz ideológica; não há, ao contrário do que afirmam certos dirigentes do PSD e do CDS constituições sem ideologia.

Há seguramente algumas que consagram princípios liberais, social- democratas ou outros mais avançados do ponto de vista de uma democracia que abraça não só os direitos individuais como os sociais, económicos e culturais.

A direita quer um Estado mínimo, mas um Estado mínimo é o Estado liberto de deveres para com a comunidade e carregado de bónus para que o capital financeiro possa prosperar.

Um Estado que assegurasse aos donos dos colégios verbas para o exercício do ensino privado enquanto menosprezava a escola pública.

Claro que não têm a coragem de acabar com a escola; retiram-lhe a qualidade e deixam os mais desfavorecidos ainda mais pobres.

O mesmo se passa com a saúde, com os transportes, com a própria justiça de que aqui tratamos.

Para empobrecer os portugueses foi necessário empobrecer a Constituição; ela foi o baluarte contra os monstruosos cortes que o governo de Passos/Portas pretendia levar a cabo e alguns levou.

A Constituição enumera os grandes princípios e são os governos quem os tem que respeitar; ora já se sabe que é muito importante a natureza politico-ideológica de quem tem as rédeas do governo.

Não foi por acaso que o CDS votou contra esta Constituição e que no PSD, se pudessem, voltavam a revê-la para a tornar cada vez mais liberal e retrógrada quanto aos direitos económicos, sociais e culturais e à participação dos cidadãos na vida política.

Vale a pena abrir um parêntese para encararmos a CRP como sendo uma síntese do que mais avançado se tem legislado no mundo.

Ela incorpora as ideias de Iluminismo, da Rev. Francesa, das burguesias então revolucionárias, e as ideias de justiça social das revoluções apontadas ao socialismo.

Ela garante o exercício dos direitos e liberdades individuais e ao mesmo tempo integra os direitos da terceira e quarta geração.

É avançada porque considera que sem as liberdades individuais a sociedade fica amputada do seu oxigénio, e sem os direitos económicos, sociais e culturais a liberdade e a democracia ficarão mais vazias de conteúdo e definharão.

Incorporar o que de melhor cada revolução trouxe à humanidade é tornar inseparável o que pode ser separado, isto é, casar as liberdades com os direitos sociais, económicos e culturais, sem divórcio.

Com esta Constituição o povo português tem o caminho aberto para qualquer via de progresso que queira perfilhar.

A própria Constituição acontece na antecâmara da emergência de um novo mundo, a saída do mundo bipolar, para o mundo unipolar de curta duração dada a fase que atravessamos de crescente afirmação da multipolaridade.

Ela tem mantido ao longo destes quarenta anos em que o mundo tanto mudou toda a vitalidade e capacidade de manter a atualidade, o que confirma ser a verdadeira chave mestra do Portugal democrático.

 

II

Já vimos como à luz da CRP a liberdade e os direitos individuais são inseparáveis dos direitos económicos, sociais e culturais.

Cabe agora perguntar-nos respirando a liberdade como vamos de Justiça?

E vamos mal. Naturalmente que sem liberdade a justiça é coxa, mas mesmo desfrutando de liberdade podemos afiançar que a justiça vai muito mal.

Nos últimos quatro anos o governo do PSD/CDS veio agravar de um modo brutal o acesso à justiça, desde logo encerrando vinte e um tribunais, submetendo-se ao diktat da troika, o que levou que no interior de Portugal muitos concidadãos para participarem numa audiência tivessem que ir de véspera, pois quem não tivesse transporte próprio não tinha maneira de chegar no dia da diligência ou audiência.

Em certo tipo de situações a população para ir a tribunal tinha de andar mais de sessenta quilómetros.

Num país com tão grandes assimetrias entre litoral e interior, de tal ordem que um destes dias Portugal cai no mar tendo em conta o peso dos milhões de portugueses à beira mar, esta medida de fechar tribunais é um sinal claro de abandono do interior, num país já de si tão estreito.

Felizmente que o novo governo deu um sinal positivo para pelo menos reabrir alguns, faltando saber se para funcionar ou se para não se sabe bem para quê.

Mas para além disto há outras maneiras de impedir o acesso à justiça.

Uma delas é simples: encarecem as custas. Numa ação cujo valor seja 2.000€ paga de taxa de justiça 102€, cujo valor seja 8.000€ paga 204€, cujo valor seja 16.000€ paga 306€; a partir de 275.000€ até ao infinito a taxa de justiça a pagar é sempre 1.632€ e o restante a final.

Quem tiver uma ação no valor de 8.000€ ou 16.000€ tem de pensar na taxa de justiça 204 ou 306 € a pagar, mais honorários de advogados, mais despesas de deslocação e a possibilidade sempre presente de não correr bem, deve pensar se vale a pena; tanto mais quanto o devedor pode não ter com que pagar e a privatização das execuções das sentenças ser uma enormidade por este tipo de valores, pois para além das taxas de justiça tem de pagar ao agente ou solicitador de execução que não conhece e provavelmente nunca conhecerá… Isto se se recordam implementado pela Dr.ª Celeste Cardona, ministra da justiça do CDS, no governo de Durão Barroso, hoje sabe-se lá em que cargo… E a justificação foi a corrupção e as pendências; agora as coisas estão muito piores, encravadas nas pendências, quase não mexe, tudo bloqueado e quanto a corrupção as críticas saltam todas as semanas com este novo sistema.

O Estado demitiu-se de assegurar a efetivação da justiça.

Para que se compreenda as consequências da política de empobrecimento na vida comunitária, em termos de justiça, pensemos no que aconteceu ao incumprimento das prestações das famílias referente à habitação e à perda de alojamento; à perda do emprego e às possibilidades de uma vida com um mínimo de decência.

Neste período aumentou a criminalidade devido à falta de capacidade para muitos terem uma vida minimamente decente.

A fim de se ter uma ideia dos reflexos olhemos para a população prisional: entre 2010 e 2015 os reclusos passaram de 11.613 para 14.222, o que significa um aumento de 22.50%.

O Estado ao longo destes quatro anos do governo Passos/Portas ao atacar os mais desfavorecidos e a população em geral para proteger o regabofe do sistema financeiro (atolado em escândalos e corrupção) criou este estado de coisas.

Vale a pena reter a importância da CRP e do TC pelo simples facto que o governo resvalou para a ilegalidade, como atrás vimos.

Mas não há apoio judiciário? Sim, há, mas para quem não tiver um pardieiro e viver no extremo limiar de pobreza, para além das mil e uma exigências para ver se o desgraçado desiste do pedido.

Governamentalizaram o pedido de apoio judiciário, deixando a decisão ser de uma entidade independente que era o juiz, para passar a ser a segurança social que depende do governo e que naturalmente só conceder-se não tiver outra hipótese.

A pendência em cível é assustadora. Bate recordes.

Para se ter uma ideia no Reino Unido ou País de Gales uma ação cujo valor seja inferior a 10.000 Libras demora sete meses e acima desse valor um ano; na Alemanha quatro e oito meses; na França cinco e nove meses. Em Portugal anos, dois, três, quatro, sim acontece com frequência.

Recordo o livro do José Gil “Portugal Hoje, o medo de existir” e digo-vos que não estou a enveredar por aquele tipo de critica que fazem muitos dos nossos concidadãos que no fundo se colocam de fora desta “merda de país”.

Não. Estou aqui. Sei olhar e ver. Estou nos tribunais. Vejo o que me rodeia e tento mudar e não desisto, mas a verdade é esta: a justiça está má.

A privatização da nossa vida em comunidade olha a justiça e baba-se com as possibilidades. O Estado desiste. D. João II mandou enforcar os que em Bragança não queriam os juízes de fora; os senhores feudais queriam ser os donos da Justiça, se se abandonar os concidadãos os poderes reais das vilas do interior a justiça morre.

Dizem que há prejuízo; mas a justiça porventura foi feita para dar lucro? O facto de um pais realizar justiça é já por si um lucro incalculável porque fortalece a coesão social, torna a sociedade estável e faz com que os cidadãos confiem no país em que vivem.

Se não houver justiça ou se a houver mas for deficiente nasce a desconfiança e todos desconfiarão de todos porque os cidadãos são tratados de modo diferente ou não sentem que a justiça se realize e esse facto funciona como elemento desagregador da sociedade.

Não havendo coesão social em torno de objetivos que levem ao desenvolvimento social naturalmente que a crise não nos larga e com ela a dependência em termos económicos.

Se olhássemos em volta e víssemos que havia justiça todos se sentiriam pacificados, descansados porque viveriam numa sociedade de iguais e onde a justiça era aplicada a todos de igual modo.

Creio que estas circunstâncias contribuíram para levar os cidadãos a puxarem para o mesmo lado, ou seja, para bem da comunidade.

A justiça funcionando com respeito e em observância atempada dos princípios estabelecidos pela lei é um elemento fundamental para que reine a paz social, e sem paz social não há progresso.

Não estou a defender que a paz social não encerra conflitos, encerra e ainda bem.

Mas a resolução dos conflitos através da justiça é o modo como o Estado de direito democrático impõe o seu rigor e a sua imparcialidade.