O radicalismo de direita de fachada amorosa ou o amor radicalista camaleónico

Que amor espalhou a nova líder do CDS? Que amor espalharam os dirigentes do CDS no governo do desamor? Como foram ao encontro das pessoas?

Para se avaliar o desempenho de quem quer que seja olhamos para as palavras e sobretudo para os atos. No amor é certo que palavras bonitas são melhor recebidas que as agressivas. Mas ainda aí se as palavras não forem acompanhadas de gestos e atos que confiram materialidade às palavras estas são apenas palavras…

Não é que as palavras não tenham importância, mas o que assume a verdadeira coerência é a unidade entre o que se diz e o que se faz.

A Dra. Assunção Cristas foi uma das principais figuras do governo de Passos Coelho e teve seu cargo pastas tão importantes como a Agricultura e o Mar. Paulo Portas foi nº 2 do governo. Mota Soares teve a importantíssima pasta da Segurança Social.

Que amor espalhou a nova líder do CDS? Que amor espalharam os dirigentes do CDS no governo do desamor? Como foram ao encontro das pessoas? Que fizeram no governo há alguns meses para assegurar que…”A forma é a ligação direta às pessoas e aos seus problemas quotidianos. Às suas aspirações, às suas inquietudes…”

Mais adiante no texto publicado no PÚBLICO de 22 de novembro afirma que é preciso estar junto das pessoas e…” ser esse o modo de estar…” Se assim é por que fugia Pedro Passos Coelho dos agricultores, dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos trabalhadores da função pública, dos portugueses e não se aproximava deles a explicar que tinham de empobrecer?

A líder do CDS entusiasmada com a sua nova batalha por Lisboa desata o verbo e defende …” O discurso radical do amor não apenas tolera ou respeita cada um na nossa sociedade, ama-o na sua integralidade e plenitude, mesmo se não compreende, e procura encontrar a concórdia…”  E prossegue…”Explicando aos esquecidos da globalização que temos de trabalhar para encontrar oportunidades para todos, e que não é fechando-nos sobre nós próprios que seremos mais bem sucedidos…”

No mesmo do texto, Assunção Cristas confessa que aos políticos como ela não lhe é conveniente explicar as políticas que seguem e essa opacidade abre o espaço para os discursos radicalistas.

De modo resumido a dirigente máxima do CDS em nome do” radicalismo do amor” vem pregar à maneira de São Tomás fazendo recair sobre si própria e o seu partido o manto da desfaçatez que consiste em dizer tudo e o seu contrário para se guindar ao poder e aí fazer exatamente o avesso do que havia proclamado.

Durante quatro anos Assunção Cristas girou no alto do Ministério da Agricultura a espalhar empobrecimento pelos campos e pelo mar de Portugal. Umas fotos na Feira de Santarém e umas idas a Bruxelas para amochar aos ditames dos burocratas sem coração, cortando nos subsídios aos agricultores e nas quotas dos pescadores.

Concomitantemente os seus camaradas do CDS participavam alegremente no vasto plano de empobrecimento do governo PPD/CDS.

A líder do CDS apostou no empobrecimento dos portugueses e não lhes explicou nada que tivesse a ver com amor, antes mandando-os com desprezo abandonar as áreas de conforto emigrando…

A líder do CDS cortou vencimentos a todos os funcionários públicos, incluindo os do seu ministério e que estavam mesmo pertinho dela, explicando-lhe que eram calaceiros, trabalhavam pouco e para ganhar a tal competitividade global tinham de ficar sem feriados. Tudo sem qualquer pingo de amor…muito menos radicalista.

A líder do CDS e os seus camaradas de partido mais os do PSD passaram quatro anos, em nome do radicalismo da pobreza austeritária, a gabar-se que cortavam mais que o que pretendia o FMI e a U.E.…

E em nome do radicalismo das políticas anti sociais a privatizar tudo o que pudesse dar lucro aos fabulosamente ricos e lançando no desemprego dezenas de milhares de seres humanos de que agora acordada para as eleições a líder do CDS se lembra.

A líder do CDS nunca em momento algum achou que o seu programa de governo que fez aumentar as filas da sopa dos pobres e mergulhou na pobreza um quarto dos portugueses se encaixava nesta nova modalidade de amor radicalista.

A líder do CDS aceitou sem qualquer meia lágrima de compaixão que os pobres aumentassem e que os mais pobres ficassem ainda mais pobres e os ricos mais ricos. E tudo isto em nome da competitividade onde os seres humanos não são sujeitos passiveis de serem tidos em conta na sua humanidade, mas números que se têm de adaptar aos mercados que mandam no mundo como tão bem pregava o Primeiro-Ministro do seu governo.

A líder do CDS em momento algum deu sinais de devotado amor aos portugueses, muito menos de um amor radicalista.

Provavelmente trata-se de um radicalismo de direita de fachada amorosa em que o essencial é esconder o que lhe vai na alma pelos cálculos políticos em ano de eleições em Lisboa em que concorre sem a muleta do PPD.

(Originalmente publicado no Público Online)

O ESPETRO DOS DESAVERGONHADOS

Anda pelos gabinetes ministeriais um novo espetro. Não é de agora. Já vem dos tempos do braço direito do Sr. Dr. Passos.

Um curso é um curso. Tirado a picareta ou a martelo. Ou normalmente, estudando. Parece que nem a picareta, nem a martelo, nem a estudar há quem tire o curso. O que dá que pensar, mas não vem daí o mal ao mundo. Fica-se com uma ideia do desafortunado. E nada mais.

No anterior governo havia um Sr. Dr. que conseguiu fazer uma cadeira do curso de Direito ao cabo de anos. E vá lá, vá lá porque a aposta do cavalheiro ia para as equivalências. Coisa que já vinha de um Primeiro-Ministro que frequentou uma Universidade tão democrática que abria ao domingo.

Com o ministro o Sr. Dr. Passos e o Sr. Dr. Portas não deram sinais de inquietação. Fosse ela qual fosse. Ambos achavam que o Senhor podia ter uma das pastas mais importantes do governo. E defenderam-no.

Neste novo governo a coisa não envolve ministros, mas membros de gabinetes ministeriais, incluindo o do Primeiro-Ministro.

Se o ministro do governo do Dr. Passos se aguentou sem que o PSD e o CDS se incomodassem durante meses e meses, os mesmos partidos estão agora incomodadíssimos com os assessores em causa.

De facto, é uma vergonha alguém que vai assumir responsabilidades num gabinete ministerial ou de secretário de Estado ter aldrabado e não possuir o curso superior (e agora há os às dezenas…) que disser ter…só um salafrário.

E pelos vistos gente do mais alto nível do PSD foi capaz de se guindar a cargo ministerial e contra tudo e todos continuar a jurar que era licenciado. O tribunal já lhe retirou o título que abusivamente disse possuir e deixou o braço direito do Dr. Passos em maus lençóis. Se tivesse um pingo de vergonha…

Os assessores do governo PS demitiram-se no dia seguinte.

Não há, porém, demissão que encubra a vergonha destes homens terem dito ter o que não tinham e nem sequer eram obrigados a terem o que disseram ter e não tinham.

Todos eles, cada um na sua dimensão, não têm vergonha. Nenhuma. Um homem sem vergonha é um desavergonhado. É o que são. Cuidado. Eles andam por aí e podem bater à porta de algum partido.

 

Nossa Senhora das Preces

Levado por mão amiga fui  de visita à Aldeia das Dez .Linda na sua luxúria de verde . Quem subir a uma varanda e se virar  para norte, verá a garganta que separa a serra da Estrela da do Açor.

Descendo com o olhar para o chão terá diante de si um vale onde assentam os sopés das duas serras.

De manhã quando surgem os raios de oiro do sol anunciando-se por detrás do Alvor um manto de nevoeiro denso e leitoso cobre todo o vale.

O cimo das duas serras; a do Açor verde de tanta árvore, a da Estrela como se fosse a superfície lunar, na cor.

preces No Vale da Maceira,o lindíssimo Santuário da nossa Senhora das Preces. E se não fosse a Senhora das Preces não me atreveria a pedir-lhe que interceda junto dos que nela têm fé para que não ponham em perigo a tão amada linda língua portuguesa.

Ó Nossa Senhoras das Preces interceda para que de futuro quem estiver muito doente a bater às portas da morte e esteja desprotegido não ponha em perigo a ortografia e faça o milagre para salvar não só o doente, mas também o português.

Lembre-se a Senhora do que sofre a nossa língua com tanto delete, low cost, shopping, startup,take away and so on.

A Senhora sempre falou português com seus pais e familiares e amigos, pois que as santas também vivem como as outras pessoas, exceção feita à santidade.

Salve com a sua ajuda todas as palavras postas em perigo porque delas se precisa até para rezar. Apresse-se, Senhora, e receba a prece.

O Insolente Schäuble

O Sr. Schäuble, ministro das Finanças da imperatriz Merkel, não tem estaleca para viver em conjunto com outras nações, designadamente com aquelas que escolhem o seu próprio caminho político.

Ao Sr. Schäuble a vontade de um povo em eleições livres nada lhe interessa. Para ele o que conta é a sua predileção política, o que significa que para a grosse Deutschland todos os que não alinham com os seus desígnios correm sérios riscos de ter resgastes.

Schäuble gostava do seu homem, do Dr. Passos … um amor, mas não devia passar dessa simpatia amorosa pelo homem que se guiava pelo eixo de Berlim e castigava os portugueses pela sua desgraça.

Os ministros de um dado país devem respeitar a vontade soberana de um povo de outro, não se ingerindo e pressionando esse país.

O Sr. Schäuble ao declarar que este governo não está ir bem como ia o anterior, ofendeu grosseiramente a soberania portuguesa, a qual reside na vontade popular que levou à formação do atual governo.

Sabemos que a soberania anda pelas ruas da amargura; e só por isso este sátrapa confunde Portugal com uma coligação de direita que se borrava diante da dupla Merkel/Schäuble.

Schäuble é da estirpe imperial que não aceita outra realidade que não seja a que serve os interesses da alta finança alemã.

Para a Alemanha já interessa a defesa dos interesses alemães, mas para Portugal o que devia contar, segundo Schäuble, era o que os mercados financeiros achassem melhor, sendo certo que quem tem a palavra decisiva nesses mercados é a alta finança alemã.

O governo de Passos era um fofo para a Alemanha, orientava-se por aquela bússola e ia para além do que a troika impunha ao protetorado lusitano.

Brandia o chicote e zás no lombo dos portugueses, calaceiros, malandros, pobres, que tinham de empobrecer para os senhores alemães, holandeses, franceses e ingleses virem a terras portuguesas contratar mão-de-obra a preço da uva mijona.

Nos corredores da grande metrópole berlinense ouvia-se o contentamento por em Portugal haver um governo que compreendia a Alemanha e colocava os mercados über alles –“ Temos governo” diziam os conservadores alemães a cada medida da austeridade que Schäuble quer continuar a impor a Portugal e ao sul da Europa para os alemães terem muito mais feriados que os portugueses, ganharem altamente e virem cá de férias gastar uma ninharia comparado com o que teriam de pagar pelos mesmos serviços na Alemanha…

Quem esqueceu aquela expressão angelical do Sr. Prof. Vitor Gaspar curvado para o austero Schäuble … Desta gente o sátrapa já aprecia.

Podia lá o Sr. Schäuble gostar de um Costa que estancou o empobrecimento a galope do seu querido seguidor, o Dr. Passos acolitado pela Sra. Prof. Maria Luís da Arrows… além disso o que vale a vontade de um povo expressa na composição do parlamento com a do grande império?

O cavalheiro vai ter de aprender a viver com a vontade democrática do povo português e devia saber que o tempo da campanha eleitoral findou e ainda que pressões e ingerências são uma grosseira ofensa ao Estado português e a todos os portugueses, inclusive aos que votaram no PSD e CDS.

Mas isso era preciso que ele compreendesse o que é viver entre Estados independentes onde os governos são constituídos no parlamento e não na capital do império.

Não será de esperar que o cavalheiro mude o chip porque essa não é a matéria de que é feito. As vezes que tem falado ingerindo-se, pressionando Portugal, mostra o calibre desta alma agoirenta no que refere à defesa dos mercados, dos alemães em detrimento dos outros países e dos seus cidadãos.

A sua alma de insolente irá com o senhor até ao fim da vida. Saibam os portugueses dar-lhe a devida resposta. Um povo de um país independente há oitocentos e setenta e três anos não pode aceitar estas grosseiras ingerências de um dos políticos mais influentes da Alemanha. O governo alemão deve explicações ao governo e ao povo de Portugal. Basta de insolência. A imperatriz nem que seja para fazer de conta deve segurá-lo na sua incontinência se é que pode ou quer.

DE 1º MINISTRO A APRESENTADOR ARREPENDIDO DE INTIMIDADES

 

José António Saraiva decidiu escrever um livro sobre a vida íntima de políticos com quem foi tendo conversas.

É de supor que muita da gente visada não se teria despojado da sua reserva íntima se soubesse que um dia as conversas apareceriam escarrapachadas num livro.

Além do mais porque uma conversa com quer que tenha sido há dez, vinte ou trinta anos pode, ao ser revelada hoje, não encaixar na personalidade do protagonista, dada as mudanças que cada um imprime à sua vida.

O livro assumiu grande relevo mediático porque JAS convidou Pedro Passos Coelho, o homem mais austero que a própria troika, para apresentar o livro, embora à boa maneira de PPC afirmou que ia, mas que não tinha lido o livro, defendendo-se à boa maneira farisaica.

Instado se mantinha o encargo de apresentar o tal livro afirmou que não era homem para voltar atrás com a palavra dada.

A polémica passou dos media para as redes sociais e para o seio do próprio PPD/PSD. Alguém lembrou a PPC que aquela atitude não era digna de Sá Carneiro. Passos não se lembrava de Sá Carneiro, tal a vontade de agradar ao amigo e de se mostrar afoito agora que procura o que perdeu.

No meio desta buzaranha proveniente de todos os cantos, o homem que não voltava com a palavra atrás, voltou, arranjando o verbo desobrigar para se ver livre da miséria em que se meteu.

Obtido o sucesso de ter PPC, político que não tem conversas íntimas, segundo o próprio, JAS desobrigou-o e ele não vai onde disse duas vezes que ia.

À terceira confrontado com a realidade, de que tanto falava e o seu protetor Cavaco , sucumbiu.

De Saraiva se pode esperar quase tudo para aparecer ao sol. É o seu destino. Que lhe interessa que tenha morrido um dos visados?

O que lhe interessa é o alarme, a venda, os minutos á superfície das notícias. Estar ao sol da vida.  A coscuvilhice num país de basbaques-…” ora vejam a conversa que teve com o fulano e a sicrana”…Num mundo de frustrações aceder a uma conversa íntima é saborear o que se não teve ou não tem; é uma espécie de voyeurismo por interposta pessoa.

Passos Coelho quis agradar ao amigo ( ele lá saberá porquê, coisas íntimas, a revelar um dia?) e disse que ia sem ter lido o livro. É o homem. De austero passou a apresentador de escandaleira. Embora arrependido. A coragem morreu na praia.  Já assim tinha sido quando disse , antes de ser Primeiro-Ministro, que nunca aumentaria os impostos e quando lá chegou aumentou-os brutalmente.

É esse, o que não sabia que tinha de pagar os descontos para a segurança social…esse mesmo que à última da hora não foi. Fez-se de forte e saiu a rastejar, a pedir para o desobrigar do papel de apresentador de um livro que não leu… Que iria dizer do livro que não leu?

Passos no seu melhor registo de sempre. Que rico chapéu enfiou o candidato do PSD a Primeiro- Ministro!

domingos lopes

 

O Riso e a Fornicação

Fatima Nejjar, dirigente do Movimento Unicidade e Reforma , ala religiosa  do Partido islamista marroquina, Partido da Justiça e do Desenvolvimento, no poder em Marrocos, nas sua prédicas islamistas considerava que certos risos das jovens se podiam classificar como fornicação. Assim. Sem mais.

O riso delas e não o deles era equivalente a fornicar. Elas com o diabo no corpo. Eles estúpidos, seduzidos, desgraçados animais sem capacidade de reagir, apenas cio.

Ela, Vice-Presidente daquele Movimento religioso, foi no início desta semana, apanhado de madrugada, num carro de alta cilindrada, com o outro Vice-Presidente do mesmo movimento a fornicar.

A dois meses de eleições legislativas foram demitidos dos seus cargos, embora alegassem que se tratava de uma conspiração contra ambos, pois tinham casado segundo o “costume”.

A polícia marroquina a quem tentaram subornar, segundo os media, não referiu se também se a Dona Fatima se ria na altura em que foi surpreendida.

Ela viúva e ele casado alegaram que não tinham cometido adultério dado o casamento de circunstância, mas sem que a esposa do Vice-Presidente , o senhor Moulay Omar Benhamarad, conhecesse o caso.

Não há nas notícias nada que informe se a senhora Fatima tinha o costume de rir e que tipo de riso teria, caso se risse.

As notícias insistiam no facto de ser uma dirigente altamente colocado e seguidora de um islão duríssimo, onde o riso era considerado ao nível da fornicação.

Provavelmente a senhora Fatima nunca se riu. Mas foi apanhada a rir-se com um senhor.

Muitas vezes o ódio das mulheres e dos homens às mulheres não passa de reflexo das perturbações mentais de quem não se segura em termos de pulsões .

Bem pregava dona Fatima, mas que se ria, ria.

A Quem Roubou Prometeu o Fogo?

 

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O homem apesar de ser moldado pelas circunstâncias materiais que o envolvem, encerra em si uma tremenda necessidade de espiritualidade.

O impacte de tudo quanto o rodeia tem uma enorme repercussão na forma de o reproduzir e de o suplantar.

Talvez a consciência da morte e a efemeridade da vida o obriguem a sonhar, a recriar a existência e a aspirar à imortalidade.

Quando Prometeu, de acordo com a mitologia grega, criou a raça humana e lhe concedeu o dom de raciocinar, deixou Zeus colérico.

Para se aproximar das suas criaturas roubou o fogo do Olimpo: o que levou Zeus a castigá-lo e a agrilhoá-lo no alto do monte Cáucaso por trinta mil anos (nada para um imortal) e a ser picado todos os dias por uma águia que lhe comia o fígado quase todo. Afinal Prometeu tinha fígado como os humanos.

Estas e outras estórias nos foram narradas por humanos porque a Prometeu nunca ninguém o ouviu falar. O destaque vai para Ésquilo que no século quinto A.C. que escreveu a tragédia “Prometeu agrilhoado”.

Os humanos são seres extraordinários para o bem e para o mal. Inventaram princípios religiosos que os ajudaram a viver com maior coesão, mas tão depressa os inventaram como os pisaram. E outras normas criaram.

Prometeu foi inventado? Ou foi Prometeu que inventou os humanos? Quem inventou o fogo?  Não terá sido o homem a ir levar o fogo a Prometeu, apesar de Ésquilo?

Há na Birmânia templos magníficos que encerram outro tipo de espiritualidade, a devoção a Buda.

Há os que são verdadeira arte e outros que são apenas locais de culto. No cômputo geral são dezenas de milhares.

Na Ásia, nomeadamente no Sudoeste asiático, a relação com os deuses é bem mais liberta de formalismos.

Entram nos templos, aproximam-se do altar, oferecem o que trazem e pedem o que os move.

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Entra um casal de jovens tão compenetrados do seu amor e do ramo para oferecer a Buda e dirigem-se à imagem e ali o deixam após se curvarem.

É humano pedir a quem se considera ser superior. Ás vezes esperando pelo milagre para cumprirem a promessa, outras vezes pagando antecipadamente.

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Não parece haver dúvidas que na viagem dos humanos por este mundo não lhes basta a realidade material. Precisam de mais. Precisam de inventar. Criar. Reinventar.

E imaginar o poder que não têm, saber o que não sabem. E usufruir o que a vida nem sempre oferece, mas que se imagina.

Há, também, por isso, muito encantamento e beleza que só as palavras dos poetas descobrem.

Os artistas que imaginaram o templo de Mahamuni Paya,  em Mandalay, seguramente tinham dentro de si um inflamado fervor espiritual de devoção a Buda.

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Ali diariamente milhares de pessoas, a maioria pobres, vão colocar pequeníssimas folhas de ouro na estátua de bronze de Buda e pedir para terem a sorte.

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Os homens são seres incríveis. Fazem estátuas e imagens de divindades e de ídolos. Dão -lhes e pedem–lhes  o que não têm.

Quantos Paraísos?

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À medida que se atravessam países, regiões e continentes, damos conta do impacte tremendo da religião na vida das pessoas, povos e Estados.

No sudoeste asiático o budismo está omnipresente. Em Bagan, na Birmânia, há mais de dois mil e trezentos templos.

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No Médio-Oriente domina o Islão, assim como em toda a Ásia Central.

N a Europa, na América e na Austrália reina o cristianismo.

Face a esta diversidade de deuses e divindades cabe perguntar: estarão os crentes de cada religião convencidos que só eles terão acesso ao paraíso? Os cristãos creem que chineses, birmaneses, tailandeses, cambodjanos não irão para o paraíso por serem budistas?

Haverá para os muçulmanos um paraíso só para eles e infernos para os outros?

E se houver só um, como creem os crentes de cada uma das religiões? Os seguidores das outras ficam à porta ou vão para o inferno ou encarnam em animais que não queriam? E as excelentes pessoas de cada religião ficam de fora do paraíso onde entrarão outras com menos excelência seguidoras do deus único?

Ao longo dos milénios contabilizamos tanta fome, tanta miséria, tanto morticínio, tanta guerra, tantas montanhas de cadáveres inocentes para agradar aos deuses…ou em seu nome.

Verdade seja dita que os ensinamentos vão noutra direção. Mas o homem foi aos deuses buscar a legitimação da maldade pura para aniquilar o semelhante! E eles tão poderosos nada disseram…

Em Kuala Lumpur, num templo taoista, o deus venerado, o deus da guerra, tinha na sua representação uma carantonha horrível e, no entanto, os crentes vinham, ajoelhavam-se e queimavam incenso…

Qual será a divindade perfeita? A verdadeira? E o que sucede aos outros face a quem entender que a “sua” é a verdadeira e única?

O homem, esse caminhante desde os primevos é capaz de colocar na conduta de outrem a justificação da sua. Os deuses servem que nem uma luva. Inventámos ou fomos inventados? Que tempo será o do futuro? E o dos deuses? Virão novos com o novo tempo? E serão os deuses abandonados pelos homens? Ou os homens abandonados à sua sorte?

Que Pensarão os Deuses?

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O pagode budista Shwedagon, em Yangon , capital da Birmânia, brilha de tanto ouro. São três toneladas e meio de ouro a cobrir a cúpula de cem metros do pagode incrustada de diamantes, rubis, esmeraldas e do melhor jade do mundo.

Ao cair da tarde quando o sol baixa e bate na cobertura de ouro tendo o azul do céu como limite, o que se vê é uma verdadeira apoteose de beleza.

Tanto ouro e tanta pedra preciosa a honrar Buda faz meditar acerca dos templos sagrados que os humanos vão edificando.

Na verdade deus ou os deuses ou as divindades têm pelo menos mais de mil anos, tendo alguns vários milhares, no que se refere às suas aparições.

Desde então, o que se sabe é o que as testemunhas disseram e os vindouros replicaram.

Da boca dos deuses nunca ninguém nada ouviu e já lá vão estes anos todos. São os humanos que na sua ânsia de lhes agradar vão criando os gostos aos deuses que pretendem honrar que imaginam como se deve adorá-los.

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Vendo a devoção do guia no grande pagode perguntei-lhe o que pedia a Buda.

Disse-me que pedia que lhe saísse a lotaria…e outras vezes que reincarnasse num homem rico …

E todos pedem isso, perguntei-lhe.

– Não, há quem peça para reincarnar em Buda, em anjo ou que não reincarne em animais.

O sol continuava a baixar e o brilho do ouro era mais resplandecente. Os fieis curvavam-se, juntavam as palmas das mãos e acendiam incenso ou lavavam a imagem de Buda. E pediam sorte. A um canto um casal jovem pedia a proteção para ter um filho.

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Ali estavam curvados os humanos admirando as imagens cobertas de ouro e safiras e diamantes. Os deuses de quem nunca ouvimos uma palavra que pensarão desta multidão de gente tão carente? Eles que são omnipotentes e todo-misericordiosos por que não respondem? Será que nada ouvem? E se não ouvirem? Quem sabe o que lhes vai na cabeça, se a têm? Tanto ouro não os enfastiará? Tantas safiras e tantos diamantes não os incomodará? Será que apreciam tanta opulência? Quem é que o sabe? Ou ninguém sabe, nem eles?

Uma coisa parece ser certa: curvados diante das suas divindades os homens oferecem-lhes tudo. Esperando que lhes saia a sorte.

Yangon, 26/07/2016