Passos e a Travessa do Fala Só

Passos habituou-se a falar sozinho. Olhava para as câmaras e debitava. À vontadinha do freguês. Com ares de duro atacando as zonas de conforto em que os portugueses se acomodavam para justificar empobrecimento.

Durante quatro anos. Assessorado por uma legião de ajudantes, o “regenerador” do poder dos poderosos, humilhava os humildes, os desgraçados que não sabiam fazer pela vida.

Para ele o mundo divide-se em duas partes: uma ínfima minoria de empreendedores e uma imensa maioria de acomodados.

Tudo isto se passou sem grande contraditório ao nível das televisões, o meio de comunicação social que atinge em profundidade a mente dos cidadãos.

Ontem a coisa diferente – teve de se confrontar com António Costa e a verdade é que mesmo passando o debate a trazer Sócrates, não se saiu bem. A coisa saiu mal para o chefe da coligação.

Passos não está habituado a confrontos; é mais de afronta aos portugueses. É mais para doses cavalares de propaganda com o Dr Maduro a anunciar o VEM que não vem. E a Dona Maria Luís com os cofres cheios…

Passos bem queria lá chegar e esfarrapava-se e via-se que escorregava; no olhar, na postura(ai que já me apanharam). Passos entrou como estava habituado a entrar- todo-cheio-de-razão e saiu muito queixoso de Sócrates que está preso em casa…

Costa a pedir não é peco: maioria absoluta…Ó Dr António Costa para quê? A história do PS é a que é…e sempre que teve maioria absoluta ou a do queijo limiano foi o que se viu.

Vire-se para a esquerda, seja capaz de sair da cepa torta e ir ao encontro de uma alternativa séria que respeite a Constituição. Tão só.

Portas, o Bufarinheiro

Portas habituou-nos a tudo. Não deve haver um só português que não ache capaz de vender seja o que for. Ontem à noite, no debate com Catarina Mendes, vendeu o produto habitual: tiramos o país do protetorado, estamos melhor, connosco ao leme vamos ficar melhor, a economia respira confiança graças à estabilidade.

A demagogia sem fim pode ser testada nesta arte de manipular: é melhor um estágio que nada, é melhor um emprego temporário que a ausência de emprego, ou o caminho da coligação ou a Grécia.

Na verdade é melhor ganhar cem euros que cinquenta; é melhor um corte no vencimento de cem euros que um de duzentos…

Se não fosse o Tribunal Constitucional Passos e Portas e a Dona Maria Luís ainda andavam a cortar à bruta para bem do empobrecimento e da competitividade.
O problema de Portas e da coligação é este: a propaganda é capaz de fazer esquecer a realidade?

O país está pior. Mas está pior porque o programa de Passos e Portas era colocar o país pior, empobrecendo-o. Se o governo teve êxito é porque empobreceu os portugueses para fazerem deles mão-de-obra barata e tornar o país um dos mais competitivos, nas palavras de Passos.

Pode o país aceitar que a amargura em que vive se transforme num mundo irreal que só existe nas televisões e na boca dos governantes?

Pode o povo português esquecer a sanha belicosa de Passos a atacar os portugueses por viverem bem de mais?

Pode o povo português esquecer o ataque fanático à Função Pública movida por este governo?

Pode o povo português esquecer a desgraça em que se transformam os hospitais no Inverno e no Verão, sem macas para os doentes espalhados pelos corredores?
Pode o povo português esquecer o que este governo fez aos professores, aos enfermeiros, aos médicos, aos juízes, aos magistrados do MP, às forças armadas, aos homens da GNR e PSP? À Segurança Social? Aos pescadores, aos agricultores?
Só se engana, depois de tudo isto, quem quiser. Quem já votou em Passos e Portas e ache que está como eles dizem que continue a votar e já conhece as doses de austeridade que hão-de vir.

Nas eleições somos livres. Na cabine ninguém nos ameaça. Votamos em quem queremos.

Quem ontem ouviu Portas sabe de fonte certa que ele é capaz de dizer tudo para ser governo. Todos sabem. Então por que votam neles? São todos iguais… Todos sabem que só o podem dizer se levarem ao governo os que nunca lá estiveram: PCP, BE, Livre…A coragem é precisa. Venha ela. Depois que não se queixem.

MARCELO, O BITAITES
Marcelo desdobra-se pelo país. Ele vai à Festa do Avante, ele comenta a entrevista de Sócrates, achando-a sensata, ele deve ir ao Senhor de Matosinhos e à Assembleia-Geral dos Bombeiros de Alpedrinha…

Há quem diga que é por generosidade…Há quem pense que anda ao retalho a ver se enche as urnas em futuras eleições para substituir o que está em Belém a fazer de PR.

É capaz de ser sensato…ou não, depende do modo de encarar a política…Portas e Marcelo cada um a seu jeito até são capazes de mergulhar no mar da ilusão e do ilusionismo. Um mergulhou no Tejo e perdeu para Sampaio. Outro demitiu-se e com um novo cargo debaixo do braço voltou. Sempre o mesmo. A política ao serviço dos interesses pessoais.

Tensão Entre a Venezuela e a Colômbia

No dia vinte e nove de Agosto Nicolas Maduro ordenou o encerramento da fronteira  com a Colômbia no Estado Táchira ao longo de cento e sessenta quilómetros.

Uma semana antes tinha ordenado a expulsão dos colombianos do lado venezuelano desse Estado.

O número de deportados rondava os mil e cem colombianos. Os colombianos que por sua iniciativa abandonaram a Venezuela ultrapassavam os doze mil, segundo a Oficina Humanitária das Nações Unidas na Colômbia

O coordenador do sistema das Nações Unidas na Colômbia, Fabrizio Hochschild, considerou haver uma crise humana dado que…”Em qualquer parte do mundo, se chegam doze mil pessoas sem pré-aviso, e essas pessoas não têm meios de subsistência, dependendo da resposta da comunidade onde chegam, e de modo complementar da ajuda internacional, isto constitui uma crise humana…”

Causou um abalo na Colômbia a opinião de Ernesto Samper, atual Secretário-Geral da União dos países da América do Sul, e ex- Presidente da República da Colômbia, ao reconhecer que os paramilitares colombianos estavam operando na Venezuela, um dos argumentos usados por Nicolas Maduro.

É de sublinhar que a eleição para Presidente da República de Samper foi posta em causa devido a um mega escândalo que o envolveu em recebimentos de grandes somas provenientes do narcotráfico, tendo as testemunhas de acusação desaparecido uma a uma, ficando sem provas a séria acusação que impendia sobre ele.

A OEA na sua reunião de trinta e um de Agosto decidiu não discutir a crise fronteiriça, o que constituiu um desaire para a Colômbia.

Maduro convenceu o Panamá a abster-se propondo uma reunião entre os Presidentes da Venezuela e Colômbia, o que levou a que a proposta da Colômbia não tenha sido aprovada por um voto.

Por outro lado, a crise na Venezuela devido à baixa do preço do crude é grave. No entanto, o regime venezuelano mantem os preços dos bens de primeira necessidade sem qualquer aumento.

Do outro lado da fronteira os preços desses bens são muito mais caros. O contrabando nasce com toda a facilidade. Os colombianos compram no lado de lá e vêm vender no seu país a preços da Colômbia.

A gasolina na Venezuela, uma das mais baratas do mundo, é vendida na Colômbia por colombianos, que atravessam a fronteira, dez ou quinze vezes mais cara, o mesmo sucedendo com os bens essenciais

Os próprios venezuelanos também ganham comprando no seu país e vendendo na Colômbia.

Esta situação faz a Venezuela em tempo de vacas magras perder muitos milhões de bolívares,  devido ao contrabando.

Não se pode esquecer que na Venezuela vivem cerca quatro milhões de colombianos, mais oitocentos mil colombianos que devido aos combates entre as FARC e os paramilitares e o exército tiveram de fugir tendo o Presidente Chavez aberto a fronteira e dando-lhes o direito a votar, concedendo-lhes facilidades.

As relações também se têm deteriorado devido ao conflito interno na Colômbia entre o regime e as FARC, dado que o ex-Presidente Uribe, apoiado no Plano Colômbia, com a proteção dos EUA, perseguia as FARC na Venezuela.

Nicolas Maduro para além do contrabando colocou um grande enfase na perseguição aos grupos paramilitares que se infiltraram na Venezuela e que Samper confirmou.

Como é sabido muitos dirigentes dos grupos paramilitares criados com o apoio do exército colombiano estão hoje na cadeia devido a milhares de crimes horrorosos cometidos; outros fugiram para os países vizinhos, nomeadamente a Venezuela cujo regime é combatido pelos paramilitares.

Estando os EUA e a Colômbia ligados pelo Plano Colômbia é bem possível que para desestabilizar o regime da Venezuela tenham sido enviados paramilitares para aquele país.

Dos trezentos e trinta e cinco municípios existentes, a oposição venezuelana dirige sessenta e oito e destes 68,32% estão na fronteira com a Colômbia.

As negociações em Havana plissam. Há nervosismo no governo e na direção das FARC tendo em conta as perdas militares e as deserções no campo guerrilheiro.

Discute-se o futuro dos homens que a pouco e pouco foram perdendo a matriz do projeto inicial de Manuel Marulanda e enveredaram por outros caminhos alienando a dignidade do projeto daquele líder camponês.

A Colômbia vai ter eleições em Outubro e a Venezuela em Dezembro. Elas têm um peso crescente nesta grave crise.

De um lado Maduro defendendo os venezuelanos do contrabando e afirmando-se frente à Colômbia, apoiante dos paramilitares. O modo como expulsou os colombianos não é a mais humana, dado que muitos deles são cidadãos simples e humildes.

Do outro lado Juan Manuel dos Santos, Presidente da Colômbia, tenta captar a “unidade” nacional que se gera quando compatriotas são deslocados à força e outros decidem pelo seu pé ir-se.

A proposta, já aceite pelo Presidente da Colômbia, do Presidente Maduro vai no bom sentido. Para os dois países libertados pelo herói comum de ambos países, Simon Bolivar, é a única saída que pode restabelecer o mínimo de confiança entre ambos e respetivos povos.

Já há tensões e guerras a mais um pouco por todo o lado. Como alertou o Papa Francisco a terceira guerra mundial pode ter-se iniciado. É tempo de fazer serenar o conflito entre Venezuela e Colômbia. O mundo multipolar dos nossos dias vive tensões que necessitam de arrefecimento e não de mais guerras.

É , por isso, também, preciso um acordo entre o governo e as FARC, na Colômbia, que pare a violência. Será mais fácil, nesse quadro, serenar as fronteiras com os vizinhos.

Os papagaios de Cartagena e os Pássaros de Capelins

papagaios

Eram tantos, tantos os papagaios nas mãos dos meninos de Cartagena de Las Indias que o céu se fez mais colorido cheio dos ziguezagues das novas aves sem asas, mas com longos rabos.

O mar em baixo deleitava-se com tanto sarrabisco.

O vento por apelo dos papagaios soprou mais forte e os meninos mal tinham mãos para segurar os fios que levavam os papagaios para o mais alto no céu de Cartagena.

Os papagaios acharam que era chegada a hora de brincarem com os seus donos.

Fizeram força para levarem os meninos para o céu.

Com toda a força um rapaz foi levantado para ir pelo céu. Agarrado ao fio os pés levantaram voo. A mãe deu um grande grito e assustou o papagaio que o deixou de novo no chão.

puto a voar

Coisa semelhante aconteceu em Capelins, concelho de Alandroal, contou a quem quis ouvir o Varandim, homem de muitos contares.

Andava ele pela aldeia e deu conta que no grande plátano estavam a poisar nuvens de pássaros, tantos que nem um dia inteiro bastava para os contar.

O Varandim viu essa nuvem de pássaros, ao entardecer, ir poisar no plátano e quedou-se a ver aquele serviço. Eram tantos e tantos que cobriam a luz do sol do lado onde poisavam – Ora cá está, é a dormida da passarada, disse ele!

Contou o Varandim que no dia seguinte pouco antes dos pássaros abalarem para irem dormir untou a árvore de visgo para os apanhar e fazer um petisco para quem o quisesse saborear. Segundo as contas dele poderia vir quem viesse que daria para todos.

Quando chegou a hora vieram quantidades e quantidades e quantidades de pássaros que mal poisavam se sentiam presos. O Varandim já imaginava as frigideiras que iriam ser precisas.

Só que os pássaros não se resignavam a ficar presos e tanto bateram as asas para se desprenderem que a certa altura tantos milhares de asas todas à uma arrancaram e lá foram eles todos pelo ar com a árvore no ar e o Varandim a correr, a correr; até que a árvore caiu das milhares e milhares de patas dos passaritos que se safaram das goelas do Varandim e de seus amigos comilões.

A Festa do Jacaré em Ciénaga

Todos os anos no dia vinte de Janeiro, pouco antes do Carnaval de Barranquilla, há uma festa em Ciénaga, no departamento de Magdanela.

Há muitos, mas mesmos muitos anos havia um rio e uma menina muito traquina em Ciénaga.

Uma vez a menina saiu de casa sem os pais saberem e foi pela margem do rio sem destino. Ia por ir.

Debaixo da água do rio nadava um grande jacaré. Ao ver a menina seguiu-a. Sorrateiro foi-se aproximando da Tomazita, assim se chamava a menina. Ela descansada a ver os pássaros. Ele sorrateiro a segui-la. Quando a viu aproximar-se da margem pensou – é agora.

E foi.

Com a sua grande bocarra, cheia de dentes enormes, sacou-a para dentro de água e levou-a muito para o fundo.

E papou-a.

Os pais da Tomazita ficaram muito tristes e o jacaré muito contente de barriga cheia.

Não houve santa, nem santo que a salvasse.

Apesar de não ter sido salva por nenhum milagre, todos os anos a festa do jacaré repete-se. Sorte para o jacaré e para os de Ciénaga que têm uma festa antes do carnaval.

Macondo, Aliás Aracataca

estação aracatacaA palavra tem o poder de transformar o mundo real num outro mundo possível. Aratacata é a povoação onde nasceu Gabriel Garcia Marquez  e aí viveu a infância.

Pois os que leram Cem anos de Solidão não mais esquecerão Macondo e os Buendia.

Macondo nunca existiu; só que a palavra lhe deu vida e poucos saberão de Aratacata e muitos conhecerão as estórias ricas de Macondo.

Só o poder da palavra pode recriar o que existe e transformá-lo no que não existe, passando a existir. Essa força move o mundo dos humanos. Acreditar no que sabemos que não existe mas podia ou poderia existir ou daquele modo ou de outro modo.

O que interessa é a possibilidade de criar um quadro em que nos possamos mover na leitura e  de encontrarmos os lados mais fantásticos ou brutais da vida.

O que sucede aos outros e nos poderia suceder. O que nos delicia. O que nos horroriza. O que nos incita. O que nos faz sonhar. O que é tão feroz que nos faz melhores. O que nos humaniza em tempos de cólera social. O que nos faz irmãos em tempos de guerra. O que nos faz sermos nós e os outros.

Disse-me um homem de Santa Marta a que pertence Aratacata que não compreendia por que motivo Gabo deu o nome de Macondo a Aratacata, porque entre eles quando o dia corre mal dizem- tive um dia macondiano. 

fraseOs dias em Macondo, que me lembre, da leitura dos Cem anos de Solidão, nem eram bons nem maus, eram dias em que sucediam coisas estranhas e fantásticas.

Ao cabo e ao resto o que sucedeu nas “Mil e uma Noites” também não sucedeu e ao mesmo tempo sucedeu a todos os que as leram. Ou o mesmo a Ulisses na Odisseia.

De todos os modos em Aratacata a terra estava no chão e as crianças brincavam ao pé da estação e do telégrafo e a velha árvore da casa de Gabo continua a crescer.

No quarto de brincadeiras com os índios que ensinaram a Gabo estórias sem fim pareceu-me ver fascinados os olhos do escritor.

gabo

Hoje não tive um dia macondiano. Tive um dia em Macondo, terra que continua a ser Aracataca. Um dia com muito calor. Um almoço com gente que falava e era realmente gente. Um dia fantástico. Real, embora não tenha estado em Macondo, estando. Que o diga Aracataca, aliás Macondo.

 

Entre Manizales e Medelín

café  De Manizales a Medellin não são mais que cento e oitenta quilómetros de estrada encravada na cordilheira central. Estrada de arrepiar, a lembrar o Marão há cinquenta anos; só que a altitude a seguir a Santa Bárbara atinge os dois mil e quinhentos metros…

Na berma dezenas de cruzes, o que não intimida os condutores, sobretudo os dos carros. Se não passarem a linha contínua que é quase constante entre as duas cidades nem ao cabo de dez horas fariam a viagem.

Nalgumas curvas não passam ao mesmo tempo um carro e um camião. Do lado dos camiões a montanha está marcada a fundo de tanto rasparem com a carga.

A paisagem à saída de Manizales é de um verde gótico, verde verde e verde maduro; um verde de fazer inveja às outras cores. Melhor: à luz deste verde não há mais cores, até o céu fica verde de azul envergonhado.

Entre os mil e duzentos e mil oitocentos metros em socalcos está o café em plantações que terão no máximo a altura de um homem com muitas bananeiras à mistura e imponentes palmeiras esguias a contrariar a estética volumoso do célebre pintor e escultor Fernando Botero.

Não há máquinas que possam colher em tal instabilidade e proximidade das plantas entre si.

Gustavo é o condutor; tem trinta e quatro anos e garante que …”o de cima vai assegurar uma boa viagem sem problemas…” ; esperemos os de baixo…

Do lado direito corre o rio Cauca e a esperança de tantos garimpeiros que fazem covas ao lado do leito e quando a cova passa abaixo do leito aí entram para garimpar a areia e apanhar as pepitas de ouro.

Conta o Gustavo que tinham morrido…”ali onde está a cruz e a cova onze homens: o rio entrou no buraco e não tiveram tempo de fugir…”

Gustavo gosta de cumbia, merengues e salsa. Um cantante pede desculpa à mulher…”sei que portei mal, perdoa-me se puderes…prometi demasiado para as minhas possibilidades, perdoa-me meu amor se puderes…”

Muda o ritmo; passa à salsa…”não sei se te amei muito ou pouco, só sei que nunca mais te vou esquecer… por mais que viva…”

Gustavo explica que um trabalhador do café ganha cerca de treze cêntimos de um euro por quilo e o trabalho é dos socalcos e quase sempre a chover no meio da lama, tendo de pagar a alimentação aos donos do café; talvez trezentos e cinquenta euros em doze horas de trabalho diário.

O que sofrem alguns para que nos chegue fumegante e cheio de fragância o robusta colombiano.

CAFÉ 2

Agora vem os merengues que Gustavo adora e dedica tanta doçura à mulher que fica em casa com as duas filhas.

Passámos um camião virado. O motorista está na ambulância e a carga no desfiladeiro.

Pergunto-lhe – Então O de cima não fez nada?

Ele olha-me acanhado sem saber o que dizer e nada diz. Mais á frente exclama: nem sempre se está na graça do senhor. OK, digo-lhe eu.

Aos dois mil metros na cordilheira há um comboio de camiões e autocarros; à nossa frente um autocarro guina à esquerda para ultrapassar e guina à direita a fugir do camião que vem de frente. Parece um golpe de acordeão.

Depois dos dois mil e quinhentos metros começa a descida. Só se vêem bambus e palmeiras e relva verde e vegetação verde verde. E nuvens a tapar o azul.

De repente vindos dos nada dois garotos aproveitam a pouca velocidade do camião e agarram-se à parte de trás. E não há curva, nem subida, nem descida que os descolem do camião; nem o perigo de uma travagem brusca e caírem e serem esmagados por outro camião.

Quando chegam à sua terra num passe mágico de habilidade largam o camião e param no largo causando a admiração de quem os vê “aterrar”.

E a música segue ao ritmo da vontade do Gustavo…” dava-te tudo meu amor, mas tu não queres…” A cumbia ecoa nas alturas. Ao fundo do fundo ergue-se Medellin, a cidade da primavera eterna, diz Gustavo. Cinco horas para fazer cento e oitenta quilómetros e se não fosse a perícia dele seriam muitas mais. Gustavo é arquiteto e não tem emprego. Arranja biscates a conduzir carrinhas e autocarros. Antes condutor que malandro sem trabalhar, diz ele. Boa sorte Gustavo. Que O de cima te ajude!

PUTOS

 

Os Cavalos Também Tomam Café

Na Colômbia, na zona “ cafetera” de Manizales aqui está ele a entrar no “bar” da “plazoleta” para o seu café. Se pediu rum, só quem lá estava poderá responder.

cavalo no café

O certo é a igualdade entre homens e cavalos diante do balcão da bica…Haja igualdade! Que é um dos princípios da longinqua Revolução francesa.

 

A Entrevista de Costa ao Sol – Que Frieza!

Na longa entrevista ao SOL António Costa de um modo enviesado mostra com toda a clareza ao que vem, caso seja Primeiro-Ministro.

Retiro três momentos da entrevista.

  1. Como todos se recordam o PS com Sócrates à frente teve como adversário no PSD a Dra Manuela Ferreira Leite, a que competiu ao longo de muitos anos com a Dra Maria-Cavaco para ver quem era mais cavaquista.

Nessa altura o PS despachou-a com uma cilindragem que levou Passos Coelho para o trono da Buenos Aires.

Pois é esta Sra que chegou a propor que a democracia ficasse congelada seis meses e que os idosos com mais de setenta anos não deveriam ter acesso à hemodiálise por via do SNS, com quem Costa se identifica e sublinha neste momento de debate eleitoral essa identificação…”Há entre mim e Manuela Ferreira Leite uma identidade de pontos de vista muito significativa…”

Não refere um único ponto de vista em que se identificam, mas fica o aviso : ele e a Sra Dra tem uma significativa identidade de pontos de vista. Não digam que ele não disse.

É certo que ela tem dito coisas que não são agradáveis para Passos Coelho, mas daí à identificação vai um mar de questões que Costa passou totalmente ao lado.

O que pretende Costa com esta ressurreição para a política ativa de Manuela Ferreira Leite?

Já com Pacheco Pereira nem pensar nisso…A contrario sensu não há uma significativa identidade de pontos de vista…branco é, galinha o põe.

  1. Mas Costa quis continuar a revelar o seu pensamento político e na verdade a maneira com encara Schäuble é elucidativa…”Deu grandes contributos para a construção europeia e tenho a esperança que enquanto ministro das Finanças possa um dia dar um contributo igualmente bom…” Assim.

O rosto da política imperial alemã, da humilhação da Grécia, da política da austeridade a todo o custo, só porque …”uma coisa é certa e não duvido por um segundo que é um europeísta…” Ai sim? E Tsipras é um africanista? E Varoufakis um asiático?

Schäuble é Ministro de uma coligação para enfrentar os marcianos que são todos os povos que se não queiram render a serem Juntas de Frequesia da poderosa Alemanha.

Costa só admite um bloco central como o da Alemanha se vierem os marcianos que ainda não chegaram à Alemanha, que se saiba.

Na verdade na Alemanha há um bloco central entre o irmão do PS, o SPD, e a direita conservadora da Sra Merkel e do Sr Schauble.

Em Portugal Costa não tem uma alternativa ao atoleiro austeritário comandado por Berlim, tal como a coligação da direita. Seguem a mesma cartilha com interpretações mais benévolas ou malévolas, mas o livro é o mesmo, o do europeísta Schäuble.

  1. Aliás deve ser por isso que, sem saber como enfrentar a vã glória de pedir maioria absoluta, se esfarrapa a alegar que se lhe derem maioria absoluta tudo vai ser fácil e não haverá lugar a angústias.

Ainda não percebeu o que a direita já percebeu: o PSD sozinho não ia longe; o PS quer ir onde não chegará, nem com a Manuela Ferreira Leite debaixo do braço.

Afinal onde está a afirmação do PS que levou ao desaparecimento de Seguro? No entendimento com Ferreira Leite e Schäuble? Na cassete da maioria absoluta? Tanta guerra e tão velhas ideias.

À Cigana Violada pelo Marido

A Rosa era uma cigana trigueira e bonita. Ela gostava que os rapazes a olhassem até porque já se sentia mulher, dizia-lhe o corpo.

Era na escola que ela gostava de estar, ao contrário das outras ciganas. E na escola eram muitos os que a fitavam.

O Gabriel tinha dezasseis e não era cigano. O que não o impediu de a admirar, de tal modo que lho disse.

Ela sem corar deu por aceite o namoro pedido.

Ela ganhou uma coragem que sentira mas ainda não tomara como sua; era até então um pressentimento.

Quando a família da Rosa soube do caso convocaram as leis antigas e terminou a escola.

Uma tia foi chamada e, na presença de pai e mãe, a Rosa foi colocada à sua mercê para dar conta se lhe faltava uma pele no mais íntimo do seu corpo.

Como estava como devia estar segundo as regras antigas, logo ali esconjuraram o Gabriel e casaram-na com um primo de vinte anos.

Ele desconfiado do veredito da tia não esperou por nenhum olhar, por nenhuma palavra, por nenhum gesto, por nenhum mimo; comandado por um cio desencabrestado foi-se a ela; todo ele foi faca e ela corpo indefeso.

Ao ver o sangue que o cegava retirou a faca do corpo da Rosa. A tia veio confirmar que afinal tudo se confirmava e agora era seguramente o que sempre fora. Cigana.

Ela, porém, era deste tempo e o marido não se conformava; ia-se a ela e sempre do mesmo modo golpeava-a como se o sexo fosse uma faca para amedrontar.

Só que ela não se deixava dominar. Ficava-se. Jazia. Era como se o marido estivesse com uma morta.

O marido disse à tia da Rosa que a não queria porque ela não era como as outras e ele não a sentia como sua, apesar de toda a posse.

Ele, a tia, o pai e mãe fizeram-lhe ver que as leis deles eram para cumprir e como ela desobedecia prenderam-na num barraco imundo e às vezes levavam-lhe comida, outras vezes pancada.

Outras vezes o marido ia, como sempre foi, servir-se dela martirizando-lhe o íntimo corpo.

Até um caçador a descobrir e ser restituída à escola.