As Mãos dos Homens que Atiraram as Pedras

Era com as mãos que os homens atiravam as pedras que mataram a jovem mulher. Com as mãos. Estavam muito perto dela que por sua vez se encontrava presa na cova que eles abriram. Antes de atirarem as pedras e de as juntarem num monte suficiente.

As pedras batiam na mulher e os olhos enraivecidos dos homens também. Ela pediu a Alá a misericórdia que os homens que lhe atiravam pedras não tinham. Os homens não fizeram caso do que ela pedia porque eles chegaram para a matar. Ela tinha desafiado a lei daqueles homens. Escolheu um homem do seu agrado o que ia contra a decisão de seus pais que a tinham entregado a outro.

Os homens que atiravam as pedras e eram mais velhos sentaram-se para ganhar novo alento e continuarem a atirar pedras à mulher.

As pedras foram atingindo a mulher até ela não resistir mais. Os homens já não tinham razão para lhe atirar mais pedras. Lavaram as mãos e foram-se embora com as mãos lavadas.

Quem Estão a Matar?

Os homens, eram apenas homens, abriram uma cova para onde atiraram uma mulher jovem de vinte anos casada contra sua vontade e que pretenderia viver com um homem do seu agrado.
A mulher ficou de pé e com a cabeça à altura da superfície do chão.
Estavam em roda. Eram os chefes religiosos que pregavam a misericórdia de Ala.
A mulher no buraco e rodeada de todos aqueles homens foi obrigada a declarar a sua fé no islão.
Um dos homens atirou a primeira pedra e logo de seguida os outros. E os chefes militares talibans também. Em Ghalim, província de Ghor no Afeganistão.
Mataram-na com pedras pequenas, aliás como pretendiam.
Não os deteve a ideia de não poderem atirar a primeira pedra pelo simples facto de poderem ter várias mulheres.
A mulher na cova não queria o mesmo que eles. Apenas viver com o homem de quem gostava e não com o homem que seus pais a obrigaram a casar. Só.
Em cima, ao que dizem, deus, todo misericordioso, contemplaria os seus acólitos. A mulher morreu. Só ela? Quem está a matar deus? E depois?

Estabilizem

É assinalável a descompostura que varre a direita e os seus acólitos por terem de se submeter às regras parlamentares. Custa-lhes aceitar a coisa mais simples das regras democráticas: quem tem a maioria no parlamento governa.
Parece que vale tudo nesta campanha a roçar a histeria.
1. António Costa alia-se à esquerda para sobreviver politicamente, dizem. Mas não é verdade que todos os dirigentes de todos os partidos querem sobreviver e serem capazes de atingir o objetivo a que propuseram? Costa queria ser chefe do governo e vai ser.
Portas não foi para o governo para sobreviver? Não revogou a sua irrevogabilidade para sobreviver?
Se Costa se aliasse à direita ou a deixasse governar sobreviveria? Não era o que a direita quereria – que não sobrevivesse?
Estão raivosos exatamente por Costa sobreviver virando o PS à esquerda.
2. A direita, minoritária no país, chama a estrangeirada para ver se interfere em Portugal através da pressão dos mercados, de Bruxelas e da NATO. Só falta o planeta Marte…
Governaram para empobrecer os portugueses, em nome dos mercados, de Bruxelas e da CE. Ameaçam, invocando a qualidade de procuradores dos mercados (ninguém lhes passou procuração) que sem eles e os sacrifícios que impuseram o país não tem futuro.
Perderam o tino. O que eles fizeram foi fazer regredir Portugal mais de dez anos, fazendo da pobreza o seu programa.
Queriam continuar a empobrecer o país para mais tarde serem recompensados pelos mercados.
Sacaram a cada português mil e quinhentos euros para os entregar aos banqueiros. Estão transtornados por não poderem continuar a tirar aos pobres para dar aos ricos.
3. Estão aflitinhos e até Cavaco que se sentia aliviado há meses também ficou assim, aflito, com ares de mandão.
…”Repor cortes de salários, descongelar pensões, reduzir IVA da restauração, não aumentar impostos é impossível”…diz Nuno Melo. Atemoriza-o, ele que é um dos aflitos que chama ao acordo uma coligação de ódio… é um amor este Nuno Melo, um doce.
Depois de quatro anos de ódio aos portugueses e a todos os que não fossem da coligação, todos impantes a suar de tanto corte que impuseram, continuam ajudados por Belém a pensar que são os donos da consciência dos portugueses, não admitindo que a aritmética é o que é – perderam a maioria de deputados que tinham e ficaram raivosos. Estabilizem se fazem favor. Tenham calma. A democracia continua.
O que os assusta é a possibilidade de fazer parar o empobrecimento da imensa maioria e o enriquecimento de uma ínfima minoria. Assusta-os porquê? Porque este PSD e este CDS servem para os ricos, querem que os ricos lhes agradeçam o que fizeram por eles.
Disseram que o empobrecimento era para tornar a dívida sustentável, aumentaram-na em mais de trinta e tal por centro. Saem diretamente para o FMI e mundo dos grandes negócios. O governo é um estágio para mostrar aos que ditam a política que merecem ser recompensados.
Até Durão Barroso, no intervalo dos seus vinte e um cargos, veio amaldiçoar o acordo entre PS,BE e PCP.
Então ele não fugiu do governo para sobreviver à grande, à francesa e à alemã na União Europeia e dividir com Bush a Europa? Então não foi às Lajes para sobreviver?
Certamente que no meio de tantos cargos, onde certamente não auferirá mais do que 505 €, Durão não compreende que se estrague o empobrecimento do país.
4. A direita soube sobreviver e chegar ao governo. Gostou do que fez. Os portugueses não, e retiraram-lhe a maioria absoluta. Perderam a mioleira. Com tanta propaganda, com tanta assessoria, com tanto apoio na comunicação social julgaram que perdendo poderiam criar a ideia que ganharam.
E veio de Belém a triste figura do que há muito deixou de ser o presidente de todos os portugueses para ser o de uma minoria que à outrance defende. O governo que apadrinhou vai-se embora, só serviu para criar instabilidade. Ele em breve sairá pela porta baixa da democracia portuguesa. Até lá, apesar de saber contar no caso da Grécia (19-1=18), parece que tem de aprender no caso de Portugal que metade de duzentos e trinta deputados mais um não está ao alcance de Passos e Portas (o estável).
Um irá para o PSD tratar da sobrevivência, outro ainda sobreviverá no CDS?, tem crista para tal?
Não é um exagero. Nem um palpite. É uma ideia. Simples. Possível.

Ainda os Compromissos

Os compromissos são, em certo sentido, o sal e a pimenta da política. Sem eles não haveria política no sentido mais puro da palavra.
Atentemos na decisão irrevogável do único homem que em Portugal é previsível e não tem fome de poder – Paulo Portas – e na capacidade de Passos de o chamar para Vice Primeiro -Ministro. Saiu e entrou. Lá está o compromisso. Manteve-se a coligação, passou à frente de Maria de Lurdes Albuquerque e levou Pires de Lima para a economia.
Os compromissos à direita parece que são naturais. À esquerda não havia compromissos. Só críticas.
A esquerda parece ter aprendido, à custa de muitos anos, que o seu enconchamento por mais razões que cada força pudesse ter, era benéfico à direita.
O deslizamento gradual do PS para o centro e para a direita dava argumentos ao PCP e ao BE para o atacar e mantê-lo no ponto de conforto onde ele queria estar.
O PS aproveitava e queixava-se do tratamento que o PCP e o BE lhe davam. Foram anos a fio neste andamento.
O crescimento do BE e a consolidação do PCP e a conquista nesta área de quase um milhão de votos, aliada à maioria relativa do PSD e à situação interna no PS criaram condições para ultrapassar a situação vivida até às eleições.
Na verdade só haveria um governo da direita se o PS quisesse a partir do momento que PCP e o BE assumiram a disponibilidade para negociar um acordo com o PS.
À esquerda o BE e o PCP sabendo da tendência do PS para fugir para a direita souberam dificultar a manobra e criarem-lhe dificuldades em manter o tal arco e fizeram-no abrir.
Foi o que fizeram, primeiro Jerónimo, mereceu uma chapelada. Depois Catarina, outra chapelada.
Para os puristas de esquerda que exigem do PS aquilo que ele não é e para os ultra liberais do PS que exigem a conversão do PCP e do BE ao que não são, o que lhes importa não é travar o empobrecimento do país, mas convocar a diferença.
O que está em causa neste preciso momento é parar a política de empobrecimento dos portugueses e de Portugal. Criar condições para o país avançar na dinamização da economia com base em condições de uma vida decente para todos e todas.
Se as três forças ousarem alterar a política de desgraça que Passos e Portas seguiam e derem azo a que os portugueses se sintam capazes de traçarem o seu futuro em terras de Portugal e lhes derem bases para confiarem haverá razões para crer que o compromisso tenha êxito.
Não será fácil. Há muitas diferenças. O pior será cada um ficar à espera que o outro se afunde e depois conte com um resultado mais favorável. Há sérios riscos sobre uma política fundada em tais cálculos. Desde logo porque pôr fim à política neo liberal da coligação é um elemento chave. Quanto mais tempo a coligação se assenhorear do país mais o empobrece; e o empobrecimento vem acompanhado pelo enfraquecimento do próprio regime, pela fuga para a emigração e pelo desânimo nacional. Convém ter presente o desígnio de Passos fazer de Portugal o país mais competitivo do mundo, o que equivale a dizer com menos direitos e com mais baixos salários.
Sem dúvida que há questões importantes em que o PS, o PCP e o BE têm grandes diferenças, desde logo em relação ao euro, ao Tratado Orçamental, à NATO, mas do que se trata neste momento histórico é de parar a política de empobrecimento e criar condições para acumular forças para uma viragem mais funda.
Nem o PS pode pedir aos outros que abandonem a sua identidade, nem PCP e BE o podem pedir ao PS. Em cima da mesa está a tarefa de valorizar denominadores comuns mínimos e provar à população que estas três forças podem representar a esperança que de certa forma estava a perder.
Este é talvez o maior desfio para cada uma destas forças. Que a Costa, Jerónimo e Catarina não lhes falte a coragem. E cada um percebendo as diferenças, valorize o que os faz convergir. A hora é de fazer trazer à tona o que é denominador comum. As diferenças, por maiores que sejam e são, podem aguardar novos tempos.
O tempo é o único capaz de resolver os problemas de amanhã; os de hoje só com inteligência e firmeza em bases capazes de gerarem condições para que o tempo resolva os problemas vindouros em condições mais favoráveis à maioria do povo português.
Este tempo de chantagem que o governo levou a cabo pode terminar e com ele a política de miséria material e espiritual. Que cada um faça o que tem de fazer.

O Retiro de Cavaco e a Ida a Roma

Cavaco Silva não participou nas comemorações da implantação da República porque estava a meditar no cenário que se criaria após as eleições de 4 de Outubro, embora já soubesse bem o que havia de fazer. Ficou a meditar. Sabe-se no que meditou.
Há quem pense que o retiro do 5 de Outubro já fazia parte da elaboração da insurgência para segurar custe o que custar a coligação minoritária de Passos e Portas.
O retiro do 5 de Outubro já fazia parte da elaboração da insurgência para segurar custe o que custar a coligação minoritária de Passos e Portas.
Há dias amaldiçoou o povo por ter votado como votou. E bem sabendo que Passos não passará insistiu e indigitou-o contra a anunciada maioria de deputados que irá rejeitá-lo.
Para tanto fez uma pirueta: Sócrates fora minoritário e passara. Gato escondido com rabo de fora – o PSD informara-o que o deixaria passar.
Mas o homem que não podia estar nas comemorações da implantação da República poderá ir para Roma assistir a uma reunião de uma associação que ninguém conhece, a COTEC Europa e ficar por lá uns dois dias e pico em plena crise.
O que vale a data da implantação da República comparada com uma reunião em Roma na COTEC?
Cavaco é um homem pouco escrupuloso. Dá-se ares de um homem providencial, mas não passa de um homem circunstancial.
Ficará na História como o grande politiqueiro do Portugal democrático. Um homem vulgar, emproado, uma figura de cera. Uma espécie de provinciano com ares de estadista.
Cada um sabe onde vai e não vai, embora ele deva o cargo aos valentes republicanos que derrotaram a monarquia e que o seu protegido Passos retirou do calendário como feriado.
Eles sabem o que fazem. E já não disfarçam. O mérito para desmascarar o disfarce resulta da coragem de Catarina, Jerónimo e Costa. Que ela nunca lhes falte.

A Morrinha dos Pobres

A manhã acordara com morrinha persistente. O céu acinzentado ia derramando pingos finos de água sem se cansar. Era uma chuva tão branda que enganava os que não faziam caso dela e acabavam tão molhados por fora como por dentro.

As próprias árvores silenciosas como de costume arrepiavam a copa e os braços e a sua estaticidade deixava o mundo vivo mais melancólico.

Os homens que se levantam cedo, quase todos já a fugir dos sessenta anos, conversavam na taberna do Zé Russo.

Quem entrava na taberna olhava e dava conta que nos olhos de cada um havia uma sombra feita de fios miúdos de água e a chuva molhava não se sabe que parte da alma; todos estavam muito quietos e sem chama que se visse.

Os velhos com as duas mãos agarradas ao cajado aguardavam as últimas notícias da ida do Amendoeira ao padre para que este aceitasse a nova casa mortuária.

Ficar na igreja à espera do enterro custava cento e oitenta euros; na nova casa doada pela cooperativa ficava por oitenta.

Já não havia muita gente à espera da senhora da foice; e não se dava notícia de que havia qualquer batizo à espera. Em breve a aldeia ficaria sem ninguém. Ficaria a placa? Que pode suceder a uma terra que deixa de ter a gente que a fez?

Os velhos nem todos têm para o café. Os que têm bebem-no. O dono dá um rebuçado São Brás a quem o bebe à espera que peça um bagacinho.

Para ali estão. Os seus estão longe. Lisboa. Lausanne. Dusseldorf. Londres. Onde haja emprego.

Aqui pagam para os bancos. Eles e os outros. Têm os dias que vierem. Não passam bem. Vivem como podem. O que os trama é a saúde, os medicamentos …

Dizem os governantes e os que habitam na televisão que por causa deles estamos mal. Os velhos querem o que o sistema não lhes pode dar, afirmam todos à uma.

Ganham por esse serviço muitas mais vezes que aqueles que viveram acima das suas possibilidades e que ali em Ferreira na verdade nunca deu para sair da terra.

Estes e outros velhos são encargos pesados para as voltas que o mundo está a dar. Os que agora são mais novos terão a sua vez de serem velhos. E dependendo do que descontaram na edificação do país de todos, se não mudarem as voltas ao mundo vão também eles ficar à espera de morrerem de opróbrio – o de serem pobres.

Este é o mundo em que vivemos: os que têm muito e quererem muito mais levaram o mundo à beira do desastre, mas querem que o desastre seja pago também por velhos sem quase nada.

Tiraram-lhe parte da reforma, feriados, a possibilidade de irem à farmácia, como iam. E amaldiçoaram-nos por não compreenderem que se empobrecerem ficam melhores. Salvando os ricos.

A aldeia esvazia-se de gente. Quando nascerá uma criança? Nascerá? Por que andam tão contentes Cavaco, Passos e Portas?

Esta morrinha que vai na alma dos velhos sob a forma de resignação dá-lhes esse contentamento. Estarão Cavaco, Passos e Portas seguros ou cegos?

Cavaco e o Arcabuz do Conservadorismo mais Retrógado

Cavaco Silva falou ao país ontem dia 22 de Outubro. Falou? Quem o ouviu e viu parecia que as palavras eram disparadas por um arcabuz que trazia no olhar frio de zelota.
Não parecia que falava no sentido de representante de todos os portugueses que constituem a nossa pátria.
É adequado perguntar em nome de quem veio Cavaco arengar e disparar com o seu velho arcabuz retirado das alfurjas do mais retrógrado conservadorismo empedernido?
Cavaco em vez de respeitar o voto popular que deu uma maioria aos partidos que se opuseram à austeridade falou despeitado contra a opção dos portugueses e faltou à verdade histórica.
O PS em 2009 venceu as eleições e era minoritário, mas contava com a abstenção do PSD e eventualmente do CDS.
Em 2015 o PSD e o CDS não contam com a abstenção do PS.
Cavaco não aceita que o PS afine a sua política pela sua própria cabeça e como tal veio passar um raspanete ao PS contando que a sua arenga pudesse ter eco no interior do PS e ameaçando os portugueses que não dará posse a um governo com total cobertura parlamentar; como se um Parlamento eleito livremente tivesse de se submeter ao desígnio de um Presidente a poucas semanas de se ir embora.
Cavaco pode não concordar com a opção dos portugueses, mas não pode impedir que ela seja tomada em conta, pois não tem esse poder.
Cavaco é talvez o político que mais usa a política no sentido menos nobre que ela tem, fazendo politiquice, pegando em certas premissas, manipulando-as para subverter as instituições e papel de cada uma delas nos alicerces da República.
Toda a gente sabe que um programa de um partido é o programa de um partido. O que é fundamental é o respeito pela Lei das Leis – a Constituição.
Uma outra coisa é o programa de um governo com diversos intervenientes onde cada um cede muita coisa de que é constituída a sua identidade.
A estabilidade resulta desses acordos quer se goste quer não se goste. Se assim não for que Cavaco e os seus apaniguadas revejam a Constituição para que nela conste o seguinte: …” Só pode entrar no governo da Nação quem for a favor da Nato, do Tratado Orçamental e da Moeda Única…”
Como até agora os donos de toda a Europa criam que os povos se subordinavam a este desígnio por medo e chantagem é preciso que tenham a coragem de vir a terreiro e propor a alteração das Constituições para saber o que se vota.
Cavaco ontem na sua arenga falou muito mais como representante dos mercados, dos investidores do que do povo que tão mal representa.
Cavaco falou como corifeu de todos que em Portugal têm os olhos postos nos interesses dos mercados e menosprezam os interesses dos seus compatriotas.
Foi mais longe: chantageou a população portuguesa dando a entender que prefere manter um governo derrotado no parlamento do que um governo constituído com uma maioria parlamentar.
A pensar no desenlace a prazo vai preparando o terreno para que a instabilidade avance e venha ele e os da coligação mais toda a direta europeia chantagear e levar pela soga Portugal a entrar nos eixos da austeridade.
Cavaco levou a sua arenga ao rés do insuportável. Ele não é o Secretário-Geral da Nato, nem Presidente da Comissão Europeia, nem Fiscal dos Mercados, nem o Presidente da Coligação.
Cavaco virou profissional da instabilidade promovendo o confronto entre as instituições e desrespeitando a opção de cerca de um milhão de portugueses tratando-os a eles e ao PS como portugueses de segunda sem direito a formar governo; o que está reservado aos seus amigalhaços de ideologia.
Cavaco não discursou. Declarou guerra ao país. Foi ao armário do conservadorismo e pegou no arcabuz mais usado e disparou atingindo a dignidade dos portugueses.

Angola – Luaty e os Companheiros e o Regime

Pode um grupo de dezasseis jovens pôr em risco o Estado Angolano e a vida do seu Presidente?
Podem estes dezasseis jovens e outros tantos derrubarem o Presidente angolano?
Dezasseis jovens cidadãos “apanhados” a ler e discutir um livro (seja ele qual for) podem por mais que detestem algumas das figuras do regime fazê-lo cair?
Podem dezasseis ou dezassete ou trinta e dois ou trinta e quatro jovens abalar os alicerces do Estado angolano?
Qualquer cidadão por mais desconfiado que seja terá dificuldade em aceitar que semelhante ação possa provocar tal fim …ler um livro é de molde a saber o que o livro contem. Apenas.
As armas estão nas mãos das autoridades que comandam as instituições armadas de Angola.
E dezasseis jovens de livro na mão dá para atacar um Exército, mesmo que a reunião de leitura fosse à noite.
Porém, sendo assim, o facto é que eles estão presos há mais de três meses. Preventivamente.
Angola é jovem nação e alguns dos seus principais dirigentes foram obrigados a pegar em armas contra o colonialismo português por falta de qualquer outra alternativa.
Antes dessa decisão muitos angolanos tentaram rasgar de outro modo o caminho para a independência.
É dos livros. Quando as margens comprimem o rio ele galga as margens. Quando o rio não cabe não se fica pelo leito.
Quando se lê, lê-se. Quando se lê e se é preso, as margens estreitam e o leito comprime-se. Até um dia.
Em 1971, na Universidade de Coimbra, realizou-se uma reunião de solidariedade com Garcia Neto e Sabrosa, angolano e moçambicano, presos em Caxias.
Foram presos e mandados para Caxias, os da direção do AAC e muitos outros ativistas estudantis. Três foram expulsos.
As margens foram tão comprimidas que o rio não as aguentou mais. E o 25 de Abril chegou como a mais límpida madrugada de sempre.
Tudo aconteceu porque as margens foram tão comprimidas que saltaram do leito.
E aquilo que é uma vontade de participar, de se opor ao curso das coisas, aquilo que é a aspiração mais profunda de mudar pode ser torpedeada. Poder pode. Mas até quando?
Pode o medo estar já tão entranhado no poder que os fantasmas tomaram posse de homens e mulheres que tinham tudo para ser lúcidos?
Pode a ambição desmedida fazê-los perderem-se e não verem que as árvores que atacam se transformarão numa floresta tão vasta como o Mayombe?
Uma coisa é certa. Quem se habitua a ler, quer ler mais.
Quem se habitua a discutir com os seus compatriotas sobre o destino do seu país, não vai parar.
O melhor, nestas circunstâncias, será abrir o ferrolho e deixar a luz sobrepor-se às trevas. Um país não é de um, nem de dois, nem de mil. É dos angolanos.
Se assim não for o rio não parará e o leito estender-se-á a toda Angola.

CRATO CRIA CRATERA NO MÉRITO

Crato, o ministro da Educação de Passos, não paga há três anos a bolsa de mérito aos estudantes que fizeram todas as cadeiras do ano letivo respetivo com notas acima dos 16 valores.
Convenhamos que o estímulo ao mérito é fundamental em quaisquer circunstâncias, mas muito mais num pais deprimido, insatisfeito e carente de auto estima e de um projeto nacional.
Só com gente de elevado mérito a sair dos estabelecimentos de ensino se poderão criar bases para reerguer o país devastado pela crise.
Qualquer um pensará que estes estudantes estudiosos, inteligentes e capazes devem ser protegidos e o Estado deve pagar o que lhes prometeu, pois tem essa obrigação ética, política, própria de quem age em função do bem público; neste caso estimulando os melhores para que mais tarde se possam retirar os frutos.
É de admitir que haja alguém que não esteja de acordo com o cumprimento desta obrigação? Há. O ministro da Educação, aquele que devia zelar pelo cumprimento escrupuloso deste dever viola essa obrigação não pagando a esses alunos com mérito há mais de três anos, sendo o calote de seis milhões de euros.
Este senhor ministro pertence ao governo que faz tudo, levando os portugueses à penúria, para pagar aos credores internacionais, mas aos credores de cá, os que estudam e se distinguem a estudar, a cratera de Crato já vai em seis milhões. Diz que paga quando puder. E se disser que não pode…
domingos lopes

A Arte dos Compromissos Necessários

O PCP participou no 1º governo provisório e tinha no seu programa a implantação da ditadura do proletariado. Há alguém, no seu perfeito juízo, que tenha acreditado que o PCP quando foi para o governo ia com a intenção de instaurar a ditadura do proletariado?

O PCP participou com o PS e o PPD num governo cuja missão foi criar condições para democratizar o país e realizar eleições para uma Assembleia Constituinte que por acaso constava do programa do PCP.

Os ministros e secretários de estado no seu desempenho foram inexcedíveis e mostraram a capacidade do PCP para assinar compromissos e respeitá-los.

O PCP sempre se pronunciou contra a NATO e apesar disso participou nos governos provisórios.

Uma coisa é o programa de um partido, outra é a necessidade de negociar um governo cujo objetivo não é cumprir o programa desse partido, mas sim encontrar acordos que viabilizem a ação governativa dos parceiros do acordo.

A arte da política não é o que fez a coligação PSD/CDS que mal se apanhou com a maioria absoluta governou sem freio impondo a austeridade à rédea solta, o que sempre negou que faria.

A estabilidade é um meio para atingir uma boa governação. E essa estabilidade, resultante de uma maioria absoluta que os eleitores recusaram, pode ser um péssimo meio, pois permitirá a quem a tem fazer mais ou menos o que quer, mesmo o confronto com o Tribunal Constitucional como foi o caso do governo.

Os programas do PCP e do BE são diferentes dos do PS; ainda bem. O PS bem pediu a maioria absoluta, mas não lha deram. Os eleitores deram um milhão de votos ao BE e PCP e fizeram-no por eles terem o programa que tinham.

Os três pronunciaram-se  contra a política de austeridade da coligação; é, pois, normal que tentem negociar uma saída para assegurar um governo com uma política diferente e que estanque o empobrecimento do país.

Claro que o PS tem uma política que poderá estar mais próxima do PSD, mas por motivos que têm a ver com a política na sua dimensão bela e cruel está nesta fase a negociar de modo mais fiável com o PCP e o BE.

António Costa sabe que há o tal caminho das pedras que falou Catarina e Jerónimo insistiu no sábado que só não governo se o PS não quiser.

Os compromissos foram tratados por vários políticos entre eles Vladimir Iliche Ulianov, o célebre Lenine, e Álvaro Cunhal no livro Radicalismo pequeno burguês de fachada socialista. Ambos alertaram e denunciaram as tendências de alguns puristas que do alto do seu palavreado fustigavam os compromissos. Veja-se por onde andam agora alguns desses puristas. Um até foi parar a Presidente da U.E.

A vida de cada um é um compromisso entre as células. A vida social também o é.

A estabilidade pode ser um bem em primeiro lugar para as pessoas, ao contrário de alguns que vêm nela um bem para as empresas e mercados e dizendo-se personalistas cristãos. Quem está primeiro? As empresas foram criadas para as pessoas e que se saiba ainda não apareceu filosofia ou religião a proclamar que as pessoas nasceram das e para as empresas, antes se concorda que quem as criou foram gentes deste mundo.

A estabilidade resultante de um acordo pode ter mais virtudes que defeitos na medida que não dá a uma só força todo o poder, obrigando a uma negociação que assegure interesses diferentes, protegendo-se assim um interesse muito mais vasto da sociedade.

E ainda vale a pena perguntar à coligação: a estabilidade assegura-se com demissões irrevogáveis?

Os comentador@s cheios de autoridade democrática que permanecem dia e noite nos canais televisivos e radiofónicos nunca ousaram perguntarem a si próprios com alguma modestia se os eleitores (um milhão) que votou no BE e no PCP não sabiam em quem votavam?

Como sabiam não lhes passa a@s senhor@s pela cabeça que isso tem de ter algum efeito prático que é o de ter em conta essa aspiração dos seus compatriotas?

A direita teve mais votos que o PS, mas não teve mais votos que o PS, BE e PCP juntos, ou não é verdade?

Nenhuma pirueta por mais sofisticada que seja pode esconder esta realidade. Ela entra pelos olhos dentro. O PSD teve mais votos e depois? Se Cavaco indigitar Passos ele não passa se o PS não o deixar. Estas são as regras da democracia parlamentar, ou não são?

Haja tento o que parece não haver nas cabeças completamente formatadas de tanto fossarem na redoma em que vivem e acabarem por acreditar que só há aquele mundo. Adaptem-se. Leiam o Darwin.