ANGOLA – LUATY E OS COMPANHEIROS E O REGIME

Pode um grupo de dezasseis jovens pôr em risco o Estado Angolano e a vida do seu Presidente?
Podem estes dezasseis jovens e outros tantos derrubarem o Presidente angolano?
Dezasseis jovens cidadãos “apanhados” a ler e discutir um livro (seja ele qual for) podem por mais que detestem algumas das figuras do regime fazê-lo cair?
Podem dezasseis ou dezassete ou trinta e dois ou trinta e quatro jovens abalar os alicerces do Estado angolano?
Qualquer cidadão por mais desconfiado que seja terá dificuldade em aceitar que semelhante ação possa provocar tal fim …ler um livro é de molde a saber o que o livro contem. Apenas.
As armas estão nas mãos das autoridades que comandam as instituições armadas de Angola.
E dezasseis jovens de livro na mão dá para atacar um Exército, mesmo que a reunião de leitura fosse à noite.
Porém, sendo assim, o facto é que eles estão presos há mais de três meses. Preventivamente.
Angola é jovem nação e alguns dos seus principais dirigentes foram obrigados a pegar em armas contra o colonialismo português por falta de qualquer outra alternativa.
Antes dessa decisão muitos angolanos tentaram rasgar de outro modo o caminho para a independência.
É dos livros. Quando as margens comprimem o rio ele galga as margens. Quando o rio não cabe não se fica pelo leito.
Quando se lê, lê-se. Quando se lê e se é preso, as margens estreitam e o leito comprime-se. Até um dia.
Em 1971, na Universidade de Coimbra, realizou-se uma reunião de solidariedade com Garcia Neto e Sabrosa, angolano e moçambicano, presos em Caxias.
Foram presos e mandados para Caxias, os da direção do AAC e muitos outros ativistas estudantis. Três foram expulsos.
As margens foram tão comprimidas que o rio não as aguentou mais. E o 25 de Abril chegou como a mais límpida madrugada de sempre.
Tudo aconteceu porque as margens foram tão comprimidas que saltaram do leito.
E aquilo que é uma vontade de participar, de se opor ao curso das coisas, aquilo que é a aspiração mais profunda de mudar pode ser torpedeada. Poder pode. Mas até quando?
Pode o medo estar já tão entranhado no poder que os fantasmas tomaram posse de homens e mulheres que tinham tudo para ser lúcidos?
Pode a ambição desmedida fazê-los perderem-se e não verem que as árvores que atacam se transformarão numa floresta tão vasta como o Mayombe?
Uma coisa é certa. Quem se habitua a ler, quer ler mais.
Quem se habitua a discutir com os seus compatriotas sobre o destino do seu país, não vai parar.
O melhor, nestas circunstâncias, será abrir o ferrolho e deixar a luz sobrepor-se às trevas. Um país não é de um, nem de dois, nem de mil. É dos angolanos.
Se assim não for o rio não parará e o leito estender-se-á a toda Angola.

domingos lopes

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