O Perfil Segundo Cavaco

A direita está a mostrar a conceção que tem acerca do cargo Presidente da República.

Bastou o enfastiado Cavaco escrever no prefácio dos Roteiros o que ele entende dever ser o perfil para o ocupante do cargo para alguns dos “famosos” se declararem possuírem o “curriculum” para o abocanharem.

O doutorado de York a fazer de Presidente tem a faculdade presidencial de escrever sobre as suas viagens, sobre o que leva na bagagem para os árabes ou chineses ou mexicanos ou seja para quem for.

Vai explicar (ele gosta muito de explicar) o que se passa por cá, assegurar aos credores contas limpinhas, e levar em catálogo algumas das preciosidades do país para venda, desde cavalos à TAP, de tudo um pouco. Como os tendeiros que iam pelas aldeias em carroças, depois em carrinhas caixões, as Hyace. O Sr. Prof. vai de avião e não leva as fazendas e os produtos, leva grandes comitivas porque é o chefe de Estado …

Nunca se conseguiu apurar o que é que ele conseguiu vender, mas ele diz que se esforçou lá e cá, a explicar qual é a realidade portuguesa, a pedir investimentos e assume neste Roteiro que se não fosse ele a explicar (outra vez) timtim por timtim, o que de excecional o “seu” governo tem feito, Portugal estaria num atoleiro (não está? ).

É no desempenho deste homem e na conceção do cargo que os candidatos da área da direita se encaixam e avançam a pés juntos clamando – olhem para mim, eu cumpro os requisitos.

A direita não quer um presidente que assegure que a Constituição da República, de que ele é o garante do cumprimento, seja respeitada.

A direita quer na presidência um homem com o perfil de Cavaco – um inculto, armado em fiscal ao serviço dos credores, enfatuado.

Tão cheio de si que apesar da sua magreza física e intelectual parece cheio de ar, arrogante, comedidamente treinado.

É nesta criatura que os candidatos de direita se revêm satisfeitos e correm aos saltos, embasbacados, a dizer – estou aqui, estou aqui! Aqui! Não me vêm!

Cavaco

 RAPOSÃO

 É dos políticos mais sabidos na arte da pequena política, da manha e da rasteirice.

Consciente dos perigos para o seu governo dos calotes esquecidos à Segurança Social e ao Fisco por parte de Passos Coelho, veio à praça pública com ar de peixe mal pescado dizer o que se sabe, que é tudo resultado de disputas político-partidárias.

Este é o nível do atual inquilino de Belém.

Saber se um Primeiro-Ministro pagou ou não pagou à Segurança Social e ao Fisco nos anos em questão é para Cavaco problema de luta político-partidária…

E o seu comentário é o quê? É a participação na luta político partidária no que ela tem de mais rasteiro.

Percebe-se. Cavaco vai embora, finalmente. O governo da direita também pode ir. O que o velho político pretende é concentrar sobre si os holofotes da indignação para ver se o moço de S. Bento passa entre os pingos da chuva. A sua devoção e dedicação à direita, ao resgate, aos credores, aos chineses, aos árabes endinheirados, à conservação dos privilégios dos poderosos implica este “sacrifício”.

CALINAS ARMADO EM PROFESSOR

Cavaco tem aquele lado de raposo, mas ao mesmo tempo, por mais que governasse ou que presida, é como o azeite em água, o seu lado inculto, provinciano, vem ao de cima. Inexoravelmente.

Basta que fale ou escreva e fica ao léu.

O Sr. Prof. de York, algures no Reino Unido, botou substância nos seus Roteiros.

E para comemorar o novo aniversário à frente da República, sentenciou que um Presidente deve ter algum conhecimento de política externa e capacidade, conhecimento e dedicação às questões políticas relevantes… Dixit.

Aposto que ninguém sabia que o Presidente da República deve conhecer algo de política externa. Sabem porquê? Porque nove anos é tempo suficiente para esquecer face à nulidade que foi o Professor vindo de York, em política externa.

Quanto ao conhecimento e capacidade para resolver relevantes problemas políticos, voltamos ao mesmo. Quando é que Cavaco resolveu algum?

Alguém se lembra do conhecimento e da capacidade do PR atual para resolução de algum problema nacional?

Os portugueses recordam as palissadas deste senhor (rivalizando com o Marinheiro), que pensa que todos têm de ser como ele: ignorantes, raposões, conservadores e com mau feitio.

Portas Contra Mandamento de Deus

Portas é um propagandista de se lhe tirar o chapéu. Tão propagandista que confunde realidade com o mundo que “vende” nas suas tiradas clássicas acerca do seu papel e do CDS na presente crise.

Para justificar a continuação no poder Portas invocou num jantar na passada sexta o ideário do CDS, isto é, a vocação social cristã.

Portas devia ter consciência que é violação grave de um dos dez Mandamentos invocar o nome de deus em vão. Presumo que na catequese terá aprendido esse comando cristão.

Disse Portas que o CDS foi chamado ao governo num momento de crise, ajudou a vencê-la e agora é a vez de governar em crescimento. E esse é o supremo desejo de Paulo. Na altura da crise, acrescentou, o ideário social cristão amorteceu o impacte da crise.

Portas fez estas declarações com o ar solene, um ar da cor dos seus fatos de Vice. Desde que o CDS e o PSD se aliaram para nos empobrecer o resultado está à vista: desemprego, redução de todos os apoios sociais desde os abonos de família ao subsídio de desemprego. O país recuou mais de uma década. Há cerca de dois milhões de portugueses na pobreza. Há milhares de famílias com homem e mulher desempregados. A família tão cara, em palavras, ao CDS é espremida no torniquete da austeridade e precariedade. A vida familiar sofreu duros golpes do governo de que Vice… roubando-lhe emprego e aumentando a carga de trabalho, tornando o horizonte negro de esperança.

A violência doméstica, espelho da profunda crise, é assustadora.

Centenas de milhares de crianças vão para a escola com fome.

Na agricultura, nas pescas continua a destruição do tecido empresarial e a produção nacional é claramente desvalorizada em detrimento de setores da burguesia parasitária que vive do negócio das importações.

O nível de vida do país caiu tanto que naturalmente irá agora ter crescimento, mas demorará tempo até atingir o nível que tinha quando Portas contribuiu propositadamente para o baixar.

É disto que Portas se gaba? É esta a tão propalada vocação cristã? Com esta vocação pode perguntar-se: se Cristo viesse a este mundo, tão desigual em que meia dúzia de mandarins têm mais que a imensa maioria, visitaria o desgraçado que Mota Soares enviou para a rua ou o Sr Vice? Visitaria quem sofre ou quem oprime? Visitaria o pobre ou o bilionário a quem o poder venera? O que ficou sem o abono ou quem lho tirou?

 De que se gaba?

RTP 1 e a Síria

A RTP 1 prestou ontem um bom serviço ao país entrevistando o Presidente da República Árabe Síria.

Permitiu que se ficasse a conhecer diretamente de um protagonista incontornável as propostas do governo sírio para encontrar uma saída do conflito.

Bashar Assad não é um bom exemplo para ninguém; tem uma conceção de poder ditatorial, e não é um dirigente político tolerante para com os seus adversários.

O regime não tinha contemplação para com os oposicionistas. As cadeias sírias estavam lotadas de presos políticos.

Mas a Síria, como qualquer país do Médio Oriente, é uma construção de maiorias, minorias, seitas e diversas confissões religiosas.

O regime de Assad é caracterizado pela sua laicidade onde as minorias são minimamente respeitados: cristãos, yazdis, curdos, entre outros.

Quer o pai, quer o atual Presidente primaram por não trazer para a política o Islão e muito menos perseguir as minorias.

O que aconteceu na Síria não foi exatamente o que Assad disse, mas é verdade que aproveitando o descontentamento popular a Arábia Saudita, o Qatar, a Turquia, a França, o Reino Unido fizeram chegar à oposição armada quantidades enormes de armamento que caíram nas mãos do ISIS e da Al-Nusra.

Ninguém pode ignorar os vídeos e as cenas mais macabras de jiadistas “sírios” a comerem as entranhas de soldados sírios.

Em todas as reuniões realizadas em Genebra para encontrar uma solução, o Ocidente não aceitou a presença dos representantes das autoridades sírias.

É de todo incompreensível que o regime que controla treze das quatorze capitais provinciais seja excluído das negociações.

Para se encontrar soluções negociadas o melhor caminho não é seguramente excluir a parte mais forte e com uma legitimidade acrescida em relação às outras partes.

Ora o que aconteceu no Iraque, na Líbia e o que está a acontecer na Síria, mostra que não se pode brincar com o fogo, sem se queimar.

O regime saudita não tem comparação com o regime sírio em termos de respeito pelos direitos humanos e ninguém no Ocidente está disponível para atacar uma das mais absolutistas monarquias do mundo.

A Arábia Saudita patrociona, por todo o mundo árabe e muçulmano, a aplicação da sharia, com o desprezo de todas as outras religiões.

O mundo está consciente dos perigos que constitui hoje a vitória do ISIS.

O Presidente sírio e o Ocidente, nesta fase da conjuntura regional, só têm a ganhar em derrotar os jiadistas que ocupam grandes porções do território sírio e iraquiano.

Depois abrir-se-á o campo a outro tipo de negociações. O fundamental será permitir que os sírios possam decidir livre e democraticamente o futuro da Síria.

Isso implica a derrota dos jiadistas. E não há dúvidas para ninguém que a Síria é a parte mais determinada nesse combate

O Lado Espiritual do Conflito…

Muitas vezes dou comigo  a pensar na razão que faz milhares de “ocidentais”, sobretudo jovens arrancarem dos seus meios e irem combater pelo Islão…Na guerra civil espanhola muitaas dezenas de milhares de jovens de todo o mundo se dirigiam a Espanha colocar-se ao lado da República…

Agora vão pela jiad, a guerra santa, pelo Islão conta o Ocidente onde nasceram e se educaram… Podemos simplificar e falar de fanatismo…lá poder podemos , mas é preciso ir mais fundo no enfoque do problema.

Deixo esta interpretação publicada hoje no Le Monde que um amigo fez o favor de partilhar comigo.

(originalmente publicado no Le Monde 4/3/15 )

La gauche face au djihadisme : les yeux grands fermés

Jean Birnbaum

À l’évidence, « le problème de l’islam comme force politique est un problème essentiel pour notre époque et pour les années à venir », prévenait Foucault. Telle est la leçon de ce reportage signé par un philosophe qui a pu observer de près, et avec une certaine bienveillance, la puissance politique de l’espérance religieuse.

Cette leçon, délivrée par l’un des grands intellectuels de gauche, la gauche française l’a aujourd’hui oubliée. Les femmes et les hommes qui peuplent ses groupes militants, ses cercles de réflexion ou ses cabinets ministériels en sont revenus à une conception rudimentaire de la religion : quand ils s’y intéressent, c’est pour la rabattre immédiatement sur autre chose qu’elle-même. A leurs yeux, la religion n’est qu’un symptôme du malaise social, une illusion qui occulte la réalité des conflits économiques. Leur idée de la croyance religieuse relève ainsi d’une vulgate marxisante qui tourne le dos à Foucault et qui ne rend pas non plus justice à Marx, dont la pensée sur le sujet est bien plus riche.

Incapable de prendre la religion au sérieux, comment la gauche comprendrait-elle ce qui se passe actuellement, non seulement le regain de la quête spirituelle mais surtout le retour de flamme d’un fanatisme qui en est la perversion violente ? Elle qui fut si fière, naguère, de sa tradition internationaliste, comment pourrait-elle admettre que le djihadisme constitue désormais la seule et unique cause pour laquelle des milliers de jeunes Européens sont prêts à aller mourir loin de chez eux ? Elle qui a toujours identifié les insurgés aux damnés de la Terre, comment pourrait-elle accepter que, parmi ces jeunes, beaucoup sont tout autre chose que des laissés-pour-compte ?

Mohamed Belhoucine, jeune homme charismatique lié à Amedy Coulibaly et qui a organisé la fuite de sa compagne vers la Syrie, est diplômé de l’Ecole des mines d’Albi. Quant à « Jihadi John », l’étudiant qui égorge les otages de l’Etat islamique, il a le parfait accent british des bourgeois londoniens. Deux exemples récents, parmi tant d’autres, qui rappellent que ces terroristes sans patrie ni frontières sont souvent des enfants de ” bonne famille “, échappant au cliché du gamin des cités devenu loup solitaire.

Misérables en quête de célébrité

Comment la gauche, qui tient pour rien les représentations religieuses, comprendrait-elle la haine sanglante de ces hommes vis-à-vis des chrétiens, leur obsession meurtrière à l’égard des juifs ? Elle qui renvoie l’élan de la foi à un folklore dépassé, comment pourrait-elle admettre qu’une armée d’informaticiens, de geeks et de hackeurs se mobilise pour faire triompher des mœurs vieilles de plusieurs siècles ? Elle qui peine à saisir le rapport qu’un croyant peut entretenir avec les textes, comment pourrait-elle concevoir la rage avec laquelle les hommes de Daech détruisent les livres « impies » et les œuvres d’art « sataniques », au nom de ce qu’ils proclament être la religion vraie, celle qu’il faut porter au pouvoir ?

Partout où il y a de la religion, la gauche ne voit pas trace de politique. Dès qu’il est question de politique, elle évacue la religion. Bref, elle n’envisage plus la possibilité de cette puissance qui domina si longtemps l’Occident lui-même, et que Michel Foucault nommait une politique spirituelle.

Comme l’affirmait jadis l’historien René Rémond, les droites sont en majorité d’anciennes gauches qui ont progressivement glissé sur la scène idéologique. Voilà sans doute pourquoi cet aveuglement concerne une large partie de notre champ politique. Ainsi s’expliquerait la multiplication des voix, de toutes tendances, qui martèlent que l’Etat islamique n’a ” rien à voir ” avec la religion, et que ses combattants sont moins des fanatiques que des misérables en quête de célébrité, de pauvres hères ayant abusé du jeu vidéo, des paumés ayant trop surfé sur Internet.

Evidemment, il n’est pas question de nier que le djihadisme ait des causes économiques et sociales. Mais à ignorer sans cesse sa dimension proprement religieuse, on se condamne à l’impuissance. Les fous de Dieu le répètent : ce qui est en jeu, dans leur esprit, c’est une certaine polarisation du sacré et du profane, un partage du bien et du mal. Et ce qui devrait intriguer tous ceux que cette violence frappe, c’est moins ses racines sociales que sa remarquable autonomie par rapport à elles.

Foucault en était bien conscient. Confronté à une situation certes différente, mais qui posait déjà la question du discours religieux et de sa puissance politique, il affirmait que quiconque réduisait la religion à une chimère passait à côté de la révolution islamique. Il notait d’ailleurs qu’une telle myopie faisait rire à Téhéran : « Vous savez la phrase qui fait ces temps-ci le plus ricaner les Iraniens ? Celle qui leur paraît la plus sotte, la plus plate, la plus occidentale ? ‘La religion, opium du peuple’. » Quinze jours plus tard, il utilisait de nouveau ce lexique de la moquerie, mais cette fois pour souligner l’aveuglement des Français à l’égard des événements iraniens : « Quel sens, pour les hommes qui l’habitent, à rechercher au prix même de leur vie cette chose dont nous avons, nous autres, oublié la possibilité depuis la Renaissance et les grandes crises du christianisme : une spiritualité politique. J’entends déjà des Français qui rient, mais je sais qu’ils ont tort ».

Pas de quoi rire. Voilà donc la leçon de Michel Foucault, celle que nous ferions bien d’entendre aujourd’hui : il arrive que la religion devienne force autonome, qu’elle se fasse puissance symbolique, matérielle, politique. Si nous nous moquons de cette force, alors nous nous condamnons à passer du rire aux larmes.

Caridade, Meu Irmão

Caríssimo amigo Domingos

Paz e saúde e desde já um abraço como estrondo dum “chocalho!”

Felicito-te pelos barulhos do “chocalho” com que nos vais acordando.

Deixa que me refire a esta frase tua: “Cada um que se salve, ou não sendo capaz, que trate junto de outras áreas de negócio como são as instituições de solidariedade social em que a caridade substitui a dignidade de uma vida de trabalho.”

Meu caro, quando estivermos a beber um copo falaremos mais nisto, mas o conceito de caridade vem do “amai-vos uns aos outros…” e do “tive fome e deste-me de comer…” sem especificar as modalidades históricas do dar de comer e das fomes que o ser humano tem. Mas o que quer relevar é a distinção entre “assistencialismo”, “acção assistencial – necessária, mas que deve ser temporária”, “caridadezinha” e caridade. A caridade é aquele amo, aquela força que o peito não pode conter,  que sai de dentro e nos motiva a ver no outro um irmão, a comovermo-nos com ele e a encetarmos com imaginação e audácia um “resgate” para a dignidade e pior isso, não há caridade sem justiça, e não há justiça sem caridade, pois esta se pode transformar em legalismo ou estruturas, mas que não transportam afecto. Um combatente pela justiça e pela dignidade humana tem de ter um coração cheio de caridade-amor! Sobre está temática a Encíclica de Bento XVI “Caridade na Verdade” é muito eloquente.

Já agora vai um chocalho para ti cheio de caridade!

Abraço e cumprimentos à Susana

Meu irmão

Antes do mais: muito obrigado.

Depois: que maravilha que tenhas caridade para me corrigir.

Quando escrevi a palavra caridade hesitei. Devia ter ido mais longe e apagado a palavra. Fica o agradecimento. Sabes que a palavra é muito ambígua, mas eu já o sabia… O que nos sai do peito por força do impulso que nunca nos deixe de sair…salvo se for a palavra caridade mal aplicada.

O teu irmão entre os homens de boa vontade

Abraço do domingos

Perplexidades

Uma das características da política dominante é a de dar o máximo de poder e lucro a quem já tem poder e dinheiro. Os governantes assumem essa missão. O universo em que se movem gira na órbita de apresentar soluções para que os poderosos financeiramente se possam tornar mais fortes e assim investirem e criarem riqueza. Porém, para que tal se concretize é necessário que o Estado intervenha colocando todo o seu peso a favor desta política.

O poder financeiro “captura” os políticos, garantindo-lhes uma vida desafogadíssima mal larguem a missão que os levou ao poder.

Os políticos que vivem obcecados com esta estratégia têm um guião. E a sua força é cumpri-lo. A vida dos cidadãos só conta dentro da perspetiva de alcançar na sociedade um consenso em torno da ideia que se quem já tem muito mais tiver, melhor será a sociedade.

De certo modo quanto maiores forem as desigualdades melhor será a sociedade na medida em que a riqueza escorrerá do vértice e todos beneficiarão.

A elite política educada e formatada nesta ideia-chave só tem olhos para ver onde pode ir buscar riqueza e entregá-la a quem a “sabe” gerir, retirando da esfera pública tudo o que o setor privado possa incorporar. É o tal Estado mínimo em que dentro desse mínimo o máximo fica ao serviço do poder financeiro.

Cada um que se salve, ou não sendo capaz, que trate junto de outras áreas de negócio como são as instituições de solidariedade social em que a caridade substitui a dignidade de uma vida de trabalho.

É, pois, normal que um homem como Passos Coelho se “esqueça” dessa ninharia horrível que é a obrigatoriedade de fazer descontos para ter uma reforma. Bem vistas as coisa a ele nunca lhe passou pela cabeça viver daquela reforma.

Preocupado em subir ao poder no PPD Passos Coelho o que pretendia era fazer o que veio mais tarde a fazer em nome do poder financeiro: punir os portugueses e empobrecê-los, sendo implacável para quem não pague as suas contribuições sociais à Segurança Social para que esta possa servir por enquanto de almofada à política de ataque ao Estado Social de Direito Democrático.

Passos Coelho resolveu dentro da sua filosofia de impunidade inventar o argumento que levava ao chumbo de qualquer aluno no 1º ano de Direito: não sabia que era preciso pagar.

Deu brado e mudou o registo: não o notificaram. O brado continuou – ninguém é notificado. Apesar do Ministro da SS ter saltado a terreiro a culpabilizar aos Serviços, e o da Economia vir dar conta do seu enorme orgulho no Primeiro, o certo é que o carácter surrado dos argumentos era de tal forma indigente que decidiu mudar.

Encheu o peito e vociferou: não sou perfeito. E concluiu – se se vier a descobrir mais esquecimentos análogos ou de outro género é porque a oposição o que quer é fazer política com a sua vida pessoal.

No fundo o que veio ao de cima nesta fase de deteção de lacunas nas cincunvoluções cerebrais responsáveis pela memória, foi a de que toda e qualquer falha do imperfeito cidadão resulta da natureza malsã da oposição dada a proximidade das eleições.

Estas falhas deviam ter sido apresentadas logo após a tomada de posse do governo orgulhoso do Primeiro, e assinaladas de modo irrevogável, sem direito a serem espalhadas pelos quatro cantos do luso retângulo. E concertadas entre pares. Fixe, diria o Vice, vemo-nos logo numa das feiras da agricultura muito in, ou no porta- aviões da economia…Nunca estivemos tão bem. Juntos de novo.

Onde Chegou Portugal?

Graças ao trabalho de um jornalista, o país ficou a saber que Passos Coelho não pagou durante cinco anos a Segurança Social que era devida por ser obrigatória para toda a gente, incluindo para os deputados da Nação.

Apanhado em flagrante e obrigado a lidar com a sua própria nudez Passos Coelho, seguindo na esteira da melhor jurisprudência da pouca-vergonha, veio manifestar perplexidade:

– Ninguém o notificou!

– Como foi possível saber-se o que nunca se deveria saber?

Uma vez mais um político que é só o Primeiro-Ministro de Portugal quando era deputado nem sequer para a Segurança Social (a tal que não aguenta, segundo Mota Campos) descontou o salário mínimo…quanto mais o verdadeiro vencimento.

Como todos os portugueses sabem os descontos para a Segurança Social são obrigatórios.

E sabem-no ainda por maioria de razão os deputados e figuras de relevo, como sempre foi Passos Coelho, no PSD ou JSD.

Do ponto de vista psicológico as leis deste país para esta elite não existem, o que existe é o ancestral chico-espertismo que já o Camilo e o Eça caricaturavam.

O Senhor não foi notificado…vejam lá.

E como souberam? Veja-se o pior que o ser humano pode ter: não interessa saber se foi verdade, o que interessa é arranjar uma desculpa…Solícito o Ministro da Segurança esbaforida veio em socorro do chefe: houve 107.000 que não foram notificados e ninguém pode ser prejudicado por um erro da Segurança… Ora aqui está, Passos Coelho não pode ser prejudicado…

Afinal quem foi prejudicado: a Segurança Social que não recebeu ou Passos Coelho que se apoderou daquilo que não era dele?

Para a coligação o prejudicado foi Passos Coelho porque viu a sua nudez desvendada e Portugal ficou a saber que se apoderou do que não era do dele.

Para todo o país, salvo os que vão à mesma gamela de Passos, foi a Segurança Social porque não recebeu o que era de lei receber.

É este o país exemplar que Passos /Portas/luís /Cavaco/Mota e tuttifrutri querem erguer sobre as ruínas do Estado Social de Direito Democrático que juraram destruir, inclusive não pagando a Segurança Social.

Os Mequetrefes no Reino da Desfaçatez

Uma das notas mais salientes destes dias amargurados que os portugueses enfrentam é o reino da desfaçatez que foi tomando conta dos colocam a “vidinha” por riba de tudo. Não basta a pobreza que toca quase dois milhões, não basta o desemprego, a indignidade em que transformaram a ida a um hospital para muitos dos que aí têm de ir, não basta o atroz empobrecimento do país, não basta a corrupção que fica à porta dos banqueiros, não basta o a ocupação do espaço televisivo de “comentadeiros” sintonizados com o governo e o arco da governação, não basta toda esta procissão de gente contente com a desgraça portuguesa…

Depois da vitória de um partido de gregos na Grécia, em Portugal os “comentadeiros” e os dirigentes dos partidos do governo e outros entraram em choque e resolveram atacar o Syriza porque não está a respeitar as promessas eleitorais…Imagine-se.

Alguma desta gente já lhe passou pela cabeça ir consultar as promessas eleitorais de Coelho e Portas?

O que é hoje morador do Palácio de S.Bento prometeu de tudo: que estava contra o PEC4, contra o aumento de impostos, contra os despedimentos na Função Pública, contra a destruição do Estado Social, contra as privatizações, contra tudo e mais alguma coisa.

No dia a seguir começou o mais violento ataque ao padrão de vida dos portugueses e governou indo para além da troika.

O homem das feiras, o tal irrevogável, prometeu tudo aos contribuintes e é o que se pode ver.

Pois bem em catadupa atacam o Syriza porque afinal teve de recuar e meter o seu programa ao bolso. Que desfaçatez!

Comparem-se as medidas tomadas pelo governo grego e as medidas tomadas pelos serventuários da chancelerina alemã. Comparem-se. Ouçam-se as declarações do Sr Junker sobre a ofensa à dignidade dos países sob resgate e a indignidade do Sr Dr Marques Guedes .

Ficaram ao léu. Um pequeno país, se quiser, se estiver sintonizado com a sua população, pode bater o pé aos grandes e encontrar linhas mínimas de defesa dos seus interesses vitais.

Ficaram ao léu. Percebe-se. Trombetearam que não havia alternativa e quando ela brota têm de a tapar. Como não têm voz própria, querem que se ouça a Master Voice e imploram ao Sr Scäuble para que os socorra e uma vez mais Roma não é muito generosa para com os seus súbditos externos.

A vergonha suprema é aceitar, contra tudo o que é a experiência humana, que a defesa dos interesses se faz colocando-se do lado dos que têm interesses diferentes.

Ficaram ao léu. Apesar de toda a propaganda e de colocarem só “comentadeiros” de manhã à noite ligados ao poder, sabe-se agora que há alternativa na União Europeia à política de austeridade. E que não são sós grandes países que podem ser protagonistas.

O que os faz juntarem-se em coro é que em Portugal os portugueses afinal possam respirar, estarem atentos e seguir outro rumo, o da alternativa.

O governo constitui um bando de interesseiros que se reúnem de vez em quando em Conselho de Ministros para atacar os portugueses. Todos sabem: sempre que reúnem a carteira vai ficar mais leve.

O seu objetivo não era o vencimento que auferem do Estado. É o que vem a seguir. Estão desertos de ir colher o que semearam. Junto dos donos do dinheiro, os credores e similares.

Vale a Pena

Andava no ar. De Belém a S.Bento. Os mais ou menos cultos a lembrarem-se como a velha Roma tratava os seus homens locais, quando não os podia continuar a apoiar. O resto, a maioria, rapazes e raparigas jotistas ou similares, tresmalhados como o Dr Rui Machete, atarantados. Tão cedo não vão esquecer o dia 20 de Fevereiro, o dia em que um pequeno país e um grande povo e um governo digno mostraram à Europa, que apesar das chantagens, que há alternativa à política do torniquete da austeridade.

A Grécia bateu o pé à Alemanha. O que parecia impossível, tornou-se viável. Não foi o que a Grécia queria. Certo. Mas não foi o que a Alemanha quis impor.

O Dr Cavaco até confundiu obrigações em carteira com doações. Passos Coelho passou a semana a vociferar contra as pretensões da Grécia, uma espéc ie de conto de crianças…. Maria Luís ajeitou-se junto a Schäuble. E Paulo Portas, o chefe da propaganda, largou a correr atrás das declarações de Junquer. Marques Guedes lamentava.

Nuno Melo, o eurodeputado do CDS, insurgia-se contra o Sirysa por desrespeitar as promessas eleitorais…onde chega a desfaçatez do partido dos contribuintes e do homem que abandonou o boné das feiras e vai por esse mundo fora vestido de fato negro fazer declarações tonitruantes acerca da recuperação económica que só ele vislumbra.

A lição da Grécia é cristalina: o país que defende os seus interesses, mesmo em circunstâncias adversas, pode conseguir melhorar as condições de pagamento dos empréstimos. Já se sabia. Porém, em Portugal há um governo de gente tão desligada da defesa dos interesses do país e cuja força reside sobretudo no apoio dos credores.

A Alemanha bem tentou que os seus seguidores não ficassem nus na praça. Mas para salvar a moeda (é o que conta) deixou-os mal- amanhados, sem roupa, face aos ventos provenientes da velha HELLAS.

Não deixa de ser caricato que o homem que faz de Ministro dos Negócios Estrangeiros, diz-se que à falta de melhor, tenha vindo ponderar pedir uma indemnização pelos danos da troika. O Senhor nunca acerta no penico. Passos correu a corrigir. É um arraial.

Tudo porque um pequeno país decidiu que quem devia mandar na Grécia eram os gregos. No dia em que os portugueses se encherem de coragem os Passos, os Portas, as Marias Luís e os Nunos Melos vão da abalada para os lugares que os protectores lhe arranjarem.

A Espanha e Portugal ficam neste mundo e o que no mundo se passa pode passar em Portugal, certo?