A Morrinha dos Pobres

A manhã acordara com morrinha persistente. O céu acinzentado ia derramando pingos finos de água sem se cansar. Era uma chuva tão branda que enganava os que não faziam caso dela e acabavam tão molhados por fora como por dentro.

As próprias árvores silenciosas como de costume arrepiavam a copa e os braços e a sua estaticidade deixava o mundo vivo mais melancólico.

Os homens que se levantam cedo, quase todos já a fugir dos sessenta anos, conversavam na taberna do Zé Russo.

Quem entrava na taberna olhava e dava conta que nos olhos de cada um havia uma sombra feita de fios miúdos de água e a chuva molhava não se sabe que parte da alma; todos estavam muito quietos e sem chama que se visse.

Os velhos com as duas mãos agarradas ao cajado aguardavam as últimas notícias da ida do Amendoeira ao padre para que este aceitasse a nova casa mortuária.

Ficar na igreja à espera do enterro custava cento e oitenta euros; na nova casa doada pela cooperativa ficava por oitenta.

Já não havia muita gente à espera da senhora da foice; e não se dava notícia de que havia qualquer batizo à espera. Em breve a aldeia ficaria sem ninguém. Ficaria a placa? Que pode suceder a uma terra que deixa de ter a gente que a fez?

Os velhos nem todos têm para o café. Os que têm bebem-no. O dono dá um rebuçado São Brás a quem o bebe à espera que peça um bagacinho.

Para ali estão. Os seus estão longe. Lisboa. Lausanne. Dusseldorf. Londres. Onde haja emprego.

Aqui pagam para os bancos. Eles e os outros. Têm os dias que vierem. Não passam bem. Vivem como podem. O que os trama é a saúde, os medicamentos …

Dizem os governantes e os que habitam na televisão que por causa deles estamos mal. Os velhos querem o que o sistema não lhes pode dar, afirmam todos à uma.

Ganham por esse serviço muitas mais vezes que aqueles que viveram acima das suas possibilidades e que ali em Ferreira na verdade nunca deu para sair da terra.

Estes e outros velhos são encargos pesados para as voltas que o mundo está a dar. Os que agora são mais novos terão a sua vez de serem velhos. E dependendo do que descontaram na edificação do país de todos, se não mudarem as voltas ao mundo vão também eles ficar à espera de morrerem de opróbrio – o de serem pobres.

Este é o mundo em que vivemos: os que têm muito e quererem muito mais levaram o mundo à beira do desastre, mas querem que o desastre seja pago também por velhos sem quase nada.

Tiraram-lhe parte da reforma, feriados, a possibilidade de irem à farmácia, como iam. E amaldiçoaram-nos por não compreenderem que se empobrecerem ficam melhores. Salvando os ricos.

A aldeia esvazia-se de gente. Quando nascerá uma criança? Nascerá? Por que andam tão contentes Cavaco, Passos e Portas?

Esta morrinha que vai na alma dos velhos sob a forma de resignação dá-lhes esse contentamento. Estarão Cavaco, Passos e Portas seguros ou cegos?

Cavaco e o Arcabuz do Conservadorismo mais Retrógado

Cavaco Silva falou ao país ontem dia 22 de Outubro. Falou? Quem o ouviu e viu parecia que as palavras eram disparadas por um arcabuz que trazia no olhar frio de zelota.
Não parecia que falava no sentido de representante de todos os portugueses que constituem a nossa pátria.
É adequado perguntar em nome de quem veio Cavaco arengar e disparar com o seu velho arcabuz retirado das alfurjas do mais retrógrado conservadorismo empedernido?
Cavaco em vez de respeitar o voto popular que deu uma maioria aos partidos que se opuseram à austeridade falou despeitado contra a opção dos portugueses e faltou à verdade histórica.
O PS em 2009 venceu as eleições e era minoritário, mas contava com a abstenção do PSD e eventualmente do CDS.
Em 2015 o PSD e o CDS não contam com a abstenção do PS.
Cavaco não aceita que o PS afine a sua política pela sua própria cabeça e como tal veio passar um raspanete ao PS contando que a sua arenga pudesse ter eco no interior do PS e ameaçando os portugueses que não dará posse a um governo com total cobertura parlamentar; como se um Parlamento eleito livremente tivesse de se submeter ao desígnio de um Presidente a poucas semanas de se ir embora.
Cavaco pode não concordar com a opção dos portugueses, mas não pode impedir que ela seja tomada em conta, pois não tem esse poder.
Cavaco é talvez o político que mais usa a política no sentido menos nobre que ela tem, fazendo politiquice, pegando em certas premissas, manipulando-as para subverter as instituições e papel de cada uma delas nos alicerces da República.
Toda a gente sabe que um programa de um partido é o programa de um partido. O que é fundamental é o respeito pela Lei das Leis – a Constituição.
Uma outra coisa é o programa de um governo com diversos intervenientes onde cada um cede muita coisa de que é constituída a sua identidade.
A estabilidade resulta desses acordos quer se goste quer não se goste. Se assim não for que Cavaco e os seus apaniguadas revejam a Constituição para que nela conste o seguinte: …” Só pode entrar no governo da Nação quem for a favor da Nato, do Tratado Orçamental e da Moeda Única…”
Como até agora os donos de toda a Europa criam que os povos se subordinavam a este desígnio por medo e chantagem é preciso que tenham a coragem de vir a terreiro e propor a alteração das Constituições para saber o que se vota.
Cavaco ontem na sua arenga falou muito mais como representante dos mercados, dos investidores do que do povo que tão mal representa.
Cavaco falou como corifeu de todos que em Portugal têm os olhos postos nos interesses dos mercados e menosprezam os interesses dos seus compatriotas.
Foi mais longe: chantageou a população portuguesa dando a entender que prefere manter um governo derrotado no parlamento do que um governo constituído com uma maioria parlamentar.
A pensar no desenlace a prazo vai preparando o terreno para que a instabilidade avance e venha ele e os da coligação mais toda a direta europeia chantagear e levar pela soga Portugal a entrar nos eixos da austeridade.
Cavaco levou a sua arenga ao rés do insuportável. Ele não é o Secretário-Geral da Nato, nem Presidente da Comissão Europeia, nem Fiscal dos Mercados, nem o Presidente da Coligação.
Cavaco virou profissional da instabilidade promovendo o confronto entre as instituições e desrespeitando a opção de cerca de um milhão de portugueses tratando-os a eles e ao PS como portugueses de segunda sem direito a formar governo; o que está reservado aos seus amigalhaços de ideologia.
Cavaco não discursou. Declarou guerra ao país. Foi ao armário do conservadorismo e pegou no arcabuz mais usado e disparou atingindo a dignidade dos portugueses.

Angola – Luaty e os Companheiros e o Regime

Pode um grupo de dezasseis jovens pôr em risco o Estado Angolano e a vida do seu Presidente?
Podem estes dezasseis jovens e outros tantos derrubarem o Presidente angolano?
Dezasseis jovens cidadãos “apanhados” a ler e discutir um livro (seja ele qual for) podem por mais que detestem algumas das figuras do regime fazê-lo cair?
Podem dezasseis ou dezassete ou trinta e dois ou trinta e quatro jovens abalar os alicerces do Estado angolano?
Qualquer cidadão por mais desconfiado que seja terá dificuldade em aceitar que semelhante ação possa provocar tal fim …ler um livro é de molde a saber o que o livro contem. Apenas.
As armas estão nas mãos das autoridades que comandam as instituições armadas de Angola.
E dezasseis jovens de livro na mão dá para atacar um Exército, mesmo que a reunião de leitura fosse à noite.
Porém, sendo assim, o facto é que eles estão presos há mais de três meses. Preventivamente.
Angola é jovem nação e alguns dos seus principais dirigentes foram obrigados a pegar em armas contra o colonialismo português por falta de qualquer outra alternativa.
Antes dessa decisão muitos angolanos tentaram rasgar de outro modo o caminho para a independência.
É dos livros. Quando as margens comprimem o rio ele galga as margens. Quando o rio não cabe não se fica pelo leito.
Quando se lê, lê-se. Quando se lê e se é preso, as margens estreitam e o leito comprime-se. Até um dia.
Em 1971, na Universidade de Coimbra, realizou-se uma reunião de solidariedade com Garcia Neto e Sabrosa, angolano e moçambicano, presos em Caxias.
Foram presos e mandados para Caxias, os da direção do AAC e muitos outros ativistas estudantis. Três foram expulsos.
As margens foram tão comprimidas que o rio não as aguentou mais. E o 25 de Abril chegou como a mais límpida madrugada de sempre.
Tudo aconteceu porque as margens foram tão comprimidas que saltaram do leito.
E aquilo que é uma vontade de participar, de se opor ao curso das coisas, aquilo que é a aspiração mais profunda de mudar pode ser torpedeada. Poder pode. Mas até quando?
Pode o medo estar já tão entranhado no poder que os fantasmas tomaram posse de homens e mulheres que tinham tudo para ser lúcidos?
Pode a ambição desmedida fazê-los perderem-se e não verem que as árvores que atacam se transformarão numa floresta tão vasta como o Mayombe?
Uma coisa é certa. Quem se habitua a ler, quer ler mais.
Quem se habitua a discutir com os seus compatriotas sobre o destino do seu país, não vai parar.
O melhor, nestas circunstâncias, será abrir o ferrolho e deixar a luz sobrepor-se às trevas. Um país não é de um, nem de dois, nem de mil. É dos angolanos.
Se assim não for o rio não parará e o leito estender-se-á a toda Angola.

CRATO CRIA CRATERA NO MÉRITO

Crato, o ministro da Educação de Passos, não paga há três anos a bolsa de mérito aos estudantes que fizeram todas as cadeiras do ano letivo respetivo com notas acima dos 16 valores.
Convenhamos que o estímulo ao mérito é fundamental em quaisquer circunstâncias, mas muito mais num pais deprimido, insatisfeito e carente de auto estima e de um projeto nacional.
Só com gente de elevado mérito a sair dos estabelecimentos de ensino se poderão criar bases para reerguer o país devastado pela crise.
Qualquer um pensará que estes estudantes estudiosos, inteligentes e capazes devem ser protegidos e o Estado deve pagar o que lhes prometeu, pois tem essa obrigação ética, política, própria de quem age em função do bem público; neste caso estimulando os melhores para que mais tarde se possam retirar os frutos.
É de admitir que haja alguém que não esteja de acordo com o cumprimento desta obrigação? Há. O ministro da Educação, aquele que devia zelar pelo cumprimento escrupuloso deste dever viola essa obrigação não pagando a esses alunos com mérito há mais de três anos, sendo o calote de seis milhões de euros.
Este senhor ministro pertence ao governo que faz tudo, levando os portugueses à penúria, para pagar aos credores internacionais, mas aos credores de cá, os que estudam e se distinguem a estudar, a cratera de Crato já vai em seis milhões. Diz que paga quando puder. E se disser que não pode…
domingos lopes

A Arte dos Compromissos Necessários

O PCP participou no 1º governo provisório e tinha no seu programa a implantação da ditadura do proletariado. Há alguém, no seu perfeito juízo, que tenha acreditado que o PCP quando foi para o governo ia com a intenção de instaurar a ditadura do proletariado?

O PCP participou com o PS e o PPD num governo cuja missão foi criar condições para democratizar o país e realizar eleições para uma Assembleia Constituinte que por acaso constava do programa do PCP.

Os ministros e secretários de estado no seu desempenho foram inexcedíveis e mostraram a capacidade do PCP para assinar compromissos e respeitá-los.

O PCP sempre se pronunciou contra a NATO e apesar disso participou nos governos provisórios.

Uma coisa é o programa de um partido, outra é a necessidade de negociar um governo cujo objetivo não é cumprir o programa desse partido, mas sim encontrar acordos que viabilizem a ação governativa dos parceiros do acordo.

A arte da política não é o que fez a coligação PSD/CDS que mal se apanhou com a maioria absoluta governou sem freio impondo a austeridade à rédea solta, o que sempre negou que faria.

A estabilidade é um meio para atingir uma boa governação. E essa estabilidade, resultante de uma maioria absoluta que os eleitores recusaram, pode ser um péssimo meio, pois permitirá a quem a tem fazer mais ou menos o que quer, mesmo o confronto com o Tribunal Constitucional como foi o caso do governo.

Os programas do PCP e do BE são diferentes dos do PS; ainda bem. O PS bem pediu a maioria absoluta, mas não lha deram. Os eleitores deram um milhão de votos ao BE e PCP e fizeram-no por eles terem o programa que tinham.

Os três pronunciaram-se  contra a política de austeridade da coligação; é, pois, normal que tentem negociar uma saída para assegurar um governo com uma política diferente e que estanque o empobrecimento do país.

Claro que o PS tem uma política que poderá estar mais próxima do PSD, mas por motivos que têm a ver com a política na sua dimensão bela e cruel está nesta fase a negociar de modo mais fiável com o PCP e o BE.

António Costa sabe que há o tal caminho das pedras que falou Catarina e Jerónimo insistiu no sábado que só não governo se o PS não quiser.

Os compromissos foram tratados por vários políticos entre eles Vladimir Iliche Ulianov, o célebre Lenine, e Álvaro Cunhal no livro Radicalismo pequeno burguês de fachada socialista. Ambos alertaram e denunciaram as tendências de alguns puristas que do alto do seu palavreado fustigavam os compromissos. Veja-se por onde andam agora alguns desses puristas. Um até foi parar a Presidente da U.E.

A vida de cada um é um compromisso entre as células. A vida social também o é.

A estabilidade pode ser um bem em primeiro lugar para as pessoas, ao contrário de alguns que vêm nela um bem para as empresas e mercados e dizendo-se personalistas cristãos. Quem está primeiro? As empresas foram criadas para as pessoas e que se saiba ainda não apareceu filosofia ou religião a proclamar que as pessoas nasceram das e para as empresas, antes se concorda que quem as criou foram gentes deste mundo.

A estabilidade resultante de um acordo pode ter mais virtudes que defeitos na medida que não dá a uma só força todo o poder, obrigando a uma negociação que assegure interesses diferentes, protegendo-se assim um interesse muito mais vasto da sociedade.

E ainda vale a pena perguntar à coligação: a estabilidade assegura-se com demissões irrevogáveis?

Os comentador@s cheios de autoridade democrática que permanecem dia e noite nos canais televisivos e radiofónicos nunca ousaram perguntarem a si próprios com alguma modestia se os eleitores (um milhão) que votou no BE e no PCP não sabiam em quem votavam?

Como sabiam não lhes passa a@s senhor@s pela cabeça que isso tem de ter algum efeito prático que é o de ter em conta essa aspiração dos seus compatriotas?

A direita teve mais votos que o PS, mas não teve mais votos que o PS, BE e PCP juntos, ou não é verdade?

Nenhuma pirueta por mais sofisticada que seja pode esconder esta realidade. Ela entra pelos olhos dentro. O PSD teve mais votos e depois? Se Cavaco indigitar Passos ele não passa se o PS não o deixar. Estas são as regras da democracia parlamentar, ou não são?

Haja tento o que parece não haver nas cabeças completamente formatadas de tanto fossarem na redoma em que vivem e acabarem por acreditar que só há aquele mundo. Adaptem-se. Leiam o Darwin.

As Sereias e o Barco para São Bento

Afinal as eleições só servem se vencerem os mesmos de sempre; se por acaso os eleitores votarem em partidos que não são os mesmos de sempre as eleições são um perigo…para as Bolsas.

Os mesmos de sempre que ridicularizaram o PS ad nauseam com o rótulo de despesista, que o atacaram de todas as formas e feitios num único sentido: esbanjador em contrapartida com os poupadinhos e salvadores compungidos por serem obrigados pelo PS a impor tão grandes sacrifícios naquela atormentada voz de V. Gaspar (agora no FMI, porque será?), são os que agora vão a correr pedir batatinhas clarificadoras ao partido de todas as maldades esbanjadoras….Já não ameaçam que vem aí o Costa, agora vão implorar ao Costa que os deixe continuar a governar. Vejam bem a vitória que tiveram – estender a mão a pedir ao PS que os deixe governar e amaldiçoar um eventual governo saído dos três partidos que se opuseram com bases diferentes ao governo Passos/Portas/Cavaco.

O que está em causa é a própria democracia a saber: para que servem as eleições? Se as eleições servem para que os deputados encontrem entre si o governo ou se os governos se “pré-fabricam” independentemente dos resultados eleitorais?
Basta olhar para as primeiras páginas dos jornais e para a abertura dos telejornais para se ficar com a impressão que a Bolsa de Lisboa vale mais que a vontade popular expressa em votos livremente de acordo com os mais altos critérios democráticos europeus.

Mas não só. Faltava o arcebispo de Leiria que não tendo conseguido o milagre eleitoral de ver a PAF ganhar veio em plena peregrinação a Fátima misturar política com religião amedrontado mas amedrontando com a cavaquista estabilidade…deve ser por causa do devoto Portas.

Andam destrambelhados com a ousadia dos eleitores. Não aceitam o veredito. Clamam pelos papás para virem em socorro:- mercados, bolsas, FMI, CiPs e até veja-se bem o Senhor Carlos Silva…logo desautorizado pelos colegas de direção.
Num país obrigado a passar dificuldades, castigado com tanta desgraça, espalhado pelas ruas do mundo onde vai encontrando trabalho mais ou menos digno, a direita ameaça servindo-se dos interesses da alta finança a quem presta vassalagem.

Só que há em todos os povos momentos em que as vontades se juntam e se fazem fortes. Quase sempre quando os líderes sabem-no ser como foi o caso de Jerónimo de Sousa e Catarina Martins. Que António Costa faça como Ulisses e não seja tentado pelas sereias que o arrastarão para a insignificância política; que as suas músicas fiquem no fundo do mar. Que a valentia vença o medo. Que o barco se faça ao mar e chegue onde deve chegar. A São Bento.

Os Destrambelhados das Eleições

O que é em termos constitucionais e parlamentares (é no parlamento que se aprovam governos) o partido mais votado?

É o partido que o PR poderá indigitar para formar governo…Porém sabendo-se que o partido mais votado prometeu governar com o seu parceiro e se ambos não só tiverem maioria na AR , como perderam quase setecentos e quarenta mil votos manda a mais elementar regra de prudência e respeito pela vontade popular que se possam encarar outras soluções.

Em democracia por muito que custe a certos “democratas” as maiorias ou minorias formam-se na AR e não nas televisões ou nos jornais.

Se os deputados de éne partidos convergirem para formar um governo é a democracia a funcionar em pleno. Foi o que o povo decidiu.

O morador de Belém, o que sabe tudo, pediu uma maioria absoluta. O povo virou-lhe as costas.

O morador de São Bento esfarrapou-se a pedir a tal maioria que lhe permitiria fazer o contrário do que prometeu. Foi o que se viu.

António Costa não se fez rogado e pediu o mesmo. Ficou em segundo lugar. Pode ser que compreenda que um voto é útil ou não de acordo com a opção de quem vota.

Se fossem apenas úteis os votos no tal famigerado arco da governação o país era governado sempre pelos mesmos, seria uma coutada (tem sido) destes predadores e a vida política seria usurpada pelos donos da política que se governa.

Os resultados eleitorais para os grandes ilusionistas foram uma coisa no Domingo à noite e outra coisa na Segunda de manhã.

Os canais televisivos estão inundados ad nauseam de especialistas na arte de defender o status quo que não pode mudar; está-se mesmo a ver o porquê.

Há um que como político foi sempre um derrotado, mas a opinar é uma maravilha, sobretudo quando o comentário lhe vai permitir chegar a terreiro em circunstâncias que nunca nenhum político teve. É um homem acima de todos os outros, na televisão…

Os outros na sua esmagadora maioria são escolhidos para abençoar a ladainha oficial do género: vivemos acima das nossas possibilidades, estamos a recuperar, vem aí o crescimento, o que eles querem é a desgraça do país, o despesismo tem de acabar…Entra um e sai outro, sai um entra outro…a musica sempre do mesmo lado.

No fundo estão de tal modo fechado no seu mundo de ilusionistas que não conseguem sair dele.

Não conseguem por exemplo fazer este raciocínio simples, próprio de uma criança da segunda classe: os votos do PS, mais os votos da CDU, mais os votos do BE são suficientes para formar um governo e os votos do PSD e os do CDS não chegam.

Ficam aterrados com esta possibilidade. Destrambelhados. Insurgentes. Ameaçadores. Convocam a troika. Bruxelas. O quartel geral da NATO. O euro. O BCE. Até a mentira ao ser alegado que o PCP nunca esteve no governo. O disparate ou a perfídia?

O PCP esteve no governo e naquela altura nunca colocou a saída de Portugal da NATO, eram os EUA que davam sinais de chantagear Portugal por causa desse tema.

Na Itália de Aldo Moro e Berlinguer  em que a DC tinha pouco mais de dois por cento de votos que o PCI( ambos na casa dos trinta porcento) era o PSI de Betino Craxi quem era chamado a formar governo e indigitado para Primeiro-Ministro e tinha cerca de oito a dez por cento. Na Finlândia o chefe do governo não pertence ao partido mais votado.

Não se sabe o que vai acontecer nas próximas reuniões entre o PS e os outros partidos; o que é certo é o seguinte: há uma maioria de partidos que na campanha eleitoral se opôs à austeridade levada a cabo pelo PSD e CDS.

Apesar do poder mediático perderam a maioria e quase setecentos e quarenta mil votos. O facto de o PSD ficar à frente do CDS não pode esconder o desastre do CDS e da coligação. Esta realidade não é uma ficção, existe, é assim, tal e qual, por mais que esperneiem.

Seria uma traição aos resultados eleitorais o PS mudar de campo e passar para o campo governamental.

Num país de medos gerados pelo poder e ampliados pelos canais televisivos envelopados na mais requintada estupidificação, seguindo o velho comando do império romano – pão e circo, mais futebol, mais telenovelas e mais uns tantos concursos a ver quem é mais capaz de coisas alarves, os donos da verdade sem contraditório estão em estado de choque só de vislumbrarem que o que nunca deveria acontecer pode vir a acontecer.

Nem sequer são capazes de compreender que se vier a acontecer uma nova maioria é na casa da democracia, na Assembleia da República, onde pelo se atordoamento não logram reconhecer que é a mais das naturais consequências das eleições.

Anda um espetro a percorrer os caminhos de Portugal. A democracia a funcionar. O seu funcionamento deixa em mal estado alguns dos espíritos dos mais “famosos” das nossas televisões e jornais. Que lhes passe a enfermidade.

Nos Céus da Síria

A entrada em cena da Rússia na Síria bombardeando o E.I e outros grupos terroristas deixou alguns países ocidentais em estado de choque.

O que para eles parecia coutada sem controlo à vista, afinal tornou-se algo bem diferente. E não foi só no Ocidente; na Arábia Saudita e na Turquia os dirigentes destes países entraram em sobressalto.

(Continuar a ler no Público Online)

Os Resultados Eleitorais e a Necessária Convergência à Esquerda

Há qualquer coisa de inatingível na vida política portuguesa apesar das e dezenas e dezenas de comentadores e “explicadores” da realidade.

O PSD há quatro anos obteve 108 deputados e o CDS 24, o que somados deu 132.

Nestas eleições o PSD e o CDS juntos tiveram 99 deputados. Juntando os 5 da Madeira do PSD ficam com 104 deputados. Feitas as contas juntos o PSD e o CDS alcançaram o resultado do PSD sozinho, a diferença é um deputado…

Expliquem-me onde está a vitória…O que havia em Portugal era uma maioria de direita que deixou de existir… Apesar da abstenção recorde a direita perdeu 738.301 votos.

Passou a haver uma maioria dos partidos que estavam contra o governo: PS, PCP e BE… Onde está a vitória? PSD e CDS perderam a maioria absoluta que tinham, não obstante o apoio da Alemanha, da União Europeia, das agências de notação e tutii quanti…

O PS todo glutão queria a tal maioria absoluta e para tanto jogou na velha questão do voto útil. O resultado foi sair chamuscado.

Nem Costa, nem Cavaco, nem Passos tiveram a tal maioria. O povo português não quis que nenhuma das forças tivesse maioria absoluta e percebe-se porquê depois destes quatro anos.

Os resultados eleitorais deram, pois, uma maioria clara aos partidos que se posicionaram contra a austeridade. Os ilusionistas, desde Schäuble a Passos, proclamam de cima dos mass media que a política austeritária ganhou, o que para quem olhar para os números só pode concluir que se trata de um enorme embuste.

O resultado espetacular do BE é um alento para tod@s @s que querem encontrar uma alternativa.

O BE e Catarina Martins corrigiram o eixo e mostraram um conhecimento, uma disponibilidade e uma abertura que foi reconhecida pelos eleitores. De certa forma veio confirmar que quem está em quarto ou quinto lugar pode passar para terceiro, sem fanfarronices.

Os resultados, por outro lado, confirmam a existência de um largo campo da esquerda a partir do PS e que pode crescer.

A grande questão é esta: face à unidade da direita é possível a esquerda unir-se?

Se a esquerda – PCP, BE e muitos independentes de esquerda se fossem capazes de unir eleitoralmente o efeito desta unidade ultrapassaria em muito a força destas formações e criaria uma nova realidade capaz de alcançar um resultado para além dos vinte e cinco por cento e ser um factor de pressão sobre o PS a ponto de o poder puxar para uma alternativa sob pena de se poder vir a transformar num PASOK, tal é o afastamento do PS da matriz social-democrata.

Bem vistas as coisas os programas do PCP e do BE, nesta fase e para a atualidade, giram em torno dos mesmos valores que são os pilares do Estado Social.

Há denominadores comuns amplos entre o PCP e o BE para do ponto de vista eleitoral justificar que termine o estado da adolescência e entrem na idade adulta.

A direita foi capaz de o fazer, apesar das múltiplas diatribes de Portas, bem conhecidas de Cavaco, Marcelo, Durão …

A direita tem nos seus interesses uma grande capacidade para se defender.

Este polo eleitoral à esquerda a criar-se pode ir muito para além do BE e PCP dada a existência de ativistas noutras formações e independentes.

Não se pode aceitar que as diversas esquerdas à esquerda do PS não possam convergir eleitoralmente. Que desígnio é este que não possa ser suplantado por via do imperativo democrático e patriótico?

Será seguramente muitíssimo difícil, mas o destino deste país exige a coragem e a inteligência para rasgar perspetiva e libertá-las de um certo acantonamento.

Se o BE, por ter tido um bom resultado eleitoral, se sentir totalmente satisfeito e não for capaz de compreender a importância desta convergência eleitoral necessária até poderá aumentar mais uns pontos, mas o poder continuará nas mãos dos partidos do arco do governo.

É preciso que nesta área das esquerdas haja um reforço eleitoral de vulto que aliado à pressão popular altere substantivamente a correlação de forças com o PS.

Há muitos cidadãos para além do BE e do PCP e do Livre que aspiram a encontrar essa convergência eleitoral forte de esquerda capaz de rivalizar com o PS, capaz de alcançar uma meta acima dos vinte e cinco por cento.

Se o PS não a tiver em conta correrá riscos de perder muita da influência que tem, tal como ocorreu na Grécia com o Pasok. A simples existência dessa possibilidade obrigaria o PS a infletir à esquerda ou mantendo o atual rumo a perder cada vez mais influência dado que as suas propostas não são muito diferentes das defendidas pela direita liberal no poder.

Ao mesmo tempo se o PS se não diferenciar de modo nítido do PSD e do CDS abre-se ainda mais o espaço para este espaço acima descrito.

Este é desafio: ficar contente e ficar imobilizado ou ser exigente e partir para a exigência democrática de ser capaz de forjar uma alternativa, convergindo e criando um forte polo eleitoral com base no BE e PCP e outros, mantendo naturalmente cada partido a sua identidade.

Este será o modo de eventualmente poder trazer o PS para o lado das políticas contra a austeridade e implementando políticas de crescimento e desenvolvimento nacionais, gerando empregos dignos e esperança para este país cansado de tanto malabarismo para defender os interesses de uma ínfima minoria.

Continuar cada qual encastelado a proclamar todas as suas virtudes e deixar que a direita e a vaga neo liberal vá empobrecendo o país é um suicídio a prazo que as gerações futuras não perdoarão. Mesmo que proclame que está contra. Não chega. É preciso juntar forças e força para mudar o rumo. Não se pode fugir a essa realidade por mais “justificações” que se arranjem.

Que cada um assuma a responsabilidade histórica de sair deste marasmo em que PS, PSD e CDS vão ditando as suas leis de ataques aos direitos de tod@s  quant@s trabalham e comprometendo o país num colete de forças que o leve a ter um papel marginal dentro da U.E. por muitos e muitos anos.

Há que começar agora porque o que aí vem é a continuação da mesma política com a agravante de a todos os momentos a atual maioria existente vir a ser chantageada por não deixar a minoria no governo impor a sua lei de chumbo contra os portugueses e Portugal.

Cavaco Fechou-se para a República

Há cento e cinco anos o povo português virou uma página memorável e das mais heróicas: acabou com o regime monárquico.

Portugal abraçou a causa republicana e juntou-se ao que na altura representava o mais avançado em relação à participação popular na eleição da figura que constitui o vértice do Estado.A revolução republicana foi saudada em toda a Europa.

Foram precisos cem anos para que o governo defensor a todo o custo dos credores internacionais acabasse o feriado de 5 de Outubro. Alegou para tanto que vivíamos acima das possibilidades e era preciso trabalhar mais. Como se não houvesse outros meios de fazer valer este desígnio.

O ataque ao 5 de Outubro foi mais uma lança cravada no edifício das instituições republicanas visando apagar a memória dos feitos populares.

Atacou um símbolo da unidade do povo português que levou à implantação da República: a comemoração popular desta grande data; era o mesmo que na França acabar com o feriado da tomada da Bastilha…

Como se não bastasse Cavaco Silva, o representante máximo da República, fechou-se para a República a sete chaves e ao que consta estará reunido com os seus íntimos a estudar como há-de fazer o que já sabia que ia fazer – dar posse a um governo que não só não tem maioria como perdeu votos e deputados a tal ponto que há quatro anos o PSD sozinho teve quase tantos votos como o PSD e o CDS nestas eleições.

O máximo representante da República preferiu ficar a cozinhar uma receita que esconde o carácter minoritário da coligação a estar presente na varanda da Câmara onde foi proclamada a República à população de Lisboa.
O homem que nunca errava, que não lia jornais, que sabe decidir com conhecimento de causa, que garantiu a saúde do BES, que deu golpes brutais na agricultura e nas pescas e afirma agora que o futuro do país está na agricultura e no mar, é exatamente o mesmo que antes das eleições já sabia o que ia fazer mas apesar de o saber alegou que não ia representar a República porque ficava em “casa” a estudar o que ia fazer.

Sempre teve fama de marrão o inquilino de Belém, mas trocar o estudo para uma “frequência” para a qual já sabia tudo e deixar de estar presente nas comemorações do 5 de Outubro é um ultraje à República.

É também uma forma de desvalorizar o regime republicano com a desculpa de que não pode perder uma ou duas horas por causa de um assunto que já tinha em mente tudo o que ia fazer.

Este homem é o político que mais tempo esteve no poder e apanhou todas as manhas da baixa política dando-se ares de figura acima de tudo e todos, querendo fazer esquecer que pelo menos os seus amigos de todos estes anos estão metidos em escândalos que um país decente já tinha esclarecido para bem da Republica.

A grandeza de Cavaco está nos ares a que se dá. Se lhe tirar os ares fica um provinciano de meia tigela convencida pela sua “entourage” que é alguém que não é.

É de todos os políticos aquele que mais se aproveitou da política dizendo banalidades a um povo cansado de tanta espera.

É bem um daqueles políticos que em linguagem bíblica se poderia designar como um santo bem pintado por fora e carunchento por dentro.

O coração de Cavaco não estava com o popular 5 de Outubro, mas com Passos e Portas e a política de prosseguir a austeridade imposta pela troika e os troikanos de cá. Ele tinha razão – precisava de saber dar a volta à coisa e untar bem untada a cozedura que por aí vem. Que Santo António Costa tenha tento e não prove o condimento.