Incapazes de Lidar com o Inverno e o Verão Como Podem Governar

No preciso momento em que Portas e Passos davam conta do extraordinário que fizeram no governo, os hospitais do Algarve não eram capazes de tratar os idosos que acorriam devido ao calor de Verão cujas temperaturas oscilaram entre os trinta e os vinte graus.

Sós, sem os filhos que o governo mandou por esse mundo fora saindo da “zona de conforto”, os idosos são amontoados em macas à espera que os profissionais de saúde os possam tratar, mostrando um recuo histórico ao nível da preparação das populações para enfrentar um Verão no Algarve normal.

No Inverno, o frio fez os hospitais amontoar idosos e a apoderarem-se das macas dos bombeiros para que os doentes não se estendessem no chão. Todos vimos o desespero dos doentes e a arte de propaganda do governo.

Este é um feito deste governo: incapaz de lidar com o Inverno e o Verão. O SNS, nas mãos destes governantes, mostra-se inapto para atender a população idosa no período das gripes e no do calor. Tão só. São incapazes.

Estes são verdadeiros murros no edifício propagandístico do governo. O país recuou duas décadas. Empobreceu como pretendiam o PSD e o CDS. Podem gabar-se. Só que não dizem que está mais pobre e que o querem tornar mais pobre. Utilizam a palavra competitivo. Querem fazer o país com os salários mais baixos da Europa; claro que os investidores vão aproveitar a janela de oportunidade (é assim que se diz) e investir e os portugueses ficarão mais pobres, isto é, mais competitivos.

E já agora, como também foi anunciado hoje, os ricos estão mais ricos fazendo de Portugal um dos países com mais acentuadas desigualdades. Só que em vez de chamar os nomes aos bois falam de ajustamentos e de liberdade.

O que ontem Passos e Portas anunciaram foi a continuação do empobrecimento da população baixando salários para assegurar a competitividade, cortando na Segurança Social abrindo o caminho à privatização como se o mundo das finanças estivesse preocupado com o futuro dos idosos e não com o lucro, o único deus que adoram a ponto de terem criado a bolha que deu origem à crise que estão atirar para as costas das populações.

Passos e Portas falam em despesismo, mas não esclarecem que despesas querem cortar e que despesas querem fazer. Até agora são os campeões em cortes de salários e de prestações sociais. E campeões em despesas que ocultam com os bancos que estavam falidos e que asseguraram que estavam de saúde, os tais que não vivem acima das possibilidades… porque acima deles só o céu.

Em quatro anos impuseram ao país pobreza. Tanto material como espiritual. E gabam-se. Até agradecem a resignação. Tiveram o atrevimento de anunciar os cofres cheios. São gente da laia dos usurários que na hora de se apoderarem da riqueza dos pobres que a eles recorreram ainda pedem que lhes agradeçam o bem que lhes fizeram por não terem culpa da “incapacidade” dos necessitados.
São estes homens e mulheres contentes consigo próprios que fizeram a dívida pública saltar de cerca de noventa e sete por cento do PIB para cento e trinta. E em nome da diminuição da dívida impuseram estes sacrifícios à esmagadora maioria dos portugueses. Tendo-a aumentando vertiginosamente.

São estes que nos querem fechar qualquer talisca de esperança e que por isso na Europa se juntam aos usurpadores das soberanias em nome do mundo dos negócios. Os que juram fazer os portugueses pagar as dívidas de governantes insensatos aos credores externos, mas que internamente são caloteiros recalcitrantes.
Mas há uma esperança: podemos correr com eles. E eles sabem, daí as meias promessas e as outras envoltas em papel de celofane.

Apesar disso ainda está nas mãos de todos correr com eles.

Em Belém É que Ele Está Bem

Cavaco deixou o ameno clima de Belém e foi descobrir novas realidades meteorológicas no distrito de Portalegre.

Animado por toda uma série de amigos empreendedores deixou a vista para o Tejo, sempre calmo e a correr para o mar, e foi abaladiço para a terra onde o José Régio deu aulas e escreveu alguns dos seus notáveis poemas.

Talvez pela falta da brisa serena e fresca de Belém descobriu pelos concelhos daquele distrito um “novo clima”.

Um novo clima tem sempre muito que se lhe diga, tanto mais que em matéria de coisas novas Passos Coelho na Madeira arranjou para Portugal uma “alma nova”, sem que nenhum português a tenha pedido, pelos menos que se saiba.

Uma alma nova é coisa para os espiritistas e teólogos de nomeada, e há que deixar a quem de direito semelhante enrascadela.

Um novo clima já tem mais que se lhe diga. E, por isso, Cavaco sofreu as inclemências do novo clima desértico do Alentejo. Tão triste, tão sem gente, tão abandonado, tão entregue a si próprio que nesta nova realidade o clima mudou para desértico. Sem areia.

É sabido que o deserto cria miragens. Foi o mal que deu ao Senhor Presidente. Às vezes alivia-se, outras tem miragens. Outras sonha com maiorias absolutas, uma espécie de novo clima em que só há rigores austeritários para quem não for credor. Que coisa, Senhor Presidente!

O Zé Raposo Não Soube Que Morreu

O Zé Raposo era surdo desde os vinte anos. Na tropa uma bazuca deixara-o surdo. Totalmente surdo.

A médica, anos mais tarde, explicou ao patrão da pedreira que o Raposo era tão surdo que se ele entrasse numa discoteca com a música de animação no máximo, o ouvido dele não ouviria nada. Como se estivesse no céu. Silêncio absoluto. Ao que dizem do céu.

Era um rapaz divertido. Hasteava no quotidiano um sorriso a condizer com o verde dos olhos.

Diziam os que caçavam com ele que tinha uma vista que substituía o ouvido. Diziam os caçadores.

Tinha uma queda muito grande para as pedreiras. Gostava do ambiente da pedreira. Onde os outros tinham receio ele dava nas vistas. Fosse a colocar fogo, fosse a descer aos fundos da pedreira com a água sem se saber até que nível, fosse no que fosse nos modos mais difíceis de lidar dentro daquelas entranhas arrancadas à desventrada terra. Interessava-lhe o interior da terra e a arte de lá tirar o precioso mármore.

Vivia para a pedreira. Por lá andava como o rei das pedras, embora no bolso tivesse seiscentos e cinquenta euros a cada fim do mês.

O patrão gostava dele. Se o mandasse embora onde haveria de ganhar a vida? Tinha três filhas e seis netos. Nenhuma estava empregada, nem o genro; as outras eram mães solteiras. Viviam em casa do Raposo.

Ontem o Raposo estava a almoçar sentado, devido ao calor, à sombra de um velho e altíssimo plátano. Deviam ser doze e quaisquer minutos mais, pois começara a atirar-se ao que a mulher lhe pusera na lancheira.

Sem se saber porquê uma poderosa máquina de escavar destravou-se e rolou incontrolável. Um companheiro correu em sua direção berrando para se desviar.

O médico legista teve dificuldade em fazer a autópsia. Mas não em determinar a causa da morte.

Na aldeia os que trabalham nas pedreiras, hoje muito poucos, juntam-se e amaldiçoam as pedreiras, o fundão na terra que ao Raposo fez perder a cabeça. E ao cabo destes anos a vida.

Que se Lixem, Dêem-me a Mim ou ao PS uma Maioria Absoluta e Vão Ver

Dá que pensar. Depois do homem que ocupa o Palácio de Belém veio Passos Coelho, no dia a seguir, enquanto o ferro está quente, pedir para ele ou para o PS a maioria absoluta.

Para ele percebe-se. Quer continuar com toda a estabilidade a empobrecer os portugueses e a prestar vassalagem à Alemanha( não se sabe se a Schäuble ou se a Merkel) e levar até às últimas consequências o programa neo liberal de privatizações.

Para o PS não se percebe, mas percebe-se. É como jogar em dois carrinhos que asseguram o mesmo objetivo, embora com ritmos diferentes.

Cavaco, Passos e Portas (este subalternamente) querem apresentar a coligação como a tal garantia de mais do mesmo, só que doravante, dizem, a recuperar.

A recuperar para os grupos económicos o que ainda não têm, oferecendo-lhes nova legislação laboral, dentro do que Passos já anunciou para se tornar campeão em competitividade máxima, passando os portugueses a viverem com direitos mínimos.

Percebe-se a manobra. Deem-nos maioria absoluta que vamos entrar no tempo de recuperação. Foi no governo do PS que veio a troika, vejam se querem mais ; eles, os figurões que se pelavam por cá ter a troika, que deram as mãos ao PS a chamá-la para impor um programa de austeridade que Passos Coelho levou mais longe, gabando-se.

Vem de repente o Dr Portas todo lampeiro dizer que a troika já não anda pelas ruas de Lisboa, o que nem sequer é verdade, pois de vez em quando descem ao Terreiro do Paço a monitorizar…

Percebe-se que em campanha eleitoral não podem anunciar a continuação do empobrecimento da população porque não dá votos e as eleições são para ganharem se puderem…Passos não pensa noutra coisa, não é verdade que se lixem as eleições, como afirmou fazendo uma rábula; que se lixem os portugueses, isso sim é verdade.

Deem-nos a nós maioria absoluta ou então ao PS, mas lembrem-se que se lhes derem a maioria absoluta vem aí as despesas, como se eles não as tivessem feito para pagar as incompetências e crimes da banca. Despesas sim, mas das grandes e para os grandes. Para o SNS, para a Educação Pública, para a Segurança Social não, por causa do déficit.

Maioria absoluta para o PS porque a história do PS no governo com maioria absoluta e com o Limianos é a história de um partido que fez sempre o contrário da sua matriz e governou mais ao centro e à direita, abandonando a social – democracia há décadas. Hoje é um partido com uma direção de tipo liberal com respingos de esquerda para tapar a verdadeira face.

Só que a direita toda, a começar em Cavaco e a acabar em Portas, sabe que o PS não deve ter maioria absoluta. A direita joga, por isso, num cenário em que não tendo o PS a maioria absoluta fica, segundo estes figurões, o país ingovernável e os credores apavorados. Dado que só vivem para os credores percebe-se o pânico; pânico que resulta da remota possibilidade de havendo um maior equilíbrio entre as diversas formações de esquerda que o PS possa ter de fazer o que não deseja.

Está, portanto, nas mãos dos portugueses decidir. Dando a quem quer que seja maioria absoluta, entregam ao destinatário o poder absoluto. Já experimentaram várias vezes. Só aprende quem quer.

Um Propagandista em Belém

Cavaco não tem cura. A sua pulsão pela direita é de tal ordem que entrou em cheio na pré campanha eleitoral a favor da coligação governamental. Nem no fim do seu mandato ousa cumprir a Constituição e ser pelo menos uma vez o Presidente de todos os portugueses.

Ontem à tarde em Mafra saiu a terreiro a dar conta do que passou na Cimeira de Chefes de Estado que decidiu impor à Grécia um acordo de usurários, desmentindo Junker que esteve onde ele não esteve, na Cimeira.

Cavaco esteve onde sempre esteve – a defender o filho adotivo, Passos Coelho.
À hora do telejornal a defender a coligação a propósito da marcação da data das eleições. Um verdadeiro escândalo: Cavaco a querer substituir apavorado a vontade dos portugueses. O que ele disse foi isto: votem na coligação do PSD/CDS porque é estável, leia-se tendo maioria absoluta faz no Parlamento o que quiser.
Cavaco marimba-se para a real vontade dos portugueses: o que ele quer é que a coligação continue a governar nem que seja pelo argumento ad terrorem . Se não votarem na coligação votam na instabilidade e num futuro negro porque não se sabe quem vai governar. E deu exemplos que para quem tenha conhecimento de causa, como gosta de apregoar, vão em sentido contrário na medida em quer na Alemanha, quer na Finlândia, quer na Dinamarca ou até na Suécia não houve maiorias absolutos num partido ou numa coligação.

O que Cavaco sabe e não diz é que este apelo destina-se a condicionar o voto dos portugueses, dado que as sondagens não dão maioria absoluta nem à coligação, nem ao PS.

Uma leitura aparentemente mais bondosa seria aceitar por parte do PR que o PS pudesse ter maioria absoluta, porém um PS com maioria absoluto é um PS sem controlo de quem quer que fosse no Parlamento. A cumprir o Tratado Orçamental e a continuar a austeridade sem possibilidade no Parlamento de lhe por qualquer obstáculo.

Na atual situação qualquer maioria absoluta será boa para prosseguir a política austeritária em contraste com maiorias relativas que obrigarão a negociações em que a vontade plural dos portugueses estará mais próxima de ser respeitada.
O PR na sua comunicação não se ficou pelo anúncio da data das eleições como era seu dever constitucional. Decidiu intervir na vida político-partidária apelando à continuidade via estabilidade e socorrendo-se dos sacrifícios realizados pela população para proclamar que doravante a vida será melhor.

Está a tirar a dianteira a Paulo Portas na arte da propaganda. Cavaco, o sério, a acabar como propagandista em Belém.

O Palavreiro

Paulo Portas foi ontem à SIC. E falou, falou e falou. Que contou? Um conto parecido com o da carochinha. Pegou em três ou quatro palavras e jogou com elas. Ele foi sempre um bom jogador de palavras, um palavreiro.

É amigo e admirador da Sra Dra Maria Luís. Tem por Passos a maior consideração. Vem aí a recuperação. Arrumaram a casa. Ai Jesus se vem o PS…e o despesismo . Foi o PS que chamou a troika e agora já ninguém treme só de ver os troikanos chegar a Lisboa, graças a ele e ao Passos … este desemprego é obra do PS.
O palavreiro usa as palavras para as assassinar: o CDS esteve de acordo com a vinda da troika e com o Memorandum. Foi o CDS mais o PSD, mais o PS quem assobiaram pela troika.

O CDS prometeu baixar impostos e o Dr Portas andou a correr pelas feiras a defender os pensionistas e os agricultores.

Chegou ao governo aumentou impostos, diminuiu pensões e atacou os agricultores criando com a Cristas à cabeça uma crise sem precedentes no setor leiteiro com a ruína dos produtores de leite.

Portugal está muito pior do que estava. A dívida subiu mais de cinquenta mil milhões de euros. O país empobreceu. A pobreza bate à porta de um em cada quatro portugueses. A fome ronda um terço das crianças nas escolas. Não há vacinas para a tuberculose. As gripes põem os hospitais em estado de guerra e transformam-se em acampamentos. Portugal regrediu aos anos noventa do século passado.

Do outro lado do modo de viver os ricos ficaram muito mais ricos. As camas desaparecidas no SNS apareceram nos hospitais privados.

As riquezas do país foram entregues a grupos económicos poderosos, incluindo as que geravam riqueza para a comunidade.

Aos banqueiros o Estado abriu os cofres e entregou-lhes o ouro, enquanto se regateava quatro ou cinco euros de aumento do salário mínimo ou até o seu fim para Portugal se tornar ainda mais pobre e competitivo. Quanto mais pobre mais competitivo, mais os ricos da Europa elogiam o Passos e as suas virtudes de agradar aos credores e desprezar os compatriotas.

A receita do CDS foi agravar tudo o que de mau fez Sócrates, aumentando brutalmente as doses de empobrecimento da população e as de enriquecimento de uma casta que vive a olhar para o ar para saber com rola a economia de casino nas diferentes bolsas, os tais que vivem acima das possibilidades.

O palavreiro olhas para as palavras como se fossem abrigos para a sua política de desastre. E que faz? Pega nelas e atira-as contra a realidade. De tanto cansaço pela perda da cotação das palavras na inteligência e sensibilidade humana usa-as como lenços de assoar.

As palavras deixaram de ter valor para os turvadores das próprias palavras. Quando o palavreiro diz que estamos melhor ele não engloba no estamos a maioria dos portugueses e portuguesas. Esses já não contam. O que conta para ele são os que de facto estão melhores: banqueiros, financeiros, gestores, fundos, grandes escritórios dos advogados, goldens figuras vindas do Extremo-Oriente, os ricalhaços de todas as latitudes.

Os outros a quem, entre um copo de tinto numa feira ou uma castanha num magusto noutra feira, prometeu tudo não contam até à nova corrida, novas eleições.
Só que agora o dirigente do CDS que assegurou aos credores a defesa do protetorado tem de se apresentar como um verdadeiro palavreiro, um homem capaz de pegar nas palavras e esmifrá-las até ao limite da última gota de seiva. Até à última fronteira da decência: anuncia o combate sem tréguas às desigualdades sociais.

Quando se chega a este ponto a única palavra que desapareceu do léxico do palavreiro é a grandiosa palavra que separava os homens honrados dos outros, a palavra vergonha.

Por Terras do Endovélico – Soz Auku*

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Desde sempre o ser humano precisou de encontrar razão para a sua curta estadia na Terra e resposta à origem e ao destino.

A capacidade de pensar levou-o a interrogações e angústias que são, por comparação com outros animais, únicas.

No mais recôndito de cada um há lugar para meditação e espiritualidade. Os olhos que tudo vêm no que se refere ao que os rodeia, já há milénios , se espantavam com o que da natureza sobressaía ao nível estético.

Posso imaginar o deslumbre a quem por veredas e corrumes se aproxime do outeiro de S. Miguel da Mota e rode o olhar em trezentos e sessenta graus, do norte para o sul e do nascente para poente.

Se for no dilúculo da manhã verá em dias claros a rósea aurora chegar para aquecer a mãe terra e se espantará de imensa luz que ao bater nas árvores a transforma em feixes doirados de consagração do astro responsável por todos nós, o nosso primeiro deus.

Se se esperar pelo fim do dia uma imensa fornalha incendiará os chaparrais que bordejam o horizonte e para quem não sabia que o mar estava lá, haveria de magicar em tão grande mistério que era o da queda do sol até um novo dia.

Se estiver voltado ao norte e tiver um fio de vento a fazer festas na cara não ficará seguramente indiferente ao infinito horizonte azul que o levará a chegar onde se alcance o poder dos olhos.

Se rodasse e se virasse para sul veria a ribeira que os romanos mais tarde apelidariam de Lucefecit e as terras planas a pedirem trigo.

Parece que os romanos batidos no domínio dos povos procurando o volfrâmio dobaram este cabeço de S. Miguel da Mota e deram com um templo feito de pedra e uma divindade com um rosto simpático, o ENDOVÉLICO.

Como outros impérios em fase de expansão tentaram integrá-lo nos seus muitos deuses. Era mais um, o da população que estava na área que é hoje a bonita terra do Alandroal.

Mais tarde para não fugir à regra não lhes bastava aos romanos ter o poder sobre os poucos habitantes destas terras de antanho. Também quiseram arrebatar-lhes a alma e impor-lhes os seus deuses, únicos e verdadeiros como todos os deuses que os homens quiseram à boa mente ou pelo poder das armas impor aos outros homens.

São montanhas de cadáveres que os homens ergueram para saciar nas suas intermináveis guerras a fome dos deuses bons contra os deuses bárbaros.

E de nada valeram os milénios que já passaram, pois nas terras do Iraque e da Síria há quem degole e crucifixe em nome do seu deus que nada faz para impedir esta chacina de homens e mulheres que têm outros deuses.

No outeiro de S. Miguel da Mota antes da chegada dos romanos ergueram as populações de então esse templo ao Endovélico, um deus com muitos poderes ligados à saúde e às colheitas.

E quem subir a esse outeiro num primeiro relance haveria de ficar suspenso com tanta beleza. Era um deus em cima de muita beleza. Não seria a um deus desconhecido como o de John Steinbeck descreveu porque daquele outeiro se apossou por via dos homens o Endovélico.

Voltando aos romanos e ao Endovélico a certa altura o império foi mais forte que o poder do simpático Endovélico tendo-o estilhaçado na sua fúria destrutivas.

Partiram-lhe a cabeça pelo pescoço e deceparam-lhe os braços, ou, dito, de outro modo, por não ser historiador, apareceu assim no século passado.

Pois quem nos dias de hoje que correm quiser ir onde os romanos foram depois dos primitivos se espantará do que poderá ver.

Rode do nascente até ao poente e do direito estando com o sul nas costas terá uma paisagem deslumbrante da barragem de Terena e dos seu castelo penetrando no horizonte ilimitado por terras onde cai o olhar e que estarão para alem do Alqueva na Estremadura espanhola.

Do lado poente fiadas de chaparros e eucaliptos se erguerão do vale bem cavado e verá ainda do lado esquerdo a povoação das Hortinhas encavalitada em outo outeiro mais alto que o de S. Miguel.

Virado a norte terá acesso às pontas da Serra de Ossa e toda a planície com a sua palete de cores conforme as estações. E lá bem no alto a torre árabe da vila do Alandroal mais para o lado direito. Ao fundo, mais á direita, a outrora portuguesa Olivença.

Para sul a planície soberana de desejos, lisa que alguns desejos também o são.

De repente em pleno Alentejo alandroalense podemos ter paisagens dourienses ou do planalto transmontano.

Foi aqui que assisti ao culto da confissão religiosa WICCA Celtibera, ontem dia 18 de Julho. Não me saía da cabeça a cara simpática do Endovélico a quem os oficiantes atribuíam poderes incríveis.

O poder estar naquele outeiro compartilhando com espanhóis e irlandeses o crepúsculo divino deste Julho tórrido foi uma dádiva.

Que me perdoem todos os deuses que existam mas valeu a pena na semana alandroalense da galinha do campo ir a uma adega com nome de um instrumento cortante e por se ter esgotado a galinha saborear um cozido de grão e um branco de se lhe tirar o chapéu.

Soz Auku –Que tenhas em triplicado, assim me traduziram os oficiantes do culto

 

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Entre Partir o Vidro e Salvar a Vida do Filho

Uma mulher, algures na China, ao sair do seu BMW trancou-o e deixou o filho de três anos no interior do carro.

Quando os bombeiros chegaram ao dar conta que o calor dentro da viatura subia em demasia e o oxigénio começava a faltar entenderam que o melhor seria partir os vidros e salvar a criança.

A cidadã chinesa não permitiu e pretendia, segundo a notícia, que fosse chamado um serralheiro para abrir o vidro, sem o quebrar.

Os bombeiros terão partido o vidro e salvo a criança.

O relato da notícia é este. Não se sabe se as coisas se passaram assim. Nem se algures em qualquer parte do mundo não haveria mães como esta.

O certo é que, tendo acontecido na China onde segundo as autoridades é belo enriquecer ou se acontecesse noutra parte do mundo onde falte a coragem de dizer o que as autoridades chinesas dizem, a notícia choca quando se confronta entre o valor da vida de um filho e o valor de um vidro de uma viatura BMW.

Por cá as notícias dão conta de pais e mães que atiram os filhos para as lixeiras ou os vendem. Os que têm BMW por cá ainda não são notícia, apesar de poderem ter os filhos que quiserem, o que não acontece na China.

À custa de tanto incensar o dinheiro não tardará que cheguemos aos abafadores dos velhos e velhas que o Miguel Torga imortalizou.

O que vale a vida de alguém face ao poder da riqueza?

Perguntem aos donos do dinheiro se sabem quem eles são.

Estranho Modo de Engordar

Um estudo realizado entre 2002 e 2009 pela Universidade de Coimbra e divulgado no programa radiofónico “O amor é” de Júlio Machado Vaz e Inês Medeiros deu a conhecer que as crianças portuguesas estão cada vez mais obesas e uma dessas causas é o excessivo de sedentarismo, pois passam cerca de duas horas por dia sentadas a ver televisão.

Na verdade a nossa civilização está a criar um mundo de basbaques que apenas olha e ingere acriticamente o que as centenas de canais vertem diariamente. Vivem olhando canais de televisão.

Olhar é importante, mas não apenas para passar o tempo como acontece com as crianças indefesas diante do totalitarismo das imagens, das ideias implícitas, criando assim submissos a este novo culto de estar ou viver.

Acresce que os pais levam os filhos à entradas das escolas, pois não podem entrar com o carro nas salas de aulas, pois é de admitir que se pudessem depositariam os filhos na carteira da aula para lhes dedicar este estranho caso de amor.

Outras crianças aguardam o transporte do município que as leva e as traz.
Nós fomos feitos para andar, para nos movermos e não para ficarmos encerrados entre a casa, a escola e a televisão na engorda física ou mental.

É demasiado saudosismo imaginar a alegria de montar a bicicleta e em rancho arrancar a fazer os três quilómetros entre a casa e o liceu Ou seguir a pé, na berma da estrada? Ou num raio de três, quatro quilómetros procurar em todas as frinchas da aldeia os segredos da mãe natureza?

Para onde vamos? Para um mundo em que devoramos imagens e perdemos a alegria da descoberta do que nos rodeia no campo ou na cidade? Para a quietude da velhice sendo crianças? Para a engorda que nos aprisione as ideias e nos impeça de ter força para mudar o mundo?