POR TERRAS DO ENDOVÉLICO – SOZ AUKU*

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Desde sempre o ser humano precisou de encontrar razão para a sua curta estadia na Terra e resposta à origem e ao destino.

A capacidade de pensar levou-o a interrogações e angústias que são, por comparação com outros animais, únicas.

No mais recôndito de cada um há lugar para meditação e espiritualidade. Os olhos que tudo vêm no que se refere ao que os rodeia, já há milénios , se espantavam com o que da natureza sobressaía ao nível estético.

Posso imaginar o deslumbre a quem por veredas e corrumes se aproxime do outeiro de S. Miguel da Mota e rode o olhar em trezentos e sessenta graus, do norte para o sul e do nascente para poente.

Se for no dilúculo da manhã verá em dias claros a rósea aurora chegar para aquecer a mãe terra e se espantará de imensa luz que ao bater nas árvores a transforma em feixes doirados de consagração do astro responsável por todos nós, o nosso primeiro deus.

Se se esperar pelo fim do dia uma imensa fornalha incendiará os chaparrais que bordejam o horizonte e para quem não sabia que o mar estava lá, haveria de magicar em tão grande mistério que era o da queda do sol até um novo dia.

Se estiver voltado ao norte e tiver um fio de vento a fazer festas na cara não ficará seguramente indiferente ao infinito horizonte azul que o levará a chegar onde se alcance o poder dos olhos.

Se rodasse e se virasse para sul veria a ribeira que os romanos mais tarde apelidariam de Lucefecit e as terras planas a pedirem trigo.

Parece que os romanos batidos no domínio dos povos procurando o volfrâmio dobaram este cabeço de S. Miguel da Mota e deram com um templo feito de pedra e uma divindade com um rosto simpático, o ENDOVÉLICO.

Como outros impérios em fase de expansão tentaram integrá-lo nos seus muitos deuses. Era mais um, o da população que estava na área que é hoje a bonita terra do Alandroal.

Mais tarde para não fugir à regra não lhes bastava aos romanos ter o poder sobre os poucos habitantes destas terras de antanho. Também quiseram arrebatar-lhes a alma e impor-lhes os seus deuses, únicos e verdadeiros como todos os deuses que os homens quiseram à boa mente ou pelo poder das armas impor aos outros homens.

São montanhas de cadáveres que os homens ergueram para saciar nas suas intermináveis guerras a fome dos deuses bons contra os deuses bárbaros.

E de nada valeram os milénios que já passaram, pois nas terras do Iraque e da Síria há quem degole e crucifixe em nome do seu deus que nada faz para impedir esta chacina de homens e mulheres que têm outros deuses.

No outeiro de S. Miguel da Mota antes da chegada dos romanos ergueram as populações de então esse templo ao Endovélico, um deus com muitos poderes ligados à saúde e às colheitas.

E quem subir a esse outeiro num primeiro relance haveria de ficar suspenso com tanta beleza. Era um deus em cima de muita beleza. Não seria a um deus desconhecido como o de John Steinbeck descreveu porque daquele outeiro se apossou por via dos homens o Endovélico.

Voltando aos romanos e ao Endovélico a certa altura o império foi mais forte que o poder do simpático Endovélico tendo-o estilhaçado na sua fúria destrutivas.

Partiram-lhe a cabeça pelo pescoço e deceparam-lhe os braços, ou, dito, de outro modo, por não ser historiador, apareceu assim no século passado.

Pois quem nos dias de hoje que correm quiser ir onde os romanos foram depois dos primitivos se espantará do que poderá ver.

Rode do nascente até ao poente e do direito estando com o sul nas costas terá uma paisagem deslumbrante da barragem de Terena e dos seu castelo penetrando no horizonte ilimitado por terras onde cai o olhar e que estarão para alem do Alqueva na Estremadura espanhola.

Do lado poente fiadas de chaparros e eucaliptos se erguerão do vale bem cavado e verá ainda do lado esquerdo a povoação das Hortinhas encavalitada em outo outeiro mais alto que o de S. Miguel.

Virado a norte terá acesso às pontas da Serra de Ossa e toda a planície com a sua palete de cores conforme as estações. E lá bem no alto a torre árabe da vila do Alandroal mais para o lado direito. Ao fundo, mais á direita, a outrora portuguesa Olivença.

Para sul a planície soberana de desejos, lisa que alguns desejos também o são.

De repente em pleno Alentejo alandroalense podemos ter paisagens dourienses ou do planalto transmontano.

Foi aqui que assisti ao culto da confissão religiosa WICCA Celtibera, ontem dia 18 de Julho. Não me saía da cabeça a cara simpática do Endovélico a quem os oficiantes atribuíam poderes incríveis.

O poder estar naquele outeiro compartilhando com espanhóis e irlandeses o crepúsculo divino deste Julho tórrido foi uma dádiva.

Que me perdoem todos os deuses que existam mas valeu a pena na semana alandroalense da galinha do campo ir a uma adega com nome de um instrumento cortante e por se ter esgotado a galinha saborear um cozido de grão e um branco de se lhe tirar o chapéu.

Soz Auku –Que tenhas em triplicado, assim me traduziram os oficiantes do culto

domingos lopes

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