Entre Manizales e Medelín

café  De Manizales a Medellin não são mais que cento e oitenta quilómetros de estrada encravada na cordilheira central. Estrada de arrepiar, a lembrar o Marão há cinquenta anos; só que a altitude a seguir a Santa Bárbara atinge os dois mil e quinhentos metros…

Na berma dezenas de cruzes, o que não intimida os condutores, sobretudo os dos carros. Se não passarem a linha contínua que é quase constante entre as duas cidades nem ao cabo de dez horas fariam a viagem.

Nalgumas curvas não passam ao mesmo tempo um carro e um camião. Do lado dos camiões a montanha está marcada a fundo de tanto rasparem com a carga.

A paisagem à saída de Manizales é de um verde gótico, verde verde e verde maduro; um verde de fazer inveja às outras cores. Melhor: à luz deste verde não há mais cores, até o céu fica verde de azul envergonhado.

Entre os mil e duzentos e mil oitocentos metros em socalcos está o café em plantações que terão no máximo a altura de um homem com muitas bananeiras à mistura e imponentes palmeiras esguias a contrariar a estética volumoso do célebre pintor e escultor Fernando Botero.

Não há máquinas que possam colher em tal instabilidade e proximidade das plantas entre si.

Gustavo é o condutor; tem trinta e quatro anos e garante que …”o de cima vai assegurar uma boa viagem sem problemas…” ; esperemos os de baixo…

Do lado direito corre o rio Cauca e a esperança de tantos garimpeiros que fazem covas ao lado do leito e quando a cova passa abaixo do leito aí entram para garimpar a areia e apanhar as pepitas de ouro.

Conta o Gustavo que tinham morrido…”ali onde está a cruz e a cova onze homens: o rio entrou no buraco e não tiveram tempo de fugir…”

Gustavo gosta de cumbia, merengues e salsa. Um cantante pede desculpa à mulher…”sei que portei mal, perdoa-me se puderes…prometi demasiado para as minhas possibilidades, perdoa-me meu amor se puderes…”

Muda o ritmo; passa à salsa…”não sei se te amei muito ou pouco, só sei que nunca mais te vou esquecer… por mais que viva…”

Gustavo explica que um trabalhador do café ganha cerca de treze cêntimos de um euro por quilo e o trabalho é dos socalcos e quase sempre a chover no meio da lama, tendo de pagar a alimentação aos donos do café; talvez trezentos e cinquenta euros em doze horas de trabalho diário.

O que sofrem alguns para que nos chegue fumegante e cheio de fragância o robusta colombiano.

CAFÉ 2

Agora vem os merengues que Gustavo adora e dedica tanta doçura à mulher que fica em casa com as duas filhas.

Passámos um camião virado. O motorista está na ambulância e a carga no desfiladeiro.

Pergunto-lhe – Então O de cima não fez nada?

Ele olha-me acanhado sem saber o que dizer e nada diz. Mais á frente exclama: nem sempre se está na graça do senhor. OK, digo-lhe eu.

Aos dois mil metros na cordilheira há um comboio de camiões e autocarros; à nossa frente um autocarro guina à esquerda para ultrapassar e guina à direita a fugir do camião que vem de frente. Parece um golpe de acordeão.

Depois dos dois mil e quinhentos metros começa a descida. Só se vêem bambus e palmeiras e relva verde e vegetação verde verde. E nuvens a tapar o azul.

De repente vindos dos nada dois garotos aproveitam a pouca velocidade do camião e agarram-se à parte de trás. E não há curva, nem subida, nem descida que os descolem do camião; nem o perigo de uma travagem brusca e caírem e serem esmagados por outro camião.

Quando chegam à sua terra num passe mágico de habilidade largam o camião e param no largo causando a admiração de quem os vê “aterrar”.

E a música segue ao ritmo da vontade do Gustavo…” dava-te tudo meu amor, mas tu não queres…” A cumbia ecoa nas alturas. Ao fundo do fundo ergue-se Medellin, a cidade da primavera eterna, diz Gustavo. Cinco horas para fazer cento e oitenta quilómetros e se não fosse a perícia dele seriam muitas mais. Gustavo é arquiteto e não tem emprego. Arranja biscates a conduzir carrinhas e autocarros. Antes condutor que malandro sem trabalhar, diz ele. Boa sorte Gustavo. Que O de cima te ajude!

PUTOS

 

Os Cavalos Também Tomam Café

Na Colômbia, na zona “ cafetera” de Manizales aqui está ele a entrar no “bar” da “plazoleta” para o seu café. Se pediu rum, só quem lá estava poderá responder.

cavalo no café

O certo é a igualdade entre homens e cavalos diante do balcão da bica…Haja igualdade! Que é um dos princípios da longinqua Revolução francesa.

 

A Entrevista de Costa ao Sol – Que Frieza!

Na longa entrevista ao SOL António Costa de um modo enviesado mostra com toda a clareza ao que vem, caso seja Primeiro-Ministro.

Retiro três momentos da entrevista.

  1. Como todos se recordam o PS com Sócrates à frente teve como adversário no PSD a Dra Manuela Ferreira Leite, a que competiu ao longo de muitos anos com a Dra Maria-Cavaco para ver quem era mais cavaquista.

Nessa altura o PS despachou-a com uma cilindragem que levou Passos Coelho para o trono da Buenos Aires.

Pois é esta Sra que chegou a propor que a democracia ficasse congelada seis meses e que os idosos com mais de setenta anos não deveriam ter acesso à hemodiálise por via do SNS, com quem Costa se identifica e sublinha neste momento de debate eleitoral essa identificação…”Há entre mim e Manuela Ferreira Leite uma identidade de pontos de vista muito significativa…”

Não refere um único ponto de vista em que se identificam, mas fica o aviso : ele e a Sra Dra tem uma significativa identidade de pontos de vista. Não digam que ele não disse.

É certo que ela tem dito coisas que não são agradáveis para Passos Coelho, mas daí à identificação vai um mar de questões que Costa passou totalmente ao lado.

O que pretende Costa com esta ressurreição para a política ativa de Manuela Ferreira Leite?

Já com Pacheco Pereira nem pensar nisso…A contrario sensu não há uma significativa identidade de pontos de vista…branco é, galinha o põe.

  1. Mas Costa quis continuar a revelar o seu pensamento político e na verdade a maneira com encara Schäuble é elucidativa…”Deu grandes contributos para a construção europeia e tenho a esperança que enquanto ministro das Finanças possa um dia dar um contributo igualmente bom…” Assim.

O rosto da política imperial alemã, da humilhação da Grécia, da política da austeridade a todo o custo, só porque …”uma coisa é certa e não duvido por um segundo que é um europeísta…” Ai sim? E Tsipras é um africanista? E Varoufakis um asiático?

Schäuble é Ministro de uma coligação para enfrentar os marcianos que são todos os povos que se não queiram render a serem Juntas de Frequesia da poderosa Alemanha.

Costa só admite um bloco central como o da Alemanha se vierem os marcianos que ainda não chegaram à Alemanha, que se saiba.

Na verdade na Alemanha há um bloco central entre o irmão do PS, o SPD, e a direita conservadora da Sra Merkel e do Sr Schauble.

Em Portugal Costa não tem uma alternativa ao atoleiro austeritário comandado por Berlim, tal como a coligação da direita. Seguem a mesma cartilha com interpretações mais benévolas ou malévolas, mas o livro é o mesmo, o do europeísta Schäuble.

  1. Aliás deve ser por isso que, sem saber como enfrentar a vã glória de pedir maioria absoluta, se esfarrapa a alegar que se lhe derem maioria absoluta tudo vai ser fácil e não haverá lugar a angústias.

Ainda não percebeu o que a direita já percebeu: o PSD sozinho não ia longe; o PS quer ir onde não chegará, nem com a Manuela Ferreira Leite debaixo do braço.

Afinal onde está a afirmação do PS que levou ao desaparecimento de Seguro? No entendimento com Ferreira Leite e Schäuble? Na cassete da maioria absoluta? Tanta guerra e tão velhas ideias.

À Cigana Violada pelo Marido

A Rosa era uma cigana trigueira e bonita. Ela gostava que os rapazes a olhassem até porque já se sentia mulher, dizia-lhe o corpo.

Era na escola que ela gostava de estar, ao contrário das outras ciganas. E na escola eram muitos os que a fitavam.

O Gabriel tinha dezasseis e não era cigano. O que não o impediu de a admirar, de tal modo que lho disse.

Ela sem corar deu por aceite o namoro pedido.

Ela ganhou uma coragem que sentira mas ainda não tomara como sua; era até então um pressentimento.

Quando a família da Rosa soube do caso convocaram as leis antigas e terminou a escola.

Uma tia foi chamada e, na presença de pai e mãe, a Rosa foi colocada à sua mercê para dar conta se lhe faltava uma pele no mais íntimo do seu corpo.

Como estava como devia estar segundo as regras antigas, logo ali esconjuraram o Gabriel e casaram-na com um primo de vinte anos.

Ele desconfiado do veredito da tia não esperou por nenhum olhar, por nenhuma palavra, por nenhum gesto, por nenhum mimo; comandado por um cio desencabrestado foi-se a ela; todo ele foi faca e ela corpo indefeso.

Ao ver o sangue que o cegava retirou a faca do corpo da Rosa. A tia veio confirmar que afinal tudo se confirmava e agora era seguramente o que sempre fora. Cigana.

Ela, porém, era deste tempo e o marido não se conformava; ia-se a ela e sempre do mesmo modo golpeava-a como se o sexo fosse uma faca para amedrontar.

Só que ela não se deixava dominar. Ficava-se. Jazia. Era como se o marido estivesse com uma morta.

O marido disse à tia da Rosa que a não queria porque ela não era como as outras e ele não a sentia como sua, apesar de toda a posse.

Ele, a tia, o pai e mãe fizeram-lhe ver que as leis deles eram para cumprir e como ela desobedecia prenderam-na num barraco imundo e às vezes levavam-lhe comida, outras vezes pancada.

Outras vezes o marido ia, como sempre foi, servir-se dela martirizando-lhe o íntimo corpo.

Até um caçador a descobrir e ser restituída à escola.

Compre Fresquinha Uma Imagem Feliz

O PS e o PSD e o CDS estão em guerra: “Os cartazes pelo trono”. O arco amassou e o PS quer sozinho o que querem os outros dois.

O PS não foi a um banco comprar fotografias de gente feliz. Foi a uma Presidente de uma Junta de freguesia e arranjou  uma desempregada que afinal não estava.

E foi um descenso para o Dr Ascenso Simões. Teve de abandonar a propaganda e dedicar-se ao que se dedicava.

O diretor da campanha da coligação, o Dr Matos Rosa deu notícia que iam ao banco internacional, do género do HSBC, mas em fotos de gente alegre e feliz e compram as melhores caras para encaixar em Portugal: até pode ser a de uma jovem húngara ao lado de uma garrafa azeite. O que conta é a alegria de estar com a coligação do ponto de vista que o banco a vendeu e ela nem sequer saberá o que se passa em Portugal ou nem sequer pôs os pés cá, mas o Dr Matos Rosa assegurou que uma foto dessas é comprada pela coligação com todos os códigos que regem este marcado das imagens.

Uma boa imagem é sempre um bom começo. E há que cuidar bem da imagem.

O PS em matéria de imagem é o que se está a ver.

A coligação foi sempre assim: os portugueses estão mal e o país está bem dizia o Ministro Marques Guedes. Mais: disse-o sério sem se rir. Provavelmente porque lhe mostraram uma imagem de um velhinho todo contente comprada no banco de imagens da Noruega e que já correu o mundo para ser vendida em campanhas eleitorais.

É de crer que, quem tenha de escolher no recato dos gabinetes mobilados a preceito, se deixe enganar sem querer e pense que aquelas imagens correspondem ao mundo que estão a vender.

O mercado está sempre à frente, dirá o Sr Dr Pires de Lima com aquela voz de timbre de saber do que fala.

Este é um exemplo do que distingue os partidos da coligação do partido que quer agarrar o poder todo, sem repartir com ninguém, nem com a Maria de Belém.

Não são só os partidos a venderem imagens. Os órgãos de comunicação social agarram o “tema” e esclarecem tudo tim por tim.

Que ninguém fique sem saber a estória das caras tristes e das caras alegres porque um vende caras tristes aos portugueses e os outros vendem caras felizes do tipo da Maria Luís quando abre o cofre e não sabe o que há-de fazer ao dinheiro

Viva a República. Viva Portugal. Vivam as imagens. Que grande campanha eleitoral.

A Crise da Grécia É Um Grande Rendimento Para a Alemanha

Segundo notícias da imprensa do dia 11 do corrente, a Alemanha ganhou com a crise grega cem mil milhões de euros. Esse ganho resulta da baixa das taxas de juro obtidas nos mercados.

A notícia dá conta que as taxas de juro subiam quando na Grécia se cria que podia haver acordo com os credores. Baixavam com o agravamento da crise.
Dito de outro modo: há nos países do euro quem ganhe milhares de milhões com a crise de algum deles.

O que a Alemanha ganha, perde a Grécia.

As crises pelos vistos destroem a estrutura social e económica desses países, mas, por outro lado, fazem outros países engordarem e ganharem milhares de milhões.

Dentro desta União o que alguns perdem, ganham outros.

Os que ganham são os que têm poder para impor as tais condições draconianas que lhes garantam por mais umas décadas mão- de- obra barata e turismo ao preço da uva mijona.

São os representantes destes usurários sem escrúpulos que impõem a miséria e a fome aos parceiros em dificuldades da União. Haverá alguém com tento na cabeça que ache que é possível uma União nesta base? O Passos , o Portas , a Maria Luís e parece que o António Costa…

Teclar a Solidão

http://www.publico.pt/sociedade/noticia/teclar-a-solidao-1704462

Teclar a solidão?

Há um perigo nas ruas e nos transportes que dão viagem aos cidadãos deste mundo civilizado. Há uma espécie de feitiço que lhes fecham as janelas do mundo e os fazem perder a aventura de namorar o mundo com os olhos; o mundo que se desfruta quando se tem de atravessar uma rua ou um bairro sentado num elétrico ou num autocarro.

Agora os homens não veem as mulheres azuis que o José Gomes Ferreira via sentado no elétrico. Nem as mulheres veem os homens que as viam quando elas se sentavam e num gesto único estudado cruzavam a perna e deixavam-nos pendurados para os dias seguintes.

Nos dias cinzentos que se vão por todo o mundo à espera que a Acrópole não seja transacionado pelo super agente Jorge Mendes recém-casado pela igreja há algo que se não sabe bem o que é e se está perder.

Essa perda não é imediatamente percetível. É algo que alguns perscrutam tal foi o desaforo do escritor José Saramago no seu romance “Tratado de Cegueira”.

Anda no ar essa inquietação dos olhares. Os olhos foram feitos para dialogar com tudo e contudo estão a perder-se esses atributos únicos dos olhares procurando nos outros como colibris à procura do açúcar, no caso dos humanos do açúcar que sempre há nos lagos mais fundos de todos os olhos.

Há um sentimento de que algo não vai bem e os olhos procuram desalmadamente uma foto, uma palavra que não faz a diferença, nem traz a certeza da incerteza do amor, por exemplo, antes a exposição a cores e sem o sabor singular das palavras que nos fazem corar quando as pronunciamos fora do recato que elas nos exigem.

Não dizemos por exemplo meu amor a torto e a direito porque quem o disser sabe que não é de amor que fala, mas de uma espécie de impostura.

O que está a acontecer e se pressente é uma fuga à solidão dos dias tristes, sem crença, perdidos, tentando que a violência dessa solidão se faça esquecer numa oferta de algo que não sucederá porque só sucede o que se constrói com sacrifício e dádiva e não esperando pelo euromilhões ou pelo prémio do Big Brother ou de ser guindado a famoso pela participação no concurso da dança com as estrelas.

Estrelas sem consciência da sua condição de degenerescência tão humana que assusta os que nos querem fazer crer que a vida é uma eternidade entre os vinte e os trinta anos, como se a Sara Sampaio ou a Irina fossem feitas para esquecer as belezas de Lauren Bacall, Sophia Loren, Jane Fonda, Ava Gardner ou Brigitte Bardot.

Não sei o que o Manuel da Fonseca sentiu quando escreveu a loucura que era a Marcha Almadanin, mas é quase certo que a Tuna do Zé Jacinto corria as ruas e arrastava rapazes e raparigas pelas ruas.

O mesmo terá sucedido com a Banda do Chico Buarque quando ela passava e tudo mexia até ao íntimo dos sonhos que temos e não se ficam pela solidão de umas quantas teclas.

Há sob a forma de um silêncio tecnológico uma solidão que não é solitária porque supõe haver um outro algures que responde na mesma onda de não enfrentar o tempo tal como ele é neste Agosto.

Há um tempo de atordoamento que as notícias martelam sobre os dias difíceis que estão para vir e sobre todas as desgraças que estão a suceder no Estado Islâmico, no México, na Palestina, no Irão, em Calais e até na China.

As notícias surgem de minuto a minuto, pois o mundo é tão grande e a minha rua tão pequena e demasiado estreita para os grandes camiões.

As notícias que os órgãos encarregados de as transmitir passam são um rosário inacabado das maldades que por esse mundo correm sem cessar; são aviões que caem, crianças mortas às mãos dos pais, palestinianos assassinados e judeus com medo de andar de autocarro, polícias que matam negros na terra de Obama, homossexuais esfaqueados por o serem, ladroagem e corrupção de um lado ao outro do planeta.

São tantas as más notícias, veja-se que até a Grécia parece que amochou aos ditames dos bancos alemães que a chancelerina representa nas “negociações” com Alex Tsipras, que apetece compreender que se baixe a cabeça e se mire o telemóvel da última geração para apanhar um like ou um jogo ou o que quer que seja que chegue por essa via a quem teme encarar esta realidade.

Teclar, teclar, ficar agarrado a uma rede que impede de pensar e simultaneamente entretém até chegar ao local de trabalho ou depois a casa é um desaperto do nó dos dias cinzentos que não dão sossego a ninguém.

Vivem-se tempos desesperantes. Os desafios são colossais e foram criados pelos únicos capazes de os resolver: os humanos.

Só que entre teclar, acreditar no efémero, na possibilidade da sorte, no encontro fortuito, e enfrentar a realidade vale a fuga.

É talvez esta a razão do silêncio de tanta gente agarrada às teclas dos telemóveis. Lá fora o mundo está encapelado. Porém a cegueira pode conduzi-lo aos abismos. Apesar de à nossa frente se continuarem a sentar os seres mais belos do mundo.

Hiroshima e nagasaki – O Horror Made in USA

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Faz hoje setenta anos que a população de Hiroshima sofreu o horror dos horrores. Quando a cidade acordava foi bombardeada com a bomba atómica que causou de imediata a morte de cerca de setenta mil pessoas.

Os EUA afirmavam perante a Humanidade, destroçada pela grande guerra, o seu poderio militar amedrontando tudo e todos.

Os EUA não hesitaram a dar início à utilização das armas de destruição massiva.

Três dias mais tarde para que o Japão e o mundo soubessem do que os EUA eram capazes foi a vez de Nagasaki sofrer o horror da segunda bomba atómica.

O inimaginável tornara-se uma realidade material. A maldade sem limites vencia todos os travões morais que podem conter a ação de uma violência mortal inaudita nunca experimentada.

A vontade de domínio não se detinha perante as centenas de milhares de vidas que acabaram por vir a perecer.

Esta foi a maneira de tentar mostrar a sua invencibilidade.

Porém a invencibilidade é sempre efémera. A URSS também foi capaz de construir armas atómicas e desde então até aos nossos dias existem armas nucleares suficientes para destruir a vida na Terra umas quantas vezes, o que pode suceder por mero acaso.

Nenhuma arma nuclear é boa. São todas más. E muito piores se em mãos de quem as pense vir a utilizar.

O melhor remédio é eliminá-las todas, incluindo as não declaradas como as da Índia, do Paquistão, de Israel ou da Coreia do Norte.

As armas de destruição massiva deram origem ao monumental embuste usado por George. W. Bush, Tony Blair, Aznar, D. Barroso e Portas para desencadear a guerra ao Iraque.

A verdade é que o Iraque foi destruído a ferro e fogo pelas armas de destruição dos EUA e seus aliados.

A Humanidade que criou toda a riqueza material e cultural que conhecemos e desfrutamos não pode ficar à mercê da vontade de domínio de um ou de um conjunto de países, sendo absolutamente necessário dar passos no sentido da redução e liquidação das armas nucleares.

Poderá parecer um sonho, mas comparado com a capacidade de as produzir, a capacidade de as destruir é milhões de vezes mais fácil e barato.

Aqui entra a diplomacia dos povos e dos cidadãos e do ativismo social. Sabendo que não se pode estar descansado enquanto as armas nucleares existirem há que fazer toda a pressão sobre os governos para as Nações Unidas implementarem a sua redução e eliminação.

Vale a pena perguntar com portugueses que somos: que faz o governo de Portugal sobre esta matéria? É a favor da eliminação das armas nucleares?

A Constituição da República é muito clara no nº2 do artigo 7º ao defender o desarmamento geral simultâneo e controlado.

O certo é que nem este governo, nem o próprio Ministro dá qualquer sinal de preocupação quanto a um problema que envolve a Humanidade e o nosso país sobretudo enquanto país da NATO, portanto no centro de qualquer conflito à escala mundial.

Passaram setenta anos sobre os bombardeamentos de Hiroshima e Nagasaki com todo o cortejo de vítimas inocentes.

Os EUA mantêm a possibilidade de serem os primeiros a utilizar a arma nuclear com todas as nefastas consequências, pois se todas as potências nucleares assinassem um Tratado de renúncia à utilização em primeiro lugar, o mundo seria mais pacífico e estável.

No fundo o sonho de John Lennon “Give a peace chance” está vivo e atual.

Os humanos são capazes do pior, mas também são capazes do melhor. Façamos, então, tudo, tudo para que não voltemos a ter notícias da utilização de armas nucleares em qualquer parte do mundo. Para que os martírios de Hiroshima e Nagasaki sirvam de lição e exemplo.

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E Se Portugal Tivesse Um Ministro dos Negócios Estrangeiros

Pois é, se Portugal tivesse um Ministro dos Negócios Estrangeiros teria uma política externa para se relacionar com a Europa, os PALOP e o mundo. Mas não tem. Tem uma espécie de ministro que numa entrevista ao Público do dia 2 de Agosto fez questão de não esclarecer qualquer dos assuntos abordados e foram muitos.

Sobre a crise na Ucrânia o Dr Machete considera: “Tudo o que aconteceu com a saída de um Presidente e o ingresso de outro …pareceu um resultado de uma competição económica…A anexação da Crimeia, o auxílio manifesto das tropas russas …teve como consequência que a NATO recuperasse a sua razão justificativa”…

Para o Sr Dr Machete na Ucrânia entrou um Presidente e ingressou outro…Muito bem. O que todos pudemos ver foi exatamente à saída de um e à entrada de outro…no meio de uma verdadeira rebelião armada entrou um e saiu outro. Vejam lá.
No que à anexação da Crimeia diz respeito ela justifica a existência da NATO, porém já não existe Pacto de Varsóvia e os antigos membros do Pacto fazem parte da NATO…Dito de outro modo: A NATO ficou sem inimigo.

Além disso manda a História reconhecer que a Crimeia foi sempre russa…e bem se sabe que o Kosovo fazia parte da Sérvia e agora não faz, mas isso são outras águas bem turvas, como as que impedem a milenar Palestina de ser um Estado independente.

Sobre as negociações com os EUA a propósito das Lajes: O Dr Machete não podia explicar melhor o que se está a passar e a sua explicação é esclarecedora – “continuamos a estudar as medidas que possam mitigar a diminuição dos efetivos militares e dos trabalhadores portugueses…”.

Que medidas pergunta o jornalista. A resposta do Dr Machete é uma pérola para o anuário da diplomacia portuguesa: “Vai ser publicado no início de Agosto o relatório do Ministério da Economia, outras coisas estão a ser discutidas , não é o momento oportuno para avançar…”

Quanto ao caráter terrorista do Estado Islâmico: ..”A espetacularidade das acções tornaram indiscutível o carácter terrorista do E.I…” Quem duvidar da citação faça o favor de ir ler.

Quanto à situação política em Angola:…” Não me pronuncio. Acho que não ajuda…”
Quanto à situação política na Rússia: …” Viveu-se na convicção de que a Rússia ia evoluir…para um sistema democrático…”

Quanto à situação política na Guiné Equatorial e à decisão do Presidente Teodoro Obiango de dissolver o poder judicial: …”Não foi um passo positivo… “ Tem de ser ultrapassadas as imperfeições…”

Sobre a eternização no poder de certos Presidentes africanos: …”Acho que o Presidente Obama tem uma posição muito particular …”
Mas reconhece acuidade, pergunta o jornalista….”Há situações que se podem enquadrar…”

Pode concretizar?
…”Não…”

Quanto aos curdos da Turquia: …”Os curdos são um povo…que aspira a uma autonomia e eventualmente à independência…Há uma organização que pratica actos terroristas(PKK)…

Os mesmos curdos que são agora atacados?
…”Isso é outro problema. É a tentativa que os curdos através dessas acções ganhem jus à independência ou a uma autonomia que perturba os planos de Ancara para aquela área e a integridade territorial da Turquia…”

O Sr Dr Machete reconhece que os curdos são um povo mas só se o poder de Ancara não os bombardear porque se bombardear se calhar já não são um povo e não têm o direito à autonomia ou á independência, mesmo sendo a Turquia membro da NATO…
Sobre as botas no terreno para derrotar o E. I.: …Para uma luta eficaz e rápida serão necessárias…Viu-se o exemplo curdo. O facto dos curdos estarem no terreno evitou a tomada de Bagdad…”

É impressionante a pobreza política deste homem que faz de Ministro. Os curdos estão no terreno porque são de lá, do terreno. As tropas dos EUA e da NATO não são de lá; são de outros terrenos, bem longínquos e, por isso, por não serem do Iraque, nem da Síria, nem da Líbia criaram esta loucura em que está a viver o Médio Oriente.

Os espanhóis em 1640 tinham cá as botas, mas não eram de cá e foram corridos.
Os ingleses tinham as botas na América e foram corridos.
Foram as botas da ocupação do Afeganistão, do Iraque e os bombardeamentos da Líbia que ajudaram a criar o E. I. São os nacionais de cada país com a solidariedade dos países e povos que serão capazes de vencere ultrapassar a situação. Foi assim também em Timor-Leste.

É pena que Portugal não tenha um Ministro que com a sua voz fosse capaz de levantar a voz de Portugal para defender os portugueses. Portugal estaria melhor. Mas pensando bem um tal Ministro não seria convidado por Passos Coelho. Eis a razão de ser do Dr Machete como Ministro. Um zero. Pode ombrear com o Professor Cavaco Silva no que toca a dezanove menos um.

Venham os Cães da Nossa Salvação

A Grã-Bretanha esteve na primeira fila (Tony Blair líder do Partido Trabalhista era então Primeiro-Ministro) da invasão ao Iraque tendo participado na ocupação deste país.

Como é mundialmente reconhecido a invasão e a ocupação do Iraque foi, para além de um embuste (alicerçado em mentiras descomunais), uma violação grosseira do direito internacional.

Criou uma desestabilização no Iraque e na região e fortaleceu todos os movimentos jiadistas que se expandiram como nunca para a Síria, Jordânia, Líbia, Egipto, Tunísia e Líbano.

A Força Aérea britânica flagelou as tropas líbias e a Operação Ellamy  e impediu que a Força Aérea líbia usasse os seus aviões.

Também na Líbia esta intervenção levou ao descalabro e desintegração do país onde o Estado Islâmico tem uma força considerável.

A situação na Síria, cujo governo enfrenta os jiadistas e forças apoiadas pelo Reino Unido e outros é desesperante e o número de refugiados atinge os quatro milhões, quase metade de Portugal.

O Iraque, a Síria, a Líbia que eram países que acolhiam cooperantes de repente transformaram-se em países dilacerados cujas populações fogem à fome e à morte, graças a políticas de cegueira pelo petróleo e gás natural.

Para lhes sacar aquelas matérias – primas o Reino Unido arroga-se em país capaz de levar a guerra e destruição àqueles países e a exigir que as populações fiquem à mercê da fome e da morte ou das atrocidades do Estado Islâmico ou outros movimentos jiadistas.

Os que não quiserem viver em condições infra humanas ou morrer e ousarem procurar na Europa condições de vida humanas, o Reino Unido de Cameron já lhe deu as boas-vindas com cães e cercas.

Que morram nas suas terras ou com as bombas inglesas ou francesas ou às mãos dos jiadistas, que morram no Mediterrâneo, que morram, pois se não morrerem, açulam-se-lhes os cães que os mordendo escorraçam de volta à fome e à morte eis a política para os refugiados de David Cameron.

A outrora imperial Inglaterra dá mais um exemplo de civilização emocionante : açula os cães aos deserdados deste planeta, aos fracos sem comida e sem teto, às crianças indefesas, àqueles que caminham vindos do Paquistão e do Afeganistão e atravessaram a pé o mundo, aos que passam, tal é o desespero, o Mediterrâneo em barcos de borracha.

Mais para o centro da Europa um dos países que com a Áustria formava um império é mais radical: um muro para que ninguém passe.

Cameron não poderia construir um muro no mar; a Hungria tem ou teve almirantes mesmo sem ter mar, mas tem um lago, o Balaton e uma fronteira com a Sérvia por onde vêm os inimigos famintos e andrajosos.

Esta Europa desenhada deste modo pelos ingleses, alemães, franceses e norte-americanos bombardeia com o mais sofisticado que há em matar, os últimos gritos da moda.

A quem não aceitar morrer em casa pode ter que morrer entre Calais e a pátria do Sr Cameron, a bem do nível de vida europeu baseado nas matérias-primas dos esfomeados da Terra e nas bombas inteligentes ocidentais. God save the queen.