Nova vaga de prisões na Arábia Saudita

 

Na Arábia Saudita, nas últimas semanas de maio, foram presas, segundo noticias várias, dezassete ativistas dos direitos humanos e, pelo menos, sete são mulheres que ousaram falar para os media, o que põe em causa a segurança do reino, de acordo com as autoridades.

As prisões aconteceram precisamente antes do início da entrada em vigor da nova lei que permitirá às mulheres fazer exame de condução, e são um aviso aos ativistas dos direitos humanos que a opressão e a repressão continuam vigentes e não irão permitir outras veleidades, como sejam a de as mulheres se considerarem cidadãs, como os homens.

A monarquia saudita constitui um caso totalmente anacrónico no nosso mundo. O reino vai-se o aguentando com os lucros fabulosos dos poços de petróleo e através da repressão cruel contra a população que não aceite o absolutismo e, em especial, contra as mulheres, tidas como seres inferiores.

Pode imaginar-se imaginar um país onde estão proibidas salas de cinema? Em que uma mulher só pode sair à rua com a permissão do marido ou de um homem da família? Ou em que o marido ou outro homem é que decide do tratamento médico a dar à mulher doente? Ou em que as mulheres não podem conduzir veículos automóveis?

Bem pode o príncipe herdeiro Mohammed Ben Salmane anunciar, com pompa e circunstância, o seu programa “Visão 2030” como um conjunto de reformas para dar às mulheres um papel de cidadania que nunca tiveram.

Bastou algumas mulheres falarem aos media para que o reino dos sabres se sentisse em perigo e logo caísse e repressão prendendo esses dezassete ativistas dos direitos humanos.

O terror quotidiano que se abate sobre os sauditas é um incómodo para os governos ocidentais. A monarquia saudita, devido aos cheques pela compra de montanhas de armas para ocupar o Iemen e intimidar vizinhos, não teme os vendedores.

Nessa “Visão 2030” as mulheres poderiam em certas circunstâncias conduzir a partir de 24 de junho tal, como noutras, já puderam ir aos recintos desportivos.

Nessa “Visão 2030” que Trump elogiou a primeira das condicionantes é saber quem vai dar aula de condução às mulheres dada a proibição de homens e mulheres interagirem naquele país.

Se até 24 de junho as mulheres não podiam conduzir, certamente não haverá instrutoras para ministrarem as aulas teóricas e práticas.

Serão seguramente homens que ensinarão as mulheres a conduzirem, o que chocará com os fundamentos daquele país, na medida em que colocará um homem a falar com uma mulher dentro de um carro, o que constitui um sacrilégio…

Bem pode a “Visão 2030” proclamar que as mulheres poderão, por exemplo, frequentar estádios desportivos, porém mantem-se a questão – as mulheres podem andar sozinhas na rua? Se não podem, como é possível irem aos estádios?

A campanha para embelezar o reino das degolações nas madrugadas das sextas-feiras é um verniz para esconder a sujidade de quem não é capaz de aceitar que os cidadãos, particularmente as mulheres, sejam minimamente livres de falar, reunir, organizar-se e de ter a crença religiosa que decidirem.

O verniz é de tal ordem que uma das princesas Hayfa bint Abdullah-Saudi se sentou ao volante de um luxuoso descapotável na capa da revista Vogue, mas apenas para tentar com a foto enganar o mundo e tapar a realidade. Na verdade, como se vê na Vogue, a princesa pode sentar-se num descapotável e ao volante…e o resto? Aliás a foto suscitou em todo o mundo árabe inúmeros comentários desmistificadores da “Visão 2030”.

Entretanto as cadeias continuam à espera de quem ouse dizer que o reino saudita é o que é, uma instituição que não se compadece com os maiores anacronismos e iniquidades como sejam o de respeitar os mais básicos direitos que se respiram no mundo e sufocam naquele país. Na verdade, qual é o país que impede uma mulher de andar na rua sozinha? De ir ao médico sem um homem? De ir aos estádios? De conduzir?

Texto do Público online

Trump troca uma cimeira por uma carta e uma ameaça

TRUMP TROCA UMA CIMEIRA POR UMA CARTA

 

Haveria alguém, neste mundo, que acreditasse que a liderança da Coreia do Norte fosse desmantelar o seu arsenal nuclear e deixasse que no Sul continuassem intactos centenas ou milhares de misseis nucleares prontos a atingirem o Norte ou a servirem de chantagem para a sua rendição?

Haveria alguém, neste mundo, que acreditasse que Kim Jong Un e os seus correligionários fossem desmantelar o seu arsenal nuclear com base em promessas sem qualquer garantia de que se efetivassem?

O Sul sabe que precisa dos EUA, mas também sabe que em caso de conflito nuclear a Coreia no seu conjunto ficará reduzida a montes de escombros, bem se sabendo que em matéria de novas tecnologias e na indústria automóvel competem diretamente com os EUA.

A Coreia do Sul não quer ficar à mercê de Trump, sempre imprevisível e arrogante. É legítimo pensar que o Sul ainda queira, tal como o Norte, desnuclearizar toda a Península, afastando deste modo as possibilidades sempre reais de um conflito nuclear.

No fundo as duas Coreias ficariam livres desse pesadelo e libertariam recursos para outros fins.

A viagem súbita e inesperada de Moon-Jae-In a Washington logo que Kim Jong Un adiantou a hipótese de um adiamento da cimeira com Donald Trump, mostrava a importância que tinha para aquele país a realização da cimeira.

Não era credível que Kim Jong Un tivesse aceitado a cimeira com Trump com base no seguinte pressuposto: liquidar o arsenal nuclear, sem mais nada da outra parte.

Podia haver “bluf” dos dois lados. Do lado da Coreia do Norte para se apresentar com outro estatuto na comunidade internacional e, do outro lado, para amortecer o choque da declaração a rasgar o Acordo Nuclear como Irão e os restantes países signatários.

A Coreia é uma nação milenar, com uma cultura ímpar, que enfrentou poderosos inimigos ao longo da sua história. Tem passado. Sabe o que é uma negociação, podendo, como todos os negociadores, fazer uma má avaliação dos seus trunfos, tanto do lado Norte como do Sul. Mas também tal erro era possível por parte de Donald Trump, sobretudo se partir para as negociações com imposições que para Kim Jong Un eram inaceitáveis.

Haveria alguém, ao cima da Terra, que acreditasse numa negociação em que uma das partes( como foi referido por Pompeo) tinha zero de concessões a fazer e a outra entregava de mão beijado o seu único ás ?

Em linguagem simples o que o Secretário de Estado propôs à Copreia do Norte foi a rendição pura e simples e não uma negociação. Era de crer que Kim Jong Un aceitasse?

Não era de esperar que o regime coreano aceitasse pura e simplesmente desmantelar o seu arsenal nuclear, sem ter garantias de que não ficava à mercê dos EUA que têm cerca de trinta mil soldados e armas nucleares estacionadas no Sul.

Admite-se como muito provável que o Presidente Moon-Jae-In quisesse afastar um perigo enorme que sobre o Sul recai, em caso de conflito.

Se o Norte desmantelasse o seu arsenal, se na parte Sul deixasse de haver armas nucleares, era claro que haveria um alívio para toda a Península.

E os vizinhos também poderiam respirar melhor, dado que a China o grande vizinho, a última coisa que deve desejar é um conflito na sua fonteira; tal como a Rússia.

Kim Jong Un quis assegurar que ficaria à frente do Norte para negociar com o Sul, muito mais desenvolvido e poderoso. Seria possível esta última hipótese? Era a única possível para afastar o perigo de guerra.

Trump nada tinha para negociar com a Coreia do Norte. Zero como afirmou Pompeo. Como Kim Jong Un não se rendeu, voltará a linguagem da guerra, que costuma trazer maus tempos. O mundo fica agora mais perigoso.

Texto publicado no Público online de hoje

 

Segredo de justiça- vergonha às escâncaras

 

Como todos os portugueses têm constatado elementos cruciais dos processos penais que envolvem figuras “famosas” do país aparecem escarrapachados em jornais, revistas e televisões.

Sejam processos de dirigentes desportivos, sejam outros ligados aos poderosos políticos ou à área do poder económico.

Bem podem as autoridades judiciais alegar que os processos estão em segredo de justiça. A verdade é que interceções telefónicas, documentos, e outros meios de prova aparecem a alimentar a voracidade dos cidadãos.

Ora o Estado é uma entidade que detém o poder de reprimir o crime, de proteger os cidadãos, incluindo os arguidos, assegurando o exercício do segredo de justiça, nos casos em que ele é declarado, dado que em geral vale a publicidade do processo.

Dito de outro modo: o Estado não deve falhar naquilo que são as suas atribuições, as quais foram definidas pelo legislador, o que lhe impõe essa obrigação, tendo, como se sabe, meios para fazer. E se os não tem, deve adquiri-los

Quando o Estado não é capaz de fazer cumprir uma das obrigações mais elementares do Estado de direito democrático, a de manter em segredo indícios que levam alguém a ser constituído arguido, e permite que seja vertido na praça pública aquilo que devia estar circunscrito aos agentes da justiça, lança na comunidade a discussão destemperada em que todos opinam a partir dos elementos soltos e de pura conveniência para a investigação ou arguidos.

Esta realidade significa que funcionários, magistrados ou advogados (menos hipóteses) que têm acesso aos autos passam para os media o que não deviam passar.

Há arguidos que por clubismos, outros por dinheiro, aliciaram ou tentaram aliciar quem pudesse favorecer determinados clubes.

Haverá, pois, no meio judicial, quem, a troco não se sabe bem de quê, passe para os media elementos que era obrigatório estarem em segredo.

Tal situação vem demonstrar que o Estado, apesar de todos os meios de que dispõe, não é capaz de fazer cumprir um comando legal cujo impacte social é enorme.

Quando o Estado não é capaz reiteradamente de fazer cumprir essa determinação significa que falha estrondosamente.

E se ao longo de décadas não é capaz de assegurar esse objetivo só tem um caminho: declarar que não é capaz. E explicar a razão de não ser capaz de assegurar o mínimo dos mínimos.

Cada vez que abre um inquérito para averiguar as falhas e as violações do segredo de justiça, toda a gente vislumbra o resultado: arquivamento.

Assim sendo, o Estado, nomeadamente, por via do poder executivo (governo) deveria ter a coragem de terminar com este faz de conta.

Ao manter-se a atual situação ela apenas serve para desacreditar ainda mais a justiça que já anda pelas ruas da amargura.

Sempre que o segredo de justiça envolve os grandes é desnudado na praça pública e, como fica impune, todos os que o violam se sentem aliciados a continuar. Seja por dinheiro. Seja por tática processual. Seja pelo que seja. É uma vergonha. Dá para pensar que há quem viva nos meios judiciais deste expediente e pareça estar mais preocupado em condenar na praça pública do que Domus Justitiae.

Quantos arguidos foram condenados na praça pública de crimes gravíssimos de que mais tarde vieram a ser absolvidos?

É uma vergonha que os media possam ser uma espécie de ata onde os cidadãos se podem refastelar com os segredos que são usados como alimento das multidões e forma expedita de fazer justiça, sem a fazer .

Um Estado que no seculo XXI age deste modo não está em bom estado. Se os portugueses têm razões ancestrais para desconfiar do Estado, com este estado de coisas ainda ficam com mais.

Ou o Estado assegura o segredo de justiça nos casos em que deve garantir o seu cumprimento, ou então que assuma a coragem de declarar que não é capaz de fazer respeitar a Lei Fundamental e o C.P.P.

 

O sangue azul real e o sangue verde do Sporting

 

 

Os acontecimentos do mundo do futebol, que tiveram início com a derrota do Sporting no Funchal e se prolongaram com o assalto e agressões aos jogadores do SCP na Academia de Alcochete e com a derrota no Jamor frente ao Aves, têm sido explorados até à náusea pelos media.

Só o casamento de um homem que tem como profissão ser nobre com uma plebeia atriz estadunidense rivalizou com semelhantes acontecimentos.

Parece não haver ninguém que não tenha uma opinião convicta sobre o que se passou no assalto à Academia, o qual passou a ser um caso nacional de vergonha, segundo a vox populi.

Ou seja cinquenta bandidolas, armados de sportinguismo, cintos e tochas, assaltam e agridem cidadãos jogadores e treinadores de futebol e durante uma semana o país para para saber o que vai fazer Bruno de Carvalho.

Parar não parou porque a semana terminou com um casamento real. Sim ainda há casamentos reais no Reino Unido, onde uma família real suga do erário público dezenas de milhões de libras para não fazer nada, a não ser vender ao público as suas desavenças, invejas, traições e casamentos. Esperemos para ver o que isto vai dar.

O mundo maioritariamente republicano não pode perder um casamento real, porque na maioria dos casos nem sabe o que isso é, e daí aguardar para saber se o pai da noiva iria estar ou não, dado o que se sabe.

Mas para que não ficássemos estes dias todos feitos basbaques a olhar para aqueles vestidos, fraques, fardas, tapetes, candelabros, coches, carros, castelos, palácios e outros que tais, os portugueses que há mais de cem anos aboliram a monarquia, viraram-se para o rei de Alvalade, o duque de Alcochete, D. Bruno, o homem capaz de armar trezentas guerras ao mesmo tempo.

Sem dúvida, nestes dias, até o governo descansou, menos os professores que tiveram que fazer em Lisboa a coisa mais simples do mundo: reafirmar que o tempo de trabalho conta para a reforma.

O Presidente da República, cheiinho de afetos, aguardou até à última para se certificar que não ficaria ao lado do sportinguista mais famoso de momento. É que sangue azul não é a mesma coisa que sangue verde.

O sorriso de Pinto da Costa

Os Presidentes do futebol populistas que se guindaram ao cargo, tendo como objetivo derrotar o FCP, tanto no SLB como no SCP, tiveram um triste destino.

O primeiro foi Vale e Azevedo correu com José Mourinho e percorreu o país a vociferar contra o FCP e Pinto da Costa. Abusando da demagogia chegou a ir às Antas para o meio dos adeptos benfiquistas, como se isso lhe desse a vitória que havia de se emergir das quatro linhas, onde perdeu.

Como é sabido acabou fugido e mais tarde preso e condenado por crimes graves. Vale e Azevedo sendo advogado e tendo muitos recursos na arte de ludibriar desconhecia então as artes subterrâneas próprias dos bichos de focinho afiado.

Por muito que o tempo passe convém ter presente como acabou o reinado de Vale e Azevedo. Apesar do apoio entusiasta dos adeptos que ficam cegos com as promessas sempre adiadas, mas sempre anunciadas em clima de histeria contra o “inimigo”, Vale e Azevedo acabou muito mal.

Agora foi o SCP que elegeu um Presidente que se “chateia” com as brutais agressões aos seus jogadores e treinadores, que acha que é o normal porque há que conviver com o crime, e que foi eleito tendo como um dos objetivos derrotar o velho e ultrapassado Pinto da Costa, totalmente fora de tempo.

Foram muitas as tiradas ignominiosas contra a idade de Pinto da Costa, contra o FCP e por aí fora. Tudo num clima de perfeita histeria.

Mais tarde contra o SLB. O homem, justiceiro, o único, o que confunde família e SCP, que delira andar nas bocas do mundo e nas revistas cor-de-rosa, afinal é o que é, o que sempre foi, um bluff, um zero, um fulano que só promete e nada consegue. Um egocêntrico totalmente destrambelhado. Alguém que face à violência gratuita e brutal em Alcochete contra os jogadores e a equipa técnica do SCP, afirma displicentemente que é chato assistir aos telefonemas dos jogadores para a família a queixarem-se. Que pensa o homem que deviam fazer os agredidos? Pedir-lhe socorro?

Foi a este homem que os sportinguistas deram mais de 90% dos votos para o amansar, dado que a fera ameaçava ir-se embora e deixar os notáveis e os fundamentalistas solitários na sua vontade de ganhar. E ganhar a todo o custo, seja no andebol seja no futebol.

Bruno de Carvalho vai cair com todo o estrondo, provavelmente pisado pelos seus apoiantes. Os que o guindaram a vedeta nos media dão-lhe agora o cadafalso.

No Porto, Pinto da  Costa de cima da sua idade ri-se. E arrecada mais um título.

Todos estes palestinianos mortos não valem a expulsão de um diplomata?

 

 

Israel matou noventa e dois manifestantes palestinianos, desarmados, e feriu de dois mil.

A maioria foi morta e ferida no dia em que Trump ilegalmente inaugurou a embaixada dos EUA em Jerusalém.

No seu apontamento Trump afirmou estender a mão aos vizinhos e, nesse gesto de paz, o seu grande amigo Netanyahu mandou os seus soldados puxarem pelo gatilho e matarem a peito descoberto mais de cinquenta palestinianos.

Parece que o mundo pouco se importa que sejam assassinados centenas ou milhares de palestinianos …

Do que o mundo ocidental se importou foi com os alegados mortos sírios com gás. Esses que ninguém confirmou terem sido assassinados com gás tiveram uma relevância que levou a que Trump, Theresa May e Macron ordenassem o bombardeamento da Síria. Porém, na frente de todo o mundo, na terra palestiniana ilegalmente ocupada Israel, sentindo as costas quentes com o apoio de Trump, os soldados israelitas, por ordem do governo, assassinaram a tiro dezenas de palestinianos que se manifestavam no solo dos seus antepassados.

E, no entanto, nenhuma potência ordenou o bombardeamento de Israel; nenhuma potência expulsou diplomatas do país fora da lei; e em Belém, e no Palácio de São Bento e nas Necessidades ninguém chamou o embaixador.

Neste mundo em que as palavras são atravessadas pelo veneno das conveniências e interesses mesquinhos quantos milhares de palestinianos têm de morrer para que termine esta carnificina e a lei internacional seja cumprida?

Sim, já compreendemos que de Trump só se pode esperar brutalidade, irresponsabilidade e desfaçatez.

É o que se tem visto. Mas a outra pergunta que cabe fazer pode ser esta – mas o mundo tem de se agachar e submeter-se à brutalidade e à desfaçatez?  Ainda de outro modo: mesmo que Merkel, Macron, May e tutti quanti se agachem, é possível ao mundo erguer-se contra esta brutalidade?

É possível porque o que se passou em Timor-Leste mostrou-nos que os poderosos, a partir de certa altura, já não podem continuar a puxar pelo gatilho porque o mundo não aceita.

Temos, então, que aguardar por quantos mais dezenas, centenas ou milhares de mortos palestinianos para que o nosso mundo desligue do seu quotidiano e dê atenção aos palestinianos que tiveram a azar de viver ao lado de uma das potências mais ofensivas do nosso planeta.

Não é com balas reais que se enfrenta quem se manifesta pela sua liberdade de afirmar que os territórios ocupados depois da guerra dos seis dias em junho de 1967 são palestinianos e reconhecidos pelas Nações Unidas como tal e que Jerusalém Leste deve ser a capital da Palestina.

Aqui não são precisos peritos, nem perícias, o que é preciso é apenas respeitar a Resolução 242 do Conselho da Segurança da ONU.

Quantos diplomatas israelitas vão ser expulsos? Que vai fazer a União Europeia? E Portugal?

Desde que Trump rasgou o Acordo assinado com o Irão a escalada do conflito não parou de subir.

Netanyahu sente-se bem com o apoio de Trump. É também a forma de fugir aos graves crimes de que é acusado no seu país, aliás tal e qual como o que se passa com Trump, sempre na mira de diversas investigações criminais.

São estes homens que detêm o poder de ordenar aos soldados que disparem e matem friamente.

Será a humanidade capaz de ir em socorro dos que na sua terra são mortos como se fossem presas de caça e exija que se respeite a lei e as Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina?

(Texto publicado no Público online)

 

 

A corrupção da palavra amigo

 

A amizade é um sentimento nobre que torna os seres humanos melhores e capazes de se suplantarem a si próprios, enquanto portadores de interesses da sua esfera individual.

A amizade percorre a vida parede meias com a solidariedade e ambas caminham de mãos dadas fazendo a diferença com os outros reinos animais.

Talvez, para além do amor, a amizade possa ser o sentimento mais nobre pelo seu altruísmo.

Na vida, por mais que nos esforcemos, entram e saem amigos; nunca sabemos quanto dura uma amizade.

As amizades, porém,  não têm a mesma fonte. Há as que são “puras” que resultam do encantamento da vida e tudo o que se dá ou recebe vem de um impulso generoso e espontâneo.

Há, porém, outros conceitos de amizade que não se encaixam nesta bitola. É um mal de todas as épocas, mas que na atualidade tende a desenvolver-se pela transformação dos sentimentos numa espécie de produto dos mercados que comandam nas nossas vidas.

Nesta ordem de ideias se o que interessa é ter meios materiais capazes de determinar uma posição social de relevo a quem os possui, então ter amigos poderosos constitui um meio caminho andado para vir a ser como um deles, bastando fazer as coisas certas, nos momentos certos.

Ser amigo pode ser uma alavanca para subir na vida.  Dizia-se e ainda se diz que quem tem amigos não morre na cadeia, tendo em conta os tempos em que se podia ir parar à cadeia por falta de pagamento de dívidas.

A palavra amigo foi também corrompida nos seus diversos sentidos. A corrupção também entra na semântica. Se tudo pode ser corrompido, por que carga de água havia a semântica de ficar fora dela?

Ser amigo pode, por isso ser uma arte, um modo de vida. O amigo insinua-se junto do outro amigo. Cativa-o, não à maneira da preconizada por Saint Exupéry, mas com ela fisgada… se o amigo for dos de cima, dos que mandam, dos que têm pasta, dos que são considerados no plano social, é bom cativar, é bom pertencer ao círculo e acabar por tirar partido da riqueza, do poderio, da influência do amigo…

Estabelece-se com alguma facilidade um círculo de amigos que se unem para em nome de uma causa dela se aproveitarem e fazerem entrar no seu património riquezas( grandes ou pequenas) que de outro modo não alcançariam.

Nestas circunstâncias pode (admite-se) haver amizade, mas o que existe é um pacto expresso ou consentido entre estes indivíduos para tirarem partido dos poderes de cada um ou de um deles.

Neste momento , na sociedade portuguesa tresanda a presença de Ricardo Salgado em tudo o que constitui casos de grande corrupção. Ele e os seus homens bem colocados.

Esses amigos traçaram planos para que as coisas fossem capazes de acontecer de modo a que tirassem benefícios patrimoniais ou de outro tipo.

É de admitir que haja nesta amizade alguma humanidade, mas o que marca a alma destes protagonistas é tudo fazerem para enriquecerem em prejuízo da comunidade.

Em princípio, quem se considera amigo de um suspeito de ter cometido graves crimes ou é porque de todo não o imaginava capaz de os cometer ou vindo a saber esse factos com eles se conforma e continua a agir como se aquele cidadão fosse o que não foi e não é. E é cúmplice no terreno da cidadania.

Quando não se deixa cair um amigo na cadeia tem-se em vista salvar alguém que por um azar da vida e dos negócios acabou na miséria e eventualmente praticou ilícitos criminais que o amigo considera serem passiveis de comiseração e ajuda.

Outra coisa é a imputação de graves crimes a alguém que exercendo altíssimos cargos se apoderou de bens que lhe não pertenciam em prejuízo do bem público, fazendo-se passar por um desses ricalhaços capaz de tudo comprar.

Só pode merecer o repúdio porque a amizade não deve ser um jogo para subir na vida.

Os amigos, é verdade, são para as ocasiões, mas as negociatas geram homens e mulheres interesseiros, capazes de sacrificar os interesses da comunidade em seu proveito.

Trata-se também, para além do problema de caráter criminal, de um problema político que não se resolve por via legislativa, antes com mulheres e homens honrados que se não deixam aprisionar pelo poder económico.

Texto publicado no Público online hoje

 

 

Os acordos são para rasgar, segundo Trump?

 

Pacta sunt servanda, sustentavam os juristas romanos e com toda a razão. Na verdade, os pactos são para serem cumpridos. Assim agem todos os que negoceiam de boa fé e com sentido de honestidade. Um acordo significa o fim de um caminho, por vezes longo, em que os diversos pontos em conflitos se alisam de modo a que todos os envolvidos sintam que podem selar o resultado final, isto, é o acordo.

Esta filosofia é válida para contraentes particulares como para os Estados, aplicando-se aos primeiros o direito privado e aos segundos o direito internacional.

O Acordo que envolveu o Irão, os EUA, a Rússia, a Alemanha, a França e o Reino Unido foi o resultado de anos de negociações e que levou a que todas as partes o assinassem e pudessem concluir um conjunto de clausulas negociadas ao milímetro, através das quais, em suma, o Irão renunciava ao fabrico da arma nuclear e eram levantadas as sanções que sobre aquele país impendiam.

Com Trump na presidência dos EUA, os acordos celebrados não valem nada. Só valem os que lhe interessarem – Trump first . Sejam os acordos celebrados com os seus advogados com uma atriz de filmes pornográficos, sejam os Acordos de Paris sobre clima, sejam os Acordos com o Irão, sejam o que forem com quem forem. Para Trump o que conta são os seus interesses e os dos multibilionários que o apoiam.

A desgraça é que esta figura saída dos fundos mais reacionários da América do Norte suscita na União Europeia a condescendência de muitos governos, designadamente da França de Macron ofuscado pelo brilho doirado das riquezas de Trump, de Teresa May e ao que parece também de Angela Merkel a propósito dos Acordos assinados com o Irão.

Se o que estivesse em causa não fosse o perigo de uma guerra devastadora pareceria uma peça teatral de baixo nível e de mau gosto com Netanyhau a desempenhar o papel de ponto e a esganiçar-se para apontar o dedo às armas nucleares do Irão, que só ele as vê.

A encenação está gizada: Macron, o reformador da sociedade a favor dos super-ricos, foi a Washington “convencer” Trump a não rasgar os Acordos.

Para tanto ele e Trump exigiriam ao Irão que eliminasse os seus misseis com alcance superior ao das suas fronteiras, sendo que Israel, Arábia Saudita manteriam os seus e Israel continuaria a deter a arma nuclear apesar de ser o Estado mais fora da lei do mundo.

Tal como Trump, os dirigentes israelitas entendem por direito internacional um conjunto de procedimentos que lhe permita, seja qual for o preço, impedir o respeito dos direitos nacionais do povo palestiniano tal como decorre da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU.

Ou seja o prevaricador deverá ser premiado e o Irão que assinou acordos com as principais potências através dos quais assumiu não produzir a arma nuclear (que Israel tem) deve ser brutalmente penalizado e ser privado das suas defesas.

Há alguém em seu perfeito juízo que pense que o Irão, um país milenar, de onde saiu parte da nossa civilização, vá aceitar semelhante traição aos seus próprios interesses nacionais…Claro que todos sabem que não aceitará e que os EUA, Israel e ao que parece Macron, May e Merkel se colocarão ao lado de Trump e Netahyhau para impor sanções ao Irão com o pretexto da ameaça dos misseis iranianos sendo, em abono da verdade, que os misseis israelitas e sauditas que matam palestinianos na sua própria terra, iemenitas no seu país, são bons porque são dos amigos do coração ou made in USA a troco de cheques que fazem a América great again…

No fundo Trump e os desavergonhados que o apoiam nesta maquiavélica encenação o que propõem é mais ou menos isto: o Irão não pode ter misseis, mas os Estados do Golfo  podem continuar a ter porque esses misseis são bonitos e inteligentes produzidos no complexo militar-industrial dos States.

Para Trump o mundo resume-se às Torres na 5ª avenida e ao seu campo de golf na Florida ao pé das Caraíbas onde outrora reinavam os flibusteiros. Trump quer reduzir o direito internacional a uma arena onde se digladiam não Estados e nações com normas a regularem o seu comportamento, mas verdadeiros piratas a imporem a lei do saque.

 

Texto publicado no Público de 08/05/2018

La pauvre France de Macron

Os franceses têm, ultimamente, eleito Presidentes da República com enormíssimas votações, arrependendo-se mais tarde.

Sarkozy foi copiosamente derrotado por Hollande, que por sua vez nem se recandidatou e fez com que o PS quase desaparecesse do mapa eleitoral. Entretanto, entronizaram como Presidente o homem da economia de Hollande, que saiu a tempo do governo para se lançar à conquista da França.

Bastou para tanto anunciar que ia reformar e mudar a politica e ao que parece os franceses gostam destas mise-en-scène, ou seja, têm uma certa sedução por serem enganados e poderem continuar a criticar os de cima, isto é, aqueles que elegeram para mandar nos de baixo.

A grande França que De Gaulle encarnava posicionava-se como ponte entre o Ocidente e o Leste eclipsou-se. Com Pompidou e Giscard, ainda houve uns ares de De Gaulle.

Com o socialista Miterrand começou o grande alinhamento com a NATO, os EUA e a Alemanha, sobretudo depois da guerra contra a Jugoslávia.

Chirac teve a grande dignidade de não embarcar na invasão do Iraque a toque de caixa de Bush/Blair/Aznar/ e os ajudantes de campo Barroso e Portas.

Agora com Macron no Eliseu, a França, que no terreno económico-social perde cada vez mais competitividade, vira-se para onde pensa que é grande, por ser potência nuclear, tentando mostrar à Alemanha a sua indispensabilidade como parceiro maior.

Macron, o homem dos poderosamente ricos, foi visitar o amigo Trump, outro que tal a adorar salas cheio de peças de oiro e de requintes de grande riqueza.

Macron, levado pela mão de Trump, deslumbrou-se de tanto protocolo, de tanta “importância” ao lado do Presidente do país mais rico do mundo à espera de receber Merkel, para quem Macron e Trump perdem em termos da economia dos respetivos países.

Antes da chegada de Merkel, Macron foi a correr para andar de mão dada e aos beijos ao Presidente mais impopular dos EUA e que quer apunhalar a Europa com a anulação do acordo com o Irão assinado pelos EUA, Alemanha, Reino Unido, França, Rússia e Irão, além de querer impor eventuais taxas sobre produtos provenientes da U.E.

Macron ficou deslumbrado com o fausto das várias encenações trumpianas para o ouvir vacilar quanto ao modo de lidar com o Irão.

Macron levou a França a rastejar diante de um homem que não deve saber, nem sequer conhecer a história da França tão cheia de contributos para a civilização que vivemos.

Macron sempre esteve com os mais poderosos da terra, nomeadamente os Rotschild, depois foi para o governo para dar o salto, abandonar Hollande e ficar no Eliseu, imaginando-se nas Torres de Trump , onde tudo reluz e ou tremeluz.

O homem que corta os impostos aos muito ricos em França e castiga os pobres só podia dar-se muito bem com o homem que quer fazer um corte histórico de impostos aos mais ricos dos EUA. Têm ambos a mesma ambição, serem benzidos pelas poderosas mãos dos fabulosamente ricos.

Para esse fim Macron participou ao lado de Trump nos bombardeamentos à Síria, portando-se como ex-potência colonial daquele país, criando a ideia, não comprovada, de que o regime sírio teria lançado armas químicas contra a população, no preciso momento em que os “rebeldes” jiadistas que atacam a França e os franceses eram derrotados pela aliança entre os sírios e os russos.

A França que vive por estes dias cinquenta anos de comemoração das barricadas de Maio, levou a Washington, à sala oval, um Presidente a deixar cair máscara com que tapava o verdadeiro rosto de um homem igual a tantos outros que passaram pelo Eliseu para defender os muitos poderosos e atacar os povos e países de África e do Médio-Oriente. França, a grande França, transformada na pobre França de Macron.

Texto publicado no Público de 01/05/2018       

 

 

A minha última noite

Quando o Jorge me abordava com o peso do mundo no olhar e me dizia:

– Camarada Estrada precisamos de uma casa para reunir – era como se a circulação do sangue acelerasse e eu sentisse nas fontes o bater do coração aos saltos. Tudo se passava num primeiro instante, depois o coração não explodia.

A casa situava-se na Rua Passos Manuel, raso ao do Jardim Constantino. Do quarto avistávamos, naquela longínqua noite de vinte e três de abril de mil novecentos e setenta e quatro, a rua no sentido da Estefânia.

As regras conspirativas impunham que os estores fossem corridos, e quando caíram num lanço firme três jovens sentados combinaram que se a polícia viesse e quisesse saber o que fazíamos responderíamos que estávamos a combinar a encenação de uma peça de teatro, eramos os três do Cénico de Direito.

As notícias que o Jorge tinha para me dar eram um punhal que entrou algures no mais fundo do lado invisível do corpo:

– Foste denunciado, deves ter em conta que podes ser preso, todos os cuidados são poucos. Deves manter-te afastado de nós e ao entrares e saíres de casa certifica-te que não há ninguém a seguir-te.

Concordaram que a primeira cautela era a de limpar o quarto de toda a propaganda, o que devia ser feito logo que eu pudesse.

A reunião foi curta. Por disciplina deveria seguir um rumo contrário ao que tomaria para ir para a minha morada.

Na Avenida Almirante Reis revoltado, pensei voltar para trás e desobedecer às regras conspirativas.

Por entre as gentes da noite sentia raiva, iria ser preso e, no entanto, os outros divertiam-se. E se eu deixasse cair a causa? Não era por mim que lutava… Aquela gente a divertir-se nas cervejarias cheias e eu carregando o peso de uma prisão e o da guerra colonial.

Havia instantes que a desistência parecia mais forte, depois voltava o imperativo da consciência.

Não sei como alguém que não conhecia de lado nenhum se me dirigiu a perguntar por algo que já não recordo. Acabamos a beber imperiais e a falar do que ele procurava, putas.

O meu interlocutor era caixeiro-viajante e viera da guerra de Angola e mesmo no Intendente só montava com a pistola por perto, ganhara o hábito nos longínquos cantos do leste angolano. Era certo que sem a pistola a coisa não funcionava; já experimentara mais do que uma vez e não dava.

Ao fim de três imperiais arranquei rua abaixo em direção à rua da Palma, Deixei o meu amigo de ocasião e segui a remoer a inconsciência dos meus compatriotas perante a ditadura; uns na cadeia, outros nos copos.

Era tarde, muito próximo de apanhar o último metro. Em Sete Rios hesitei se devia ir a pé ou autocarro.

Precisava de apanhar ar fresco, de assentar como devia fazer desaparecer os panfletos que tinha, sem que os colegas vissem. Fui retardando a entrada, esperando que todos dormissem no terceiro esquerdo, o último piso.

Numa pequena mala de viagem meti todos os panfletos. Pela escada de serviço subi ao telhado e deixei a mala no telhado do prédio da esquina da Estrada de Benfica, já na Rua Duarte Galvão. De cima do telhado avistavam-se os quintais nas traseiras da Estrada de Benfica e da Rua Duarte Galvão. Os reflexos da luz davam para ver as nêsperas já amarelas e assustei-me quando vi o guarda noturno a vigiar a rua. Depois acalmei eu via-o, mas ele não me via.

A noite não passava e eu não dormia. O que me atezanava a alma era ser preso, torturado e sabe-se que lá por quantos anos. Nestas ocasiões não conseguimos impedir que nos cheguem à mente os sentimentos mais inesperados: porquê arriscar tudo pelos outros? Merecerão? Que sacrifícios devemos consentir? Toda uma vida? Passar a vida na cadeia?

Há nestas alturas a perda da noção do próprio tempo, só tinha na mente aquela dolorosa incerteza.

E no meio do sobressalto tocou a campainha. Só tive tempo de me regozijar por me ter livre dos panfletos, mas vendo as horas não devia ser a PIDE, eram quatro horas; abri a porta; era V. que me atirou de chofre:

– Não estás a ouvir a rádio?

– Não!

– Há um golpe militar.

O susto foi ainda maior. V. era um homem dos seus quarenta anos. Fumava cigarros uns a seguir aos outros. Bastava-lhe um fósforo. Tinha quase a certeza que era do partido. Os olhos de V. pareciam luzes no meio da sua barba espessa.

Disse-lhe:

– Deve ser o Kaúlza. Estamos feitos. Se eles tomam o poder matam-nos.

  1. olhou para mim e só me perguntou:

– Liga o rádio!

Ouvimos um dos primeiros comunicados e continuamos na dúvida.

Depois um outro comunicado um pouco mais explícito, quanto aos fins, animou-nos. Acordamos os restantes colegas de casa. E ficamos colados ao rádio. Quando a madrugada queria vencer o reino das trevas ouvi nos prédios da Rua Duarte Galvão os estores ergueram-se, como se todos acordassem mais ou menos à uma; os rostos aparentavam estarem assustados, como se, sem falarem, perguntassem com os olhos o que sucedia.

O tempo parara. Talvez assustado pelo que adivinhava dentro dos seus interstícios. Era à janela que tudo se passava. Lentamente. A tempo de poder ver acontecer o sorriso mais fundo que cada um tem, um sorriso, porém, ainda por assentar. Depois o rosto tomou conta do sorriso. Ninguém parava de olhar com aquele novo rosto e via no outro o seu próprio contentamento. A alegria jorrava livre ao fim de tanto tempo.

A camarada Z. tocou a campainha. Olhei pelo ralo da porta. Era ela a clandestina que chegava à luz do dia e me disse:

– Vamos para a rua apoiar e exigir a liberdade, a libertação dos presos, o fim da guerra, vamos.

Só anos mais tarde me lembrei dos panfletos em cima do telhado vizinho. Aquela fora a minha última noite. A noite que acabou abrindo com um sorriso no rosto de todos e com a alegria a transbordar em todas as ruas.

Texto publicado, hoje 25 de abril, no Público