No dia 16 de Julho , em Helsinquia, Trump e Putin, os dois Presidentes dos países com os maiores arsenais nucleares do mundo, realizaram uma cimeira cujo significado para o conjunto das relações internacionais teria de ser extraordinário. Todas as chancelarias ficaram de olhos e ouvidos atentos ao que se decidiria.
A verdade é que o mundo à hora nobre das notícias trocou-os pelo rei dos golos marcados, Cristiano Ronaldo.
Os canais generalistas abriram com notícias de Turim. Helsinquia não entrava na abertura. O mundo das transferências passava à frente do mundo que trata da paz e da guerra. O artilheiro mor uma vez mais acertou nas redes dos media. Foi um golaço. Ele apareceu a sorrir. Não lhe faltavam razões.
Saiu do Real Madrid por se achar injustiçado com Florentino Perez. Foi para a Juventus a cujo dono pertence a Fiat. O clube de Agnelli pagou ao Real pela transferência cento e cinco milhões de euros. Pelas quatro temporadas pagará a Cristiano cento e vinte milhões.
Os adeptos da Juventus rebentaram de contentamento. Os do Real ficaram cabisbaixos, Ronaldo deu-lhes muitas vitórias.
Na Itália onde o inimaginável acontece, como foi o caso da vitória do Cinco Estrelas e da Liga do Norte nas últimas eleições legislativas, ao que se logra apurar, o cálcio vai passar a ter uma dimensão planetária. É o que diz o setubalense José Mourinho. Os italianos, segundo os vários correspondentes, exultam com o nosso Cristiano. Não será para menos, ele já foi cinco vezes o melhor do mundo, quatro em Espanha, uma na Inglaterra; pode ser que na Itália conquiste a sexta e lhes suba o orgulho à cabeça. A desgraça vem dos sectários trabalhadores da Fiat que não compreendem aquela jogada por não serem aumentados há nove anos.
O nosso mundo marimbou-se para a cimeira dos dois Presidentes e para as questões sérias que podem colocar o planeta à beira da desgraça total. O que conta são os misseis, os pontapés de bicicleta e os arcos geometricamente curvados que num ápice se tornam indecifráveis para azar dos guarda-redes.
O que valem para o nosso mundo os dois Presidentes dos países mais poderosos em termos bélicos falarem conjuntamente, mesmo sendo inédito no últimos anos?
Ronaldo ocupou o trono já não apenas de marcador de golos, mas também o trono das notícias, retirando o primeiro plano aos dois que foram a Helsinquia.
Ronaldo é uma espécie de rei do mundo, inatacável, musculado, poderoso, charmoso e capaz do que os outros não são em termos de geometria futebolística.
O nosso mundo sabe que Cristiano veio do nada e que apesar disso teve de pagar ao Fisco espanhol quase dezanove milhões de euros por ter aceite que aquela finta não valia.
Talvez, por isso, por ter vindo para o Sporting como se fosse um órfão, ninguém lhe leva a mal aquela finta, ele veio do nada, não estava à frente de um ministério ou de um município …
Este é o nosso mundo. Aquele em que os media se ajoelham diante do astro máximo do futebol dos nossos dias. Aquele em que a cimeira entre Trump e Putin é um acontecimento menor face à transferência do nosso Cristiano. Neste nosso mundo não podia faltar a jornalista da TVI a perguntar à mãe se ia para Turim. O mundo respirou de alívio. Dolores Aveiro não vai. Assim vai o mundo.
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Trump, a NATO e o mundo
Trump olha o mundo, em rápida mutação, e recentra-se na sua América em busca da grandeza perdida.
Como pode Trump alinhar com a Alemanha se é este o país que invade os EUA com os seus carros e produtos qualificados que batem em termos competitivos os made in U.S.A.?
Trump é o Presidente da um país que não está a saber adaptar-se às mutações vertiginosas; aliás, em abono da verdade, é o próprio mundo que se está a espantar com a velocidade imprimida pelas emergências de novos e poderosos atores na vida mundial.
Trump agarra-se à sua costela dominante de grande homem de negócios para se posicionar no mundo.
Se já não há URSS e os europeus se estão a dividir nas suas opções políticas para que serve a NATO? Não só não há URSS, e o perigo do comunismo inexiste…
Trump, na sua lógica egocêntrica, acha que tem a força necessária para o que for adequado às necessidades da América first… A sua guerra é com a Alemanha que está dentro da NATO.
A sua guerra é com a China que tem vindo a bater em competitividade os produtos do país de Trump.
Trump, como foi bom de ver, na Cimeira com Kim Jong Un, interpreta a presidência dos EUA, como fazia com a gestão dos seus negócios imobiliários.
Está lhe na massa do sangue a convicção de que se guindou ao mais alto cargo do país por ser um empresário daquele ramo e do show business e assim manter a linha de atuação de sempre, mesmo na Casa Branca.
Para Trump, Presidente, tal como para Trump, homem de negócios, o que conta é o momento do negócio, o tal feeling que ele acha com que deve lidar com os outros chefes de Estado, o que o levou a não apertar a mão a Merkel e que o levou a tocar Kim Jon Un ou a apertar-lhe a mão vezes sem conta e sempre a olhar para a câmara.
Com Kim ou com o príncipe herdeiro saudita, na sua mente o que interessa é o que pode ganhar com o negócio. Se precisava de um sucesso na política internacional voilá… O que conta é o momento, o tal feeling de quem passou a vida a fazer big negócios.
Trump exibiu o cheque de venda de armamento aos sauditas como o faria o empresário que acabava de vender um conjunto de toneladas de cacau ou de alumínio ou outro produto e que renderia milhares de milhões.
Para Trump não conta o que os sauditas vão fazer com aquelas armas no país ou no Iemen ou não região; o que conta é a pipa de massa que o complexo militar industrial vai fazer entrar nos States.
Ele olha o mundo sempre na perspetiva do empresário bem sucedido, como se estivesse na sua Torre na 5ª avenida e se considerasse a si próprio um exemplo.
Trump constitui representa um importante aspeto da desagregação provocada pelo neoliberalismo destemperado que varre a América esvaziando as instituições da democracia made in USA e, mais grave, a consciência de grande número dos cidadãos, fazendo com que ajam como seres primários, incultos, boçais, prontos para se “safarem”, e daí votarem em Trump, que não é político, mas exerce o mais alto cargo político dos EUA, o país por ora mais poderoso do planeta.
O mundo com um homem desta estirpe vai passar maus momentos pela brutidade, a incerteza, o egoísmo, e a falta de cultura que a personagem carrega. O mal maior é se esta vitória eleitoral faz escola e Trump ter vindo para ficar. Não só por lá como também por cá, como se vê com o avanço da extrema-direita na União Europeia.
Os muros que se veem e os que se não veem
No check point, em Berlim, onde outrora o muro dividia a cidade, na parte em que estavam as tropas norte-americanas, juntam-se multidões para tirar fotos e fazer selfies. Vêm de todo o mundo. É uma loucura. Ali estavam os bons, e em frente, do lado de lá do muro, os maus. De um lado a liberdade, do outro os algozes. É fácil escrever a História deste modo.
Uns espertalhotes com eventual apoio das autoridades montaram um posto de controlo e colocaram uns rapazes a fazer de sodados fardados à gringo arrecadando três euro por foto ou selfie. O negócio está a dar.
Na verdade, só se pode fazer prova cabal que se foi a Berlim exibindo a foto com os fardados em frente a uns sacos de areia com a bandeira do país de Trump atrás.
E, no entanto, o país que glorificou o derrube do muro é exatamente o mesmo que quer erguer um novo muro a dividir o México dos E.U.A para impedir que os desgraçados dos mexicanos entrem no mundo livre, o paraíso das oportunidades. Nem que para tanto se tenham de enjaular os filhos dos migrantes.
Há neste mundo em que vivemos algo de profundamente bizarro. Os muros que cercam a Cisjordânia para impedir os palestinianos de circularem na sua terra é como se não existissem…
Talvez palestinianos e mexicanos não sejam bem homens, mulheres e crianças como todas as outras que vivem no mundo porque nasceram ao lado de países que se consideram senhores da lei e, com o poder das armas, são capazes de enfrentar os desgraçados que querem resgatar a sua pátria com pedras na mão ou que querem ter um simples trabalho, nem que seja o de lavar as ruas de uma qualquer cidade dos States.
Este mundo que está a fazer do Mediterrâneo um muro quase intransponível onde se afogam milhares e milhares de esfomeados, homens e mulheres, sem nada de nada, só tem olhos para Berlim, onde desgraçadamente houve quem pensasse que podia dividir o que nascera unido.
Ou talvez nem olhe para não ver, porque se olhasse via e tinha de dar atenção aos sentimentos de sofrimento que estes muros e estas jaulas geram.
Uma selfie em Berlim, no check point, é algo que vale uma aspiração sublime; um troféu raro para fazer mostrar a terra onde havia a maldade.
Os muros que os “bons” constroem a fortificar os países que se pretendem inacessíveis por terra, ar e mar são apenas episódios que não se veem. Verdadeiramente cego é o que não quer ver.
É uma forma de anestesiar os sentimentos que só os humanos desenvolveram como magnificamente vem demonstrando António Damásio.
Porém, um dia pode ser que se veja o que se olha. Se ainda tivermos olhos para ver tudo o que nos rodeia.
Os muros que se não veem e os que se veem
OS MUROS QUE SE VEEM E OS QUE SE NÃO VEEM
No check point, em Berlim, onde outrora o muro dividia a cidade, na parte em que estavam as tropas norte-americanas, juntam-se multidões para tirar fotos e fazer selfies. Vêm de todo o mundo. É uma loucura. Ali estavam os bons, e em frente, do lado de lá do muro, os maus. De um lado a liberdade, do outro os algozes. É fácil escrever a História deste modo.
Uns espertalhotes com eventual apoio das autoridades montaram um posto de controlo e colocaram uns rapazes a fazer de sodados fardados à gringo arrecadando três euro por foto ou selfie. O negócio está a dar.
Na verdade, só se pode fazer prova cabal que se foi a Berlim exibindo a foto com os fardados em frente a uns sacos de areia com a bandeira do país de Trump atrás.
E, no entanto, o país que glorificou o derrube do muro é exatamente o mesmo que quer erguer um novo muro a dividir o México dos E.U.A para impedir que os desgraçados dos mexicanos entrem no mundo livre, o paraíso das oportunidades. Nem que para tanto se tenham de enjaular os filhos dos migrantes.
Há neste mundo em que vivemos algo de profundamente bizarro. Os muros que cercam a Cisjordânia para impedir os palestinianos de circularem na sua terra é como se não existissem…
Talvez palestinianos e mexicanos não sejam bem homens, mulheres e crianças como todas as outras que vivem no mundo porque nasceram ao lado de países que se consideram senhores da lei e, com o poder das armas, são capazes de enfrentar os desgraçados que querem resgatar a sua pátria com pedras na mão ou que querem ter um simples trabalho, nem que seja o de lavar as ruas de uma qualquer cidade dos States.
Este mundo que está a fazer do Mediterrâneo um muro quase intransponível onde se afogam milhares e milhares de esfomeados, homens e mulheres, sem nada de nada, só tem olhos para Berlim, onde desgraçadamente houve quem pensasse que podia dividir o que nascera unido.
Ou talvez nem olhe para não ver, porque se olhasse via e tinha de dar atenção aos sentimentos de sofrimento que estes muros e estas jaulas geram.
Uma selfie em Berlim, no check point, é algo que vale uma aspiração sublime; um troféu raro para fazer mostrar a terra onde havia a maldade.
Os muros que os “bons” constroem a fortificar os países que se pretendem inacessíveis por terra, ar e mar são apenas episódios que não se veem. Verdadeiramente cego é o que não quer ver.
É uma forma de anestesiar os sentimentos que só os humanos desenvolveram como magnificamente vem demonstrando António Damásio.
Porém, um dia pode ser que se veja o que se olha. Se ainda tivermos olhos para ver tudo o que nos rodeia.
De Hamurabi a Trump vão 3.790 anos
Em 1772 a.C., o rei babilónio Hamurabi, do alto do seu poder, mandou publicar o primeiro Código que ficou para sempre com o seu nome. Por toda a Babilónia, em escrita cuneiforme, acádio, se expôs para uma ínfima minoria que sabia ler o Código.
De visita ao Museu de Pergamo, em Berlim, na famosa Avenida Unter den Linden, lá está a olhar para nós a pedra negra contendo o Código. E não é sem emoção que se olha para aquela pedra e se imagina o longo percurso do inveterado caminhante que é o homem desde então até hoje.
Os habitantes do reino da Babilónia passaram a ter algo escrito, mesmo os que não tinham olhos que lessem. Poderia haver quem lesse por eles.
Nesse Código, os princípios dominantes eram os da chamada lei de Talião, olho por olho, dente por dente. Quem, em matéria criminal, cometesse um certo crime, ser-lhe-ia aplicada sanção idêntica à do crime praticado. Se um criminoso cegava um cidadão, a pena era ser cego. Se assassinava, era morto.
Apesar da barbaridade de tais princípios, o simples facto de se apresentarem as normas compiladas era um avanço, pois dava aos mais fracos a possibilidade de invocarem a lei. A nesga de esperança era maior num quadro de brutal arbítrio dos mais fortes.
Mais bárbaro (tendo em conta os 3790 anos passados) que a natureza daquele Código é o modo como alguns dirigentes mundiais encaram o mundo e as relações internacionais.
A guerra do Iraque levada a cabo por George W. Bush constitui a exata aplicação da lei de Talião com a agravante de se basear numa mentira espalhada no mundo. Quase quatro mil anos depois de Hamurabi, é de novo a sua filosofia a dominar na maior potência mundial.
Como a Carta das Nações Unidas proíbe a guerra, Bush procurou o velho Código de Hamurabi. Subverter as leis de que os próprios EUA foram legisladores com o seu apoio para voltarmos à lei do mais forte.
Quando, recentemente, Trump, o dono da Casa Branca, decidiu, alegadamente em retaliação por atentados do Daesh, lançar no martirizado Afeganistão a mãe de todas as bombas, voltámos ao mais elementar princípio de Talião, em pleno século XXI. E no anúncio de tal façanha constava a capacidade de Trump voltar à carga com poder mais destrutivo…
Com Trump a lei de Talião vai muito para além de olho por olho, dente por dente. A lei, anunciada com toda a pompa, que permitiu o enjaulamento de crianças trazidas pelos seus pais, atinge menores que nada têm a ver com a ação dos progenitores, os autores do ilícito. Para tanto, alguns dignitários da Administração Trump invocaram a Bíblia para justificar semelhante proeza. É a suprema crueldade enjaular crianças por causa de atitudes dos progenitores e invocar o nome de Deus em vão. Nem Hamurabi.
Só o clamor mundial que assomou proporções gigantescas fez recuar o negociante que tomou conta da Casa Branca e quer aprisionar o mundo para os seus amigos proclamarem America first…
De Hamurabi a Trump vão três mil setecentos e noventa anos. O que a Humanidade passou para chegarmos à Carta das Nações Unidas e aos direitos dos seres humanos… Quantas guerras, quantos sofrimentos e quantas alegrias… Afinal, na curva da estrada estava Trump a lembrar que o passado está sempre presente.
Os deuses e os homens
Quem visitar o museu de Pergamon, em Berlim, na avenida Unter den Leden, verá alguns dos Deuses que eram venerados no reino da Babilónia. De todos, o mais poderoso era Marduk, logo seguido de Ishtra, que se vê na fotografia.
No Egito os Deuses eram muitos, salvo um curto período em que o faraó impôs um só Deus, o que durou pouco tempo.
Na Odisseia de Homero há Deuses e Deusas para todas as situações; há até Deuses que lançam homens contra Deuses para ver se enfraquecem os rivais divinos, demonstrando bem que os homens transportavam para os Deuses o seu próprio mundo, dando-lhes os mesmos desafios que enfrentavam.
Todos estes Deuses, como hoje é bem evidente (o que não era no tempo do grande Sócrates, acusado de alegar que os Deuses habitavam no sub solo), foram criados pelas humanas criaturas para tentar suplantarem a sua condição de mortais.
Não se conseguiam libertar dessa condição, mas conseguiam criar seres que não padeciam desse mal. Como se sabe o que não existe, não morre. O nada é nada.
Com a existência de tantos Deuses, as criaturas humanas no seu longo percurso terrestre, chegaram à sua redução até à existência de um só, não que, sem antes, para o imporem não tivessem guerreado a pontos de se poderem fazer montanhas de pilhas de cadáveres que o melhor Deus assistiu de braços cruzados.
Sempre os homens na busca incessante, fervorosa, desafiante, de ultrapassar a sua limitação. Em toda esta odisseia houve pelo menos um Deus que teve realmente pena dos humanos e lhes deu o fogo, o que o levou a uma punição severa dos outros Deuses, por séculos e séculos a perder de vista, agrilhoando-o para as águias comerem o seu fígado.
As humanas criaturas não se satisfizeram a inventar o fogo, a roda, o antibiótico, os satélites… Precisaram de algo que os suplantasse.
No interior da solidão dominante, no país dos abandonados
De repente os que têm governado o país descobriram que o interior está desertificado, sem gente, sem serviços, com a agricultura abandonada, sem futuro.
É extraordinário. Os que têm governado desde 1976 até 2015 e nunca saíram dos cinquenta quilómetros da faixa do litoral e só agora na triste luta política em torno dos incêndios, descobriram o interior… Que andou a fazer Mário Soares? Cavaco? Sampaio? Durão? Guterres? Sócrates? Passos Coelho?
Alguns fizeram auto estradas que davam para exportar, mas os camiões vinham de lá para cá e eram poucos os que iam para lá.
Este modelo de desenvolvimento impulsionado pelo marcelismo e desenvolvido nos anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 é o responsável pelo estado de coisas atual.
Que bem que fala Fernando Negrão a proclamar a necessidade de dar atenção ao interior. A viagem dele e dos seus pares devia ser ao interior das suas consciências e deixar de fazer de conta que o abandono não é obra sua também.
Mesmo Marcelo Rebelo de Sousa que foi líder do PSD nunca falou do interior como fala agora. Falhou à frente do PSD. Foi-se. Dava mergulhos no Tejo para ver se ganhava a Câmara de Lisboa e não mergulhava no interior. Descobriu-o agora. Mesmo como comentador omnipresente pouco ou nada falou do interior. Claro, mais vale tarde que nunca. Sem dúvida. Mas caramba, os filhos têm nome e os pais é que lhes dão os nomes. Este é o tipo de desenvolvimento que Cavaco apoiou entusiasmado cortar vinhas e olivais, o abandono do interior. Não há memória? Ponham as mãos no interior das consciências; deixem-se de pantominices.
A criação de uma burguesia compradora que investiu em hipermercados e similares levou grande número de agricultores à ruina. Importar para vender no Pingo Doce, no Continente, no Intermarché, no Mini Preço… Telefonar, encomendar e vender. Este é o mote. Campanhas publicitárias agressivas. Grandes promoções. E aqui estamos. Por obra e graça de quem governou e dos que no tecido económico apoiaram esta política.
É quase como aquelas e aqueles que por tudo e por nada falam dos valores da família, só que é para família ver, pois os horários de trabalho, as distâncias entre o local de residência e o posto de trabalho e os ritmos não deixam tempo para a família. É um faz de conta, tão em moda neste país a cair para o mar e desertificado no seu interior.
Como se pode imaginar que os jovens fiquem no interior onde nasceram, se, ali, olhando em volta, só veem velhice? Se não têm onde arranjar um emprego digno? Se os municípios sãos maiores empregadores… Se até se fecha estações de correios, e até os balcões da CGD… Se os hospitais estão a dezenas e dezenas de quilómetros… Se os exames médicos estão à mesma distância, se a saída é emigrar ou ir para a polícia ou para as Forças Armadas? Como podem falar em coesão social, se o Estado não investe no interior? Se Bruxelas do alto do seu potestas não o permite e o governo amoucha porque é assim a nossa vidinha de mão estendida a ver se este ano, os Comissários, espécie de sátrapas persas, cortam menos porque, como diz Marcelo, somos bons alunos. E como disse Santos Silva, devíamos dar graças a Deus porque podia ser pior…
Em breve será muito pior. O número de votos cairá brutalmente e onde não há votos, não há investimento. Porque falam quando deviam calar-se no interior das sua vergonha?
É uma dor de alma viajar para o terreno da solidão dominante. É revoltante querer fazer dessa solidão dos abandonados, criados por políticas sucessivas rotuladas de sucesso, arma de arremesso, como no caso dos incêndios. Triste vida. Triste sina.
Texto publicado no Público online
Kim e Trump e o destino das Coreias
A Península coreana está localizada numa zona nevrálgica da Ásia; basta para tanto ter em conta a sua longa fronteira com a China, a Rússia e, por mar, com o Japão.
Acresce a esta situação a presença militar dos EUA com mais de trinta mil militares com armamento nuclear.
A linha divisória das Coreias, no paralelo 38, é a zona mais explosiva do mundo, tanto mais quanto os dois países, outrora um, estão tecnicamente em guerra, pois não assinaram qualquer tratado de paz desde que acabou a guerra da Coreia, vigorando ainda um armistício. A situação é tanto mais grave quanto as partes beligerantes detêm armamento nuclear.
Pude testemunhar em Panmunjon a prontidão e o grau de hostilidade entre as tropas que se encontram frente a frente. Era de arrepiar. Ao menor descuido tudo podia suceder.
Até por isso ninguém ousará duvidar que este passo dado por Trump e Kim (seja pelo que seja e pelo que cada um tem em mente) é um sinal que faz diminuir a tensão e faz com que o mundo possa respirar melhor.
Por uma questão de rigor factual e histórico sublinha-se que foi no Sul que se instalaram as armas nucleares e se passaram a realizar exercício militares (Team Spirit) que simulavam o seu emprego. A razão dos EUA é boa de ver – a sua presença era parte integrante da estratégia de confronto com a URSS e China. O Sul ficava assim totalmente dependente da estratégia e arsenal nuclear dos EUA.
O Norte só após a implosão da URSS desenvolveu o seu próprio arsenal, o que lhe permitiu negociar tête à tête com os EUA, sem o Sul.
Esta cimeira de Singapura acontece tendo em conta que o Norte pode atingir nuclearmente território dos EUA, as sérias dificuldades económicas devido aos seus problemas e às brutais sanções, a aspiração do Sul a uma clima de estabilidade e ainda a um facto relevante como é o caso de Trump precisar de apresentar aos EUA e ao mundo um êxito político-diplomático no meio de um mar de críticas.
Além do mais a China a última coisa que desejaria seria uma guerra na sua fronteira ou uma política que leve a centenas de milhares de refugiados a entrar no país.
A realização da cimeira deu uma nova visibilidade ao conflito e ao apresentar como objetivo dela emanado a desnuclearização total da Península é altamente positivo. O comunicado é claro e estatui a desnuclearização total, o que implicará um longo processo que se espera que a ONU se associe em pleno, até para abrir os caminhos mais sinuosos entre os negociadores.
Se Trump precisava de um sucesso, kim precisa de investimento na sua depauperada economia. Trum prometeu-lhe uma “pipa de massa”…vamos ver.
No Sul é indiscutível que o nível de vida é de outra qualidade. Diga-se que o Norte outrora campeão da reunificação das Coreias, deixou cair essa aspiração e talvez se perceba. Na defunta RDA a diferença do nível de vida com a RFA era bem diferente e bem se viu o que sucedeu.
Não é despiciendo pensar que os EUA jogam em alterações políticas no Norte, embora não o digam e até Trump levou o seu feeling de negociador a elogiar Kim e a convidá-lo pra a Casa Branca, mas toda a gente sabe que o que Trump diz é como o que dizia Frei Tomás.
O regime dinástico do Norte não está em condições de se abrir em larga escala sob pena de eventual implosão. Talvez o caminho da China nos anos da abertura parcial em certas zonas sirva de paradigma.
O problema maior é o grau de concentração do poder num núcleo familiar restrito que numa nova situação política pode enfrentar problemas. Atente-se neste pormenor: o Presidente da RDP da Coreia é o falecido avô do atual líder que é Presidente dos Assuntos do Estado…
Com maior comércio entre ambos os países e fluxo entre eles e a própria China (mesmo limitado) as coisas podem vir a alterar-se.
A China conseguiu fazer essa travessia, apesar de Tianamen, e é hoje a segunda potência mundial.
Os coreanos são um povo abnegado, cultivando historicamente a obediência aos seus dirigentes. Porém, como em tudo na vida, há limites.
Neste complexo exercício, o peso da realidade impôs-se a Kim, Trump e até Moon que não esteve, mas gostaria de ter estado em Singapura.
Trump precisava de mostrar as suas aptidões de negociador e Kim de ganhar estatuto junto da população e no mundo.
António Centeno Primeiro-Ministro da Junta de Freguesia Portugal
Como quem não quer assumir Costa envia sinais de estar a alterar o rumo da política que segundo ele deu bons resultados, aliás visíveis por toda a gente, menos por Cristas e Rio.
A austeridade que Passos transformou em eixo da sua política de empobrecimento está nestes meses de 2018 a emergir e até com o mesmo argumentário, ou seja, não há dinheiro, o que não é verdade, nem sequer no anunciado montante referente à despesa com a progressão dos professores na sua carreira.
Quer Tiago Rodrigues, quer Costa não discutem o problema com base em qualquer outro fundamento que não seja o da inexistência dos alegados seiscentos milhões de euros…Ou seja atiram para cima de todos os professores a aleivosia de se quererem apoderar de algo que o país não tem, e com esse despropósito criar sérias dificuldades em Bruxelas e Berlim onde tudo se decide. Trata-se de um problema interno, onde os portugueses são relegados para uma espécie de nativos coloniais que têm na chancelerina e no Président Macron os seus tutores ou ajudantes da missa como os Monsieur Moscovici E Monsieur Drombrovsky, os Comissários europeus das Finanças e da Economia…apesar de por cá o Presidente omnipresente invocar a qualidade de bom aluno, uma verdadeira Junta de freguesia entre o mar e a raia de Espanha.
Os professores são apresentados como uma classe que não olha a meios para atingir os seus fins e ameaça com greve os pobres dos alunos, como se os pais dos alunos não tivessem tido a possibilidade de subir na sua carreira profissional.
Marcelo, Costa, Santos Silva e Centeno quando se trata enfrentar Bruxelas pelos cortes brutais nos fundos de coesão já acham que menos sete por cento é bem melhor que menos quatorze , como se Portugal se apresentasse à U.E. de mão estendida e internamente, diante de uma classe estratégica para o desenvolvimento do país, de pau em riste. É caso para perguntar onde está a paixão pela educação?
O argumento do bom aluno do Eurogrupo que Marcelo gosta de invocar serve para tentar meter na cabeça dos portugueses que o terror austeritário é o único critério para governar e assim manter o país com as reformas que consistem sempre em cortes na despesa pública, satisfazendo as novas divindades, os mercados.
A situação acentuou-se desde que Centeno foi levado para Presidente do Eurogrupo, que ninguém sabe bem o que é do ponto de vista institucional.
Ainda gostava de ver Centeno defender que na Alemanha o tempo de trabalho dos professores alemães não contava para a progressão na carreira profissional. Cairia, em Berlim, a torre da televisão na Alexanderplatz e o rio Spree saía do leito…Até a Madame Europa, como a tratam com toda a sabujice alguns jornalistas, se revoltaria contra tal despautério.
Claro que para esta elite de cá uma coisa são os professores da Presidente da Europa e outra coisa são os nossos professores da Junta de freguesia Portugal.
Os professores pertencem a um grupo profissional absolutamente indispensável para fazer o país progredir, dado o relevo da educação nas novas condições da produção. Acentua-se, como bem se sabe, a substituição da produção manual pela altamente especializada
Só através da extensão e sofisticação da educação se pode chegar ao desenvolvimento económico que o país necessita. Tenha-se na devida conta que nos países com maior índice de desenvolvimento humano a profissão de professor é das mais concorridas e prestigiadas.
Só o governo de um país desinteressado nesse tipo de desenvolvimento ataca os professores no seu conjunto acusando-os de chantagistas, tentando atirar a opinião pública contra eles, em vez de os defender.
Se diante do país o Primeiro-Ministro acha que não há dinheiro para o direito mais elementar na vida de um cidadão forçosamente transmite a ideia que o Estado é alguém em que se não pode confiar com todas as consequências negativas advenientes.
Costa parece estar a absorver a filosofia centeneana que por sua vez absorveu a bruxelense, isto é, a de Portugal não passar de uma Junta de freguesia da Europa alemã.
Texto publicado hoje no Público online
Morrer como uma pedra
Foi uma pancada seca, vinda de dentro de mim que me atirou para o chão sem que eu pudesse fazer nada. Fiquei colada ao chão, sem me poder mexer. Nos meus olhos via uma parede branca de leite e, às vezes, distinguia as coisas. Dei conta que não me podia mexer, ao fim de uns instantes. Estava ali como uma pedra. Não podia falar e ainda pensei gritar, não conseguia. Estava tombada para o lado direito. Quando pensei em me virar para me levantar só a tal parede branca aparecia à frente do meu olhar. Era uma pedra colada ao chão.
A minha filha haveria de estranhar tanto tempo na casa de banho. Mãe, mãe, que tens tu? E eu ouvia. E, sem poder responder, fiquei naquela maldição que viera de dentro de mim e me fizera destroçar a pontos de ficar estendida no chão, como uma pedra.
Quando vi a minha filha fiz um esforço tão grande, tão grande para dizer Cristina leva-me ao hospital, desisti. Nem a mão lhe pude estender. Ela aproximou-se de mim e tentou levantar-me, não consegui porque um corpo morto que não se mexe pesa mais que o corpo normal. E o meu era uma pedra colada ao chão.
No meio daquele rio de branco, pensei que ia morrer. Não me mexia, colada ao chão, como uma pedra.
Na ambulância dos bombeiros a ideia da minha morte chegou com muita força. Estava a caminho dela. Chegara sem qualquer aviso. Eu ia como vai o azeite por um funil, sem poder voltar de novo para trás, de encontro ao regaço da morte.
E no hospital, quando ouvi os médicos dizerem uns para os outros que ia ficar assim colada à cama decidi dizer à milha filha que não queria viver, e quando ela me veio ver e eu lhe ia dizer o que queria dizer então não fui capaz e só disse a palavra morrer, mas mal dita, só que ela percebeu porque me respondeu, ó mãe, morrer, qual morrer, tens cada ideia, tira essa ideia da cabeça.
A minha aflição era não conseguir dizer que não queria ser uma pedra. E fiquei danada com a Cristina porque tinha a obrigação de me deixar morrer e veio com aquela conversa. Eu era uma pedra colada à cama do hospital. Eu não falava, não mexia um dedo. Eu era um estorvo para mim mesma e não queria continuar a ser. Uma vez ou outra ouvi a enfermeira a pedir fraldas.
E então eu dizia para mim mesma que ia deixar de comer. Elas vinham dar-me de comer e eu não abria a boca. Cerrava os dentes. Então meteram-me uma sonda e um tubo no braço. Só que eu não me podia mexer para atirar aquilo pelos ares.
Dizia à minha filha, à minha Cristina a palavra morrer muito mal dita e ela virava a cara, já não respondia, virava-se.
A certa altura já nem a palavra morrer podia dizer. Nem os restos da palavra. Já não dizia nada.
Então disse para comigo quando a Cristina e o Fernando e a Inês viessem, ia fechar os olhos enquanto eles cá estivessem para que soubessem que eu não os queria ver.
Eu estava morta, como uma pedra. E ninguém ia visitar pedras. Dentro de mim já não havia palavras. Já nem à minha filha, nem ao meu marido, nem à minha neta eu queria ver; só queria morrer. Morrer. E de um dia para o outro nem a palavra morrer eu era capaz de dizer.
Então para que eles soubessem bem o que eu queria fechei os olhos para sempre. Mal abriam a porta eu fechava os olhos. Quando uma vez ou outra me levaram numa cadeira de rodas a dar uma volta, eu fechava os olhos. Ali estive anos de olhos fechados, como uma pedra. À espera. Como uma pedra.