Todos estes palestinianos mortos não valem a expulsão de um diplomata?

 

 

Israel matou noventa e dois manifestantes palestinianos, desarmados, e feriu de dois mil.

A maioria foi morta e ferida no dia em que Trump ilegalmente inaugurou a embaixada dos EUA em Jerusalém.

No seu apontamento Trump afirmou estender a mão aos vizinhos e, nesse gesto de paz, o seu grande amigo Netanyahu mandou os seus soldados puxarem pelo gatilho e matarem a peito descoberto mais de cinquenta palestinianos.

Parece que o mundo pouco se importa que sejam assassinados centenas ou milhares de palestinianos …

Do que o mundo ocidental se importou foi com os alegados mortos sírios com gás. Esses que ninguém confirmou terem sido assassinados com gás tiveram uma relevância que levou a que Trump, Theresa May e Macron ordenassem o bombardeamento da Síria. Porém, na frente de todo o mundo, na terra palestiniana ilegalmente ocupada Israel, sentindo as costas quentes com o apoio de Trump, os soldados israelitas, por ordem do governo, assassinaram a tiro dezenas de palestinianos que se manifestavam no solo dos seus antepassados.

E, no entanto, nenhuma potência ordenou o bombardeamento de Israel; nenhuma potência expulsou diplomatas do país fora da lei; e em Belém, e no Palácio de São Bento e nas Necessidades ninguém chamou o embaixador.

Neste mundo em que as palavras são atravessadas pelo veneno das conveniências e interesses mesquinhos quantos milhares de palestinianos têm de morrer para que termine esta carnificina e a lei internacional seja cumprida?

Sim, já compreendemos que de Trump só se pode esperar brutalidade, irresponsabilidade e desfaçatez.

É o que se tem visto. Mas a outra pergunta que cabe fazer pode ser esta – mas o mundo tem de se agachar e submeter-se à brutalidade e à desfaçatez?  Ainda de outro modo: mesmo que Merkel, Macron, May e tutti quanti se agachem, é possível ao mundo erguer-se contra esta brutalidade?

É possível porque o que se passou em Timor-Leste mostrou-nos que os poderosos, a partir de certa altura, já não podem continuar a puxar pelo gatilho porque o mundo não aceita.

Temos, então, que aguardar por quantos mais dezenas, centenas ou milhares de mortos palestinianos para que o nosso mundo desligue do seu quotidiano e dê atenção aos palestinianos que tiveram a azar de viver ao lado de uma das potências mais ofensivas do nosso planeta.

Não é com balas reais que se enfrenta quem se manifesta pela sua liberdade de afirmar que os territórios ocupados depois da guerra dos seis dias em junho de 1967 são palestinianos e reconhecidos pelas Nações Unidas como tal e que Jerusalém Leste deve ser a capital da Palestina.

Aqui não são precisos peritos, nem perícias, o que é preciso é apenas respeitar a Resolução 242 do Conselho da Segurança da ONU.

Quantos diplomatas israelitas vão ser expulsos? Que vai fazer a União Europeia? E Portugal?

Desde que Trump rasgou o Acordo assinado com o Irão a escalada do conflito não parou de subir.

Netanyahu sente-se bem com o apoio de Trump. É também a forma de fugir aos graves crimes de que é acusado no seu país, aliás tal e qual como o que se passa com Trump, sempre na mira de diversas investigações criminais.

São estes homens que detêm o poder de ordenar aos soldados que disparem e matem friamente.

Será a humanidade capaz de ir em socorro dos que na sua terra são mortos como se fossem presas de caça e exija que se respeite a lei e as Resoluções do Conselho de Segurança sobre a Palestina?

(Texto publicado no Público online)

 

 

A corrupção da palavra amigo

 

A amizade é um sentimento nobre que torna os seres humanos melhores e capazes de se suplantarem a si próprios, enquanto portadores de interesses da sua esfera individual.

A amizade percorre a vida parede meias com a solidariedade e ambas caminham de mãos dadas fazendo a diferença com os outros reinos animais.

Talvez, para além do amor, a amizade possa ser o sentimento mais nobre pelo seu altruísmo.

Na vida, por mais que nos esforcemos, entram e saem amigos; nunca sabemos quanto dura uma amizade.

As amizades, porém,  não têm a mesma fonte. Há as que são “puras” que resultam do encantamento da vida e tudo o que se dá ou recebe vem de um impulso generoso e espontâneo.

Há, porém, outros conceitos de amizade que não se encaixam nesta bitola. É um mal de todas as épocas, mas que na atualidade tende a desenvolver-se pela transformação dos sentimentos numa espécie de produto dos mercados que comandam nas nossas vidas.

Nesta ordem de ideias se o que interessa é ter meios materiais capazes de determinar uma posição social de relevo a quem os possui, então ter amigos poderosos constitui um meio caminho andado para vir a ser como um deles, bastando fazer as coisas certas, nos momentos certos.

Ser amigo pode ser uma alavanca para subir na vida.  Dizia-se e ainda se diz que quem tem amigos não morre na cadeia, tendo em conta os tempos em que se podia ir parar à cadeia por falta de pagamento de dívidas.

A palavra amigo foi também corrompida nos seus diversos sentidos. A corrupção também entra na semântica. Se tudo pode ser corrompido, por que carga de água havia a semântica de ficar fora dela?

Ser amigo pode, por isso ser uma arte, um modo de vida. O amigo insinua-se junto do outro amigo. Cativa-o, não à maneira da preconizada por Saint Exupéry, mas com ela fisgada… se o amigo for dos de cima, dos que mandam, dos que têm pasta, dos que são considerados no plano social, é bom cativar, é bom pertencer ao círculo e acabar por tirar partido da riqueza, do poderio, da influência do amigo…

Estabelece-se com alguma facilidade um círculo de amigos que se unem para em nome de uma causa dela se aproveitarem e fazerem entrar no seu património riquezas( grandes ou pequenas) que de outro modo não alcançariam.

Nestas circunstâncias pode (admite-se) haver amizade, mas o que existe é um pacto expresso ou consentido entre estes indivíduos para tirarem partido dos poderes de cada um ou de um deles.

Neste momento , na sociedade portuguesa tresanda a presença de Ricardo Salgado em tudo o que constitui casos de grande corrupção. Ele e os seus homens bem colocados.

Esses amigos traçaram planos para que as coisas fossem capazes de acontecer de modo a que tirassem benefícios patrimoniais ou de outro tipo.

É de admitir que haja nesta amizade alguma humanidade, mas o que marca a alma destes protagonistas é tudo fazerem para enriquecerem em prejuízo da comunidade.

Em princípio, quem se considera amigo de um suspeito de ter cometido graves crimes ou é porque de todo não o imaginava capaz de os cometer ou vindo a saber esse factos com eles se conforma e continua a agir como se aquele cidadão fosse o que não foi e não é. E é cúmplice no terreno da cidadania.

Quando não se deixa cair um amigo na cadeia tem-se em vista salvar alguém que por um azar da vida e dos negócios acabou na miséria e eventualmente praticou ilícitos criminais que o amigo considera serem passiveis de comiseração e ajuda.

Outra coisa é a imputação de graves crimes a alguém que exercendo altíssimos cargos se apoderou de bens que lhe não pertenciam em prejuízo do bem público, fazendo-se passar por um desses ricalhaços capaz de tudo comprar.

Só pode merecer o repúdio porque a amizade não deve ser um jogo para subir na vida.

Os amigos, é verdade, são para as ocasiões, mas as negociatas geram homens e mulheres interesseiros, capazes de sacrificar os interesses da comunidade em seu proveito.

Trata-se também, para além do problema de caráter criminal, de um problema político que não se resolve por via legislativa, antes com mulheres e homens honrados que se não deixam aprisionar pelo poder económico.

Texto publicado no Público online hoje

 

 

Os acordos são para rasgar, segundo Trump?

 

Pacta sunt servanda, sustentavam os juristas romanos e com toda a razão. Na verdade, os pactos são para serem cumpridos. Assim agem todos os que negoceiam de boa fé e com sentido de honestidade. Um acordo significa o fim de um caminho, por vezes longo, em que os diversos pontos em conflitos se alisam de modo a que todos os envolvidos sintam que podem selar o resultado final, isto, é o acordo.

Esta filosofia é válida para contraentes particulares como para os Estados, aplicando-se aos primeiros o direito privado e aos segundos o direito internacional.

O Acordo que envolveu o Irão, os EUA, a Rússia, a Alemanha, a França e o Reino Unido foi o resultado de anos de negociações e que levou a que todas as partes o assinassem e pudessem concluir um conjunto de clausulas negociadas ao milímetro, através das quais, em suma, o Irão renunciava ao fabrico da arma nuclear e eram levantadas as sanções que sobre aquele país impendiam.

Com Trump na presidência dos EUA, os acordos celebrados não valem nada. Só valem os que lhe interessarem – Trump first . Sejam os acordos celebrados com os seus advogados com uma atriz de filmes pornográficos, sejam os Acordos de Paris sobre clima, sejam os Acordos com o Irão, sejam o que forem com quem forem. Para Trump o que conta são os seus interesses e os dos multibilionários que o apoiam.

A desgraça é que esta figura saída dos fundos mais reacionários da América do Norte suscita na União Europeia a condescendência de muitos governos, designadamente da França de Macron ofuscado pelo brilho doirado das riquezas de Trump, de Teresa May e ao que parece também de Angela Merkel a propósito dos Acordos assinados com o Irão.

Se o que estivesse em causa não fosse o perigo de uma guerra devastadora pareceria uma peça teatral de baixo nível e de mau gosto com Netanyhau a desempenhar o papel de ponto e a esganiçar-se para apontar o dedo às armas nucleares do Irão, que só ele as vê.

A encenação está gizada: Macron, o reformador da sociedade a favor dos super-ricos, foi a Washington “convencer” Trump a não rasgar os Acordos.

Para tanto ele e Trump exigiriam ao Irão que eliminasse os seus misseis com alcance superior ao das suas fronteiras, sendo que Israel, Arábia Saudita manteriam os seus e Israel continuaria a deter a arma nuclear apesar de ser o Estado mais fora da lei do mundo.

Tal como Trump, os dirigentes israelitas entendem por direito internacional um conjunto de procedimentos que lhe permita, seja qual for o preço, impedir o respeito dos direitos nacionais do povo palestiniano tal como decorre da Resolução 242 do Conselho de Segurança da ONU.

Ou seja o prevaricador deverá ser premiado e o Irão que assinou acordos com as principais potências através dos quais assumiu não produzir a arma nuclear (que Israel tem) deve ser brutalmente penalizado e ser privado das suas defesas.

Há alguém em seu perfeito juízo que pense que o Irão, um país milenar, de onde saiu parte da nossa civilização, vá aceitar semelhante traição aos seus próprios interesses nacionais…Claro que todos sabem que não aceitará e que os EUA, Israel e ao que parece Macron, May e Merkel se colocarão ao lado de Trump e Netahyhau para impor sanções ao Irão com o pretexto da ameaça dos misseis iranianos sendo, em abono da verdade, que os misseis israelitas e sauditas que matam palestinianos na sua própria terra, iemenitas no seu país, são bons porque são dos amigos do coração ou made in USA a troco de cheques que fazem a América great again

No fundo Trump e os desavergonhados que o apoiam nesta maquiavélica encenação o que propõem é mais ou menos isto: o Irão não pode ter misseis, mas os Estados do Golfo  podem continuar a ter porque esses misseis são bonitos e inteligentes produzidos no complexo militar-industrial dos States.

Para Trump o mundo resume-se às Torres na 5ª avenida e ao seu campo de golf na Florida ao pé das Caraíbas onde outrora reinavam os flibusteiros. Trump quer reduzir o direito internacional a uma arena onde se digladiam não Estados e nações com normas a regularem o seu comportamento, mas verdadeiros piratas a imporem a lei do saque.

 

Texto publicado no Público de 08/05/2018

La pauvre France de Macron

Os franceses têm, ultimamente, eleito Presidentes da República com enormíssimas votações, arrependendo-se mais tarde.

Sarkozy foi copiosamente derrotado por Hollande, que por sua vez nem se recandidatou e fez com que o PS quase desaparecesse do mapa eleitoral. Entretanto, entronizaram como Presidente o homem da economia de Hollande, que saiu a tempo do governo para se lançar à conquista da França.

Bastou para tanto anunciar que ia reformar e mudar a politica e ao que parece os franceses gostam destas mise-en-scène, ou seja, têm uma certa sedução por serem enganados e poderem continuar a criticar os de cima, isto é, aqueles que elegeram para mandar nos de baixo.

A grande França que De Gaulle encarnava posicionava-se como ponte entre o Ocidente e o Leste eclipsou-se. Com Pompidou e Giscard, ainda houve uns ares de De Gaulle.

Com o socialista Miterrand começou o grande alinhamento com a NATO, os EUA e a Alemanha, sobretudo depois da guerra contra a Jugoslávia.

Chirac teve a grande dignidade de não embarcar na invasão do Iraque a toque de caixa de Bush/Blair/Aznar/ e os ajudantes de campo Barroso e Portas.

Agora com Macron no Eliseu, a França, que no terreno económico-social perde cada vez mais competitividade, vira-se para onde pensa que é grande, por ser potência nuclear, tentando mostrar à Alemanha a sua indispensabilidade como parceiro maior.

Macron, o homem dos poderosamente ricos, foi visitar o amigo Trump, outro que tal a adorar salas cheio de peças de oiro e de requintes de grande riqueza.

Macron, levado pela mão de Trump, deslumbrou-se de tanto protocolo, de tanta “importância” ao lado do Presidente do país mais rico do mundo à espera de receber Merkel, para quem Macron e Trump perdem em termos da economia dos respetivos países.

Antes da chegada de Merkel, Macron foi a correr para andar de mão dada e aos beijos ao Presidente mais impopular dos EUA e que quer apunhalar a Europa com a anulação do acordo com o Irão assinado pelos EUA, Alemanha, Reino Unido, França, Rússia e Irão, além de querer impor eventuais taxas sobre produtos provenientes da U.E.

Macron ficou deslumbrado com o fausto das várias encenações trumpianas para o ouvir vacilar quanto ao modo de lidar com o Irão.

Macron levou a França a rastejar diante de um homem que não deve saber, nem sequer conhecer a história da França tão cheia de contributos para a civilização que vivemos.

Macron sempre esteve com os mais poderosos da terra, nomeadamente os Rotschild, depois foi para o governo para dar o salto, abandonar Hollande e ficar no Eliseu, imaginando-se nas Torres de Trump , onde tudo reluz e ou tremeluz.

O homem que corta os impostos aos muito ricos em França e castiga os pobres só podia dar-se muito bem com o homem que quer fazer um corte histórico de impostos aos mais ricos dos EUA. Têm ambos a mesma ambição, serem benzidos pelas poderosas mãos dos fabulosamente ricos.

Para esse fim Macron participou ao lado de Trump nos bombardeamentos à Síria, portando-se como ex-potência colonial daquele país, criando a ideia, não comprovada, de que o regime sírio teria lançado armas químicas contra a população, no preciso momento em que os “rebeldes” jiadistas que atacam a França e os franceses eram derrotados pela aliança entre os sírios e os russos.

A França que vive por estes dias cinquenta anos de comemoração das barricadas de Maio, levou a Washington, à sala oval, um Presidente a deixar cair máscara com que tapava o verdadeiro rosto de um homem igual a tantos outros que passaram pelo Eliseu para defender os muitos poderosos e atacar os povos e países de África e do Médio-Oriente. França, a grande França, transformada na pobre França de Macron.

Texto publicado no Público de 01/05/2018       

 

 

A minha última noite

Quando o Jorge me abordava com o peso do mundo no olhar e me dizia:

– Camarada Estrada precisamos de uma casa para reunir – era como se a circulação do sangue acelerasse e eu sentisse nas fontes o bater do coração aos saltos. Tudo se passava num primeiro instante, depois o coração não explodia.

A casa situava-se na Rua Passos Manuel, raso ao do Jardim Constantino. Do quarto avistávamos, naquela longínqua noite de vinte e três de abril de mil novecentos e setenta e quatro, a rua no sentido da Estefânia.

As regras conspirativas impunham que os estores fossem corridos, e quando caíram num lanço firme três jovens sentados combinaram que se a polícia viesse e quisesse saber o que fazíamos responderíamos que estávamos a combinar a encenação de uma peça de teatro, eramos os três do Cénico de Direito.

As notícias que o Jorge tinha para me dar eram um punhal que entrou algures no mais fundo do lado invisível do corpo:

– Foste denunciado, deves ter em conta que podes ser preso, todos os cuidados são poucos. Deves manter-te afastado de nós e ao entrares e saíres de casa certifica-te que não há ninguém a seguir-te.

Concordaram que a primeira cautela era a de limpar o quarto de toda a propaganda, o que devia ser feito logo que eu pudesse.

A reunião foi curta. Por disciplina deveria seguir um rumo contrário ao que tomaria para ir para a minha morada.

Na Avenida Almirante Reis revoltado, pensei voltar para trás e desobedecer às regras conspirativas.

Por entre as gentes da noite sentia raiva, iria ser preso e, no entanto, os outros divertiam-se. E se eu deixasse cair a causa? Não era por mim que lutava… Aquela gente a divertir-se nas cervejarias cheias e eu carregando o peso de uma prisão e o da guerra colonial.

Havia instantes que a desistência parecia mais forte, depois voltava o imperativo da consciência.

Não sei como alguém que não conhecia de lado nenhum se me dirigiu a perguntar por algo que já não recordo. Acabamos a beber imperiais e a falar do que ele procurava, putas.

O meu interlocutor era caixeiro-viajante e viera da guerra de Angola e mesmo no Intendente só montava com a pistola por perto, ganhara o hábito nos longínquos cantos do leste angolano. Era certo que sem a pistola a coisa não funcionava; já experimentara mais do que uma vez e não dava.

Ao fim de três imperiais arranquei rua abaixo em direção à rua da Palma, Deixei o meu amigo de ocasião e segui a remoer a inconsciência dos meus compatriotas perante a ditadura; uns na cadeia, outros nos copos.

Era tarde, muito próximo de apanhar o último metro. Em Sete Rios hesitei se devia ir a pé ou autocarro.

Precisava de apanhar ar fresco, de assentar como devia fazer desaparecer os panfletos que tinha, sem que os colegas vissem. Fui retardando a entrada, esperando que todos dormissem no terceiro esquerdo, o último piso.

Numa pequena mala de viagem meti todos os panfletos. Pela escada de serviço subi ao telhado e deixei a mala no telhado do prédio da esquina da Estrada de Benfica, já na Rua Duarte Galvão. De cima do telhado avistavam-se os quintais nas traseiras da Estrada de Benfica e da Rua Duarte Galvão. Os reflexos da luz davam para ver as nêsperas já amarelas e assustei-me quando vi o guarda noturno a vigiar a rua. Depois acalmei eu via-o, mas ele não me via.

A noite não passava e eu não dormia. O que me atezanava a alma era ser preso, torturado e sabe-se que lá por quantos anos. Nestas ocasiões não conseguimos impedir que nos cheguem à mente os sentimentos mais inesperados: porquê arriscar tudo pelos outros? Merecerão? Que sacrifícios devemos consentir? Toda uma vida? Passar a vida na cadeia?

Há nestas alturas a perda da noção do próprio tempo, só tinha na mente aquela dolorosa incerteza.

E no meio do sobressalto tocou a campainha. Só tive tempo de me regozijar por me ter livre dos panfletos, mas vendo as horas não devia ser a PIDE, eram quatro horas; abri a porta; era V. que me atirou de chofre:

– Não estás a ouvir a rádio?

– Não!

– Há um golpe militar.

O susto foi ainda maior. V. era um homem dos seus quarenta anos. Fumava cigarros uns a seguir aos outros. Bastava-lhe um fósforo. Tinha quase a certeza que era do partido. Os olhos de V. pareciam luzes no meio da sua barba espessa.

Disse-lhe:

– Deve ser o Kaúlza. Estamos feitos. Se eles tomam o poder matam-nos.

  1. olhou para mim e só me perguntou:

– Liga o rádio!

Ouvimos um dos primeiros comunicados e continuamos na dúvida.

Depois um outro comunicado um pouco mais explícito, quanto aos fins, animou-nos. Acordamos os restantes colegas de casa. E ficamos colados ao rádio. Quando a madrugada queria vencer o reino das trevas ouvi nos prédios da Rua Duarte Galvão os estores ergueram-se, como se todos acordassem mais ou menos à uma; os rostos aparentavam estarem assustados, como se, sem falarem, perguntassem com os olhos o que sucedia.

O tempo parara. Talvez assustado pelo que adivinhava dentro dos seus interstícios. Era à janela que tudo se passava. Lentamente. A tempo de poder ver acontecer o sorriso mais fundo que cada um tem, um sorriso, porém, ainda por assentar. Depois o rosto tomou conta do sorriso. Ninguém parava de olhar com aquele novo rosto e via no outro o seu próprio contentamento. A alegria jorrava livre ao fim de tanto tempo.

A camarada Z. tocou a campainha. Olhei pelo ralo da porta. Era ela a clandestina que chegava à luz do dia e me disse:

– Vamos para a rua apoiar e exigir a liberdade, a libertação dos presos, o fim da guerra, vamos.

Só anos mais tarde me lembrei dos panfletos em cima do telhado vizinho. Aquela fora a minha última noite. A noite que acabou abrindo com um sorriso no rosto de todos e com a alegria a transbordar em todas as ruas.

Texto publicado, hoje 25 de abril, no Público     

 

O bombardeamento da Síria neste estranho mundo*

Não deixa de ser estranho que o homem envolvido em escândalos que, segundo a investigação tornada pública vão desde casos com prostitutas em Moscovo, com uma atriz de filmes pornográficos, com colaboradores do seu círculo mais íntimo, entretanto “fired”, possa ter o apoio do Reino Unido, da França e a compreensão da U.E., incluindo do governo português, para bombardear a Síria contra o direito internacional.

Este homem parece apostado em levar as relações com a Rússia a um grau de conflito extremo só para “mostrar” que não é amigo de Putin.

Esta tríade deve desprezar-se, por motivos óbvios, desde logo porque ele Trump não deve ter capacidade para manter uma conversa sobre o mundo que vá para além de um tuíte com mais ou menos palavras.

A necessidade de aparecer a mostrar a sua capacidade militar para continuar a vender armamento fá-los darem as mãos.

A este homem o que lhe importa é ele, os seus, e os amigos, se possível com dinheiro, como os multibilionários do Golfo, que atemorizados pelo ar do tempo, lhe compram armas para impedir que aconteça qualquer surpresa nas suas vidas e para que, em Riad, as cabeças possam continuar a rolar todas as sextas e o wabahismo, puro e duro, seja a religião da casa real saudita e, se possível, nos países vizinhos.

Na verdade, os bombardeamentos levados a cabo pelos EUA, Reino Unido e França contra a Síria, com o pretexto do regime de Bashar Assad ter utilizado armas químicas contra os jiadistas apoiados pela Arábia Saudita e outros países do Golfo, puseram em relevo o quanto a tríade está disponível para apoiar o reino saudita na sua estratégia para dominar a região.

EUA, Reino Unido e França precisam de vender armas à Arábia Saudita e esta precisa das armas daqueles fornecedores.

Os governantes sauditas têm bem perto da sua fronteira noroeste um regime laico, republicano dirigido por uma minoria muçulmana que desprezam.

Além disso, a aproximação dos sírios ao Irão é para a monarquia do Golfo um temor, pois internamente mantêm silenciadas a ferro e fogo e golpes de sabre a minoria chiita.

É esse o objetivo da guerra que a Arábia Saudita leva a cabo no martirizado Iemen, onde o  número de mortos, sobretudo civis não para de crescer.

É preciso ter presente que George W. Bush, Blair, Aznar, Barroso e Portas  orquestraram um dos maiores embustes até hoje ocorrido para justificarem a guerra contra o Iraque. Talvez, em termos internacionais, a maior mentira. As desgraças não param de ocorrer como réplicas à criminosa guerra contra um povo indefeso.

No presente quem fala a verdade? Alguém pode acreditar em Trump? E qual a razão para acreditar em T. May havendo um laboratório suíço que revela que o tal gás utilizado contra o espião e a filha era um agente químico denominado BZ…em quem acreditar?

Ele, May e Macron juntaram-se para retaliar um país antes que se apurasse o quer que fosse relativamente à utilização de armas químicas, num cenário de derrota inevitável dos jiadistas em Douma. Os peritos da OPAQ chegaram ao terreno no dia 17 do corrente mês depois dos bombardeamentos.

Ajudados no plano da guerra comunicacional por um conjunto de órgãos de informação sempre dispostos a dizerem sim aos “donos disto tudo” propagaram de imediato, através da exploração de fotos e vídeos de crianças filmadas não se sabe por quem, a ideia de que os malvados dirigentes sírios e os malignos russos mataram com gás cloro ou sarin inocentes criancinhas, meninos e meninas, como relatou o mais destemperado Presidente dos EUA, o homem que não escreve mais de dois ou três parágrafos seguidos.

Neste quadro, é lamentável que o governo português tenha declarado compreender os bombardeamentos que visaram não só a Síria, mas a própria ONU e o direito internacional.

Há muito que as principais potências ocidentais se querem ver livre do “espartilho” que é o direito internacional. Correm contra o tempo. Bem sabem que a multipolaridade do mundo vai limitar o seu espaço de intervenção militar. Por isso vendem armas a rodos para os seus amigos ricos.

O homem que declara contra a comunidade internacional que Jerusalém é a capital de Israel, é o mesmo, que de braço dado com a despistada T. May e o ex-socialista, amigo dos franceses mais ricos, bombardeia a Síria. É a esta tríade que Portugal e a U.E. manifestam compreensão, apesar de António Guterres ser o Secretário-Geral da ONU.

Que se pode esperar de um mundo assim?

*Publicado no Público online de 19/04/2018

 

 

 

Síria: armas quimicas ou de intoxicação massiva?

 

1 – O alegado ataque com armas químicas em Douma perto de Damasco aconteceu quando os “rebeldes” estavam derrotados e a ação conjunta do exército sírio com os militares russos era imparável.

Aliás, os recuos sucessivos em Ghouta e os reflexos nas chancelarias ocidentais de solidariedade com os “rebeldes” era notório, e assistiu-se a uma tremenda campanha de solidariedade com os jiadistas do Jaysh al-Islam (Exército do Islão) exibindo vezes sem conta bombardeamentos sobre crianças indefesas com gente a dar conta da versão dos tais rebeldes. O “nosso” Diário de Notícias de 11 deste mês titulava que só um grande ataque americano poderia travar a vitória de Assad…

Neste quadro de derrocada dos “rebeldes” e da discussão sobre a sua rendição e partida para o norte do país, por que motivo haviam os sírios / russos de atacarem com armas químicas os que já estavam derrotados? Se o inimigo estava derrotado com que objetivo atacariam os sírios as indefesas crianças de Douma? Para tocar à campainha da Casa Branca, da Downing Street, do Eliseu a pedir misseis?

 

2 – É curioso observar que esta campanha só tem em conta o que dizem Trump, T. May  e Macron. Será que alguém lhes concedeu algum direito especial de serem investigadores, procuradores, juízes e executores de penas?

O direito internacional não é propriedade de ninguém, a não ser da comunidade internacional que materializou esse acervo jurídico na ONU. Entretanto, fala-se cada vez mais em punir do que dar o primado às instâncias internacionais que albergam dentro de si os mecanismos para tratarem responsavelmente do assunto.

No caso português é ainda mais grave e triste porque no topo da hierarquia da ONU está um português e esse facto devia levar a que as diversas análises dessem espaço à intervenção da ONU.

Mas não, há já quem qualifique Bashar Al Assad do mais bárbaro líder mundial e dê como certo que a Síria levou a cabo o alegado ataque. Estranha-se que nas palavras de António Costa e Santos Silva se dê como certo que Bashar violou grosseiramente o jus in bello, o que equivale a dizer que também Portugal alinha no coro dos que se fazem de polícias, procuradores, juízes e carrascos.

Esta sobranceria e arrogância de menosprezo e desprezo pela ONU e pelo direito internacional é uma marca do nosso tempo.

Os que supostamente clamam por linhas vermelhas deviam ser os primeiros a procurar as linhas azuis e defender as instituições encarregadas de zelar pelo direito internacional.

Em vez de agirem animados em vingar-se por Bashar ter vencido os “rebeldes” deveriam trabalhar para soluções que permitam aos povos da região usufruírem dos direitos e das liberdades que lhes permitam o pleno exercício da soberania.

Não é justo, equilibrado, sensato o Presidente Macron, ao lado dos altos dignitários sauditas, ameaçar a Síria, sabendo-se que, em termos de respeito pelos direitos humanos, o reino saudita configura umas das mais tenebrosas ditaduras que faz rolar a cabeça dos seus opositores.

Quem se esqueceu da exibição de Trump do cheque de centenas de milhares de milhões de dólares de armamento vendido à A. Saudita? Great!, disse ele eufórico.

E a Arábia Saudita está metida até às orelhas no apoio aos “rebeldes” sunitas jiadistas que combatiam em Ghouta e continuam a combater noutras regiões da Síria.

Entre um regime autoritário, repressivo, laico, tolerante para com os cristãos da Síria, como é o caso da Síria e o regime saudita onde nem sequer pode haver um templo fora da religião sunita wahabista, devia fazer os seguidores da fá cristã a colocar a fé à frente dos negócios, para nem sequer falar dos direitos humanos…

A perseguição movida aos cristãos depois o derrube de Saddam Hussein devia fazer pensar…

 

3 – O que se vai passar na Síria não se sabe. Os russos têm os seus interesses, aliás como os EUA, a G. Bretanha e a França.

No Médio Oriente há uma luta tremada entre o Irão e a Arábia Saudita e os seus respetivos apoios internacionais (Rússia e EUA/Ocidente).

A vitória síria/russa pode ser importante no quadro de uma solução global ou ser o início de um conflito alargado a todo a região com o envolvimento cada vez mais alargado da Turquia. É preciso que as armas se calem na Síria, no Iémen, na Palestina e que as negociações por mais difíceis que sejam substituam misseis novos ou velhos, feios ou bonitos.

Não há outro caminho. Ao terreno chegaram os peritos do OPAQ. Deixem-nos investigar. E que as conclusões façam luz e ajudem a Humanidade. Que a lei dos misseis (sejam eles de quem forem) se submeta à lei internacional.

A guerra no Afeganistão dura há quarenta anos e por lá já passaram soviéticos, norte-americanos e soldados da NATO… A Síria não deve correr esse risco.

Texto publicado hoje no Público e escrito antes dos bombardeamentos   

 

 

A Catalunha e os novos fariseus, uma justiça ao serviço da opressão

 

Os fariseus modernos proclamaram a prevalência da Constituição espanhola para justificar a prisão de uma dezena de dirigentes catalães eleitos. Há presos catalães por motivos políticos que tem a respaldá-los o voto popular em eleições livres. Tão livres que, mesmo com dirigentes presos, o povo da Catalunha votou maioritariamente nos independentistas.

É preciso ter presente que as secessões nunca se basearam na legalidade existente, pois ela jamais comportou a separação. Ainda hoje Portugal seria uma província ou uma região de Espanha se não fosse a secessão pelas armas de Dom Afonso Henrique que levou ao reconhecimento da independência portuguesa em 5 de abril de 1143, no Tratado de Zamora.

Toda a gente sabe que a Espanha tem dentro de si nações, com língua própria e que, de acordo com os mais elementares princípios do direito internacional, têm o direito à auto determinação, no quadro de uma legalidade que contemple esse princípio. No quadro de uma legalidade que não contemple tal princípio os povos têm o direito à chamada guerra justa contra o opressor; é uma exceção ao nº4 do artigo 2º da Carta das Nações Unidas que interdita a guerra.

Nunca a independência de um país foi defendida por todos os autóctones desse país. Sempre houve filipistas em Portugal na altura da perda da independência de Portugal para Castela. Sempre houve nos EUA quem pretendesse manter a ligação à Inglaterra ou na Argélia à França, ou nas colónias portuguesas a Portugal; é dos livros e da História.

Cabe, assim, perguntar se o que se passa na Catalunha é um problema interno. E o que se passa no Irão? É um problema da União Europa ou também é só interno? E o que se passa na Venezuela? E o que se passava no Kosovo era um problema de que país? E o que se passa na Sahara Ocidental é um problema de Marrocos? E o que se passa na Palestina é um problema dos palestinianos, face ao qual a comunidade internacional baixa os olhos para fazer de conta que não vê os milhares de mortos, vendo apenas os mortos sírios, esses sim, envolvidos num conflito interno? E o problema de Timor-Leste era um assunto interno da Indonésia, não era? E o problema da minoria rohingya na Birmânia não é interno?

Os independentistas catalães circunscreveram a sua ação a um quadro pacífico no qual pretendem que lhes seja reconhecido o direito à independência.

Independentemente da realização do referendo, convocado sem sustento legal, o problema da independência da Catalunha tem de ser resolvido através do meio que permita ao povo catalão optar pela independência ou manter a sua integração na Espanha. O modo como o governo espanhol está a tentar resolvê-lo, por via dos tribunais, é insustentável. Quantos mais independentistas prenderem e condenarem, mais agravam a situação criada.

Só dando a palavra ao povo catalão se pode encontrar a solução que permitirá resolver a equação em questão.

Aliás a prova da derrota de Rajoy foi o quase desaparecimento do PP na Catalunha; naturalmente que o Partido Ciudadanos ganhou porque houve uma transferência de votos que provavelmente não se repetirá na mesma escala.

O certo é que a repetição das eleições, em dezembro do ano passado, confirmou que os catalães têm a preferência pelos partidos independentistas. E assim sendo, continuar a fazer de conta que o problema se resolve com prisões e eventuais condenações, significa acrescentar lenha ao fogo existente.

Os juízes conselheiros do STJ de Espanha ao ordenarem a prisão dos independentistas catalães estão a dar guarida às teses do governo espanhol que pretende tapar o problema com a repressão que se está a abater sobre os dirigentes catalães a quem o povo catalão deu o seu voto de modo maioritário. Querem fazer passar o que é impensável passar – que Puigdemont e os seus companheiros são criminosos; só mentes perversas o concebem. Os tribunais não foram feitas para impor a tirania centralista.

Se as tentativas de negociação dos catalães enfrentam o punho centralista e brutal dos juízes a fazer de políticos a crise não só se vai agudizar, como o afastamento da Catalunha será maior, devido exatamente a essa cegueira.

As independências quando são suportadas pela maioria de um povo não são impedidas nem por exércitos ou governos, muito menos por tribunais. A ver vamos.

Os juízes alemães de Schleswig-Holstein não quiseram ficar na fotografia como Pôncio Pilatos. Pelo menos para já. Os dos STJ de Espanha ficarão como tendo colocado a justiça ao serviço da repressão e opressão. É triste não poder contar com a justiça.

Texto publicado no Público de 11/04/2018

Pode um progressista cego ver a realidade (II)

 

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

PODE UM PROGRESSISTA CEGO VER A REALIDADE (II)

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

Pode um progressista cego ver?

Putin é o Presidente da Federação Russa, país que pela sua extensão se estende desde a América do Norte, abarca toda a Europa e abraça o norte da Ásia. Só na Sibéria caberia toda a Europa.

Pelo seu contributo no domínio da literatura, música, pintura, arte em geral, política, ciência, cosmonáutica, a Rússia é um expoente mundial.

Foi no território da Rússia que teve lugar a primeira revolução socialista vitoriosa.

A Rússia, herdeira, no território, de parte da URSS, é um país com interesses próprios que poderão chocar com outros interesses de outros países, como é normal.

Rivaliza no domínio militar com os EUA, em termos de poderio militar, embora o orçamento militar dos EUA seja de cerca 700.000 milhões de dólares e o da Rússia 50.000milhões de dólares.

Como se viu na Síria, a Rússia, na defesa dos seus interesses próprios, independentemente dos interesses sírios, é capaz de intervir em todos os cantos do mundo. Ajudou os sírios a combater o Daech e a ganhar a sua base militar, tal como outros países o fazem noutras latitudes, sendo que na Síria bem gostariam os EUA de ter uma base para melhor atacar o Irão.

Diga-se, em abono da verdade, que é Israel com apoio dos EUA que ocupa os Montes Golan da Síria contra a decisão do Conselho de Segurança da ONU. Ainda em abono da verdade foi Trump quem decidiu reconhecer Jerusalém como capital de Israel contra Resoluções da ONU.

A Rússia não foi, não é, nem provavelmente será um país exemplar em termos de direito internacional, tal como o Reino Unido, a França ou os EUA…

E, como tantas outras potências militares, é um país que tem um peso no conjunto da vida internacional em termos tais que não deixam dúvidas acerca da sua capacidade militar.

Nas eleições russas participou, entre outros, o PC russo que obteve pouco mais de onze por cento dos votos.

Outros candidatos não foram admitidos a concorrer, o que não é curial, nem desejável. Porém, as eleições russas são iguais a muitas outras que existem em países aliados do ocidente, e apesar de tudo são uma expressão da vontade do povo russo. Há países que estão no coração dos EUA e do Reino Unido que consideram a democracia uma heresia.

Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário.

Acontece que está em curso uma investigação, o que significa que ainda não há uma certeza acerca de quem foi o autor do crime.

E como é do conhecimento geral, enquanto uma investigação investigar, não há, até terminar, uma conclusão. Não havendo conclusão, não há ainda culpados.

A pressa em culpar faz lembrar as armas de destruição massiva que afinal não existiam no Iraque.

Daí que exigir que se chegue a um resultado final da investigação seja uma postura adequada a um juízo de razoabilidade, apenas porque é necessário apurar quem foi o responsável pelo envenenamento.

Ser progressista também é pensar pela sua própria cabeça e ao falar-se em armas químicas vale lembrar os terríveis crimes dos EUA no Vietnam e da ausência desta histeria coletiva para expulsar diplomatas americanos.

Se se tivesse feito como agora se está a fazer em relação aos EUA, por certo os EUA ficariam sem diplomatas no mundo inteiro.

Se se tiver em conta a guerra do Iraque levada a cabo com o monumental embuste, teríamos de expulsar de todos os postos os diplomatas dos EUA e do Reino Unido, da Espanha e de Portugal.

A cegueira, mesmo de um progressista, é sempre uma cegueira.

Andou bem o governo português ao não acompanhar esta histeria. Não porque seja brando em atacar os russos, mas porque os interesses de Portugal passam por manter relações construtivas e mutuamente vantajosas com a Rússia.

Não é necessário gostar de Putin para perceber que todos os Estados têm interesses próprios, designadamente a Grã-Bretanha, os EUA, A França e a Rússia entre outros. Basta atentar nas intervenções destes países. O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições.

A legalidade internacional exige de todos os mesmos compromissos e comportamentos. Se antes de chegar à obtenção das provas de que foi a Rússia a envenenar o tal espião e a sua filha se atua como se fosse verdadeiro o que que pode vir a ser ou não ser demonstrado, semelhante comportamento é o caos nas relações internacionais. Pode um progressista aprovar este ponto de vista?