Nem todas as árvores morrem de pé

chaparro deitado

As árvores, diz-se, morrem de pé. A verdade é que as há que preferem morrer deitadas. Veja-se o chaparral que vai morrer junto ao grande lago que é o Alqueva. Todas de pé, menos três. Duas deitadas a espreguiçarem-se para o lado do nascente, esperando da água e de Cheles sabe-se lá o quê.
A outra espreguiçando-se para o poente virando costas a Castela e estendendo-se para Montejuntos.
Todas as outras erguendo-se para o céu de onde vem um calor impiedoso a crestar o restolho de agosto, aguardando que os pombos torquazes nelas acarrem quando o sol se estiver a ir e um ventinho vier serenar a pele dos chaparros .
Só que ninguém sabe explicar, nem os grandes sábios, a razão das três azinheiras não quererem morrer de pé quando chegar a sua hora e deitarem-se à espera do dia final para aquecerem no seu brasido a alma dos de Capelins.
Virando as costas às irmãs estas três azinheiras estendem a sua personalidade horizontal, como que rastejando à procura do que só elas sabem, pois nunca o disseram a ninguém, nem aos que as cuidam.
Rastejar pode ser a afirmação no meio da altivez.
Delas um dia se poderá dizer morreram como os homens.
Alguns, raros, como estas azinheiras, morrem de pé. A natureza poderia explicar. Porém, o que ela sabe não o diz. Quem quiser saber o há de procurar e se tiver sorte a pé ou deitado o ficará a saber.

Os Monchiques do PSD e a falta de espuma do CDS

 

Após três anos de governo PS com apoio parlamentar das esquerdas, a direita quando governou estava tão convencida da inevitabilidade da austeridade que ainda não se encontrou consigo própria, nem com um programa que a possa guindar ao poder.

Rui Rio tem consciência do estado de alma do partido que se acomodou tanto a nível de direção como localmente. Está burocratizado e disponível para a lutas internas por postos que assegurem a vidinha aos seus membros. Mobilizam-se em torno dos líderes que alimentam as suas esperanças de não serem esquecidos na hora da vitória.

A aproximação de Rio ao PS, que conta com muita gente dentro do PS, constitui para os anteriores círculos dirigentes do PSD uma traição ao projeto neoliberal que defenderam à outrance, pois sabem que não tem, num eventual bloco central, a mesma intensidade. E é isso que os une, o galope neoliberal.

É a esta luz que Santana abandona a família para se arvorar em ser o único e legítimo filho do que alegadamente era o PPD de Sá Carneiro e que ninguém sabe. Os cismas são vários sobre o verdadeiro pensamento de Sá Carneiro.

Congeminou que pode ter um resultado eleitoral para lhe dar capacidade de contar na cena política, o que não sucederia com Rio.

A Santana não lhe basta um cargo proeminente em qualquer instituição pública. Quer mais; e esse mais o PSD não lho dá, nem provavelmente viria a dar.

Santana e Pedro Duarte, Montenegro e outros largaram o fogo no PSD e agora são muitos os Monchiques que Rio enfrenta e ao que parece sem ajuda de meios aéreos.

Tenta apagá-los fazendo da época dos incêndios devido às elevadas temperaturas a sua oposição ao governo.

O CDS, sacrificado pela estratégia de Rio, aproveita-se da falta da falta de espuma para apagar os Monchiques do PSD. Está, porém, tolhido. A visibilidade que Portas lhe deu no governo de Passos, incluindo a de Cristas, vira-se contra o próprio partido, mesmo que este hoje proclame o contrário de tudo o que aprovou no governo desde o congelamento dos salários na função pública e do salário mínimo nacional, os cortes nas pensões, os aumentos nas taxas moderadoras, o aumento da carga de horas de trabalho na função pública, os cortes nos guarda florestais, os cortes nas quotas do pescado, os despejos, a reforma dos tribunais afastando os cidadãos da justiça, as privatizações sem lei nem roque, até ao pavor que era viver sob o chicote destes mandarins impiedosos, pois todos os dias os bilionários tinham boas notícias e o resto da população más. Foi o período em que uma ínfima minoria ficou mais rica e a imensa maioria com menos rendimentos e se espalhou deliberadamente a pobreza.

Enquanto o PSD lambe as feridas, o CDS chega-se à frente nas críticas ao governo. Enquanto Rio ensaia o bloco central, o CDS preterido demarca-se, marcando o terreno.

O CDS cavalga a crise do parceiro de tantas ocasiões para ganhar estaleca. Não parece vir a ter sorte.

Surpreende que um partido como o PSD se encerre dentro de si próprio por falta de um programa que una quadros e dirigentes. Rio bem tenta fazer da aproximação ao PS um guião, mas sem sorte

É algo inesperada a incapacidade destes partidos terem um programa, um guião para apresentarem. Vivem de incêndios, roubos de armas e pouco mais. Como dizia o seu protetor Cavaco – chocam com a realidade…

Publicado no Público online com o título truncado

Centeno, a Grécia e o jogo das escondidas

 

A propósito da saída da troica da velha Grécia reacendeu-se na vida política uma discussão enviesada que visa esconder o que esteve na base das intervenções do Banco Central Europeu, FMI e União Europeia.

O que levou ao colapso de algumas economias periféricas foi a crise do sistema financeiro internacional. Para o salvar os Estados resolveram emprestar milhares de milhões de euros para assegurar que os bancos não faliam e assim salvar os congéneres franceses e alemães que iriam ser duramente atingidos com os incumprimentos dos bancos dos países da periferia.

O Estado português já fez chegar à banca mais de dezassete mil milhões de euros.

A crise do setor imobiliário alimentado por uma banca insaciável espoletaram a crise nas economias mais vulneráveis.

Independentemente da leviandade de muitos cidadãos e de certas empresas, no que se refere ao acesso ao crédito oferecido pelos bancos, a verdade é esta: os Estados pediram a intervenção da troica para salvar a banca.

No vídeo com que Mário Centeno brindou os gregos e a União Europeia não há uma palavra que refira sequer ao de leve as causas da crise. Tudo se passa como se os gregos fossem os únicos responsáveis pela crise, independentemente de graves e grosseiras distorções na economia grega da responsabilidade das autoridades gregas.

Na mensagem de Centeno o que se passou na Grécia foi um desvario grego e agora ou andam direitinhos de acordo com a troica ou voltam a ter de enfrentar o pelotão de domesticação dos países sem salvação.

As transferências de riquezas dos gregos para empresas estrangeiras, o desemprego a rondar os vinte e seis por cento, a pobreza extrema de mais de um quarto dos gregos, uma economia que compete a partir de salários baixos, um serviço de saúde em ruínas, eis o resultado da intervenção da troica.

A Grécia está hoje bem mais pobre do que estava. Vai continuar sob vigilância apertada de que Centeno se vangloria.

As economias da Europa central safaram-se afundando a economia dos países periféricos.

Com os chamados programas de assistência financeira os países sob assistência ficaram muito mais pobres e os países que a dirigiram mais ricos. Onde está a coesão da União Europeia? Será possível imaginar uma união em que uns empobrecem e outros enriquecem, devendo os que empobrecem seguir as regras que os levaram ao empobrecimento?

Pode aceitar-se, ou há quem julgue que será aceite, que a pobreza é um mal para os países pobres, mas um bem para quem investe e pode retirar lucros fabulosos? É esta a União?

Centeno é Ministro das Finanças de um governo que governa com o apoio parlamentar das esquerdas não pode ser o mandatário do rigor austeritário das troicas. É um caminho perigoso para o PS. Afinal o senhor holandês que Centeno substituiu continua a reinar…

 

Restolhos de Capelins

 

 

 

Mudos os campos de trigo ceifados

E pequenos olivais

No topo da colina suave

Nos restolhos caem para leste as sombras

das azinheiras

à hora crepuscular

Restam grãos pelo chão torrado

Réstias que os pássaros depenicam

Uma águia regressa ao seu altivo posto

Só falta chegar a noite

E tudo se desvanecer

 

 

restolhos

Restolhos de Capelins

 

Na planície e nas chapadas de costas ao Norte

mudos os campos de trigo ceifados

e olivais

Nos restolhos caem para leste as sombras

das azinheiras

à hora crepuscular

Restam grãos pelo chão torrado

réstias que os pássaros depenicam

Uma águia regressa ao seu altivo posto

Só falta chegar a noite

e tudo se desvanecer

 

 

 

 

Cemitério de Capelins

Diz-se que as almas voam após a morte. Umas para cima, outras para baixo, embora nunca ninguém tenha visto o céu ou o inferno e não saiba por isso a sua localização.

Sabe-se agora que afinal o purgatório só existe na vida terrena enquanto se aguarda a publicação das notas ou a resposta a um amor, ou a leitura de uma sentença, ou o polícia após o stop.

O que se diz é que elas,exatamente por serem almas, não ficam apodrecer com o corpo. Vão-se.

Reparem que para o arquiteto das almas de Capelins elas estão por ali, ao pé dos corpos. Imagino a alma do grande poeta de Capelins, o Ti Limpas, conhecido em todo o concelho do Alandroal, pelas sua décimas, a entreter o São Pedro com a beleza das sua imagética e não deixo de pensar se a alma está por cá ou realmente no céu, pois o céu não pode ser um cemitério que deverá ser a sala de embarque para a eternidade.

E não posso deixar de imaginar o Ti Zé Rocha, todo atiradiço, a perguntar ao São Pedro por alguma gaiatona, mesmo freira que ele não era de grandes exigências.

O campo seria santo se a santidade fosse a morte. Fica a dúvida acerca da santidade já que o respeito pelos que repousam em paz é intocável. Fica nas mãos do artista o que ele tinha em mente quando escreveu o que se pode ler abaixo.

 

 

cemiterio

Matam crianças para impedir homens iemenitas?

O nosso mundo perdeu a vergonha, se é que alguma vez a teve. Só o preocupa o que o pode sossegar. E só o desassossega as grandes notícias que absorve.
Na verdade, deixar que nos digam o que está certo ou errado é desde logo um modo de nos formatar no que se refere aos grandes acontecimentos que marcam a vida das pessoas e das comunidades. Seguindo o trilho evita que tenhamos de pensar. Pensar é trabalhoso. Olhar é mais fácil.
É a essa luz que de vez em quando somos abanados por notícias que vão diretamente para as paredes mais sensíveis das nossas almas.
As notícias frenéticas e brutais do envenenamento de um espião russo que passou a trabalhar para o Reino Unido, trocando de patrão, colocaram o mundo ocidental a expulsar, em catadupa, diplomatas russos, não sendo ainda hoje claro quem foi o autor do envenenamento. Em represália, Putin procedeu do mesmo modo.
Esta semana um autocarro cheio de crianças iemenitas foi atacado no Norte do Iemen por aviões sauditas causando a morte e ferimento a mais de setenta.
Tais mortes não mereceram sequer reparos por parte dos governantes que expulsaram os diplomatas russos. Até os media, em geral, se mantiveram indiferentes.
Os assassinos das crianças justificaram o ataque para prevenir que elas pudessem vir a ser usadas como escudos…Isto é os sauditas invadem o Iemen para matar crianças porque temem o futuro, sabem que ocupam terra que não é sua.
Trump, desmiolado, preocupado em mandar no mundo a partir de um exército espacial, como nos filmes, apoia ferverosamente a Arábia Saudita. Tem uma paixão desmedida pelo Príncipe herdeiro saudita e por Netanyahu; une-os o seu ódio aos palestinianos e iranianos. São homens que prezam armas e a morte.
Choca que os mortos que lutam pelos seus direitos nacionais sejam danos colaterais acidentais dos amigos ocidentais.
Por quanto tempo os mais poderosos vão poder continuara fazer deste mundo arenas de horror?
As crianças mortas pelos misseis sauditas vendidos pelos EUA constituem uma marca indelével da ferocidade do regime absolutista de Salman. Estas mortes são crimes contra todos os seres humanos justos e passiveis de humanismo. Violam o direito internacional de modo grosseiro e violento.
Bem andou António Guterres em ordenar na ONU um inquérito, embora se saiba que quando chegarem as conclusões as emoções andem por outras bandas.
Por cá, como não houve mortes no incêndio de Monchique, andam a descobrir as falhas do governo, servindo em doses cavalares reportagens pornográficas das desgraças dos desgraçados.
De tantos mundos é feitos o mundo em que vivemos. Se as crianças iemenitas assassinadas a sangue frio por misseis sauditas fossem ocidentais, já aviões destes países estavam a disparar misseis para vingar as criancinhas como gosta de alegar Trump para justificar os bombardeamentos da Síria. As da Síria alegadamente vítimas de bombardeamentos sírios fazem o mundo chorar; as do Iemen não devem ser humanas. Os mortos humanos não são iguais. Há os que não contam; eram empecilhos, podiam vir a ser terroristas.

Marcelo foi à Volta

Marcelo foi à Volta e voltou à natação. No caso da Volta apareceu-nos casa adentro, sorridente, a comentar a vitória do ciclista do Porto W52, Raúl Alarcon. Fantástico.Fiquei à espera para ver se Marcelo espetaria dois beijos, um em cada bochecha do feliz galego. Conteve-se. Sim, conteve-se; o calor, que não o calo, explicará o contimento do mais alto magistrado da nação.
Poderá haver quem não compreenda esta súbita atração de Marcelo pelo ciclismo, mas ele explicou a uma velhinha de Figueró dos Vinhos que era uma coisa de família; um seu bisavô gostava de pedalar e daí ele achar que no seu gene estar inscrita essa caracteristica e era a explicação que tinha para o caso.
Por falar em família, Marcelo nao fez como São Tomaz, virou-se para Santana e de forma muito subtil defendeu que não se abandona a família, que é coisa feia. Ele próprio, pai e filho do PPD/PSD nunca o abandonou, nunca não, suspendeu a sua ligação à família. Suspendeu. Ele ligou para Pedro Passos e deve ter dito – vou suspender os meus passos para aí. Vão todos para Belém. E assim fez ele. Santana, ao que consta, disse, quem o ouvir comentar o comentário, grande coisa fez ele, era o que eu fazia se me apoiassem na família e fosse parar a Belém que é uma parte da minha identidade em matéria de ambições; já fui Presidente do Sporting, não vejo que não pudesse ser de Portugal. Aliás, falei deste assunto muitas vezes com Sá Carneiro e se Deus quisesse até podia ter-se dado caso e então sim eu suspendia-me sim senhor.
Consta que depois daquele brutal esforço ou antevendo-o, Marcelo, em férias, lado a lado com as voltas da Volta, foi surpreendido por éne jornalistas, sobretudo das televisões a dar uns mergulhos nas praias fluviais de localidades atingidas por fogos o ano passado. Imagino o sacrifício do nosso Presidente para dar umas braçadas, só no desempenho de altas funçoes é que o imaginamos a nadar…
Pode haver quem não compreenda esta atração pela Volta porque não tem ADN na família para a pedalada e para suspender a família, nunca abandoná-la. Só ele.

AVES/FCP – O duelo entre o dragão e opássaro que provoca chuva

Jorge Luís Borges no “Livro dos seres imaginários” deu conta dos poderes do Dragão ocidental e do Pássaro que provocava a chuva. Analisou o que se sabe, ao longo dos tempos, de cada um destes terríveis animais.
O que ele não foi capaz de prever, não obstante todo o seu poder imaginativo, foi que em Aveiro no dia quatro de Agosto o Aves e o Dragão se enfrentariam.
O Aves é um pássaro de renome e recursos tão vastos que em maio do corrente ano levou o poderoso leão, o rei dos animais, ao tapete. Antes que desse conta nem Jesus valeu ao leão. O rei dos animais foi esmagado.
No mundo antigo de onde sobressaía Confúcio, na milenar China, o pássaro que provocava chuva foi levado a sério.
Depois de domesticar o pássaro Confúcio aconselhou a construção de diques e canais para evitar desastres. O príncipe seguiu as orientações do mestre Confúcio e foi recordado para todo o sempre.
Jesus não levou a sério os perigos de tal pássaro, o Aves, e saiu inundado e encharcado. Não acreditou que um pássaro podia derrotar um leão.
Santo Agostinho, segundo Borges, escreve que o diabo “é leão e dragão”.
Se Sérgio Conceição não tiver em conta os poderes do pássaro Aves pode suceder-lhe o pior, o que vale por dizer, sair de Aveiro derrotado.
O tempo desgastou o outrora prestígio intocado dos dragões. Agora o dragão que não arregace as mangas e vá à luta com mais força que um leão pode ser humilhado pelas penas do Aves, um pássaro que pode provocar chuva e golos.

Honestidade, esquerda e direita

Apesar da sua lonjura no tempo a honestidade é um valor que perdura até aos nossos dias. Implica uma conduta marcada pela justiça, pela retidão e pelo respeito pelos bens alheios públicos ou privados, entre outros valores. Desde os tempos antigos que os valores políticos, religiosos, morais assimilaram a honestidade como um comportamento a seguir, mantendo atualidade acrescida face ao incentivo ao enriquecimento a qualquer preço que conduz à corrupção e a outros flagelos sociais.
A honestidade intelectual de cada um obrigará a que se não seja indiferente à sorte de dois milhões de portugueses que na pobreza; impondo opções políticas capazes de transformar a situação no sentido de conferir a todos uma vida minimamente decente.
Não é aceitável que há uma espécie de destino que torna a pobreza inevitável; outra coisa é a diferenciação social, essa sim inevitável e de certo modo louvável por privilegiar os mais capazes e trabalhadores.
A ideia da pobreza como inultrapassável vai bater direitinha às políticas de Trump, libertando os multibilionários de impostos e diminuindo drasticamente as despesas sociais. Esta ideia trumpiana assenta no facto que quanto mais ricos forem os ricos, mais ganham os pobres pelo facto da riqueza escorrer algo de cima da pirâmide social para os de baixo.
A conceção que defende a igualdade de oportunidades, a justiça social, serviços públicos de qualidade para a população, solidariedade social representa, em termos gerais, a esquerda, enquanto herdeira das transformações operadas desde o esclavagismo, o feudalismo, o colonialismo, o absolutismo até à resistência à vaga neo liberal que varre e desregula o mundo.
Sem as transformações revolucionárias que permitiram alcançar diversos “céus” terrenos não haveria eleições livres, nem direitos humanos, nem liberdade, nem igualdade entre sexos, entre muitas outras conquistas maiores da nossa civilização.
Foi a revolução de abril que escancarou as portas da liberdade, apesar de muita boa gente na altura a combater por ser um golpe de Estado para impedir a outra revolução, a tal que era a sério e colocaria o proletariado no poder seguindo os ensinamentos do camarada Arnaldo.
Ser honesto consigo próprio impõe opções consentâneas com a consciência de valores altruístas.
É, por isso, que mulheres e homens justos nunca baixarão os braços face à pobreza, enriquecendo o património da esquerda, sem deixar de reconhecer que pode haver gente conservadora que não aceite a pobreza como inevitável.
Outros, em geral de direita, achá-la-ão inevitável para que o país seja competitivo e venham os sugadores de lucros aproveitar privatizações de bens do setor público ao desbarato e prosseguir reformas flexíveis infindáveis quanto às leis laborais.
Neste sentido a direita é uma força de bloqueio à igualdade de oportunidades, à solidariedade, ao funcionamento de serviços públicos de qualidade.
A cupidez e a ganância desta minoria de multibilionários levou-os a “ter” à sua mercê representantes políticos a vários níveis para deitarem a mão aos bens públicos ou alheios. Muitos deles foram gerados no chamado arco da governação, ou seja, dignitários dos mesmos partidos aninhados aos grandes interesses económicos, recebendo os seus favores em offshores à escolha.
Podem até afirmar-se de esquerda, como o caso de José Sócrates, mas as políticas são de direita, serventuárias dos grandes interesses económicos e financeiros. Não é preciso ser detetive. É nessa onda que navega a grande corrupção.
O que não significa que a esquerda está imune a este flagelo. Nem de perto, nem de longe. O poder corrompe.
Sem dúvida que haverá na direita gente honesta. O que não a impede de ser de direita.
A ideia que não há esquerda e direita é de certo modo o cântico da direita. Só há um caminho e daí a irrelevância das nossas escolhas. É o caminho de obediência aos mercados. É a direita em todo o seu esplendor. Morreríamos cívica e devidamente anestesiados, se esta ideia fosse para diante.