Satanás- nova causa de inimputabilidade?

O Papa Francisco veio a terreiro defender que …”A Igreja tem de ser salva dos ataques deste ser maligno, o grande acusador, e ao mesmo tempo tornar-se mais consciente da sua culpa, dos seus erros e dos abusos cometidos no passado e no presente”…in Público de 08/10/2018.
Não sei se todos os crentes acreditam que o Diabo existe e, existindo, se é capaz de levar alguém a cometer crimes tão ignominiosos.
Numa sociedade moderna, num Estado de Direito democrático, a culpa do agente de condutas criminosas pressupõe e a liberdade, a auto determinação e a consciência.
O que significa que se uma prática criminosa não resultar da vontade livre e consciente do agente não é passível de condenação.
Se alguém com uma arma apontada à cabeça for obrigado a praticar um crime, não agiu livre e voluntariamente e daí não poder ser condenado.
Alguém com doença mental impeditiva de ter consciência da conduta criminosa, agindo por um impulso cego, não pode ser condenado pela conduta, quando muito condenado a ser internado em casa de saúde, pois pode revelar-se um perigo.
Quando um bispo, um padre, um cónego abusam sexualmente de crianças, adolescentes ou seminaristas adultos, são para tal empurrados por Satanás ou têm consciência de que estão a praticar um crime?
Claro que não foi o “grande acusador” o responsável por tal conduta. Seguramente que os dignitários da igreja que cometeram esses abusos fizeram-no de modo voluntário, livre, conscientes de que cometiam crimes, muitos deles encobrindo-se uns aos outros.
Portanto, se o Papa, admitindo a culpa dos religiosos que praticaram abusos, coloca o acento numa suposta capacidade de Satanás influenciar a conduta destes religiosos( conhecedores do tal poder por ofício) está, provavelmente sem o querer, a absolver numa certa medida uma conduta altamente reprovável colocando -se fora dos fundamentos modernos em que assentam as sociedades.
A consciência e a liberdade do agente que comete o crime é essencial; sem ela não há conduta criminosa.
Ora se a mais alta figura da hierarquia religiosa considera que Satanás ataca e os religiosos cedem, está a centrar o combate aos abusos sexuais de modo enviesado.
Não é pacífico que todos os crentes aceitem tal poder de Satanás; mas, mesmo os que aceitarem, sabem que o violador não devia ter aquela conduta e o próprio violador também sabia que aquela conduta era altamente reprovável.
Uma coisa diferente será o Papa acreditar que uma fé mais funda poderá ajudar os padres, os bispos e os cardeais a ser melhores cidadãos. Porém, os dignitários religiosos vivem na Terra, no meio dos seus concidadãos, em comunidades reguladas pela lei, e se prevaricam não podem vir invocar uma espécie de inimputabilidade.
São homens conscientes e com uma posição de destaque na sociedade conhecendo as leis em que ela assenta.
O Diabo, ou o quer que seja para quem nele acredita, não deverá ter costas tão largas que permita aos padres e bispos invocarem o nome do maligno para se desculpabilizarem.
A admiração do mundo pelo Papa Francisco mantém-se, mas as suas palavras podem estar a acertar num alvo errado do ponto de vista das sociedades onde estamos inseridos.
As sociedades modernas e democráticas estão vinculadas a comportamentos impostos pelas leis que são válidas para toda a comunidade. A fé diz respeito ao íntimo da cada um. O chamado poder de Satanás nunca poderá levar a apagar a conduta do criminoso que ao praticar o crime sabia que o cometia. A fé não é causa de inimputabilidade.

QUEM NÃO TEM MEDO DO MEDO? E DE BOLSONARO?

O medo existe para condicionar ou impor aos outros um determinado comportamento. Uma sociedade onde o medo impera não é uma sociedade em que os seus membros se sentem livres. Uma ditadura impõe-se pelo medo que provoca nos cidadãos. O medo é como um colete que se cola ao corpo e o aperta a lembrar-lhe o que não pode fazer.
As ditaduras não permitem que se exprimam as opiniões, que se organizem as correntes politicas, que os cidadãos se manifestem. Se não fosse o medo que impõem as ditaduras pouco tempo durariam.
Nem todas as ditaduras foram ou são iguais. Umas são mais sanguinárias, outras menos. Foi assim com Salazar, com Franco ou com os militares brasileiros, argentinos, uruguaios, chilenos, bolivianos no poder que através das famigeradas operações Condor, impuseram a ignomínia e o terror, assassinando milhares e milhares de adversários políticos, torturando-os barbaramente e fazendo desaparecer os adversários. O medo foi a arma de Pinochet, Geisel, Bordaberry e Videla.
Todos deviam ter medo e acatar os tiranos. A sua tirania para impor o medo lançava ao mar, amarrados de pés e mãos, os compatriotas que não se vergavam ao medo.
Jair Bolsonaro veio, em plena crise do país, defender que no Brasil não houve ditadura militar, o que constitui realmente a defesa clara do regime do terror que amaldiçoou o país.
Mas Bolsonaro já tinha dito algo que assustava: defendeu que não é pelo voto que se resolve os problemas do Brasil, mas sim com a morte de mais de 30.000, mesmo que haja inocentes; defendeu o uso indiscriminado de armas, a esterilização dos pobres, a perseguição dos homossexuais, a misoginia do tipo DAESH, a aplicação da pena de morte.
Bolsonaro utilizou a violência bíblica-a condenação eterna ao fogo eterno- para ameaçar destruir a ferro e fogo a podridão na sociedade brasileira, criando uma certa confusão acerca dos alvos, mas percebendo-se que seriam Lula e os seus seguidores. Até o pobre da favela impregnado de fé pode seguir o cruzado da moral.
Jair Bolsonaro sabe que ao defender este “programa” convoca o medo para a partir dele pôr o Brasil na ordem ditatorial e na paz dos cemitérios.
Bolsonaro, por experiencia do seu militarismo, sabe que apela ao medo para acabar com o que chama a “gritaria”, isto é, a liberdade e a democracia.
Na verdade, com medo, só há medo. O medo existe para meter medo, para paralisar, para que se não respire.
Se o candidato diz que a ditadura não foi ditadura é porque a defende. Bolsonaro entrou em cena, no momento certo, para defender o que seria impossível noutras circunstâncias. Aproveitando-se de um clima de corrupção que vem do alto da sociedade, quer aparecer como salvador, como justiceiro, mesmo quando proclama que sonega impostos. Invoca uma espécie de moral dos pastores evangélicos para proclamar a violência. Defende os setores mais retrógrados do capitalismo- os terratenentes, os donos das minas, e os donos da indústria armamentista, daí a defesa da arma à cabeceira de cada brasileiro
Quando defende a esterilização dos pobres para combater a criminalidade e a miséria, tenta fazer confundir alta corrupção (Lava Jato) com a criminalidade dos bairros, servindo-se daquela para justificar a “necessidade de varrer” o Brasil do que apelida de podridão e acertando armas aos pobres que não podem ter filhos, ao contrário dos ricos, por isso, cortaria em todos os apoios sociais familiares.
Tal como Salazar defende que o povo não está preparado para receber educação e não se vai educar.
Bolsonaro sonha acabar com a gritaria e impor o medo e fazer do Brasil um país onde os ricos e setores da classe média alta possam andar e dormir armados para poder matar e substituir a justiça dos tribunais pela justiça privada.
Bolsonaro quer fazer do medo a sua arma. Já assegura que não respeitará as eleições, se não ganhar. Para ele o homem é o lobo do homem. Pobre é para esterilizar. Rico é para comprar arma. Voto não resolve nada. Mulher é para calar. Só trinta mil mortos resolverão o problema. Quem não tem medo?
Texto publicado hoje no Público

Cavaco e Marcelo cumprimentaram-se, que alívio.

O atual não gosta do Palácio e troca-o por qualquer coisa que dê nas vistas. Anda por aí à procura de afetos. Tem essa queda. Por afeto ia ao Brasil com o dono disto tudo e pela mesma razão foi à Volta a Portugal em bicicleta, pois se falássemos de voltas ao país, bem, o homem já fez umas dezenas delas, tal é o afeto pelos portugueses. Está sempre em pé e em movimento, desde a nascença. Não há nada a fazer. O que ele quer é ar e o Palácio não lhe chega para os pulmões. Tem de sair. E largar afetos.
Há dias, o anterior, que se fechava no Palácio, caladinho que nem um rato, a escrever as memórias para que os vindouros soubessem quem por ali passou e que se não ria, tal o elevado sentido de Estado, largou uma castanholada que logo incomodou o atual. Como ele tem vinte anos de calo de governo e presidência bem sabia que era o governo que nomeava a Procuradora-Geral, a outra sem Geral está na SIC, dado o seu imenso saber.
E achou que a gerigonça fez uma coisa que ele não faria, o que ninguém era capaz de imaginar dada as coisas que são como são. Carrancudo atacou a geringonça, a qual não lhe ligou a ponta de um cabelo.
Foi o atual que veio em tom solene, sim solene, dizer que há coisas que não se fazem, muito para além do que é admissível, como, por exemplo, um Presidente fazer comentários sobre outro, mesmo se o outro já foi.
Naturalmente que o ex comentador ao dizer o que disse não comentava, não senhor, florentino, lançava uma farpa ao outro que jamais larga aquele peso de ser providencial que só se preocupa com as coisas de Estado, tal a sua envergadura.
Uma figura assim da estirpe das luminárias e de inteligência rara logo que soube do convite para a inauguração da nova Universidade Nova em Carcavelos, telefonou a dizer que ia , mas saía às dezanove e trinta e um minutos para ir ao jantar do neto que sendo neto de quem é, não se sabe o que poderá vir a ser, e daí nem mais um minuto porque o aniversário do o do anterior não se compara com a bagatela de um discurso de um Presidente da República. E saiu direitinho ao neto, que não aceitava esperar pelo avô quinze ou vinte minutos porque naquela família os Presidentes não contam, só os ex.
Notável sentido de Estado, próprio de que andou vinte anos no topo das instituições e aprendeu a comportar-se com a elevação máxima.
Há quem diga que estava muito zangado com a não recondução de Joana M. Vidal e quis dizer ao país o que ninguém tinha tido a coragem de dizer, pois, como se sabe, desde o CDS ao PSD, todos amocharam e ele o velho rebelde quis mostrar a sua indignação. Diz-se que ele esperava que Joana Vidal levasse até às últimas consequências o caso do BPN e reabrisse o dos submarinos.
Só que o florentino resolveu voltar à sua arte de esgrimista e de cortesão para avançar com o elevado sentido de Estado e declarar solenemente que Cavaco e ele se cumprimentaram. Notável. Ninguém imaginava que seriam capazes de se cumprimentar por causa do sucedido. O país sossegou quando a mão direita de Cavaco encontrou a mão direita de Marcelo…
Há jornalistas que investigam o que as mãos disseram uma à outra, mas ao que parece não têm fontes na epiderme dos Presidentes. Nunca lhes passou pela cabeça este imbróglio. A Polícia científica da PJ nega-se a colaborar. Se se cumprimentaram e o anterior deixou o atual a falar sozinho, qual é o problema, dizem.
O país alarmado com tantos casos de justiça descansou: aqueles dois homens cumprimentaram-se. Uf, que descanso.
Publicado no Público em 01/10/2018

A uberização da vida

Vieram, cheios de submissão do fundo de um país submetido pelo medo, tentar a sua sorte em Lisboa e no Porto. Só tinham pobreza em volta.
Vinham em busca da sorte e ela podia estar num táxi, trabalhando sem descanso. Nesses anos os táxis não eram para toda a gente. Quando falavam os “ésses” eram trocados “ches” denunciando a origem. Estabeleceram-se nas adjacências de Lisboa, muitos em bairros de pobreza. Só iam a casa pelo Natal e com o carro de praça (autorizado pelo patrão) carregadinho de aparências.
Eram submissos. Tinham um desígnio, ganhar para os filhos poderem estudar ou para comprar a casa que na idade da reforma os receberia.
Com a chegada em 1974/5 dos retornados das colónias, alguns deles enveredaram pela profissão de taxista.
Outros vieram já dos subúrbios das grandes cidades.
Outros com os despedimentos transformaram-se em motoristas de táxi, até comprando o carro e o alvará com os dinheiros das indemnizações. Tinham, alguns deles, outras almas. Já não tinham a submissão antiga. Alguns tinham-na substituída pela má educação quer na condução, quer no trato.
Era o tempo da carranca quando alguém saía do aeroporto com as suas malas para ruas relativamente próximas; era o tempo em que muitos taxistas semearam em torno de muitos deles uma ideia de antipatia.
Chegaram os tempos em que aquilo que estava assente deixou de estar. As profissões no novo tempo são um empecilho. Todos podem fazer quase tudo. Num tempo de programação e formatação há quem diga o que se tem de fazer. É tão só isso que querem que se faça, o que mandarem fazer. O colega mais experiente não ensina, alguém diz, nem que seja a ferramenta tecnológica.
Num tempo de crise, de impossibilidade de aceder ao mercado de trabalho com o estatuto próprio da profissão de cada um, há quem dominando as novas tecnologias, ofereça novas oportunidades aos que estão de braços caídos, ou ainda têm tempo disponível para agarrar mais uns euros e compor a vida.
São os tempos em que as tecnologias nas mãos da ganância criam uma espécie de novos proletários. Sim uma espécie. Já não são uma prole de bocas para sustentar. Um filho já é de mais. Tanto que exige o biscate da Uber ou da Cabify ou de outras sociedades de verdadeiros paxás que põem a trabalhar para si, sem qualquer instrumento de trabalho, os que dispõem de viatura adequada para lhes sugar através de uma exploração invisível.
E oficiados por gente de saberes, sacerdotes deste novo tempo, chegaram de mansinho, preços baixos e com algum cuidado no recrutamento.
Os deputados, que foram eleitos para representar os interesses do povo, acham que há igualdade entre os que têm de comprar alvará, fazer formação, ter seguros contra tudo e mais alguma coisa, e aqueles que apenas recrutam a disponibilidade dos donos dos carros?
A ruína dos taxistas (patrões e condutores) deixará nas mãos de rostos invisíveis este tipo de transporte das grandes cidades, que não tendo rosto, nem alma, estabelecerão as condições que entenderem.
A caminhada da Humanidade é também um percurso para alcançar direitos, sim direitos, pois os deveres há muito que têm de ser cumpridos.
Se não houver uma vida profissional minimamente organizada e estruturada que crie entre si laços face aos que detêm o poder de admitir a fornecer o valor da sua força de trabalho, haverá um mercado cada vez mais desregulado, em que cada um tem de se safar custe o que custar, deixando cair o mais saliente da sociabilidade, a pertença a uma profissão, a um saber, a uma comunidade ligada entre si por interesses próprios, à própria comunidade nacional.
E se é assim desde já para os táxis, não será amanhã para todas as profissões? Se basta fazer o que as ferramentas tecnológicas indicam…
E se voltarmos a trabalhar à peça, regulados por máquinas inteligentes que nos indicam os caminhos?
É este o formidável mundo novo em que o que é humano é apenas a parte da produção que obedece ao comando tecnológico? Vamos cabisbaixos como gado a caminho da uberização.

Texto publicado no Público online

O que “passou-se” na TVI, Cristina, princesa da Malveira?

Claro. Claríssimo. Portugal não tem princesas das verdadeiras há mais de cem anos e toda a gente sabe bem a falta que elas fazem. O nosso reino conquistado à custa de varapaus contra Castela, Aragão e Muçulmanos ficou órfão dessas princesas reais.
Só que entretanto à custa de tanta basbaquice arranjou quem tivesse esse estatuto. E de repente novamente órfão. Insiste-se, de repente. Assim como não se espera que uma coisa vá acontecer e ela acontece.
A que vem isto a propósito? Dos factos maiores que marcam as nossas vidas para os dias de hoje e para sempre. É que temos alguém que se compara em termos genealógicos à duquesa que virou princesa casada com Carlos.
As árvores que distinguem os anónimos plebeus da grande nobreza já não vão buscar raízes à Casa de Bragança. Esqueçam.
Agora a grandeza ou a miséria dos lusitanos já nem sequer resulta da proximidade sanguínea de Dom Duarte Pio.
Um país de basbaques gosta de ficar a ver passar os comboios, sobretudo quando os pode agarrar, entre as dezanove e as vinte horas, pois é a esta hora da competição entre as três casas reais RTP 1, SIC e TVI.
No dia 18 deste mês a marquesa da Malveira, Cristina Ferreira, anunciou na SIC que a sua transferência da casa real TVI deixou-nos a todos em puro estado de estupefação. Disse-o ela a Rodrigo Guedes de Carvalho, sem pestanejar. Assim. Com toda a naturalidade própria de um estatuto de pura realeza.…”Foi como a morte da princesa Diana. As pessoas não estavam preparadas”… E se calhar não estavam. Quem é capaz de aguentar uma coisa destas? Ligar a TVI para a agarrar e zás nada de agarrar na TVI, só na SIC.
É extraordinário. Simplesmente sublime. Uma pessoa a querer agarrar alguém num canal e ter de a procurar noutro. Quem é capaz de aguentar este inesperado e estupefacto facto? Quem tem coração para semelhante empreitada? Quem? Se um português filiado na casa real TVI liga para lá e não apanha a duquesa da Malveira, e tem de a ir procurar na casa real SIC, como, sublinha-se, como se pode aguentar semelhante e inesperada reviravolta na vida?
É como a morte da princesa Diana. Nem o príncipe Carlos esperava. Nem a Rainha-mãe.
É bom que se tenha presente esta orfandade que foi bater à TVI e a todos os portugueses.
…”Foi como a morte da princesa Diana”… Vejam bem, foi como, sendo que este como vem trazer à frase todo o sal real que deixa todos desesperadamente órfãos dado o inesperado.
O que vale, diga-se em abono da verdade, é que morre uma princesa e logo outra nasce.
Nos tempos das Casas Reais mediáticas uma princesa é como um astro que morrendo num lado, logo nasce outro, quando o vil metal assegura um real vencimento.
A TVI não pôde agarrar a duquesa da Malveira, mas por cerca de oitenta mil euros por mês a SIC apanhou-a e se, num primeiro momento foi inesperado, num segundo está conforme o valor das princesas em tempos de euros.
Afinal não foi assim uma coisa tão difícil de perceber: basta carregar no canal 3 em vez do 4 e lá está ela toda aparelhada, convencida, com o mundo dos basbaques de queixo caído.
As monarquias têm destas coisas. Haja princesas. Haja Cristinas para que o nosso quotidiano tenha sobressaltos. Pobre país que só tem uma, dado que a outra, que ficou na TVI, não tem este estatuto maior na nobreza das audiências.
Princesa só há uma que começou como plebeia a ganhar alguns euros e agora ganhou estatuto e guincha quando está no ar. Sim, a Cristina guincha e é no seu guinchar de cima dos seus sapatos de cerca de seis salários mínimos que ela deixou toda a gente estupefacta. Como alguém diria, noutra grande instituição, que “passou-se”? Nada. Apenas a troca de canal para ganhar mais uns euros e entreter a massa plebeia embasbacada com tanto brilho e guincho.

Publicado no Público online hoje dia 20 de setembro

O jiadismo clubistico

É interessante constatar que jogadores e dirigentes dos clubes de futebol gozam de um estatuto especial, embora informal, quanto à repercussão social no que se refere às suas condutas criminais.
Enquanto na sociedade, em geral, os políticos estão, em boa medida, desacreditados por todo um conjunto de motivos que vão desde a corrupção até à permanentes promessas incumpridas, os dirigentes desportivos gozam de uma acalmia, senão mesmo, quando confrontados com processos judiciais, de uma grande benevolência.
A sociedade portuguesa a pouco e pouco distanciou-se da política; prefere deixar que outros decidam, argumentando que são todos iguais, o que querem é tacho…
É uma postura de descrença e de abandono do que há de mais nobre na vida em comunidade que é o de participar nas decisões que à sociedade dizem respeito, escolhendo de acordo com as opções de cada um.
Um país onde valha a pena ter uma vida minimamente digna passa certamente pela participação de cada cidadão nos assuntos de toda a sociedade.
Vale a pena confrontar o grau de criticismo em relação aos políticos com o grau de benevolência com que se “absolve” os escândalos do mundo do futebol.
O facto de Mourinho ou Cristiano Ronaldo fugirem aos impostos com milhões e milhões de euros passa quase incólume na vida social. O caso explode. Aparece nos media e morre.
Repare-se na diferença com que o aconteceria em relação a qualquer dirigente partidário que fuja ao pagamento dos impostos devidos, como já aconteceu.
O mundo do futebol que movimenta cada vez mais milhares de milhões de euros aparece como algo à parte de tudo o resto. É o mundo que a partir da paixão pelo futebol se organiza de modo a que os adeptos e simpatizantes vivam uma fé clubística que ultrapassa em muito a menor racionalidade.
Os cidadãos veem o futebol como algo inofensivo, com a perceção que os jogadores vêm das classes populares e chegam ao topo por mérito; enquanto os políticos são gente letrada que vai para a política para se servir, para enriquecer ou arranjar vencimentos que de outro modo não obteria.
Se Ronaldo, filho de um casal que vivia numa enorme pobreza, singra na vida e ganha muitos milhões, é encarado pela população como um caso de sucesso, não dando grande relevância ao facto de fugir com muitos milhões em impostos.
Porém, se um autarca ou um dirigente da função pública, ou um ministro o fizesse cairia este mundo e o outro.
O futebol, tal como se apresenta hoje, com doses cavalares diárias, em múltiplas competições, está a tornar-se uma nova religião, seguida por bandos de fanáticos, capazes de arriscar o seu emprego e o sustento de suas famílias, para agradar ao seu clube.
O caso E-toupeira que envolve uma acusação grave ao S.L.Benfica é bem reveladora do fanatismo que faz com que simples funcionários judiciais arriscam a ser presos e a perderem os postos de trabalho; aliás, um deles já se encontra em prisão preventiva há meses. E a troco de umas camisolas, de umas idas ao estádio e tirar umas fotos com jogadores do clube para as colocar no Facebook…
É também interessante analisar o modo como a própria SAD do Benfica reagiu ao despacho de acusação, fazendo de conta que o MP bateu à porta da catedral onde moram os mais ingénuos cidadãos, espécie de anjinhos dos novos tempos, desde o assessor jurídico até ao Presidente que recebia mails do referido assessor, mas não o lia, fechava os olhos para não ficar a conhecer as alegadas falcatruas de Paulo Gonçalves…
Há e haverá sempre quem as defenda as direções façam o que fizerem, assumindo o clube como uma causa suprema, acima de tudo.
Diga-se que a própria SAD dá esse exemplo mantendo Paulo Gonçalves ao seu serviço, contrariando o mais elementar senso comum. Aparecem agora vários conselheiros retardatários com rolos de kleenex a limparem o SLB do assessor que tão bem assessorava…
A sociedade está já encharcada em futebol e tende a substituir o seu envolvimento na construção de uma vida decente e digna por um amor clubístico que apenas precisa de impulsos primários.
Para construir uma sociedade melhor é necessário um empenho mínimo. Para seguir um clube basta aderir e dar azo às descargas de simples impulsos.
É talvez, por isso, que façam o que fizerem os jogadores e os dirigentes, haverá no plano social uma atitude benevolente, porque eles não são a fonte dos males do nosso viver; são um dos fatores de alienação. De certo modo o fervor religioso foi substituído pelo fervor clubístico e aos novos ídolos tudo se perdoa.

De herois a vilões em tempo de klenex

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A vida tem destes desfechos. Quem ama desalmadamente pode perder-se perdidamente. É o amor em tempo de klenex.
Ser herói, servindo o glorioso. Tocar nos heróis por amor ao glorioso. Envergar a camiseta igual à dos heróis, à dos que recebem milhões e têm carros que espantam tudo e todos . E têm mulheres de instagran. E o mundo a seus pés.
Ser herói arriscando tudo, até as centenas de euros de vencimento. Tudo pelo glorioso. Mesmo tudo. Dar tudo para receber a recompensa de entrar na catedral e ser reconhecido como um dos “nossos”, dos que estão na primeira linha para o penta ou o hexa ou o que seja. Ser herói por uma fé incontida que se pode ajudar a ampliar, mesmo correndo riscos trágicos. Ser herói e ter alguém da família nos adjacentes da grande catedral vale tudo, incluindo trabalhar às escondidas para o braço direito do grande timoneiro. Só eles e os homens que não dormem para que o glorioso continue a ganhar.
Ser detido e na altura regressar como um herói. Continuar, apesar da detenção, no grande posto de onde “os” águias tudo veem.
Ser herói e furar como dizia o Zeca. Furar. Furar as vezes que fossem precisas. Sapadores no terreno ”inimigo”. Ser herói e esventrar o que devia permanecer intocável. Para se ser herói e estar onde estão os grandes chefes. Ao lado deles.
Como podiam dizer que não?
Amar perdidamente até se perderem…
Ambicionar desmedidamente até que agora, em tempos de klenex, é preciso que caia também o homem certo que percorreu milhas de futebol de Norte ao Sul para que se salve a grande instituição.
Ele, o homem certo, atrás do chefe certo vai ter que amargar o ostracismo, como no tempo dos gregos da Antiguidade.
Para que a águia voe alto é preciso encontrar uma explicação para aquilo que é mais que evidente.
O Direito e as suas regras exigem que alguém dentro da grande CASA seja sacrificado. Assim será feito para que no Olimpo da Luz a cegueira tape a justiça, sendo ela cega que importa quem manobrou e quem prevaricou? Apresentem a cabeça de Paulo que não a de João Batista e tudo se resolverá…
Os que quiseram ter estatuto de heróis e para tal foram incentivados ficarão ao rés da terra e a águia continuará a voar. Mesmo que os heróis que na clandestinidade trabalhavam para a grande CASA caiam nas malhas da justiça. Sempre houve santos e mártires… as camisetas continuarão a ser por si envergadas. O amor em tempo de klenex não tem limites; por um lugar na catedral tudo é possível, quando se ama perdidamente o glorioso. Outros que não o amam assim se safarão.

Quanto vale no Ocidente a cabeça Israa al-Ghomgham?

Neste nosso tempo coexistem realidades que se afirmam nas antípodas uma da outra.
Em quase todas as cidades europeias jovens, mulheres e homens podem livremente participar em manifestações a favor ou contra o governo; podendo até dar-se o caso de as manifestações pedirem a queda do governo.
O que poderia suceder era o governo cair, se, na verdade, a manifestação fosse suficientemente participada.
Israa al-Ghanghan tem vinte e nove anos, é uma mulher que nasceu na Arábia Saudita e participou em manifestações contra o governo, segundo as autoridades sauditas.
Pertence à minoria chiita e opõe-se à discriminação que a maioria sunita impõe no país.
Foi julgada e o Procurador pediu a pena de morte por decapitação. Presa há três anos, aguarda desde seis de agosto a sentença que será proferida no dia vinte e oito de outubro e assim ficar a saber se terá de enfrentará a guilhotina ou o sabre da decapitação ou outra condenação.
No século em que se confirma que nós somos uma mistura de diversas misturas, entre mulheres Neandertal e homens denisovano, por exemplo, vivendo na Eurásia; que se descobriu que a lua tem água congelada nos polos, pois bem, na Arábia Saudita decapita-se por participar em manifestações. Prende-se, tortura-se e executa-se. Em 2 de janeiro de 2015 foram quarenta e sete os decapitados.
Há tempos atrás um espião envenenado levou à expulsão de centenas de diplomatas russos; entretanto,legadamente pelo governo sírio ter usado gás sarin contra cidades com jiadistas entrincheirados na população, americanos e franceses bombardearam a Síria.
Porém, o sério risco de condenação fria à morte desta jovem não agita as chancelarias que estão viradas para outros lados.
Uma mortandade de palestinianos tornou-se um costume. Cortar cabeças na Arábia Saudita é um hábito, assim como bombardear o Iémen com bombas made in USA…
Este é mundo em que uma minoria de trilionários sauditas compram ao Ocidente as armas mais sofisticadas, fazendo como diz Trump (o pagador do silêncio de mulheres com quem teve sexo) big money através do seu silêncio sobre a ignomínia que é aquele regime.
Os grandes da Terra não têm os seus sentidos nos países que não lhe vão à mão, seja qual for a razão.
Os sauditas, que compram armas ao país de Trump, como as que mataram as mais de cinquenta crianças iemenitas porque um dia poderiam ser terroristas, segundo a sua justificação para o bombardeamento do autocarro, podem fazer o que quiserem. O que importa é levar uma caterva de Ministros e empresários àquele país do Golfo e trazer de lá grandes encomendas.
No Ocidente que diz prezar os direitos humanos o que conta na realidade é o vil metal. Que importa que as mulheres e os homens sauditas queiram ser como todos os outros cidadãos que se podem manifestar livremente?
Que importa que na Arábia Saudita rolem mais uma ou mais duas ou mais dezenas de cabeças. Eles, os sauditas, andam à procura de carrascos que saibam usar o sabre. A guilhotina não é bem coisa do deserto. Faz-lhes lembrar a revolução francesa…
O que vale é que o exemplo de Israa al-Ghomghan vai mostrar um caminho. Pena é que o mundo por vezes pareça adormecido.

Texto publicado no Público em 06/09/2018