A uberização da vida

Vieram, cheios de submissão do fundo de um país submetido pelo medo, tentar a sua sorte em Lisboa e no Porto. Só tinham pobreza em volta.
Vinham em busca da sorte e ela podia estar num táxi, trabalhando sem descanso. Nesses anos os táxis não eram para toda a gente. Quando falavam os “ésses” eram trocados “ches” denunciando a origem. Estabeleceram-se nas adjacências de Lisboa, muitos em bairros de pobreza. Só iam a casa pelo Natal e com o carro de praça (autorizado pelo patrão) carregadinho de aparências.
Eram submissos. Tinham um desígnio, ganhar para os filhos poderem estudar ou para comprar a casa que na idade da reforma os receberia.
Com a chegada em 1974/5 dos retornados das colónias, alguns deles enveredaram pela profissão de taxista.
Outros vieram já dos subúrbios das grandes cidades.
Outros com os despedimentos transformaram-se em motoristas de táxi, até comprando o carro e o alvará com os dinheiros das indemnizações. Tinham, alguns deles, outras almas. Já não tinham a submissão antiga. Alguns tinham-na substituída pela má educação quer na condução, quer no trato.
Era o tempo da carranca quando alguém saía do aeroporto com as suas malas para ruas relativamente próximas; era o tempo em que muitos taxistas semearam em torno de muitos deles uma ideia de antipatia.
Chegaram os tempos em que aquilo que estava assente deixou de estar. As profissões no novo tempo são um empecilho. Todos podem fazer quase tudo. Num tempo de programação e formatação há quem diga o que se tem de fazer. É tão só isso que querem que se faça, o que mandarem fazer. O colega mais experiente não ensina, alguém diz, nem que seja a ferramenta tecnológica.
Num tempo de crise, de impossibilidade de aceder ao mercado de trabalho com o estatuto próprio da profissão de cada um, há quem dominando as novas tecnologias, ofereça novas oportunidades aos que estão de braços caídos, ou ainda têm tempo disponível para agarrar mais uns euros e compor a vida.
São os tempos em que as tecnologias nas mãos da ganância criam uma espécie de novos proletários. Sim uma espécie. Já não são uma prole de bocas para sustentar. Um filho já é de mais. Tanto que exige o biscate da Uber ou da Cabify ou de outras sociedades de verdadeiros paxás que põem a trabalhar para si, sem qualquer instrumento de trabalho, os que dispõem de viatura adequada para lhes sugar através de uma exploração invisível.
E oficiados por gente de saberes, sacerdotes deste novo tempo, chegaram de mansinho, preços baixos e com algum cuidado no recrutamento.
Os deputados, que foram eleitos para representar os interesses do povo, acham que há igualdade entre os que têm de comprar alvará, fazer formação, ter seguros contra tudo e mais alguma coisa, e aqueles que apenas recrutam a disponibilidade dos donos dos carros?
A ruína dos taxistas (patrões e condutores) deixará nas mãos de rostos invisíveis este tipo de transporte das grandes cidades, que não tendo rosto, nem alma, estabelecerão as condições que entenderem.
A caminhada da Humanidade é também um percurso para alcançar direitos, sim direitos, pois os deveres há muito que têm de ser cumpridos.
Se não houver uma vida profissional minimamente organizada e estruturada que crie entre si laços face aos que detêm o poder de admitir a fornecer o valor da sua força de trabalho, haverá um mercado cada vez mais desregulado, em que cada um tem de se safar custe o que custar, deixando cair o mais saliente da sociabilidade, a pertença a uma profissão, a um saber, a uma comunidade ligada entre si por interesses próprios, à própria comunidade nacional.
E se é assim desde já para os táxis, não será amanhã para todas as profissões? Se basta fazer o que as ferramentas tecnológicas indicam…
E se voltarmos a trabalhar à peça, regulados por máquinas inteligentes que nos indicam os caminhos?
É este o formidável mundo novo em que o que é humano é apenas a parte da produção que obedece ao comando tecnológico? Vamos cabisbaixos como gado a caminho da uberização.

Texto publicado no Público online

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