Quanto vale no Ocidente a cabeça Israa al-Ghomgham?

Neste nosso tempo coexistem realidades que se afirmam nas antípodas uma da outra.
Em quase todas as cidades europeias jovens, mulheres e homens podem livremente participar em manifestações a favor ou contra o governo; podendo até dar-se o caso de as manifestações pedirem a queda do governo.
O que poderia suceder era o governo cair, se, na verdade, a manifestação fosse suficientemente participada.
Israa al-Ghanghan tem vinte e nove anos, é uma mulher que nasceu na Arábia Saudita e participou em manifestações contra o governo, segundo as autoridades sauditas.
Pertence à minoria chiita e opõe-se à discriminação que a maioria sunita impõe no país.
Foi julgada e o Procurador pediu a pena de morte por decapitação. Presa há três anos, aguarda desde seis de agosto a sentença que será proferida no dia vinte e oito de outubro e assim ficar a saber se terá de enfrentará a guilhotina ou o sabre da decapitação ou outra condenação.
No século em que se confirma que nós somos uma mistura de diversas misturas, entre mulheres Neandertal e homens denisovano, por exemplo, vivendo na Eurásia; que se descobriu que a lua tem água congelada nos polos, pois bem, na Arábia Saudita decapita-se por participar em manifestações. Prende-se, tortura-se e executa-se. Em 2 de janeiro de 2015 foram quarenta e sete os decapitados.
Há tempos atrás um espião envenenado levou à expulsão de centenas de diplomatas russos; entretanto,legadamente pelo governo sírio ter usado gás sarin contra cidades com jiadistas entrincheirados na população, americanos e franceses bombardearam a Síria.
Porém, o sério risco de condenação fria à morte desta jovem não agita as chancelarias que estão viradas para outros lados.
Uma mortandade de palestinianos tornou-se um costume. Cortar cabeças na Arábia Saudita é um hábito, assim como bombardear o Iémen com bombas made in USA…
Este é mundo em que uma minoria de trilionários sauditas compram ao Ocidente as armas mais sofisticadas, fazendo como diz Trump (o pagador do silêncio de mulheres com quem teve sexo) big money através do seu silêncio sobre a ignomínia que é aquele regime.
Os grandes da Terra não têm os seus sentidos nos países que não lhe vão à mão, seja qual for a razão.
Os sauditas, que compram armas ao país de Trump, como as que mataram as mais de cinquenta crianças iemenitas porque um dia poderiam ser terroristas, segundo a sua justificação para o bombardeamento do autocarro, podem fazer o que quiserem. O que importa é levar uma caterva de Ministros e empresários àquele país do Golfo e trazer de lá grandes encomendas.
No Ocidente que diz prezar os direitos humanos o que conta na realidade é o vil metal. Que importa que as mulheres e os homens sauditas queiram ser como todos os outros cidadãos que se podem manifestar livremente?
Que importa que na Arábia Saudita rolem mais uma ou mais duas ou mais dezenas de cabeças. Eles, os sauditas, andam à procura de carrascos que saibam usar o sabre. A guilhotina não é bem coisa do deserto. Faz-lhes lembrar a revolução francesa…
O que vale é que o exemplo de Israa al-Ghomghan vai mostrar um caminho. Pena é que o mundo por vezes pareça adormecido.

Texto publicado no Público em 06/09/2018

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