A corrupção da palavra amigo

 

A amizade é um sentimento nobre que torna os seres humanos melhores e capazes de se suplantarem a si próprios, enquanto portadores de interesses da sua esfera individual.

A amizade percorre a vida parede meias com a solidariedade e ambas caminham de mãos dadas fazendo a diferença com os outros reinos animais.

Talvez, para além do amor, a amizade possa ser o sentimento mais nobre pelo seu altruísmo.

Na vida, por mais que nos esforcemos, entram e saem amigos; nunca sabemos quanto dura uma amizade.

As amizades, porém,  não têm a mesma fonte. Há as que são “puras” que resultam do encantamento da vida e tudo o que se dá ou recebe vem de um impulso generoso e espontâneo.

Há, porém, outros conceitos de amizade que não se encaixam nesta bitola. É um mal de todas as épocas, mas que na atualidade tende a desenvolver-se pela transformação dos sentimentos numa espécie de produto dos mercados que comandam nas nossas vidas.

Nesta ordem de ideias se o que interessa é ter meios materiais capazes de determinar uma posição social de relevo a quem os possui, então ter amigos poderosos constitui um meio caminho andado para vir a ser como um deles, bastando fazer as coisas certas, nos momentos certos.

Ser amigo pode ser uma alavanca para subir na vida.  Dizia-se e ainda se diz que quem tem amigos não morre na cadeia, tendo em conta os tempos em que se podia ir parar à cadeia por falta de pagamento de dívidas.

A palavra amigo foi também corrompida nos seus diversos sentidos. A corrupção também entra na semântica. Se tudo pode ser corrompido, por que carga de água havia a semântica de ficar fora dela?

Ser amigo pode, por isso ser uma arte, um modo de vida. O amigo insinua-se junto do outro amigo. Cativa-o, não à maneira da preconizada por Saint Exupéry, mas com ela fisgada… se o amigo for dos de cima, dos que mandam, dos que têm pasta, dos que são considerados no plano social, é bom cativar, é bom pertencer ao círculo e acabar por tirar partido da riqueza, do poderio, da influência do amigo…

Estabelece-se com alguma facilidade um círculo de amigos que se unem para em nome de uma causa dela se aproveitarem e fazerem entrar no seu património riquezas( grandes ou pequenas) que de outro modo não alcançariam.

Nestas circunstâncias pode (admite-se) haver amizade, mas o que existe é um pacto expresso ou consentido entre estes indivíduos para tirarem partido dos poderes de cada um ou de um deles.

Neste momento , na sociedade portuguesa tresanda a presença de Ricardo Salgado em tudo o que constitui casos de grande corrupção. Ele e os seus homens bem colocados.

Esses amigos traçaram planos para que as coisas fossem capazes de acontecer de modo a que tirassem benefícios patrimoniais ou de outro tipo.

É de admitir que haja nesta amizade alguma humanidade, mas o que marca a alma destes protagonistas é tudo fazerem para enriquecerem em prejuízo da comunidade.

Em princípio, quem se considera amigo de um suspeito de ter cometido graves crimes ou é porque de todo não o imaginava capaz de os cometer ou vindo a saber esse factos com eles se conforma e continua a agir como se aquele cidadão fosse o que não foi e não é. E é cúmplice no terreno da cidadania.

Quando não se deixa cair um amigo na cadeia tem-se em vista salvar alguém que por um azar da vida e dos negócios acabou na miséria e eventualmente praticou ilícitos criminais que o amigo considera serem passiveis de comiseração e ajuda.

Outra coisa é a imputação de graves crimes a alguém que exercendo altíssimos cargos se apoderou de bens que lhe não pertenciam em prejuízo do bem público, fazendo-se passar por um desses ricalhaços capaz de tudo comprar.

Só pode merecer o repúdio porque a amizade não deve ser um jogo para subir na vida.

Os amigos, é verdade, são para as ocasiões, mas as negociatas geram homens e mulheres interesseiros, capazes de sacrificar os interesses da comunidade em seu proveito.

Trata-se também, para além do problema de caráter criminal, de um problema político que não se resolve por via legislativa, antes com mulheres e homens honrados que se não deixam aprisionar pelo poder económico.

Texto publicado no Público online hoje

 

 

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