A minha última noite

Quando o Jorge me abordava com o peso do mundo no olhar e me dizia:

– Camarada Estrada precisamos de uma casa para reunir – era como se a circulação do sangue acelerasse e eu sentisse nas fontes o bater do coração aos saltos. Tudo se passava num primeiro instante, depois o coração não explodia.

A casa situava-se na Rua Passos Manuel, raso ao do Jardim Constantino. Do quarto avistávamos, naquela longínqua noite de vinte e três de abril de mil novecentos e setenta e quatro, a rua no sentido da Estefânia.

As regras conspirativas impunham que os estores fossem corridos, e quando caíram num lanço firme três jovens sentados combinaram que se a polícia viesse e quisesse saber o que fazíamos responderíamos que estávamos a combinar a encenação de uma peça de teatro, eramos os três do Cénico de Direito.

As notícias que o Jorge tinha para me dar eram um punhal que entrou algures no mais fundo do lado invisível do corpo:

– Foste denunciado, deves ter em conta que podes ser preso, todos os cuidados são poucos. Deves manter-te afastado de nós e ao entrares e saíres de casa certifica-te que não há ninguém a seguir-te.

Concordaram que a primeira cautela era a de limpar o quarto de toda a propaganda, o que devia ser feito logo que eu pudesse.

A reunião foi curta. Por disciplina deveria seguir um rumo contrário ao que tomaria para ir para a minha morada.

Na Avenida Almirante Reis revoltado, pensei voltar para trás e desobedecer às regras conspirativas.

Por entre as gentes da noite sentia raiva, iria ser preso e, no entanto, os outros divertiam-se. E se eu deixasse cair a causa? Não era por mim que lutava… Aquela gente a divertir-se nas cervejarias cheias e eu carregando o peso de uma prisão e o da guerra colonial.

Havia instantes que a desistência parecia mais forte, depois voltava o imperativo da consciência.

Não sei como alguém que não conhecia de lado nenhum se me dirigiu a perguntar por algo que já não recordo. Acabamos a beber imperiais e a falar do que ele procurava, putas.

O meu interlocutor era caixeiro-viajante e viera da guerra de Angola e mesmo no Intendente só montava com a pistola por perto, ganhara o hábito nos longínquos cantos do leste angolano. Era certo que sem a pistola a coisa não funcionava; já experimentara mais do que uma vez e não dava.

Ao fim de três imperiais arranquei rua abaixo em direção à rua da Palma, Deixei o meu amigo de ocasião e segui a remoer a inconsciência dos meus compatriotas perante a ditadura; uns na cadeia, outros nos copos.

Era tarde, muito próximo de apanhar o último metro. Em Sete Rios hesitei se devia ir a pé ou autocarro.

Precisava de apanhar ar fresco, de assentar como devia fazer desaparecer os panfletos que tinha, sem que os colegas vissem. Fui retardando a entrada, esperando que todos dormissem no terceiro esquerdo, o último piso.

Numa pequena mala de viagem meti todos os panfletos. Pela escada de serviço subi ao telhado e deixei a mala no telhado do prédio da esquina da Estrada de Benfica, já na Rua Duarte Galvão. De cima do telhado avistavam-se os quintais nas traseiras da Estrada de Benfica e da Rua Duarte Galvão. Os reflexos da luz davam para ver as nêsperas já amarelas e assustei-me quando vi o guarda noturno a vigiar a rua. Depois acalmei eu via-o, mas ele não me via.

A noite não passava e eu não dormia. O que me atezanava a alma era ser preso, torturado e sabe-se que lá por quantos anos. Nestas ocasiões não conseguimos impedir que nos cheguem à mente os sentimentos mais inesperados: porquê arriscar tudo pelos outros? Merecerão? Que sacrifícios devemos consentir? Toda uma vida? Passar a vida na cadeia?

Há nestas alturas a perda da noção do próprio tempo, só tinha na mente aquela dolorosa incerteza.

E no meio do sobressalto tocou a campainha. Só tive tempo de me regozijar por me ter livre dos panfletos, mas vendo as horas não devia ser a PIDE, eram quatro horas; abri a porta; era V. que me atirou de chofre:

– Não estás a ouvir a rádio?

– Não!

– Há um golpe militar.

O susto foi ainda maior. V. era um homem dos seus quarenta anos. Fumava cigarros uns a seguir aos outros. Bastava-lhe um fósforo. Tinha quase a certeza que era do partido. Os olhos de V. pareciam luzes no meio da sua barba espessa.

Disse-lhe:

– Deve ser o Kaúlza. Estamos feitos. Se eles tomam o poder matam-nos.

  1. olhou para mim e só me perguntou:

– Liga o rádio!

Ouvimos um dos primeiros comunicados e continuamos na dúvida.

Depois um outro comunicado um pouco mais explícito, quanto aos fins, animou-nos. Acordamos os restantes colegas de casa. E ficamos colados ao rádio. Quando a madrugada queria vencer o reino das trevas ouvi nos prédios da Rua Duarte Galvão os estores ergueram-se, como se todos acordassem mais ou menos à uma; os rostos aparentavam estarem assustados, como se, sem falarem, perguntassem com os olhos o que sucedia.

O tempo parara. Talvez assustado pelo que adivinhava dentro dos seus interstícios. Era à janela que tudo se passava. Lentamente. A tempo de poder ver acontecer o sorriso mais fundo que cada um tem, um sorriso, porém, ainda por assentar. Depois o rosto tomou conta do sorriso. Ninguém parava de olhar com aquele novo rosto e via no outro o seu próprio contentamento. A alegria jorrava livre ao fim de tanto tempo.

A camarada Z. tocou a campainha. Olhei pelo ralo da porta. Era ela a clandestina que chegava à luz do dia e me disse:

– Vamos para a rua apoiar e exigir a liberdade, a libertação dos presos, o fim da guerra, vamos.

Só anos mais tarde me lembrei dos panfletos em cima do telhado vizinho. Aquela fora a minha última noite. A noite que acabou abrindo com um sorriso no rosto de todos e com a alegria a transbordar em todas as ruas.

Texto publicado, hoje 25 de abril, no Público     

 

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