O bombardeamento da Síria neste estranho mundo*

Não deixa de ser estranho que o homem envolvido em escândalos que, segundo a investigação tornada pública vão desde casos com prostitutas em Moscovo, com uma atriz de filmes pornográficos, com colaboradores do seu círculo mais íntimo, entretanto “fired”, possa ter o apoio do Reino Unido, da França e a compreensão da U.E., incluindo do governo português, para bombardear a Síria contra o direito internacional.

Este homem parece apostado em levar as relações com a Rússia a um grau de conflito extremo só para “mostrar” que não é amigo de Putin.

Esta tríade deve desprezar-se, por motivos óbvios, desde logo porque ele Trump não deve ter capacidade para manter uma conversa sobre o mundo que vá para além de um tuíte com mais ou menos palavras.

A necessidade de aparecer a mostrar a sua capacidade militar para continuar a vender armamento fá-los darem as mãos.

A este homem o que lhe importa é ele, os seus, e os amigos, se possível com dinheiro, como os multibilionários do Golfo, que atemorizados pelo ar do tempo, lhe compram armas para impedir que aconteça qualquer surpresa nas suas vidas e para que, em Riad, as cabeças possam continuar a rolar todas as sextas e o wabahismo, puro e duro, seja a religião da casa real saudita e, se possível, nos países vizinhos.

Na verdade, os bombardeamentos levados a cabo pelos EUA, Reino Unido e França contra a Síria, com o pretexto do regime de Bashar Assad ter utilizado armas químicas contra os jiadistas apoiados pela Arábia Saudita e outros países do Golfo, puseram em relevo o quanto a tríade está disponível para apoiar o reino saudita na sua estratégia para dominar a região.

EUA, Reino Unido e França precisam de vender armas à Arábia Saudita e esta precisa das armas daqueles fornecedores.

Os governantes sauditas têm bem perto da sua fronteira noroeste um regime laico, republicano dirigido por uma minoria muçulmana que desprezam.

Além disso, a aproximação dos sírios ao Irão é para a monarquia do Golfo um temor, pois internamente mantêm silenciadas a ferro e fogo e golpes de sabre a minoria chiita.

É esse o objetivo da guerra que a Arábia Saudita leva a cabo no martirizado Iemen, onde o  número de mortos, sobretudo civis não para de crescer.

É preciso ter presente que George W. Bush, Blair, Aznar, Barroso e Portas  orquestraram um dos maiores embustes até hoje ocorrido para justificarem a guerra contra o Iraque. Talvez, em termos internacionais, a maior mentira. As desgraças não param de ocorrer como réplicas à criminosa guerra contra um povo indefeso.

No presente quem fala a verdade? Alguém pode acreditar em Trump? E qual a razão para acreditar em T. May havendo um laboratório suíço que revela que o tal gás utilizado contra o espião e a filha era um agente químico denominado BZ…em quem acreditar?

Ele, May e Macron juntaram-se para retaliar um país antes que se apurasse o quer que fosse relativamente à utilização de armas químicas, num cenário de derrota inevitável dos jiadistas em Douma. Os peritos da OPAQ chegaram ao terreno no dia 17 do corrente mês depois dos bombardeamentos.

Ajudados no plano da guerra comunicacional por um conjunto de órgãos de informação sempre dispostos a dizerem sim aos “donos disto tudo” propagaram de imediato, através da exploração de fotos e vídeos de crianças filmadas não se sabe por quem, a ideia de que os malvados dirigentes sírios e os malignos russos mataram com gás cloro ou sarin inocentes criancinhas, meninos e meninas, como relatou o mais destemperado Presidente dos EUA, o homem que não escreve mais de dois ou três parágrafos seguidos.

Neste quadro, é lamentável que o governo português tenha declarado compreender os bombardeamentos que visaram não só a Síria, mas a própria ONU e o direito internacional.

Há muito que as principais potências ocidentais se querem ver livre do “espartilho” que é o direito internacional. Correm contra o tempo. Bem sabem que a multipolaridade do mundo vai limitar o seu espaço de intervenção militar. Por isso vendem armas a rodos para os seus amigos ricos.

O homem que declara contra a comunidade internacional que Jerusalém é a capital de Israel, é o mesmo, que de braço dado com a despistada T. May e o ex-socialista, amigo dos franceses mais ricos, bombardeia a Síria. É a esta tríade que Portugal e a U.E. manifestam compreensão, apesar de António Guterres ser o Secretário-Geral da ONU.

Que se pode esperar de um mundo assim?

*Publicado no Público online de 19/04/2018

 

 

 

Síria: armas quimicas ou de intoxicação massiva?

 

1 – O alegado ataque com armas químicas em Douma perto de Damasco aconteceu quando os “rebeldes” estavam derrotados e a ação conjunta do exército sírio com os militares russos era imparável.

Aliás, os recuos sucessivos em Ghouta e os reflexos nas chancelarias ocidentais de solidariedade com os “rebeldes” era notório, e assistiu-se a uma tremenda campanha de solidariedade com os jiadistas do Jaysh al-Islam (Exército do Islão) exibindo vezes sem conta bombardeamentos sobre crianças indefesas com gente a dar conta da versão dos tais rebeldes. O “nosso” Diário de Notícias de 11 deste mês titulava que só um grande ataque americano poderia travar a vitória de Assad…

Neste quadro de derrocada dos “rebeldes” e da discussão sobre a sua rendição e partida para o norte do país, por que motivo haviam os sírios / russos de atacarem com armas químicas os que já estavam derrotados? Se o inimigo estava derrotado com que objetivo atacariam os sírios as indefesas crianças de Douma? Para tocar à campainha da Casa Branca, da Downing Street, do Eliseu a pedir misseis?

 

2 – É curioso observar que esta campanha só tem em conta o que dizem Trump, T. May  e Macron. Será que alguém lhes concedeu algum direito especial de serem investigadores, procuradores, juízes e executores de penas?

O direito internacional não é propriedade de ninguém, a não ser da comunidade internacional que materializou esse acervo jurídico na ONU. Entretanto, fala-se cada vez mais em punir do que dar o primado às instâncias internacionais que albergam dentro de si os mecanismos para tratarem responsavelmente do assunto.

No caso português é ainda mais grave e triste porque no topo da hierarquia da ONU está um português e esse facto devia levar a que as diversas análises dessem espaço à intervenção da ONU.

Mas não, há já quem qualifique Bashar Al Assad do mais bárbaro líder mundial e dê como certo que a Síria levou a cabo o alegado ataque. Estranha-se que nas palavras de António Costa e Santos Silva se dê como certo que Bashar violou grosseiramente o jus in bello, o que equivale a dizer que também Portugal alinha no coro dos que se fazem de polícias, procuradores, juízes e carrascos.

Esta sobranceria e arrogância de menosprezo e desprezo pela ONU e pelo direito internacional é uma marca do nosso tempo.

Os que supostamente clamam por linhas vermelhas deviam ser os primeiros a procurar as linhas azuis e defender as instituições encarregadas de zelar pelo direito internacional.

Em vez de agirem animados em vingar-se por Bashar ter vencido os “rebeldes” deveriam trabalhar para soluções que permitam aos povos da região usufruírem dos direitos e das liberdades que lhes permitam o pleno exercício da soberania.

Não é justo, equilibrado, sensato o Presidente Macron, ao lado dos altos dignitários sauditas, ameaçar a Síria, sabendo-se que, em termos de respeito pelos direitos humanos, o reino saudita configura umas das mais tenebrosas ditaduras que faz rolar a cabeça dos seus opositores.

Quem se esqueceu da exibição de Trump do cheque de centenas de milhares de milhões de dólares de armamento vendido à A. Saudita? Great!, disse ele eufórico.

E a Arábia Saudita está metida até às orelhas no apoio aos “rebeldes” sunitas jiadistas que combatiam em Ghouta e continuam a combater noutras regiões da Síria.

Entre um regime autoritário, repressivo, laico, tolerante para com os cristãos da Síria, como é o caso da Síria e o regime saudita onde nem sequer pode haver um templo fora da religião sunita wahabista, devia fazer os seguidores da fá cristã a colocar a fé à frente dos negócios, para nem sequer falar dos direitos humanos…

A perseguição movida aos cristãos depois o derrube de Saddam Hussein devia fazer pensar…

 

3 – O que se vai passar na Síria não se sabe. Os russos têm os seus interesses, aliás como os EUA, a G. Bretanha e a França.

No Médio Oriente há uma luta tremada entre o Irão e a Arábia Saudita e os seus respetivos apoios internacionais (Rússia e EUA/Ocidente).

A vitória síria/russa pode ser importante no quadro de uma solução global ou ser o início de um conflito alargado a todo a região com o envolvimento cada vez mais alargado da Turquia. É preciso que as armas se calem na Síria, no Iémen, na Palestina e que as negociações por mais difíceis que sejam substituam misseis novos ou velhos, feios ou bonitos.

Não há outro caminho. Ao terreno chegaram os peritos do OPAQ. Deixem-nos investigar. E que as conclusões façam luz e ajudem a Humanidade. Que a lei dos misseis (sejam eles de quem forem) se submeta à lei internacional.

A guerra no Afeganistão dura há quarenta anos e por lá já passaram soviéticos, norte-americanos e soldados da NATO… A Síria não deve correr esse risco.

Texto publicado hoje no Público e escrito antes dos bombardeamentos   

 

 

A Catalunha e os novos fariseus, uma justiça ao serviço da opressão

 

Os fariseus modernos proclamaram a prevalência da Constituição espanhola para justificar a prisão de uma dezena de dirigentes catalães eleitos. Há presos catalães por motivos políticos que tem a respaldá-los o voto popular em eleições livres. Tão livres que, mesmo com dirigentes presos, o povo da Catalunha votou maioritariamente nos independentistas.

É preciso ter presente que as secessões nunca se basearam na legalidade existente, pois ela jamais comportou a separação. Ainda hoje Portugal seria uma província ou uma região de Espanha se não fosse a secessão pelas armas de Dom Afonso Henrique que levou ao reconhecimento da independência portuguesa em 5 de abril de 1143, no Tratado de Zamora.

Toda a gente sabe que a Espanha tem dentro de si nações, com língua própria e que, de acordo com os mais elementares princípios do direito internacional, têm o direito à auto determinação, no quadro de uma legalidade que contemple esse princípio. No quadro de uma legalidade que não contemple tal princípio os povos têm o direito à chamada guerra justa contra o opressor; é uma exceção ao nº4 do artigo 2º da Carta das Nações Unidas que interdita a guerra.

Nunca a independência de um país foi defendida por todos os autóctones desse país. Sempre houve filipistas em Portugal na altura da perda da independência de Portugal para Castela. Sempre houve nos EUA quem pretendesse manter a ligação à Inglaterra ou na Argélia à França, ou nas colónias portuguesas a Portugal; é dos livros e da História.

Cabe, assim, perguntar se o que se passa na Catalunha é um problema interno. E o que se passa no Irão? É um problema da União Europa ou também é só interno? E o que se passa na Venezuela? E o que se passava no Kosovo era um problema de que país? E o que se passa na Sahara Ocidental é um problema de Marrocos? E o que se passa na Palestina é um problema dos palestinianos, face ao qual a comunidade internacional baixa os olhos para fazer de conta que não vê os milhares de mortos, vendo apenas os mortos sírios, esses sim, envolvidos num conflito interno? E o problema de Timor-Leste era um assunto interno da Indonésia, não era? E o problema da minoria rohingya na Birmânia não é interno?

Os independentistas catalães circunscreveram a sua ação a um quadro pacífico no qual pretendem que lhes seja reconhecido o direito à independência.

Independentemente da realização do referendo, convocado sem sustento legal, o problema da independência da Catalunha tem de ser resolvido através do meio que permita ao povo catalão optar pela independência ou manter a sua integração na Espanha. O modo como o governo espanhol está a tentar resolvê-lo, por via dos tribunais, é insustentável. Quantos mais independentistas prenderem e condenarem, mais agravam a situação criada.

Só dando a palavra ao povo catalão se pode encontrar a solução que permitirá resolver a equação em questão.

Aliás a prova da derrota de Rajoy foi o quase desaparecimento do PP na Catalunha; naturalmente que o Partido Ciudadanos ganhou porque houve uma transferência de votos que provavelmente não se repetirá na mesma escala.

O certo é que a repetição das eleições, em dezembro do ano passado, confirmou que os catalães têm a preferência pelos partidos independentistas. E assim sendo, continuar a fazer de conta que o problema se resolve com prisões e eventuais condenações, significa acrescentar lenha ao fogo existente.

Os juízes conselheiros do STJ de Espanha ao ordenarem a prisão dos independentistas catalães estão a dar guarida às teses do governo espanhol que pretende tapar o problema com a repressão que se está a abater sobre os dirigentes catalães a quem o povo catalão deu o seu voto de modo maioritário. Querem fazer passar o que é impensável passar – que Puigdemont e os seus companheiros são criminosos; só mentes perversas o concebem. Os tribunais não foram feitas para impor a tirania centralista.

Se as tentativas de negociação dos catalães enfrentam o punho centralista e brutal dos juízes a fazer de políticos a crise não só se vai agudizar, como o afastamento da Catalunha será maior, devido exatamente a essa cegueira.

As independências quando são suportadas pela maioria de um povo não são impedidas nem por exércitos ou governos, muito menos por tribunais. A ver vamos.

Os juízes alemães de Schleswig-Holstein não quiseram ficar na fotografia como Pôncio Pilatos. Pelo menos para já. Os dos STJ de Espanha ficarão como tendo colocado a justiça ao serviço da repressão e opressão. É triste não poder contar com a justiça.

Texto publicado no Público de 11/04/2018

Pode um progressista cego ver a realidade (II)

 

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

PODE UM PROGRESSISTA CEGO VER A REALIDADE (II)

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

Pode um progressista cego ver?

Putin é o Presidente da Federação Russa, país que pela sua extensão se estende desde a América do Norte, abarca toda a Europa e abraça o norte da Ásia. Só na Sibéria caberia toda a Europa.

Pelo seu contributo no domínio da literatura, música, pintura, arte em geral, política, ciência, cosmonáutica, a Rússia é um expoente mundial.

Foi no território da Rússia que teve lugar a primeira revolução socialista vitoriosa.

A Rússia, herdeira, no território, de parte da URSS, é um país com interesses próprios que poderão chocar com outros interesses de outros países, como é normal.

Rivaliza no domínio militar com os EUA, em termos de poderio militar, embora o orçamento militar dos EUA seja de cerca 700.000 milhões de dólares e o da Rússia 50.000milhões de dólares.

Como se viu na Síria, a Rússia, na defesa dos seus interesses próprios, independentemente dos interesses sírios, é capaz de intervir em todos os cantos do mundo. Ajudou os sírios a combater o Daech e a ganhar a sua base militar, tal como outros países o fazem noutras latitudes, sendo que na Síria bem gostariam os EUA de ter uma base para melhor atacar o Irão.

Diga-se, em abono da verdade, que é Israel com apoio dos EUA que ocupa os Montes Golan da Síria contra a decisão do Conselho de Segurança da ONU. Ainda em abono da verdade foi Trump quem decidiu reconhecer Jerusalém como capital de Israel contra Resoluções da ONU.

A Rússia não foi, não é, nem provavelmente será um país exemplar em termos de direito internacional, tal como o Reino Unido, a França ou os EUA…

E, como tantas outras potências militares, é um país que tem um peso no conjunto da vida internacional em termos tais que não deixam dúvidas acerca da sua capacidade militar.

Nas eleições russas participou, entre outros, o PC russo que obteve pouco mais de onze por cento dos votos.

Outros candidatos não foram admitidos a concorrer, o que não é curial, nem desejável. Porém, as eleições russas são iguais a muitas outras que existem em países aliados do ocidente, e apesar de tudo são uma expressão da vontade do povo russo. Há países que estão no coração dos EUA e do Reino Unido que consideram a democracia uma heresia.

Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário.

Acontece que está em curso uma investigação, o que significa que ainda não há uma certeza acerca de quem foi o autor do crime.

E como é do conhecimento geral, enquanto uma investigação investigar, não há, até terminar, uma conclusão. Não havendo conclusão, não há ainda culpados.

A pressa em culpar faz lembrar as armas de destruição massiva que afinal não existiam no Iraque.

Daí que exigir que se chegue a um resultado final da investigação seja uma postura adequada a um juízo de razoabilidade, apenas porque é necessário apurar quem foi o responsável pelo envenenamento.

Ser progressista também é pensar pela sua própria cabeça e ao falar-se em armas químicas vale lembrar os terríveis crimes dos EUA no Vietnam e da ausência desta histeria coletiva para expulsar diplomatas americanos.

Se se tivesse feito como agora se está a fazer em relação aos EUA, por certo os EUA ficariam sem diplomatas no mundo inteiro.

Se se tiver em conta a guerra do Iraque levada a cabo com o monumental embuste, teríamos de expulsar de todos os postos os diplomatas dos EUA e do Reino Unido, da Espanha e de Portugal.

A cegueira, mesmo de um progressista, é sempre uma cegueira.

Andou bem o governo português ao não acompanhar esta histeria. Não porque seja brando em atacar os russos, mas porque os interesses de Portugal passam por manter relações construtivas e mutuamente vantajosas com a Rússia.

Não é necessário gostar de Putin para perceber que todos os Estados têm interesses próprios, designadamente a Grã-Bretanha, os EUA, A França e a Rússia entre outros. Basta atentar nas intervenções destes países. O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições.

A legalidade internacional exige de todos os mesmos compromissos e comportamentos. Se antes de chegar à obtenção das provas de que foi a Rússia a envenenar o tal espião e a sua filha se atua como se fosse verdadeiro o que que pode vir a ser ou não ser demonstrado, semelhante comportamento é o caos nas relações internacionais. Pode um progressista aprovar este ponto de vista?

A vergonha da pobreza e a pobreza da vergonha

 

As palavras ditas por quem ocupa o mais alto posto no Estado português deviam ter um conteúdo simbólico único, uma espécie de valor universal que abraçassem em confiança toda a comunidade.

As palavras são talvez a maior invenção humana e o facto de serem objeto de tráfico no seu mais íntimo significado, não implica que, em si mesmas, não sejam capazes de articular ideias que nos fazem superar e ser melhores.

As palavras, nestas circunstâncias, não se podem assemelhar a tantas outras ditas como um piar rancoroso ou como proclamações ao gosto dos ouvidos que as vão acolher.

A palavra pobre é tremendamente rica em conteúdo. A pobreza é algo que, como alguém disse, nos pode envergonhar, sobretudo se formos responsáveis pela sua existência. Se no nosso país a pobreza cresceu assustadoramente e os muito ricos ficaram ainda mais ricos, tal significa que houve uma política deliberada para que resultasse desse modo. Por isso muitos dos nossos compatriotas viveram e vivem sem o mínimo de dignidade. E faz doer ver no nosso semelhante um cidadão sem esse mínimo de dignidade.

Houve quem fizesse da pobreza um programa político de governo: Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís e Assunçao Cristas e Cª prometeram e conseguiram empobrecer os portugueses em geral e enriquecer uma ínfima minoria. Empobrecer foi até ao governo de António Costa a saga e o desafio de quem todos os dias desencadeava medidas, impostos, taxas para que os muitíssimo ricos pudessem contratar desempregados a preços baixos e realmente enriquecer os que beneficiavam dessa competitividade. E quem não quisesse empobrecer que abandonasse a sua zona de conforto e fosse pelo mundo fora à procura de outra vida, proclamava Passos secundado por Portas e Cristas.

As palavras uma vez ditas ficam nos ouvidos dos destinatários e nos registos mediáticos existentes. O programa de empobrecimento durou quatro anos e tinha em Berlim e em Amsterdão quem achasse que ele era o castigo para os sulistas de Portugal.

Mas ele foi a salvação da crise da banca e serviu para transferir o défice privado para o Estado, arcando os portugueses com a dívida dos bancos para estes continuarem ricos e mais de um quarto dos portugueses muito pobres.

Ser pobre para Salazar era uma qualidade. Em democracia defender o mesmo conceito é muito mais difícil. E, por isso, a palavra pobre é, neste caso, uma chaga viva que se reflete na vida dos portugueses. Aqueles que devido ao empobrecimento se encontram privados de quase tudo, até da dignidade humana deviam merecer respeito e coragem para traçar políticas que os arranquem da situação em que se encontram.

Trata-se dos mais elementares deveres de irmandade e de bondade. De facto a pobreza devia envergonhar os que governaram para empobrecer. E se Passos governou para empobrecer como não se envergonhar de tal proeza? Quando Portugal saiu do procedimento de défice excessivo o mais alto magistrado da nação valorizou a ação de Passos Coelho pelo que fez durante a governação. E de novo o peso das palavras ditas.

Quem pretendeu empobrecer, prometeu que ia fazer pobres de quem Marcelo hoje tem vergonha. E conseguiu empobrecer e aumentar a pobreza. E pode ser valorizado o homem que criou um mar de pobres que envergonham Marcelo? Se a pobreza pode envergonhar, a vergonha pode ser uma pobreza de alma se servir de arma de arremesso a destinatário incerto. Há muitos pobres em Portugal para nos deixar confortáveis. Mas este governo iniciou um trajeto de estancar a pobreza e devolver rendimentos. A pobreza que envergonha Marcelo não foi eliminada, mas seria uma vergonha não reconhecer o que foi feito e que hoje os portugueses não vivem tão mal como viviam.

In Público de 24/03/2018

A Histeria de Ben Johnson, M.N.E. do Reino Unido

Nas terras de Sua Majestade, a Rainha Isabel, e de Teresa May, as coisas não correm bem aos conservadores que já não sabem o que hão de fazer com o Brexit.

E, neste contexto, nada como um conflito com a Rússia para entreter os ingleses.

É verdade que há um espião que já foi espião de outro país ou espião de dois países ao mesmo tempo e que, ao que se sabe, envenenado com gás. May e Johnson afirmam que foi a Rússia; esta diz que não.

Então o que há de novo? A completa histeria britânica de que é expoente o M.N.E. Ben Johnson.

Putin é Putin. O presidente da Rússia. Pode pensar-se muita coisa sobre as eleições na Rússia, lá isso pode-se; mas mais se pode pensar dos grandes amigos do Reino Unido como a família real saudita onde aos opositores se cortam as cabeças… e Londres embrulha-as nas faturas das armas que vendem para ajudar a destruir o Iemen e a reprimir a oposição democrática.

Pois de que se havia de lembrar o descabelado Johnson – que Putin com o campeonato mundial de futebol quer obter a glória que Hitler quis com os jogos olímpicos de 1936. Comparar Putin a Hitler é fazer da História tábua rasa, basta recordar que Hitler invadiu a URSS de onde proveio Putin.

Para dar o ar de sua graça mistura a Crimeia tentando comparar a invasão e ocupação hitlerianas com um território que sempre foi russo ( mesmo quando  a rainha Vitória , Napoleão III e o sultão turco a tentaram retirar daquele país no século XIX) salvo no momento em que Nikita Krutchov resolveu colocá-lo, no quadro da URSS , na Ucrânia.

Não se pode comparar um território, a Crimeia, que deu no século XIX origem à guerra da Crimeia com a guerra das Malvinas, um território a mais de dez mil quilómetros da Inglaterra e que esta considera seu e, no entanto, é argentino, como não pode deixar de ser e só não o é porque os grandes deste mundo, explorando o facto de a Argentina ser governada na altura por uma ditadura militar, deram as mãos para proteger Tatcher. Uma vergonha que ensombrou o mundo. A Crimeia foi sempre parte da Rússia ou da URSS, as Malvinas nunca foram britânicas a não ser pela força das armas.

Putin é o tipo de líder nacionalista, com ambições de fazer da Rússia uma grande potência, o que o Ocidente não aceita, pois sabe que do ponto de vista militar aquele país pode ombrear com os EUA e NATO em termos de armamento estratégico. Esse é o problema.

A Inglaterra está à deriva. May não sabe para que lado se há de virar para lidar com a saída da U.E. As sondagens não lhe são favoráveis. Um conflito com a Rússia pode funcionar. Só que a Rússia não é o Iraque. E Blair e Barroso e Portas também juraram que aquele país tinha armas de destruição massiva e depois da guerra foi o que se viu e o que se está a ver. E ainda se vai ver mais. Atente-se na ignomínia de abraçar Kadhaffi para receber milhões e depois patrocina-se o seu assassinato, não é Monsieur Sarkosy?

Johnson perdeu a cabeça. May há muito que não sabe o que há de fazer à sua. Vai a União Europeia enfileirar com o outro lado da Mancha sem que haja investigação e conclusão ouvindo e dando margem a todas as partes para se pronunciarem? Ou a ordem internacional baseia-se na opinião de um Estado por mais importante que seja? No século XIX à Inglaterra bastava mostrar a bandeira para que os outros se rendessem…mas já não vivemos naquele século.

O mundo ao contrário em Goutha, na Palestina, no Iemen…

 

Há muito de atual, no mundo dos nossos dias, na canção de Paco Ibanez «…Era uma vez…». Em Goutha, onde se entrincheirou um dos braços militares da Al Qaeda, a Al Nusra, uma força militar jiadista que recebe apoio dos países ocidentais, a começar pelos EUA, o que se passa é um confronto militar entre os militares da Al Nusra e os sírios apoiados pelos russos, com todo o cortejo de horrores sofridos pela população.

Porém, sublinha-se, foi a Al Qaeda de Ossama Bin Laden que atacou as Torres Gémeas e o Pentágono, ou os governos ocidentais já não se lembram?

Aliás, a invasão do Afeganistão e do Iraque teve como pretexto os ataques da Al Qaeda aos EUA, pois dizia-se que aquela organização estava instalada no Afeganistão e o Iraque. Quem se esqueceu?

«…Era uma vez um lobito bom a quem todas as ovelhas maltratavam—» cantava Paco Ibanez.

O conflito é, muitas vezes, apresentado como se fosse um bombardeamento contra os habitantes do enclave, o que não quer dizer que não sejam atingidos habitantes indefesos. Não se trata de branquear o regime ditatorial sírio, trata-se apenas de pôr os pontos nos is.

Enquanto diariamente, a Arábia Saudita vai bombardeando e destruindo um pequeno e bravo país, o Iémen, todo o Ocidente se cala à espera que a casa real Saud lhe compre mais armas e desfralde a bandeira do mais fanático sunismo em Aden, os olhos deste mundo estão em Goutha Oriental «…Era uma vez um pirata honrado…» cantava Paco Ibanez.

Os palestinianos, martirizados na sua própria terra pela ocupação, repressão e opressão israelita, são os terroristas, mesmo que do seu lado tenham resoluções da ONU a reconhecer o território como seu e o direito à independência com capital em Jerusalém Leste; só que isso não conta para os EUA que contra a lei decidiram reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Quem se esqueceu do cerco e dos bombardeamentos de Israel à faixa de Gaza?, «…Era uma vez uma bruxa formosa…» prosseguia o cantor.

A CIA existe para defender fora das fronteiras dos EUA os seus interesses vitais. Para tanto tem autorização legal da Administração para instalar prisões e instrumentos de tortura a prisioneiros, em barcos no alto mar, em certos países independentemente de autorizarem ou não. Aquela polícia pode escutar as conversas em tempo real de todo o mundo, incluindo as dos governos seus aliados.

Pode perpetrar direta ou indiretamente assassinatos, inclusive das mais altas figuras de Estado de países que estejam na mira dos EUA, como aconteceu com os presidentes eleitos Salvador Allende no Chile e Mossadeg no Irão, «…Era uma vez um príncipe mau…», cantava Paco.

Teresa May, ainda o inquérito vai no início, e já tirou a conclusão de que foi Putin quem ordenou o emprego de um gás que segundo Londres, se fabricava na Ex-URSS.

O que se sabe, ou que se julga saber, é que o espião russo que trabalhava para a Grã- Bretanha foi atacado com um gás venenoso e estará entre a vida e a morte, assim como a sua filha. O governo britânico desconfia da Rússia, a qual nega (como seria de esperar).

Mas antes de qualquer conclusão baseada em provas recolhidas pela investigação o carrocel ocidental já condenou a Rússia, tal como tinha alinhado com George W. Bush, na invasão do Iraque, salvo as então corajosas França e Alemanha …

Este é o mundo dos nossos dias. O mundo onde o Diretor da CIA passa para Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA e a nova Diretora daquela Instituição passa a ter à cabeça uma especialista de tortura praticada algures na Tailândia contra alegados terroristas que se combaterem regimes na mira dos EUA podem passar a serem combatentes da liberdade como em Goutha.

Bem cantava Paco Ibanez «…todas estas coisas se passavam, quando eu sonhava o mundo ao contrário, um lobito bom, a quem maltratavam todos os cordeiros…».  

                     

A Cátedra de Massamá

Não é preciso morar em Lisboa para se ser professor catedrático. Mas também não devia ser preciso morar em Massamá ou ter sido Primeiro-Ministro.

Ser professor catedrático é o resultado de uma vida de estudo e de ensino; uma vida a servir a instituição universitária, as mais das vezes como obra publicada e reverenciada entre os seus pares.

Um professor catedrático não precisa de mais de uma dezena de anos para obter uma licenciatura, nem dez, nem mais dos que os anos que ela implica.

São mulheres e homens que pelos seus conhecimentos granjearam o respeito e o acolhimento dos alunos a quem ensinam. Não significa que sejam gente sem falhas, algumas serão até grandes.

O currículo de um professor catedrático deve ter um recheio que não deixe dúvidas a quem quer que seja de que se está diante de alguém que pode ter a cátedra.

São também o espelho de uma Universidade em crise e cuja essência do ensino que ministra deixa muito a desejar.

Há maus jornalistas, carpinteiros ou padres ou bispos, E também há maus professores.

Esta paradigma não é de esquerda, nem de direita. Qualquer professor catedrático deverá proceder com os alunos de modo absolutamente imparcial e, em geral, é assim.

Não se pode negar a um Primeiro-Ministro capacidade para fazer conferências sobre diversos temas que possam abranger a Administração Pública ou outras áreas, mas como será bom de ver uma, ou duas, ou três ou meia dúzia de conferências não chegam para ministrar uma cadeira que há de englobar, presume-se, dezenas de sumários e muita matéria relacionada.

Essa capacidade para organizar e sistematizar os conhecimentos sobre a Administração Pública são acompanhados por outros que com ela se interligam e formam ou dão corpo ao que vulgarmente se chama sabedoria ou conhecimento da matéria.

Esta visão sobre o papel dos professores catedráticos não tem nada nem de esquerda, nem de direita, nem de elitismo, nem de menosprezo por um ilustríssimo morador de Massamá. Nem que se encerre a Universidade numa visão fechada que impeça alguém de fora do campus universitário vir para o interior para com a sua experiência enriquecer o património espiritual e científico da instituição.

Se o saber político se pudesse equiparar ao saber científico, os melhores professores seriam todos os Primeiros-Ministros ou ministros, o que ninguém ousará defender. Se o ensino é sebenteiro, burocrático, desligado de muitos aspetos da vida, não é com a entrada na Universidade de ex Primeiros-Ministros que se resolvem esses problemas. Passos podia ter ajudado quando exerceu o cargo e não o fez.

Morando em Massamá chegou àquele cargo onde quase ninguém chega. Durante o mandato defendeu as oligarquias do sistema financeiro e, em relação aos estudantes mandou-os sair da zona de conforto e deixarem de ser piegas.

Levou, como é sabido, à fuga de quadros para países onde tiveram outras possibilidades que o governo de Passos não lhes deu.

Passos não resistiu à troica, antes perdido de entusiasmo na defesa dos interesses oligárquicos, foi muito para além dela, gabando-se com Portas, Maria Luís e Cristas da ação do seu governo nesse capítulo. Empobrecer Portugal era o lema e empobreceram.

Há quem ache que este é um perfil, um currículo para se ser professor universitário. E há quem considere um abuso face ao que é exigido aos outros. E há ainda quem considere que se trata de criar uma enorme confusão entre o saber que resulta da política e o saber do estudo de décadas de trabalho.

Há bons professores catedráticos oriundos de qualquer canto de Portugal, sem nomes sonantes na genealogia, de direita e de esquerda.

O currículo de Passos é este: durou anos e anos para tirar um curso e foi Primeiro-Ministro. Devia chegar? Pelos vistos …

Aos Amigos Benfiquistas (3ª Parte) Alea Jacta Est

Os mais velhos lembrar-se-ão de uma frase que correu o país quando a Universidade de Coimbra estava ocupada pela polícia na sequência dos acontecimentos de abril de 1969.

A universidade vivia em pleno estado de sítio com greve às aulas e mais tarde aos exames. Nessa ocasião, o então Ministro da Educação, Hermano Saraiva, proclamava que reinava a calma e a tranquilidade em Coimbra.

O pouco que se passava, segundo o Ministro, resultava da ação de provocadores infiltrados devido à ingenuidade da juventude universitária.

Tempos de dor e de desgraça e simultaneamente de uma esperança que despontou também em abril, cinco anos mais tarde.

Sob o manto de repressão serenava a calma e a tranquilidade.

Nessa altura distanciando-se dos empedernidos do regime, professores de todas as faculdades condenaram a repressão, criando na própria Academia um clima que anunciava o futuro em que mestres e estudantes usufruíam a mesma liberdade.

A instituição era manchada por certas condutas dos seus dirigentes, mas outros elementos do corpo docente desfraldaram a bandeira da honradez.

Quando no dia 08/03/2018, Fernando Tavares, Vice-Presidente da S.L.Benfica, por ocasião da apresentação da equipa feminina de futebol, afirmou a propósito da detenção de Paulo Gonçalves e da E.toupeira que …” O Benfica vive um estado de normalidade e tranquilidade”… assinala de maneira notável o que é para ele, alto dirigente do SLB, um estado de normalidade e tranquilidade.

A existência de indícios relevantes da infiltração de quadros de SLB na estrutura do CITIUS para espiar a justiça é um ato próprio de um estado de normalidade e tranquilidade.

Dizem que Paulo Gonçalves era ou é o braço direito de Luís Filipe Vieira, que é arguido na operação Lex que envolve Rangel.

A PJ esteve, pelo menos, duas vezes a fazer buscas no Estádio do Benfica.

E, apesar disso, segundo Fernando Tavares o Benfica vive um!!! estado de normalidade e tranquilidade! Talvez. Se nos habituarem a todos esta normalidade e tranquilidade, vários anos após a passagem do glorioso presidente Vale e Azevedo.

Falando como falou, Fernando Tavares, disse à nação benfiquista, o que ele entende por normalidade e tranquilidade.

Falta agora a nação benfiquista aceitar ou achar que naquela instituição não é normal tantos indícios de práticas criminosas. Alea jacta est.