Do Mundo do Alandroal ao Resto do Mundo

DOMINGOS LOPES, Contos e Crónicas do Alandroal e do Resto do Mundo, Âncora Editora, 2017

 

Do mundo do Alandroal ao resto do mundo

Paulo Sucena

 

Acabada a leitura de Contos e Crónicas do Alandroal e do Resto do Mundo, de Domingos Lopes, cuja obra anterior conheço bem, surgiram-me, de imediato, várias ideias. A primeira foi a de considerar distintas as duas partes do livro e considerar a primeira como composta de contos e a segunda de crónicas não só pelas diferenças dos discursos mas também porque as suas instâncias produtoras se distinguem claramente uma da outra. O narrador dos contos desenvolve uma sintagmática narrativa que pretende dar-nos a conhecer pormenores que dão sentido à intriga e simultaneamente mostrar-nos a realidade humana e social de terras à beira-Guadiana, situadas no concelho do Alandroal. O narrador das crónicas não pretende mostrar, aspira a questionar, umas vezes, e a reflectir noutras. No seu livro de estreia Manuel Alegre disse que “com mãos tudo se faz e se desfaz”. Nas crónicas de Domingos Lopes está subjacente a afirmação de que com o pensamento tudo se constrói.

Regressemos aos contos. Creio que muitos dos seus leitores e leitoras confessaram a pessoas amigas que os leram de enfiada, porventura porque para além do prazer da história há o prazer do discurso como diz algures Maria Alzira Seixo. Usando palavras de António Borges Coelho, diria que Domingos Lopes escreve ao rés da fala. Sem dalmática questiona, mais nas crónicas, evidentemente. Não segue o cânone. Persegue o rigor e o prazer da palavra. Com certeza que também por tudo isto os contos de Domingos Lopes exercem uma vera atracção sobre os leitores.

São histórias protagonizadas por gente das camadas sociais mais pobres (a maioria dos actores) acompanhada de outra provinda de estratos remediados e de um outro lavrador rico, habitantes de uma comunidade com suas grandezas e misérias, crenças e mitos, passividades e rebeldias, generosidades e mesquinhezes. À maneira de Flaubert, Domingos Lopes indaga e mostra os interstícios do quotidiano colectivo e pessoal de personagens controversas sem omitir o que de irracional há por vezes no comportamento humano nem quanto o sonho se pode sobrepor a uma realidade adversa. Este último aspecto levou-me em alguns momentos da leitura desta obra às cercanias do grande objecivo dos surrealistas de imbricar sonho e realidade.

Porém, o que motiva verdadeiramente o narrador é o mundo concreto da vida a Lebenswelt que preocupava Edmund Husserl nos meados da década de 30 do século passado. Neste livro de Domingos Lopes é o mundo dos deserdados, dos excluídos, do que insensivelmente transpõem o silêncio e solidão das planuras e das chapadas alentejanas para a bacidão das suas almas, que capta a atenção do narrador de tal modo que ouso dizer que a instância produtora destes contos tem raízes naqueles homens que afogavam em vinho o fardo de viver, por vezes tão pesado que os suicídios marcam a sua presença. O narrador sabe tudo deles, tanto que os contos se revestem frequentemente de um pendor antropológico, quando, por exemplo, na toalha do texto são colocados os lambiscos mais apreciados pelas personagens –tubarões na frigideira, tordos fritos, gaspacho, bacalhau frito (quando as bolsas andavam mais abonadas), caldetas do Guadiana, linguiças e queijos secos, arroz de lebre – ou põe no discurso abundantes copos de tinto ou de branco da Vidigueira.

Tudo isto contado sob o sopro da linguagem dos protagonistas por um narrador que dela se aproxima porventura por respeitar o pensamento do fenomenólogo alemão que afirmava que a linguagem é a morada do ser. Deste modo, considero que Domingos Lopes também pretendeu dar-nos uma visão ontológica das personagens. A tematização das diversas linhas de sentido geradas por estes contos leva-nos às gentes do Alandroal, região onde decorrem as histórias passadas em tempo da ditadura, de um modo tal que aquele pedaço do Alentejo nos surge como uma sinédoque, no seu eixo semântico mais significativo, de um verso de “Praça da Canção”, de Manuel Alegre: Minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

Sendo fácil construir uma isotopia da “mágoa” neste conjunto de contos, vou dispensar-me disso assinalando, no entanto, o conto “Pedras de Água”, que dessa isotopia faria parte, tendo em conta, em primeiro lugar, a sua construção inusitada entregue a dois narradores diferentes. Um primeiro narrador assume o discurso dizendo “a carrinha Bedford avança avassaladora rumo ao Alandroal indiferente ao calor seco e espesso”, colocando o leitor perante uma narrativa de primeiro grau; um segundo narrador é responsável por uma narrativa de segundo grau encaixada na primeira. Sob este ponto de vista, topamos com um conto singular dentro do conjunto de contos deste livro, na medida em que a responsabilidade do discurso é repartida por um narrador extradiegético, produtor da narrativa de primeiro grau, e por um narrador intradiegético, um dos ocupantes da carrinha, nascido da instância narrativa de primeiro grau, e que vem a ser o responsável pela história que verdadeiramente se quer contar. Em segundo lugar, porque a história contada pelo narrador intradiegético, a da separação de uma criança do seu pai, adquire no discurso um tom acentuadamente pungente em que a pouco e pouco a fala do narrador vai gerando, à medida que a sua mágoa se acentua, um clima que nos comove pela intensa e pura humanização das relações intersubjectivas. Quanto mais pesado é o sofrimento do narrador mais humano o seu perfil nos surge.

O registo confessional deste conto percorre outros, seja o narrador homodiegético, isto é, participante na história, seja heterodiegético, isto é, ausente da história. Nos contos em que o narrador é heterodiegético, que são a maioria, a presença do narrador faz-se todavia notar no plano do discurso através de opiniões, comentários ou apreciações judicativas. Aliás, não considero, como às vezes leio, que haja narrativas na terceira pessoa, antes acompanho Gérard Genette que considera inadequada aquela formulação porque coloca “O acento da variação no elemento de facto invariante da situação narrativa, isto é, a presença, explícita ou implícita, da «pessoa» do narrador que não pode estar na sua narrativa, (…), senão na «primeira pessoa».” E é assim que o vemos, nos mais de vinte contos do livro, a manifestar-se a latere de uma forma ora discreta ora solidária, ora benevolente ora cruel, ora impiedosa ora tolerante, muitas vezes irónica.

Uma outra particularidade gostaria ainda de ressaltar nos contos de Domingos Lopes, o de eles “dispensarem” os heróis, dando assim razão a Boris Tomachevski que defende que “o herói não é de modo nenhum necessário à história. A história como sistema de motivos pode inteiramente dispensar o herói e os seus traços característicos”. Na verdade, mesmo quando personagens como Zé Inácio, do conto “A Greve”, ou João Comprido, do conto “A viagem do Comprido ao mundo dos sorvetes”, se afirmam pelo seu carácter, valentia e determinação o certo é que a sua acção ao longo da narrativa não se compagina com “os traços característicos” do herói. E não podia acontecer de outro modo num livro que, como atrás dissemos, do que trata é de anti-heróis, personagens das camadas populares cujo “heroísmo“é o de resistirem acriticamente a uma vida do quase nada.

É nestes cenários de desencanto e desespero, de angústia e alienação que se recorta, numa relação extravagante a eles, o perfil do coronel Austiclínio, Clínio para os íntimos, casado com Clélia. É uma das personagens mais bem conseguidas destes contos. Um narrador cruel só nos informa daquilo que pode apoucar ou cobrir de ridículo a figura do militar, homem glutão, submisso a Clélia que lhe dava reguadas quando se sujava ou se sentava à mesa sem maneiras, de raciocínio primário e linguagem quadrada, aprendida na cadeia militar de comando (a instituição militar também não fica bem no retrato), mas que tratava os seus subordinados com grande arrogância como aconteceu quando foi a Elvas fazer uma inspecção ao campo da carreira militar de tiro e tratou o sargento Varandim com uma insuportável petulância, ou rópia se preferirem a palavra do autor, que se não tinha intelectualmente em que se sustentar, fisicamente também não porque o coronel tinha uns pezinhos que calçavam sapatos 38. Deixo apenas uma amostra da maneira sábia como Domingos Lopes foi doseando o sarcasmo ao longo do conto.

Apresentados alguns dos aspectos que considero mais relevantes nestes contos, é o momento de olharmos as crónicas do resto do mundo ainda que só de relance. É curioso notar que, deixados de lado os pormenores da sintagmática narrativa dos dois textos que iniciam cada uma das partes do livro de Domingos Lopes – “Ai o que o cabrão do Cuco me fez!” e a “A Puta de Georgetown” (a crónica mais próxima da literariedade da ficção) – o que sobressai desses textos é a manifestação do egoísmo mesquinho do patrão do Cuco, indiferente ao suicídio do pobre homem e apenas preocupado com a carga de trabalho que lhe iria dar a existência de um cadáver preso na traseira do seu tractor. O egoísmo demonstrado por um ricaço grego, uma das personagens da crónica de Georgetown, é mais sórdido porque mais cínico e requintado. Essa poderosa figura, depois de ter passado a noite com a jovem prostituta negra, deixou de defender o seu direito a frequentar o hotel, como fizera na véspera, e apressou-se a dar-lhe uma nota para a ver rapidamente fora do local onde queria tomar o pequeno almoço sossegadamente. O narrador, que nunca se distrai com os mais fracos, informa-nos que a prostituta negra recebeu a nota de dez dólares, olhou os circunstantes, pôs o dinheiro em cima da mesa e saiu. Ficou no ar o ruído de uns “saltos altos a martelar a rua”. E nesse ruido, acrescento eu, flutuava um assomo de dignidade humana contra a vilania.

A esta primeira crónica seguem-se mais treze, nascida de viagens de Domingos Lopes ao Chile, à Jordânia, ao Nepal, à Síria, à Birmânia, a Malaca, a Singapura (só os portugueses chamariam pura a esta cidade!) e a Aracataca, terra natal de Gabriel Garcia Márquez que de algum modo inspira o autor quando escreve textos impregnados de um realismo fantástico. Gostaria ainda de acrescentar que na crónica “Macondo, aliás Aracataca”, o cronista entretece um jogo subtil entre a realidade empírica, Aracataca, e Macondo a realidade textual criada em “Cem anos de solidão”. Esta é uma crónica de que gosto particularmente, porque nela Domingos Lopes afirma o incomensurável poder da palavra – o de produzir uma realidade tão viva quanto o real e até por vezes, fundamentalmente na grande arte, mais brilhante e intensa do que a própria realidade recriada.

Numa visão global as crónicas do Resto do Mundo oferecem-nos um diversificado conjunto de reflexões sobre a morte e a efemeridade da vida, a materialidade e a espiritualidade dos humanos, a relação dos homens com os deuses e o papel de Portugal na história da humanidade. Esta última temática é exemplarmente abordada na crónica “O Sudeste Asiático” em que vêm à tona as marcas deixadas por Portugal no oriente, o apelo a que Portugal seja fiel à sua raiz universalista e cuide do ensino da nossa língua naquelas paragens, e, finalmente, que recuse o afunilamento das relações externas porque ele “nos faz mais pequenos e frágeis face aos Schäuble e às Merkeles e aos burocratas desta Europa sem alma”.

Eis o laço que cinge, ora de um modo ora de outro, estes contos e crónicas, a denúncia de um mundo sem alma e de um tempo em que os poderes tentam apagar o mundo concreto da vida (o Lebenswelt husserliano) ou, diria a finalizar, com palavras de Heidegger, discípulo do fenomenólogo alemão, um tempo em que as políticas promovem cinicamente “o esquecimento do ser”.

Creio que o valor primeiro destes contos e crónicas é o de, mesmo nos climas mais disfóricos gerados por uma progressiva degradação da vida das personagens, pretender mostrar e implicitamente condenar essas situações o que nos permite inferir que é imperioso defender sempre a dignidade dos humanos, recusando que o desenvolvimento científico, técnico e tecnológico os transforme em números, antes contribua para a afirmação cada vez mais plena do ser do homem.

 

A Inveja que Cega

A inveja é um dos sete pecados mortais, segundo os ensinamentos cristãos. E, sem dúvida, independentemente das religiões, uma grande fraqueza humana. Os portugueses são atreitos a essa doença. José Gil escreveu um livro sobre esta matéria que merece ser lido.
Entretanto novas descobertas científicas vieram dar conta que certo tipo de cegueiras resulta da inveja.
Corria o ano da boa graça de 1987 e o mundo tinha duas Alemanhas e não apenas uma.
O FCPorto liderado pelo poeta e doutor de Letras ,Artur Jorge, matulão da República Ninho dos Matulões, em Viena corrompeu os bávaros teutões marcando dois e sofrendo um.
Os que viram e não os que apenas olharam, assistiram, para além da arte de tocar na bola, à vingança suprema de Madjer sobre Heitor , o herói que conhecia a vulnerabilidade de Aquiles.
Aquele toque de calcanhar era mais que um sopro de oboé; era a vitória da arte sobre a burocracia.
Era ainda a afirmação de que os portugueses podiam continuar a dar ao mundo novos mundos: Juary, Madjer, e o Futre , aquele a quem a bola nasceu pegada ao pé esquerdo.
Viena tão perto de Munique não se vergou aos alemães. Os portugueses podiam orgulhar-se do clube da mui nobre e sempre invicta cidade.
No longínquo Japão para onde levamos armas e a fé que não foi suficiente, chegou a hora de afirmar ao mundo que não era o Penharol, mesmo sobre gelo, que vencia o FCP.
No ano de 2003 quando Átila chegou à Luz e escorraçou Mourinho como parte do plano para aniquilar o FCP, Mourinho mostrou a valia do FCP na Europa e ganhou ao Celtic a Taça UEFA.
Para quem gosta de futebol é Príncipe quem sabe jogar e não apenas por se ser de uma coisa verdadeiramente anacrónica no século XXI que é um Principado do Mónaco. Em Gelsenkirchen o Mónaco regressou como um plebeu e não como nobre. Carlos Alberto pintou a manta e reafirmou o valor do multiculturalismo.
O verdadeiro príncipe do Mónaco é o madeirense Leonardo Jardim.
Vilas Boas em Dublin disse a Domingos Paciência que treinava o Braga- Tem calma – na cidade de Joyce o melhor é escrever no céu o golo da vitória, como só Falcão é capaz. Quem nasceu para voar abre as asas.
Assim se passaram as coisas que não há muito tempo aconteceram. Coisas lindas de se verem.
Terrível, demasiado terrível para os que não veem o que se viu claramente visto. É a inveja, o quinto pecado capital

Os Afetos que nos Salvam

“Num país com uma dose mais que suficiente de basbaques, emparedado entre o ritmo frenético (para e arranca) dos carros nas nossas ruas e a pressa de chegar a casa para papar as notícias das televisões, é de assinalar a ida do Presidente Marcelo ao barbeiro a abrir um telejornal de toalha branca a ser barbeado como se era antigamente. A barbearia, segundo a notícia, fica no Intendente.

(Continuar a ler – Público online)

Ainda a Guerra Contra os Professores e a Função Pública

Esta é a guerra invisível contra os professores e a função pública: tirar aos pobres para dar aos mais ricos.

Na guerra contra os professores há uma escondida e outra que é mais vasta. Começou com José Sócrates. O Estado não podia ter tanta despesa com os professores. Aflorou-se o que viria a ser a grande linha de ataque: não há direitos intocáveis. Todas as classes e camadas sociais vivendo do trabalho tinham de se acostumar à nova ideia — emagrecer o Estado, o que vale dizer cortar vencimentos e pensões.

Para tanto e seguindo os ensinamentos de Hobbes na sua obra Leviatã, todos tinham que se posicionar contra todos. Deste modo, o príncipe podia decidir a seu gosto. Num país em que a inveja dói, jogaram-se profissões contra profissões pretendendo-se que umas apontassem às outras privilégios que tinham de ser banidos. Eram os “privilégios” dos magistrados, dos médicos, dos enfermeiros, dos professores, dos funcionários públicos os responsáveis pela crise. Tinham vivido acima das suas possibilidades. E havia que atirar o reformado contra o professor, o enfermeiro e o médico em luta pelos seus direitos e pela dignidade da profissão. No novo mundo globalizado, profissões e carreiras não existem. Apenas mercados loucos de fome e à espera da submissão para investir. Os mercados é que mandam. Até o Presidente Cavaco Silva passava os dias a lembrar a realidade financeira, fazendo-lhe a devida vénia.

Com Passos Coelho, Paulo Portas e Assunção Cristas, com o beneplácito e incentivo da troika, os professores e a função pública foram tratados como sendo inimigos das finanças públicas por quererem aumentar a despesa. O trio e a troika tiveram o desplante de proclamar a um país pobre que o problema era saber fazê-lo empobrecer mais. E empobreceram. Foram quatro anos de punição severa. A realidade foi o que se viu, no limiar da pobreza está mais de um quarto dos portugueses.

Cristas deixou esta imagem de marca. Um rasto de destruição social. Bem pode pregar aos portugueses porque quando teve a possibilidade de governar bem, fê-lo a pensar nas privatizações e no empobrecimento; governou pessimamente, não há volta a dar. Por mais casos que se criem, por mais redemoinhos que apareçam, por mais que o Governo revele uma propensão acentuada para a asneira nos últimos dias, Cristas já governou e fez do empobrecimento a sua lei; agora, os bairros sociais e as estações de metro são só para chegar ao poder. Bem pode escrever meia dúzia de cartas aos portugueses e conseguir até que os jotas as divulguem — ela já governou muito mal; empobreceu o país em consciência.

Os professores sofreram na carne os cortes, os congelamentos e a ignomínia de serem apontados como gente pouco honrada, que só pensavam em greves e em manifestações e no seu umbigo. Foi esta a imagem transmitida.

Como se um país que queira ter futuro não tenha que tratar com respeito e dignidade aquelas e aqueles que vão ensinar os futuros cidadãos, os quadros e as elites de Portugal, como se esta profissão não fosse para ser considerada como estratégica para o progresso e o desenvolvimento do país.

Como se não nos recordássemos, na nossa memória longínqua, do papel de tal ou tal professor na nossa formação, que para sempre nos deixou a marca de nos ensinar a querermos aprender para sermos melhores.

Ensinar é uma das mais belas atividades humanas. Que seria de nós se não houvesse quem nos ensinasse? Sim, é importante haver quem ensine. E seria de esperar que a sociedade incentivasse a aprender os que estão na idade dos vários escalões escolares.

Com o novo Governo de Costa, Cristas e Passos capitanearam manifestações contra o ministro da Educação porque queriam que o Estado continuasse a pagar o ensino privado. Já não havia gorduras, só a tal liberdade de todos os zés-ninguém pagarem os colégios privados, isto é, em vez de serem os pais a pagarem os estudos dos meninos nos colégios privados, eram os portugueses que os pagavam.

É neste ponto que surge a guerra invisível contra os professores. Estes defensores dos cortes e dos congelamentos pretendem que o ensino se degrade e que a escola pública não passe de um local sem qualidade e sem futuro. Desrespeitar os professores, desprotegê-los nas suas carreiras e no seu embate com os pais dos alunos, “deportá-los” para terras distantes a centenas de quilómetros das suas casas.

Se os professores forem mal pagos, se forem tratados como uma profissão de malandros, o que vai suceder? Ninguém quer ir para professor… Quem irá e com que aptidões?

Num ensino degradado, sem futuro face à razia levada a cabo, avançará a privatização da Educação. Quem quiser que os filhos aprendam tem de ir para o privado que o Estado financiará para que os ricos se possam reproduzir com o dinheiro dos pobres. Aí já não haverá gorduras, apenas uma gestão eficiente em que os mais favorecidos, no plano social, terão à sua mercê privilégios do Orçamento Geral do Estado.

Esta é a guerra invisível contra os professores e a função pública. Tirar aos pobres para dar aos mais ricos. Se o SNS não for eficiente, se a Justiça não funcionar, se as funções do Estado falharem, só falham para os mais necessitados. A minoria social cheia de dinheiro tem sempre à mão o que precisa. Até engendrou planos para os pobres lhes pagarem os luxos.

A globalização levada a cabo por estes atores políticos significa a subversão do Estado social e a sua transformação num campo de batalha em quem mais tiver quer tirar o que puder aos que pouco têm.

Assim o país será competitivo e os investidores, seguros de grandes e chorudos lucros, investirão e levarão de cá couro e cabelo. Nesses não se pode tocar, estão ungidos de santidade mercantil. Sempre haverá por cá quem seja bafejado por tão nobres cavalheiros. Cumprir-se-á, então, o desígnio de Passos e finalmente Portugal será de quem der mais pela bagatela da mão-de-obra. De Passos ou de quem vier a seguir no PSD. Se o PS quiser.

texto de Domingos Lopes no Público Online de 30/11/2017

O Fogo e os Comentadores do terceiro e Quarto Mundos

Acabaram de se realizar eleições autárquicas que são normalmente favoráveis aos partidos da oposição, mas não foi o caso. Não foram eleições legislativas, mas não há ninguém que não saiba que a leitura seria outra, se o resultado fosse favorável à oposição.

A direita perdeu claramente, independentemente do resultado de Assunção Cristas, que vive e progride à custa do PSD e não dos outros partidos. Cristas quer continuar a cavalgar no terreno do centro que o PSD deixou ao abandono ao galgar para a direita.

Duas semanas depois das eleições com expressão clara de apoio à política de devolução de rendimentos aos portugueses, ocorreram incêndios nunca vistos, que no domingo, dia 15, atingiram a enormidade brutal de mais de 450. Tal tragédia provocou quatro dezenas de mortos e destruições devastadoras de bens. O país viveu um domingo de verdadeiro apocalipse; a convergência de problemas que existem na floresta há décadas com condições climáticas únicas. Certamente que houve, tal como se retira do relatório da Comissão Independente, erros de avaliação do que sucedia e omissões que poderiam evitar tantas mortes nos incêndios de Pedrógão e nestes últimos.

(Continuar a ler no Público Online)

Os Políticos São Todos Iguais?

Há um mal profundo na sociedade que corrói a vida democrática. Trata-se da ideia que os políticos são todos iguais. A aparente inocência deste pensamento contém em si um dos aspetos mais negativos no plano democrático, o de que sendo iguais, não vale a pena escolher. E, daí, as taxas de abstenção.

Claro que os políticos são mulheres e homens que choram e riem como todos os outros seres humanos. É certo que no exercício do poder local, parlamentar ou executivo enxameiam os lugares com gente da sua confiança, muitas vezes prevalecendo o “yes, sir” em vez do mínimo de competência. E aí pode haver igualdade.

(Continuar a ler no Público Online)

Um Olhar Sobre as Eleições Autárquicas

Todos perceberam que estas eleições locais tinham um significado que ia muito para além do domínio local.

Há quatro anos, o PSD/CDS no governo perdeu as eleições para o PS de José Seguro. Agora, o PS no governo, em acordo com o PCP e o BE, viu reforçado de modo considerável as suas posições. O poder não o desgastou, antes pelo contrário.

Ao virar à esquerda, o PS fortaleceu-se e o PSD, ao manter-se agarrado ao empobrecimento, sucumbiu e não foi preciso vir o diabo para o levar ao inferno.

(Continuar a ler no Público Online)

Afinal, a Alemanha Tem Pesadelos

A política levada a cabo pela chancelerina Merkel, ao contrário do que muitos queriam fazer crer, foi fortemente penalizada. Perdeu quase 10% dos votos (passou de 41,5% para 32,9%). Trata-se do pior resultado de sempre da CDU no período pós-guerra.

(Continuar a ler no Público Online)

A Divina Providência

Há na monumentalidade dos tempos religiosos algo que faz pensar a nossa condição humana e o eterno problema da razão de ser da vida que há de conduzir à morte.

A luta entre a vida e a morte com a vitória desta última encarada, em termos individuais, enche de perplexidade e frustração na medida em que raros são os que não desejariam viver mais tempo.

É difícil encarar o processo da eternidade da vida enquanto espécie baseada na morte de cada indivíduo.

E talvez, por isso, o instinto quase cego para a “salvação” extra morte de cada um.

Em todo o lado, onde se ergueram templos, há no seu interior essa angústia única que resulta do pensamento na inevitabilidade da morte.

Desde os raios de sol que entram pelos vitrais e tocam, vindos de cima nas  profundidades da sensibilidade humana, tornando o silêncio dos pilares, das colunas e do altar mais denso.

Há no vazio solene e imponente das paredes vazias das mesquitas a gravidade desse pensamento que bate nas paredes da alma.

Nos grandes templos hinduístas há um silêncio de frenesins de multidões em volta de deuses tão diferentes dos que no Ocidente vemos como representação de Cristo.

Nos budistas tudo se concentra em Buda, no seu olhar para o chão, na sua morfologia em que masculino e feminino quase se misturam na sua representação.

Na Basílica do Coração Sagrado de Paris,  já perto da porta de saída, está um placar que anuncia que na noite de 20 para 21 de abril de 1944 a aviação alemã lançou treze bombas sobre a zona da Basílica e arredores e não tendo atingido ninguém e se agradece à divina providência por tal feito.

Subliminarmente a mensagem passa a ideia que uma força divina tinha evitado ferimentos e mortes face à metralha da aviação nazi.

O silêncio quente de velas a arder à entrada do templo,  faz surgir a interrogação: se assim é por que motivo a divina providência não impediu que as balas nazis tenham causado tantas mortes em toda a Europa e no norte de África?

Se a divina providência olha todos os seres do mesmo modo, sendo omnipotente por natureza, por que não evitou a guerra? Por que não a impediu?

Fora da Basílica os polícias corriam atrás de senegaleses que vendiam pins da Basílica e da torre Eiffel. Fora das Basílicas do consumo.

Paris, 21/09/2017

 

20170917_101602

Que Deus Perdoe Trump!

Trump foi discursar à Assembleia Geral das Nações Unidas e aproveitou a ocasião para dizer o que pensa sobre o seu país e o mundo.

Os diplomatas dos EUA conhecem seguramente o preâmbulo e os artigos da Carta das Nações Unidas, nomeadamente o seu n.º 2, alíneas 3) e 4). Na verdade, o preâmbulo constitui uma exortação à defesa e manutenção da paz. Os povos do mundo inteiro consagraram, naquele diploma, a paz como valor primordial de toda a Humanidade. E apelam à interdição da guerra. A guerra, à luz da Carta, é ilegal, salvo em casos absolutamente excecionais.

(Continuar a ler no Público Online)