O Mais Importante é o que Fazemos com o que nos Acontece

Na correria louca do quotidiano falta o tempo e o que sobeja vai quase inteirinho para fugir aos aborrecimentos da vida. As coisas sucedem-se e impõem-se. E somos apanhados nesse redemoinho das coisas que temos de fazer e quase deixamos de ser, para sermos seres de fazeres.

Erling Kagge no livro “Silêncio na era do ruído”, “Qetzal”, página 37 refere um provérbio norueguês que diz… o mais importante de tudo é aquilo que fazemos com o que nos acontece…

Se ao que nos acontece nada fazemos, então o que somos vale pouco, porque não temos capacidade de aprender com as lições da vida.

Há anos que os media nos propõem que observemos e absorvamos, fazendo de nós verdadeiros basbaques.

Um dos mais curiosos acontecimentos mediáticos é a parasitação das desgraças; onde houver desgraças há câmaras.

Os incêndios que devastaram zonas do país instalaram-se dentro dos próprios ecrãs televisivos, explorando até à náusea o espetáculo da destruição com mil e um diretos e sobretudo chafurdando na desgraça humana, explorando-a, dando visibilidade às vítimas, tirando partido das fragilidades e passar, como notícia, a dor.

O microfone mediático para as vítimas é uma esperança de poder partilhar a desgraça, sobretudo face ao vil anonimato de quem só é notícia por ter visto a sua vida desgraçada. É um alívio poder dizer o que se sofre. E para observar e absorver. E anestesiar.

O poder político, a começar pela mais alta figura do Estado, tem estado onde acontecem essas medonhas catástrofes. A fazer o quê? Se as figuras do Estado não são bombeiros, se não são proteção civil, se não são socorristas, se não são psicólogos, se não são médicos, se não são maqueiros, se não são fotógrafos, que vão lá fazer? Qual é o contributo da sua presença?

Compreende-se a sua deslocação para participar em cerimónias evocativas para que as populações sintam que, do ponto de vista do Estado, há esse sentimento de solidariedade.

Vê-se, por todo o mundo, as primeiras figuras do Estado, a prestar homenagem às vítimas. Esse é o dever do Estado e de quem o representa.

Outro assunto é ter como atividade política passar, em todo o lado, onde há acidentes, sejam incêndios, sejam desastres de aeronaves, seja o que for.

Há como que uma infantilização do povo português, como se fosse incapaz de fazer luto e resistir e prosseguir a vida.

Por mais dolorosa que seja o incêndio na associação recreativa onde jogavam a sueca umas dezenas de populares, o que importa não é a compaixão de tal ou tal responsável político, mas sim o apuramento sério do que passou para evitar que o descuide impere seja em Tondela, seja num estádio de futebol, seja nas construções que devem obedecer a normas e que o nacional porreirismo desliga do cumprimento desses deveres.

Aos acidentes que ocorram por erro e negligência grave ou dolo há que apurar responsabilidades. Andar a choramingar e a botar sentença acerca do estado de espírito dos jogadores de sueca não é o que se exige a quem o dever de contribuir para apurar responsabilidades e dignificar as funções do Estado.

Ninguém merece a sorte dos que morreram no torneio da sueca por causa da salamandra instalada de tal modo que permitiu a desgraça. Mas o mais importante é trabalhar para impedir que volte a suceder.

Mais importante do que o que nos acontece, é o que fazemos com que nos acontece.

Na vida em comunidade, sabemos que há normas, e que é importante que sejam cumpridas, para que não aconteçam desgraças, e assim sermos capazes de agir para o bem de cada um e da comunidade.

Se sabemos que um dia um grande terramoto vai acontecer, sabemos que é decisivo prepararmo-nos para que ele nos encontre prevenidos.

O mais importante na vida não é apenas o que observamos e absorvermos, é o que fazemos com o que nos acontece. Mais vale o aborrecimento de ter de impedir o desleixo a milhares de fotos reconfortantes, cheias de homens com poder, e de pedidos de desculpa.

Texto publicado hoje no Público online.

 

De Novo na Barraca a Incrível e Triste História de Cândida Erendira

Em Macondo, aliás Aracataca, Gabriel Garcia Marquez, morava ao pé da estação de caminho de ferro, e foi educado entre mulheres e ouvindo histórias mágicas contadas pelos criados índios.

Não sei se a vida de Erendira e da sua desalmada avó tem algo a ver com esse mundo mágico que passava de boca em boca.

Sob o pano de fundo da impiedade da avó de Erendira, a curta novela de Gabo é uma explosão de maldades humanas por entre o deserto, contrabandistas, um cantineiro e missionários, um microcosmo da região. E, ao mesmo tempo, uma narrativa plena de aconteceres fantásticos, como faz a avó( que não tem nome) ao obrigar os seus criados índios a levarem numa caixa com rodas e com os esqueletos dos Amadis, sendo um deles o pai de Erendira e o outro o que levou a avó de um prostíbulo para uma vida de luxo.

Rita Lello ao encenar esta novela sabia que tinha um desafio impressionante, e do qual se saiu muito bem.

Os diálogos na novela não são abundantes. A ação acontece ao ritmo das peripécias desta velha mulher que quer obrigar a neta a pagar os danos causados por incêndio na sua rica mansão; incêndio resultante pelo malévolo vento do deserto que derrubou o candelabro enquanto Erendira dormia. Para pagar o percalço, como lhe chamou a avó, a neta teria de se prostituir durante oito anos, sete meses e onze dias, disse-lhe a malvada quando a neta já arrastara atrás de si uma grande correnteza de homens para dela se servirem e pagarem à avó.

Alertados, os missionários, do que se passava levam Erendira para as Missões onde fica sujeita a lavar com água e cal, sem parar, as escadas do edifício.

Rita Lello recria o ambiente da novela através de elementos simples e que nos transportam ao imaginado tempo colonial – música, roupas, cantina, bicicletas e as próprias cargas que os índios transportam. Na ação cénica incorpora o  vídeo que nos leva ao estupro do viúvo que comprou a virgindade, bem como à chegada ao deserto com água, que é o mar como diz Gabo. Diga-se que a arte foi recriar o ambiente desta malvada e alucinada mulher e do séquito com a fresca carne de Erendira.  O autor da novela “Memória das  minhas putas tristes” é o mesmo.

Com o correio a espalhar a chegada de Erendira instala-se um ambiente de festa que constitui a chega da avó com a neta. A encenação consegue-o com as acrobacias e a animação que vai desde a mulher aranha ao fotógrafo dos retratos que tem uma tela com cisnes brancos em pleno deserto. Tudo numa atmosfera de alvoroço caribenho.

É o filho jovem de um contrabandista holandês( traficante de laranjas, com pérolas no seu interior, devoto da Bíblia) que vai libertar Erendira após enamorar-se da jovem prostituta com quem perde a virgindade.

O curto diálogo da avó com Ulisses, a quem ela apelida de anjo sem asas, é quase irreal, dada a pureza de Ulisses e a perversidade da velha avó. Não deve ter sido por acaso que Gabo lhe deu o nome de Ulisses.

O de Homero, o herói da Odisseia, o solerte, o da estirpe dos deuses, regressa a Ítaca e mata os usurpadores do seu palácio que pretendiam esposar Penélope e apoderar-se das suas riquezas

O de Gabo, o anjo sem asas, é um jovem apaixonado por Erendira e que por amor vai matar a malvada avó.

O herói da Odisseia deixa atrás de si um rasto horroroso de mortes para se se vingar e alcançar finalmente a sua Penépole e a sua cidade, Ítaca.

O de Gabo vai travar com a avó de Erendira uma luta titânica depois da malvada velha não ter morrido, mesmo tendo comido um bolo com arsénio.

Trava-se então uma batalha brutal entre a poderosa velha e o anjo sem asas que a apunhala várias vezes e a mata abandonando-a à nudez do seu medonho cu. A mais bela mulher dos prostíbulos das Antilhas finalmente jaz de bruços no centro do palco.

E de novo o vídeo mostra-nos a fuga inimaginável de Erendira, a doce, com o colete cheio de lingotes de ouro da avó.

Grande encenação de Rita Lello e grandes interpretações de Maria Céu Guerra e Sara Frio.

domingos lopes

400 Cobardes

É humanamente aceitável que alguém ao volante de um veículo possa abalroar (voluntária ou negligentemente) um seu semelhante e deixá-lo na estrada consciente ou inconsciente à espera que outrem se aproxime e lhe preste a solidariedade necessária?

Quando o condutor do veículo atropela num ser humano, como ele, e, em vez de parar, foge para escapar a um julgamento que apure a responsabilidade desse embate, que sabe esse condutor acerca do estado em que fica a vítima?

O atropelamento, mesmo que possa resultar de uma impossibilidade de o evitar, impõe um dever de assistência – trata-se de um veículo contra um corpo de carne e osso.

O primeiro dever é o da consciência de quem conduz. Pelos vistos, segundo os dados públicos pelo Ministério da Administração Interna, houve em 2017 quatrocentos atropelamentos com a fuga dos condutores, o que equivale a dizer que há quatrocentos indivíduos que após embaterem em crianças, mulheres ou idosos, fugiram e deixaram os sinistrados totalmente desamparados.

Os humanos têm deveres para com a comunidade onde estão inseridos e um deles é de prestar auxílio a quem causarem lesões.

Nesse sentido, os deveres que cada um impõem a obrigação de prestar cuidado e auxílio à vítima. É, em certo sentido, a nobreza do único ser que à superfície da terra sabe, tem consciência, do mal que pode acarretar a omissão da ajuda.

Só um ser desprovido de humanismo, após atropelar outrem, por medo das responsabilidades, ou por desprezo pela vítima, foge e deixa-a abandonada a si própria, sem se certificar se é capaz de se proteger.

Não está em causa conhecer a responsabilidade de quem deu azo ao embate; mas sim de cuidar de alguém que precisa.

É algo que a sociedade tem de defender e impor ao seu conjunto de modo a que a indiferença, o abandono não se tornem normais. Quatrocentos foragidos são muitos. Antes de ser crime é ainda algo que enquanto cidadãos se coloca deste modo mais simples: sendo humanos, o que é mais humano, deixar a vítima à sua desgraça, ou por imperativo de consciência ir certificar-se das necessidades da vítima?

Quatrocentos foragidos são quatrocentos cobardes que, da baixeza do seu egoísmo, deixam ao abandono seres humanos fragilizados, a necessitar de auxílio.

De que fogem? Do mal que causaram? Da pressa em chegar ao local de trabalho ou a casa? Ou a tempo de verem desde o início o jogo de futebol? Ou o episódio da série que seguem? Ou a telenovela?

Há muito a fazer no terreno da repressão a estes tristes episódios de cobardia. Mas tenhamos a coragem de afirmar: é preciso investir mais no civismo.

É preciso que as condutas destes quatrocentos indivíduos sejam condenadas de forma veemente, não só nos tribunais, mas também na comunidade.

O cobarde que bate e foge, deve sentir, no local de trabalho ou de convívio,  o repúdio perante essa  vergonhosa atitude. É, pois, preciso mudar as mentalidades para diminuir o número de cobardes e de vítimas.

 

Um De(Bate) do Caraças

QUEM OS QUER?

O país não sabia onde estava o PSD ou PPD/PSD. Hibernara? Por onde andava? O certo é que não se via.

Passos Coelho não chegou a ver o diabo. Nem ele, nem Costa, nem ninguém. Não veio. E, portanto, foi-se o sisudo Pedro, sem tirar o pin da banda do casaco escuro.

Na altura de se ir, disse solenemente que não ia andar por aí, não esclarecendo se ia andar por ali. Parecia que se tinha ido, mas, entretanto, o que ia andar por aí, cujo nome já se  conhece, capturou o passado do que não ia andar por aí e afirmou-se guardião desse tempo de empobrecimento. E o seu legado passou para as mãos do Pedro Lopes com todo o vigor e atualidade.

Pedro Lopes acabou por herdar o aparelho que Pedro Coelho tinha laboriosamente criado e lhe pertencia. Deve ter havido uma transação dos dois Pedros que acordaram em passar os seus préstimos um ao outro, sempre tendo em conta os superiores interesses nacionais.

Rui Rio que já fora no PSD uma das mais relevantes figuras – Secretário-Geral de Marcelo Presidente do PSD (sem tanto afeto, como agora) e Primeiro Vice-Presidente de Santana, Primeiro-Ministro, trapalhão, também quer ser Presidente do PSD, dado que o cargo está vago. E está no seu direito.

Os dois, Rio e Pedro, andam por aí sem que ninguém dê por eles, nem os jornalistas conseguem entrar nas sua anestesiantes campanhas que não mexem com ninguém salvo os habitués que querem colar-se a um deles para ver se sobem na vidinha…

De tanto circularem foram parar à RTP1 e vistos. Um debate do caraças. O Lopes atacou o Rio à paulada. Rijo. Houve uma altura que parecia estar a atacar  Marcelo PR que, como se sabe, participou num  Colóquio na Gulbenkian sobre a JUSTIÇA e organizado pela Associação 25 de Abril. Pedro exibiu uma foto de Rio ao lado do sempre capitão de Abril, o coronel Vasco Lourenço, o que constitui para Santana um verdadeiro sacrilégio…

É evidente que se o PR pode participar numa iniciativa da Associação 25 de Abril, um candidato a Presidente do PSD, jamais

Mas o mal feito ao PSD por Rio não se ficou por este gravíssimo pecado mortal, segundo o acusador Pedro. Rio aparece muito com Pacheco Pereira e Ferreira Leite e ainda com um grupo que aparece e desaparece, do género a que pertence o Morais Sarmento. Mas mais grave é não atacar Costa o suficiente, nem uma trapalhada lhe aponta…Rio não aceitou, e disse que ao fora ele o reconduzido como Provedor da Santa Casa.

Mas Pedro tinha uma cópia de uma entrevista de Rio à Visão no tempo que era Primeiro e, nessa altura, não disse que eram só trapalhadas. Rio não se ficou e deu razão a Sampaio, pois Sócrates viria a ter maioria absoluto. Toma!

Ambos defenderam reformas que a direita defende desde 1976 e nunca mais acabam e são sempre para tirar ao Estado o que ele já pouco tem. O que conta segundo Pedro e Rui é diminuir os impostos, mas só falaram do IRC, sem se ficar a saber porquê só aquele…

Pedro afirmou com toda a força, vá de retro satanás se algum dia faria qualquer acordo com Costa ou o PS. Rio foi mais cauteloso, nunca, nunca, mas se for preciso que venha a troika, aí sim. Mas por que haveria de vir a troika? Pedro Lopes não se importou e deixou vir a troika nesse caso falado.

Rio parecia ter ido copiar Martin Schultz que tinha jurado a pés juntos que nunca faria coligação com Merkl, mas há sempre para alguns um mas.

Ambos cavalgaram contra o status quo, sem darem conta que eles os dois foram dois dos mais altos dirigentes do partido que deixou Portugal neste estado.

Apoiaram Coelho e a troika e o empobrecimento. Esfarraparam-se para confundir o país com os seus propósitos de abocanhar o poder com mais ou menos subvenções aos partidos, mais iva , menos iva. Candidatos em todo o seu esplendor. Quem os quer?

O Eucalyptus Belenensis

O EUCALIPTO DE BELÉM

EUCALYPTUS BELENENSIS

O eucalipto é uma espécie de árvore cuja característica é procurar alimento onde que quer que se encontre, num largo raio em seu redor. O seu objetivo é procurar as alturas. Tem de se erguer acima das outras árvores custe o que custar na Austrália, na Califórnia ou em Castanheira de Pera.

Apareceu há cerca de dois anos uma nova espécie de eucalipto, o eucalyptus belenensis que rivaliza com as outras seiscentas espécies,  sendo a predominante o eucalyptus globulus.

Apesar da chegada tardia desta nova espécie, o certo é que refinou as características de todas as outras ; numa visão darwiniana dir-se-á que concentrou em si todas as capacidades de se impor seja qual for o tipo de solo.

Em Belém, constava que os solos do Palácio eram dados a outro tipo de árvores mais circunspectas e territorialmente circunscritas ao próprio Palácio e arredores.

A grande novidade com o aparecimento do eucalyptus belenensis  deu origem a uma reviravolta no ambiente lisboeta e nacional.

O eucalipto de novo tipo está a secar toda a floresta que cobria o país de Norte a Sul.

Na verdade, a enfermidade( segundo os serviços florestais) é a infiltração na paisagem política de tal modo que há previsões de asfixia do ambiente político, embora de modo gradual. Isto porque o eucalipto de Belém atrai para si todas as antenas responsáveis por captar a seiva de que se alimentam as diversas árvores que compõem a paisagem política portuguesa.

As mutações genéticas na nova árvore têm efeitos prodigiosos comparáveis às dos humanos; é o caso da espantosa capacidade de aparecer em todo o lado através dos seus múltiplos ramos fluorescentes.

Em contraste com o eucalyptus globulus que se deixa queimar num instante, o de Belém afirma-se como árvore de presença permanente nos rescaldos dos grandes incêndios e largando grandes sentenças justiceiras acerca do comportamento de outras entidades paisagísticas e traçando o caminho a seguir, inclusive com datas.

O eucalyptus belenensis invade pela sus própria natureza  os mais diversos domínios da comunidade a qualquer hora , em qualquer circunstância, sempre com juízos profundos seja sobre qualquer tipo de catástrofe. As catástrofes permitem ao eucalipto secar as lágrimas das vítimas.

Está ainda dentro das suas possibilidades apresentar-se em festas de natal e em jantares de grupos recreativos e culturais como foi o caso recente do grupo “A Mula Russa”.

Atente-se na sua mobilidade e versatilidade tomando em conta a agenda de um dia pacato: 8h- Ida a um funeral; 9h-passagem na sede do agrupamento de Escuteiros acampados na Serra de Sintra; 10h- Inauguração da sede do Clube Columbófilo de Alcântara com largada de pombos correios a caminho da Síria para juntarem mensagens anti Assad; 11h-Receção à Administração da Autoeuropa; 12h-Visita à comunidade de patolas setentrionais acabados de chegar a Alcochete; 13h- Comentário a propósito da declaração do Primeiro-Ministro sobre a recuperação de Salvador Sobral; 14h- Passagem numa casa de sandes rápidas sem necessidade de mastigar muito; 14.20h-Reunião com o gabinete; 15h- Ida ao Estádio da Luz para ver o jogo; 17h-Deslocação à Cova da Moura para apreciar uma nova cachupa;18h- Saída rápida para o Guincho para um mergulho; 19.30h- Reunião com o Adido das questões agrícolas e piscícolas para tratar da queda da quota de captura de ligueirão; 20.30h- Reunião com Santana Lopes; 21h- Reunião com Rui Rio; 21.15h- Reunião com Assunção Cristas; 22h – Encontro com António Costa; 23h- Visualização dos telejornais; 24h- Agenda livre por falta de interlocutores e tempo para comentar no dia seguinte as possibilidades de Portugal fornecer pernis de porco à Venezuela. Fim do dia.

O eucalipto de Belém é tão fluorescente que atrai multidões de jornalistas similar à da luz em relação aos insetos.

Trump irá em breve tuitar que o eucalyptus belenensis é uma prova que não há alterações climáticas, pois a seca se deve a este tipo de árvores.

Por enquanto não se sabe o prazo de vida deste tipo de eucalipto; há quem tema uma longevidade acima da média e, por consequência, se reduza a paisagem política da floresta. O IPMA tem as suas coordenadas viradas para ciclones, anti ciclones e superfícies frontais, sem capacidade para avaliar danos, e daí não haver avisos de perigo seja ele de que cor for.

Eucalyptus Belenensis ou o Eucalipto de Belém

O eucalipto é uma espécie de árvore cuja característica é procurar alimento onde quer que se encontre, num largo raio em seu redor. O seu objetivo é procurar as alturas. Tem de se erguer acima das outras árvores custe o que custar na Austrália, na Califórnia ou em Castanheira de Pera.

Apareceu há cerca de dois anos uma nova espécie de eucalipto, o eucalyptus belenensis, que rivaliza com as outras seiscentas espécies, sendo a predominante o eucalyptus globulus. Apesar da chegada tardia desta nova espécie, o certo é que refinou as características de todas as outras; numa visão darwiniana dir-se-á que concentrou em si todas as capacidades de se impor seja qual for o tipo de solo.

Em Belém, constava que os solos do palácio eram dados a outro tipo de árvores mais circunspectas e territorialmente circunscritas ao próprio palácio e arredores. A grande novidade com o aparecimento do eucalyptus belenensis é que deu origem a uma reviravolta no ambiente lisboeta e nacional.

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Mona Lisa Abandonada e Trocada

Um estudo recente publicado pelo International Journal of Mental Health and Addiction considerou que há casos de adição nas pessoas que já não conseguem viver sem tirar selfies todos os dias; um outro estudo, conduzido pela universidade de Nottingham Trent do Reino Unido e a Thiaggar School of Management da Índia, deu conta do grau de adição que pode conduzir à morte, pelo facto desses dependentes quererem obter selfies a todo o custo – na borda de uma janela, ao pé de um precipício, a atravessar uma rua sem ter em conta os carros…

O estudo dá a conhecer o número de mortes, passando a designar esta perturbação mental como selfitis.

Estes elementos fizeram bater nas portas da memória um episódio ocorrido, em setembro passado, no museu do Louvre, em Paris, na sala onde está exposta a pintura de Leonardo da Vinci, a célebre Mona Lisa.

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Raríssimas. Frequentíssimas. Tecnoforma.

O que sucedeu na Raríssimas, a promiscuidade entre poder político e as instituições ligadas ao sector da economia social, infelizmente não é raro; é a expressão de uma doença grave que afeta a sociedade e instituições da República.

O novo regime criou condições para que os partidos da governança se apropriem através da sua militância e de clientelas de posições nos vários aparelhos do poder central, regional, local e se promovam em instituições que prosperam com subsídios governamentais, apoderando-se, nalguns casos, de bens que são da comunidade.

Além disso, os subsídios provenientes da CEE e agora União Europeia são também objeto de predadores especializados em abocanhá-los e fazerem-nos seus, montantes cujo fim era servirem projetos de desenvolvimento do país.

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Do Mundo do Alandroal ao Resto do Mundo

DOMINGOS LOPES, Contos e Crónicas do Alandroal e do Resto do Mundo, Âncora Editora, 2017

 

Do mundo do Alandroal ao resto do mundo

Paulo Sucena

 

Acabada a leitura de Contos e Crónicas do Alandroal e do Resto do Mundo, de Domingos Lopes, cuja obra anterior conheço bem, surgiram-me, de imediato, várias ideias. A primeira foi a de considerar distintas as duas partes do livro e considerar a primeira como composta de contos e a segunda de crónicas não só pelas diferenças dos discursos mas também porque as suas instâncias produtoras se distinguem claramente uma da outra. O narrador dos contos desenvolve uma sintagmática narrativa que pretende dar-nos a conhecer pormenores que dão sentido à intriga e simultaneamente mostrar-nos a realidade humana e social de terras à beira-Guadiana, situadas no concelho do Alandroal. O narrador das crónicas não pretende mostrar, aspira a questionar, umas vezes, e a reflectir noutras. No seu livro de estreia Manuel Alegre disse que “com mãos tudo se faz e se desfaz”. Nas crónicas de Domingos Lopes está subjacente a afirmação de que com o pensamento tudo se constrói.

Regressemos aos contos. Creio que muitos dos seus leitores e leitoras confessaram a pessoas amigas que os leram de enfiada, porventura porque para além do prazer da história há o prazer do discurso como diz algures Maria Alzira Seixo. Usando palavras de António Borges Coelho, diria que Domingos Lopes escreve ao rés da fala. Sem dalmática questiona, mais nas crónicas, evidentemente. Não segue o cânone. Persegue o rigor e o prazer da palavra. Com certeza que também por tudo isto os contos de Domingos Lopes exercem uma vera atracção sobre os leitores.

São histórias protagonizadas por gente das camadas sociais mais pobres (a maioria dos actores) acompanhada de outra provinda de estratos remediados e de um outro lavrador rico, habitantes de uma comunidade com suas grandezas e misérias, crenças e mitos, passividades e rebeldias, generosidades e mesquinhezes. À maneira de Flaubert, Domingos Lopes indaga e mostra os interstícios do quotidiano colectivo e pessoal de personagens controversas sem omitir o que de irracional há por vezes no comportamento humano nem quanto o sonho se pode sobrepor a uma realidade adversa. Este último aspecto levou-me em alguns momentos da leitura desta obra às cercanias do grande objecivo dos surrealistas de imbricar sonho e realidade.

Porém, o que motiva verdadeiramente o narrador é o mundo concreto da vida a Lebenswelt que preocupava Edmund Husserl nos meados da década de 30 do século passado. Neste livro de Domingos Lopes é o mundo dos deserdados, dos excluídos, do que insensivelmente transpõem o silêncio e solidão das planuras e das chapadas alentejanas para a bacidão das suas almas, que capta a atenção do narrador de tal modo que ouso dizer que a instância produtora destes contos tem raízes naqueles homens que afogavam em vinho o fardo de viver, por vezes tão pesado que os suicídios marcam a sua presença. O narrador sabe tudo deles, tanto que os contos se revestem frequentemente de um pendor antropológico, quando, por exemplo, na toalha do texto são colocados os lambiscos mais apreciados pelas personagens –tubarões na frigideira, tordos fritos, gaspacho, bacalhau frito (quando as bolsas andavam mais abonadas), caldetas do Guadiana, linguiças e queijos secos, arroz de lebre – ou põe no discurso abundantes copos de tinto ou de branco da Vidigueira.

Tudo isto contado sob o sopro da linguagem dos protagonistas por um narrador que dela se aproxima porventura por respeitar o pensamento do fenomenólogo alemão que afirmava que a linguagem é a morada do ser. Deste modo, considero que Domingos Lopes também pretendeu dar-nos uma visão ontológica das personagens. A tematização das diversas linhas de sentido geradas por estes contos leva-nos às gentes do Alandroal, região onde decorrem as histórias passadas em tempo da ditadura, de um modo tal que aquele pedaço do Alentejo nos surge como uma sinédoque, no seu eixo semântico mais significativo, de um verso de “Praça da Canção”, de Manuel Alegre: Minha pátria perfil de mágoas e tabernas.

Sendo fácil construir uma isotopia da “mágoa” neste conjunto de contos, vou dispensar-me disso assinalando, no entanto, o conto “Pedras de Água”, que dessa isotopia faria parte, tendo em conta, em primeiro lugar, a sua construção inusitada entregue a dois narradores diferentes. Um primeiro narrador assume o discurso dizendo “a carrinha Bedford avança avassaladora rumo ao Alandroal indiferente ao calor seco e espesso”, colocando o leitor perante uma narrativa de primeiro grau; um segundo narrador é responsável por uma narrativa de segundo grau encaixada na primeira. Sob este ponto de vista, topamos com um conto singular dentro do conjunto de contos deste livro, na medida em que a responsabilidade do discurso é repartida por um narrador extradiegético, produtor da narrativa de primeiro grau, e por um narrador intradiegético, um dos ocupantes da carrinha, nascido da instância narrativa de primeiro grau, e que vem a ser o responsável pela história que verdadeiramente se quer contar. Em segundo lugar, porque a história contada pelo narrador intradiegético, a da separação de uma criança do seu pai, adquire no discurso um tom acentuadamente pungente em que a pouco e pouco a fala do narrador vai gerando, à medida que a sua mágoa se acentua, um clima que nos comove pela intensa e pura humanização das relações intersubjectivas. Quanto mais pesado é o sofrimento do narrador mais humano o seu perfil nos surge.

O registo confessional deste conto percorre outros, seja o narrador homodiegético, isto é, participante na história, seja heterodiegético, isto é, ausente da história. Nos contos em que o narrador é heterodiegético, que são a maioria, a presença do narrador faz-se todavia notar no plano do discurso através de opiniões, comentários ou apreciações judicativas. Aliás, não considero, como às vezes leio, que haja narrativas na terceira pessoa, antes acompanho Gérard Genette que considera inadequada aquela formulação porque coloca “O acento da variação no elemento de facto invariante da situação narrativa, isto é, a presença, explícita ou implícita, da «pessoa» do narrador que não pode estar na sua narrativa, (…), senão na «primeira pessoa».” E é assim que o vemos, nos mais de vinte contos do livro, a manifestar-se a latere de uma forma ora discreta ora solidária, ora benevolente ora cruel, ora impiedosa ora tolerante, muitas vezes irónica.

Uma outra particularidade gostaria ainda de ressaltar nos contos de Domingos Lopes, o de eles “dispensarem” os heróis, dando assim razão a Boris Tomachevski que defende que “o herói não é de modo nenhum necessário à história. A história como sistema de motivos pode inteiramente dispensar o herói e os seus traços característicos”. Na verdade, mesmo quando personagens como Zé Inácio, do conto “A Greve”, ou João Comprido, do conto “A viagem do Comprido ao mundo dos sorvetes”, se afirmam pelo seu carácter, valentia e determinação o certo é que a sua acção ao longo da narrativa não se compagina com “os traços característicos” do herói. E não podia acontecer de outro modo num livro que, como atrás dissemos, do que trata é de anti-heróis, personagens das camadas populares cujo “heroísmo“é o de resistirem acriticamente a uma vida do quase nada.

É nestes cenários de desencanto e desespero, de angústia e alienação que se recorta, numa relação extravagante a eles, o perfil do coronel Austiclínio, Clínio para os íntimos, casado com Clélia. É uma das personagens mais bem conseguidas destes contos. Um narrador cruel só nos informa daquilo que pode apoucar ou cobrir de ridículo a figura do militar, homem glutão, submisso a Clélia que lhe dava reguadas quando se sujava ou se sentava à mesa sem maneiras, de raciocínio primário e linguagem quadrada, aprendida na cadeia militar de comando (a instituição militar também não fica bem no retrato), mas que tratava os seus subordinados com grande arrogância como aconteceu quando foi a Elvas fazer uma inspecção ao campo da carreira militar de tiro e tratou o sargento Varandim com uma insuportável petulância, ou rópia se preferirem a palavra do autor, que se não tinha intelectualmente em que se sustentar, fisicamente também não porque o coronel tinha uns pezinhos que calçavam sapatos 38. Deixo apenas uma amostra da maneira sábia como Domingos Lopes foi doseando o sarcasmo ao longo do conto.

Apresentados alguns dos aspectos que considero mais relevantes nestes contos, é o momento de olharmos as crónicas do resto do mundo ainda que só de relance. É curioso notar que, deixados de lado os pormenores da sintagmática narrativa dos dois textos que iniciam cada uma das partes do livro de Domingos Lopes – “Ai o que o cabrão do Cuco me fez!” e a “A Puta de Georgetown” (a crónica mais próxima da literariedade da ficção) – o que sobressai desses textos é a manifestação do egoísmo mesquinho do patrão do Cuco, indiferente ao suicídio do pobre homem e apenas preocupado com a carga de trabalho que lhe iria dar a existência de um cadáver preso na traseira do seu tractor. O egoísmo demonstrado por um ricaço grego, uma das personagens da crónica de Georgetown, é mais sórdido porque mais cínico e requintado. Essa poderosa figura, depois de ter passado a noite com a jovem prostituta negra, deixou de defender o seu direito a frequentar o hotel, como fizera na véspera, e apressou-se a dar-lhe uma nota para a ver rapidamente fora do local onde queria tomar o pequeno almoço sossegadamente. O narrador, que nunca se distrai com os mais fracos, informa-nos que a prostituta negra recebeu a nota de dez dólares, olhou os circunstantes, pôs o dinheiro em cima da mesa e saiu. Ficou no ar o ruído de uns “saltos altos a martelar a rua”. E nesse ruido, acrescento eu, flutuava um assomo de dignidade humana contra a vilania.

A esta primeira crónica seguem-se mais treze, nascida de viagens de Domingos Lopes ao Chile, à Jordânia, ao Nepal, à Síria, à Birmânia, a Malaca, a Singapura (só os portugueses chamariam pura a esta cidade!) e a Aracataca, terra natal de Gabriel Garcia Márquez que de algum modo inspira o autor quando escreve textos impregnados de um realismo fantástico. Gostaria ainda de acrescentar que na crónica “Macondo, aliás Aracataca”, o cronista entretece um jogo subtil entre a realidade empírica, Aracataca, e Macondo a realidade textual criada em “Cem anos de solidão”. Esta é uma crónica de que gosto particularmente, porque nela Domingos Lopes afirma o incomensurável poder da palavra – o de produzir uma realidade tão viva quanto o real e até por vezes, fundamentalmente na grande arte, mais brilhante e intensa do que a própria realidade recriada.

Numa visão global as crónicas do Resto do Mundo oferecem-nos um diversificado conjunto de reflexões sobre a morte e a efemeridade da vida, a materialidade e a espiritualidade dos humanos, a relação dos homens com os deuses e o papel de Portugal na história da humanidade. Esta última temática é exemplarmente abordada na crónica “O Sudeste Asiático” em que vêm à tona as marcas deixadas por Portugal no oriente, o apelo a que Portugal seja fiel à sua raiz universalista e cuide do ensino da nossa língua naquelas paragens, e, finalmente, que recuse o afunilamento das relações externas porque ele “nos faz mais pequenos e frágeis face aos Schäuble e às Merkeles e aos burocratas desta Europa sem alma”.

Eis o laço que cinge, ora de um modo ora de outro, estes contos e crónicas, a denúncia de um mundo sem alma e de um tempo em que os poderes tentam apagar o mundo concreto da vida (o Lebenswelt husserliano) ou, diria a finalizar, com palavras de Heidegger, discípulo do fenomenólogo alemão, um tempo em que as políticas promovem cinicamente “o esquecimento do ser”.

Creio que o valor primeiro destes contos e crónicas é o de, mesmo nos climas mais disfóricos gerados por uma progressiva degradação da vida das personagens, pretender mostrar e implicitamente condenar essas situações o que nos permite inferir que é imperioso defender sempre a dignidade dos humanos, recusando que o desenvolvimento científico, técnico e tecnológico os transforme em números, antes contribua para a afirmação cada vez mais plena do ser do homem.

 

A Inveja que Cega

A inveja é um dos sete pecados mortais, segundo os ensinamentos cristãos. E, sem dúvida, independentemente das religiões, uma grande fraqueza humana. Os portugueses são atreitos a essa doença. José Gil escreveu um livro sobre esta matéria que merece ser lido.
Entretanto novas descobertas científicas vieram dar conta que certo tipo de cegueiras resulta da inveja.
Corria o ano da boa graça de 1987 e o mundo tinha duas Alemanhas e não apenas uma.
O FCPorto liderado pelo poeta e doutor de Letras ,Artur Jorge, matulão da República Ninho dos Matulões, em Viena corrompeu os bávaros teutões marcando dois e sofrendo um.
Os que viram e não os que apenas olharam, assistiram, para além da arte de tocar na bola, à vingança suprema de Madjer sobre Heitor , o herói que conhecia a vulnerabilidade de Aquiles.
Aquele toque de calcanhar era mais que um sopro de oboé; era a vitória da arte sobre a burocracia.
Era ainda a afirmação de que os portugueses podiam continuar a dar ao mundo novos mundos: Juary, Madjer, e o Futre , aquele a quem a bola nasceu pegada ao pé esquerdo.
Viena tão perto de Munique não se vergou aos alemães. Os portugueses podiam orgulhar-se do clube da mui nobre e sempre invicta cidade.
No longínquo Japão para onde levamos armas e a fé que não foi suficiente, chegou a hora de afirmar ao mundo que não era o Penharol, mesmo sobre gelo, que vencia o FCP.
No ano de 2003 quando Átila chegou à Luz e escorraçou Mourinho como parte do plano para aniquilar o FCP, Mourinho mostrou a valia do FCP na Europa e ganhou ao Celtic a Taça UEFA.
Para quem gosta de futebol é Príncipe quem sabe jogar e não apenas por se ser de uma coisa verdadeiramente anacrónica no século XXI que é um Principado do Mónaco. Em Gelsenkirchen o Mónaco regressou como um plebeu e não como nobre. Carlos Alberto pintou a manta e reafirmou o valor do multiculturalismo.
O verdadeiro príncipe do Mónaco é o madeirense Leonardo Jardim.
Vilas Boas em Dublin disse a Domingos Paciência que treinava o Braga- Tem calma – na cidade de Joyce o melhor é escrever no céu o golo da vitória, como só Falcão é capaz. Quem nasceu para voar abre as asas.
Assim se passaram as coisas que não há muito tempo aconteceram. Coisas lindas de se verem.
Terrível, demasiado terrível para os que não veem o que se viu claramente visto. É a inveja, o quinto pecado capital