Abençoados aumentos dos lucros e amaldiçoados aumentos dos salários

O que está a passar em Portugal a propósito das greves dá que meditar. O que pedem os grevistas? Em geral aumentos e maior dignificação no seu trabalho.
Como se sabe os salários estiveram congelados desde Sócrates até à chegada do governo de António Costa com apoio parlamentar do PCP, BE, PEV, e PAN. Congelada esteve também a progressão na carreira nalgumas profissões do sector público. Também, por isso, os sindicatos reclamam aumentos. São estes profissionais que são obrigados a enveredar por formas de luta extremas.
Em contraste, repare-se que o anúncio trimestral / semestral dos aumentos dos lucros dos bancos é apresentado como um facto quase sublime. Quanto maiores forem os aumentos dos lucros maior é a bênção. Centenas de milhões de euros de lucros são impactantes. A pompa da circunstância faz esquecer tudo, o que vale é grandeza dos aumentos dos lucros, os quais assentam, muitas vezes, em despedimentos, cortes salariais, comissões e mais comissões para quem deposita os seus rendimentos…
Há, nesta nossa fase da vida social, uma espécie de um critério dúplice que serve para castigar os de baixo e para glorificar os de cima. O PSD através de alguns dos seus dirigentes reaparecem a defender a austeridade e a continuação do empobrecimento.
Um polícia que não tem rendimento para alugar um quarto em Lisboa ou no Porto dorme no carro não pode reclamar aumentos para não complicar as imposições de Bruxelas.
Os trabalhadores (sem os quais não haveria aumento de lucros) são uns ingratos por não aceitarem aumentos na casa dos 80 cêntimos diários; ou reclamarem trinta e cinco horas; ou quererem progredir na carreira; ou que o tempo que trabalharam conte (como não pode deixar de ser) para a reforma; ou como os estivadores não quererem trabalhar jorna, como há setenta anos…
Os que fazem greve são antipatriotas, mas os grandes patrões que ameaçam deslocalizarem as fábricas são patriotas…
Os cortes no SNS que levaram para fora do país enfermeiros e médicos, quantos portugueses mataram? Como se fazem essas contas? O desinvestimento no SNS quantos cidadãos mata?
A direita aplaude porque quanto maior for o desinvestimento no SNS mais avança a privatização dos serviços de saúde…
Quem está disponível para esperar trinta minutos ou mais ao telefone para que o atendam para tratar da marcação de uma consulta no Hospital de Santa Maria para informar que não pode ir àquela consulta naquela data?… e assim dar a vez a outro.
Se o aumento de um euro por dia desestabiliza a economia, por que motivo as centenas de milhões de lucros para os quais contribuíram a força de trabalho empregada não deve ser taxada de modo a que na redistribuição dos rendimentos a sociedade no seu conjunto possa beneficiar de melhores serviços? Se um euro é uma espécie de enormidade, por que motivo a ameaça de fugir com os lucros para outros países não é uma pressão gigantesca?
Os que mais se insurgem contra os que reclamam aumentos salariais são exatamente aqueles que na sua vertigem pelo lucro deixaram o país e a Europa numa crise profunda. Aliás são os de baixo que estão a pagar o destrambelho dos banqueiros.
Os bancos que se vangloriam dos aumentos dos seus lucros e pagam a preço de oiro os seus gestores são os mesmos que agitam espantalhos e demónios contra os seus empregados que pretendem, por via do seu contributo, ver aumentados os seus vencimentos, num país em que um quarto da população vive em pobreza.
Parece que a crise provocada pelos banqueiros e pelo sistema financeiro, incluindo por aqueles que garantiram que o BES, BPN, BP estavam firmes, são patriotas e beneméritos como comprovam as suas condecorações, e os de baixo, esmifrados pelas medidas anticrise, são o demónio.
Reclamar mais uns tantos euros por mês para que antes do dia vinte de cada mês não falte salário devia ser reconhecido como perfeitamente natural e humano.
É verdade que este governo parou o empobrecimento desvairado de Passos Coelho… Quantas mortes não terão acontecido em Portugal devido a essa austeridade como castigo dos portugueses, obrigando-os a entregar aos bancos mais de vinte mil milhões de euros… O que se podia fazer com esse montante?
Há os de cima e os de baixo. Os de cima podem ter lucros fabulosos, os de baixo têm de suportar esses lucros fabulosos…e amouchar. Só que os de cima são mesmo poucos, os de baixo são quase todos.

Entre a vida e a morte – Paulo Sucena a propósito do romance de Domingos Lopes – Nas margens do medo

Domingos Lopes, Nas Margens do Medo, Âncora Editora, 2018

Entre a Vida e a Morte

Paulo Sucena

Considero legítimo qualificar Nas Margens Do Medo como um romance rural, tendo em conta o contexto em que decorre, uma aldeia alentejana, Capelins, situada perto do Guadiana, num tempo que se estende pelos finais da década de 1930 até um ano que o narrador não revela mas que o discurso permite situar, no mínimo, nos finais da década de 1940, abordando uma temática que essencialmente se prende com a situação de fome e de trabalho precário e mal remunerado dos trabalhadores rurais do concelho de Alandroal. É a partir deste tópico que a narrativa se vai estruturar e enriquecer nos seus diversos segmentos de que avultam as jornadas do contrabando.
A ascendência deste romance não provém tanto de Júlio Dinis em que os/as protagonistas estão acima da comunidade rural pela sua origem familiar, pela sua cultura e riqueza de linguagem, mas mais de Fialho de Almeida e do modo como o excelente contista aborda a violência do trabalho dos ceifeiros alentejanos. De Aquilino Ribeiro herdou o narrador a atenção e cuidado que dispensa à expressão da fala das personagens de Nas Margens Do Medo, desde o vocabulário à organização morfo-sintáctica das frases, distanciando-se, todavia, de Aquilino quando, em vez de se colocar num nível superior de linguagem, aproxima o seu discurso do das personagens com o intuito de tornar mais coesa e fluente a matéria que pretende comunicar.
Essa comunicação faz-se deliberadamente sem sinais ou símbolos de natureza ideológica. O romance não está estruturado em função de uma progressiva tomada de consciência da classe trabalhadora conducente a uma revolta, colectivamente organizada, contra as forças opressoras. Nem tão pouco, Nas Margens Do Medo, ao contrário da corrente neo-realista, é construído sob a influência do pensamento marxista nem as suas páginas são percorridas por um sopro lírico capaz de abrir janelas de esperança para um horizonte onde já se divisassem dias felizes. Pelo contrário, a história e as personagens não rompem a desolação de uma aldeia parada num tempo parado, como era, aliás, a esmagadora maioria do Portugal rural daquela época. As inquietações e a turbulência dos actores não saem das fronteiras de suas mentes conservadoras que só vemos verdadeiramente indignarem-se e barafustarem perante um caso insólito que alguém descobriu e rapidamente difundiu: a vida em concubinato de Lurdes e Manolo que meia dúzia de anos antes um contrabandista português encontrou em Olivença, era ele ainda um rapazote, sem pai nem mãe, assassinados pelas tropas de Franco, e trouxe para Capelins onde no dia da chegada foi “adoptado” por aquela jovem de vinte anos, dona de uma venda que herdara dos pais.
Esta é a situação nuclear da qual o romance arranca num tempo em que a Espanha Republicana era sacudida pela brutalidade de uma guerra civil e em Portugal se vivia sob uma ditadura feroz cujo sinal de maior desumanidade e violência provinha do Campo de Concentração do Tarrafal, cemitério de dezenas de democratas deixados morrer sem assistência médica e sem dó nem piedade. Acabei há pouco de escrever uma das palavras que melhor definem esta narrativa, violência. Na verdade, a violência percorre intensamente esta obra de Domingos Lopes. Violência da guerra; violência do regime salazarista; violência da GNR, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e violência da PIDE; violência dos senhores da terra; violência doméstica; violência da fome e do desemprego; violência do trabalho nos campos e nas pedreiras; violência do sol e da chuva; violência da vida de contrabandista. É neste contexto profundamente disfórico que se movimentam as personagens de Nas Margens Do Medo, cuja acção se confina a parâmetros fortemente individualistas, com uma ou outra excepção. Seja a revolta dos ceifeiros que Zé Inácio protagonizou e que a pouco e pouco e de forma avulsa vai ganhando a adesão dos companheiros que reivindicavam condições de trabalho menos penosas. Seja a mobilização de toda a gente para combater um fogo que ameaçava a casa do Felisberto, sujeito que gozava de pouca simpatia na aldeia. Seja, na parte final do romance, a greve dos ceifeiros que desencadeou uma onde de forte repressão e várias prisões e fugas dos grevistas.
Não é, portanto, este um romance em que os trabalhadores protagonizam uma gesta colectiva, antes, pelo contrário, estamos perante uma história cujas unidades narrativas se circunscrevem a acontecimentos que se iniciam e terminam na esfera de acção das personagens, apresentando-se assim o romance como um mosaico de “experiências vividas”, usando palavras de Edmund Husserl, ou, se preferirem uma expressão mais tardia do filósofo alemão, como o mundo da vida (Lebenswelt) que sublinha melhor o carácter unitário e sintético do romance como uma totalidade.
Dessas experiências vividas destacam-se as de Lurdes e Manolo pelo peso psicológico e social que sobre ambos a sociedade fez pender e também a de João Comprido, oriundo de uma família muito pobre em que o pai alcoólico batia frequentemente na mulher até que o filho lhe fez frente e ele o expulsou de casa, lançando-o numa vida de extrema precariedade até ao dia em que Manolo o contrata e posteriormente convida para fazer par com ele na prática do contrabando.
Tendo em conta que o contrabando é um dos eixos fundamentais da história é necessário ressaltar o papel de Zé Fino que um dia traz dois miúdos, filhos de pais comunistas assassinados, para esconder em Portugal e que a GNR prendeu e torturou barbaramente num posto do Alandroal sem que Fino tivesse confessado o acto de que era acusado. E também a relevância do trabalho de Manuel Perleques que do seu moinho prestava auxílio aos homens do contrabando.
Acima destes ergue-se a figura de Cobra, o maestro de toda aquela actividade ilegal, que nos surge como um personagem destinador da vida e da morte. É ele que subtrai Manolo aos horrores da Guerra Civil e o traz para Portugal e para uma vida feliz ainda que mais tarde arriscada e percorrida, em alguns momentos, por uma soturna melancolia. É ele que ao confiar Manolo a Lurdes transforma os dias pardacentos que ela vivia em dias luminosos cujo acme é a concretização, anos mais tarde, de um secreto e sofrido amor por Manolo que nela foi crescendo quando o “filho adotivo” atingiu a juventude. Mas é o Cobra que também destina Manolo à morte ao pedir-lhe para passar para Espanha alguns portugueses fugidos à repressão da ditadura, sendo portanto ele que, indiretamente, leva Lurdes ao suicídio.
Será oportuno lembrar que como contraponto à disforia que perpassa pelas páginas deste romance apenas nos surgem alguns, poucos, momentos de euforia. Aqueles em que os intervenientes gozam os sabores de comedorias dignas do arroz de favas queirosiano e os que os fregueses da taberna da Lurdes desfrutavam nos quentes convívios em que o vinho oferecia aos bebedores tarde jubilosas. O vinho tem, aliás, uma presença quase tão constante como nos poemas de Omar Khayyam, ganhando mesmo um tonalidade, de alguma modo, evangélica. Cito Frei Bento Domingues:”Nas Bodas de Caná, a transformação de água em vinho é considerada o primeiro signo da novidade absoluta do Novo Testamento: Cristo surge como aquele que não pode com a tristeza do mundo. Mesmo nas situações mais desesperadas é preciso tudo fazer para que haja uma embriaguez de alegria.”
Direi, a terminar, que não sendo este um romance de teor revolucionário dele transcorre, de um modo implícito, a condenação da exploração dos trabalhadores, a opressão política, a violência das forças repressivas e ainda nele encontramos gente, no cairel do medo, a levantar-se do chão. Confesso que no fim da sua leitura me ficou a ressoar sob os olhos uma toada de amor e de morte, por isso algo me diz que nas margens do Guadiana se ouve o choro inúmero das águas lamentando a morte de dois amantes.

02/12/2018

Os 70 anos da Declaração Universal dos Direitos Humanos

A Declaração Universal dos Direitos do Homem é um marco na longa marcha da Humanidade em direção a um mundo melhor. Consagra direitos como tendo caráter universal, o que equivale a dizer que os direitos que constam na Declaração aplicam-se em todo o lado, não são para serem exercidos em função de fronteiras. É, pois, uma nova Magna Carta que abraça a Humanidade.
A Declaração resulta, por um lado, dos ensinamentos retirados da barbaridade da guerra mundial levada acabo pelo nazi-fascismo, e, por outro lado, constitui uma aspiração de toda a Humanidade, que vem do fundo dos tempos, à liberdade, à democracia, ao progresso social, à paz e à segurança.
Emanando da Assembleia-Geral da ONU a sua aplicação/cumprimento depende sempre da boa vontade dos Estados e da capacidade dos cidadãos se mobilizarem para defender os direitos aí consagrados.
Hoje nenhum Estado às claras coloca em causa a Declaração, o que mostra o seu impacto dentro da comunidade internacional. O que não significa que não haja Estados que violem grosseiramente algumas normas, impedindo o exercício do direito de criar associações ou partidos políticos, o livre exercício da religião ou a liberdade de não praticar qualquer religião, o direito de sair ou regressar ao país de origem; não impedindo situações de verdadeira servidão; não impedindo discriminação religiosas, chegando mesmo a incentivá-las; não impedindo prisões arbitrárias, antes praticando-as; impedindo o livre exercício do direito de expressão e reunião livre sem quaisquer constrangimentos.
As forças mundiais dominantes têm como objetivo desmantelar direitos. Enquanto há setenta anos o mundo movimentava-se para afirmar o primado de um conjunto de direitos que fazem parte da Declaração, hoje o que se anuncia é a existência de direitos a mais, sendo necessário restringi-los, fazendo-os regredir não se sabendo até onde.
Vale a pena recuar no tempo até à revolução francesa de 1789 de onde surgiu pela primeira a ideia. A Declaração dos Direitos da Homem e do Cidadão, em plena revolução francesa, adotada pela Assembleia Constituinte em 20, 21, 23, 24 e 26 de agosto de 1789 é constituída por 17 artigos que incidem sobretudo sobre o conjunto dos direitos e liberdades individuais; não há praticamente direitos de caráter social.
Essa Declaração tem como principal objetivo dar corpo às aspirações da burguesia triunfante, enterrando o ancien régime monarca/feudal em que a nobreza detinha um conjunto de privilégios que já não faziam sentido face à evolução do processo produtivo e das relações sociais, de onde emergia o peso da burguesia triunfante.
Esta nova classe necessitava da liberdade de se poder consolidar e aprofundar no domínio das relações da produção; não aceitava as prerrogativas atribuídas à nobreza e daí a aprovação da Declaração.
Os cento e quarenta e nove anos que medeiam entre a aprovação da Declaração dos Direitos do Homem na revolução francesa e a Declaração Universal dos Direitos Humanos na Assembleia-Geral da ONU dão conta dos avanços de um texto para o outro.
Enquanto no primeiro a ênfase era colocada nos direitos individuais, no segundo mantêm-se esses direitos, mas aparecem já todo um conjunto de direitos novos que se pretendem universalizar.
Estão neste caso os direitos ao ensino e à educação, ao emprego, à saúde, à habitação.
Entretanto, à medida que a globalização se tornou dominante e o sistema financeiro cercou o mundo, as questões em torno dos direitos humanos assumiram crescente relevo na cena internacional.
Foram explorados até à náusea na questão do direito de ingerência que permitiria a um conjunto de países agrupados na NATO intervir em certas situações e segundo determinadas conveniências.
Como se sabe esteve muitas vezes em cima da mesa a opção de intervenção militar para impedir a violação de direitos humanos, sobretudo durante o consulado de George W. Bush (filho) que ameaçou os países do chamado “eixo do mal” ou países párias.
Todos recordarão a vergonhosa intervenção militar capitaneada pelos EUA no Iraque que levou à destruição do país, sendo que assentou numa cruel mentira e quando desmascarada Bush e Condoleza Rice logo agulharam que estavam a defender os direitos humanos naquele país.
Com o novo ciclo politico aberto com Donald Trump na presidência dos EUA, este enfoque parece ter mudado radicalmente. Trump diz colocar a América “first”. Como todos os líderes das potências em declínio, faz da reafirmação da grandeza da América, leia-se E.U.A., um objetivo capaz de dar resposta à crise que o país vive, sobretudo em setores profundamente afetados pela crise industrial e agrícola.
O retorno ao grande país dos sonhos é contraditoriamente martelado por Trump pela demagógica campanha em defesa dos americanos e em detrimento e até da repressão dura aos emigrantes, como se não fosse, ele mesmo, filho de emigrante. É como se a América não fosse um país de emigrantes que arrasaram praticamente os nativos.
Com Trump, os EUA fecham-se ao mundo numa visão nacionalista fundamentalista em que o que conta é América; tudo o resto são ameaças a essa grandeza.
Para tanto Trump escolheu parceiros como Netanyahu de Israel deslocando a embaixada para Jerusalém, e o príncipe Mohammed Bin Salman, o carniceiro de Khashoggi, declarando um relacionamento à prova daquele monstruoso crime com a Arábia Saudita.
O confronto do nacionalismo exacerbado com o multilateralismo, ou seja, o confronto entre os interesses egoístas de um Estado com os interesses multilaterais e globais de todos os Estados que constituem a comunidade internacional, está hoje em pleno na atualidade internacional. Mesmo quando alguns, no plano interno, se servem do nacionalismo e, no plano externo, defendem o multilateralismo, talvez quiçá por tática.
Concomitantemente a nível global prossegue a política de austeridade impondo sacrifícios aos de baixo e grandes benefícios a uma minoria. É contra este estado de coisas que a revolta tomou conta das ruas de França.
É este o mundo que vivemos. Um mundo em que as duzentas e vinte cinco maiores fortunas somam um total de mais de um bilião de dólares, o que equivale aproximadamente aos rendimentos anuais de dois mil e quinhentos milhões de pessoas mais pobres do mundo e que representam cerca de 42% da população mundial.
A seca deste ano no Afeganistão é tão dura que as famílias vendem os filhos para minguar a fome.
Os direitos humanos tal como estão plasmados na Declaração são uma aspiração longínqua para centenas de milhões de homens e mulheres.
Estes setenta anos corresponderam a grandes avanços, mas à nossa frente perfilam-se desafios gigantescos.
O primeiro é impedir que as forças retrógradas destruam estes direitos conquistados
O segundo é impedir que os fanáticos do império da força conduzam o mundo para uma terceira guerra mundial. A paz é o direito dos direitos, o supremo direito a viver.
O terceiro é erradicar a pobreza extrema que impede que mais de metade da Humanidade possa ter uma vida com o mínimo de dignidade.
A quarta é diminuir as desigualdades que levam a que uma ínfima minoria de pessoas tenham mais rendimentos que cinquenta por cento da Humanidade.
O quinto é dar força ao direito internacional e às Nações Unidas impedindo que os conflitos saiam desse quadro como pretendem as potências mais fortes.
Muitos outros desafios haverá. A conciliação entre os direitos e as liberdades individuais e os direitos sociais, económicos, culturais ambientais é o caminho para o mundo melhor e mais humano.
*ADVOGADO

O gau de rancor de Balsonaro raia a paranoia

Bolsonaro manifestou a vontade de mudar Lula do estabelecimento prisional onde se encontra para outro pertencente aos militares a fim de impedir que tenha tantas visitas.
As visitas aos presos em qualquer país democrático do mundo dependem dos Regulamentos que as regem e nunca dos humores ou rancores de um Presidente.
Em nenhuma circunstância um Presidente se pode substituir ao juiz de execução de penas, a única entidade com poderes para tratar da situação interna e global dos presos. É o que se designa num regime democrático de separação de poderes, como bem deve saber o ex-juiz, atual Ministro Sergio Moro.
As declarações de Balsonaro sempre assustaram e de Balsonaro Presidente seguem o mesmo trilho.
Esta sobre a mudança do estabelecimento prisional de Lula mostram o grau de rancor e ódio a Lula que raia a paranoia. E a pressão sobre o poder judicial tentando amalgamar todos os poderes num único – o poder ditatorial de Balsonaro, escolhendo a seu gosto o estabelecimento prisional para Lula. Se passar este despautério, na esteira dos seus velhos tempos de capitão da ditadura, mandará cortar a água e os recreios ao ex-Presidente…
Onde estão os juízes brasileiros? E os advogados? E os procuradores? face ao novo Nero…Ai Brasil, Brasil…

A iliteracia benfiquista

O SLB tem diversos e graves problemas com a justiça, incluindo o seu Presidente. Esta é uma verdade inatacável. Lendo o que diz Moniz parece ter outros.
Porém, o grande problema de momento (antes da decisão instrutória a ser tomada pela juiz Ana Peres) é o Futebol Clube do Porto que está a jogar dentro e fora do país um futebol de excelência.
O SLB como joga mal e fica eufórico quando ganha ao Feirense. Fica verde de raiva com o futebol praticado pelo Porto, e o seu gabinete de crise inventa casos para segurar as rédeas de uma casa a abanar.
Tão esverdeados ficam que deixam de saber ler, aliás toda a nação benfiquista espalhada pelos canais televisivos e jornais vários. Sérgio Conceição foi expulso pelo árbitro do Boavista/Porto por se ter virado para o banco do Boavista e ter proferido duas vezes …”Tomem caralho…”Foi por isto e não por outro motivo. Ora o art. 140 do Regulamento disciplinar impõe apenas a suspensão de um jogo a quem for punido por acumular cada série de três condenações pelo mesmo ilícito. Basta saber ler para perceber que esta poeirada vermelha visa esconder a pobreza do futebol do Benfica e o resto que não é pouco.
Toda agente viu a batalha do Boavista, a dureza a roçar a violência dos panteras, mas isso dava jeito ao Benfica para ganhar dois pontos e a verdade é só esta: o jogo só acaba quando o árbitro o dá por terminado, como no Benfica/Arouca.

A luz de Vieira é igual à da raposa que não chegava às uvas – verde

Vieira, já se sabia, é dado a visões. A última foi ver o penta fugir-lhe às mãos, perdão, aos pés de um mexicano, de seu nome Hector Herrera. Anos antes teve uma visão da qual ainda hoje sofre efeitos devastadores, a fuga de Jesus para o outro lado da fronteira explosiva da segunda circular.
Ao que se viu e leu só faltou puxar o gatilho, tantos foram os processos em tribunal com muitos milhões de indemnização, dado que Vieira também, nessa altura, disse ter visto Jesus levar-lhe computadores com os métodos de treino vigentes no Seixal e que eram do SLB.
Foi uma visão que durou pouco tempo, pois para Vieira o que está à frente é o que conta e, ainda sem gabinete de crise, restabeleceu a amizade com um dos homens que o traiu daquele modo tão cruel.
No fundo, a luz de Vieira era esperar pelo regresso do catedrático das táticas. E assim não admira que fosse falando com o velho amigo/inimigo porque o que conta naquela sagrada instituição é o feeling do Presidente, o que aliás todos reverencialmente aceitam.
As horas de reunião que aprovaram a guia de marcha a Vitória não contam desde que Vieira tenha uma visão…Como ele habituou os seus subordinados da direção a ver à frente, todos lhe vão fornecendo óculos de ver ao longe para que saia um Jesus no caminho.
A insuspeita Bola de sexta dá conta de todos os pormenores da noite de quarta para quinta em que os dirigente benfiquistas ficaram a saber que a vinda para a Luz de Jesus custaria aos cofres do SLB vinte e cinco milhões de euros…o que o levou a voltar atrás e olhar para uma azinheira perdida no Seixal e ter outra visão – a da estabilidade.
Vieira vê muito além. É um predestinado. Ele está a ver a reconquista afundar-se e sem plano B, nem C, nem D porque tem sucessivas visões da luz que neste momento brilha na Europa e na invicta cidade do Porto. Esta é a luz que cega.
Vitória já há muito que não é o treinador do SLB; é o treinador de Vieira. As luzes que cada um vê ou pensa que vê tanto podem ser das que alumiam como das que cegam.
O que se não vê como normal num clube com a dimensão do SLB é como tanta gente qualificada se submete a estas visões de alguém capaz de fazer querer esquecer o que o seu Jesus fez ao Benfica, trocando-o pelo Sporting de Bruno de Carvalho, que apesar de o receber de braços abertos só viu campeonatos a fugirem-lhe.
Será que ele vê tão à frente que ainda não viu que o futebol da Arábia Saudita está muito, mas muito atrás do futebol de Portugal?
Talvez o mal não venha só das visões, mas provavelmente das realidades que o cercam, tantos são os processos em que é arguido.
Vieira é tão servilmente tratado que ninguém se ri quando diz que com a formação vai ser campeão europeu…e mais que…” se forem provados factos ilícitos nestes quinze anos demito-me”… como se fosse possível a um corrupto, face à lei, permanecer à frente do clube onde praticou atos de corrupção.
Esta última visão que Vieira relatou frente a tantas câmaras de televisão é como a visão da raposa que não chegava às uvas, verde, verde. Como podem os maduros do Benfica aceitá-la?

Acordos à esquerda e barreiras alegadamente inultrapassaveis

A revolução portuguesa surpreendeu, há quase quarenta e cinco anos, a Europa e o Mundo levando para o governo entre outros democratas ministros do PS,PPD, PCP e MDP.
O mundo vivia então uma guerra surda à escala planetária entre os EUA e a URSS, e a NATO e o Pacto de Varsóvia. Recordemos: Vietname, Laos, Cambodja, e as jovens revoluções apontadas ao socialismo – Argélia, Síria, Iraque, Iémen, Líbia, mais tarde a Etiópia e toda a situação explosiva na África Austral com o apartheid e o legado colonial na Namíbia, Rodésia e na própria África do Sul. Acrescentemos a este panorama a orientação política de Angola de Agostinho Neto e Moçambique de Samora Machel.
O mundo continuava a escalada para acabar com o colonialismo e encetar caminhos que não correspondiam aos desígnios das velhas metrópoles.
Na fase mais efervescente de conflito da Indochina e com processos emancipadores a irromperam em todo o chamado Terceiro Mundo, estabeleceu-se, em Portugal, um governo onde havia ministros comunistas.
Na ocasião o PCP no governo nunca colocou a questão da saída da NATO, pois, tinha consciência que o problema deveria ser resolvido num quadro muito mais amplo de negociações entre a NATO e os países do Pacto de Varsóvia.
É, aliás, interessar revisitar esse momento histórico, nomeadamente quando por duas vezes a NATO realizou manobras nas costas de Portugal para conter o perigo que vinha do Leste… Cunhal, Secretário-Geral do PCP, ironizando, respondia que não era assunto que se colocasse, pois na altura, os ativistas do verbo incendiário, hoje bem instalados na sociedade, não perdoavam ao PCP não exigir a saída de Portugal da NATO …
Na altura o PCUS dirigia a URSS e influenciava decisivamente o conjunto dos países do Pacto de Varsóvia. O PCP tinha relações ótimas com o PCUS. E, apesar de tudo, os governos provisórios funcionaram e conduziram o país à Constituinte.
Este introito tem a ver com as diferenças que existem e são grandes entre PS, PCP, BE e PEV, mas por maiores que sejam não atingem a dimensão dos anos 1974 – 75 – 76 pela simples razão que o mundo mudou de tal ordem, que já não há URSS, Pacto de Varsóvia, e quase todos os países que pertenciam ao Pacto estão hoje na NATO que, como se sabe, foi criada para combater um inimigo que deixou de existir.
António Costa, nos últimos dias, tem feito um grande esforço par tentar demonstrar que as diferenças entre o PS, PCP e BE impedem que haja um acordo mais substantivo com os dois partidos à esquerda. Alega para tanto as diferenças de abordagem dos partidos com temas como a NATO e a U.E. E essas diferenças são reais, mas são impeditivas de existência de acordos?
Quais são os concretos pontos que podem levar BE e PCP a considerarem a sua impossibilidade de assinar acordos governamentais ou de incidência governamental? Que opções militares em curso ou se perfilam que impeçam compromissos? A NATO enfrenta problemas internos desde a chegada de Trump à presidência dos EUA e o seu papel tem sido menorizado pelo outro lado do Atlântico. Que missões poderiam ser confiadas a Portugal que o PS considere indispensáveis e PCP e BE como sendo inultrapassáveis?
E no que se refere à U.E.? A moeda única é de facto um obstáculo, mas é assunto que se resolva ao longo de uma legislatura? E pelo facto de existir torna inviável acordos nos domínios do Ensino, Saúde, Segurança Social, Justiça, Administração Territorial, Agricultura?
Dê o mundo as voltas que der, Portugal, o país mais antigo da Europa, talvez o mais homogéneo, continuará a precisar de acordos para prosseguir a sua vida e esses acordos terão lugar à esquerda, ou à direita.
Há mais de quarenta anos que se declarara que havia partidos do arco da governação e outros excluídos. Nas últimas eleições abriram-se possibilidades porque o PS para governar precisava dos partidos à sua esquerda e teve a coragem de guinar à esquerda.
A diferença para celebrar acordos foi essa. Até àquela data a direita em maioria ou o PS com o PSD e o CDS formavam maioria para fazer o que sempre fizeram, embora prometendo diferente.
Se o povo português condicionar o poder absoluto que o PS quer, à vista desarmada, os acordos terão lugar.
Se o povo português quiser voltar atrás, ao tempo de Guterres/Limiano e Sócrates /absolutista, dê maioria absoluta ao PS e já sabe com o que contará.
Se o povo português quiser um governo com base no PS, mas alargado às esquerdas, tem de lhes dar força e capacidade para que prossiga o caminho iniciado com esta legislatura para defender o setor público, o investimento, o aumento da produção e das exportações e impedir o ciclo de aprofundamento das desigualdades sociais e da desertificação do interior do país e impedir a continuação do rol de desgraças. Aqui é que bate o ponto.
O que conta são os interesses dos portugueses e o aprofundamento democrático da cidadania contra os interesses de minorias rentistas e compradoras.
A pertença à NATO ou à U.E. ou à moeda única não podem valer como desculpas para o PS se entregar no regaço da direita sob o biombo daquelas desculpas.

DIAS TRISTES

São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de ir aos hospitais e esperar por serviços que fecharam por falta de enfermeiros e anestesistas.
São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de deixar os seus filhos nas escolas mal equipadas, com professores descontentes por verem negados os seus mais elementares direitos.
São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de enfrentar cargas horárias sem contrapartidas nos tribunais e nos estabelecimentos prisionais.
São dias em que se prende à hora dos telejornais para que o povo possa desfrutar da sobremesa acompanhada por inúmeros opinantes de língua sem travão à medida da falta de um saber feito de decência.
São dias cheios de horas em todos os canais televisivos a “informarem” sobre as mais variadas hipóteses que se colocavam para determinar a medida de coação a aplicar a Bruno de Carvalho. Dias cheios de horas tão estranhos que até advogados participaram naquele espetáculo deprimente e apostaram na prisão preventiva.
São dias cheios de horas sobre as cartas da arguida Rosa, ex-mulher do triatleta Grilo… São horas que enchem as manhãs, as tardes e as noites das televisões.
São também dias cheios de horas nos canais televisivos que nos trazem notícias de banqueiros e ex-ministros que cometeram crimes gravíssimos, mas que aguardam, apesar de condenados, que o tempo decorra nesta justiça imensamente lenta que tudo desacredita.
São dias como os outros em que as notícias que nos cercam nos dão conta de tanta maldade, do marido que matou a mulher para ir casar com a amante e do filho que matou o pai para comprar droga.
São dias, como os outros, em que ficamos a saber que um príncipe moderno mandou matar cinco criminosos para que eles não possam contar que foi ele quem ordenou a morte de Jamal Khashoggi.
E pode perguntar-se: não há outras notícias? Os seres humanos viraram tão brutalmente desumanos que em nenhum lugar do mundo há outras notícias?
E se um homem, apesar de tudo, salvar outro homem ou um animal de morrer?
E se uma mulher devolver uma carteira cheia de notas a quem a perdeu, como o fez uma empregada da limpeza?
Que dias são estes que há quem queira apropriar-se da luz que o Sol nos empresta?
E se neste país o seu governo não temesse os todo poderosos?
Estes são dias tristes exibidos neste quadradinho cada vez mais encavalitado no mar, quase sem interior, sim, sem interior, embora seja no interior que está quase tudo…
Publicado no Público online de 20/11/2018

Khashoggi-Falta a voz de Portugal decente no Palácio das Necessidades

Ao que parece o mundo não está muito preocupado com a decência. Mais grave ainda resulta do facto dos que pregam a decência, a sua superioridade política sobre os outros, na verdade, praticam muitas vezes a indecência.
Quando o mundo se vê confrontado com um Presidente desmiolado que incita a sua tropa a disparar contra mendicantes, ou quando um outro acha que o problema do país se resolve com trinta mil mortos, é forçoso concordar que a decência se está a afundar.
A palavra decência tem de ser resgatada para que não se perca em nome de eventuais causas que são apenas pretextos para enganar multidões de furiosos com o mundo como os pescadores das águas turvas o apresentam.
A decência pode unir mulheres e homens de todas as condições em torno de princípios elementares da vida em sociedade.
A decência impõe que, em relação ao hediondo assassinato de Jamal Khashoggi, os indecentes sejam condenados de modo a que mais ninguém possa cometer semelhante crime impunemente.
Os países ocidentais levantaram-se contra a tentativa de envenenamento de um espião russo que se passou a espiar para as fileiras inglesas. Foram expulsos centenas de diplomatas russos, mesmo antes da conclusão do inquérito. Santos Silva mandou chamar o embaixador português em Moscovo.
Aquando da anexação da Crimeia choveram sanções sobre a Rússia, e Portugal para mal dos suinicultores portugueses deixou de exportar carne de porco para aquele país.
Pois bem, a cada dia que passa o que é revelado sobre os horrores que conduziram ao assassinato de Jamal Khashoggi, ao seu desmembramento e ao seu desaparecimento revela um grau de maldade que espantará as almas mais cruéis; só os relatos das vinganças dos narcotraficantes ou de torturas próprias dos tempos medievais ou antigos.
Khashoggi foi assassinado porque, entre muitos assuntos, conhecia os meandros da invasão do Iémen pela Arábia Saudita.
A invasão e ocupação do Iémen pelos sauditas é uma realidade. E só o pode fazer porque Trump e o Ocidente lhe fornecem armas sem qualquer espécie de vergonha. Até Pedro Sanchez, Primeiro-Ministro de Espanha, alega que não pode deixar de vender armas à Arábia Saudita.
A fanfarronice de Santos Silva contra a Rússia ou a Venezuela torna-se numa enorme indecência quando se trata de enfrentar os príncipes e princesas do reino saudita.
Este governo que tem por base acordos no parlamento entre as esquerdas assume responsabilidades especiais no que toca à defesa da decência nas relações entre os Estados e na proteção dos direitos humanos.
Não é aceitável que nenhum português tenha ouvido um pio, um ui, um ai sobre a suprema crueldade com que os sauditas assassinaram friamente o jornalista Jamal Khashoggi.
Se Khashoggi teve a coragem, em nome da decência, de denunciar as atrocidades do reino saudita, só faltava que a essa coragem se seguisse a indecência de ver o mundo vergar-se aos petrodólares. Que o Palácio das Necessidades tenha coragem. E levante a voz do Portugal decente.
Texto publicado no Público online

Trump vai enfrentar os perigosos maltrapilhos hondurenhos – que Deus o proteja.

Trump é o Presidente do país mais poderoso do mundo. Tem a mãe de todas as bombas. Tem armas capazes de destruir o mundo em pouco tempo. Recentemente anunciou novos investimentos no arsenal nuclear. Trump é o Presidente do país mais bem armado do mundo.
A partir do próprio Espaço sideral, os EUA sabem tudo o que se passa no mundo em tempo real, inclusive se o Presidente da Rússia, da China, do Irão, ou das Honduras vão à retrete fazer o que ali têm de fazer.
Esta verdade extraordinária esconde outra não tão extraordinária, apenas humana – uns milhares de maltrapilhos e mendicantes hondurenhos que caminham subnutridos em direção aos EUA estão a causar o pânico do Presidente Trump.
O senhor Presidente imagina um conflito entre alguns desses hondurenhos a atirar pedras ao poderoso exército dos USA e os soldados. cheios de medo, a tremer sacam as suas armas e disparam até não haver mais mãos capazes de pegar em pedras e vencem os maltrapilhos, ajudando o Partido Republicano a vencer as eleições intercalares.
Esta é a força dos USA ou o seu medo? Quem vai vencer? A força ou o medo? Se os soldados dos USA não tirarem as pedras da fronteira … rebentará a guerra. Ao que se sabe entre os mendicantes não há armas de destruição massiva.