DIAS TRISTES

São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de ir aos hospitais e esperar por serviços que fecharam por falta de enfermeiros e anestesistas.
São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de deixar os seus filhos nas escolas mal equipadas, com professores descontentes por verem negados os seus mais elementares direitos.
São dias iguais a tantos outros para os que tiveram de enfrentar cargas horárias sem contrapartidas nos tribunais e nos estabelecimentos prisionais.
São dias em que se prende à hora dos telejornais para que o povo possa desfrutar da sobremesa acompanhada por inúmeros opinantes de língua sem travão à medida da falta de um saber feito de decência.
São dias cheios de horas em todos os canais televisivos a “informarem” sobre as mais variadas hipóteses que se colocavam para determinar a medida de coação a aplicar a Bruno de Carvalho. Dias cheios de horas tão estranhos que até advogados participaram naquele espetáculo deprimente e apostaram na prisão preventiva.
São dias cheios de horas sobre as cartas da arguida Rosa, ex-mulher do triatleta Grilo… São horas que enchem as manhãs, as tardes e as noites das televisões.
São também dias cheios de horas nos canais televisivos que nos trazem notícias de banqueiros e ex-ministros que cometeram crimes gravíssimos, mas que aguardam, apesar de condenados, que o tempo decorra nesta justiça imensamente lenta que tudo desacredita.
São dias como os outros em que as notícias que nos cercam nos dão conta de tanta maldade, do marido que matou a mulher para ir casar com a amante e do filho que matou o pai para comprar droga.
São dias, como os outros, em que ficamos a saber que um príncipe moderno mandou matar cinco criminosos para que eles não possam contar que foi ele quem ordenou a morte de Jamal Khashoggi.
E pode perguntar-se: não há outras notícias? Os seres humanos viraram tão brutalmente desumanos que em nenhum lugar do mundo há outras notícias?
E se um homem, apesar de tudo, salvar outro homem ou um animal de morrer?
E se uma mulher devolver uma carteira cheia de notas a quem a perdeu, como o fez uma empregada da limpeza?
Que dias são estes que há quem queira apropriar-se da luz que o Sol nos empresta?
E se neste país o seu governo não temesse os todo poderosos?
Estes são dias tristes exibidos neste quadradinho cada vez mais encavalitado no mar, quase sem interior, sim, sem interior, embora seja no interior que está quase tudo…
Publicado no Público online de 20/11/2018

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