Khashoggi-Falta a voz de Portugal decente no Palácio das Necessidades

Ao que parece o mundo não está muito preocupado com a decência. Mais grave ainda resulta do facto dos que pregam a decência, a sua superioridade política sobre os outros, na verdade, praticam muitas vezes a indecência.
Quando o mundo se vê confrontado com um Presidente desmiolado que incita a sua tropa a disparar contra mendicantes, ou quando um outro acha que o problema do país se resolve com trinta mil mortos, é forçoso concordar que a decência se está a afundar.
A palavra decência tem de ser resgatada para que não se perca em nome de eventuais causas que são apenas pretextos para enganar multidões de furiosos com o mundo como os pescadores das águas turvas o apresentam.
A decência pode unir mulheres e homens de todas as condições em torno de princípios elementares da vida em sociedade.
A decência impõe que, em relação ao hediondo assassinato de Jamal Khashoggi, os indecentes sejam condenados de modo a que mais ninguém possa cometer semelhante crime impunemente.
Os países ocidentais levantaram-se contra a tentativa de envenenamento de um espião russo que se passou a espiar para as fileiras inglesas. Foram expulsos centenas de diplomatas russos, mesmo antes da conclusão do inquérito. Santos Silva mandou chamar o embaixador português em Moscovo.
Aquando da anexação da Crimeia choveram sanções sobre a Rússia, e Portugal para mal dos suinicultores portugueses deixou de exportar carne de porco para aquele país.
Pois bem, a cada dia que passa o que é revelado sobre os horrores que conduziram ao assassinato de Jamal Khashoggi, ao seu desmembramento e ao seu desaparecimento revela um grau de maldade que espantará as almas mais cruéis; só os relatos das vinganças dos narcotraficantes ou de torturas próprias dos tempos medievais ou antigos.
Khashoggi foi assassinado porque, entre muitos assuntos, conhecia os meandros da invasão do Iémen pela Arábia Saudita.
A invasão e ocupação do Iémen pelos sauditas é uma realidade. E só o pode fazer porque Trump e o Ocidente lhe fornecem armas sem qualquer espécie de vergonha. Até Pedro Sanchez, Primeiro-Ministro de Espanha, alega que não pode deixar de vender armas à Arábia Saudita.
A fanfarronice de Santos Silva contra a Rússia ou a Venezuela torna-se numa enorme indecência quando se trata de enfrentar os príncipes e princesas do reino saudita.
Este governo que tem por base acordos no parlamento entre as esquerdas assume responsabilidades especiais no que toca à defesa da decência nas relações entre os Estados e na proteção dos direitos humanos.
Não é aceitável que nenhum português tenha ouvido um pio, um ui, um ai sobre a suprema crueldade com que os sauditas assassinaram friamente o jornalista Jamal Khashoggi.
Se Khashoggi teve a coragem, em nome da decência, de denunciar as atrocidades do reino saudita, só faltava que a essa coragem se seguisse a indecência de ver o mundo vergar-se aos petrodólares. Que o Palácio das Necessidades tenha coragem. E levante a voz do Portugal decente.
Texto publicado no Público online

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