Acordos à esquerda e barreiras alegadamente inultrapassaveis

A revolução portuguesa surpreendeu, há quase quarenta e cinco anos, a Europa e o Mundo levando para o governo entre outros democratas ministros do PS,PPD, PCP e MDP.
O mundo vivia então uma guerra surda à escala planetária entre os EUA e a URSS, e a NATO e o Pacto de Varsóvia. Recordemos: Vietname, Laos, Cambodja, e as jovens revoluções apontadas ao socialismo – Argélia, Síria, Iraque, Iémen, Líbia, mais tarde a Etiópia e toda a situação explosiva na África Austral com o apartheid e o legado colonial na Namíbia, Rodésia e na própria África do Sul. Acrescentemos a este panorama a orientação política de Angola de Agostinho Neto e Moçambique de Samora Machel.
O mundo continuava a escalada para acabar com o colonialismo e encetar caminhos que não correspondiam aos desígnios das velhas metrópoles.
Na fase mais efervescente de conflito da Indochina e com processos emancipadores a irromperam em todo o chamado Terceiro Mundo, estabeleceu-se, em Portugal, um governo onde havia ministros comunistas.
Na ocasião o PCP no governo nunca colocou a questão da saída da NATO, pois, tinha consciência que o problema deveria ser resolvido num quadro muito mais amplo de negociações entre a NATO e os países do Pacto de Varsóvia.
É, aliás, interessar revisitar esse momento histórico, nomeadamente quando por duas vezes a NATO realizou manobras nas costas de Portugal para conter o perigo que vinha do Leste… Cunhal, Secretário-Geral do PCP, ironizando, respondia que não era assunto que se colocasse, pois na altura, os ativistas do verbo incendiário, hoje bem instalados na sociedade, não perdoavam ao PCP não exigir a saída de Portugal da NATO …
Na altura o PCUS dirigia a URSS e influenciava decisivamente o conjunto dos países do Pacto de Varsóvia. O PCP tinha relações ótimas com o PCUS. E, apesar de tudo, os governos provisórios funcionaram e conduziram o país à Constituinte.
Este introito tem a ver com as diferenças que existem e são grandes entre PS, PCP, BE e PEV, mas por maiores que sejam não atingem a dimensão dos anos 1974 – 75 – 76 pela simples razão que o mundo mudou de tal ordem, que já não há URSS, Pacto de Varsóvia, e quase todos os países que pertenciam ao Pacto estão hoje na NATO que, como se sabe, foi criada para combater um inimigo que deixou de existir.
António Costa, nos últimos dias, tem feito um grande esforço par tentar demonstrar que as diferenças entre o PS, PCP e BE impedem que haja um acordo mais substantivo com os dois partidos à esquerda. Alega para tanto as diferenças de abordagem dos partidos com temas como a NATO e a U.E. E essas diferenças são reais, mas são impeditivas de existência de acordos?
Quais são os concretos pontos que podem levar BE e PCP a considerarem a sua impossibilidade de assinar acordos governamentais ou de incidência governamental? Que opções militares em curso ou se perfilam que impeçam compromissos? A NATO enfrenta problemas internos desde a chegada de Trump à presidência dos EUA e o seu papel tem sido menorizado pelo outro lado do Atlântico. Que missões poderiam ser confiadas a Portugal que o PS considere indispensáveis e PCP e BE como sendo inultrapassáveis?
E no que se refere à U.E.? A moeda única é de facto um obstáculo, mas é assunto que se resolva ao longo de uma legislatura? E pelo facto de existir torna inviável acordos nos domínios do Ensino, Saúde, Segurança Social, Justiça, Administração Territorial, Agricultura?
Dê o mundo as voltas que der, Portugal, o país mais antigo da Europa, talvez o mais homogéneo, continuará a precisar de acordos para prosseguir a sua vida e esses acordos terão lugar à esquerda, ou à direita.
Há mais de quarenta anos que se declarara que havia partidos do arco da governação e outros excluídos. Nas últimas eleições abriram-se possibilidades porque o PS para governar precisava dos partidos à sua esquerda e teve a coragem de guinar à esquerda.
A diferença para celebrar acordos foi essa. Até àquela data a direita em maioria ou o PS com o PSD e o CDS formavam maioria para fazer o que sempre fizeram, embora prometendo diferente.
Se o povo português condicionar o poder absoluto que o PS quer, à vista desarmada, os acordos terão lugar.
Se o povo português quiser voltar atrás, ao tempo de Guterres/Limiano e Sócrates /absolutista, dê maioria absoluta ao PS e já sabe com o que contará.
Se o povo português quiser um governo com base no PS, mas alargado às esquerdas, tem de lhes dar força e capacidade para que prossiga o caminho iniciado com esta legislatura para defender o setor público, o investimento, o aumento da produção e das exportações e impedir o ciclo de aprofundamento das desigualdades sociais e da desertificação do interior do país e impedir a continuação do rol de desgraças. Aqui é que bate o ponto.
O que conta são os interesses dos portugueses e o aprofundamento democrático da cidadania contra os interesses de minorias rentistas e compradoras.
A pertença à NATO ou à U.E. ou à moeda única não podem valer como desculpas para o PS se entregar no regaço da direita sob o biombo daquelas desculpas.

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Um pensamento sobre “Acordos à esquerda e barreiras alegadamente inultrapassaveis

  1. Antonio Rodrigues

    Isto é um pouco como as religiões. Não há boas nem más religiões. Há bons ou maus praticantes, e isso acaba por vir a definir o cariz da sua aceitação. Não me parece que a estrutura constitucional da democracia participativa seja má. Pelo menos não se vê no horizonte ideológico algo que a possa substituir. Mas como se disse, o mal está escondido dentro de capelinhas disfarçadas e embandeiradas em todos os partidos. E isso não há volta a dar a não ser por uma tomada de consciência das responsabilidades de cada um no exercício da participação democrática. O que acontece é que as velhas questões dos interesses pessoais, que se arrastam a meu ver desde a pré-história, têm sido sucessivamente transferidos para os ideários políticos dos diversos esquemas de governação que comandam a humanidade. Mas talvez não seja preciso fazer muito. Uma desinfecção das estruturas político-partidárias, expurgando os maus “praticantes” da democracia, como disse acima, já seria um bom começo. Isso exige uma qualidade sempre rara–“Coragem”

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