Quase sem nos apercebermos surge o F.C. Porto de novo campeão europeu em sub-19. É obra. Depois dos seniores chegou a vez dos jovens. Os filhos do dragão. Para lá chegar derrotou os colossos europeus. E tornou a grande cidade ainda maior. Poucas cidades europeias se orgulharão de ter sido campeãs em seniores e em sub-19.
O F.C.P chegou onde chegou enquanto os media davam conta da formação de outros clubes, colocando-os no Everest da arte de fazer fábricas de craques. Nunca se falou tanto por essas bandas de projeto europeu. De acordo com as notícias aguardava-se a conquista do cetro europeu para as margens do rio Tejo, coitado dele que não tem culpa de tanta farronca. Já Pessoa tinha aquela ideia sobre o rio da sua aldeia.
E calmamente acontece o que aconteceu em Nyon- Porto 3- Chelsea-1…São muitos títulos para um clube e para o homem que o dirige.
O grande filósofo José Gil escreveu um livro sobre um sentimento muito negativo dos portugueses que é a inveja. Ela não se arruma segundo qualquer acaso dos pontos cardeais, disso estou seguro. Mas a concentração de poderes, influências na capital de um pequeno país que de repente se vê pendurado na grande área urbana de Lisboa, leva a que se possa pensar que o resto seja paisagem. Mesmo que inconscientemente. É em LISBOA que quase tudo se decide. Não é de agora. Mesmo depois do 25 de abril continua a ser assim. Lisboa não tem nenhum mal que as outras cidades de Portugal não tenham, mas tem todo o poder e já tem também uma espécie de ponte aérea com Bruxelas.
Ter paixão por um clube como o Porto é não só querer que ganhe sempre, como também desafiar o establishment e acreditar que é possível não obstante tanta cegueira espalhada por todo o país.
Ao que se sabe os animais cuja cegueira é uma característica não são culpados do seu destino na arte de sobreviver; escavar é a sua única possibilidade até ao dia em que o seu focinho e as suas patas não sejam capazes de fazer os longos tuneis que as levam ao sucesso. Toda a especialização excessiva leva à morte da espécie. O homem descobriu a ferramenta para interpor entre a espécie e a natureza. Vale a pena recordar a cena em que o macaco no filme Odisseia no espaço de Stanley Kubrik descobre que osso de um animal serve para matar outro macaco através de um golpe.
A descoberta da bola, que de pé para pé pode levar à prodigiosa arte que também é o futebol, deve ser vista à flor da relva, com todo o seu esplendor, como os campeões europeus em Nyon.
A fábrica de campeões de sub-19 está no PORTO.
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Eleições espanholas e estabilidade
Em Espanha os resultados eleitorais das eleições legislativas de vinte e oito de abril apresentam um horizonte com uma nova paisagem política.
Na verdade, a rotatividade das maiorias absolutas entre o PSOE e o PP finou. Os eleitores, numa grande afirmação cívica, deram uma maioria relativa ao PSOE e uma maioria absoluta ao PSOE, ao Podemos e aos partidos representativos das autonomias e independentistas.
O PP, o Cidadãos e o VOX escolheram como eixo político colocar o PSOE num cordão sanitário. Falharam redondamente. O campo do PSOE, do Podemos e autonómico reforçou as suas posições.
É interessante que muitas das análises se centram na instabilidade gerada com estes resultados, tentando passar por cima da opção clara dos espanhóis que rejeitaram entregar a qualquer partido o poder de por si só constituir governo. Sendo o povo o soberano escolheu e só há que respeitar essa sua soberania.
Parece claro que as experiências de maiorias absolutas de PP e PSOE conduziram a Espanha a sucessivos e monumentais escândalos de corrupção que abalaram toda a sociedade de modo profundo.
Ao obrigar o PSOE a negociar compromete-o com acordos com outros partidos, impedindo-o de gerir a vida pública a seu bel-prazer.
A estabilidade gerada por uma maioria absoluta foi responsabilizada pelos espanhóis como causa desse clima de um poder quase absoluto com que o PSOE e o PP arrasaram a Espanha, levando ao descrédito do próprio regime, dado o grau de envolvimento de ambos em processos de corrupção e incapacidade de gerar consensos, provavelmente por terem maioria absoluta.
Esta “estabilidade” foi tacitamente rejeitada pelos espanhóis, criando uma nova situação.
O PSOE vai ter de assumir compromissos com os partidos à sua esquerda ou à sua direita.
A lógica que decorre da queda do governo de Sanchez, os eixos da campanha eleitoral, apontam para um entendimento à esquerda e com os autonomistas.
Um acordo é sempre o resultado de vontades que nele se materializam e podem dar a possibilidade de levar a cabo a legislatura até ao fim, ou seja, com estabilidade.
Falta esperar para ver se o PSOE se compromete desde já com uma saída ou prefere manter uma certa ambiguidade para tentar reforçar a votação nas eleições para o parlamento europeu.
A estabilidade da governação não decorre tout court de uma maioria absoluta, mas de uma política que responda às grandes aspirações dos espanhóis.
O exemplo português é claro. O facto de o PS não ter uma maioria (nem relativa) não impediu de governar os quatro anos e de operar uma certa viragem na política portuguesa, aliás com sucesso.
Podemos estar a assistir ao regresso da política na verdadeira aceção da palavra, na arte de realizar compromissos com forças que se enquadram num dado campo político – ideológico. O que poderá significar o fim de um rotativismo entre duas formações para tudo ficar na mesma.
A democracia é a possibilidade de encontrar saídas reais e diferentes para os impasses que o regime gera.
Apresenta-se uma nova possibilidade no nosso vizinho continental. Há saídas para assegurar a estabilidade governativa.
In Público online
Até amanhã de manhã à hora do pequeno-almoço
A evolução da vida política está ir de mãos dadas com a indústria de entretenimento. Mede-se pelo impacte mediático. O que se passa é o que acontece nos media. O resto é o interior; só existe em tempo de incêndios.
Os cidadãos habituaram-se à preguiça cívica. Não procuram o presente, nem o futuro. Assistem ao que lhes é apresentado. A escolha é entre o canal que “dá” as notícias. E absorvem até à cegueira.
De repente surge uma greve caída do céu ou à medida pascal. Implantam-se os piquetes das televisões em tudo quanto cheire a combustível.
Sai do altar do CDS a santa Cristas. “Pesarosa” e dotada de uma autoridade resultante dos quatro anos a empobrecer a esmagadora maioria dos portugueses e a tornar ainda mais rica a minoria bem minoritária a quem ela, e o governo de que fez parte, deu milhares de milhões.
Apareceu vestida de negro nas palavras aladas no vento do veneno – dou até amanhã de manhã ao senhor Primeiro-Ministro para resolver o caos criado.
Amanhã de manhã, provavelmente antes do pequeno-almoço. Houve um período que era tudo “já”, há quarenta e cinco anos.
O CDS é isto: dar-se ares de mandar. As televisões aproveitam, precisam de oxigénio e Cristas segue a fazer de conta. Só que por vezes a diferença entre a mensagem e o mensageiro é tão gritante que a mensagem cai no ridículo.
Os camionistas pertencem ao setor privado que a direita arenga que não faz greves, ou melhor, só as faz quando sabem que amanhã de manhã tem de estar resolvida.
Outro fenómeno extraordinário de sucesso em matéria de celebridade mora em Belém, no palácio. Vogou em todos os canais ao longo de anos a dar notas e o luso reino lorpa a assistir às reprovações. Sempre sabe bem saborear o mal dos outros. Além do mais eram coisas do Celito.
Ele é como é. É o que ele diz. Mas não é. É consoante as nuvens. Se vê que uma selfie vem a calhar tira-a, nem que seja com alguém que deixa muito a desejar em termos de inserção social. Ele não pergunta pelo registo criminal… diz.
Se dá jeito uma viagem de camião embarca. Se quer ser apanhado a dar mergulhos ele arranja a surpresa e os basbaques embasbacam.
Se o seu amigo João Lourenço lhe organiza um programa de arromba, ele apanha as canas e faz de Celito. É o que se queira.
Se acha que o governo tem de resolver o conflito dos camionistas, mesmo que o conflito seja entre privados, ele faz um escarcéu que se ouve em todo o lado. É a solidariedade institucional; se o governo está mal, deixa que ele ajuda a ficar pior; se estivesse bem, ele é que sabia do otimismo do Costa…
O que nos vale é que o de Belém é mais largo em prazos que a santinha da rua da Madalena. Viva a Páscoa
Ditadura por cima de todos, Militares acima de tudo
Bolsonaro no seu desvario totalitário quer fazer o Brasil regressar aos tempos ditatoriais.
Para legitimar a sua ação política não hesita em fazer da sua governação algo que se baliza por parâmetros religiosos, abusando da frase – Deus acima de todos – como se ele fosse um pastor evangélico na hora da homília e não um Presidente eleito de acordo com leis que se aplicam a seres humanos e que deles imanam e se destinam a regular a vida na comunidade brasileira, ficando o céu fora do alcance do seu governo, por muito que lhe dê jeito invocar.
Na verdade, Bolsonaro é um velho capitão admirador da cruel ditadura militar e foi eleito Presidente do Brasil para fazer respeitar, em última instância, o supremo mandamento legal – a Constituição brasileira, tarefa que demonstra não ser capaz.
Entretanto, saído das alfurjas do tempo apodrecido, veio a terreiro com toda a impunidade, o velho general Luís Gonzaga Lessa ameaçar o Supremo Tribunal Federal de lhe impor a “lei da bala”, caso os juízes entendam em consciência e total independência considerar o recurso de Lula como este pretende, ou seja, o STJ só tem uma possibilidade de decidir, manter ex-Presidente na cadeia, se não quer ser responsabilizado por um golpe militar sangrento.
O Brasil está resvalar rapidamente para um regime militar fascizante em que Bolsonaro faz de Presidente e invoca o nome de Deus em vão para justificar o atropelo à Constituição brasileira.
A tomada de posição deste general demonstra da sofreguidão de sangue de um núcleo forte das Forças Armadas brasileiras que não aceita um poder judicial independente.
Este tipo de pronunciamento já tinha sido tornado público na hora do julgamento de Lula.
O Brasil vai na senda de um precipício tenebroso que poderá custar muito caro ao povo brasileiro. Seguramente, nesse caso, com a ditadura por cima de todos, e militares acima de tudo.
In Público online de 14/04/2019
Haja coragem
As sociedades “ocidentais” apresentam hoje alguns sintomas muito idênticos, sendo de presumir que poderão certamente ter a mesma origem.
Nos últimos vinte ou trinta anos, os governantes sucedem-se e os males permanecem.
Se os problemas permanecem, com maior ou menor intensidade, significa que as políticas que os geram são, na sua essencialidade, as mesmas. Se houvesse políticas diferentes, nos diversos países, os resultados seriam certamente outros.
Uma das consequências desta situação é gerar uma impotência nos cidadãos quanto à sua vontade de mudar o rumo das coisas. Se o disco é o mesmo, a música só pode ser a mesma…
Em teoria uma das maiores virtudes de um regime democrático é dar aos cidadãos a possibilidade de optar por múltiplas escolhas.
O que, entretanto, tem vindo a suceder é a subversão deste princípio, sobretudo quando se instalou uma espécie de poder mundial que impõe “democraticamente” um modo de governar que é o mesmo em todo o lado e que consiste em tornar os ricos mais ricos, alargar as desigualdades e estreitar o leque das classes médias. Quanto menos rendimentos obtiverem os cidadãos, mais recebem os gestores que o conseguirem. Já se chegou a esta enormidade: vinte e seis bilionários têm rendimentos igual a metade da população mundial.
Eis o eixo: Privatizar tudo o que possa dar lucro, colocar a gestão dos bens da comunidade em mãos privadas, enaltecer o poder do dinheiro, tornar os cidadãos numa legião de basbaques a contemplar a vida dos bilionários.
Para tanto a própria União Europeia atirou as malvas a coesão económica e social e elegeu a saúde do sistema financeiro como a sua maior preocupação.
Nesta ordem de ideias são os cidadãos que são expropriados dos seus rendimentos para acudir ao sistema bancário cujos dirigentes o guiou ao descalabro, não sendo, por isso, penalizados, antes tratados com todo o cuidado, salvo um ou outro caso, algures nos EUA ( Bernard Madoff, 150 anos de cadeia) e na Islândia (banqueiros condenados a prisão).
A governança, em que ora entra um partido que sai para entrar outro e tudo se mantém nas mãos desse poder económico mundial, gera impotência, descrédito e desconfiança no próprio regime na medida em que bloqueia possíveis saídas.
Um dos casos mais gritantes está a acontecer em França. Hollande e o PS, ao contrário do que apregoaram, atacaram com fervor as condições de vida das populações, empobrecendo os franceses. O descrédito foi enorme.
Antes da implosão do PS, o Ministro da Economia do governo PS, Emanuelle Macron, bateu com a porta e saiu para formar um novo partido e prometer aos franceses uma França rejuvenescida e melhor.
Chegando ao poder ainda levou o país uma situação bem pior aquela que gerou no seu tempo de Ministro da Economia.
A exasperação é enorme e surgiu o movimento dos coletes amarelos, que vem perdendo apoio devido a grau de violência gratuita que permite Macron recuperar algo, por instantes.
Não é preciso sair de Portugal para se constatar o número de políticos que saem do governo para os bancos e que mais tarde regressam aos governos com os mesmos ou com outros partidos.
As saídas de dirigentes e quadros do CDS, PSD, PS para gerirem bancos e depois regressarem aos partidos de onde saíram mostra bem até que ponto há muito de siameses neste chamado arco de governação que, apesar de Costa ter tido a coragem de enfrentar, ainda persiste em muitos domínios.
Gera desconfiança no sistema, o que vai levando ao poder Trump, Salvini, Balsonaro, Vitor Orban e Cª.
Certos políticos saem de cena derrotados, mas logo aparecem de novo a comandar partidos ou opiniões públicas pelo chamamento dos donos das televisões.
Um exemplo acabado desta manigância é Marques Mendes que dominicalmente vai à SIC dizer missa.
O senhor doutor foi à SIC em 2014 garantir que o BES era sólido, de total confiança, em diversas ocasiões, até em Faro, em agosto; sempre a garantir que a partir de então o banco bom era mesmo bom. Garantiu a pés juntos.
Há dias teve o despautério de arengar que afinal os portugueses têm todas as razões para se indignar porque o lixo que tinha sido eliminado pelo governo de Passos e Cristas, afinal apareceu com toda a força por obra e graça de Centeno…
Os atos eleitorais que batem à porta são uma boa altura para impedir que os mesmos de sempre façam a mesma política. É preciso coragem e dar mais força aos partidos que nunca foram governo.
Publicado no Públiconoline de 10/04/2019
Um gajo que não presta para nada é um javardo
No dicionário de sinónimos da Porto Editora encontram-se para a palavra javardo os seguintes significados – abrutalhado, asqueroso, asselvajado, besuntão, imundo, grosseiro.
Estes sinónimos já dão uma ideia onde chafurdam os javardos. Aceitar-se-á que uma linguagem abrutalhada será própria de certos animais omnívoros que fossam onde outros não se metem.
Um javardo não prima pela elegância, nem pelo culto de dizer as coisas dentro de um espírito diplomático.
Um fulano que preze a arte e o ofício da elegância diplomática tem aversão a uma linguagem grosseira.
Ensina-nos a vida que os diplomatas têm um jeito único que mais ninguém tem quer para ouvir, quer para dizer.
Há uma escola que os ensina a serem capazes de fintarem os tímpanos e onde alguém ferveria, eles fazendo jus ao seu estatuto de passar a vida a ouvir, encaixam. É a “souplesse” que possuem os diplomatas.
Há muita gente de gostaria de ter essa couraça de diplomata. Um caso evidente é o de Sérgio Conceição.
O treinador do Porto não frequentou altas escolas, nem o Palácio das Necessidades, nem os salões da diplomacia portuguesa.
Quando fala, tem em vista a defesa da sua equipa e ser campeão, o que não é nenhuma javardice, antes o supremo desejo de qualquer treinador.
Sérgio não utiliza a linguagem prendada, oriunda das escolas em moda da Tia Bobone. É um tudo nada explosiva. Quem o vê a falar em certas circunstâncias parece que tem, dentro dele, uma panela a ferver e que tem de expulsar o que está no peito para não rebentar.
Quando os estados de alma atingem certo grau de fervura é o que se sabe. Diz-se o que não se quer.
Sérgio Conceição dá sinais de ferver em pouca água, tendo em conta que estar à frente do Porto significa sujeitar-se a uma pressão altíssima, sobretudo por ser o clube da cidade Invicta que desde o 25 de abril maia conquistas tem alcançado.
Mas não se pode perder de vista que ele foi contratado para ser campeão e não para utilizar o verbo com todo o rigor.
Em Sérgio Conceição a linguagem corporal bate certo com a verbal, seja nos momentos de grande sofrimento ou nas explosões de alegria. Quem pode esquecer a corrida de Mourinho no teatro dos sonhos ao longo da linha lateral para festejar o golo de Costinha e que levaria o Porto a ser campeão europeu? Tudo menos um exemplo de bem falar…e de comportamento diplomático.
A um diplomata exige-se muito mais em termos de emoções. Tem de saber aguentar. É essa a sua arte, o seu ofício. Ouve a pior das notícias como se nada fosse. Sabe ouvir e sabe dizer.
A todas as luzes, a linguagem de Sérgio não é a de um diplomata. Diz o que se diz no futebolês. Há os que falam espanholês como se falassem o mais puro castelhano; há os que atropelam com um camião TIR a gramática; e até houve um poeta, o rei de Paris em tempos atrás, de seu nome Artur Jorge, também um campeão europeu pelo Porto.
O que nunca se tinha visto era um diplomata primar em termos de futebol pela imundície. Na semana passada um diplomata de reconhecido mérito e de elevada craveira intelectual deixou que a sua caldeira fervesse sem controlo despejando numa rede social a sua raiva.
Um eurodeputado tinha classificado S. Conceição como um gajo que não presta para nada. O nosso diplomata não quis deixar também ele de atropelar o treinador do Porto. Ficou registada a javardice. E a prova que mesmo um diplomata pode usar a linguagem própria do que o dicionário da Porto Editora designa como asselvajada, imunda e besuntona.
IN O Público de 2/4/2019
O cansaço de César
Carlos César está cansado e nota-se quando fala. Foi habituado a governar nos Açores com a maioria absoluta e a vida é outra coisa , é um descanso.
No continente sempre foi almejada e quase sempre não conseguida, salvo com Sócrates e deu no que deu.
César quer ter as mãos livres para fazer o que quiser, ele, e os socialistas de que é líder parlamentar.
Está desejoso de um tempo em que “trabalhar” seja gerir a seu bel-prazer os destinos do país. É um desejo ter uma legislatura de papo para o ar, sem prestar contas.
César acusa sérias dificuldades em fazer esforços para governar através de acordos com outras forças políticas à sua esquerda. Cansa- se.
Dentro da sua ótica, se tivesse maioria absoluta fazia o que queria sem passar cavaco a ninguém; como Cavaco durante 10 anos.
César cansa- se de ter de lidar com a oposição e até com as forças com quem fez acordos.
Foi bom que tivesse dado nota do seu cansaço porque alertou os portugueses para essa sua fragilidade .
Como líder parlamentar do PS advertiu que no parlamento se fatigará sem apelo nem agravo se não tiver mais de metade dos lugares.
Deu conta que o PS bem quer trabalhar, mas a dialética resultante dos acordos e da oposição fá- lo emperrar, precisa de roda livre.
Compreende- se num homem cansado por tanto desesperar por uma maioria absoluta. César desabafou. Pôs o coração na boca e saiu este destempero sob esta forma tão subtil, …”Estou cansado…” Que maçada.
Na verdade, o PCP, o BE, o PEV e o PAN exigem compromissos na defesa do SNS , da Escola Pública, de uma Justiça mais acessível, da Segurança Social e de uma política de melhoramento das condições de vida, em vez do empobrecimento levado a cabo pelo governo do PSD e do CDS.
Há no desabafo de César uma enorme sinceridade, o que é sempre louvável. A César o que é de César…se os portugueses quiserem um César descansadissimo têm de lhe dar uma maioria absoluta.
Neste caso César chegaria ao Parlamento e saberia que o número de deputados o deixaria à larga, despreocupado.
O governo descansadamente teria no Parlamento um eco que repercutiria o que São Bento propusesse. A Assembleia da República seria uma caixa de ressonância do governo.
César, pomposamente, disse o que os socialistas “preguiçosos” dizem entre eles, porque os há trabalhadores que apoiam os acordos e não se cansam tanto.
Se César tivesse maioria absoluta haveria um país inteiro a dividir na família, uma vida boa.
Pelos vistos ao cabo de quatro anos não lhe está na massa do sangue ter de negociar com parceiros tesos na defesa da população trabalhadora. É uma canseira, segundo as suas queixas e lamentações.
Se apesar da geringonça a família está bem presente, imagine-se o que seria com a a tal maioria absoluta, o antídoto do cansaço de César. Como ele seria feliz e se sentiria a voar como uma borboleta.
O cansaço de César tem o seu quê para ser levado em conta. Ou país nas mãos do PS. Ou o PS a governar com acordos à esquerda que dão mais descanso ao país, mas que cansam o líder parlamentar. Opções.
in Público de 27/03/2019
O que é a democracia?
O PCP, em novembro de 1988, no XXI Congresso, realizado no Porto, adotou com letras de oiro o seu programa – uma democracia avançada no limiar do século XXI. Na altura o PCP quis deixar bem claro qual era o seu projeto de sociedade e desenvolveu de modo bastante pormenorizado quais eram os elementos integrantes dessa democracia avançada. Nesta conceção a democracia política é … “baseada na soberania popular, na eleição dos órgãos do Estado do topo à base, no pluralismo de opinião, … nas liberdades individuais e coletivas e na intervenção e participação do povo na vida política”… “o desenvolvimento económico assente numa economia mista, uma política social que garanta a melhoria das condições de vida, uma política cultural que assegure o acesso generalizado à livre criação e fruição culturais”…
A democracia política tem…”um valor intrínseco pelo que é necessário salvaguardá-la e assegurá-la como elemento integrante e inalienável da sociedade portuguesa”… O povo português foi privado da liberdade durante 48 anos …”conhece o valor da liberdade e não quer mais perdê-la. Pertença do povo e do indivíduo, a liberdade é um elemento básico essencial”…
Nesta democracia …”serão plenamente assegurados os direitos de carácter pessoal, político, laboral e social…”… Nela existirão … “a liberdade de expressão e pensamento, a liberdade de imprensa e o direito à informação, a liberdade de reunião e de manifestação, de constituição e ação de partidos políticos e outras associações, a liberdade sindical, o direito à greve, de criação, de consciência, de religião e culto e circulação”…
…”No regime de liberdade que o PCP propõe ao povo português as eleições são fundamento direto do poder político e da legitimidade da constituição dos seus órgãos”…
Vem toda esta enumeração não exaustiva do programa aprovado em Congresso a propósito das declarações do Secretário-Geral do PCP referindo-se às dúvidas sobre a caracterização do regime coreano.
O PCP no seu congresso fundiu a importância dos direitos individuais da revolução francesa com os direitos sociais da revolução russa, caminho que a revolução de abril abriu.
Ora a Coreia do Norte é uma caricatura de um regime democrático, popular ou socialista. Lá impera um regime de tipo feudal dinástico em que os filhos sucedem aos pais, como nas trevas dos tempos. A invocação do socialismo por parte dos seus dirigentes é uma espécie de profanação do ideal democrático e socialista; caricaturando, uma espécie de invocação do nome de Deus em vão. Não há liberdades de nenhuma espécie, nem direitos de qualquer tipo, uma aberração, digam o que disserem os seus dirigentes, pois até dizem que quando nascem ou morrem os supremos líderes o céu se alegra ou entristece.
Tal facto não dá, todavia, aos EUA, ao Japão e companhia qualquer direito a ingerir-se e muito menos de intervir militarmente naquele país. Mereceria a mais firme condenação tal loucura.
Fica, portanto, a pergunta inquietante: que impede os atuais dirigentes do PCP, cujo programa aprovado com enorme sucesso no congresso no Porto, consagrando as liberdades acima expostas como inalienáveis, de considerarem que o regime da Coreia do Norte nada tem a ver com a democracia, desde logo à luz do regime democrático emanado do XXI Congresso? Onde pode haver dúvidas? O que dizem os dirigentes coreanos vale mais que a realidade dos factos?
Grunho
Um gajo que não vale nada é aquele cujo valor de mercado equivale a um tostão furado ou menos ainda. É uma desgraça, vale menos que o ar que se respira, se, entretanto, não surgir um empreendedor que o capture e faça um grande negócio, vendendo-o. É asfixiante a ideia de algué se apoderar do ar; e a de um gajo não valer nada arrepia…o Sérgio Conceição deve ter sentido um aperto brutal na zona pulmonar.
Um gajo que não vale nada deveria ser um fulano cujo valor tinha em atenção a sua valia e, portanto, receberia zero; em Portugal seria o equivalente, com sorte, ao rendimento mínimo de inserção.
Sabe-se que pode haver exceções, neste caso, haverá quem receba muito e não se dê qualquer tostão pelo que faz. Mais: não se sabe que existe, será uma espécie de pessoa inexistente na escala de valores de mercado. Ora o que inexiste vale ainda menos do que o que não vale nada, como é fácil de aceitar.
O facto de alguém estar montado num palanque na capital belga não significa que valha alguma coisa. Tudo depende, sendo certo que a maioria deles são ilustríssimos desconhecidos, o que não deixa de ser uma tremenda contradição, pois são, nada mais, nada menos, os representantes de todo o “povo” europeu. E por esse desempenho recebem principescamente, apesar da sua natureza de inexistentes.
Claro, é dos manuais, quando se aproximam as eleições para a tal Europa, é necessário fazer prova de vida, caso contrário, poderia um eurodeputado continuar na zona da inexistência placidamente, esperando pelo fim do mês. Assim poderá ficar cinco largos anos em representação do tal povo. Nesta parte o mercado fecha os olhos, aceita o faz- de- conta e até aconselha a que se cale para não se dar por ele. A experiência vale muito.
Nestes dias primaveris de março, talvez por isso, um eurodeputado quis sair da escuridão onde jazia há cinco anos para as luzes da ribalta e a verdade é que saiu.
No programa do partido que o levou a Bruxelas estava inscrito que devia escrutinar o valor dos treinadores de futebol a trabalharem em Portugal.
E lá foi o senhor bater de chofre no treinador do F.C.Porto e o veredito não se fez esperar – não vale nada, é um grunho, um hipócrita, não tinha nada que dizer que o João Félix passou férias em sua casa.
Claro que o senhor eurodeputado fez prova de vida e mostrou serviço à nação benfiquista que não o elegeu, mas é de ter em conta no futuro, pois que estar à frente da Luz pode valer bem mais que estar no palanque de Bruxelas.
De facto um treinador de futebol tem o valor resultante do que produzir, vai de escantilhão se não tiver resultados, mesmo que se chame Vitória. Certos eurodeputados poderão continuar jazendo na sombra da instituição desde que não atrapalhem. E recebendo.
Este senhor eurodeputado não perdeu a oportunidade de estar calado porque tinha fazer prova de vida. Grunhiu, sem desprimor para os bísaros e os ibéricos bichos de quatro patas.
Neto Moura não decidiu sozinho, a adjunta era mulher
Os Acórdãos de Neto de Moura têm merecido a crítica severa e mordaz da grande maioria do povo português, o que, ao contrário do que algumas almas consideram, sobretudo juízes, é bastante positivo.
Neto Moura, com as abencerragens produzidas nos Acórdãos debaixo de fogo, em vez de aplicar a lei enredou-se na pior interpretação da Bíblia que consiste na ideia que a mulher é a representação do mal, enquanto ser portador de sexualidade, a quem lhe é exigida a fidelidade sexual, não o sendo ao homem.
Basta dar leitura aos Acórdãos para se perceber que na cabeça de Neto Moura a mulher é um ser perverso capaz de cometer adultério, algo abominável e de certo modo justificativo da violência masculina. O adultério é grave se praticado pela mulher, se for por homem está perdoado porque não resistiu à maçã de Eva…
Para Neto de Moura o homem tem direito de submeter a mulher a sevícias dado que a conduta da infiel é a causa do transtorno inultrapassável do homem, uma espécie de inimputabilidade moderada baseada na reação em defesa da honra.
Imagine-se este direito nas mãos das mulheres tendo em conta os casos de adultério masculino…
Porém, para além deste enfoque, já sobejamente tratado nos media, há dois outros aspetos que importa salientar.
O senhor desembargador relator teve o acordo de uma senhora desembargadora, o que coloca um outro problema civilizacional de fundo.
Há mulheres desembargadoras, pelo menos uma, que pensam como Neto Moura, o que atinge um grau de perversão extraordinário, indo com ele até às catacumbas da Antiguidade fazendo uma interpretação de ensinamentos bíblicos, nascidos há milénios, fontes de teoria da legitimação da violência contra as mulheres “pecadoras”.
Os juízes têm um poder único que mais ninguém tem. Para o exercício dessa profissão extraordinária que é julgar as mulheres e os homens, impõe-se que o seu exercício seja levado a cabo por gente ligada ao que na sociedade são os valores civilizacionais, onde o Direito vai buscar as raízes para se apresentar como o regulador dos comportamentos dentro da comunidade.
Não é aceitável que este crivo deixe passar “avis raris” que pregam como se vivessem “in illo tempore”, em que o homem detinha um poder total sobre a mulher.
E esta questão leva-nos exatamente ao CEJ onde são formados os nossos juízes. Não se acredita que estes sejam os valores com que se pretende moldar os futuros juízes, mas certamente que é incutido um espirito que leva a que haja juízes que fundamentam as suas decisões com as mais anacrónicas e aberrantes conceções, que só são vigentes no reino absolutista da Arábia Saudita, no DAESH e, em parte, no Irão dos ayatolas.
Não basta conhecer as teorias e os artigos dos muitos códigos; é tão decisivo, como esse conhecimento, possuir aptidão para julgar. A esse elevado grau de conhecimento tem de se juntar um espírito democrático e humanista que emerge do nosso ordenamento jurídico e que dá corpo ao Estado de Direito democrático.
Não basta dar entrevistas a dizer que é a favor da igualdade de género, quando na qualificada função de julgar os seus semelhantes produz arestos com justificações próprias do tempo de Caifás e Barrabás; similar a uma apresentadora de um programa nojento, onde as mulheres são tratadas como seres inferiores, que se defende dizendo que até é feminista…
Se os juízes encarassem o Estado de Direito democrático como um empecilho para travar impulsos de natureza ideológica cometeriam severas infrações ao desempenho das suas funções, como no caso de Neto e a adjunta.
E, por último, vale a pena refletir sobre o seguinte problema: Os Acórdãos são assinados sem serem lidos pelos adjuntos? Se o são, com essa conduta subverte-se totalmente o espírito do legislador que é o de não deixar nas mãos de apenas um juiz uma decisão de um tribunal superior.
Com este comportamento normalizado (aparentemente) o que se pretende é que nenhum juiz incomode o outro e assim se estabeleça um factor de cumplicidade em que não se intrometam no trabalho uns dos outros, deixando nas mãos de um julgador o que devia ser de três, sempre que haja empate entre o relator e o adjunto.
Como nos Acórdãos de Neto Moura em discussão, a adjunta perfilhou o teor do relator e os dois (um e uma) produziram Acórdãos que envergonham a magistratura. Será que ela o leu?