Venezuela, para que conste.

Há, em torno da crise venezuelana, um redemoinho infernal de notícias. A grande maioria das notícias foca a realidade do que se passa naquele país do seguinte modo: há um ditador e uma ditadura nascida com o chavismo de um lado e, do outro, os opositores à ditadura, que, neste momento, têm Guaidó como cabeça, e que é o Presidente da Assembleia Nacional (Parlamento). Isto é, há um Parlamento eleito democraticamente. Estranha ditadura… que chegou com Chavez, Presidente eleito em todas eleições a que concorreu , e reconhecidas por todo o mundo como tendo sido livres e limpas. Portanto, na Venezuela, não houve e não há uma ditadura.
Existe na Venezuela dois poderes – o que decorre da Assembleia Nacional que se opõe ao campo político de Nicolas Maduro e o que emana de Maduro, recentemente eleito, e cujas eleições são contestadas pela oposição venezuelana e sobretudo por Trump, a que mais tarde se juntou a U.E.
Não há ninguém com o mínimo de honestidade intelectual que não aceite que a crise venezuelana para além da incompetência e dos erros da ação governativa enfrenta pressões, ingerências e até um embargo dos EUA àquele país, tanto mais quanto os E.U.A. decidiram aplicar sanções às empresas que façam negócios com as petrolíferas venezuelanas. É para vergar o regime pela miséria que se juntam os que querem as riquezas daquele país.
A Venezuela é o país com as maiores reservas petrolíferas, e sabe-se por experiência trágica vivida na Iraque o quão forte é a gula daquele país por países com petróleo.
Trump, o nacionalista, o que só quer a América Grande, afinal também quer a Venezuela e na sua desbragada linguagem não descarta enviar tropas e a esta ameaça Guaidó olha para o céu, esperando que os tropas venham derrubar a estátua de Chavez, e que alguém em Portugal volte a comparar a invasão agora da Venezuela com o 25 de Abril de 1974…
Mas este estranho e paranoico mundo nem sequer dá conta que se está a falar de um país em que há eleições… e milhares de manifestantes nas ruas…
Olhemos para outro país riquíssimo em petróleo, a Arábia Saudita. Aqui as eleições são, à luz de teoria sunita made in Casa Real, uma heresia. A realeza saudita encarna uma espécie de poder divino que não se compadece com a sorte dos cidadãos, é a Casa Real que sabe, decide e impõe.
Pois, neste país não só não há qualquer vislumbre democrático como os seus dirigentes assassinam friamente os seus opositores, mesmo noutros países, e impõem uma guerra destruidora num pequeno país do Golfo, o Iémen, para esmagar a revolta dos hutis, árabes muçulmanos da corrente chiita.
Comparemos a desfaçatez destes senhores do mundo que se puseram de cócoras face à Arábia Saudita quando os seus dirigentes encomendaram o hediondo assassinato do jornalista Khashoggi, designadamente a pequenez do senhor Pedro Sanchez, que manteve a venda das fragatas aos senhores feudais da Arábia Saudita, mas que agora altivamente se colocam ao lado de Trump contra Maduro.
O problema não se coloca de apoiar ou não apoiar Maduro, mas com Maduro e todos os outros venezuelanos, incluindo Guaidó, encontrar saídas, que respeitem a soberania do povo venezuelano.
Portugal tem um Ministro dos Negócios Estrangeiros que nesta crise mais se parece com um galaró do que com um chanceler que respeita um país onde trabalham centenas de milhares de luso descendentes e quer ser respeitado nas atitudes que toma.
Rui Rio, ao apoiar o governo nesta matéria, fazia-o, disse, porque Portugal estava do lado dos mais fortes e, portanto, um pequeno país como o nosso lá vai como a maria-vai-com-as-outras.
Um país como o nosso não se deve pôr em bicos de pé, dar ares do que realmente não é, visando agradar aos poderes dominantes, desprezando posições que realmente podiam dar a Portugal outro protagonismo e outra capacidade na defesa da imensa comunidade portuguesa na Venezuela e das futuras relações com aquele país.
Essa postura a juntar-se à do grupo de contacto do Uruguai, México e outros, e à do Papa, ajudaria a criar novos posicionamentos que contribuiriam para uma saída menos dolorosa da crise.
Portugal calou-se covardemente diante de um país que nem às mulheres deixa sair à rua e que assassina e faz desaparecer o cadáver de Jamal Khashoggi. Põe-se agora a falar de cima do capoeiro, como se vozes de garnisé chegassem ao céu…
Chavez foi um amigo de Portugal, com quem foram realizados negócios bons para os dois lados, um Presidente democraticamente eleito e que ganhou em eleições livres e limpas. Não instaurou uma ditadura, nem defendeu ditadores como fez Bolsonaro. Para que conste. A ditadura fria, cruel, absolutista está em Riad de onde Trump e os líderes europeus enchem os bolsos com os triliões de dólares da venda de armamento.

O estonteante percurso de Marcelo até ao céu

Um homem é sempre um homem, seja na sua mais simples cidadania ou no exercício da mais alta magistratura. Tem sempre atrás dele um percurso que marca a sua personalidade. A coerência é uma qualidade que distingue aquele que apresenta uma marca indelével daqueloutro que se apresenta aos concidadãos girando em função dos interesses circunstanciais.
Trump, por exemplo, adverte que as suas declarações não são para ser levadas à letra, o seu significado é diferente daquilo que semanticamente se encontra na declaração.
Quando um homem diz, na sua qualidade de mais alto magistrado da nação, que se recandidatará ao cargo que exerce por ser aquele que está em melhores condições para receber o Papa, entra no caminho, tantas vezes condenado nos Evangelhos, da mais pura hipocrisia.
Na verdade como se pode saber que homem estará em melhores condições para receber o Papa?
O Papa é Chefe de Estado e é, segundo o catolicismo, o representante de Deus na Terra.
Vindo como Chefe de Estado, o que importa é o que as relações entre os dois Estados saiam reforçadas. Ninguém acreditará que o Presidente da República portuguesa não receba da melhor maneira o Chefe de Estado do Vaticano.
Se fosse possível imaginar o Papa em Portugal apenas como mais um católico quem poderia dizer, sem soberba, quem seria o que melhor para receber Francisco? Aquele que mais pudesse oferecer ou quem desse o que tinha, como a viúva referida nos Evangelhos que depositou na caixa das esmolas as duas moedas menos valiosas, mas que eram as únicas que tinha?
Em 2022 realizar-se-ão em Portugal as Jornadas Mundiais da Juventude Católica com a presença do Papa, que serão seguramente enquadrados nas excelentes relações existentes entre Portugal e o Vaticano. Serão um enorme evento, mas não deixarão de ser para o Estado português um acontecimento de caráter religioso. No entanto, a presença de tantas centenas de milhares de jovens e do próprio Papa terá um elevadíssimo significado e como tal será devidamente encarado.
A afirmação de Marcelo quanto à sua recandidatura, no momento do anúncio do país escolhido para acolher as Jornadas de 2022, constitui uma argumentação rasteira que exigiria, face à importância do evento, uma outra elevação de espírito.
É algo, em termos de honestidade intelectual, que raia a pouca vergonha, pois o que Marcelo está a querer dar a entender é que ele é o único capaz de receber o Papa … Marcelo confunde o seu beatismo católico com o cargo de PR, o que é muito grave. Habituou os portugueses, ao longo da sua vida política, aos mais estonteantes ziguezagues, ao sim e ao não sobre a mesma realidade, chegando, o ano passado, a fazer depender a sua recandidatura do modo como o governo resolveria as falhas do Estado… O que lhe chega ao toutiço, às vezes, sai cá para fora.

O facto de Marcelo ser católico não lhe dá nem lhe retira qualquer vantagem quando reunir enquanto Chefe de Estado com o outro Chefe de Estado, neste caso o do Vaticano, e o PR de Portugal deverá pautar a sua conduta nos exatos termos de artigo 41º da CRP, designadamente o nº4 …”… “As igrejas e outras comunidades religiosas estão separadas do Estado e são livres na sua organização”…
Para receber como deve ser recebido o Papa não é preciso que venha ao de cima a confissão religiosa do Chefe de Estado português, basta atentar no modo como Mário Soares, Jorge Sampaio e Cavaco Silva os receberam.
Proclamar ser candidato a PR pelas razões expostas é algo muito feio, que convoca o que de mais primário pode haver em quem professa a religião católica e disso quer tirar vantagem.
Só a perda da noção da realidade material do mundo em que vive, substituindo-o por outro mundo virtual, onde o que se passa na cabeça de Marcelo é apenas realidade populista, capaz de o lançar num mergulho no Tejo ou numa viagem de camião, explica o destempero beático de sua Excelência o Sr. Presidente da República.
Um homem capaz das mais variadas artimanhas para continuar a ser o que sempre foi é a marca indelével de Marcelo.

Incontinência ou vampirismo?

As funções do Presidente da República estão bem definidas nos artigos 120º a 140º da Constituição da República. O que vale dizer que não podem ser inventadas, segundo o gosto de cada íncola do Palácio de Belém.
No quadro político-constitucional o Presidente da República não tem poderes executivos.
Nomeia o Primeiro-Ministro. Pode demitir o governo, dissolver a Assembleia da República e presidir ao Conselho de Ministros, sob proposta do Primeiro-Ministro.
Por isso, o Presidente da República deve deixar o governo governar e só intervir caso considere uma situação verdadeiramente anómala, tanto mais quanto o governo responde perante a Assembleia da República, de onde lhe vem a legitimidade democrática. Tal não significa que não se pronuncie sobre a vida política.
Quando o PR se afirma no exercício do seu mandato opinando sobre as matérias que estão em discussão na ordem do dia, ultrapassando os próprios titulares governamentais, cria distorções no equilíbrio dos vários poderes.
A tendência de aparecer, sobretudo na televisão, todos os dias, muitas vezes para dar conta da sua preocupação com assuntos que não há ninguém de bom senso que não esteja preocupado, cheira a vampirismo político.
Marcelo não pode desconhecer que a vida dos camionistas é dura. A ninguém passará pela cabeça que a vida profissional de um mineiro não é dura. E o mesmo se dirá dos homens que trabalham no fundo das pedreiras. A vida de um padeiro ou de um homem da limpeza das ruas ou das fossas não é pera doce, ou a de um piloto de aviões, pelo grau de responsabilidade.
O Presidente só conhecerá a verdadeira natureza de cada profissão mais dura se passar a fazer uma viagem com um camionista, se descer à mina durante um dia de trabalho, se “pilotar” um avião com um comandante, se passar um dia com um varredor das ruas ou com um limpador de fossas? E só saberá se os coletes amarelos mobilizam muita gente passando na manifestação, sendo notícia? E passando no estabelecimento prisional de Lisboa na altura de protestos quando há notícias em direto?
Quando Marcelo apanha boleia com um camionista alegadamente para chamar a atenção para a dureza da profissão ter-se-á apercebido de quantas profissões estarão em lista de espera? E se se apercebeu vai passar dias, meses e anos (até às próximas eleições) a fazer de conta que é enfermeiro, padeiro, mineiro, trolha, piloto, limpa chaminés, pintor de carros?
O titular do cargo de Presidente da República alertou na sua mensagem natalícia para o perigo do que designou populismo ou posturas eleitoralistas dos partidos, não havendo ninguém que não concorde com a ideia que numa campanha eleitoral a tendência é para facilitar as promessas, sendo certo e seguro que há alguns a prometer que batem todos os recordes …
Marcelo não está a prometer preocupações a mais, bem tendo consciência plena que cabe ao governo tratar do desgaste de cada profissão? Que pretende Marcelo? Levar a cabo um levantamento socioprofissional de cada profissão? Um levantamento sociológico? Ou ser notícia?
É intrigante esta atafona de Marcelo por aparecer diariamente a manifestar as suas preocupações. Não seria mais indicado que nas reuniões com António Costa exercesse com grano salis a sua magistratura de influência? Corre o risco de se banalizar a tal ponto que ninguém se importará com mais um mergulho ou mais uma preocupação ou mais um acompanhamento em direto de qualquer desgraça.
Entre uma rainha, como a da Inglaterra, que quase não fala e um Presidente que não se cala, a virtude está apenas na ida às urnas para eleger o Presidente; talvez, por isso, esta loquacidade marcelina.

Até passou na televisão…

A ideologia que vai ganhando terreno por todo o mundo tem tanto medo das suas próprias ideias que as esconde, declarando-se vazia de ideias, assetica.
Em suma, para esta desideologia, o que conta é o que cada um possui, pois todos podem ter o que quiserem, na base da nova doutrina liberal. Só os fracos, os que se excluem, os incapazes não alcançam o que pretendem.
As ideologias que se preocupam com a sociedade no seu conjunto são perniciosas. É preciso eliminá-las, tal como vêm proclamando Trump, Balsonaro, Orban e outros tantos.
A saúde, a educação, a justiça têm de obedecer ao primado dos mercados e serem entregues a quem souber tirar lucro.. O Estado é apenas uma grande empresa.
A beneficência dos poderosos, o seu deixar escorrer do topo da pirâmide para a base são a esmola que invocam, servindo-se dos Evangelhos.
O Estado mínimo é, por exemplo, no caso do Brasil, a atribuição aos cidadãos de umas quantas armas para que se possam defender. O cidadão é inimigo do cidadão, todos contra todos, ficando o Estado a intervir para proporcionar negócios aos que podem com o seu poder económico fazer o país andar.
Esta conceção ideológica passa também pela utilização da televisão para veicular doses cavalares de ingredientes de anestesia da consciência social, da pertença a uma profissão, a um território e até a uma identidade.
Para tanto o importante é absorver tudo que impeça de pensar o futuro em conjunto com os seus concidadãos. O que interessa é ingerir o que o rodeia, sem compreender a razão dos problemas.
Pela televisão entra tudo: fogos, desastres, corrupção, futebol, telenovela, noticiários, pesca, caça, touradas, o que for, sem ser preciso mergulhar no mundo podre circundante. Esse é o mundo das ideologias. O que conta é a realidade sem filtros, sem ideologias, dizem.
A televisão analisa o caso jurídico e dá a sua sentença; não perde tempo, como nos tribunais. Os tribunais buscam a verdade material, a televisão audiências e lucro.
Quando se diz que o “caso” até passou na televisão está claramente a assumir-se (consciente ou inconscientemente) que o que não passa na televisão, não existe.
Passa a desgraça das pedreiras de Borba, dos fogos, os meninos encerrados numa gruta da Tailândia, a queda de um avião e a explosão que o futebol proporciona.
Pode saber-se o que aconteceu à família de Ronaldo ou de Messi. Que interessam as desgraças do vizinho ou do companheiro de trabalho. Isso não releva. São os que têm uma “vidaça” que fazem inveja a qualquer um. Essas são vidas que passam na televisão.
É esta a ideologia que levou Trump a desfazer o pacote de saúde que nos EUA permitiam aos cidadãos fazerem seguros de saúde para acederem aos hospitais. Com Trump só entra no hospital quem puder. O Estado tem de ajudar os mais fortes, os que sabem dirigir a sociedade, tal como dirigem as suas companhias.
Paradoxalmente os corifeus da desideologia prosseguem a sua campanha ideológica. Para que não se pense. Para que se absorva. Para que os cidadãos não passem de lorpas. Pensar é que nunca.

Marcelo surfista na crista do canhão da TVI bateu Macnamara

Na mensagem de Ano Novo Marcelo convocou os portugueses a participarem nas eleições que se vão realizar este ano, destacando o seu significado mais profundo em termos de escolhas para o futuro.
De facto, em 2019 realizar-se-ão três atos eleitorais. Seria adequado, dado que as próximas são já em maio, que os partidos políticos, os media e os portugueses estivessem minimamente interessados nos programas e ou propostas dos que serão candidatos. Ainda mais incentivados pelo vibrante apelo do PR.
Os portugueses, no início deste ano, já tinham sido sacudidos da sua letargia decorrente das festas natalícias por uma tempestade de ideias que jorraram da entrevista da TVI a Mário Machado, especialista em mecenato, e da esperada e desesperada estreia na SIC do programa da Cristina Ferreira, após as suas férias de sumptuoso luxo nas Maldivas.
A nossa Lady Di escolheu para a glamorosa estreia o inebriante Luís Filipe Vieira que se apresentou bem-disposto a jogar à bisca com a senhora.
E para que ninguém tivesse dúvidas acerca da importância daquele conclave a dois, juntou-se via telefone Marcelo que intervalou no meio de uma reunião para desejar as maiores felicidades à fugitiva da TVI.
Em boa verdade qualquer reunião (salvo se outros forem os regulamentos) é passível de um intervalo.
Aceita-se assim que Marcelo intervale. Como não fuma, dado o seu frenesim, aceita-se também, em ano com três eleições, que ele, na esteira da sua mensagem de Ano Novo, entre nas discussões relevantes, não tivesse deixado sozinhos os dois grandes pensadores da manhã da SIC.
O programa foi marcado por uma revelação totalmente inesperada – a promessa de Luís Filipe Vieira de ter um novo treinador que poderia ser Mourinho que só o soube pela imprensa. Explicou a mágoa pelos lenços brancos e, qual adivinho, augurou que os benfiquistas ainda se vão arrepender de ele (Vieira) ter mandado o Vitória para as areias quentes da Arábia Saudita. E deixou implícita a sua recusa em tornar definitiva a escolha provisória.
No outro canal Luís Goucha bem se tinha esfarrapado para passar a perna à Cristina ,tendo levado para o seu “programa” Mário Machado, conhecida personalidade do mundo da bondade, repleto de condecorações conferidas nas prisões por onde passou dada as opiniões controversas de sua autoria.
O ano tinha terminado (lembram-se?) com Marcelo a alertar para os perigos das disputas eleitoralistas e populistas, e começou o novo com o apelo ao debate sereno e cívico para defender o regime democrático.
Ora aqui estamos nós entre a SIC, TVI, RTP e CMTV ungidos por grandes debates acerca das condições em que os portugueses vivem, a importância do Parlamento europeu, as consequências do Brexit, o futuro da geringonça e as escolhas da Madeira.
O que vale o anúncio de três ou quatro novas estações de metro em comparação com a nova cláusula de rescisão de Eder Militão? Ainda se António Costa seguisse o conselho de Assunção Cristas e mandasse abrir vinte novas estações de metro…Resta-nos a saga da luta mortal entre Montenegro(nome de espadachim) e Rio, o conciliador.
Razão tinha Marcelo na sua mensagem…“Debatam tudo, com liberdade… Podemos e devemos ter a ambição de dar mais credibilidade, mais transparência, mais verdade às nossas instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar… “Et voilá, os grandes debates em curso, animados pelo mais alto magistrado da nação, mostram que a SIC, a TVI, a RTP e a CMTV, estão atentas. E daí esperar que continuem a levar grandes figuras aos seus écrans, muito futebol, a vida sexual e luxuosa dos famosos e seus escândalos, a explicação dos crimes, e muitos beijinhos de felicidades. Sem televisão os portugueses não saberiam escolher. Sem Marcelo que seria do surf? Bem hajam no país de tantos basbaques.

Bolsonaro, seu irmão? Ele mesmo?

A ideia de Marcelo ir à tomada de posse de Bolsonaro podia ser boa, mas foi péssima. Bastou passar dois ou três dias para ver que, apesar da “irmandade”, a ida foi um espalhanço monumental, uma daqueles falhanços que não é do Estado, mas sim exclusivamente do detentor do mais alto cargo político em Portugal.
Marcelo está habituado a lidar com o que se pode chamar uma agenda de superficialidades: aparecer preocupado com as situações alarmantes; rejubilante com as vitórias desportivas; ternurento com os infelizes; insinuante com os desafios eleitorais; superdesportivo a dar mergulhos em praias marítimas e fluviais; e sempre, sempre pronto para dar afeto, um primor, o special one…
A vontade de transformar vinte minutos (o tempo que o capitão Presidente lhe concedeu) numa vitória diplomática é um absurdo gritante. Houve um quinto tema – a visita de Bolsonaro a Portugal (que duvido que se concretize).
Ora vinte minutos, onde tratou de cinco temas- a comunidade portuguesa no Brasil, a comunidade brasileira em Portugal, as relações entre Portugal e Brasil a CPLP e a visita a Portugal de Bolsonaro, a dividir por cinco temas dá quatro minutos, o que significará que cada Presidente deverá ter falado entre dois minutos por tema, caso algum deles não se tenha remetido ao silêncio …
Ora esta reunião …”formal e substancialmente boa entre irmãos”… não pode deixar de ser vista, em termos meramente político-diplomáticos como um espalhanço monumental e daí a necessidade de Marcelo substituir factos por uma conclusão.
O que disseram (se é que disseram) é segredo, mas em todo o caso o mais importante foi a tentativa frustrada de Marcelo arengar que não podia ser melhor, chegando ao cúmulo de se lembrar que as reuniões entre irmãos são rápidas… talvez pairasse já na sua inteligência política o falhanço da ida assistir à indecorosa tomada de posse do Brasil por parte de Bolsonaro e seus capangas e que tresandava às alfurjas do fascismo.
Se dúvidas houvesse dissiparam-se, pois ainda Marcelo mal tinha aterrado em Lisboa e Bolsonaro dava o tiro de partida para a caça às bruxas no aparelho do Estado, os simpatizantes de partidos de esquerda vão ser despedidos … assim, por serem de esquerda. Os apoiantes da ditadura podem ficar, não são políticos. Os filhos vestem azul e as filhas rosa.
Salazar na sua odienta perseguição aos comunistas instituiu uma famigerada fórmula para assegurar a tal educação limpa, sem ideologia, que consistia na última pergunta aos candidatos a professores: Qual a razão do erro do comunismo? A resposta: o comunismo está errado devido ao egocentrismo da criança…
Ora como se vê esta é a educação limpa, sem vestígios de ideologia, que vigorou em Portugal nos tempos de Salazar e que Bolsonaro quer ressuscitar.
Ainda não se tinha recomposto da viagem e, no Brasil, Bolsonaro atacava os tribunais de Trabalho porque o cavernícola entende que para o trabalhador não há direitos laborais.
Quem se mete aos sorrisos com candidatos a ditadores fica mal visto. E se lhe chama irmão…
Como pôde Marcelo, Presidente de uma República laica, democrática, considerar irmão Bolsonaro que coloca Deus, no plano institucional, acima da Constituição, e tem no seu governo éne evangélicos, como um verdadeiro jiadista evangélico? E que acha que cada brasileiro deve ter duas armas? E que não houve ditadura no Brasil, nem tortura… Que falhanço, meu irmão.

Quem é mais famoso: A Cristina ou o Marcelo?

Todo o mundo sabe o quanto Marcelo se sente atraído pelos famosos, talvez porque tenha aceite o desfio introspectivo de se considerar o mais famosos de todos os famosos.
Tem parecenças com a Cristina Ferreira nos pinchos que dão; nos guinchos ganha ela.Nos pinchos ganha ele, apesar da idade.Ele está em todo olado a toda hora. Omnipresente.Cristina é mais de ir para paraísos de luxo e que ela entende deverem ser mostrado na suas contas. No fundo ela pensa que se não os mostrar ela não esteve lá. Só esteve porque os exibiu…É um modo de ser.
Uma famosa para o ser tem de exibir e exibir.
Pensemos em grande e interroguemo-nos: Que seria dos portugueses se a famosa da Malveira não mostrasse o luxuoso quarto onde dormiu nas Malvinas? Uma pasmaceira.
Marcelo não pode competir a esse nível. Já teve uns tiques com o Tio Ricardo Salgado a caminho das terras de Vera Cruz. Agora o mundo da presidência requer outra arte. Tem de ganhar nos afetos, nas preocupações e nas surpresas.
Quem havia de imaginar que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, ligaria de cima da sua “potestas” para dizer:- Olá Cristina, sabe quem fala? É o Marcelo, o Presidente, não me esqueci de si, e para que o Goucha não pense que o mar é só água, aqui estou eu a ligar para a SIC. Para mim SIC e TVI sempre. Aliás já avisei o país que lhe liguei, esteja descansadinha. Eu bem vejo a sua emoção; dê um abraço ao Filipe Vieira e já agora transmita-lhe se faz favor que um dia destes apareço na Catedral para lhe dar um abraço e ao barbas.Beijinhos, olhe diga-lhe que é melhor ao pé da Estátua do King.
Marcelo é quem é e não se imagina noutro lugar que não seja na primeira fila à frente, o mais famoso.Congemina a cada instante o instante que se segue; não falha.Ninguém o segura. Nada o detém. Nem o lado escuro da Lua. Já se ofereceu ao Presidente chinês para tripular a próxima nave.

A família e o lucro

No ar arrasta-se ainda o que resta da quadra natalícia e, como sempre, nela a família ocupa um espaço especial. É tradicionalmente o momento de invocação da importância da defesa da família.
A noção da família não foi sempre a mesma; a título de exemplo e para não recuar muito no tempo, na época do morgadio era diferente da gerada pela revolução industrial, e igualmente diferente da criada na globalização mundial.
Vale a pergunta se nos nossos dias o que conta é a família na sua plenitude como se defende ou haverá algo mais importante que a subordina.
A direita, no que toca à abordagem deste tema, proclama a todos os ventos a importância quase sagrada da família. A extrema-direita faz da família o alfa e o ómega. Bolsonaro, no discurso da tomada de posse, invocou a família a granel e exaltou as suas virtudes.
A igreja coloca a vida familiar no supremo altar dos valores, fazendo dela um núcleo essencial onde pretende apoiar-se, e daí a justificação do seu combate ao aborto, ao divórcio e à eutanásia.
Na grande maioria destas abordagens chocam as proclamações a favor da família e o modo como os diversos poderes dominantes esvaziam as bases em que ela assenta.
O mundo de hoje é marcado pela competição feroz em que o objetivo é garantir o lucro máximo que não se compadece com os problemas familiares de diversa ordem, tidos como menores face à magnitude da produção e da produtividade.
O novo Deus, o mercado, exige devoção, devendo os empregados terem presente que para aquele posto de trabalho está em fila de espera um vasto número de candidatos de mão estendida.
Com esta nova divindade chegou também a ideia que há direitos a mais. Os direitos adquiridos fazem, entre outros, dos funcionários públicos um bando de madraços, tornando-os ingratos, pois o que querem é ganhar mais e trabalhar menos.
A exigência cada vez maior aos trabalhadores por parte das entidades patronais não pode deixar de ter repercussões na vida familiar e até na queda da natalidade.
Se os horários de trabalho conjugados com o tempo gasto na deslocação para o local do trabalho ocupam grande parte do dia, a disponibilidade reduz-se a quase nada para a vida familiar que tende a secar por falta de combustível. Se há filhos passam a ser um pesado encargo.
A mulher é vista do lado na empresa como um encargo por causa da gravidez e do aleitamento.
A ideia de uma espécie de disponibilidade permanente choca com a necessidade de guardar energias e afetos para a vida em família. Se a sociedade vive em constante aceleração criando com os avanços tecnológicos novas dependências, em vez de libertações, os cidadãos estão a ser agrilhoados por estes novos avanços porque se soltam os ventos negativos da globalização que querem nivelar quem trabalha pelo mais baixo da escada.
Se a tudo isto juntarmos a deslocalização dos portugueses para o litoral, criando também graves problemas no domínio da habitação e no congestionamento da vida urbana, então, para além da disponibilidade para o emprego, há ainda a juntar as horas de vai e vem de casa para o local de trabalho.
Fazer filhos requer disponibilidade financeira e amor, o que nos tempos modernos só dá nas telenovelas. O que vale é que todos estão preocupados em defender a família…Só que uns colocam o lucro acima de tudo, mesmo falando da defesa da família. O lucro é a família dos mercados.

Marcelo, a ginginha e as eleições

Marcelo, o Presidente da República portuguesa, declarou, ao Jornal de Notícias de 24 de dezembro, no dia em que foi ao Barreiro beber uma ginginha ( não há nenhum português que não saiba que a ginginha é a sua bebida preferida desde a infância) que a campanha eleitoral começou mais cedo…
Marcelo tem uma perceção da realidade que vai muita para além do comum, pois a ninguém passaria pela cabeça que os partidos estivessem desde já preocupados com eleições e ele quando foi dirigente máximo do PPD/PSD jamais lhe passou pela cabeça ter em conta eleições cinco meses antes de elas terem lugar…
Marcelo, não está só preocupado com as campanhas antes do tempo, mas com tudo o que o rodeia, mas tudo mesmo – desde os enfermeiros aos camionistas, desde os coletes amarelos aos ferroviários, desde o INEM aos alfaiates, desde os estivadores aos professores e aos taxistas, mas o que mais o preocupa é o falhanço do Estado…Vive em sobressalto permanente por causa dos incêndios, das pedreiras, do furto do quartel de Tancos, do helicóptero que caiu em Baltar …
Marcelo tem cerca de dez milhões de preocupações que é o número de portugueses com que ele está preocupado, melhor dito, dada a quadra natalícia, preocupadíssimo.
Ele desmultiplica-se para chegar a todos os portugueses, mas claro dez milhões são qualquer coisa e não dá para todos, embora se lhe reconheça o esforço, como por exemplo, no mesmo dia em que foi visitar a Raríssimas foi à ginginha porque o Barreiro é a terra onde há ginjeiras por todo o lado; como se sabe por ordem do falecido Alfredo Silva.
Este estado de alma característico do nosso Presidente fá-lo lamentar-se e com toda a razão da gulodice dos partidos cinco meses antes das eleições europeias. É uma pena que não esperem mais três ou quatro meses…Não se contendo, o Presidente tinha de fazer o reparo, não fosse algum populista aproveitar-se e para que o terreno ficasse preenchido Marcelo ocupou-o, pois ele, como se sabe, não pactua com o populismo. Ele, diga-se em abono da verdade, não tem poderes para impedir que se lhe dirijam a pedir selfies, pedem-lhe e ele cede…Cede porque o povo é quem mais ordena tanto nas selfies como nos abracinhos e nos abraços que por esse Portugal inteiro ele vai espalhando, tudo para que o populismo não apareça.
Por essas e outras razões tinha de ficar espantado e chamar a atenção para o facto de a campanha eleitoral ter começado mais cedo.
Se os partidos fizessem como ele, não fariam campanha eleitoral como ele não fez.
Marcelo está de manhã à noite, todos os dias, nas televisões, nas rádios, nos jornais, preocupado com os portugueses. Para ele todos os dias são dias para aparecer preocupado. Quando chegarem as presidenciais ele não precisa de fazer propaganda. Só precisa de ir a um ou dois debates com uma caterva de candidatos que começam a campanha quatro ou cinco meses antes…