Aditamento de Última Hora à Biografia de Passos Coelho – Breaking News

A biografia de Passos Coelho ficou desatualizada em menos de quarenta e oito horas. De facto há novos dados que já estão a ser examinados pelo Vaticano.
Passos Coelho acaba de fazer um milagre: trouxe do reino da penumbra, muito próximo do Hades, para o reino dos empreendedores vivos, sem passar pelo interior, o ex-conselheiro de Estado, Dias Loureiro.
O MP que tinha o processo na Antártida não pensa pedir certidão das declarações do Santo Milagreiro e está a ponderar o tipo de promoção, o que fará até 2022 quando o Vaticano tiver resolvido o problema da canonização e o for buscar ao FMI, pois o Gaspar sozinho é um problema.
Está a formar-se uma fila de notáveis, numa das rotundas desse Reino da Penumbra, vindos do interior com Duarte Lima e Sócrates a acotovelarem-se…
Os tios e tias da Linha estão incrédulos com este relevo dado ao interior. Marcelo em protesto vai mergulhar no Guincho no pino do Inverno.
Isaltino confirma as falhas que já tinha apontado ao PSD: quem lá manda é do interior; infelizmente ele nasceu ao pé da Boca do Inferno.

Os Empreendedores São para as Ocasiões

Os rasgados elogios de Passos Coelho a Dias Loureiro são o exemplo de coragem a que nos habituou. Só lhe faltou elogiar a coragem de quem patrióticamente mantem no gelo do Ártico o processo, digo eu.

O defeito, em termos de coragem, não está nele; está em quem não tem a coragem que ele tem e faz de conta que ele não fala claro.

Ele disse depois de se ter guindado ao poder que vinha para empobrecer os portugueses. Ele é um Primeiro-Ministro para tornar os portugueses mais pobres, disse-o e está a fazê-lo.

Em várias ocasiões tem dito e levado a cabo um programa de enriquecer os mais ricos e entregar as riquezas nacionais aos multibilionários chineses, sauditas, cataris, franceses e americanos…

Tem defendido às claras que os salários são para baixar e os impostos sabre o rendimento também…Quanto menos ganharem os portugueses mais estrangeiros virão investir; provavelmente se trabalhassem pela comidinha ainda viriam mais, penso eu que não sou ninguém a pensar.

Tem atacado como ninguém até hoje a Educação Pública, o Serviço Nacional de Saúde, a Justiça para todos, e afirma perentório com a sua Luís Maria que quer continuar este programa…

Desassombrado dá conta ao país que o chefe da coligação com quem anda de braço dado a empobrecer Portugal e os portugueses lhe enviou um sms a comunicar a sua irrevogável decisão.

Do alto da sua carreira profissional na Assembleia da República que não sabia que era preciso descontar para a Segurança Social.

Ainda de acordo com essa carreira criou uma empresa com fundos comunitários- a TECNOFORMA- que tratava de aeroportos onde nunca poisou qualquer aeronave.
Este Primeiro-Ministro é obra a empreender; ele só podia elogiar Dias Loureiro. Os empreendedores são para as ocasiões.

O que é mais difícil de entender é que ele leva a cabo um programa de empobrecer os portugueses e de enriquecer os bilionários e num país pobre e de pobres, os pobres votem nele; se calhar querem continuar a empobrecer…

A Grande Arte de se Metamorfosear

O político mais versátil do globo terreste nem sempre é bem compreendido, dado andar muito à frente de todos os outros.

A sua capacidade de se metamorfosear deixa alguns animais roídos de inveja.
Há nele um instinto tão forte de voar mais alto que nem Ícaro ousou, apesar das asas.

É tão repentino no seu voltear que deixa desnorteados os inimigos, que tanto podem continuar a sê-lo como a passar para o campo dos amigos. Num lampo.

A sua arte é a onda. Nunca foi visto na Nazaré, mas há quem diga que se o Marcelo se mandou ao Tejo ingloriamente para derrotar o fleumático Sampaio, ele é bem capaz de tentar destronar o norte-americano MacNamara….Escondido na mota do outro Mota, sempre na crista.

Munido do seu instinto de se misturar com o pobre povo ele não recua e záscatrapás boné de faia na tola nas feiras que percorre a pregar contra o Estado açambarcador de impostos.

Atraído pela agricultura tanto é capaz de transformar uma senhora que já o era na juventude em Ministra da terra e mar e do ar como de beber de um só golpe uma tacinha do tinto mais carrascão.

Ele corre os Ministérios todos como quem corre em busca do inacessível El Dorado algures entre a Rua da Madalena e São Bento, que é um santinho amigo e não é como outro da Porta Aberta onde entra qualquer um.

A sua devoção a São Bento, o de Lisboa, que tem estalagem a seguir à Estrela, no sentido do rio, é tão sentida que o atual inquilino bem se precata do fiel ao santo, o que leva a mal entendidos que podem dar cabo da freguesia impreparada.
Animado da melhor das boas fé o inquilino deu conta em breviário editado pela Santa Zita da (in)capacidade do devoto se manter no andor face à crise de crença de São Gaspar em levar a cabo a dieta tremenda recomendada.

Tão lesto que não hesitou para que o chefe da banda soubesse à velocidade da fibra enviando-lhe um sms com a sua decisão irrevogável.

O que se não compreende é o porquê da revelação. Será da proximidade do dia 13 deste glorioso mês de Maio? Ou do crepuscular Outubro?

Alguns Aspetos da Justiça que Temos!

Partimos do pressuposto que a justiça é nas sociedades modernas uma instituição estruturante da coesão social, pedra fundamental para os cidadãos se sentirem iguais perante a lei.

O Estado ao chamar a si a realização da justiça, reprimindo a criminalidade e organizando a resolução legal dos conflitos cíveis, familiares, administrativos, fiscais e outros, deve ser capaz de fazer a máquina judicial funcionar adequadamente, ao serviço da cidadania.

Porém a justiça, em Portugal, funciona mal e é de difícil acesso. O que marca de sobremaneira o mau funcionamento é a sua lentidão no que se refere às decisões, sobretudo em primeira instância.

A estrutura em que assenta é deficitária em meios humanos e tecnológicos e instalações. Além disso o seu funcionamento é marcado pela inexistência de uma visão estratégica por parte de todos; cada um responde pela sua capela desligada da comunidade onde se insere.

Se os juízes vão encontrar nos tribunais de primeira instância falta de funcionários, más instalações, falta de gabinetes adequados, de salas de julgamento, de papel e de fotocopiadoras, quem é o homem ou mulher que se sente motivado?

Decorre da condição humana que são as circunstâncias que nos rodeiam que ajudam a forjar as características dos seres humanos.

Um ambiente dinâmico, adequado ao tempo, faz com que homens e mulheres respondam a esse nível, permitindo localizar os incapazes e incompetentes mais facilmente.
Sem juízes motivados, independentes a todos os níveis, incluindo a nível remuneratório, a justiça corre mais riscos que os normais.

A falta de meios serve para justificar tudo: o que tem justificação devido a essa falta, mas também o que resulta da preguiça e deixa-andar-não-te-rales.
Os funcionários, sobrecarregados devido à falta de centenas de colegas por recrutar, não se sentem minimamente recompensados com as remunerações que auferem e têm de ser pau para toda a obra.

A Reforma do Mapa Judiciário recentemente implementada paralisou durante mais de um mês e meio o Citius e vem afastando os cidadãos dos tribunais, obrigando-os a fazer nalguns casos, deslocações de dezenas de quilómetros para ir a tribunal. E coloca com toda a acuidade a questão da mercantilização da justiça encerrando tribunais com menos de um certo número de processos amputando o braço do Estado da realização da justiça.

A nível de tribunais de família e menores, nalgumas comarcas, a marcha dos processos tornou-se lentíssima com todos os prejuízos e descrédito em área tão sensível para a vida em comunidade.

Nos tribunais administrativos e fiscais é o caos. Anos e anos para se fazer um julgamento. É a palavra exata, salvo raras exceções que se encontram.

Numa sociedade em que os cidadãos vivem com medo de perderem o emprego, de não pagarem as prestações em dívida, dos filhos não terem futuro, de que lhes falte a reforma, de haver mais cortes nos vencimentos, de ficarem sem saúde, com medo do futuro, é péssimo que percam confiança na instituição em que nunca a deviam perder, a Justiça.

2. Os cidadãos enfrentam dificuldades crescentes para acederem aos tribunais e à Justiça.

Bem pode o artigo 20º da CRP proclamar que os cidadãos têm acesso ao direito e tutela jurisdicional efetiva, mas deixou de ser verdade. As custas não param de encarecer, impedindo os cidadãos de as poder pagar.

Os sucessivos governos têm vindo a dificultar o acesso ao apoio judiciário, mesmo que seja apenas na isenção de custas e outros encargos.
Passos Coelho, Portas e Mota Soares tornaram o acesso ao apoio praticamente para quem viva na rua ou debaixo das pontes.

Quem auferir rendimentos ao nível do salário mínimo nacional ou até inferior a esse montante já não tem direito à isenção de taxa de justiça e custas do processo.

Por outro lado, a taxa de justiça nas ações com valor superior a 250.000.00€ da taxa é a mesma seja qual for o montante, sendo o acerto feito a final.

3. Outro aspeto a ter em conta é a privatização da execução. Foram apontadas para a sua justificação, essencialmente, duas razões: a morosidade e a corrupção.

Porém se as execuções eram morosas, agora desde a privatização quase não mexem… a pendência é assustadora.

E quanto aos fenómenos de corrupção eles enchem as páginas dos jornais.
Tornou-se praticamente inviável para a maioria dos cidadãos irem a tribunal executarem sentenças.

Quem tiver sentenças onde lhe são reconhecidos créditos para cobrar na ordem de alguns milhares de euros tem de pensar muitas vezes.

Para assegurar o seu crédito pagará a taxa de justiça, a honorários devidos ao agente de execução que nem sabe quem é o credor, nem se tem dificuldades, nem se chora ou ri, e tem de pagar ao advogado que provavelmente já conhece da ação declarativa e que, por sua vez, conhece (in)capacidade económica do exequente…
A tudo acresce a dificuldade em saber se o executado tem bens, pois se o agente de execução não os descobrir, tal situação não isenta de ter de pagar ao agente de execução os honorários fixados em tabela …

Obstaculizando o acesso aos tribunais, colocando a sua localização a dezenas de quilómetros dos cidadãos, encarecendo as custas, privatizando a execução, é provável que a prazo a pendência diminua, à custa da cidadania. Mesmo assim…vamos ver.

E Onde Estava o CDS?

No dia 25 de Abril, na Assembleia da República, um dirigente do CDS, desafiava a que se respondesse à pergunta… onde é que tu estavas quando Portugal foi conduzido à bancarrota… e a troika foi chamada.

Na verdade ele há perguntas que nunca deveriam ser formuladas devido ao confronto que elas geram com a realidade.

O deputado do CDS pretendia, capciosamente, encostar o PS ao Memorandum, tentando, por via desse artifício, branquear o comportamento do seu partido na crise de 2011.

Basta dar leitura ao Público de 05/04/2011 e ler as declarações de Paulo Portas durante uma visita à Escola Secundária José Saramago a Mafra.

Disse naquela ocasião o atual Vice- Primeiro…”Farei uma campanha pela positiva, eu não entro no pingue-pongue entre PS e PSD sobre quem é que tem a culpa… “ da crise.

O Dr Portas e o CDS de então não queriam saber de quem era a culpa…”Estamos num atoleiro…”, acrescentava, mas sempre atirando a responsabilidade para cima do PS e do PSD…

Em campanha eleitoral o CDS não sabia de quem era a culpa. Mas soube logo que percebeu que o PSD ia precisar do CDS do sempre-em-pé-para-o-poder, correu a dizer- presente!

Antes com Durão Barroso, mas ainda antes por via do Limiano para servir António Guterres, mas muito, muito antes com Freitas do Amaral para dar corpo ao governo de Mário Soares…

O CDS está sempre na fila de espera, na ombreira de São Bento para entrar… É o seu destino.

Às vezes nas feiras, outras nos mercados, outras no chá das tias de Cascais, outras ainda no Abu Dabi. Ou no meio dos eucaliptais a deixar a União Europeia reduzir as nossas quotas no nosso mar. E tudo isto com ar muito sério, com o partido travestido de D. Sebastião, patriotismo e engraxadelas à alta finança, um hibrido entre o desabrido Pires de Lima e a camponesa Cristas.

O CDS não estará porque esteve sempre onde tinha de estar para aceder aos reposteiros dos palácios onde estão os intermediários do grande poder financeiro.

Por isso, não há português que não saiba que há sempre um boné, uma tirada, um copo de tinto numa feira, que o seu líder não seja capaz de usar para ser o que é.

Quem não se lembra dos brutais ataques do Dr Portas ao Inquilino de São Bento, o Sr Silva, hoje de Belém e tão incensado …

O CDS está e não está. Se for preciso está e passadas vinte e quatro horas não está. Irrevogavelmente.

Está com o PSD, mas se PSD se afundar, antes que o barco vá ao fundo o CDS telefonará para o Rato a dar conta da sua disponibilidade para fugir do cenário e a abrir outro ciclo.

O CDS está com quem está e com quem virá a estar. O guião é o do poder.

Pode perguntar-se a quem quer que seja onde estava em tal ou tal ocasião, mas ao CDS não vale a pena porque os portugueses sabem onde sempre esteve – na ombreira do poder à espera para ver se entrava…ou se entra…coligado com o PSD até ver.

Aquela Manhã de Abril

Quem espera sempre alcança ou quem espera desespera?

Quanto tempo se pode esperar? E quanto tempo o tempo nos obriga a esperar?

E quem espera como espera?

Havia um tempo de espera de um outro tempo que germinava dentro do próprio tempo.

Era um tempo negro, fundo e longo.

Um tempo apunhalado pelos que o queriam só para eles…Um tempo de angústia. Preso.

Entre a cidade e o céu livre estavam as grades que o tempo via calado apodrecerem. Os gritos, porém, ficavam encostados às paredes do tempo velho e a dar notícia do tempo novo.

Havia que esperar. Esperar. Esperar. Cavando na gruta o tempo vindouro.

Era, como já se disse, o tempo do medo. Mas o tempo da coragem que matava o medo nos olhos medrava no sangue dos humanos rios.

Numa noite sem medo, em vez do manto escuro, desceu à cidade a manhã cheia de luz, a manhã que se anunciava nas faíscas ao rés dos olhos sem medo.

Foi uma manhã crepuscular que ligou a luz do dia à dos noturnos incêndios no coração de todos os homens.

E os que não esperavam deram suas mãos aos que esperavam pela manhã e que por ela viram morrer os que não resistiram à dor da espera.

Eram as marés da incontida alegria que jorravam de todos os olhares e de onde se inquietavam as esperanças reais e efabuladas pelos sonhos tão antigos de Spartacus.

Os que esperavam, em abono da verdade, não sabiam bem como ela chegaria; nem sabiam se a amada liberdade viria na rósea aurora.

Se ao menos os que sucumbiram soubessem como havia de chegar a aurora da liberdade talvez o silêncio pesado da morte desse para que o último esgar desenhasse um sorriso nos lábios arroxeados, o sorriso que nós acendemos e eles não viram…

De tanto esperar a manhã, também ela cansada de tantas trevas vencer, veio e poisou no coração da cidade. Aclamada, ninada e beijada.

Há um tempo de espera. E há um tempo de colher os frutos desse tempo de espera. Haverá sempre as sementes de Abril. E um gaio livre a voar em Maio.

O Mediterrâneo-Ponte ou Inferno?

O Mediterrâneo, o grande lago, que separa a Europa da África do Norte e do mundo árabe, continua testemunha impávido e sereno do cruel destino dos homens quer na glória, quer na tragédia.

Os exércitos de um lado e do outro atravessaram-no vezes sem conta para arrasar o outro lado.

Assim se passou nas guerras Púnicas, nas expedições militares de Roma ao Egipto, nas invasões muçulmanas, nas cruzadas cristãs, nas conquistas britânicas e napoleónicas.

As águas do Mediterrâneo tudo engoliram desde as lágrimas dos vencidos ao sangue de todos os que pereceram fazendo do homem inimigo mortal do homem.

Foi preciso esperar pelo novo milénio para que os do sul, homens, mulheres e crianças, fugindo das guerras que varrem os seus países, sem qualquer arma, apenas com a andrajosa roupa morram, no mar, vítimas de todo o tipo de desgraças.

A magnitude da tragédia atinge semelhantes proporções que os governantes europeus fazem de conta que desconhecem o que levam aqueles seres humanos a fugir do inferno para terminarem noutro inferno.

Foi a invasão do Iraque quem destruiu o país, as infra estruturas, e levou as diferentes comunidades a pegarem em armas umas contra as outras.

Foram os bombardeamentos da Líbia que levaram ao linchamento de Kadafi que fizeram da Líbia um país sem lei.

Foram os apoios aos jiadistas na Síria que criaram as condições para que o Estado Islâmico substituísse o vazio no terreno quer no Iraque, quer na Síria, quer na Líbia.

São milhões os que fogem às perseguições à fome, à guerra, à morte. Morrer nos bombardeamentos, às mãos dos jiadistas ou nas águas do Mediterrâneo faz assim tanta diferença?

A França e a Grã-Bretanha envolveram-se militarmente em ações contra os países de onde provêm os refugiados, não podendo ignorar que essas ações iriam provocar destruição e consequentemente fugas das populações.

Não cabe, a não ser por mero exercício de hipocrisia, manifestar estranheza, espanto (até) pelo facto de haver quem fuja à guerra que parte da Europa leva ao mundo do sul, lá onde a maioria da população tem entre um ou dois euros para viver por dia.

Pode imaginar-se que as populações sujeitas à mais cruel violência que é a guerra ou à mais brutal perseguição político-religiosa por parte do Estado Islâmico não fujam em busca de sossego?

Foi derrubado o Muro de Berlim que impedia a livre circulação dos que viviam a leste, mas rapidamente outros muros se ergueram a separar a fronteira dos EUA do México, entre o sul e o norte da Coreia, entre Marrocos e os combatentes da República Árabe Sahouri…

E agora este muro de água onde diariamente morrem crianças, mulheres, homens em busca de um pedaço de terra onde possam viver sem guerra.

Os que fazem da guerra uma arma para se apoderarem do petróleo, do gás natural, dos fosfatos, do zinco são tão responsáveis por esta situação como os ditadores, os verdugos do ISIS ou outros sejam reis, emires ou sultões.

A invocação dos valores universais dos direitos humanos, da liberdade e da democracia para bombardear países e regiões dá causa a estas tragédias e ao repúdio de jovens que não se encontram no ocidente um lugar decente para viver e que no sul faz ressuscitar uma identidade que se materializa na oposição ao mundo ocidental.

Só uma sociedade de tolerância, capaz de acolher os perseguidos e de levar cooperação ao outro lado do Mediterrâneo poderá fazer de todos os países ribeirinhos um mundo onde se possa viver.

Não adiantam Cimeiras que não ataquem o problema de raiz, que não respeitem a integridade e a soberania dos países do sul, que não estabeleçam uma cooperação mutuamente vantajosa com esses países.

Os bombardeamentos sauditas ao Iémen, os apoios aos jiadistas, aos reinos obscurantistas do Golfo, farão o Mediterrâneo engolir mais milhares de inocentes e farão florescer todo o tipo de piratarias.

A Europa não pode ser a fortaleza inexpugnável que em nome do seu modo de viver se sente no direito de punir quem quer que seja.

Uma civilização de bombas e de maquinaria sofisticada de guerra gera inevitavelmente ensimesmamento dos países árabes e muçulmanos e procurar identidades retrógradas capazes de aliciar gente e jovens desorientados e sem uma vida minimamente decente para viver.

Esta Europa não se pode espantar do que está a suceder. Ela também ajudou à tragédia. Outra cooperação é precisa.

Anestesiar -Êxito do Governo

Quando se confronta o mundo real que é o Portugal dos nossos tristes e desesperançados dias com as declarações dos governantes há um mundo de permeio a separar as declarações e a vida que os portugueses carregam.

As principais figuras da governança acenam com êxitos e El Dorados do Minho aos Açores passando pelas Selvagens…

Aproveitando as comemorações da vitória de Portugal contra Castela na batalha dos Atoleiros, em Fronteira, Passos Coelho teceu loas à política do governo e ao programa da troika elogiando o estado atual do país.

Portas não se conteve e falou dos fundos europeus e dos 97% de utilização sem uma palavra a quem se destinam. Tenha-se presente o tempo dos dez anos de Cavaco a distribuir fundos.

A Sra Ministra das Finanças encheu os cofres do Estado e nem sabe como esvaziá-los tal é a montanha de euros que de repente fez nascente naquele Ministério que habitualmente serve para “perseguir” os portugueses que não são da lista VIP.

Os troikanos de Bruxelas, Berlim e Washington alegam que as suas receitas de cura resultaram e o país está “fixe”.

Porém os dados estatísticos de hoje são claros: há mais duzentos e dez mil portugueses em risco de pobreza do que em 2010; sendo que naquela data um em cada quatro portugueses estava em risco de pobreza.

Também hoje foi anunciado que há cerca de três mil e quinhentos camas a menos nos hospitais públicos e duas mil a mais nos privados.

Ainda hoje foi anunciado que a indústria da restauração continua o curso de falências e há menos quarenta e quatro mil empregos no setor.

Passos, Portas, Maria Luís e até Cavaco correm o mundo a vender o que melhor há em Portugal a preços baratos e oferecendo gente pobre a ganhar pouco. Competividade oblige, n’est pas?.

Há entre esta gente que governa e o país um fosso brutal. Vivem da realidade mediática. Cada um fechado no seu televisor não sabe mais do aquilo de que o inundam. Há uma anestesia descontrolada a curto circuitar a mente das portuguesas e dos portugueses. É essa a verdadeira política deste governo: punir-empobrecer-anestesiar. Eis o êxito.

O Mundo

UCRÂNIA

Na Ucrânia, ocidentalizada à força e apoiada com o fornecimento de armamento letal pelos EUA, OTAN e Cª, quando decorria um Conselho de Ministros foram algemados e vistos em direto pela televisão, que estava à espera na sala do Conselho, dois altos responsáveis dos serviços de segurança, por terem comprado equipamento à Rússia a preços mais elevados que os do mercado.

Como se sabe, embora tivesse um presidente eleito, tal como no Iemen, foi derrubado e há um novo governo.

É este novo governo que organiza uma cena, digna do Padrinho, como a que se passou na reunião do Conselho de Ministros.

Os polícias entram na sala do Conselho, dirigem-se aos fulanos que vão ser presos, puxam das algemas, colocam-nas e saem … sem palavras…faltaram as palmas.

Só se “sabe” pelas notícias que os alegados criminosos compraram ao inimigo equipamento, mas quando compraram? Antes ou depois do golpe? E os governantes souberam agora?

Do que não pode haver dúvidas é que os Conselhos de Ministros na Ucrânia também servem para algemar suspeitos da prática de compras produtos à Rússia mais caros que no mercado.

Imagine-se o que seria no Palácio de São Bento entrarem inspetores da PJ para prender ministros que permitem privatizações a preços muito mais baixos que os do mercado…

Ou ainda para constituir arguidos ministros que por serem imperfeitos apresentam no seu curriculum várias infrações, incluindo por esquecimento …

IEMEN

O Iemen teve o azar de ter sido plantado ao lado de um grande vizinho, onde reina um dos reinos mais obscurantistas do planeta. Vizinho de um conjunto de países onde Reis, Emires, Sultões e outros da mesma estirpe que, à custa do poder dos petrodólares, entendem que em todo o Golfo e na Península não deve mexer nada, nem um palha, tudo deve ser como era, e qualquer ideia ou ato que mexa no status quo deve ser abafado custe o que custar.

O Presidente Hadi, um sunita, chegou ao poder após uma rebelião contra o anterior.

Aliás no Iemen as rebeliões são quase permanentes, dada a base tribal em que assenta o país.

À grande Arábia Saudita só lhe interessa que o Iemen não saia da sua órbita; girar pode girar, mas qualquer giro, por exemplo, que dê aos chiitas algum poder não é tolerado pela monarquia da casa Saud, nem pelo seu aliado maior, os EUA.

E não foram precisas mais que vinte e quatro horas para que os aviões sauditas, cataris, omanitas e outros apoiados pelos EUA fossem bombardear Aden e outras cidades no sul do Iemen … É assim a lei dos sauditas e dos norte- americanos.

Quando os amigos estão em apuros podem organizar invasão de países estrangeiros à vontade, mesmo quando o problema é interno e deva ser resolvido pelo povo do país em causa.

Certamente que para a Arábia Saudita os chiitas são um perigo porque muito provavelmente a minoria chiita existente no reino, injustiçada pelo poder sunita, perseguida, não pode na região ter qualquer protagonismo que possa levar a mudanças no próprio reino e daí a invasão apoiada pelos dirigentes cristãos dos EUA.

Não há dúvidas que os namoros dos EUA com Israel (paixão) e a Arábia Saudita podem ter amuos, mas na hora da verdade, caem nos braços uns dos outros, apesar de Israel impedir a criação do Estado da Palestina e a Arábia Saudita se encontrar na baixa Idade Média no que toca a direitos humanos …

Saddam Hussein ou o coronel Cadafi eram perigosos reformadores se comparados com os dirigentes sauditas.

PORTUGAL

Afinal a lista existia. Era curtinha, mas existia… e quem lá estava: os três da vigairada, mais o Sr. Dr. Núncio.

Apesar disso o que Passos pretende fazer crer é algo de verdadeiramente notável: que ele, Primeiro-Ministro, não sabia que os responsáveis das Finanças, preocupados com o que se passava quanto à busca de dados da vida fiscal dele Primeiro-Ministro, decidissem para o proteger (sem o seu conhecimento) criar para ele, o seu vice e o representante do Governo em Belém, uma lista para dar sinal quando alguém quisesse aceder à vida fiscal deste triunvirato. Claro que para amenizar a “coisa” os funcionários meteram na lista o seu Secretário de Estado … E em vez do triunvirato temos uma lista como um retângulo, com quatro lados e quatro governantes.

E ninguém sabia de nada. Nem o Núncio, nem o Portas, nem o Coelho, nem o outro que devia estar onde sempre estava, a pensar em campanhas eleitorais.

Não havia lista, havia, mas não havia, havia mas ninguém sabia, havia mas os dirigentes da autoridade é que sabiam, mas finalmente havia e quem lá estava era o Primeiro, o vice, o de Belém e o Núncio … e nenhum destes sabia, graças ao zelo da Autoridade Tributária que escondeu este procedimento de toda a gente … francamente.

Com estes exemplos que país temos?  De infâmia!

ISIS e o futuro do Médio Oriente

As transformações que varrem o Médio Oriente e parte do Magrebe constituem algo ainda indeterminado, mas que altera os quadros de análise e da correlação de forças.

O aparecimento de um novo Estado, em parte de territórios do Iraque e da Síria (o denominado Estado Islâmico, o ISIS), com capacidade para alargar o seu território para outros países é algo tão novo que subverte totalmente os princípios do direito internacional, na medida em que o Iraque e a Síria têm as fronteiras reconhecidas por toda a comunidade internacional.

A realidade emergente, a ser consolidada, significará, na região, que para futuro a integridade territorial dos Estados passa a ser problemática e a partir do território de um Estado podem nascer outros, sem que haja qualquer situação anterior que o justifique. Acresce que a conceção do ISIS, que denomina de califado, de limpar etnicamente todas as outras crenças religiosas, incluindo muçulmanas, é algo que irá transformar de modo imparável a composição dos países na região.

Na verdade, coexistiram ao longo de séculos dentro dos países do Médio Oriente minorias diversas com maiorias muçulmanas no Iraque, no Egito, na Síria, na Líbia e um pouco por todo o lado. No Iraque saído da ocupação militar dos EUA deixou de haver lugar na administração para os sunitas, demonstrando o mais completo erro de análise da situação iraquiana. Na Síria, Assad nunca morreu de amores pelos sunitas, maioritários, dado que, tal como o seu pai, pertence a uma comunidade minoritária, os aluitas.

A guerra civil na Síria, onde os sunitas são o bastião principal, desde logo o ISIS e a Al Nusra, irá levar, caso vençam, à purificação étnica, como se está a verificar. Os cristãos do Iraque e Síria estão a ser perseguidos, expulsos e assassinados, tal como outras minorias, incluindo muçulmanas.

A decapitação de 21 cristãos coptas na Líbia, o ataque num museu em Tunes e os ataques suicidas em Sanaa são o espelho fiel do manto de horrores do ISIS. O ISIS foi gerado pelo terror da guerra. O seu mundo gira em torno da violência.

Estas organizações foram buscar apoios a diversos quadrantes que são chocantes: para derrotar os sunitas no Iraque, George W. Bush aliou-se aos xiitas, entregando-lhes o poder. No Afeganistão, para derrubar o regime laico, armou Ossama Bin Laden e os talibãs. Nestas decisões contaram com todo o apoio da Arábia Saudita e do Paquistão. Aliás, estes dois países estão por detrás do apoio aos jihadistas do Afeganistão e do Iraque, Síria e Líbia.

O armamento que os EUA, a Arábia Saudita, Qatar, Turquia enviaram para combater o regime de Assad caiu nas mãos do ISIS e a Al Nusra, seja por via do poder de compra ou por meio da violência.

A Turquia e os EUA selaram um acordo para fornecer armamento ao chamado Exército Livre Sírio, nos finais de Fevereiro, mesmo depois de tudo o que se está a passar na região e bem sabendo que não há de momento qualquer alternativa a Assad, tanto mais quanto domina 13 das 14 capitais provinciais.

Se a política dos EUA, França, União Europeia e os seus aliados na região é desestruturar Estados, lançá-los em devastadoras guerras civis, levá-los a territórios etnicamente puros a viver com leis e tradições do tempo do califado, não pode haver dúvidas que o caminho é este. Mais ou mais cedo o Egito, a Tunísia, a Jordânia e o Líbano entrarão no ciclo de transformações idênticas.

Dos 19 piratas aéreos que assaltaram os aviões no 11 de Setembro, 15 eram sauditas. Nem um sírio, nem um iraquiano. Os atentados terroristas de França e Dinamarca foram levados a cabo por franceses e dinamarqueses.

É preciso um novo enfoque que não passe apenas pela mensagem das bombas, nem sobretudo por bombardeamentos, mas sim por uma abordagem que resolva problemas que parecem não ter solução por falta de coragem e por comprometimento. As declarações de John Kerry admitindo finalmente que Assad é parte da solução podem vir a ter peso numa saída para a crise na Síria.

Sem a Palestina independente e uma nova cooperação baseada no respeito mútuo e reciprocidade de vantagens e na Europa uma verdadeira integração dos emigrantes, não há resposta ao jihadismo. Haverá mais do mesmo em novas doses de terrorismo.

(texto publicado no Jornal Público de 25/03/2015)