O MEDITERRÂNEO-PONTE OU INFERNO?

O Mediterrâneo, o grande lago, que separa a Europa da África do Norte e do mundo árabe, continua testemunha impávido e sereno do cruel destino dos homens quer na glória, quer na tragédia.

Os exércitos de um lado e do outro atravessaram-no vezes sem conta para arrasar o outro lado.

Assim se passou nas guerras Púnicas, nas expedições militares de Roma ao Egipto, nas invasões muçulmanas, nas cruzadas cristãs, nas conquistas britânicas e napoleónicas.

As águas do Mediterrâneo tudo engoliram desde as lágrimas dos vencidos ao sangue de todos os que pereceram fazendo do homem inimigo mortal do homem.

Foi preciso esperar pelo novo milénio para que os do sul, homens, mulheres e crianças, fugindo das guerras que varrem os seus países, sem qualquer arma, apenas com a andrajosa roupa morram, no mar, vítimas de todo o tipo de desgraças.

A magnitude da tragédia atinge semelhantes proporções que os governantes europeus fazem de conta que desconhecem o que levam aqueles seres humanos a fugir do inferno para terminarem noutro inferno.

Foi a invasão do Iraque quem destruiu o país, as infra estruturas, e levou as diferentes comunidades a pegarem em armas umas contra as outras.

Foram os bombardeamentos da Líbia que levaram ao linchamento de Kadafi que fizeram da Líbia um país sem lei.

Foram os apoios aos jiadistas na Síria que criaram as condições para que o Estado Islâmico substituísse o vazio no terreno quer no Iraque, quer na Síria, quer na Líbia.

São milhões os que fogem às perseguições à fome, à guerra, à morte. Morrer nos bombardeamentos, às mãos dos jiadistas ou nas águas do Mediterrâneo faz assim tanta diferença?

A França e a Grã-Bretanha envolveram-se militarmente em ações contra os países de onde provêm os refugiados, não podendo ignorar que essas ações iriam provocar destruição e consequentemente fugas das populações.

Não cabe, a não ser por mero exercício de hipocrisia, manifestar estranheza, espanto (até) pelo facto de haver quem fuja à guerra que parte da Europa leva ao mundo do sul, lá onde a maioria da população tem entre um ou dois euros para viver por dia.

Pode imaginar-se que as populações sujeitas à mais cruel violência que é a guerra ou à mais brutal perseguição político-religiosa por parte do Estado Islâmico não fujam em busca de sossego?

Foi derrubado o Muro de Berlim que impedia a livre circulação dos que viviam a leste, mas rapidamente outros muros se ergueram a separar a fronteira dos EUA do México, entre o sul e o norte da Coreia, entre Marrocos e os combatentes da República Árabe Sahouri…

E agora este muro de água onde diariamente morrem crianças, mulheres, homens em busca de um pedaço de terra onde possam viver sem guerra.

Os que fazem da guerra uma arma para se apoderarem do petróleo, do gás natural, dos fosfatos, do zinco são tão responsáveis por esta situação como os ditadores, os verdugos do ISIS ou outros sejam reis, emires ou sultões.

A invocação dos valores universais dos direitos humanos, da liberdade e da democracia para bombardear países e regiões dá causa a estas tragédias e ao repúdio de jovens que não se encontram no ocidente um lugar decente para viver e que no sul faz ressuscitar uma identidade que se materializa na oposição ao mundo ocidental.

Só uma sociedade de tolerância, capaz de acolher os perseguidos e de levar cooperação ao outro lado do Mediterrâneo poderá fazer de todos os países ribeirinhos um mundo onde se possa viver.

Não adiantam Cimeiras que não ataquem o problema de raiz, que não respeitem a integridade e a soberania dos países do sul, que não estabeleçam uma cooperação mutuamente vantajosa com esses países.

Os bombardeamentos sauditas ao Iémen, os apoios aos jiadistas, aos reinos obscurantistas do Golfo, farão o Mediterrâneo engolir mais milhares de inocentes e farão florescer todo o tipo de piratarias.

A Europa não pode ser a fortaleza inexpugnável que em nome do seu modo de viver se sente no direito de punir quem quer que seja.

Uma civilização de bombas e de maquinaria sofisticada de guerra gera inevitavelmente ensimesmamento dos países árabes e muçulmanos e procurar identidades retrógradas capazes de aliciar gente e jovens desorientados e sem uma vida minimamente decente para viver.

Esta Europa não se pode espantar do que está a suceder. Ela também ajudou à tragédia. Outra cooperação é precisa.

domingos lopes

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