Justiça Precisa-se

A justiça é uma instituição cujo bom funcionamento assegura a paz e a coesão sociais. Ela é uma das pedras angulares numa sociedade que se funde no primado da lei e num Estado de direito democrático.

A realização da justiça está entregue aos tribunais e os juízes, em Portugal, como órgãos de soberania, aplicam as leis, em nome do povo.

A soberania reside no povo e é transferida para o parlamento por via de eleições. É o povo quem decide as suas escolhas eleitorais.

Os juízes obtêm a consagração como órgão de soberania por via do artigo 202 nº1 da Constituição da República…”Os tribunais são os órgãos de soberania para administrar a justiça em nome do povo…”

Por isso se diz que o poder judicial é independente dos poderes executivo e legislativo.

Mas para que haja verdadeira independência os magistrados devem, no plano material, ter uma remuneração que lhes permita assegurar essa independência. Uma retribuição digna é condição sem a qual a independência afraca.

Sem juízes que tenham uma vida digna, a independência do poder judicial não está tão segura.

Os juízes por via da sua Associação sindical têm manifestado uma genuína vontade de que esta componente da sua carreira esteja assegurada, pois os cortes do anterior governo foram uma machadada na vida da classe, aliás como na vida de todos os portugueses.

Os cortes inesperados e drásticos nos vencimentos dos magistrados e dos funcionários judiciais constituíram cada um deles ao seu nível uma afronta ao setor. Como a todos os funcionários públicos.

Na verdade, a política de austeridade contra os funcionários do Estado teve como objetivo atacar as suas funções sociais e levar a que elas sejam entregues a privados, remetendo a cidadãos para a procura de apoios nas instituições privadas cujo único móbil é o lucro.

Encarar a justiça pelo ângulo do lucro é um verdadeiro atentado aos mais elementares direitos dos cidadãos. A justiça é um investimento do Estado para assegurar que os portugueses se sentem protegidos, seguros e de verem solucionados os seus conflitos através da via mais avançada e moderna que é a do recurso aos tribunais.

O famigerado Mapa Judiciário implantado pelo anterior governo ia exatamente na direção de afastar a justiça da vida dos portugueses. E assim poupar.

Fechar tribunais sob o pretexto de pouca afluência aos mesmos significa que o Estado declara que aquelas populações não têm o direito a que a justiça se realize nas mesmas condições que a que realiza noutras comarcas.

Se Portugal tem o seu território a partir dos cinquenta quilómetros da costa em estado de abandono, salvo os centros urbanos, esta medida criava mais abandono onde quase só existia abandono.

Se hoje alguém doente precisa de certos meios de diagnóstico tem de andar setenta ou mais quilómetros para o realizar (mesmo que não tenha transporte ou não haja transporte), acontecia o mesmo com a justiça. Na nova Comarca de Évora havia quem tivesse de pernoitar em Évora para assegurar a sua presença no tribunal dada a falta de transportes. O mesmo sucedendo em Vila real, Bragança e outros centros populacionais com populações a dezenas de quilómetros e sem transportes que permitam ida e volta no mesmo dia e atempadamente.

Foram estes critérios economicistas impostos pela troica e aceites pelo governo de Passos e Portas que levaram a esta situação. Porém, forçoso é constatar que nos países da troica nada disto é praticado e as populações têm a justiça nas suas comarcas e a preços bem diferentes.

A correção que o governo de António Costa está a fazer devolvendo os tribunais às populações por vontade própria e dos seus parceiros de acordo governamental vai no bom caminho, sendo naturalmente preciso que no início do novo ano os tribunais fechados reabram e as populações a eles possam aceder, como qualquer cidadão de Portugal.

II

Vários governos, incluindo do PS, têm vindo a privatizar áreas da administração da justiça o que deixa a justiça mais longe dos cidadãos.

As justificações vão todas na mesma linha: excesso de pendência e número reduzido de magistrados e de funcionários judicias. As lógicas governamentais alegam junto de uma população enfraquecida na cidadania e nos vencimentos que a passagem de setores do Estado para a os privados levará à poupança de umas centenas de milhares de euros.

Esta argumentação esconde que passando para a mão dos privados são eles que determinam os preços a pagar pela realização da justiça deixando de fora os que não tiverem rendimentos para acederem ao que os “mercados” consideram ser-lhe o mais adequado à obtenção de lucro.

Basta para ter ideia da disfunção de funcionamento da justiça que as grandes superfícies e as instituições financeiras inundam os tribunais e expulsam os cidadãos na medida em para estes litigantes os preços já têm incluídos os gastos com as cobranças incumpridas.

Esta sobrecarga por parte das empresas de telecomunicações, grandes superfícies e financeiras junta-se o brutal encarecimento das custas judiciais e da privatização da ação executiva que deixou, nesta área, tudo paralisado.

Que importa a uma empresa que uma dívida de algumas dezenas de euros leve dois ou três ou muitos mais anos a ser cobrada…estão sempre a cair juros a uma taxa mais elevada que a dos bancos…

Há em linguagem simples e não assumida uma negação do acesso à justiça aos cidadãos com rendimentos baixos ou mesmo remediados através dos mecanismos supra referidos.

O Estado desvincula-se de certos serviços e entrega-os a instituições privadas deixando-os à mercê da sua ganância. São exemplos disso a privatização da ação executiva, a passagem dos inventários para os Notários, a abertura de tribunais arbitrais cujos honorários e custas a pagar são elevadíssimos, pois os árbitros têm vencimentos chorudos.

Têm sido divulgadas as condições sobrelotadas das cadeias portuguesas com todo o rol de doenças contagiosas que tal acarreta. Pois bem: um governo que se preze e respeite a finalidade das penas que são sempre a reinserção social e não a punição pela punição deve assegurar aos presos um conjunto mínimo de condições que lhes assegurem o respeito pela sua condição humana.

A própria Ministra da Justiça se mostra incomodada com a situação ou pelo menos é o que ressalta das suas declarações a este propósito. A justiça em si mesma para ser moderna e recuperadora dos cidadãos que cometeram crimes deve-lhes assegurar esse mínimo dos mínimos.

É preciso estar muito atento a este problema e ter os olhos postos no que tem estado a suceder em Manaus, no Brasil.

Quando a justiça falhar ou quando a crise a atinja de tal modo que a sua credibilidade se esvaia que nos restará para podermos viver em paz social? Quem serão os mais prejudicados pela falta de meios para se defenderem?

Nos EUA há prisões privadas e geridas por privados fora de qualquer controle a não ser penitenciário. As penas são duríssimas e concorrem com o Irão e a Arábia Saudita em execuções. Ainda há um Estado nos EUA cuja pena capital é executada por um pelotão de fuzilamento, sempre é mais avançado que por sabre como na casa da monarquia saudita.

Reparemos: apesar desta violência a criminalidade não baixa. A banalização da morte leva a que os criminosos a banalizem e a enfrentam, como provam as estatísticas.

Os países que aboliram a pena de morte são aqueles cuja a criminalidade é mais baixa e que têm maior nível de vida e de desenvolvimento educacional são os que têm uma taxa de criminalidade mais baixa.

Por isso a extrema-direita e os populistas de todos os matizes querem enfrentar certos problemas socias reprimindo e penalizando com penas muito mais duras.

É fácil dizer: matem os criminosos. Haverá sempre quem pense que essa é a solução. Se voltassem as fogueiras da Inquisição quantos não iriam ver a morte em direto? Quantos programas televisivos não rebentariam as shares de audiências?

Nos EUA discute-se se, em certos Estados, os jornalistas podem assistir à morte em direto para a retransmitirem. Seja permitida a crueldade para estes defensores desta “liberdade” – OK e o cheiro da carne esturricada na cadeira elétrica…

Vivemos um tempo estranho. Por um lado, as tecnologias levam-nos a um mundo único e maravilhoso…só que o homem é mais do que tecnologia, é alma, é alegria, solidão, solidariedade, compaixão e quantas vezes egoísmo.

Sem justiça pode viver-se ou sobreviver-se.

Com justiça pode viver-se em paz e consigo próprio e com todos os cidadãos e o mundo.

Sem justiça o que nos fica na alma é fel.

Todos pertencemos à extraordinária família dos humanos, mesmo tendo em conta que os humanos sem controle das instituições são o diabo à solta; daí a imperiosa necessidade da justiça para todos. E a submissão ao Estado de direito democrático.

Olhos na Penitenciária Anísio Jobim, Antes que Seja Tarde

O Estado moderno tem o poder dever de defender a comunidade e reprimir a criminalidade. Tem o poder para usar a força e para impor a ordem. Se assim não fosse os mais fortes dominariam os mais fracos a seu bel-prazer.

Tal significa que é o Estado que assume a total responsabilidade de zelar pela segurança e saúde e pelo sustento dos reclusos.

(Continuar a ler no Público Online)

O Papa Francisco, a Manjedoura, as Palavras e o Ser

Jesus Cristo nasceu há dois mil e dezasseis anos. É o que consta na nossa civilização cristã, ocidental.

Ao que se diz numa manjedoura porque os seus progenitores nada mais dispunham onde ele nascesse. Escolheram um local onde os animais domesticados comiam numa gruta entre palhas para se abrigarem do frio dado que em Belém, em dezembro, naquela parte da Palestina faz frio.

Tendo sido enviado à Terra por quem foi …”Deus pai todo poderoso…” poderia ter nascido onde seu pai verdadeiro quisesse, dado que José foi uma espécie de justificação para ele se assemelhar aos homens.

Quando o papa Francisco no dia de natal beijou a figura de gesso do menino retirada do presépio na Igreja de São Pedro e olhando o esplendor circundante dá que pensar no que o Papa Francisco dizia acerca da pobreza e da exclusão.

As palavras eram belas e ao voarem para todos nós sabiam a justiça e de certo modo eram reconfortantes vindo de quem vinha e de quem tem pautado o seu “reinado” por tanta preocupação sempre mais próxima dos que nascem em manjedouras, bairros sem luz nem água, do que nos palácios ou apartamentos e torres de alto luxo. Sem muitos milhões os excluídos em contraste com a ínfima minoria de bilionários.

Sente-se o mesmo quando se visitam certas catedrais – a ostentação da riqueza em volta, desde os paramentos bordados a ouro à riqueza impressionante da Igreja de São Pedro até à indumentária dos guardas.

As palavras cheias de paz, de bondade, de fome de justiça contra o mundo do ter e aquele ambiente não batiam certo.

Todos aqueles homens estavam impecavelmente paramentados e as luzes cegavam de tão fascinantes. A melhor arte e peças e recantos nada tinham a ver com grutas, nem com manjedouras, nem com pobreza, nem com comiseração.

Francisco soltava palavras tremendas de significado. As televisões passaram-nas. E toda a gente as ouviu. E as esqueceu rapidamente porque o que conta é o que se tem e não o que se é. Ser- se, em verdade, não se é, se não se tem.

E daí a estranha sensação de um mundo de intenções a baterem nos muros da indiferença que começam no próprio templo onde tudo se parece com riqueza e longe, muito longe do mundo dos excluídos.

Não se exigiam grutas, nem manjedouras, nem gente andrajosa para se celebrar o natal. Nada disso. Apenas a sensação que ali não entrariam os pobres, nem os excluídos, pese embora as palavras de coragem de Francisco.

Diz-se que não basta dizer, embora o dizer já seja um começo de um caminho na boa ou má direção.

Falta, às vezes, às palavras a força das circunstâncias em que são proferidas e do compromisso que elas representam no caminho de um mundo mais justo e humano.

Quem se atreverá a discordar que o consumismo não é uma malignidade das sociedades atuais?

As palavras ditas, em Roma, na igreja de São Pedro, no meio da pompa da circunstância, podem perder grande parte do seu efeito pelo facto daqueles a quem era suposto se dirigirem já nada esperarem. E é pena. As palavras são grande parte do que somos; muito mais do que o que temos. São a leveza da alma. A opulência nega o que se é e o que se quer ser.

Texto publicado no Público Online de 28/12/2016.

A Arte de Bater nas Mulheres e Noutros Mamíferos

Há coisas na vida que acontecem e são tão horríveis que pela sua intensidade nos cansam. O grau de anormalidade tornou-se tão normal que já nos acostumamos.

Há meses, antes do dia Internacional das Mulheres, um painel de cientistas sauditas considerou que as mulheres são mamíferos e que nessa condição terão os mesmos direitos que os camelos, as cabras, os dromedários. Antes o estatuto era o de um objeto, do tipo móvel de casa.

Tal facto foi considerado naquele reino um avanço extraordinário, pois deixaram de ser coisas e passaram a ser mamíferos com direito a abrigo e alimentação.

(Continuar a ler no Público Online)

Fidel

Vivemos num mundo em que o que acontece só acontece se passa nas emissões televisivas ou no youtube ou registado numa selfie

A força indomável das multidões unidas vai dando lugar a uma solidão que as invenções tecnológicas sublimam. As trombetas anunciam sempre o mesmo destino, seja quem for que as sopre. Há uma espécie de medo por todo o lado que se apega à pele e não sai. Ontem, 25 de Novembro, morreu um homem que abanou o tempo nas suas entranhas e o segurou por breves instantes. Um homem dos pés à cabeça, daqueles que, como montanhas saídas dos vulcões sociais, provam que são os homens que fabricam a sua História.

Trocou a advocacia e a Universidade por um sonho. Se Luther King teve um sonho ele viveu a sonhar despedaçando pesadelos. Sem olhar para o que então se ensinava acerca das revoluções ele e mais uma centena e picos de corajosos lutadores partiram ao assalto de Moncada para derrotar o ditador protegido pelos yankees de seu nome Fulgencio Batista. O assalto fracassou e a maioria morreu frente aos homens do protegido do grande vizinho. Fidel foi preso, julgado e condenado.

Animado de indomável vontade, contrariando a ideia assumida que a História passava nas grandes cidades da Florida ou mais ao norte, lançou-se de novo à empolgante aventura humana de acreditar que o sonho pode comandar a vida. Esse era um tempo em que as revoluções deviam acontecer segundo as ideias dos revolucionários diplomados em Moscovo ou em Pequim.

Não havia nos manuais das revoluções Sierra Maestra ou Gramna, nem o próprio partido comunista de Cuba o admitia. Só Fidel, Che, Camilo e tantos no meio de tão poucos. El Comandante expulsou Fulgencio, o sátrapa de Washington, e trouxe a dignidade a Cuba. A juventude do mundo pôs os olhos em Cuba. Um caminho absolutamente singular, nunca antes teorizado, levou um conjunto de homens com a sua coragem a interpretar as aspirações de um povo muito personalizado, apesar dos casinos yankees.

Mesmo debaixo das barbas do Grande Império, Fidel abria uma nova escada por onde os povos poderiam trepar e arranhar os céus da liberdade. O povo cubano tem uma forte identidade e orgulho nacional que Marti tantas vezes elevou nos seus escritos patrióticos. Fidel foi sobretudo cubano, mesmo quando se protegeu com a aliança com a URSS. Nunca abandonou aquilo que considerou ser o melhor caminho para Cuba.

Ajuda a explicar a razão de o regime se ter mantido quando se esboroou na Europa. Na verdade tem de se reconhecer convicções e princípios a Fidel. O trajeto de Cuba é tão singular que o 1º Congresso do Partido Comunista de Cuba se realizou nos finais de 1975, dezasseis anos depois da vitória sobre a ditadura de Batista.

Fidel procurou em todas as ocasiões um caminho muito própria para a revolução cubana, afastando-se em muitos aspetos do modelo soviético ou chinês. Precisava da URSS e aproximou-se daquele país. Na era de Gorbatchov virou-se para os chineses após anos de violentos ataques. Cuba tinha relações diplomáticas com Portugal, mesmo antes do 25 de Abril, havendo um encarregado de negócios em La Havana e uma Secção Comercial em Lisboa, o que não acontecia com os restantes países socialistas.

Durante a revolução de abril voltou a marcar o terreno com a sua política própria aproximando-se de Otelo e de outros grupos, sem descurar as relações com o PCP, mas não se ficando por aí… Fidel procurou para Cuba um caminho muito especial, mesmo que passasse por estar com os indonésios no caso de Timor-Leste.

Num tempo em que os dirigentes políticos no poder saem dos governos para os círculos financeiros e a riqueza do mundo se concentra nas mãos de uma ínfima minoria e a política se circunscreve aos desígnios dos mercados, morreu um homem que escreveu a História de outro modo. Um gigante. Uma figura messiânica. Um homem que mostrou que SI, SE PUEDE.

Muita coisa precisa de ser mudada em Cuba. E os cubanos sabem-no. O percurso de Fidel, com tanta glória e pontos negros, vai começar a ser julgado agora que morreu e a História implacável, como sempre, dará luz à luz e fará luz sobre o escuro de muitas coisas.

(Originalmente publicado no Público Online)

O radicalismo de direita de fachada amorosa ou o amor radicalista camaleónico

Que amor espalhou a nova líder do CDS? Que amor espalharam os dirigentes do CDS no governo do desamor? Como foram ao encontro das pessoas?

Para se avaliar o desempenho de quem quer que seja olhamos para as palavras e sobretudo para os atos. No amor é certo que palavras bonitas são melhor recebidas que as agressivas. Mas ainda aí se as palavras não forem acompanhadas de gestos e atos que confiram materialidade às palavras estas são apenas palavras…

Não é que as palavras não tenham importância, mas o que assume a verdadeira coerência é a unidade entre o que se diz e o que se faz.

A Dra. Assunção Cristas foi uma das principais figuras do governo de Passos Coelho e teve seu cargo pastas tão importantes como a Agricultura e o Mar. Paulo Portas foi nº 2 do governo. Mota Soares teve a importantíssima pasta da Segurança Social.

Que amor espalhou a nova líder do CDS? Que amor espalharam os dirigentes do CDS no governo do desamor? Como foram ao encontro das pessoas? Que fizeram no governo há alguns meses para assegurar que…”A forma é a ligação direta às pessoas e aos seus problemas quotidianos. Às suas aspirações, às suas inquietudes…”

Mais adiante no texto publicado no PÚBLICO de 22 de novembro afirma que é preciso estar junto das pessoas e…” ser esse o modo de estar…” Se assim é por que fugia Pedro Passos Coelho dos agricultores, dos professores, dos enfermeiros, dos médicos, dos trabalhadores da função pública, dos portugueses e não se aproximava deles a explicar que tinham de empobrecer?

A líder do CDS entusiasmada com a sua nova batalha por Lisboa desata o verbo e defende …” O discurso radical do amor não apenas tolera ou respeita cada um na nossa sociedade, ama-o na sua integralidade e plenitude, mesmo se não compreende, e procura encontrar a concórdia…”  E prossegue…”Explicando aos esquecidos da globalização que temos de trabalhar para encontrar oportunidades para todos, e que não é fechando-nos sobre nós próprios que seremos mais bem sucedidos…”

No mesmo do texto, Assunção Cristas confessa que aos políticos como ela não lhe é conveniente explicar as políticas que seguem e essa opacidade abre o espaço para os discursos radicalistas.

De modo resumido a dirigente máxima do CDS em nome do” radicalismo do amor” vem pregar à maneira de São Tomás fazendo recair sobre si própria e o seu partido o manto da desfaçatez que consiste em dizer tudo e o seu contrário para se guindar ao poder e aí fazer exatamente o avesso do que havia proclamado.

Durante quatro anos Assunção Cristas girou no alto do Ministério da Agricultura a espalhar empobrecimento pelos campos e pelo mar de Portugal. Umas fotos na Feira de Santarém e umas idas a Bruxelas para amochar aos ditames dos burocratas sem coração, cortando nos subsídios aos agricultores e nas quotas dos pescadores.

Concomitantemente os seus camaradas do CDS participavam alegremente no vasto plano de empobrecimento do governo PPD/CDS.

A líder do CDS apostou no empobrecimento dos portugueses e não lhes explicou nada que tivesse a ver com amor, antes mandando-os com desprezo abandonar as áreas de conforto emigrando…

A líder do CDS cortou vencimentos a todos os funcionários públicos, incluindo os do seu ministério e que estavam mesmo pertinho dela, explicando-lhe que eram calaceiros, trabalhavam pouco e para ganhar a tal competitividade global tinham de ficar sem feriados. Tudo sem qualquer pingo de amor…muito menos radicalista.

A líder do CDS e os seus camaradas de partido mais os do PSD passaram quatro anos, em nome do radicalismo da pobreza austeritária, a gabar-se que cortavam mais que o que pretendia o FMI e a U.E.…

E em nome do radicalismo das políticas anti sociais a privatizar tudo o que pudesse dar lucro aos fabulosamente ricos e lançando no desemprego dezenas de milhares de seres humanos de que agora acordada para as eleições a líder do CDS se lembra.

A líder do CDS nunca em momento algum achou que o seu programa de governo que fez aumentar as filas da sopa dos pobres e mergulhou na pobreza um quarto dos portugueses se encaixava nesta nova modalidade de amor radicalista.

A líder do CDS aceitou sem qualquer meia lágrima de compaixão que os pobres aumentassem e que os mais pobres ficassem ainda mais pobres e os ricos mais ricos. E tudo isto em nome da competitividade onde os seres humanos não são sujeitos passiveis de serem tidos em conta na sua humanidade, mas números que se têm de adaptar aos mercados que mandam no mundo como tão bem pregava o Primeiro-Ministro do seu governo.

A líder do CDS em momento algum deu sinais de devotado amor aos portugueses, muito menos de um amor radicalista.

Provavelmente trata-se de um radicalismo de direita de fachada amorosa em que o essencial é esconder o que lhe vai na alma pelos cálculos políticos em ano de eleições em Lisboa em que concorre sem a muleta do PPD.

(Originalmente publicado no Público Online)

O ESPETRO DOS DESAVERGONHADOS

Anda pelos gabinetes ministeriais um novo espetro. Não é de agora. Já vem dos tempos do braço direito do Sr. Dr. Passos.

Um curso é um curso. Tirado a picareta ou a martelo. Ou normalmente, estudando. Parece que nem a picareta, nem a martelo, nem a estudar há quem tire o curso. O que dá que pensar, mas não vem daí o mal ao mundo. Fica-se com uma ideia do desafortunado. E nada mais.

No anterior governo havia um Sr. Dr. que conseguiu fazer uma cadeira do curso de Direito ao cabo de anos. E vá lá, vá lá porque a aposta do cavalheiro ia para as equivalências. Coisa que já vinha de um Primeiro-Ministro que frequentou uma Universidade tão democrática que abria ao domingo.

Com o ministro o Sr. Dr. Passos e o Sr. Dr. Portas não deram sinais de inquietação. Fosse ela qual fosse. Ambos achavam que o Senhor podia ter uma das pastas mais importantes do governo. E defenderam-no.

Neste novo governo a coisa não envolve ministros, mas membros de gabinetes ministeriais, incluindo o do Primeiro-Ministro.

Se o ministro do governo do Dr. Passos se aguentou sem que o PSD e o CDS se incomodassem durante meses e meses, os mesmos partidos estão agora incomodadíssimos com os assessores em causa.

De facto, é uma vergonha alguém que vai assumir responsabilidades num gabinete ministerial ou de secretário de Estado ter aldrabado e não possuir o curso superior (e agora há os às dezenas…) que disser ter…só um salafrário.

E pelos vistos gente do mais alto nível do PSD foi capaz de se guindar a cargo ministerial e contra tudo e todos continuar a jurar que era licenciado. O tribunal já lhe retirou o título que abusivamente disse possuir e deixou o braço direito do Dr. Passos em maus lençóis. Se tivesse um pingo de vergonha…

Os assessores do governo PS demitiram-se no dia seguinte.

Não há, porém, demissão que encubra a vergonha destes homens terem dito ter o que não tinham e nem sequer eram obrigados a terem o que disseram ter e não tinham.

Todos eles, cada um na sua dimensão, não têm vergonha. Nenhuma. Um homem sem vergonha é um desavergonhado. É o que são. Cuidado. Eles andam por aí e podem bater à porta de algum partido.

 

Nossa Senhora das Preces

Levado por mão amiga fui  de visita à Aldeia das Dez .Linda na sua luxúria de verde . Quem subir a uma varanda e se virar  para norte, verá a garganta que separa a serra da Estrela da do Açor.

Descendo com o olhar para o chão terá diante de si um vale onde assentam os sopés das duas serras.

De manhã quando surgem os raios de oiro do sol anunciando-se por detrás do Alvor um manto de nevoeiro denso e leitoso cobre todo o vale.

O cimo das duas serras; a do Açor verde de tanta árvore, a da Estrela como se fosse a superfície lunar, na cor.

preces No Vale da Maceira,o lindíssimo Santuário da nossa Senhora das Preces. E se não fosse a Senhora das Preces não me atreveria a pedir-lhe que interceda junto dos que nela têm fé para que não ponham em perigo a tão amada linda língua portuguesa.

Ó Nossa Senhoras das Preces interceda para que de futuro quem estiver muito doente a bater às portas da morte e esteja desprotegido não ponha em perigo a ortografia e faça o milagre para salvar não só o doente, mas também o português.

Lembre-se a Senhora do que sofre a nossa língua com tanto delete, low cost, shopping, startup,take away and so on.

A Senhora sempre falou português com seus pais e familiares e amigos, pois que as santas também vivem como as outras pessoas, exceção feita à santidade.

Salve com a sua ajuda todas as palavras postas em perigo porque delas se precisa até para rezar. Apresse-se, Senhora, e receba a prece.

O Insolente Schäuble

O Sr. Schäuble, ministro das Finanças da imperatriz Merkel, não tem estaleca para viver em conjunto com outras nações, designadamente com aquelas que escolhem o seu próprio caminho político.

Ao Sr. Schäuble a vontade de um povo em eleições livres nada lhe interessa. Para ele o que conta é a sua predileção política, o que significa que para a grosse Deutschland todos os que não alinham com os seus desígnios correm sérios riscos de ter resgastes.

Schäuble gostava do seu homem, do Dr. Passos … um amor, mas não devia passar dessa simpatia amorosa pelo homem que se guiava pelo eixo de Berlim e castigava os portugueses pela sua desgraça.

Os ministros de um dado país devem respeitar a vontade soberana de um povo de outro, não se ingerindo e pressionando esse país.

O Sr. Schäuble ao declarar que este governo não está ir bem como ia o anterior, ofendeu grosseiramente a soberania portuguesa, a qual reside na vontade popular que levou à formação do atual governo.

Sabemos que a soberania anda pelas ruas da amargura; e só por isso este sátrapa confunde Portugal com uma coligação de direita que se borrava diante da dupla Merkel/Schäuble.

Schäuble é da estirpe imperial que não aceita outra realidade que não seja a que serve os interesses da alta finança alemã.

Para a Alemanha já interessa a defesa dos interesses alemães, mas para Portugal o que devia contar, segundo Schäuble, era o que os mercados financeiros achassem melhor, sendo certo que quem tem a palavra decisiva nesses mercados é a alta finança alemã.

O governo de Passos era um fofo para a Alemanha, orientava-se por aquela bússola e ia para além do que a troika impunha ao protetorado lusitano.

Brandia o chicote e zás no lombo dos portugueses, calaceiros, malandros, pobres, que tinham de empobrecer para os senhores alemães, holandeses, franceses e ingleses virem a terras portuguesas contratar mão-de-obra a preço da uva mijona.

Nos corredores da grande metrópole berlinense ouvia-se o contentamento por em Portugal haver um governo que compreendia a Alemanha e colocava os mercados über alles –“ Temos governo” diziam os conservadores alemães a cada medida da austeridade que Schäuble quer continuar a impor a Portugal e ao sul da Europa para os alemães terem muito mais feriados que os portugueses, ganharem altamente e virem cá de férias gastar uma ninharia comparado com o que teriam de pagar pelos mesmos serviços na Alemanha…

Quem esqueceu aquela expressão angelical do Sr. Prof. Vitor Gaspar curvado para o austero Schäuble … Desta gente o sátrapa já aprecia.

Podia lá o Sr. Schäuble gostar de um Costa que estancou o empobrecimento a galope do seu querido seguidor, o Dr. Passos acolitado pela Sra. Prof. Maria Luís da Arrows… além disso o que vale a vontade de um povo expressa na composição do parlamento com a do grande império?

O cavalheiro vai ter de aprender a viver com a vontade democrática do povo português e devia saber que o tempo da campanha eleitoral findou e ainda que pressões e ingerências são uma grosseira ofensa ao Estado português e a todos os portugueses, inclusive aos que votaram no PSD e CDS.

Mas isso era preciso que ele compreendesse o que é viver entre Estados independentes onde os governos são constituídos no parlamento e não na capital do império.

Não será de esperar que o cavalheiro mude o chip porque essa não é a matéria de que é feito. As vezes que tem falado ingerindo-se, pressionando Portugal, mostra o calibre desta alma agoirenta no que refere à defesa dos mercados, dos alemães em detrimento dos outros países e dos seus cidadãos.

A sua alma de insolente irá com o senhor até ao fim da vida. Saibam os portugueses dar-lhe a devida resposta. Um povo de um país independente há oitocentos e setenta e três anos não pode aceitar estas grosseiras ingerências de um dos políticos mais influentes da Alemanha. O governo alemão deve explicações ao governo e ao povo de Portugal. Basta de insolência. A imperatriz nem que seja para fazer de conta deve segurá-lo na sua incontinência se é que pode ou quer.

Realidade Versus Ideologia? E os Afetos, Senhor Presidente?

Realidade ou ideologia? Na esteira do homem que decidia “com conhecimento de causa”, o engomadinho Cavaco, o novo inquilino de Belém, o sempre omnipresente Marcelo, veio a propósito da fiscalidade sobre o imobiliário invocar o princípio de que a realidade se sobrepõe à ideologia.

Supõe tal atoarda que a realidade é algo que está para alem das ideias e dos valores, nascendo por geração espontânea e mantendo-se segura e pendurada pelos anjinhos que cuidam das arestas da dita realidade.

Esta realidade fiscal terá milhões de anjinhos a impedir que os desgraçadinhos dos bilionários com ou sem visto gold paguem o que quer que seja para o Estado….

Sempre que se trate de mudar a realidade pela ação dos homens de um modo diferente do que foi amassada por outros homens é um horror, é a ideologia!

Ou seja, esta realidade fiscal resultante de um conjunto de valores e de princípios dos quais sobressai a ideia de que os ricos não devem pagar impostos é imutável porque é a atual …

Tal como era realidade em geral os cidadãos pagarem a escola privada para os filhos dos ricos e de outros que a queiram frequentar.

Tal como era real o corte de feriados.

E por aí adiante.

A realidade é a materialidade socioeconómica e espiritual que resulta de determinadas relações de forças entre as diversas classes e camadas sociais que formam a sociedade.

A realidade que resulta do tratado de Roma e que visa apertar os países do sul no torniquete da austeridade e empobrecê-los tem subjacente a ideia de que há países com um determinado destino e outros com outro, mesmo dentro da União.

Os do sul devem empobrecer para os do centro e do norte investirem e `a custa de salários baixos enriquecer os investidores.

Esta é uma realidade, mas não é imutável nem tem atrás de si um determinismo ao qual não se pode fugir.

Quem assim o defende são os que se encontram satisfeitos com esta realidade alicerçada na ideologia que devem ser os bilionários a mandar na sociedade de modo a que os seus lucros aumentem, esmifrando os de baixo e todas as classes e camadas que não pertencem ao Olimpo daqueles poderosos.

O Sr. Presidente da República é um homem culto e certamente sabia que mesmo as pedras que fazem parte da realidade material que nos rodeia mudam. E não têm ideologia. Sofrem a influência de outros elementos que as envolvem como o vento e a água.

O mesmo se passa com os homens. A escravatura era imutável, até para Aristóteles, há milénios.

No entanto finou-se. Os homens que a instauraram acabaram com ela.

Assim será sempre e a realidade de hoje baseada nas ideias do arco da governação e de Passos, Portas, Cristas, Maria Luís e de tutti quanti há de ser mudada pela ação de outras mulheres e homens com ideias diferentes a que correspondam as aspirações sociais de outras maiorias.

Esta realidade a que o Presidente da República quer amarrar o carro da sociedade e impedi-lo de chegar a outras estações é baseada em valores retrógrados.

É feio esconder a ideologia por medo da sua brutidade.  Não é muito afetuoso. Pode dar cabo da presidência dos afetos. Veja bem Senhor Presidente.