Que Bem Rosna Passos

Passos Coelho tinha de vir a público, antes de se ir embora de Presidente do PSD, continuar o seu combate a favor da desregulação das relações laborais, para dar mais poder aos patrões,  deixando os assalariados em situação mais frágil, obrigando-os a aceitar condições cada vez mais desvantajosas.

E veio no seu estilo inconfundível de político direitinho, certinho, com o pin de Portugal na lapela do casaco. Tão direitinho e certinho que ao referir-se ao PCP e ao BE invocando a “linguagem” animal empregou o verbo rosnar, em vez do verbo ladrar referindo-se ao velho provérbio…”Cão que ladra , não morde”.

De facto, um homem que se a vê a si tão cheio de virtudes, seria incapaz de utilizar o verbo que designa a comunicação dos cães optando por uma versão menos desagradável, na sua convicção de homem direitinho e certinho, sem um cabelo desalinhadInho.

Na verdade, ao longo destes dois anos e meio Passos não tem parado de rosnar. O governo não caiu, ao contrário do que ele profetizou em consonância com o piar de Cavaco Silva. Não mordeu nada.

Mas o mais inesperado foi o diabo não entender o rosnar de Passos, o que o levou a ficar quietinho no inferno não atendendo ao chamamento  do constante rosnar do doutor Passos. Voltou a não morder por falta de comparência do diabo.

Ainda há tempos, Passos rosnou a bem rosnar apostando tudo em Teresa Leal para candidata à Câmara de Lisboa. E nem sequer mordeu em Cristas, quanto mais em Medina.

O resultado de tal rosnar foi tão mauzinho que teve de se ir embora. Sem rosnar( um homem certinho e direitinho não vai andar por aí) viu o seu candidato ser derrotado por Rui Rio.

Passos está em maré de ter de ir ao dentista para descobrir as razões de tanto rosnar e de tão pouco morder.

Levaram-no, no dia 12 deste mês, a uma assembleia de jovens e continuou a sua luta a favor  do empobrecimento, mas desta vez com algumas variantes face à dureza da realidade contra a qual não adianta piar, como dizia o senhor professor Cavaco.

Passos prometera empobrecer o país fazendo dele um dos mais competitivos do mundo.

Colado a Schäuble e a Merkel, jamais lhe passou pela cabeça que o país podia crescer apagando os seus quatros anos de austeridade. Jamais lhe passou pela cabeça que Centeno fosse escolhido para Presidente do Eurogrupo. E que Portugal crescesse, como cresceu. E que o desemprego caísse, como está a cair. E que as exportações tivessem atingido níveis bastante aceitáveis. E que se respire. Sim respira-se em Portugal. No tempo da austeridade sufocava-se. Respirando-se, pode-se encarar o futuro, incluindo com todas as dificuldades que se adivinham. Mas respira-se. Não se sufoca.

Bem rosnou Passos, mas em nada mordeu. Deixa a liderança do PSD a Rio, sem poder morder os calcanhares a Costa.

As Pedrinhas e as Pedras da Segunda Circular

Bruno de Carvalho, incompreendido, sozinho, sofrendo por não o aplaudirem a cem por cento, olha longe, compungidamente,  e o que vê: pedrinhas e mais pedrinhas. Há muito mais quem veja pedrinhas e mais pedrinhas, sobretudo se olhar para cascalho. Mas o que ele vê e os outros não veem é o que escondem as pedrinhas. Talvez, por isso, os seus dotes de olhar e ver enquanto outros olham e não veem.

Bruno o homem sequestrado, isolado, vinte quatro horas a pé, mas a dormir com os olhos todos na conceção grega de que há um que é o da sabedoria, olha e vê LACRAUS às dezenas, mesmo sendo pedrinhas. É o que ele diz que vê referindo-se aos sportingados.

No outro lado da segunda circular as pedras são outras. Segundo Luís Filipe Vieira andam a pegar em pedras e a metê-las à frente do Benfica para impedi-lo de atingir os seus objetivos.

Coloca-se à nação benfiquista descobrir os autores de semelhante crueldade. Apenas uma ajuda: PJ? MP?

D.Clemente e o Sexo dos Recasados

A Igreja nunca conviveu bem com o sexo, sempre o viu como algo de que se devia desconfiar.

Afinal porque Adão e Eva procriaram e constituíram o início do que viria a ser a nossa Humanidade, segundo a doutrina cristã.

A diabólica Eva atraiu Adão e levou-a à desobediência e, por tal pecado, pecou toda a Humanidade para toda a eternidade.

Lançados do paraíso para o vale de lágrimas, todas e todos os que vieram passariam a ser filhos do pecado, porque resultantes da cópula sexual; isto é, os que vieram, chegaram já “amaldiçoados” pelo ato responsável pela existência dos seres humanos. Somos assim, crentes e não crentes, segundo a Igreja, todos filhos de um ato pecaminoso.

Vale a pena ir ao tempo em que Cristo andou por este Médio-Oriente ocupado, na ocasião,  pelo império romano, e constatar que os primeiros cristãos e os discípulos eram casados e como tiveram filhos, copularam.

Só mais tarde é que a instituição inventou esta coisa dos padres não poderem casar e ter mulher, embora as tivessem, alguns às claras, outras às escondidas.

Agora, por obra do novo Papa, veio a Igreja abrir a porta fechada aos cidadãos que casados catolicamente se divorciassem e voltassem a casar ou a viver em união de facto, permitindo-lhes em certas circunstâncias, restritas, segundo D. Manuel Clemente, ter acesso aos sacramentos.

De que é que havia de lembrar D. Manuel Clemente? De que se tal sucedesse, se voltassem a recasar ou a viver em união de facto, se abstivessem de ter relações sexuais. Um casal que se ama, que se casa ou se junta para viver uma vida nova, com felicidade, onde o sexo é uma componente, entre muitas outras, é, à partida, para D. Manuel desaconselhável… Mas não será desaconselhável, nesses casos, colocar o acento tónico, na falta de ajuda, na necessidade de colocar a relação familiar em primeiro lugar?

A ideia de vir prevenir que os casais recasados não devam ter relações sexuais é próprio de alguém que está longe da essência da vida. Não está em condições de compreender que uma relação harmoniosa num casal torna-o mais forte, mais solidário, mais fraterno e tal relação passa também por uma vida sexual mutuamente consentida e desejada.

O sexo é tão importante que sem ele não haveria a tal criação humana de Deus, na ótica dos crentes, pois é condição para a reprodução, em geral.

Parece que o Deus da criação embirrou com os filhos da sua própria criação e que lhes deu sexo, não para o usarem, mas para os castigar e obrigá-los a pecar sempre que o usam para seu bem estar, fruindo-o. Por que razão o ser humano veio constituído com sexo para esta conceção?

A História  confirma que a Igreja viveu sempre sobressaltada por não saber encará-lo como uma realidade que pode ser altamente compensadora e fonte de equilíbrios. De tal forma que dentro da própria Igreja os que pregam a abstinência sucumbem, alguns do pior modo, criminalmente.

Ao que parece D. Manuel Clemente não está em condições de abandonar o tremendismo com que a Igreja aborda o sexo. É pena. O Papa abre e há quem feche.

…”Um Ser que não Aguenta mais…” Não Aguenta Mesmo, ou Aguenta, Aguenta?

Bruno de Carvalho queixou-se que não aguenta o que os sportinguistas lhe estão a fazer. Deu conta dessa incapacidade publicamente ao longo de quase uma hora.

O senhor acha que ninguém tem a noção do que é estar sequestrado há cinco anos, como ele está. Não pode ir ao café ou ir ao jardim com a filha.

Ele não aguenta que chamem mentiroso e que lhe mandem baixar a bolinha.

Não admite estar a trabalhar vinte e quatro sobre vinte e quatro horas e não o deixarem discutir os assuntos.

Ele não merece ir a uma AG para lhe dizerem o que vai fazer. Andam a brincar com ele.

E ele o que vê é debaixo de uma pedrinha dezenas de lacraus. De facto.

Ele não acha que tenha que aturar que as filhas oiçam chamar-lhe drogado…realmente. O que é que ele fez para que digam que o lugar dele é no manicómio

E agora , diz ele ainda, sou o Bruno vigarista? Coreano?

E lamenta que não tenham percebido que se não fosse o que escreve no Facebook tinham o VAR no raio que os partam…

Por que o aconselham se tem pai e mãe vivos? Que coisa!

Num acesso de lucidez esclareceu que dorme bem e com todos os olhos fechados, que no caso dele são três, esclareceu.

Bruno de Carvalho é presidente do Sporting. Presidente é o que é eleito para presidir. No Dicionário Houasis presidir significa dirigir, orientar, nortear, superintender, indicar o que é melhor, guiar.

Depois destes desabafos sobre a incapacidade de aguentar o que ele afirma que lhe fazem ainda há quem o aguente?

Haverá setenta e cinco por cento que ache que ele guia, superintende, guia a nação sportinguista e indica o melhor caminho?

E que o VAR está relacionado com os seus textos publicados no Facebook?

Se há, aguentem-no. Ele não aguenta meia dúzia de sportingados,mas a imensa maioria tem de o aguentar. Tudo bem. Cada um aguenta o que quer.

O Poder de Atração da Corrupção

Portugal vive situações de corrupção muito graves. Basta para tanto ter em conta os escândalos referentes ao envolvimento do anterior Primeiro Ministro, Passos Coelho, no caso Tecnoforma, e a gravíssima acusação contra o ex- Primeiro-Ministro, José Sócrates, que envolve banqueiros e executivos de grandes empresas, outros políticos e um rol de conhecidos. Figuras políticas importantes do centrão político estão a contas com a justiça.

Os que se afirmavam como gestores e banqueiros impolutos fazem-nos agora rir desse perfil, tantos são os que se sentam no banco dos arguidos.

A corrupção, se puder, corrompe os próprios guardiões do céu, anjos, querubins e quem quer que seja. Há quem diga que o próprio diabo era um anjo caído do céu por querer ser mais do que era diante de Deus. Por que haviam de parar na porta da Domus Justitia? A corrupção não fica expectante à porta de quem quer que seja. Se a deixarem entoar as suas melodias, é capaz de entrar. Ulisses pôs cera nos ouvidos.

Chegou a vez dos magistrados aparecerem a encher os media e ligados a este espantoso fenómeno.

É interessante ter presente que há corruptos porque há corruptores, mas o ódio da população é de imediato dirigido contra os políticos, deixando de lado os outros, os corruptores ativos. Percebe-se, em certo sentido; é um sentimento de frustração, de se sentir enganado por quem lhe prometeu integridade. É uma espécie de traição.

Os políticos dependem do voto do povo e se os engana essa revolta é maior que aquela que é dirigida aos corruptores.

Há uma certa contradição que se torna mais aguda se o enfoque for feito de outro ângulo: sendo assim por que motivo a população vota em corruptos? Por que dão maiorias e grandes votações a políticos condenados por crimes relacionados com corrupção ou similares?

Há, porém, ainda, outro fenómeno assustador: são todos contra a corrupção nos outros, mas se, por acaso, se puder beneficiar, tirar vantagens desse fenómeno, aí a ira baixa e até pode entrar a música do favor.

Há, por outro lado, uma espécie de perdão pelos políticos corruptos que de algum modo fizeram obra que se visse, e uma revolta contra os que se afirmaram desprezando as condições de vida das populações.

Há anos, numa viagem ao Peru, depois da queda de Fujimori, muitos peruanos diziam que ele era um corrupto, mas tinha feito casas, escolas e estradas… era um corrupto bom para o povo…O fenómeno não é só português, é universal.

O povo português talvez seja pela sua própria índole (desconfiado do Estado ao longo de séculos e com razão) mais propenso a fazer explodir a sua fúria em relação aos seus, àqueles que elegeu, do que àqueles que nunca lhe apareceram a pedir o voto, mas que na realidade, como piava o pio Cavaco, são a realidade contra a qual se esbarra.

Se são os mercados, o que vale dizer, o dinheiro, quem manda, e nada se pode fazer, se são esses os valores em que a sociedade assenta, os resultados estão à vista.

Vejamos de mais perto: Se o que comanda a vida é o poder do dinheiro, então para se ser “alguém” deve aceder-se a esse estatuto do TER (muito mais que o estatuto do SER, que é o da cidadania) .

Os media apregoam a vida dos poderosos, estes defendem que um dos males da sociedade é o salário mínimo e os ricos não serem mais ricos.

Se um por cento da Humanidade tem uma riqueza quase igual a noventa e nove por cento da Humanidade, segundo a ONG britânica OXFAM, do que se está à espera? Esse poder é o novo bezerro de ouro que é adorado.

Como se pode entender, num quadro destes, as declarações de Rui Rio, testemunha abonatória de Miguel Macedo, quando defendeu que aquele ex-ministro foi sempre um defensor do bem público?

Só a perda de referências, de valores, de integridade e de honra explica esta degeneração da sociedade.

A força de atração da corrupção parece ser tão forte que até os de baixo se sentem atraídos pelo modo de vida dos poderosos.

É precisa uma República de mulheres e homens à prova de bala da corrupção para travar a corrupção. Falta a coragem cívica para dar força à cidadania séria e honrada.

Esse, talvez, seja o maior desafio de Portugal e dos portugueses:  levar para o governo a honradez, a lealdade e a vontade em servir a comunidade.

Façamos um Suponhamos à Portuguesa

A segurança rodoviária, devido ao número de mortos nas estradas, está na ordem do dia. Os governantes, de cima do seu alto poder, aparecem nos media a anunciar medidas e mais medidas. O problema parece ser acrescentar mais legislação à existente.

Falam em drones e em reduzir a velocidade a trinta quilómetros nalguns pontos das grandes cidades.

Em certas ocasiões, (Natal, Carnaval, Páscoa, férias de Verão) alguns oficias das forças militarizadas aparecem impecavelmente fardados a anunciar os milhares de mulheres e homens que irão para as estradas a fim de autuar os infratores.

O problema, porém, é outro. Um exemplo: quem for das Portas de Benfica até à Rotunda do Marquês de Pombal, muito dificilmente encontrará um polícia, salvo se passar num grande edifício, em obras, porque aí há gratificados ao serviço do dono da obra.

Com esta referência pretende-se apenas assinalar que a falta de polícias nas ruas permite aos condutores infratores “navegar” muito mais à vontade.

Na verdade, quem fizer o percurso referido passará seguramente por um conjunto de condutores usando o telemóvel no ouvido, por senhoras condutoras acabando de se maquilhar, por condutores que aceleram para passar com o sinal vermelho acabado de cair, por condutores que armados em chico espertos vão para a fila mais rápida para depois voltarem inocentemente à fila para onde se inscrevia o sentido da sua marcha, como se os outros não fossem capazes de fazer o mesmo.

Anunciou-se, com pompa e circunstância, a penalização dos condutores com perda de pontos e o país “tremeu”, nos primeiros dias. A seguir viu que tudo estava como dantes, tudo voltou à normalidade, tudo como dantes no quartel de Abrantes.

Se as multas não têm consequência porque não há juristas (foram despedidos por imposição da troca) para dar seguimento aos processos de defesa escrita e eventuais impugnações; se na estrada, tirando os radares, a polícia persegue sobretudo os camiões porque as coimas são mais elevadas, eis o terreno ideal para fazer de conta que há leis que gerem a vida da comunidade.

Se o condutor acelera quando vê o vermelho cair, a possibilidade do acidente aumenta assustadoramente, particularmente para quem atravessa a passadeira, daí os números assustadores de acidentes com peões.

Há uma fuga para a frente dos vários governos quando enfrentam problemas de monta e enveredam pelo caminho mais fácil, uma soltura legislativa anunciada aos quatro ventos mediáticos à espera que a coisa amaine. Já cheira mal.

Os portugueses, na sua imensa maioria, vivem em Portugal. Conhecem-se e conhecem o país. Sabem que muito provavelmente não vai suceder nada se passarem um sinal vermelho acabado de cair; que quase certo que nenhuma autoridade intervirá se falar com o telemóvel no ouvido; que pode fazer uma pequena “patifaria” ao concidadão passando irregularmente à sua frente porque ele(a) tem sempre uma razão para o fazer.

Há leis que chegam e sobram para punir quem prevarica. Não há quem vigie, quem reprima, porque o Estado de Direito Democrático onde vivemos afirma-se sem capacidade para negociar com as forças policiais as devidas remunerações e, portanto, todos fazem de conta que tudo rola…

É importante que quem governe central ou municipalmente contribua para alterar de modo decisivo este estado de coisas.

Se não houver força para fazer cumprir o Código da Estrada, bem podem vir os drones e a diminuição da velocidade. Registarão os excessos de velocidade e depois? Então agora os radares e a polícia não detetam o excesso de velocidade? E depois? Depois por falta de técnicos e de juristas as multas, e as coimas aguardam aos montões serenamente os prazos da prescrição. E os polícias, na rua, não veriam o que todos vemos? Veriam, se lá estivessem…

Virá um dia que um governante se lembrará que, suceda o que suceder, não haverá prazos para prescrições.

Um Estado, que não é capaz de fazer cumprir leis fundamentais para defender a segurança dos cidadãos, é o principal responsável pela falta de crença na vida em comunidade, permitindo que o individualismo e o tão português desenrascanço se sobreponham aos interesses da vida em comunidade.

O civismo deve ser um elemento essencial no fortalecimento da coesão social, aproximando os cidadãos, homens e mulheres, vivendo no espaço criado pelos nossos “egrégios avós” onde o bem comum é o chão onde cada um se pode desenvolver.

Mais vale investir na educação cívica do que continuar este processo de soltura de leis.

O Mais Importante é o que Fazemos com o que nos Acontece

Na correria louca do quotidiano falta o tempo e o que sobeja vai quase inteirinho para fugir aos aborrecimentos da vida. As coisas sucedem-se e impõem-se. E somos apanhados nesse redemoinho das coisas que temos de fazer e quase deixamos de ser, para sermos seres de fazeres.

Erling Kagge no livro “Silêncio na era do ruído”, “Qetzal”, página 37 refere um provérbio norueguês que diz… o mais importante de tudo é aquilo que fazemos com o que nos acontece…

Se ao que nos acontece nada fazemos, então o que somos vale pouco, porque não temos capacidade de aprender com as lições da vida.

Há anos que os media nos propõem que observemos e absorvamos, fazendo de nós verdadeiros basbaques.

Um dos mais curiosos acontecimentos mediáticos é a parasitação das desgraças; onde houver desgraças há câmaras.

Os incêndios que devastaram zonas do país instalaram-se dentro dos próprios ecrãs televisivos, explorando até à náusea o espetáculo da destruição com mil e um diretos e sobretudo chafurdando na desgraça humana, explorando-a, dando visibilidade às vítimas, tirando partido das fragilidades e passar, como notícia, a dor.

O microfone mediático para as vítimas é uma esperança de poder partilhar a desgraça, sobretudo face ao vil anonimato de quem só é notícia por ter visto a sua vida desgraçada. É um alívio poder dizer o que se sofre. E para observar e absorver. E anestesiar.

O poder político, a começar pela mais alta figura do Estado, tem estado onde acontecem essas medonhas catástrofes. A fazer o quê? Se as figuras do Estado não são bombeiros, se não são proteção civil, se não são socorristas, se não são psicólogos, se não são médicos, se não são maqueiros, se não são fotógrafos, que vão lá fazer? Qual é o contributo da sua presença?

Compreende-se a sua deslocação para participar em cerimónias evocativas para que as populações sintam que, do ponto de vista do Estado, há esse sentimento de solidariedade.

Vê-se, por todo o mundo, as primeiras figuras do Estado, a prestar homenagem às vítimas. Esse é o dever do Estado e de quem o representa.

Outro assunto é ter como atividade política passar, em todo o lado, onde há acidentes, sejam incêndios, sejam desastres de aeronaves, seja o que for.

Há como que uma infantilização do povo português, como se fosse incapaz de fazer luto e resistir e prosseguir a vida.

Por mais dolorosa que seja o incêndio na associação recreativa onde jogavam a sueca umas dezenas de populares, o que importa não é a compaixão de tal ou tal responsável político, mas sim o apuramento sério do que passou para evitar que o descuide impere seja em Tondela, seja num estádio de futebol, seja nas construções que devem obedecer a normas e que o nacional porreirismo desliga do cumprimento desses deveres.

Aos acidentes que ocorram por erro e negligência grave ou dolo há que apurar responsabilidades. Andar a choramingar e a botar sentença acerca do estado de espírito dos jogadores de sueca não é o que se exige a quem o dever de contribuir para apurar responsabilidades e dignificar as funções do Estado.

Ninguém merece a sorte dos que morreram no torneio da sueca por causa da salamandra instalada de tal modo que permitiu a desgraça. Mas o mais importante é trabalhar para impedir que volte a suceder.

Mais importante do que o que nos acontece, é o que fazemos com que nos acontece.

Na vida em comunidade, sabemos que há normas, e que é importante que sejam cumpridas, para que não aconteçam desgraças, e assim sermos capazes de agir para o bem de cada um e da comunidade.

Se sabemos que um dia um grande terramoto vai acontecer, sabemos que é decisivo prepararmo-nos para que ele nos encontre prevenidos.

O mais importante na vida não é apenas o que observamos e absorvermos, é o que fazemos com o que nos acontece. Mais vale o aborrecimento de ter de impedir o desleixo a milhares de fotos reconfortantes, cheias de homens com poder, e de pedidos de desculpa.

Texto publicado hoje no Público online.

 

De Novo na Barraca a Incrível e Triste História de Cândida Erendira

Em Macondo, aliás Aracataca, Gabriel Garcia Marquez, morava ao pé da estação de caminho de ferro, e foi educado entre mulheres e ouvindo histórias mágicas contadas pelos criados índios.

Não sei se a vida de Erendira e da sua desalmada avó tem algo a ver com esse mundo mágico que passava de boca em boca.

Sob o pano de fundo da impiedade da avó de Erendira, a curta novela de Gabo é uma explosão de maldades humanas por entre o deserto, contrabandistas, um cantineiro e missionários, um microcosmo da região. E, ao mesmo tempo, uma narrativa plena de aconteceres fantásticos, como faz a avó( que não tem nome) ao obrigar os seus criados índios a levarem numa caixa com rodas e com os esqueletos dos Amadis, sendo um deles o pai de Erendira e o outro o que levou a avó de um prostíbulo para uma vida de luxo.

Rita Lello ao encenar esta novela sabia que tinha um desafio impressionante, e do qual se saiu muito bem.

Os diálogos na novela não são abundantes. A ação acontece ao ritmo das peripécias desta velha mulher que quer obrigar a neta a pagar os danos causados por incêndio na sua rica mansão; incêndio resultante pelo malévolo vento do deserto que derrubou o candelabro enquanto Erendira dormia. Para pagar o percalço, como lhe chamou a avó, a neta teria de se prostituir durante oito anos, sete meses e onze dias, disse-lhe a malvada quando a neta já arrastara atrás de si uma grande correnteza de homens para dela se servirem e pagarem à avó.

Alertados, os missionários, do que se passava levam Erendira para as Missões onde fica sujeita a lavar com água e cal, sem parar, as escadas do edifício.

Rita Lello recria o ambiente da novela através de elementos simples e que nos transportam ao imaginado tempo colonial – música, roupas, cantina, bicicletas e as próprias cargas que os índios transportam. Na ação cénica incorpora o  vídeo que nos leva ao estupro do viúvo que comprou a virgindade, bem como à chegada ao deserto com água, que é o mar como diz Gabo. Diga-se que a arte foi recriar o ambiente desta malvada e alucinada mulher e do séquito com a fresca carne de Erendira.  O autor da novela “Memória das  minhas putas tristes” é o mesmo.

Com o correio a espalhar a chegada de Erendira instala-se um ambiente de festa que constitui a chega da avó com a neta. A encenação consegue-o com as acrobacias e a animação que vai desde a mulher aranha ao fotógrafo dos retratos que tem uma tela com cisnes brancos em pleno deserto. Tudo numa atmosfera de alvoroço caribenho.

É o filho jovem de um contrabandista holandês( traficante de laranjas, com pérolas no seu interior, devoto da Bíblia) que vai libertar Erendira após enamorar-se da jovem prostituta com quem perde a virgindade.

O curto diálogo da avó com Ulisses, a quem ela apelida de anjo sem asas, é quase irreal, dada a pureza de Ulisses e a perversidade da velha avó. Não deve ter sido por acaso que Gabo lhe deu o nome de Ulisses.

O de Homero, o herói da Odisseia, o solerte, o da estirpe dos deuses, regressa a Ítaca e mata os usurpadores do seu palácio que pretendiam esposar Penélope e apoderar-se das suas riquezas

O de Gabo, o anjo sem asas, é um jovem apaixonado por Erendira e que por amor vai matar a malvada avó.

O herói da Odisseia deixa atrás de si um rasto horroroso de mortes para se se vingar e alcançar finalmente a sua Penépole e a sua cidade, Ítaca.

O de Gabo vai travar com a avó de Erendira uma luta titânica depois da malvada velha não ter morrido, mesmo tendo comido um bolo com arsénio.

Trava-se então uma batalha brutal entre a poderosa velha e o anjo sem asas que a apunhala várias vezes e a mata abandonando-a à nudez do seu medonho cu. A mais bela mulher dos prostíbulos das Antilhas finalmente jaz de bruços no centro do palco.

E de novo o vídeo mostra-nos a fuga inimaginável de Erendira, a doce, com o colete cheio de lingotes de ouro da avó.

Grande encenação de Rita Lello e grandes interpretações de Maria Céu Guerra e Sara Frio.

domingos lopes

400 Cobardes

É humanamente aceitável que alguém ao volante de um veículo possa abalroar (voluntária ou negligentemente) um seu semelhante e deixá-lo na estrada consciente ou inconsciente à espera que outrem se aproxime e lhe preste a solidariedade necessária?

Quando o condutor do veículo atropela num ser humano, como ele, e, em vez de parar, foge para escapar a um julgamento que apure a responsabilidade desse embate, que sabe esse condutor acerca do estado em que fica a vítima?

O atropelamento, mesmo que possa resultar de uma impossibilidade de o evitar, impõe um dever de assistência – trata-se de um veículo contra um corpo de carne e osso.

O primeiro dever é o da consciência de quem conduz. Pelos vistos, segundo os dados públicos pelo Ministério da Administração Interna, houve em 2017 quatrocentos atropelamentos com a fuga dos condutores, o que equivale a dizer que há quatrocentos indivíduos que após embaterem em crianças, mulheres ou idosos, fugiram e deixaram os sinistrados totalmente desamparados.

Os humanos têm deveres para com a comunidade onde estão inseridos e um deles é de prestar auxílio a quem causarem lesões.

Nesse sentido, os deveres que cada um impõem a obrigação de prestar cuidado e auxílio à vítima. É, em certo sentido, a nobreza do único ser que à superfície da terra sabe, tem consciência, do mal que pode acarretar a omissão da ajuda.

Só um ser desprovido de humanismo, após atropelar outrem, por medo das responsabilidades, ou por desprezo pela vítima, foge e deixa-a abandonada a si própria, sem se certificar se é capaz de se proteger.

Não está em causa conhecer a responsabilidade de quem deu azo ao embate; mas sim de cuidar de alguém que precisa.

É algo que a sociedade tem de defender e impor ao seu conjunto de modo a que a indiferença, o abandono não se tornem normais. Quatrocentos foragidos são muitos. Antes de ser crime é ainda algo que enquanto cidadãos se coloca deste modo mais simples: sendo humanos, o que é mais humano, deixar a vítima à sua desgraça, ou por imperativo de consciência ir certificar-se das necessidades da vítima?

Quatrocentos foragidos são quatrocentos cobardes que, da baixeza do seu egoísmo, deixam ao abandono seres humanos fragilizados, a necessitar de auxílio.

De que fogem? Do mal que causaram? Da pressa em chegar ao local de trabalho ou a casa? Ou a tempo de verem desde o início o jogo de futebol? Ou o episódio da série que seguem? Ou a telenovela?

Há muito a fazer no terreno da repressão a estes tristes episódios de cobardia. Mas tenhamos a coragem de afirmar: é preciso investir mais no civismo.

É preciso que as condutas destes quatrocentos indivíduos sejam condenadas de forma veemente, não só nos tribunais, mas também na comunidade.

O cobarde que bate e foge, deve sentir, no local de trabalho ou de convívio,  o repúdio perante essa  vergonhosa atitude. É, pois, preciso mudar as mentalidades para diminuir o número de cobardes e de vítimas.

 

Um De(Bate) do Caraças

QUEM OS QUER?

O país não sabia onde estava o PSD ou PPD/PSD. Hibernara? Por onde andava? O certo é que não se via.

Passos Coelho não chegou a ver o diabo. Nem ele, nem Costa, nem ninguém. Não veio. E, portanto, foi-se o sisudo Pedro, sem tirar o pin da banda do casaco escuro.

Na altura de se ir, disse solenemente que não ia andar por aí, não esclarecendo se ia andar por ali. Parecia que se tinha ido, mas, entretanto, o que ia andar por aí, cujo nome já se  conhece, capturou o passado do que não ia andar por aí e afirmou-se guardião desse tempo de empobrecimento. E o seu legado passou para as mãos do Pedro Lopes com todo o vigor e atualidade.

Pedro Lopes acabou por herdar o aparelho que Pedro Coelho tinha laboriosamente criado e lhe pertencia. Deve ter havido uma transação dos dois Pedros que acordaram em passar os seus préstimos um ao outro, sempre tendo em conta os superiores interesses nacionais.

Rui Rio que já fora no PSD uma das mais relevantes figuras – Secretário-Geral de Marcelo Presidente do PSD (sem tanto afeto, como agora) e Primeiro Vice-Presidente de Santana, Primeiro-Ministro, trapalhão, também quer ser Presidente do PSD, dado que o cargo está vago. E está no seu direito.

Os dois, Rio e Pedro, andam por aí sem que ninguém dê por eles, nem os jornalistas conseguem entrar nas sua anestesiantes campanhas que não mexem com ninguém salvo os habitués que querem colar-se a um deles para ver se sobem na vidinha…

De tanto circularem foram parar à RTP1 e vistos. Um debate do caraças. O Lopes atacou o Rio à paulada. Rijo. Houve uma altura que parecia estar a atacar  Marcelo PR que, como se sabe, participou num  Colóquio na Gulbenkian sobre a JUSTIÇA e organizado pela Associação 25 de Abril. Pedro exibiu uma foto de Rio ao lado do sempre capitão de Abril, o coronel Vasco Lourenço, o que constitui para Santana um verdadeiro sacrilégio…

É evidente que se o PR pode participar numa iniciativa da Associação 25 de Abril, um candidato a Presidente do PSD, jamais

Mas o mal feito ao PSD por Rio não se ficou por este gravíssimo pecado mortal, segundo o acusador Pedro. Rio aparece muito com Pacheco Pereira e Ferreira Leite e ainda com um grupo que aparece e desaparece, do género a que pertence o Morais Sarmento. Mas mais grave é não atacar Costa o suficiente, nem uma trapalhada lhe aponta…Rio não aceitou, e disse que ao fora ele o reconduzido como Provedor da Santa Casa.

Mas Pedro tinha uma cópia de uma entrevista de Rio à Visão no tempo que era Primeiro e, nessa altura, não disse que eram só trapalhadas. Rio não se ficou e deu razão a Sampaio, pois Sócrates viria a ter maioria absoluto. Toma!

Ambos defenderam reformas que a direita defende desde 1976 e nunca mais acabam e são sempre para tirar ao Estado o que ele já pouco tem. O que conta segundo Pedro e Rui é diminuir os impostos, mas só falaram do IRC, sem se ficar a saber porquê só aquele…

Pedro afirmou com toda a força, vá de retro satanás se algum dia faria qualquer acordo com Costa ou o PS. Rio foi mais cauteloso, nunca, nunca, mas se for preciso que venha a troika, aí sim. Mas por que haveria de vir a troika? Pedro Lopes não se importou e deixou vir a troika nesse caso falado.

Rio parecia ter ido copiar Martin Schultz que tinha jurado a pés juntos que nunca faria coligação com Merkl, mas há sempre para alguns um mas.

Ambos cavalgaram contra o status quo, sem darem conta que eles os dois foram dois dos mais altos dirigentes do partido que deixou Portugal neste estado.

Apoiaram Coelho e a troika e o empobrecimento. Esfarraparam-se para confundir o país com os seus propósitos de abocanhar o poder com mais ou menos subvenções aos partidos, mais iva , menos iva. Candidatos em todo o seu esplendor. Quem os quer?