O mundo ao contrário em Goutha, na Palestina, no Iemen…

 

Há muito de atual, no mundo dos nossos dias, na canção de Paco Ibanez «…Era uma vez…». Em Goutha, onde se entrincheirou um dos braços militares da Al Qaeda, a Al Nusra, uma força militar jiadista que recebe apoio dos países ocidentais, a começar pelos EUA, o que se passa é um confronto militar entre os militares da Al Nusra e os sírios apoiados pelos russos, com todo o cortejo de horrores sofridos pela população.

Porém, sublinha-se, foi a Al Qaeda de Ossama Bin Laden que atacou as Torres Gémeas e o Pentágono, ou os governos ocidentais já não se lembram?

Aliás, a invasão do Afeganistão e do Iraque teve como pretexto os ataques da Al Qaeda aos EUA, pois dizia-se que aquela organização estava instalada no Afeganistão e o Iraque. Quem se esqueceu?

«…Era uma vez um lobito bom a quem todas as ovelhas maltratavam—» cantava Paco Ibanez.

O conflito é, muitas vezes, apresentado como se fosse um bombardeamento contra os habitantes do enclave, o que não quer dizer que não sejam atingidos habitantes indefesos. Não se trata de branquear o regime ditatorial sírio, trata-se apenas de pôr os pontos nos is.

Enquanto diariamente, a Arábia Saudita vai bombardeando e destruindo um pequeno e bravo país, o Iémen, todo o Ocidente se cala à espera que a casa real Saud lhe compre mais armas e desfralde a bandeira do mais fanático sunismo em Aden, os olhos deste mundo estão em Goutha Oriental «…Era uma vez um pirata honrado…» cantava Paco Ibanez.

Os palestinianos, martirizados na sua própria terra pela ocupação, repressão e opressão israelita, são os terroristas, mesmo que do seu lado tenham resoluções da ONU a reconhecer o território como seu e o direito à independência com capital em Jerusalém Leste; só que isso não conta para os EUA que contra a lei decidiram reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Quem se esqueceu do cerco e dos bombardeamentos de Israel à faixa de Gaza?, «…Era uma vez uma bruxa formosa…» prosseguia o cantor.

A CIA existe para defender fora das fronteiras dos EUA os seus interesses vitais. Para tanto tem autorização legal da Administração para instalar prisões e instrumentos de tortura a prisioneiros, em barcos no alto mar, em certos países independentemente de autorizarem ou não. Aquela polícia pode escutar as conversas em tempo real de todo o mundo, incluindo as dos governos seus aliados.

Pode perpetrar direta ou indiretamente assassinatos, inclusive das mais altas figuras de Estado de países que estejam na mira dos EUA, como aconteceu com os presidentes eleitos Salvador Allende no Chile e Mossadeg no Irão, «…Era uma vez um príncipe mau…», cantava Paco.

Teresa May, ainda o inquérito vai no início, e já tirou a conclusão de que foi Putin quem ordenou o emprego de um gás que segundo Londres, se fabricava na Ex-URSS.

O que se sabe, ou que se julga saber, é que o espião russo que trabalhava para a Grã- Bretanha foi atacado com um gás venenoso e estará entre a vida e a morte, assim como a sua filha. O governo britânico desconfia da Rússia, a qual nega (como seria de esperar).

Mas antes de qualquer conclusão baseada em provas recolhidas pela investigação o carrocel ocidental já condenou a Rússia, tal como tinha alinhado com George W. Bush, na invasão do Iraque, salvo as então corajosas França e Alemanha …

Este é o mundo dos nossos dias. O mundo onde o Diretor da CIA passa para Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA e a nova Diretora daquela Instituição passa a ter à cabeça uma especialista de tortura praticada algures na Tailândia contra alegados terroristas que se combaterem regimes na mira dos EUA podem passar a serem combatentes da liberdade como em Goutha.

Bem cantava Paco Ibanez «…todas estas coisas se passavam, quando eu sonhava o mundo ao contrário, um lobito bom, a quem maltratavam todos os cordeiros…».  

                     

A Cátedra de Massamá

Não é preciso morar em Lisboa para se ser professor catedrático. Mas também não devia ser preciso morar em Massamá ou ter sido Primeiro-Ministro.

Ser professor catedrático é o resultado de uma vida de estudo e de ensino; uma vida a servir a instituição universitária, as mais das vezes como obra publicada e reverenciada entre os seus pares.

Um professor catedrático não precisa de mais de uma dezena de anos para obter uma licenciatura, nem dez, nem mais dos que os anos que ela implica.

São mulheres e homens que pelos seus conhecimentos granjearam o respeito e o acolhimento dos alunos a quem ensinam. Não significa que sejam gente sem falhas, algumas serão até grandes.

O currículo de um professor catedrático deve ter um recheio que não deixe dúvidas a quem quer que seja de que se está diante de alguém que pode ter a cátedra.

São também o espelho de uma Universidade em crise e cuja essência do ensino que ministra deixa muito a desejar.

Há maus jornalistas, carpinteiros ou padres ou bispos, E também há maus professores.

Esta paradigma não é de esquerda, nem de direita. Qualquer professor catedrático deverá proceder com os alunos de modo absolutamente imparcial e, em geral, é assim.

Não se pode negar a um Primeiro-Ministro capacidade para fazer conferências sobre diversos temas que possam abranger a Administração Pública ou outras áreas, mas como será bom de ver uma, ou duas, ou três ou meia dúzia de conferências não chegam para ministrar uma cadeira que há de englobar, presume-se, dezenas de sumários e muita matéria relacionada.

Essa capacidade para organizar e sistematizar os conhecimentos sobre a Administração Pública são acompanhados por outros que com ela se interligam e formam ou dão corpo ao que vulgarmente se chama sabedoria ou conhecimento da matéria.

Esta visão sobre o papel dos professores catedráticos não tem nada nem de esquerda, nem de direita, nem de elitismo, nem de menosprezo por um ilustríssimo morador de Massamá. Nem que se encerre a Universidade numa visão fechada que impeça alguém de fora do campus universitário vir para o interior para com a sua experiência enriquecer o património espiritual e científico da instituição.

Se o saber político se pudesse equiparar ao saber científico, os melhores professores seriam todos os Primeiros-Ministros ou ministros, o que ninguém ousará defender. Se o ensino é sebenteiro, burocrático, desligado de muitos aspetos da vida, não é com a entrada na Universidade de ex Primeiros-Ministros que se resolvem esses problemas. Passos podia ter ajudado quando exerceu o cargo e não o fez.

Morando em Massamá chegou àquele cargo onde quase ninguém chega. Durante o mandato defendeu as oligarquias do sistema financeiro e, em relação aos estudantes mandou-os sair da zona de conforto e deixarem de ser piegas.

Levou, como é sabido, à fuga de quadros para países onde tiveram outras possibilidades que o governo de Passos não lhes deu.

Passos não resistiu à troica, antes perdido de entusiasmo na defesa dos interesses oligárquicos, foi muito para além dela, gabando-se com Portas, Maria Luís e Cristas da ação do seu governo nesse capítulo. Empobrecer Portugal era o lema e empobreceram.

Há quem ache que este é um perfil, um currículo para se ser professor universitário. E há quem considere um abuso face ao que é exigido aos outros. E há ainda quem considere que se trata de criar uma enorme confusão entre o saber que resulta da política e o saber do estudo de décadas de trabalho.

Há bons professores catedráticos oriundos de qualquer canto de Portugal, sem nomes sonantes na genealogia, de direita e de esquerda.

O currículo de Passos é este: durou anos e anos para tirar um curso e foi Primeiro-Ministro. Devia chegar? Pelos vistos …

Pode o Mais Fraco Vencer o Mais Forte? O Paços Respondeu que Sim.

Se o mais fraco não pudesse vencer o mais forte, poder-se-ia afirmar que a História seria outra.

O mais fraco normalmente perde com o mais forte, mas porque dotado de inteligência e de ousadia pode, em certas circunstâncias, vencer o mais forte. Por isso, nada está predeterminado.

O que o mais fraco procurará no campo de batalha é criar as condições para atacar sem se expor.

Os momentos de libertação de todos os mais fracos tentaram com múltiplos golpes (toca e foge) enfraquecer o mais forte, tornar-lhe a vida extremamente difícil para levá-lo à derrota.

Num campo de futebol o mais fraco defronta o mais forte com as suas armas e, se as souber utilizar, pode vencer.

Se um jogador do F.C.Porto custa quase tanto como a equipa do Paços de Ferreira a luta entre ambos é bem desigual e daí o mais fraco buscar todos os estratagemas para que o mais forte não possa usar seus atributos.

O mais fraco não quer jogar, quer esconder a bola, apressar o relógio; o outro irritado, perderá o seu próprio autocontrolo.

Os jogadores do Paços deram aos do Porto uma boa lição tática ao serviço de uma estratégia de vitória ou de empate.

Os jogadores do Porto não perceberam que a lição do Paços estava estudada e a ser executada ao segundo.

Os jogadores do Paços parecendo recear os do Porto sabiam o que estavam a fazer e ninguém pode queixar-se de numa batalha cada equipa usar as armas de que dispõe.

Se frente ao guarda-redes Brahimi falha o penalti, que culpa têm os jogadores do Paços? Nenhuma. Quem remata daquele modo não marca, se não marca, não vence.

Bem pode Sérgio Conceição criticar o antijogo do Paços, pois se ele fosse o treinador (como já foi de equipas como o Olhanense ou a Académica) jogaria com as mesmas armas.

Haveria futebol se vencesse sempre o mais forte?

Aos Amigos Benfiquistas (3ª Parte) Alea Jacta Est

Os mais velhos lembrar-se-ão de uma frase que correu o país quando a Universidade de Coimbra estava ocupada pela polícia na sequência dos acontecimentos de abril de 1969.

A universidade vivia em pleno estado de sítio com greve às aulas e mais tarde aos exames. Nessa ocasião, o então Ministro da Educação, Hermano Saraiva, proclamava que reinava a calma e a tranquilidade em Coimbra.

O pouco que se passava, segundo o Ministro, resultava da ação de provocadores infiltrados devido à ingenuidade da juventude universitária.

Tempos de dor e de desgraça e simultaneamente de uma esperança que despontou também em abril, cinco anos mais tarde.

Sob o manto de repressão serenava a calma e a tranquilidade.

Nessa altura distanciando-se dos empedernidos do regime, professores de todas as faculdades condenaram a repressão, criando na própria Academia um clima que anunciava o futuro em que mestres e estudantes usufruíam a mesma liberdade.

A instituição era manchada por certas condutas dos seus dirigentes, mas outros elementos do corpo docente desfraldaram a bandeira da honradez.

Quando no dia 08/03/2018, Fernando Tavares, Vice-Presidente da S.L.Benfica, por ocasião da apresentação da equipa feminina de futebol, afirmou a propósito da detenção de Paulo Gonçalves e da E.toupeira que …” O Benfica vive um estado de normalidade e tranquilidade”… assinala de maneira notável o que é para ele, alto dirigente do SLB, um estado de normalidade e tranquilidade.

A existência de indícios relevantes da infiltração de quadros de SLB na estrutura do CITIUS para espiar a justiça é um ato próprio de um estado de normalidade e tranquilidade.

Dizem que Paulo Gonçalves era ou é o braço direito de Luís Filipe Vieira, que é arguido na operação Lex que envolve Rangel.

A PJ esteve, pelo menos, duas vezes a fazer buscas no Estádio do Benfica.

E, apesar disso, segundo Fernando Tavares o Benfica vive um!!! estado de normalidade e tranquilidade! Talvez. Se nos habituarem a todos esta normalidade e tranquilidade, vários anos após a passagem do glorioso presidente Vale e Azevedo.

Falando como falou, Fernando Tavares, disse à nação benfiquista, o que ele entende por normalidade e tranquilidade.

Falta agora a nação benfiquista aceitar ou achar que naquela instituição não é normal tantos indícios de práticas criminosas. Alea jacta est.

A Itália, o Peso da Alemanha e a Crise dos Socialistas

As eleições na Alemanha realizaram-se em Setembro de 2017. Até à presente data ainda não foi formado governo, apesar de já terem passados quase seis meses.

É interessante constatar que em relação à Alemanha não há qualquer alma dorida sobre o tempo decorrido, nem sobre a suposta irresponsabilidade dos partidos políticos pela instabilidade criada pela ausência de governo. Assinala-se que a Bélgica, há uns anos, esteve mais de um ano sem governo.

Em Portugal, nas últimas eleições legislativas muito se falou sobre a dificuldade de António Costa formar governo após Passos Coelho ter borregado, como se sabia de antemão face às posições do PS, PCP, BE e Verdes.

As eleições em Itália tiveram lugar no domingo dia 4 de março e o Movimento Cinco Estrelas ficou em primeiro lugar, mas logo os títulos, ao contrário do que aconteceu na Alemanha (Merkel foi a mais votada, mas sem maioria absoluta), acentuavam a ingovernabilidade.

Com efeito, a grande Alemanha é intocável, mesmo quando gasta pelo menos seis meses a constituir governo, em contraste com as insinuações feitas à Itália, em que a diferença entre os votos obtidos pela CDU e o Movimento Cinco Estrelas não é significativo.

O que há em comum é a inclinação do PD em Itália e o SPD na Alemanha para o centro direita, não permitindo gizar no espetro político uma alternativa clara ao neoliberalismo dominante na U.E.

É a desgraça de prometer uma política e fazer outra que desacredita a própria política e faz surgir os populismos e a extrema-direita na Holanda, Alemanha, Bélgica, Áustria, França, Hungria e nos países bálticos.

Na Alemanha, o SPD prometeu que não voltaria a fazer alianças com a CDU de Merkel e voilá caídinho nos braços da CDU, num forte abraço neoliberal.

Na Itália, o PD nunca teve coragem de romper com a política neoliberal, apesar de se afirmar de centro esquerda.

A modernidade para Renzi consistiu em inventar uma nova lei eleitoral que permitisse a formação artificial de maiorias que, como se viu face à artificialidade, foi castigado dura e materialmente.

O PD, partido social-democrata de última hora, formado com base nos comunistas arrependidos, prossegue, apesar do passado, os caminhos da social-democracia europeia, inclinando-se à direita, e perdendo influência, contribuindo para o reforço do populismo e da extrema-direita que se afirmam demagogicamente contra o status quo.

É, aliado a outras situações na Europa, um exemplo a ter em conta pelo PS de cá. Uma viragem à direita para o centro, para o famigerado bloco central, em busca das grandes coligações, associa um partido que se diz de esquerda a uma grande força de direita, fazendo desaparecer as diferenças entre os principais partidos num enorme centrão onde nos caldeirões do poder se refogam  cozinhados para servir às diferentes clientelas. São negociatas que espezinham o interesse público, e servem os que fazem da política um instrumento de enriquecimento. É esta realidade que leva à desesperança e ao populismo. É tremendo fazer uma sementeira de desânimo fundado na camisa de forças da austeridade para a larga maioria da população e a riqueza pornográfica para uma ínfima maioria.

A ilusão com a eleição de Macron é efémera; todos os problemas da França se mantêm. Macron usou o mesmo truque dos populistas, fez de conta que a sua própria responsabilidade não era dele, mas dos outros, onde ele sempre navegou e continua a navegar, acentuando os lados mais negativos das desigualdades, dando mais dinheiro aos podres de rico e tirando a todos os outros, incluindo aos desgraçados que vivem abaixo do limiar da dignidade

Os países do euro e da U.E. vivem dias de incerteza e de falta de caminhos que conduzam a um futuro com dignidade. É o que se sente. Acaso será possível no mundo atual governar, como se apenas os interesses de uma minoria contassem?

São dias obscuros que se traduzem no afastamento dos cidadãos dos partidos políticos que os enganam com promessas que não cumprem e com desfaçatez sem limites, como foi o caso da do líder do SPD, Martin Schultz, de não se coligar com a CDU.

Se na União Europeia todas as autoestradas vão dar a Berlim, onde moram os donos dos Estados membros, como se poderia imaginar que os povos e os países iriam ficar especados à beira dos caminhos que os conduzem ao declínio?

É bom de ver que neste primeiro momento optam por soluções que vão ser testadas e que não serão soluções, mas sim problemas acrescidos. Mas estes são os caminhos que os diferentes povos europeus estão a percorrer. E dos quais se desenganarão.

Há um aviso claro à navegação social-democrata – não insistam no erro de se aliarem à direita –  se o fizerem, como fizeram os socialistas franceses, gregos, espanhóis, checos holandeses, alemães, italianos, austríacos, belgas e suecos, continuarão a travessia do deserto e á míngua. A direção certa é virar à esquerda. Darão um grande contributo para a formação de maiorias claras para resolver os problemas criados pelo sistema financeiro que despreza quem vive do trabalho. Para manter o rumo neoliberal, nada como os verdadeiros geradores da austeridade, os oficiantes do Deus Mercado. Haja Coragem. E o que PS de António Costa se mantenha imune aos cantos das sereias centristas.

Aos Amigos Benfiquistas -2ª Parte

É evidente que as instituições são moldadas pelos homens que têm à sua frente. Mas não só. E aqui entra o que poderá ser um lado novo no fenómeno da alienação. É fácil constatar a universal alienação que a máquina do futebol está a provocar.

Como o mundo está um lugar difícil para se viver ou até sobreviver para a maioria, o futebol pode gerar identidades, alegrias e frustrações coletivas a quem só tem o triste quotidiano.

Quem tiver de conviver com os dias sem luz, a esperança múltipla da comunidade dos que “morrem” pelo seu clube (porque já não há mais nada para se morrer por…) é um fator de alento.

Nas instituições do futebol, neste momento histórico, coexistem instituições, dirigentes e massas associativas que se irmanam, sem estarem irmanadas. Essa simbiose é um dos elementos mais extraordinários da cegueira humana.

Se o clube do adepto for investigado por crimes graves, como por exemplo o da capacidade de se infiltrar na máquina judicial, para o grosso dos associados, este crime não é nada, apenas um instrumento da luta entre os clubes.

Em certo sentido, já não é apenas a direção do clube que não se distancia do que está a ser investigado, mas ainda a fusão entre a massa alienada e a instituição e os seus dirigentes.

Nada interessa a não ser que, se hoje o “meu” clube está em investigação, outros já estiveram por piores situações, e a investigação em curso tem a ver com a luta contra o “meu” clube, a qual já passou para o próprio M.P. e sistema policial a quem se jura colaborar.

Há até quem considere que no atual “esgoto” para que as coisas fiquem equilibradas se deviam reabrir os processos da fruta e eventualmente outros, porque afirmam, alguns, até excelentes juristas, que as provas ilegais não o são.

É este o mundo em que vivemos.

De um lado a instituição dirigida por homens que se protegem, “protegendo” a instituição. E, do outro lado, a massa dos cegos, do conjunto dos esfomeados de glória do seu clube, nem que seja à custa das infiltrações nos meandros da justiça.

Chegados aqui pergunta-se: é a cegueira obrigatoriamente uma fase do desenvolvimento atual da Humanidade?

Aos Amigos Benfiquistas

O nariz de cera de dizer que uma coisa é a instituição, outra são os seus elementos integrantes tem muito que se lhe diga; mas mesmo muito.

Uma instituição ganha notoriedade e prestígio porque quem a dirige lhe dá essas características com a ação que lhe imprime. Se quem a dirige, não tem esses dons e não os passa para a instituição, naturalmente que ela não adquire essas virtudes.

São as mulheres e os homens que integram a instituição que fazem dela honrada ou desonrada.

Quando se pretende desculpar a ação dos prevaricadores, o refúgio na instituição serve às mil maravilhas, na medida em que muitas vezes a ação dos homens visa “prestigiar” a instituição onde eles se acoitaram para também eles aparecerem de mão dada com a instituição nos píncaros da lua.

Se um destacado dirigente da instituição decide com outros criar uma rede de fulanos que contra as leis da República e contra as questões nevrálgicas do funcionamento do Estado de Direito Democrático para entrarem nos segredos do Citius e afins, então o homem e a instituição só se despegam se a instituição e o homem se despegarem.

Se a instituição clama pela inocência do homem perseguido pela Justiça e ainda a ataca junto do mais alto magistrado da ação penal, temos que a instituição e o homem estão muito bem um para o outro e um no outro, continuando a identificar-se, mesmo na hora da desgraça.

A instituição é uma coisa diferente da dos homens que a dirigem se ela tomada de surpresa pela eventual conduta criminosa de um dos seus dirigentes, dele se demarcar e se declarar satisfeita pela justiça estar a funcionar.

Se a instituição, pelo prestígio que granjeou graças à ação honrada e sábia de outros homens, se convencer que por esse facto e pelo poder alcançado é intocável e pode fazer o que quiser para artificialmente manter o prestígio que já não tem como manter, enveredando por condutas criminosas, é, a todas as luzes, evidente que a instituição não se distingue dos homens que a dirigem e estão indiciados pela prática de crimes.

A instituição está acima dos homens se em relação à conduta ilícita dos mesmos se declarar que nada tem a ver com a referida conduta, condenando-a. Se ao contrário defender essa conduta, instituição e dirigentes fundem-se e afundam o prestígio da instituição em causa.

Por isso, devem as instituições, quando confrontadas com condutas criminosas de dirigentes que a dirigem, demarcar-se e condenar as atitudes desses sujeitos. Não há instituições sem mulheres e homens que lhe dão corpo e vida. Não há instituições em que as suas condutas estejam desligadas dos dirigentes que lhe traçam o destino.

Se uma instituição não quiser ter o mesmo destino dos sujeitos que a dirigem contra as leis, tem de os afastar e condená-los publicamente e antes da própria justiça que é mais lenta.

Se assim fizer é nítida a separação; se o não fizer é porque funcionam, sem qualquer separação das condutas criminosas.

A Jigajoga do PS, PSD e Marcelo

Em política, aliás, como nas coisas da vida há um começo. Uma espécie de esboço que pode não retratar de imediato toda a situação, mas as baias de um quadro futuro.

No caso que abordamos PS e PSD sentaram-se à mesa de negociações e definiram áreas de aproximação, o que para bom entendedor significa que podendo entender-se naquelas áreas, os interessados irão eventualmente avançar noutras de maior complexidade. Branco é, galinha o pôs.

A jigajoga protagonizada por Rui Rio vai desde Marcelo, Presidente, a Costa, Primeiro-Ministro, e passa pela hostilidade forte dentro do PSD, a começar pelo setor mais visível que é o grupo parlamentar. Aqui diga-se que Negrão, no debate de quarta feira, estendeu a passadeira a Costa para ele passar à larga.

Salazar dizia que em política o que parecia, era. Não irei tão longe, mas o esboço que se está a desenhar tem o seu quê de real.

Rio ataca o PS, mas aconchega-se a Costa, apontando as tais possibilidades de acordos sobre fundos estruturais e regionalização. O parceiro de coligação do PSD no governo teve quinta feira um almoço com Rio após os realizados com Costa e Marcelo. Ficou para último.

Se, por acaso, sobre as duas questões houver acordo, António Costa fê-lo antes de o alcançar com o PCP,  o Bloco e os Verdes, o que tem um grande relevo político.

Um acordo do PSD com o PS, nestas circunstâncias, na sequência de um anterior quadro de confronto entre os dois partidos, valerá como promessa de possibilidades de novos acordos, mesmo que o seja só no plano psicológico.

Quando Marcelo, do alto do seu populismo, considera que talvez não haja tempo e sugere pressa tendo em contas as próximas eleições legislativas, há um pé no acelerador e outro no travão.

O pé no acelerador tem a ver com a pressa em mostrar (os temas que se diz que terem o apoio de Belém) que sobre questões importantes pode haver mais facilmente acordo com o PSD do que com os parceiros das esquerdas.

O pé no travão tem a ver com a possibilidade da rebelião no interior do PSD que o  poderá levar a perder influência eleitoral, face à possibilidade de capitalização do CDS à direita, e no temor do PS vir a ter maioria absoluta.

Os dados parecem estar lançados e as duas reuniões de Marcelo com Rui Rio mostram até que ponto o mais alto magistrado da nação parece estará “seguir” (pelo menos) o  cozinhado que Rio está a preparar, independentemente do caldeirão dos deputados ter entrado em ebulição, o que pode levar ao esturro e Marcelo a temer as consequências. Este cozinhado, diga-se desde já, não consta das atribuições constitucionais do PR.

O certo é que há algo de novo entre PS e PSD; deixou de haver a guerra permanente e abriu-se em período que já não é apenas de tréguas, mas de comissões de ambos os partidos a reunirem para estudar acordos.

Não é pouco. É algo que não é só novidade. É também uma possibilidade para Costa e Rio, mesmo que aquele repita que só diz respeito aos chamados consensos alargados, pela simples razão que ainda nem sequer os tem com os parceiros que o apoiam na Assembleia da República.

O esboço que abarca São Bento, Belém e São Caetano, revela várias turbulências; desde logo na geringonça e, como se vê a bom ver, dentro do PSD que tinha criado ao longo destes dois anos uma equipa sempre pronta a atacar o PS e a juntar-se ao CDS.

Rio enfrenta o próprio PSD. Costa eventualmente os seus apoiantes na Assembleia da República. Os desafios são de monta. Se não valessem a pena (para ambos) não iriam desencadeá-los. Não faltará muito para se saber o que aí vem. Temos, à vista, uma jigajoga para vir a substituir a geringonça?

Social-democracia em Debate- Chapelada a Pedro N. Santos

As sondagens tornadas públicas na Alemanha quanto à votação nos partidos são claras no que toca a uma matéria em cima da mesa, e que se prende com as alianças dos partidos sociais-democratas.

Se os resultados eleitorais de setembro do ano passado foram maus para o SPD (partido social-democrata), estas sondagens, realizadas após a quebra do compromisso de Martin Schulz de não fazer coligação com a CDU de Merkel, são desastrosas e colocam o SPD atrás do partido da extrema-direita.

Esta coligação aparece ao eleitorado como uma traição ao anunciado, com toda a pompa e circunstância, por parte de Schulz, garantindo ao eleitorado social-democrata que não faria a coligação.

Com esta conduta deu um passo mais no sentido de desiludir a massa de eleitores e simpatizantes do SPD. Frustrou as suas aspirações. Contribuiu para denegrir a atividade política, acentuando o lado negativo que chega aos cidadãos que os leva a pensar que os políticos são todos iguais, pois o SPD tinha anunciado que não se coligaria com a CDU. Foi um excelente serviço prestado aos populistas à extrema-direita.

Este tipo de coligação (a chamada grande coligação) diminui significativamente as possibilidades de escolha dos eleitores. Além de que o eleitor escolhe uma coisa e o eleito impinge-lhe outra. O cardápio para governar é quase único.

Vale a pena fazer um rápido percurso para dar conta da destruição que este tipo de comportamento provocou nos partidos socialistas e sociais-democratas.

Em Espanha, França, Itália, Grécia, Áustria, Holanda, Bélgica e até na Suécia os estragos estão à vista. Grandes partidos da III Internacional estão hoje em mínimos históricos. E porquê? Porque exatamente pisaram os ideais que fizeram deles grandes partidos alternativos.

Ao abraçarem os ideais neoliberais deixaram de ser vistos pelos eleitores como sendo uma alternativa, passando a ser como os partidos dominantes de direita. E para tomar aspirina todos sabem que a da Bayer é a única; também em política nada melhor que a direita para fazer a política neoliberal, mesmo que por momentos os sociais-democratas tenham pensado que eles também a podiam fazer tornando-a menos odiosa. Foram eles que se tornaram odiados por quem neles confiava.

Basta atentar no exemplo de Portugal. O PS virou à esquerda e subiu no seu apoio tanto no plano social, como no plano eleitoral.

A política até agora realizada por este governo com apoio parlamentar do PCP, BE e Verdes colhe apoio maioritário no seio dos portugueses.

Por isso é de saudar o texto publicado neste jornal no dia 29/02/2018 por Pedro Nunes Santos em que assume claramente que o desafio da social-democracia é o da defesa do papel do Estado no desenvolvimento da economia através de investimento público, na redistribuição dos rendimentos através da provisão dos serviços públicos e de prestações sociais e na proteção e reconhecimento do valor do trabalho enquanto parte importante da dignidade pessoal.

Pode achar-se que fica aquém do que outras esquerdas defendem, mas por aqui passa o caminho do progresso e de alternativa.

Claro que as outras correntes socialistas também têm de tirar dividendos desta etapa do progresso social, apoiando o caminho e diferenciando-se naquilo que é a diferença na independência de cada um. Um acordo que só beneficie um dos parceiros não tem futuro. Esse é o famigerado abraço de urso que deu o que deu na França.

Há que encontrar, neste quadro diferente, um posicionamento dos restantes parceiros em que possam, por um lado, aparecerem como sujeitos da mudança para melhor, e que, sem eles, tal mudança não teria sido possível, mas que , por outro, como tendo um projeto de diferença, que vai para além do que se negoceia.

Seria também uma desgraça se entendessem que eventuais dificuldades de comunicação com os respetivos eleitores resultasse do acordo e não das próprias contingências. Estes acordos exigem mais que nunca capacidade de ganhar os apoios sociais para este projeto e sem esse apoio pode haver surpresas negativas. O mal, em todo o caso, estará sobretudo na dificuldade dos partidos e não nos acordos em si.

A nova liderança do PSD está no terreno a tentar envolver o PS para que este se afaste dos atuais acordos. Já o tornou público. Costa foi escolhido para um primeiro encontro por Rui Rio. Antes de Assunção Cristas. Facilitar o caminho de Rio seria um desastre.

Se o PS fosse no cântico da desgraça, o mal seria também dele. Que o diga o PSOE, o PSF, o PASOK, o SPD e outros.

Nesta fase da vida política é fundamental que, face ao poder gigantesco dos donos do dinheiro, as esquerdas convirjam. Por aí passa um futuro melhor e possível.

domingos lopes

 

Um Pistoleiro na Casa Branca

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Na cabeça do homem, o mundo não passa de uma enorme arena onde os mais fortes e agressivos se podem servir de todos os meios para vencer e humilhar todos os outros.

Uma escola, para este homem, não é um local onde os professores ensinam os alunos a aprenderem e a serem homens.

Este homem não imagina o percurso da Humanidade desde a Antiguidade de Sócrates até aos nossos dias, no que toca à arte e à profissão de ensinar.

As professoras e os professores são mulheres e homens cuja vocação é ensinar em paz para que na escola os alunos aprendam e vivam tranquilamente.

A escola é o local onde se vai aprender e a obter os ensinamentos que permitirão, no futuro, aos estudantes ter as competências para singrarem na vida.

Na escola ensina-se e aprende-se.

Para o Presidente dos EUA a escola é o local para onde os professores, treinadores devem ir armados para abater os “maus”. No país que considera que qualquer um ou uma em qualquer circunstância deve ter a possibilidade de comprar uma arma e até uma metralhadora a partir dos dezoito anos.

Para o Presidente dos EUA proibir o acesso generalizado às armas não lhe passa pela cabeça.

Para ele se há armas nas mãos dos “maus”, os “bons” têm de ter armas para os matar.

Como poderia um professor armado, pronto para matar, ensinar que os rapazes e as raparigas, as mulheres e os homens devem viver em paz e sem medo de seres humanos capazes de matar por nada? Como?

Este homem nunca saiu do seu mundo de negócios imobiliários, dos seus campos de golfe, das suas conquistas à custa dos milhões de notas verdes, de sórdidas declarações misóginas, e da sua avareza pelo reluzente ouro que o cerca.

Ficará na História como exemplo que não basta ser multibilionário para saber estar à altura das suas responsabilidades presidenciais.

É um pistoleiro que se instalou na Casa Branca e tem o mundo sob a sua mira.