Pode um progressista cego ver a realidade (II)

 

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

PODE UM PROGRESSISTA CEGO VER A REALIDADE (II)

Uma habilidade em termos de debate é, como se sabe, escrever que o oponente escreveu algo que não escreveu. Em nenhuma parte do meu texto, publicado neste jornal , no passado dia 29 de fevereiro,  « Pode um progressista cego ver a realidade?» escrevi que qualquer crítica a Putin era própria de um russofóbico. Nem tal me passa pela cabeça; só mesmo a Rui Tavares no seu texto de 2 de abril.

O que eu escrevi e está impresso«…Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário…»

No vigésimo primeiro parágrafo, o penúltimo, escrevi…« O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições..»

O texto tem vinte e dois parágrafos e não quatorze como escreve Rui Tavares. E não mencionei no corpo do texto o nome de Rui Tavares porque, para mim, o que conta são as ideias, e essas estão lá para rebater a histeria e não o cidadão e historiador Rui Tavares. Por que carga de água havia de citar o historiador se o que eu pretendia era chamar a atenção para uma certa questão?

Voltando ao tema é inegável que há na situação atual uma volumosa carga informativa sobre o caso do alegado envenenamento de um espião russo ao serviço do Reino Unido e de sua filha. Ben Johnson, o descabelado M.N.E. inglês, comparou Putin a Hitler e os jogos olímpicos de Moscovo aos de Berlim de 1936 em plena ascensão do nazismo. Johnson não é ignorante e sabe que foi a Alemanha nazi que invadiu a URSS.

No seguimento do envenenamento de Londres um certo número de países ditos ocidentais, mas alguns deles, bem situados na Europa de Leste, abriram um concurso para ver quem expulsava mais diplomatas russos.

Em Portugal foram muitos os que ergueram a sua voz para que Portugal alinhasse nesse concurso. Há uma azia na alma de muita gente que clama pelo alinhamento de Portugal com os que entraram no concurso.

Tudo por causa do envenenamento de um espião que está em fase de investigação e o que está a ser investigado não permite ainda conclusões. Trata-se da mais elementar regra de prudência – não tirar conclusões enquanto se investiga.

Neste contexto, agir como se já tivesse havido conclusões sobre o caso, e para dar maior credibilidade à tese de Theresa May, expulsar dezenas  de diplomatas russos, é um caso de russofobia. Veja-se a invasão do Iraque, contra o direito internacional, sem que uma única dessas almas condoídas tenha clamado pela expulsão de diplomatas dos EUA e do Reino Unido. Recorda-se que algumas delas se notabilizaram aplaudindo a invasão e qualificaram a queda de Bagdad como se fosse o 25 de abril de lá…

Por isso a prudência aconselharia que se esperasse e, caso se confirmasse, que se estudassem as respostas adequadas e proporcionais àquela violação da soberania inglesa.

Rui Tavares, no seu texto de opinião do dia vinte e oito de março, resolveu inverter os termos do problema e colocar a questão deste modo: pode um progressista apoiar um tirano como Putin?

Como me pareceu que as coisas não deviam ser colocados daquele modo, defendi no meu texto que na ordem internacional todos as violações do direito internacional e dos direitos humanos devem ser condenadas. Os direitos humanos são comandos que devem ser observados em todas as latitudes, sublinho, em todas.

Ora a defesa da argumentação usada por Rui Tavares parece ser esta: ou defendem Putin ou atacam-no como eu e o Ben Johnson fazemos…

Porém pode-se pensar pela própria cabeça e defender, se for caso de defender, e atacar, se for o caso. Ou esperar para saber exatamente o que se passou e aí exercer a crítica, se a ela houver lugar.

Rui Tavares escreveu …« Não há regra do direito internacional a que Putin jure fidelidade que não tenha sido por ele espezinhada… Tudo isto já era verdade antes do caso do atentado com armas químicas, em solo britânico, contra um espião russo e sua filha…»

Não é adequado, neste mundo atual, dizer-se que não há uma única regra do direito internacional (sem mencionar qual) que Putin jure fidelidade e que não espezinhe… Que dizer de semelhante afirmação? Pela minha parte seja quem for, ocidental, oriental, russo, francês, americano, brasileiro, mongol, espanhol, catalão que mereça ser apoiado apoiarei. E criticarei, se for o caso. Um debate sério exige argumentação séria. In casu, quando houver conclusões, tiraremos as devidas ilações. Antes é a histeria russofóbica como se pode ver por todo o lado. E a denúncia de tal histeria não significa qualquer apoio a Putin, antes o apoio a uma ordem internacional justa e equilibrada baseada em certezas e não em rumores e inclinações.

Pode um progressista cego ver?

Putin é o Presidente da Federação Russa, país que pela sua extensão se estende desde a América do Norte, abarca toda a Europa e abraça o norte da Ásia. Só na Sibéria caberia toda a Europa.

Pelo seu contributo no domínio da literatura, música, pintura, arte em geral, política, ciência, cosmonáutica, a Rússia é um expoente mundial.

Foi no território da Rússia que teve lugar a primeira revolução socialista vitoriosa.

A Rússia, herdeira, no território, de parte da URSS, é um país com interesses próprios que poderão chocar com outros interesses de outros países, como é normal.

Rivaliza no domínio militar com os EUA, em termos de poderio militar, embora o orçamento militar dos EUA seja de cerca 700.000 milhões de dólares e o da Rússia 50.000milhões de dólares.

Como se viu na Síria, a Rússia, na defesa dos seus interesses próprios, independentemente dos interesses sírios, é capaz de intervir em todos os cantos do mundo. Ajudou os sírios a combater o Daech e a ganhar a sua base militar, tal como outros países o fazem noutras latitudes, sendo que na Síria bem gostariam os EUA de ter uma base para melhor atacar o Irão.

Diga-se, em abono da verdade, que é Israel com apoio dos EUA que ocupa os Montes Golan da Síria contra a decisão do Conselho de Segurança da ONU. Ainda em abono da verdade foi Trump quem decidiu reconhecer Jerusalém como capital de Israel contra Resoluções da ONU.

A Rússia não foi, não é, nem provavelmente será um país exemplar em termos de direito internacional, tal como o Reino Unido, a França ou os EUA…

E, como tantas outras potências militares, é um país que tem um peso no conjunto da vida internacional em termos tais que não deixam dúvidas acerca da sua capacidade militar.

Nas eleições russas participou, entre outros, o PC russo que obteve pouco mais de onze por cento dos votos.

Outros candidatos não foram admitidos a concorrer, o que não é curial, nem desejável. Porém, as eleições russas são iguais a muitas outras que existem em países aliados do ocidente, e apesar de tudo são uma expressão da vontade do povo russo. Há países que estão no coração dos EUA e do Reino Unido que consideram a democracia uma heresia.

Nos últimos dias levantou-se uma histeria internacional no sentido de saber quem expulsa mais diplomatas russos dos seus países a propósito da tentativa de envenenamento de um espião russo que espiava também para os serviços secretos de sua Majestade ou ao contrário.

Acontece que está em curso uma investigação, o que significa que ainda não há uma certeza acerca de quem foi o autor do crime.

E como é do conhecimento geral, enquanto uma investigação investigar, não há, até terminar, uma conclusão. Não havendo conclusão, não há ainda culpados.

A pressa em culpar faz lembrar as armas de destruição massiva que afinal não existiam no Iraque.

Daí que exigir que se chegue a um resultado final da investigação seja uma postura adequada a um juízo de razoabilidade, apenas porque é necessário apurar quem foi o responsável pelo envenenamento.

Ser progressista também é pensar pela sua própria cabeça e ao falar-se em armas químicas vale lembrar os terríveis crimes dos EUA no Vietnam e da ausência desta histeria coletiva para expulsar diplomatas americanos.

Se se tivesse feito como agora se está a fazer em relação aos EUA, por certo os EUA ficariam sem diplomatas no mundo inteiro.

Se se tiver em conta a guerra do Iraque levada a cabo com o monumental embuste, teríamos de expulsar de todos os postos os diplomatas dos EUA e do Reino Unido, da Espanha e de Portugal.

A cegueira, mesmo de um progressista, é sempre uma cegueira.

Andou bem o governo português ao não acompanhar esta histeria. Não porque seja brando em atacar os russos, mas porque os interesses de Portugal passam por manter relações construtivas e mutuamente vantajosas com a Rússia.

Não é necessário gostar de Putin para perceber que todos os Estados têm interesses próprios, designadamente a Grã-Bretanha, os EUA, A França e a Rússia entre outros. Basta atentar nas intervenções destes países. O que se não entende é a histeria russófoba. A cegueira não deixa ver o mundo e as suas contradições.

A legalidade internacional exige de todos os mesmos compromissos e comportamentos. Se antes de chegar à obtenção das provas de que foi a Rússia a envenenar o tal espião e a sua filha se atua como se fosse verdadeiro o que que pode vir a ser ou não ser demonstrado, semelhante comportamento é o caos nas relações internacionais. Pode um progressista aprovar este ponto de vista?

A vergonha da pobreza e a pobreza da vergonha

 

As palavras ditas por quem ocupa o mais alto posto no Estado português deviam ter um conteúdo simbólico único, uma espécie de valor universal que abraçassem em confiança toda a comunidade.

As palavras são talvez a maior invenção humana e o facto de serem objeto de tráfico no seu mais íntimo significado, não implica que, em si mesmas, não sejam capazes de articular ideias que nos fazem superar e ser melhores.

As palavras, nestas circunstâncias, não se podem assemelhar a tantas outras ditas como um piar rancoroso ou como proclamações ao gosto dos ouvidos que as vão acolher.

A palavra pobre é tremendamente rica em conteúdo. A pobreza é algo que, como alguém disse, nos pode envergonhar, sobretudo se formos responsáveis pela sua existência. Se no nosso país a pobreza cresceu assustadoramente e os muito ricos ficaram ainda mais ricos, tal significa que houve uma política deliberada para que resultasse desse modo. Por isso muitos dos nossos compatriotas viveram e vivem sem o mínimo de dignidade. E faz doer ver no nosso semelhante um cidadão sem esse mínimo de dignidade.

Houve quem fizesse da pobreza um programa político de governo: Passos Coelho, Paulo Portas, Maria Luís e Assunçao Cristas e Cª prometeram e conseguiram empobrecer os portugueses em geral e enriquecer uma ínfima minoria. Empobrecer foi até ao governo de António Costa a saga e o desafio de quem todos os dias desencadeava medidas, impostos, taxas para que os muitíssimo ricos pudessem contratar desempregados a preços baixos e realmente enriquecer os que beneficiavam dessa competitividade. E quem não quisesse empobrecer que abandonasse a sua zona de conforto e fosse pelo mundo fora à procura de outra vida, proclamava Passos secundado por Portas e Cristas.

As palavras uma vez ditas ficam nos ouvidos dos destinatários e nos registos mediáticos existentes. O programa de empobrecimento durou quatro anos e tinha em Berlim e em Amsterdão quem achasse que ele era o castigo para os sulistas de Portugal.

Mas ele foi a salvação da crise da banca e serviu para transferir o défice privado para o Estado, arcando os portugueses com a dívida dos bancos para estes continuarem ricos e mais de um quarto dos portugueses muito pobres.

Ser pobre para Salazar era uma qualidade. Em democracia defender o mesmo conceito é muito mais difícil. E, por isso, a palavra pobre é, neste caso, uma chaga viva que se reflete na vida dos portugueses. Aqueles que devido ao empobrecimento se encontram privados de quase tudo, até da dignidade humana deviam merecer respeito e coragem para traçar políticas que os arranquem da situação em que se encontram.

Trata-se dos mais elementares deveres de irmandade e de bondade. De facto a pobreza devia envergonhar os que governaram para empobrecer. E se Passos governou para empobrecer como não se envergonhar de tal proeza? Quando Portugal saiu do procedimento de défice excessivo o mais alto magistrado da nação valorizou a ação de Passos Coelho pelo que fez durante a governação. E de novo o peso das palavras ditas.

Quem pretendeu empobrecer, prometeu que ia fazer pobres de quem Marcelo hoje tem vergonha. E conseguiu empobrecer e aumentar a pobreza. E pode ser valorizado o homem que criou um mar de pobres que envergonham Marcelo? Se a pobreza pode envergonhar, a vergonha pode ser uma pobreza de alma se servir de arma de arremesso a destinatário incerto. Há muitos pobres em Portugal para nos deixar confortáveis. Mas este governo iniciou um trajeto de estancar a pobreza e devolver rendimentos. A pobreza que envergonha Marcelo não foi eliminada, mas seria uma vergonha não reconhecer o que foi feito e que hoje os portugueses não vivem tão mal como viviam.

In Público de 24/03/2018

A Histeria de Ben Johnson, M.N.E. do Reino Unido

Nas terras de Sua Majestade, a Rainha Isabel, e de Teresa May, as coisas não correm bem aos conservadores que já não sabem o que hão de fazer com o Brexit.

E, neste contexto, nada como um conflito com a Rússia para entreter os ingleses.

É verdade que há um espião que já foi espião de outro país ou espião de dois países ao mesmo tempo e que, ao que se sabe, envenenado com gás. May e Johnson afirmam que foi a Rússia; esta diz que não.

Então o que há de novo? A completa histeria britânica de que é expoente o M.N.E. Ben Johnson.

Putin é Putin. O presidente da Rússia. Pode pensar-se muita coisa sobre as eleições na Rússia, lá isso pode-se; mas mais se pode pensar dos grandes amigos do Reino Unido como a família real saudita onde aos opositores se cortam as cabeças… e Londres embrulha-as nas faturas das armas que vendem para ajudar a destruir o Iemen e a reprimir a oposição democrática.

Pois de que se havia de lembrar o descabelado Johnson – que Putin com o campeonato mundial de futebol quer obter a glória que Hitler quis com os jogos olímpicos de 1936. Comparar Putin a Hitler é fazer da História tábua rasa, basta recordar que Hitler invadiu a URSS de onde proveio Putin.

Para dar o ar de sua graça mistura a Crimeia tentando comparar a invasão e ocupação hitlerianas com um território que sempre foi russo ( mesmo quando  a rainha Vitória , Napoleão III e o sultão turco a tentaram retirar daquele país no século XIX) salvo no momento em que Nikita Krutchov resolveu colocá-lo, no quadro da URSS , na Ucrânia.

Não se pode comparar um território, a Crimeia, que deu no século XIX origem à guerra da Crimeia com a guerra das Malvinas, um território a mais de dez mil quilómetros da Inglaterra e que esta considera seu e, no entanto, é argentino, como não pode deixar de ser e só não o é porque os grandes deste mundo, explorando o facto de a Argentina ser governada na altura por uma ditadura militar, deram as mãos para proteger Tatcher. Uma vergonha que ensombrou o mundo. A Crimeia foi sempre parte da Rússia ou da URSS, as Malvinas nunca foram britânicas a não ser pela força das armas.

Putin é o tipo de líder nacionalista, com ambições de fazer da Rússia uma grande potência, o que o Ocidente não aceita, pois sabe que do ponto de vista militar aquele país pode ombrear com os EUA e NATO em termos de armamento estratégico. Esse é o problema.

A Inglaterra está à deriva. May não sabe para que lado se há de virar para lidar com a saída da U.E. As sondagens não lhe são favoráveis. Um conflito com a Rússia pode funcionar. Só que a Rússia não é o Iraque. E Blair e Barroso e Portas também juraram que aquele país tinha armas de destruição massiva e depois da guerra foi o que se viu e o que se está a ver. E ainda se vai ver mais. Atente-se na ignomínia de abraçar Kadhaffi para receber milhões e depois patrocina-se o seu assassinato, não é Monsieur Sarkosy?

Johnson perdeu a cabeça. May há muito que não sabe o que há de fazer à sua. Vai a União Europeia enfileirar com o outro lado da Mancha sem que haja investigação e conclusão ouvindo e dando margem a todas as partes para se pronunciarem? Ou a ordem internacional baseia-se na opinião de um Estado por mais importante que seja? No século XIX à Inglaterra bastava mostrar a bandeira para que os outros se rendessem…mas já não vivemos naquele século.

O mundo ao contrário em Goutha, na Palestina, no Iemen…

 

Há muito de atual, no mundo dos nossos dias, na canção de Paco Ibanez «…Era uma vez…». Em Goutha, onde se entrincheirou um dos braços militares da Al Qaeda, a Al Nusra, uma força militar jiadista que recebe apoio dos países ocidentais, a começar pelos EUA, o que se passa é um confronto militar entre os militares da Al Nusra e os sírios apoiados pelos russos, com todo o cortejo de horrores sofridos pela população.

Porém, sublinha-se, foi a Al Qaeda de Ossama Bin Laden que atacou as Torres Gémeas e o Pentágono, ou os governos ocidentais já não se lembram?

Aliás, a invasão do Afeganistão e do Iraque teve como pretexto os ataques da Al Qaeda aos EUA, pois dizia-se que aquela organização estava instalada no Afeganistão e o Iraque. Quem se esqueceu?

«…Era uma vez um lobito bom a quem todas as ovelhas maltratavam—» cantava Paco Ibanez.

O conflito é, muitas vezes, apresentado como se fosse um bombardeamento contra os habitantes do enclave, o que não quer dizer que não sejam atingidos habitantes indefesos. Não se trata de branquear o regime ditatorial sírio, trata-se apenas de pôr os pontos nos is.

Enquanto diariamente, a Arábia Saudita vai bombardeando e destruindo um pequeno e bravo país, o Iémen, todo o Ocidente se cala à espera que a casa real Saud lhe compre mais armas e desfralde a bandeira do mais fanático sunismo em Aden, os olhos deste mundo estão em Goutha Oriental «…Era uma vez um pirata honrado…» cantava Paco Ibanez.

Os palestinianos, martirizados na sua própria terra pela ocupação, repressão e opressão israelita, são os terroristas, mesmo que do seu lado tenham resoluções da ONU a reconhecer o território como seu e o direito à independência com capital em Jerusalém Leste; só que isso não conta para os EUA que contra a lei decidiram reconhecer Jerusalém como capital de Israel. Quem se esqueceu do cerco e dos bombardeamentos de Israel à faixa de Gaza?, «…Era uma vez uma bruxa formosa…» prosseguia o cantor.

A CIA existe para defender fora das fronteiras dos EUA os seus interesses vitais. Para tanto tem autorização legal da Administração para instalar prisões e instrumentos de tortura a prisioneiros, em barcos no alto mar, em certos países independentemente de autorizarem ou não. Aquela polícia pode escutar as conversas em tempo real de todo o mundo, incluindo as dos governos seus aliados.

Pode perpetrar direta ou indiretamente assassinatos, inclusive das mais altas figuras de Estado de países que estejam na mira dos EUA, como aconteceu com os presidentes eleitos Salvador Allende no Chile e Mossadeg no Irão, «…Era uma vez um príncipe mau…», cantava Paco.

Teresa May, ainda o inquérito vai no início, e já tirou a conclusão de que foi Putin quem ordenou o emprego de um gás que segundo Londres, se fabricava na Ex-URSS.

O que se sabe, ou que se julga saber, é que o espião russo que trabalhava para a Grã- Bretanha foi atacado com um gás venenoso e estará entre a vida e a morte, assim como a sua filha. O governo britânico desconfia da Rússia, a qual nega (como seria de esperar).

Mas antes de qualquer conclusão baseada em provas recolhidas pela investigação o carrocel ocidental já condenou a Rússia, tal como tinha alinhado com George W. Bush, na invasão do Iraque, salvo as então corajosas França e Alemanha …

Este é o mundo dos nossos dias. O mundo onde o Diretor da CIA passa para Ministro dos Negócios Estrangeiros dos EUA e a nova Diretora daquela Instituição passa a ter à cabeça uma especialista de tortura praticada algures na Tailândia contra alegados terroristas que se combaterem regimes na mira dos EUA podem passar a serem combatentes da liberdade como em Goutha.

Bem cantava Paco Ibanez «…todas estas coisas se passavam, quando eu sonhava o mundo ao contrário, um lobito bom, a quem maltratavam todos os cordeiros…».  

                     

A Cátedra de Massamá

Não é preciso morar em Lisboa para se ser professor catedrático. Mas também não devia ser preciso morar em Massamá ou ter sido Primeiro-Ministro.

Ser professor catedrático é o resultado de uma vida de estudo e de ensino; uma vida a servir a instituição universitária, as mais das vezes como obra publicada e reverenciada entre os seus pares.

Um professor catedrático não precisa de mais de uma dezena de anos para obter uma licenciatura, nem dez, nem mais dos que os anos que ela implica.

São mulheres e homens que pelos seus conhecimentos granjearam o respeito e o acolhimento dos alunos a quem ensinam. Não significa que sejam gente sem falhas, algumas serão até grandes.

O currículo de um professor catedrático deve ter um recheio que não deixe dúvidas a quem quer que seja de que se está diante de alguém que pode ter a cátedra.

São também o espelho de uma Universidade em crise e cuja essência do ensino que ministra deixa muito a desejar.

Há maus jornalistas, carpinteiros ou padres ou bispos, E também há maus professores.

Esta paradigma não é de esquerda, nem de direita. Qualquer professor catedrático deverá proceder com os alunos de modo absolutamente imparcial e, em geral, é assim.

Não se pode negar a um Primeiro-Ministro capacidade para fazer conferências sobre diversos temas que possam abranger a Administração Pública ou outras áreas, mas como será bom de ver uma, ou duas, ou três ou meia dúzia de conferências não chegam para ministrar uma cadeira que há de englobar, presume-se, dezenas de sumários e muita matéria relacionada.

Essa capacidade para organizar e sistematizar os conhecimentos sobre a Administração Pública são acompanhados por outros que com ela se interligam e formam ou dão corpo ao que vulgarmente se chama sabedoria ou conhecimento da matéria.

Esta visão sobre o papel dos professores catedráticos não tem nada nem de esquerda, nem de direita, nem de elitismo, nem de menosprezo por um ilustríssimo morador de Massamá. Nem que se encerre a Universidade numa visão fechada que impeça alguém de fora do campus universitário vir para o interior para com a sua experiência enriquecer o património espiritual e científico da instituição.

Se o saber político se pudesse equiparar ao saber científico, os melhores professores seriam todos os Primeiros-Ministros ou ministros, o que ninguém ousará defender. Se o ensino é sebenteiro, burocrático, desligado de muitos aspetos da vida, não é com a entrada na Universidade de ex Primeiros-Ministros que se resolvem esses problemas. Passos podia ter ajudado quando exerceu o cargo e não o fez.

Morando em Massamá chegou àquele cargo onde quase ninguém chega. Durante o mandato defendeu as oligarquias do sistema financeiro e, em relação aos estudantes mandou-os sair da zona de conforto e deixarem de ser piegas.

Levou, como é sabido, à fuga de quadros para países onde tiveram outras possibilidades que o governo de Passos não lhes deu.

Passos não resistiu à troica, antes perdido de entusiasmo na defesa dos interesses oligárquicos, foi muito para além dela, gabando-se com Portas, Maria Luís e Cristas da ação do seu governo nesse capítulo. Empobrecer Portugal era o lema e empobreceram.

Há quem ache que este é um perfil, um currículo para se ser professor universitário. E há quem considere um abuso face ao que é exigido aos outros. E há ainda quem considere que se trata de criar uma enorme confusão entre o saber que resulta da política e o saber do estudo de décadas de trabalho.

Há bons professores catedráticos oriundos de qualquer canto de Portugal, sem nomes sonantes na genealogia, de direita e de esquerda.

O currículo de Passos é este: durou anos e anos para tirar um curso e foi Primeiro-Ministro. Devia chegar? Pelos vistos …

Pode o Mais Fraco Vencer o Mais Forte? O Paços Respondeu que Sim.

Se o mais fraco não pudesse vencer o mais forte, poder-se-ia afirmar que a História seria outra.

O mais fraco normalmente perde com o mais forte, mas porque dotado de inteligência e de ousadia pode, em certas circunstâncias, vencer o mais forte. Por isso, nada está predeterminado.

O que o mais fraco procurará no campo de batalha é criar as condições para atacar sem se expor.

Os momentos de libertação de todos os mais fracos tentaram com múltiplos golpes (toca e foge) enfraquecer o mais forte, tornar-lhe a vida extremamente difícil para levá-lo à derrota.

Num campo de futebol o mais fraco defronta o mais forte com as suas armas e, se as souber utilizar, pode vencer.

Se um jogador do F.C.Porto custa quase tanto como a equipa do Paços de Ferreira a luta entre ambos é bem desigual e daí o mais fraco buscar todos os estratagemas para que o mais forte não possa usar seus atributos.

O mais fraco não quer jogar, quer esconder a bola, apressar o relógio; o outro irritado, perderá o seu próprio autocontrolo.

Os jogadores do Paços deram aos do Porto uma boa lição tática ao serviço de uma estratégia de vitória ou de empate.

Os jogadores do Porto não perceberam que a lição do Paços estava estudada e a ser executada ao segundo.

Os jogadores do Paços parecendo recear os do Porto sabiam o que estavam a fazer e ninguém pode queixar-se de numa batalha cada equipa usar as armas de que dispõe.

Se frente ao guarda-redes Brahimi falha o penalti, que culpa têm os jogadores do Paços? Nenhuma. Quem remata daquele modo não marca, se não marca, não vence.

Bem pode Sérgio Conceição criticar o antijogo do Paços, pois se ele fosse o treinador (como já foi de equipas como o Olhanense ou a Académica) jogaria com as mesmas armas.

Haveria futebol se vencesse sempre o mais forte?

Aos Amigos Benfiquistas (3ª Parte) Alea Jacta Est

Os mais velhos lembrar-se-ão de uma frase que correu o país quando a Universidade de Coimbra estava ocupada pela polícia na sequência dos acontecimentos de abril de 1969.

A universidade vivia em pleno estado de sítio com greve às aulas e mais tarde aos exames. Nessa ocasião, o então Ministro da Educação, Hermano Saraiva, proclamava que reinava a calma e a tranquilidade em Coimbra.

O pouco que se passava, segundo o Ministro, resultava da ação de provocadores infiltrados devido à ingenuidade da juventude universitária.

Tempos de dor e de desgraça e simultaneamente de uma esperança que despontou também em abril, cinco anos mais tarde.

Sob o manto de repressão serenava a calma e a tranquilidade.

Nessa altura distanciando-se dos empedernidos do regime, professores de todas as faculdades condenaram a repressão, criando na própria Academia um clima que anunciava o futuro em que mestres e estudantes usufruíam a mesma liberdade.

A instituição era manchada por certas condutas dos seus dirigentes, mas outros elementos do corpo docente desfraldaram a bandeira da honradez.

Quando no dia 08/03/2018, Fernando Tavares, Vice-Presidente da S.L.Benfica, por ocasião da apresentação da equipa feminina de futebol, afirmou a propósito da detenção de Paulo Gonçalves e da E.toupeira que …” O Benfica vive um estado de normalidade e tranquilidade”… assinala de maneira notável o que é para ele, alto dirigente do SLB, um estado de normalidade e tranquilidade.

A existência de indícios relevantes da infiltração de quadros de SLB na estrutura do CITIUS para espiar a justiça é um ato próprio de um estado de normalidade e tranquilidade.

Dizem que Paulo Gonçalves era ou é o braço direito de Luís Filipe Vieira, que é arguido na operação Lex que envolve Rangel.

A PJ esteve, pelo menos, duas vezes a fazer buscas no Estádio do Benfica.

E, apesar disso, segundo Fernando Tavares o Benfica vive um!!! estado de normalidade e tranquilidade! Talvez. Se nos habituarem a todos esta normalidade e tranquilidade, vários anos após a passagem do glorioso presidente Vale e Azevedo.

Falando como falou, Fernando Tavares, disse à nação benfiquista, o que ele entende por normalidade e tranquilidade.

Falta agora a nação benfiquista aceitar ou achar que naquela instituição não é normal tantos indícios de práticas criminosas. Alea jacta est.

A Itália, o Peso da Alemanha e a Crise dos Socialistas

As eleições na Alemanha realizaram-se em Setembro de 2017. Até à presente data ainda não foi formado governo, apesar de já terem passados quase seis meses.

É interessante constatar que em relação à Alemanha não há qualquer alma dorida sobre o tempo decorrido, nem sobre a suposta irresponsabilidade dos partidos políticos pela instabilidade criada pela ausência de governo. Assinala-se que a Bélgica, há uns anos, esteve mais de um ano sem governo.

Em Portugal, nas últimas eleições legislativas muito se falou sobre a dificuldade de António Costa formar governo após Passos Coelho ter borregado, como se sabia de antemão face às posições do PS, PCP, BE e Verdes.

As eleições em Itália tiveram lugar no domingo dia 4 de março e o Movimento Cinco Estrelas ficou em primeiro lugar, mas logo os títulos, ao contrário do que aconteceu na Alemanha (Merkel foi a mais votada, mas sem maioria absoluta), acentuavam a ingovernabilidade.

Com efeito, a grande Alemanha é intocável, mesmo quando gasta pelo menos seis meses a constituir governo, em contraste com as insinuações feitas à Itália, em que a diferença entre os votos obtidos pela CDU e o Movimento Cinco Estrelas não é significativo.

O que há em comum é a inclinação do PD em Itália e o SPD na Alemanha para o centro direita, não permitindo gizar no espetro político uma alternativa clara ao neoliberalismo dominante na U.E.

É a desgraça de prometer uma política e fazer outra que desacredita a própria política e faz surgir os populismos e a extrema-direita na Holanda, Alemanha, Bélgica, Áustria, França, Hungria e nos países bálticos.

Na Alemanha, o SPD prometeu que não voltaria a fazer alianças com a CDU de Merkel e voilá caídinho nos braços da CDU, num forte abraço neoliberal.

Na Itália, o PD nunca teve coragem de romper com a política neoliberal, apesar de se afirmar de centro esquerda.

A modernidade para Renzi consistiu em inventar uma nova lei eleitoral que permitisse a formação artificial de maiorias que, como se viu face à artificialidade, foi castigado dura e materialmente.

O PD, partido social-democrata de última hora, formado com base nos comunistas arrependidos, prossegue, apesar do passado, os caminhos da social-democracia europeia, inclinando-se à direita, e perdendo influência, contribuindo para o reforço do populismo e da extrema-direita que se afirmam demagogicamente contra o status quo.

É, aliado a outras situações na Europa, um exemplo a ter em conta pelo PS de cá. Uma viragem à direita para o centro, para o famigerado bloco central, em busca das grandes coligações, associa um partido que se diz de esquerda a uma grande força de direita, fazendo desaparecer as diferenças entre os principais partidos num enorme centrão onde nos caldeirões do poder se refogam  cozinhados para servir às diferentes clientelas. São negociatas que espezinham o interesse público, e servem os que fazem da política um instrumento de enriquecimento. É esta realidade que leva à desesperança e ao populismo. É tremendo fazer uma sementeira de desânimo fundado na camisa de forças da austeridade para a larga maioria da população e a riqueza pornográfica para uma ínfima maioria.

A ilusão com a eleição de Macron é efémera; todos os problemas da França se mantêm. Macron usou o mesmo truque dos populistas, fez de conta que a sua própria responsabilidade não era dele, mas dos outros, onde ele sempre navegou e continua a navegar, acentuando os lados mais negativos das desigualdades, dando mais dinheiro aos podres de rico e tirando a todos os outros, incluindo aos desgraçados que vivem abaixo do limiar da dignidade

Os países do euro e da U.E. vivem dias de incerteza e de falta de caminhos que conduzam a um futuro com dignidade. É o que se sente. Acaso será possível no mundo atual governar, como se apenas os interesses de uma minoria contassem?

São dias obscuros que se traduzem no afastamento dos cidadãos dos partidos políticos que os enganam com promessas que não cumprem e com desfaçatez sem limites, como foi o caso da do líder do SPD, Martin Schultz, de não se coligar com a CDU.

Se na União Europeia todas as autoestradas vão dar a Berlim, onde moram os donos dos Estados membros, como se poderia imaginar que os povos e os países iriam ficar especados à beira dos caminhos que os conduzem ao declínio?

É bom de ver que neste primeiro momento optam por soluções que vão ser testadas e que não serão soluções, mas sim problemas acrescidos. Mas estes são os caminhos que os diferentes povos europeus estão a percorrer. E dos quais se desenganarão.

Há um aviso claro à navegação social-democrata – não insistam no erro de se aliarem à direita –  se o fizerem, como fizeram os socialistas franceses, gregos, espanhóis, checos holandeses, alemães, italianos, austríacos, belgas e suecos, continuarão a travessia do deserto e á míngua. A direção certa é virar à esquerda. Darão um grande contributo para a formação de maiorias claras para resolver os problemas criados pelo sistema financeiro que despreza quem vive do trabalho. Para manter o rumo neoliberal, nada como os verdadeiros geradores da austeridade, os oficiantes do Deus Mercado. Haja Coragem. E o que PS de António Costa se mantenha imune aos cantos das sereias centristas.

Aos Amigos Benfiquistas -2ª Parte

É evidente que as instituições são moldadas pelos homens que têm à sua frente. Mas não só. E aqui entra o que poderá ser um lado novo no fenómeno da alienação. É fácil constatar a universal alienação que a máquina do futebol está a provocar.

Como o mundo está um lugar difícil para se viver ou até sobreviver para a maioria, o futebol pode gerar identidades, alegrias e frustrações coletivas a quem só tem o triste quotidiano.

Quem tiver de conviver com os dias sem luz, a esperança múltipla da comunidade dos que “morrem” pelo seu clube (porque já não há mais nada para se morrer por…) é um fator de alento.

Nas instituições do futebol, neste momento histórico, coexistem instituições, dirigentes e massas associativas que se irmanam, sem estarem irmanadas. Essa simbiose é um dos elementos mais extraordinários da cegueira humana.

Se o clube do adepto for investigado por crimes graves, como por exemplo o da capacidade de se infiltrar na máquina judicial, para o grosso dos associados, este crime não é nada, apenas um instrumento da luta entre os clubes.

Em certo sentido, já não é apenas a direção do clube que não se distancia do que está a ser investigado, mas ainda a fusão entre a massa alienada e a instituição e os seus dirigentes.

Nada interessa a não ser que, se hoje o “meu” clube está em investigação, outros já estiveram por piores situações, e a investigação em curso tem a ver com a luta contra o “meu” clube, a qual já passou para o próprio M.P. e sistema policial a quem se jura colaborar.

Há até quem considere que no atual “esgoto” para que as coisas fiquem equilibradas se deviam reabrir os processos da fruta e eventualmente outros, porque afirmam, alguns, até excelentes juristas, que as provas ilegais não o são.

É este o mundo em que vivemos.

De um lado a instituição dirigida por homens que se protegem, “protegendo” a instituição. E, do outro lado, a massa dos cegos, do conjunto dos esfomeados de glória do seu clube, nem que seja à custa das infiltrações nos meandros da justiça.

Chegados aqui pergunta-se: é a cegueira obrigatoriamente uma fase do desenvolvimento atual da Humanidade?