Harry e Meghan em part-time real

 

O Reino Unido, vulgo Inglaterra, é um país de reis, rainhas e nobres, apesar de toda a modernidade espalhada pelos quatro cantos do país.

Nascer-se filho daquelas famílias é um acontecimento mundial que nenhum media quer perder. Os filhos dos duques são apresentados como se o mundo tivesse recuado séculos, embora na City as cotações do mundo financeiro continuem a sua saga e a inteligência artificial se estenda pelo planeta, essa é que é essa.

A família real tem mansões, grandes propriedades, castelos, fundos e muito metal sonante daquele com que se compram Roll-Royes, Bentleys , aviões e outros que tais,  leva muito a sério o mundo dos negócios.

O filho de Diana, o príncipe Harry, sexto na linha sucessória, casado com a atriz Meghan, apesar de todas as múltiplas benesses, deve estar farto daquela velharia infernal, sempre a trabalhar, em que o pai Carlos mais parece um bisavô que  pai (deve ser da Camila ou quiçá do trabalho a despachar secretários). Há que dizê-lo – conspirar na família real dá muito trabalhinho.

A família real conclavou no castelo de Sandringham e determinou por via de Her Majesty que Harry e Meghan são livres (não o seriam), mas atenção que quanto a serem independentes ela vai ver dentro de dias como se processará a alforria.

A rainha e a sua família prefeririam que Harry e Meghan continuassem “…a trabalhar como membros da família real a tempo inteiro…” Mas, como não querem trabalhar a tempo inteiro para a família real talvez seja possível encontrar um part-time (a palavra é inglesa) em que os “independentistas” continuem a usufruir de certos castelos, de certas mansões, propriedades e outras roiyalties.

Fantástica esta família que pretende que os seus membros a tempo inteiro trabalhem auxiliados por uma caterva de criados e assessores e assim fiquem quietinhos a trabalhar a tempo inteiro. O problema é que os secretários empurram na família uns contra os outros e os familiares não se seguram, coisas da nobreza.

Como o mundo se move, como disse Galileu Galilei que não era de sangue azul, Her Majesty the Queen admite, melhor, aceita que os duques poderão trabalhar em part-time para a família real.

Que Deus abençoe a Rainha nesta hora dramática e trágica em que Harry e Meghan se mudarão para um novo tipo de trabalho. E terão a tempo inteiro a  parte do fundo soberano e a quota da herança da mãe de Harry, a malograda Diana. Ao que se diz o príncipe Carlos não vê com bons olhos este part-time porque coitado dele, tirando o criado que o veste e calça, tem de se levantar todos os dias à espera de ser Rei. Uma chatice a tempo inteiro.

https://www.publico.pt/2020/01/15/mundo/opiniao/parttime-duque-duquesa-sussex-1900469

As armas falarão mais alto e ditarão as suas leis?

Tornou-se um lugar-comum afirmar que o mundo está a ficar um local perigoso para se viver.

É indesmentível – a ordem que saiu da segunda guerra mundial está a esvair-se e a ser substituída por uma nova ordem ditada pelo desequilíbrio da força militar. Haverá força para contrariar esta tendência? Que reequilíbrios se poderão vir a estabelecer?

Os líderes que pugnam por uma nova ordem mundial são exatamente os mesmos que, no plano interno dos seus países, prosseguem políticas de apoio ao armamento dos cidadãos.

A configuração deste universo interno passa, no plano internacional, pela ação militar e o fim do apego à filosofia do atual direito internacional que proíbe a guerra.

Baseado numa superioridade militar/tecnológica, Trump vai-se apresentando como Sherif do mundo e ostenta os diversos troféus que vai eliminando.

O assassinato do general iraniano constitui uma ação de guerra contra outro país, com a agravante de ter sido cometido noutro país… Há quem entenda que aquela ação serviria para desviar a atenção dos cidadãos dos EUA do impeachement.

Portugal ficou em silêncio face ao assassinato do general iraniano, mas foi rápido a condenar o ataque militar iraniano aos EUA, igualmente no Iraque e também ele um ato de guerra no território de outro país. Pesos e medidas que não abonam a credibilidade internacional. São precisos Estados coerentes na defesa da paz no meio deste mundo caótico.

Apesar de toda a retórica Trump parece ter abandonado a cadeia das respostas e contra respostas, dado a perigosidade da prossecução desse caminho. Na madrugada de quarta feira o MNE iraniano já tinha deixado claro que aquela era a resposta, deixando antever o fim da “vingança”, esperando-se que tudo volte a uma certa normalidade em que as conversações substituam o ribombar das armas.

Os tempos, em certa medida, assemelham-se ao período que antecedeu a segunda guerra mundial em que todos se calavam para não enfurecer Hitler…

No Médio Oriente sauditas, iranianos, turcos, russos, e sobretudo os norte-americanos armam os grupos que fazem o seu jogo. Não são aceitáveis teorias que há terroristas melhores que outros. O terrorismo deve ser banido, seja ele qual for, incluindo o de Israel e da Arábia Saudita. Não eram iranianos os que atacaram Nova Iorque, muitos pertenciam à Arábia Saudita, país da origem de Ossama Bin Laden.

Qassem Soleimani não era nenhum anjinho, era o homem da política iraniana para a região da qual os EUA distam a mais de sete mil quilómetros, e apesar disso cercam toda a área por todos os lados acompanhados por tropas da NATO, incluindo portuguesas.

Trump chegou a pontos de ameaçar a destruição de centros culturais e civilizacionais que são pertença da Humanidade. Trump já se apropriou da linguagem do DAESH e das suas mensagens de destruição dos símbolos civilizacionais, arrependendo-se mais tarde, dado a lei internacional o proibir, algo que não lhe deve ter passado pela cabeça, mesmo sendo o Presidente dos EUA.

Nas relações entre Estados a arrogância e a fanfarronice é má conselheira. Vale sempre a pena ter presente que o Iraque tem hoje esta influência iraniana graças a George W. Bush.

Ser o país mais poderoso nos tempos atuais não chega para ser respeitado e admirado. Nem chega para impor ao mundo a sua política.

Por instantes o Presidente dos EUA, embora arengando ameaças, parece ter abandonado para já a sua terminologia catastrófica e belicista acerca do que o exército dos EUA é capaz de destruir.

Resta apesar de tudo o que não pode nunca morrer- a esperança da paz. Só a melhor consciência dos povos e de cada cidadão aliada a todos os Estados vinculados aos princípios da paz mundial poderá impedir o rumo para a barbárie. Que cada um pergunte a si e a todos se é inevitável o precipício.

https://www.publico.pt/2020/01/09/mundo/opiniao/armas-falarao-alto-ditarao-lei-1899797

A arrogância e a impreparação de Trump para se situar no mundo atual

 

O passo que os E.U.A deram ao ordenar a execução, em Bagdad, capital do Iraque, do general Qassem Soleimani, Comandante dos Guardas da Revolução, força militar especial iraniana, abre uma nova frente no conflito entre aquele país e o Irão e com repercussão em toda a região.

Este ataque a um dos mais altos dirigentes iranianos em solo iraquiano atinge e viola de modo grosseiro a soberania iraquiana.

Esta politica trumpiana – a de assassinar em solo de outro país que não o dos conflituantes revela o mais total desrespeito pelo direito internacional e é preciso condená-lo antes que a lei do Texas volte às relações internacionais.

Trata-se de um confronto aberto com os mais elementares princípios em que assenta a ordem internacional elaborada com grande participação pelos EUA após o fim da segunda guerra mundial.

Trump, apoiado pelos ultras com John Bolton à cabeça, nunca aceitou o Acordo assinado entre Baraka Obama, os cinco membros do Conselho de Segurança da ONU e o Irão.

A justificação de que é o fim de uma guerra é um disparate de tal forma ridículo que revela também a completa impreparação da personagem para se comportar como um Presidente de um país civilizado.

Trump, a contas com um processo de impeachement devido ao condicionamento de um auxílio militar à Ucrânia à perseguição a um candidato democrata na sua corrida eleitoral à Casa Branca, não tem capacidade para olhar para o mundo para além de um enorme espaço pronto para urbanizar onde puder ganhar big money.

A peregrina ideia de que o Irão nunca ganhou uma guerra, mas nunca perdeu uma negociação é tão infantil que não atinge o patamar de ridícula. É própria de um analfabeto arrogante que não deve saber que o Irão é a antiga Pérsia onde floresceu uma das mais avançadas civilizações e que criou um Império apenas batido pelo Grande Alexandre da Macedónia, lídimo representante do melhor da cultura grega. E que se reergueu continuando a ganhar e a perder guerras, como todos os países.

Trump para além do mundo da Fox pouco deve conhecer. Derredor dele juntam-se os mais reacionários cavalheiros evangélicos unidos no seu apego ao dinheiro pugnando por um mundo que não avance em direção ao progresso por temerem perderem os seus privilégios. Para eles o mundo é a elite branca dos EUA e mais uns tantos príncipes cheios de petrodólares e os dirigentes israelitas que pregam a eliminação da Palestina e do Irão.

Nunca se pode perder de vista que foi George. W. Bush e Tony Blair( apoiados por Barroso e Portas ) quem criou a atual situação no Iraque com a intervenção militar à margem do direito internacional. Não instaurou a democracia no Iraque, antes ofereceu o poder aos chiitas em Bagdad. Foi Bush quem deu ao Irão a influência que tem no Iraque. E não aprenderam nada, pelos vistos.

De certo modo Trump continua a linha de Bush juntando-lhe a sua incapacidade para compreender o mundo atual agindo como uma pulsão quase narcísica.

Este passo de Trump na escalada do conflito pode levar a um crescendo de respostas e contra respostas, envolvendo outros atores, com o perigoso agravamento de toda a situação.

O Secretário-Geral da ONU, os principais dirigentes mundiais têm a obrigação de falarem e condenarem a cegueira de Trump.

Tardam a ouvir-se vozes realistas, comprometidas com um mundo de paz, respeitadores de um mundo diverso, capazes de construir um futuro para todos e não apenas para a sua casta e o seu núcleo de amigos internos e externos.

A palmada do Papa

 

 

Quando Francisco cumprimentava na noite de 31 de dezembro, na Praça de São Pedro os fiéis, uma mulher agarrou-lhe o braço, puxou-o, impedindo-o de continuar o seu percurso e de imediato o Papa virou-se e com cara de zangado deu-lhe uma palmada na mão da mulher que o puxou. Como se faria a uma criança que saísse da “linha”.

Foi este gesto profundamente humano de Jorge Bergoglio, Papa Francisco, que “escandalizou” o mundo.

A CMTV e o Correio da Manhã referem-no como “palmada violenta na mão da peregrina”.

O episódio fez-me lembrar as queixas de Álvaro Cunhal quando os camaradas nas suas visitas ou comícios lhe davam palmadas nas costas tão fortes que o levavam a irritar-se e a perguntar se queriam que lhes fizesse o mesmo. Na verdade chegava a ficar com as costas pisadas das “fraternas” pancadas nos costados.

Bem sei que Francisco é o Papa, o representante de Jesus Cristo, Deus, na Terra. Há, porém, nesta Terra, fiéis que na sua exuberante fidelidade querem que a sua presença seja assinalada por aquele a quem veneram. E estender a mão ou dar a face é uma coisa, puxar pelo braço de quem cumpria a sua função pontifícia dando graças fiéis é outra coisa, a todas as luzes e em todas as latitudes.

O puxão da mulher no braço do representante do seu Deus na Terra talvez fosse um desespero para lhe chamar a atenção da sua existência. Talvez. Certamente para sua glória futura ou mediática.

Cunhal zangava-se com tanto amor proletário. E com razão. As costas eram dele.

Tudo certo. Até na reação do Papa Francisco. Ele é um homem, os crentes acharão um santo homem e até um homem santo.

E é verdade – a mulher puxou-o a ponto de o impedir de andar. E ele exasperado reagiu. São assim os seres humanos. E por serem humanos chegam a pontos de considerar violenta a palmada de Francisco, o homem Bergoglio. Pois.

Bergoglio pediu desculpas, devia ter dado o outro braço, digo eu. Mas ele não é Jesus Cristo, é um homem nascido em Flores, Buenos Aires, na Argentina tão cheia de problemas.

Percebe-se esta fraqueza humana, a de transformar um gesto humano numa notícia que pretende vulnerabilizar o Chefe do Vaticano. Em suma, uma espécie de politiquice.

Esta “pancada” não é nada comparada com as pancadas que vem distribuindo nos gananciosos do mundo. No próximo dia 26 de março inicia-se em Assis, Itália, a conferência – A economia de Francisco, para a  qual tem o auxílio de dois Nobel, Joseph Stiglitz e Amartya Sem. Essa é a pancada que não lhe perdoam. Que nunca lhe doa a mão.

https://www.publico.pt/2020/01/03/opiniao/opiniao/palmada-papa-novo-escandalo-mundial-1899187

 

 

 

 

 

 

À espera da solidão do PS

 

À medida que o tempo vai decorrendo fica mais nítido o que sucedeu com a grave crise gerada para “salvação” dos bancos que se arruinaram com a sua gestão, antes elogiadíssima.

Depois da nacionalização da banca, a reprivatização foi apresentada como uma das medidas mais necessárias para obterem lucros e salvarem os bancos e a economia( sempre em salvação) face ao despesismo e à incúria do Estado.

Foi a grande loucura. O BCP abriu só com homens. Mulheres no banco do Jardim só na igreja ou na cozinha…Era a banca sadia. Lucros estratosféricos. Crédito a jorros. Gaste e pague depois, diziam eles, os poupadinhos. O glamour.

Durante trinta anos de cima da sua arrogância e poder fizeram o que quiseram com o beneplácito dos governantes. Quem tinha bancos podia ter ministros, secretários de Estado, municípios, políticos, jornais, televisões, tudo… O país era deles, literalmente.

Veio a crise. E de quem foi a culpa? Dos portugueses que viviam acima das possibilidades, embora não fossem donos de nenhuma banco a rebentar de tanto crédito mal concedido a amigos, parentes, compadres, à família. A direita, mas não só (no PS também houve quem seguisse a ladainha) foi em socorros dos seus génios fustigando o pobre povo atordoada pela pancadaria nos vencimentos cortados até às unhas. Aguentava, diziam os espertalhaços …

A salvação de Portugal, o seu resgate, estava no empobrecimento. Passos ainda tinha um de seiscentos milhões para cortar, se tivesse ganho as eleições com o CDS, e que provavelmente o candidato a líder do PSD Luís Montenegro tem em vista, se ganhar. Diga-se que este restaurador- mor da direita nem uma vez criticou o poder dos sacrossantos banqueiros.

Os bancos que escarneciam do Estado gastador, cheio de gorduras, e o combatiam ,receberam quase dezanove mil milhões de euros para se salvarem arruinando a vida de milhões de portugueses.

Vive-se hoje uma luta quase sempre às escondidas para que não venha ao de cima esse lado escandaloso da incompetência. Os que hoje atacam ao serviços públicos são os mesmos que parasitam o Estado e exigem à cabeça lucros ( via parcerias) independentemente dos resultados. Finórios. São os que confundem os seus bolsos com a economia nacional. São os que em sede de concertação social se entrincheiram contra o aumento diário no salário mínimo de um café, mas se calam ou defendem que o Estado continue a encher o banco vendido ao preço da uva mijona ao Lonely Star e que que continue ad nauseam a pagar danos colaterais de  outro escândalo, como foi o BPN, não tendo bastado o que todos pagámos. São os mesmos que acharam ser um grande negócio vender a EDP a uma multinacional chinesa por um par de tostões a ponto de agora estarem prestes a venderam seis das cinquenta e nove barragens por dois mil e setecentos milhões de euros, sendo que apenas os ativos não estratégicos têm um valor de seis mil milhões.

E que dizer da venda da PT-TELECOM com todo aquele cortejo de excelente administradores com as mais altas condecorações sentados nos bancos dos tribunais como arguidos para serem julgados daqui a muitos anos porque a justiça em Portugal não é para pressas para os poderosos. E a venda da ANA? Fez um contrato que lhe assegura a exploração do aeroporto de Lisboa até a gente se esquecer da data enchendo os acionistas de vil metal…Tudo ao desbarato. Eles é que sabem. Vão para o governo e depois pulam para a EDP dos chineses(Mexia e Teixeira dos Santos, sempre tiveram uma costela comunista), para a ANA( José Luis Arnault) para o FMI(Vitor Gaspar) ou para a ARROWS, Maria Luis Albuquerque.

A verdade é que, na expectativa de que o governo do PS esteja quatro anos de solidão à esquerda, já se apressam a exigir na Saúde, na Escola Pública, na Justiça, na Segurança Social, par tout.

https://www.publico.pt/2019/12/31/politica/opiniao/ai-estao-espera-solidao-ps-1898893

 

Riad, palco de futebol e vergonha

 

Um dia depois da supertaça italiana, entre Juventus e Lazio, se ter jogado em Riad, capital da Arábia Saudita, onde até há muito pouco tempo as mulheres estavam interditas de entrar nos estádios, um tribunal saudita condenou à morte cinco fulanos acusados de terem assassinado o jornalista J. Khashoggi, opositor aos métodos despóticos do novo Senhor feudal daquele país.

Enquanto os aviões e a metralha saudita matavam iemenitas no seu próprio país o colosso de Turim e o emblema famoso de Roma iam a Riad em busca de big money para se defrontarem, bem longe da bela Itália.

No país onde os crentes não muçulmanos não têm templos para a prática da sua religião e as liberdades individuais inexistem, sobretudo para as mulheres, Juventus e Lazio foram jogar futebol fazendo de conta que estavam num país normal, “esquecendo” que estavam no país dos sabres que às sextas feiras decepam cabeças.

Só que a normalidade de um jogo de futebol foi de imediato desfeita com o anúncio milimetricamente decidido da condenação à morte de cinco supostos sicários que terão participado no monstruoso assassinato de J. Khashoggi, sem até hoje o seu corpo ter aparecido e sem qualquer explicação plausível para esse facto.

A utilização do consulado da Arábia Saudita em Istambul para tão ominoso ato pressupõe o conluio ao mais alto nível do governo de Riade. A invenção que a vítima tinha abandonado o  consulado exibindo ao mundo um vídeo de um sósia mostra o requinte do plano dos mandantes.

Depois de saberem que Khashoggi iria ao consulado buscar a documentação para poder casar com a noiva turca deu tempo aos carniceiros de Riade para prepararem o crime enviando especialistas em autópsias e peritos em diluição de cadáveres.

Não admira, pois, que para tentar calar a voz do mundo que se ergueu para denunciar o horrendo crime, as autoridades sauditas tenham inventado uns tantos “criminosos”, reais, existentes ou não, com os nomes identificados ou outros e que os executem legalmente para que de uma vez por todas o rasto fique apagado e possam prosseguir os grandes negócios com o Ocidente, onde o futebol é rei de entretimento.

A Trump não o preocupa minimamente o obscurantismo do fundamentalismo sunita de Riad a roçar a jiade; a sua obstinação é vender milhares de milhões de dólares em armamento, mesmo que no reino saudita impere a mais pura crueldade em termos sociais e políticos.

A Europa da Declaração Universal dos Direitos Humanos sossega com o jogo das  aparências e assim se poder deitar para o lado onde os negócios se fazem e enchem os bolsos do complexo industrial – militar.

Será que as diversas chancelarias se vão dar por satisfeitas e de novo os negócios de milhares de milhões lavem consciências e que com tal anúncio se sintam justificadas? Quem poderá crer que foram aqueles cinco? Quem os ouviu para além dos juízes escolhidos por Riade? Admitindo que estiveram na execução do crime após serem executados quem fica a saber o que se passou? Terão sido caladas as vozes que poderiam dizer a verdade? Quem sabe? Quem pode acreditar? O obscurantismo é a lei de Riad.

 

https://www.publico.pt/2019/12/23/mundo/opiniao/riad-palco-futebol-vergonha-1898361

Os túneis da ignomínia

Há no futebol português um impulso, por partes de certos determinados poderes, para a escuridão, o mesmo é dizer para túneis onde a luz pouco vinga.

Quem pode esquecer o famoso túnel da Luz que permitiu ao Éssélebê usufruir dos castigos a dois elementos decisivos no FCPorto( Hulk e Supanaru) que vieram mais tarde (após a perda do campeonato com Jesualdo Ferreira) a serem absolvidos de castigos de seis meses de suspensão.

Repare-se no modus operandi: quando as equipas regressam aos balneários estabelece-se a confusão e há sempre alguém do FCP que agride um anjinho de asas brancas da outra equipa. Foi assim na Luz (imagine-se na Luz) e foi assim no Estádio Nacional agora.

As trombetas do Juízo Final anunciaram que o maléfico ou javardo ou belicoso ou terrível Sérgio Conceição desferiu um soco no treinador do Belenenses SAD e o país parou.

Não se pode dizer que Sérgio Conceição seja exemplo de serenidade, algo que um líder tem o dever de o ser, mas daí a afinfar no outro treinador um soco vai uma distância tão grande como aquela revelação de dia 20/12/2019 do Correio da Manhã via CMTV …“Vê-se ainda Sérgio Conceição a andar sozinho à frente, com vários elementos do FCP atrás”… Isto é o que está escrito no Correio da Manhã para de imediato concluir …”Não se percebe, todavia, se houve um murro do técnico portista em Pedro Ribeiro”… Vê-se Sérgio Conceição a andar sozinho à frente, sublinha-se sozinho.

Vendo-se Sérgio Conceição sozinho logo conclui o CM que não se percebe se houve um murro em Pedro Ribeiro… Como se percebe a desfaçatez do CM. Por que motivo o CM não percebe se não houve por exemplo um murro, vá lá, no árbitro ou na Tia Maria, ou no Ti Manel?

Como se percebe o ódio figadal…Percebe-se, percebe-se.

ÉSSEÉLEBÊ-ÉSSELEBÊ-ÉSSEÉLEBÊ

 

Não há cidadão em todo o planeta que não conheça a grandeza do Ésseélebê, desde os confins da Amazónia até às estepes siberianas, passando pelo extenso Sahara e pelo Gobi até à sede da RDP, onde está instalada a RTP.

Trata-se de uma instituição que está a ser alvo de ataques vindos de forças invejosas pelo facto do seu fantástico Presidente aparecer em tudo quanto se relaciona com sucesso financeiro.

A resposta a esses ataques impôs àquela prestigiosa instituição a criação de um gabinete de crise cujos membros vigiam 24 sobre 24 horas tudo o que ao Éssélebê diz respeito.

No dia dezoito do corrente mês, do prestes a findar ano de 2019, no relvado da Luz a RTP montou toda a parafernália de câmaras para que o mundo pudesse assistir ao confronto com os guerreiros de Braga.

E, então, todos puderam ouvir o fidedigna relato do que se passava. O locutor perdido no seu devoto amor àquelas camisolas lá ia embalado no seu fervor dando conta daquilo que só ele via quando Vinícius, Pizzi, Chiquinho iniciavam jogadas que iam ser maravilhosas e acabariam por não o ser, como serenamente comentava César Peixoto.

Mas a mais fantástica prova de amor foi aquele golo metido na baliza pelo guarda-redes do Braga que o locutor considerou soberbo, apesar de Tiago Sá …”não ter feito tudo impedir que a bola entrasse…”, nem dando conta que ela só entrou porque o guarda-redes a meteu na baliza, pois ela ia direitinha para lá da serra de Sintra…

E quanto as grandes penalidades o senhor locutor viu pelo menos duas, coisa que só o gabinete de crise eventualmente veria.

Ao cabo dos noventa e cinco minutos o planeta sossegou. O Éssélebê vai continuar na Taça. E a RTP tinha cumprido o seu dever de informar com todo o rigor.

Ser grande e pensar em grande não é para qualquer um. O Éssélebê não brinca em serviço. Ao cabo e ao resto nem se percebeu o ar aflitíssimo de Bruno Lage nos últimos dez minutos. É que ele via o que não via a “nossa” RTP e o seu locutor.

 

Tentações pindéricas

 

A tentação é um mal que acompanha os seres humanos desde sempre…”Senhor não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos de todo mal, ámen…”

Buda olhava em frente, a meia altura, para não se deixar tentar.

Os muçulmanos escondem o prato da comida para não tentarem os que não têm comida.

Resistir às tentações foi sempre considerado um imperativo de todas as grandes religiões, até chegarem os saldos, os Black Frydays e os novos natais.

Os aeroportos das grandes cidades são exposições de quase tudo o pode fazer um ser humano cair em tentação. E na altura do natal (transformado em feira de bazares), os aeroportos enchem-se de produtos faiscantes de sedução para os olhos, as pituitárias e os narizes, sempre a pensar no vil metal que os cartões de crédito dão guarida.

O luxo é a suprema vingança dos ricos sobre os pobres, na medida que a sua exibição/ostentação convoca uma espécie de basbaquice que se espalha quando os de baixo espreitam os de cima e aspiram a estar nos seus lugares.

Os famosos, homens ou mulheres, têm para consolidar essa estirpe de sucesso de assinalar o local onde estão, de escarrapachar quanto gastam e exporem fotos do que comem e de onde dormem…e os de baixo querem ver o que os fazem famosos nas suas grandes vidas.

Mas a fama de que os famosos é feita não é um direito adquirido para sempre. Há um sobe e desce. O Olimpo da fama não é como o céu dos crentes onde cabem todas as almas desde o início até ao juízo final que a manterem-se as alterações climáticas não está longe.

Um famoso obedece a certos critérios nas roupas e no calçado, nos perfumes, nos cabeleireiros, nas festas, nos bares; não é fácil.

Com a idade há a tendência para se esfumar o estatuto, o corpo não perdoa e a alma pouco conta para o mercado mediático, é algo que se pendura no cabide da vida, que se não vê e, portanto, não se vende.

Os famosos recebem em função da sua fama e quem a vai perdendo, diminui os seus vencimentos devido a esse declínio mercantil.

Os gregos, melhor que nenhum outro povo, aperceberam-se da fragilidade dos Deuses; não eram só os humanos, frágeis eram também as criaturas divinas que os humanos criaram. Deusas e Deuses que se comportavam como as mulheres e os homens e intervinham nas suas disputas… Que o diga Ulisses que que contou com a proteção de Deusas que por ele se deixavam seduzir.

Circe aconselhou-o a colocar cera nos ouvidos para não ouvir os cantos das sereias que o levariam à perdição, antes de enfrentar Cila e Caribe e chegar finalmente a Ítaca.

Ulisses soube resistir à tentação encontrando o antídoto que partia do pressuposto que mesmo sendo da estirpe dos deuses tinha as suas fraquezas.

Os que ficaram para todo sempre na História como Ulisses assumiram as suas fraquezas. Os crentes pedem para os livrar das tentações. Buda não olha para os lados. Os muçulmanos escondem o prato.

Quem do alto do seu estrelato efémero não resistiu ao Dior Absolu Eau de Parfum apenas deixou inscrito na espuma dos dias que por cem euros era capaz de não resistir, culpando a empregadota exatamente por ser pobre e sem fama, a pindérica. Quem ao céu sobe, ao inferno pode cair.

 

https://www.publico.pt/2019/12/16/sociedade/cronica/tentacoes-pindericas-1897473

 

Um homem sem aproveitamento

 

Felizmente que ainda há pessoas com uma alma gigante no que se refere ao empenho em agir sem pinta de aproveitamento político. Gente que não se comporta como os cucos.

Aquilo que dizem ou fazem resulta de uma cristalina alma lisa em toda a sua extensão. Sem gretas.

A alma de uma pessoa sente-se. Olha-se para os olhos da pessoa e vê-se, outras vezes para a linguagem corporal e sente-se. Outras ainda para a vida que o semblante carrega.

Em Portugal há uma grande quantidade de compatriotas que vivem no limiar da pobreza. A boa alma da Jonet quer ajudar os pobres a receberem o que os outros lhe reservam das suas disponibilidades e faz peditórios. É quase sempre por volta do natal.

Por ocasião desta quadra as almas são muito boazinhas. E a caridade fica sempre bem. O nosso Presidente, alma grande, não se esquece de ir embalar produtos angariados no banco alimentar(sempre os bancos) e lá aparece ele a dar a sua opinião (naquelas horas em que todos estão a olhar para os écrans) reclamando que cada um dê de acordo com as suas riquezas. Apesar do seu catolicismo não deu ainda a devida atenção ao ensinamento contido no Evangelho segundo São Lucas 21,1-4

Ele, entretanto,  já foi avisando que este ano só dá duas prendas e cada uma não pode passar os dez euros e vá lá vá lá…pode vir uma crise, nunca se sabe.

Discutiu-se na Concertação Social o aumento salário mínimo que pouco mais dá que para mais um cafézinho diário e durante uns tempos a discussão instalou-se. Os patrões coitadinhos não aguentam essa imposição, como se as medidas de um governo não sejam para se impor. É claro que a opinião do nosso Presidente foi fundamental – o aumento é positivo , mas cuidado que pode aqui e acolá criar problemas…

Há uma grande manifestação de polícias e já se sabe que o Presidente desinteressadamente foi às televisões( ou elas vão ter com ele)  a declarar que era preciso ter em conta a situação dos polícias. Fê-lo desinteressadamente até porque nem é polícia. A ninguém passaria pela cabeça ter em atenção a situação dos polícias…

O Ministro das Finanças andava a ver como e quando convinha anunciar a grande bronca – mais dois mil milhões para o banco boníssimo dado à Lone Star, talvez por ser bom. Ora podia lá o nosso Presidente deixar de aparecer a dar a notícia.

A ninguém passará pela cabeça imaginar que se pode tirar aproveitamento político por  se instalar nos écrans televisivos a dar opiniões. Pensar-se-á apenas na capacidade telegénica do personagem portador de uma alma com tantas virtudes.

Chegou a Lisboa a ativista sueca que se destacou na luta contra as alterações climáticas e Marcelo não podia deixar de esclarecer que ele não queria qualquer espécie de aproveitamento político da sua parte e, portanto, não recebeu a jovem. Desaproveitou. Pois. Pouco antes da chegada levantou-se um coro de vozes da direita contra a importância desmedida dada a Greta. Ele nem deu conta dessa corrente…absorvido a pensar se recebia ou se desaproveitava.

Há naquela alma gretas que se não veem, talvez derivadas de uma vida cheia de tantos desaproveitamentos. Aliás, é assim que é conhecido, e será assim que ficará para a História, um homem sem aproveitamento devido aos desaproveitamentos.

https://www.publico.pt/2019/12/05/politica/opiniao/homem-aproveitamento-1896337