A palmada do Papa

 

 

Quando Francisco cumprimentava na noite de 31 de dezembro, na Praça de São Pedro os fiéis, uma mulher agarrou-lhe o braço, puxou-o, impedindo-o de continuar o seu percurso e de imediato o Papa virou-se e com cara de zangado deu-lhe uma palmada na mão da mulher que o puxou. Como se faria a uma criança que saísse da “linha”.

Foi este gesto profundamente humano de Jorge Bergoglio, Papa Francisco, que “escandalizou” o mundo.

A CMTV e o Correio da Manhã referem-no como “palmada violenta na mão da peregrina”.

O episódio fez-me lembrar as queixas de Álvaro Cunhal quando os camaradas nas suas visitas ou comícios lhe davam palmadas nas costas tão fortes que o levavam a irritar-se e a perguntar se queriam que lhes fizesse o mesmo. Na verdade chegava a ficar com as costas pisadas das “fraternas” pancadas nos costados.

Bem sei que Francisco é o Papa, o representante de Jesus Cristo, Deus, na Terra. Há, porém, nesta Terra, fiéis que na sua exuberante fidelidade querem que a sua presença seja assinalada por aquele a quem veneram. E estender a mão ou dar a face é uma coisa, puxar pelo braço de quem cumpria a sua função pontifícia dando graças fiéis é outra coisa, a todas as luzes e em todas as latitudes.

O puxão da mulher no braço do representante do seu Deus na Terra talvez fosse um desespero para lhe chamar a atenção da sua existência. Talvez. Certamente para sua glória futura ou mediática.

Cunhal zangava-se com tanto amor proletário. E com razão. As costas eram dele.

Tudo certo. Até na reação do Papa Francisco. Ele é um homem, os crentes acharão um santo homem e até um homem santo.

E é verdade – a mulher puxou-o a ponto de o impedir de andar. E ele exasperado reagiu. São assim os seres humanos. E por serem humanos chegam a pontos de considerar violenta a palmada de Francisco, o homem Bergoglio. Pois.

Bergoglio pediu desculpas, devia ter dado o outro braço, digo eu. Mas ele não é Jesus Cristo, é um homem nascido em Flores, Buenos Aires, na Argentina tão cheia de problemas.

Percebe-se esta fraqueza humana, a de transformar um gesto humano numa notícia que pretende vulnerabilizar o Chefe do Vaticano. Em suma, uma espécie de politiquice.

Esta “pancada” não é nada comparada com as pancadas que vem distribuindo nos gananciosos do mundo. No próximo dia 26 de março inicia-se em Assis, Itália, a conferência – A economia de Francisco, para a  qual tem o auxílio de dois Nobel, Joseph Stiglitz e Amartya Sem. Essa é a pancada que não lhe perdoam. Que nunca lhe doa a mão.

https://www.publico.pt/2020/01/03/opiniao/opiniao/palmada-papa-novo-escandalo-mundial-1899187

 

 

 

 

 

 

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