Riad, palco de futebol e vergonha

 

Um dia depois da supertaça italiana, entre Juventus e Lazio, se ter jogado em Riad, capital da Arábia Saudita, onde até há muito pouco tempo as mulheres estavam interditas de entrar nos estádios, um tribunal saudita condenou à morte cinco fulanos acusados de terem assassinado o jornalista J. Khashoggi, opositor aos métodos despóticos do novo Senhor feudal daquele país.

Enquanto os aviões e a metralha saudita matavam iemenitas no seu próprio país o colosso de Turim e o emblema famoso de Roma iam a Riad em busca de big money para se defrontarem, bem longe da bela Itália.

No país onde os crentes não muçulmanos não têm templos para a prática da sua religião e as liberdades individuais inexistem, sobretudo para as mulheres, Juventus e Lazio foram jogar futebol fazendo de conta que estavam num país normal, “esquecendo” que estavam no país dos sabres que às sextas feiras decepam cabeças.

Só que a normalidade de um jogo de futebol foi de imediato desfeita com o anúncio milimetricamente decidido da condenação à morte de cinco supostos sicários que terão participado no monstruoso assassinato de J. Khashoggi, sem até hoje o seu corpo ter aparecido e sem qualquer explicação plausível para esse facto.

A utilização do consulado da Arábia Saudita em Istambul para tão ominoso ato pressupõe o conluio ao mais alto nível do governo de Riade. A invenção que a vítima tinha abandonado o  consulado exibindo ao mundo um vídeo de um sósia mostra o requinte do plano dos mandantes.

Depois de saberem que Khashoggi iria ao consulado buscar a documentação para poder casar com a noiva turca deu tempo aos carniceiros de Riade para prepararem o crime enviando especialistas em autópsias e peritos em diluição de cadáveres.

Não admira, pois, que para tentar calar a voz do mundo que se ergueu para denunciar o horrendo crime, as autoridades sauditas tenham inventado uns tantos “criminosos”, reais, existentes ou não, com os nomes identificados ou outros e que os executem legalmente para que de uma vez por todas o rasto fique apagado e possam prosseguir os grandes negócios com o Ocidente, onde o futebol é rei de entretimento.

A Trump não o preocupa minimamente o obscurantismo do fundamentalismo sunita de Riad a roçar a jiade; a sua obstinação é vender milhares de milhões de dólares em armamento, mesmo que no reino saudita impere a mais pura crueldade em termos sociais e políticos.

A Europa da Declaração Universal dos Direitos Humanos sossega com o jogo das  aparências e assim se poder deitar para o lado onde os negócios se fazem e enchem os bolsos do complexo industrial – militar.

Será que as diversas chancelarias se vão dar por satisfeitas e de novo os negócios de milhares de milhões lavem consciências e que com tal anúncio se sintam justificadas? Quem poderá crer que foram aqueles cinco? Quem os ouviu para além dos juízes escolhidos por Riade? Admitindo que estiveram na execução do crime após serem executados quem fica a saber o que se passou? Terão sido caladas as vozes que poderiam dizer a verdade? Quem sabe? Quem pode acreditar? O obscurantismo é a lei de Riad.

 

https://www.publico.pt/2019/12/23/mundo/opiniao/riad-palco-futebol-vergonha-1898361

Os túneis da ignomínia

Há no futebol português um impulso, por partes de certos determinados poderes, para a escuridão, o mesmo é dizer para túneis onde a luz pouco vinga.

Quem pode esquecer o famoso túnel da Luz que permitiu ao Éssélebê usufruir dos castigos a dois elementos decisivos no FCPorto( Hulk e Supanaru) que vieram mais tarde (após a perda do campeonato com Jesualdo Ferreira) a serem absolvidos de castigos de seis meses de suspensão.

Repare-se no modus operandi: quando as equipas regressam aos balneários estabelece-se a confusão e há sempre alguém do FCP que agride um anjinho de asas brancas da outra equipa. Foi assim na Luz (imagine-se na Luz) e foi assim no Estádio Nacional agora.

As trombetas do Juízo Final anunciaram que o maléfico ou javardo ou belicoso ou terrível Sérgio Conceição desferiu um soco no treinador do Belenenses SAD e o país parou.

Não se pode dizer que Sérgio Conceição seja exemplo de serenidade, algo que um líder tem o dever de o ser, mas daí a afinfar no outro treinador um soco vai uma distância tão grande como aquela revelação de dia 20/12/2019 do Correio da Manhã via CMTV …“Vê-se ainda Sérgio Conceição a andar sozinho à frente, com vários elementos do FCP atrás”… Isto é o que está escrito no Correio da Manhã para de imediato concluir …”Não se percebe, todavia, se houve um murro do técnico portista em Pedro Ribeiro”… Vê-se Sérgio Conceição a andar sozinho à frente, sublinha-se sozinho.

Vendo-se Sérgio Conceição sozinho logo conclui o CM que não se percebe se houve um murro em Pedro Ribeiro… Como se percebe a desfaçatez do CM. Por que motivo o CM não percebe se não houve por exemplo um murro, vá lá, no árbitro ou na Tia Maria, ou no Ti Manel?

Como se percebe o ódio figadal…Percebe-se, percebe-se.

ÉSSEÉLEBÊ-ÉSSELEBÊ-ÉSSEÉLEBÊ

 

Não há cidadão em todo o planeta que não conheça a grandeza do Ésseélebê, desde os confins da Amazónia até às estepes siberianas, passando pelo extenso Sahara e pelo Gobi até à sede da RDP, onde está instalada a RTP.

Trata-se de uma instituição que está a ser alvo de ataques vindos de forças invejosas pelo facto do seu fantástico Presidente aparecer em tudo quanto se relaciona com sucesso financeiro.

A resposta a esses ataques impôs àquela prestigiosa instituição a criação de um gabinete de crise cujos membros vigiam 24 sobre 24 horas tudo o que ao Éssélebê diz respeito.

No dia dezoito do corrente mês, do prestes a findar ano de 2019, no relvado da Luz a RTP montou toda a parafernália de câmaras para que o mundo pudesse assistir ao confronto com os guerreiros de Braga.

E, então, todos puderam ouvir o fidedigna relato do que se passava. O locutor perdido no seu devoto amor àquelas camisolas lá ia embalado no seu fervor dando conta daquilo que só ele via quando Vinícius, Pizzi, Chiquinho iniciavam jogadas que iam ser maravilhosas e acabariam por não o ser, como serenamente comentava César Peixoto.

Mas a mais fantástica prova de amor foi aquele golo metido na baliza pelo guarda-redes do Braga que o locutor considerou soberbo, apesar de Tiago Sá …”não ter feito tudo impedir que a bola entrasse…”, nem dando conta que ela só entrou porque o guarda-redes a meteu na baliza, pois ela ia direitinha para lá da serra de Sintra…

E quanto as grandes penalidades o senhor locutor viu pelo menos duas, coisa que só o gabinete de crise eventualmente veria.

Ao cabo dos noventa e cinco minutos o planeta sossegou. O Éssélebê vai continuar na Taça. E a RTP tinha cumprido o seu dever de informar com todo o rigor.

Ser grande e pensar em grande não é para qualquer um. O Éssélebê não brinca em serviço. Ao cabo e ao resto nem se percebeu o ar aflitíssimo de Bruno Lage nos últimos dez minutos. É que ele via o que não via a “nossa” RTP e o seu locutor.

 

Tentações pindéricas

 

A tentação é um mal que acompanha os seres humanos desde sempre…”Senhor não nos deixeis cair em tentação e livrai-nos de todo mal, ámen…”

Buda olhava em frente, a meia altura, para não se deixar tentar.

Os muçulmanos escondem o prato da comida para não tentarem os que não têm comida.

Resistir às tentações foi sempre considerado um imperativo de todas as grandes religiões, até chegarem os saldos, os Black Frydays e os novos natais.

Os aeroportos das grandes cidades são exposições de quase tudo o pode fazer um ser humano cair em tentação. E na altura do natal (transformado em feira de bazares), os aeroportos enchem-se de produtos faiscantes de sedução para os olhos, as pituitárias e os narizes, sempre a pensar no vil metal que os cartões de crédito dão guarida.

O luxo é a suprema vingança dos ricos sobre os pobres, na medida que a sua exibição/ostentação convoca uma espécie de basbaquice que se espalha quando os de baixo espreitam os de cima e aspiram a estar nos seus lugares.

Os famosos, homens ou mulheres, têm para consolidar essa estirpe de sucesso de assinalar o local onde estão, de escarrapachar quanto gastam e exporem fotos do que comem e de onde dormem…e os de baixo querem ver o que os fazem famosos nas suas grandes vidas.

Mas a fama de que os famosos é feita não é um direito adquirido para sempre. Há um sobe e desce. O Olimpo da fama não é como o céu dos crentes onde cabem todas as almas desde o início até ao juízo final que a manterem-se as alterações climáticas não está longe.

Um famoso obedece a certos critérios nas roupas e no calçado, nos perfumes, nos cabeleireiros, nas festas, nos bares; não é fácil.

Com a idade há a tendência para se esfumar o estatuto, o corpo não perdoa e a alma pouco conta para o mercado mediático, é algo que se pendura no cabide da vida, que se não vê e, portanto, não se vende.

Os famosos recebem em função da sua fama e quem a vai perdendo, diminui os seus vencimentos devido a esse declínio mercantil.

Os gregos, melhor que nenhum outro povo, aperceberam-se da fragilidade dos Deuses; não eram só os humanos, frágeis eram também as criaturas divinas que os humanos criaram. Deusas e Deuses que se comportavam como as mulheres e os homens e intervinham nas suas disputas… Que o diga Ulisses que que contou com a proteção de Deusas que por ele se deixavam seduzir.

Circe aconselhou-o a colocar cera nos ouvidos para não ouvir os cantos das sereias que o levariam à perdição, antes de enfrentar Cila e Caribe e chegar finalmente a Ítaca.

Ulisses soube resistir à tentação encontrando o antídoto que partia do pressuposto que mesmo sendo da estirpe dos deuses tinha as suas fraquezas.

Os que ficaram para todo sempre na História como Ulisses assumiram as suas fraquezas. Os crentes pedem para os livrar das tentações. Buda não olha para os lados. Os muçulmanos escondem o prato.

Quem do alto do seu estrelato efémero não resistiu ao Dior Absolu Eau de Parfum apenas deixou inscrito na espuma dos dias que por cem euros era capaz de não resistir, culpando a empregadota exatamente por ser pobre e sem fama, a pindérica. Quem ao céu sobe, ao inferno pode cair.

 

https://www.publico.pt/2019/12/16/sociedade/cronica/tentacoes-pindericas-1897473

 

Um homem sem aproveitamento

 

Felizmente que ainda há pessoas com uma alma gigante no que se refere ao empenho em agir sem pinta de aproveitamento político. Gente que não se comporta como os cucos.

Aquilo que dizem ou fazem resulta de uma cristalina alma lisa em toda a sua extensão. Sem gretas.

A alma de uma pessoa sente-se. Olha-se para os olhos da pessoa e vê-se, outras vezes para a linguagem corporal e sente-se. Outras ainda para a vida que o semblante carrega.

Em Portugal há uma grande quantidade de compatriotas que vivem no limiar da pobreza. A boa alma da Jonet quer ajudar os pobres a receberem o que os outros lhe reservam das suas disponibilidades e faz peditórios. É quase sempre por volta do natal.

Por ocasião desta quadra as almas são muito boazinhas. E a caridade fica sempre bem. O nosso Presidente, alma grande, não se esquece de ir embalar produtos angariados no banco alimentar(sempre os bancos) e lá aparece ele a dar a sua opinião (naquelas horas em que todos estão a olhar para os écrans) reclamando que cada um dê de acordo com as suas riquezas. Apesar do seu catolicismo não deu ainda a devida atenção ao ensinamento contido no Evangelho segundo São Lucas 21,1-4

Ele, entretanto,  já foi avisando que este ano só dá duas prendas e cada uma não pode passar os dez euros e vá lá vá lá…pode vir uma crise, nunca se sabe.

Discutiu-se na Concertação Social o aumento salário mínimo que pouco mais dá que para mais um cafézinho diário e durante uns tempos a discussão instalou-se. Os patrões coitadinhos não aguentam essa imposição, como se as medidas de um governo não sejam para se impor. É claro que a opinião do nosso Presidente foi fundamental – o aumento é positivo , mas cuidado que pode aqui e acolá criar problemas…

Há uma grande manifestação de polícias e já se sabe que o Presidente desinteressadamente foi às televisões( ou elas vão ter com ele)  a declarar que era preciso ter em conta a situação dos polícias. Fê-lo desinteressadamente até porque nem é polícia. A ninguém passaria pela cabeça ter em atenção a situação dos polícias…

O Ministro das Finanças andava a ver como e quando convinha anunciar a grande bronca – mais dois mil milhões para o banco boníssimo dado à Lone Star, talvez por ser bom. Ora podia lá o nosso Presidente deixar de aparecer a dar a notícia.

A ninguém passará pela cabeça imaginar que se pode tirar aproveitamento político por  se instalar nos écrans televisivos a dar opiniões. Pensar-se-á apenas na capacidade telegénica do personagem portador de uma alma com tantas virtudes.

Chegou a Lisboa a ativista sueca que se destacou na luta contra as alterações climáticas e Marcelo não podia deixar de esclarecer que ele não queria qualquer espécie de aproveitamento político da sua parte e, portanto, não recebeu a jovem. Desaproveitou. Pois. Pouco antes da chegada levantou-se um coro de vozes da direita contra a importância desmedida dada a Greta. Ele nem deu conta dessa corrente…absorvido a pensar se recebia ou se desaproveitava.

Há naquela alma gretas que se não veem, talvez derivadas de uma vida cheia de tantos desaproveitamentos. Aliás, é assim que é conhecido, e será assim que ficará para a História, um homem sem aproveitamento devido aos desaproveitamentos.

https://www.publico.pt/2019/12/05/politica/opiniao/homem-aproveitamento-1896337

Guerrero – expoente do flamenco

 

A arte é a vontade dos seres humanos de se superarem face à realidade que os envolve, ao próprio destino que é a morte.

Desde os primórdios que os humanos recriaram o mundo transformando-o numa outra realidade a partir dos sentimentos que os percursos de vida os marcavam.

Segundo o insigne cientista, António Damásio, no seu último livro “A estranha ordem das coisas”, os sentimentos são”…os catalisadores das respostas que deram origem às culturas humanas…”

Assistir ao espetáculo de Guerrero é mergulhar num mar de sentimentos e emoções inebriantes. Desde logo pelo desfrutar da arte do bailarino exímio e sedutor que nos “verga” através da mestria da sua dança que faz recordar, em muitos aspetos, os contornos construtivistas de Malevich, mais que o cubismo de Picasso.

Guerrero utiliza as mãos e os braços como um prolongamento sintonizado com o esplendor da dança e arrebata-nos com traços geométricos que se encontram nos construtivistas do início do século passado

O domínio perfeito do corpo Guerrero para nos mostrar a alma pura do flamenco.

Há no espetáculo uma espécie de Mito de Sísifo que se traduz na caminhada/sapateado até ao cume da explosão da capacidade física empurrada pelas guitarras e as vozes e palmas soberbas das mulheres de negro. Uma sensualidade que arrebata num jogo de força/sedução/paixão até à prostração. A queda do corpo (como a pedra de Sísifo) para poder respirar e continuar a dança.

Negro é o cenário e negra a dor que muitas vezes se ergue no palco, embora seguida da mais pura dádiva de amor.

Guerrero dança como se fosse morrer para ressuscitar, para se superar, para nos mostrar o poder da arte. É o corpo apolíneo que se move ora como uma borboleta cujas asas são os braços ora como um raio atingido pela dor antiga de um povo errante que conheceu destinos cruéis, ora como um ser que se nimba na busca do amor. Ora como pura exibição do poder de seduzir, seduzindo.

O poder sensual de Guerrero é de tal ordem que na parte final do espetáculo veste uma saia e usa-a com tal erotismo que transcende o próprio género. É a sensualidade de todos os tempos e de todos os seres, por isso, deslumbrante.

As vozes são poderosas vêm de dentro da Terra para a superfície, como um terramoto de dor ou de carinho. Telúricas.

As palmas destas mulheres batem certas com a expressão artística de Guerrero seja quando o incentivam, seja quando valem como amor e carinho em que o bailarino se envolve.

As guitarras dão o ritmo. Nem sempre damos por elas, mas em certas alturas damos conta da sua importância. São o fundo onde tudo se passa.

Bailarino, vozes, palmas e guitarras formam um todo de tal modo harmonioso que no fluir do espetáculo sobressai o todo, onde naturalmente brilha na constelação o astro maior- Eduardo Guerrero.

“Guerrero”  passou com a mais alta distinção.

A coragem do Papa Francisco

 

 

O mundo gira à espera de melhores dias e nem sempre na melhor direção. A vida humana e a própria Terra correm riscos nunca vividos.

As alterações climáticas atingem proporções que poderão ser devastadoras. A corrida às armas, nomeadamente às nucleares, envolvendo o Cosmos, para além de ser um sorvedouro de recursos constitui uma ignomínia face à pobreza existente.

Trump assinou uma diretiva que prevê a criação de um exército ligado ao Cosmos para assegurar o domínio militar dos E.U.A., implicando cortes na defesa do ambiente, na cooperação internacional e na luta contra a pobreza.

Em 2018 os E.U.A. gastaram em despesas militares quinhentos e oitenta e um mil  milhões de dólares, 36% dos gastos mundiais, sendo que este país, a China, a Arábia Saudita, a França, a India e o Paquistão gastam 60 % de todas as despesas militares globais, segundo os dados do SIPRI( Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo).

O Papa Francisco antes de partir para a Tailândia e o Japão falou de pobres e pobreza; condenando o descarte das pessoas em nome do lucro.

Independentemente do enquadramento que o Chefe do Estado do Vaticano deu nota, a verdade é que o seu discurso visou a humanização das nossas sociedades, apelando à denúncia da ganância, do individualismo e das tremendas desigualdades sociais.

No Japão, o Papa encarnando a mais profunda aspiração dos humanos – viver em paz, considerou imoral e um crime atentatório da dignidade dos seres humanos o uso da energia atómica para fins bélicos.

Esta coragem cívica é um enorme alento a todos os pacifistas e vale como estímulo , nomeadamente aos católicos pela abolição das armas nucleares.

Quantos Chefes de Estado dos principais países de maioria católica assumem com esta singeleza este propósito?

Quantos Chefes de Estado dos países da NATO que se dizem católicos estão dispostos a concretizar este objetivo?

Que diz sobre esta matéria o nosso prolixo Presidente que comenta tudo a toda a hora? O silêncio pesa quando o dever é falar.

Não há armas nucleares boas, sejam elas estadunidenses, britânicas, russas, chinesas, israelitas, paquistanesas, indianas, francesas ou norte-coreanas. São imorais. Ameaçam-nos e ameaçam a Terra. E são um “argumento” ad terrorem na vida internacional.

Podemos ficar descansados com o tipo de homens que dirigem os Estados possuidores de armas nucleares? Têm primado pelo equilíbrio e pelo bom senso? Podemos confiar no seu poder? Que cada uma e cada um responda no silêncio da sua consciência.

 

A corrida às armas nucleares ofende a mais simples moralidade. Cerca de metade do mundo vive na pobreza e estes gastos de milhares de milhões constituem um insulto a essa pobreza.

Todas as mulheres e todos os homens de boa fé, seja qual for a crença religiosa, a nacionalidade,  a ideologia, devem dar as mãos pela abolição das armas nucleares.

Este apelo do Papa vai de encontro ao que a imensíssima maioria da população mundial pensa. Que todos meditem e ajam em conformidade. Antes que seja tarde.

https://www.publico.pt/2019/11/28/opiniao/opiniao/coragem-papa-francisco-1895334

 

Sebastianização de Passos Coelho

 

O tempo aceleradíssimo que vivemos faz esquecer muita coisa, mas não se podem apagar as palavras nem sobretudo as obras. Após a queda de Sócrates, Passos antes do ato eleitoral que o catapultou a Primeiro-Ministro, prometeu que melhoraria o nível de vida dos portugueses e mal chegou a São Bento desencadeou uma política de confessado empobrecimento.

Eis o fantástico mundo real contra o qual batem os que defendem que Passos enfrentou os DDT(Donos Disto Tudo)- ver artigo de João Miguel Tavares de 16/11/2019.

Passos capitaneou em Portugal o monumental embuste de que a crise resultava dos portugueses viverem acima das possibilidades, escondendo que tinha sido o sistema financeiro quem com a sua ganância desmedida tinha provocado a crise.

De cima do seu mando e de chicote na mão fustigou económica, social e moralmente a população trabalhadora de Portugal . Nunca se lhe ouviu uma única palavra de crítica aos DDT. Armou-se em seu capataz. Foi o que foi, sendo os DDT, em geral, os donos dos meios de comunicação social, onde está o enfrentamento? Só no fantástico mundo da imaginação para desculpabilizar Passos e sebastianizar o seu regresso privatizador e austeritário para se vingar dos desmandos da geringonça.

Passos e Paula T. da Cruz são ainda responsáveis por uma das medidas mais cruéis que atingiram a Justiça – o encerramento de vinte tribunais e de vinte e sete outros  que passaram a secções de proximidade contribuindo para um maior abandono das populações do interior. Ordenaram  a passagem das ações de família e menores e todas as ações de valor acima de 50.000 euros para as sedes das comarcas e a deslocalização das ações executivas para um tribunal de cada comarca.

Ainda hoje em certos distritos as sedes distam de alguns municípios dezenas e dezenas de quilómetros( setenta a cem quilómetros em muitos casos), o que impede a quem se deslocar de transportes públicos de o poder fazer no mesmo dia. A Justiça não chega aos que vivem afastados do litoral.

Com Passos Coelho os que eram pobres ficaram mais pobres. Muitos dos remediados ficaram pobres. A classe média encolheu. Uma minoria ínfima ficou mais rica.  Este povo desgraçado que acreditou nas promessas de Passos recebeu vergastadas a castigá-lo pelos desmandos dos DDT.

Passos sangrou o PSD de alguns restos de centrismo político tingidos de social-democracia para o lançar na direita neoliberal, rivalizando com o CDS nessa área. Empurrou o partido para a direita destemperada, abrindo espaço ao PS ao centro com o qual engordou.

Porventura o que faz alguns recordarem nostalgicamente Passos Coelho é a sua obstinação ideológica em querer destruir o Estado social e deixar meia dúzia de serviços públicos à míngua destinados aos “intocáveis” e entregar as riquezas ainda sobejantes aos DDT e fazer dos seus amigos novos ricos chegados ao tal clube dos DDT como o inenarrável Relvas e Cª…

Ressuscitá-lo como um político que enfrentou os DDT e a comunicação social ronda o cómico. O legado de Passos foi pobreza a rodos, servida com a veemência de alguém que se desumanizou. Foi o que foi, sem apelo e sem agravo. Quem o quer de volta não pode vender gato por lebre.

https://www.publico.pt/2019/11/22/politica/opiniao/sebastianizacao-passos-coelho-1894599

 

Senhor Presidente, o que é bom para Espanha é bom para Portugal?

 

Marcelo foi a Itália em visita de Estado, e com Sergio Mattarella (Presidente da República italiana) a seu lado, em relação a Espanha, declarou o que deveria deixar a nação em sobressalto, a começar pelos media – o que é bom para Espanha é bom para Portugal.

Já em 21 de maio de 2018 tinha declarado, em Salamanca, junto do Rei Filipe IV, qual Dom Quixote armado da lança do tempo, que saudava a Espanha una e eterna, em plena crise da Catalunha. Pode um chefe de Estado fazer declarações e manifestar votos acerca dos seus desejos em relação ao país vizinho quando este se encontra em crise?

Marcelo, Presidente da República, em qualquer circunstância e, mais ainda, estando em visita de Estado em Itália, tem o estrito dever de agir como o cidadão português mais responsável face aos portugueses, e também diante da Itália e do mundo.

Bem sabe que há nas relações entre o Estado espanhol e o Estado português questões da maior importância que não estão resolvidas, nomeadamente o corte da água do rio Tejo para Portugal ao sabor dos interesses das empresas hidroelétricas espanholas.

Na verdade, causa gravíssimos danos a Portugal e aos portugueses o que Espanha está a fazer no que ao caudal do Tejo se refere.

Está ainda longe de ser pacífica a forma como a Espanha afronta a soberania de Portugal sobre as Ilhas Selvagens, cuja importância é enorme em termos de águas territoriais e de área económica exclusiva.

Espanha faz parte, tal como Portugal da União Europeia e da NATO, mas tal não pode significar que por esse facto o que é bom para a Espanha seja bom para Portugal, sobretudo quando, a todas as luzes, nos casos supra referidos, o que é bom para Espanha é muito mau para Portugal.

Não se trata de desenterrar o ódio a Castela, mas antes o de ponderar e agir de acordo com os interesses dos portugueses plasmados na Convenção de Albufeira e interpretada de modo a que Portugal não seja tratado como parceiro fraco, incapaz de se rebelar contra a prepotência espanhola.

Marcelo habituou-nos em Portugal a estar sempre na crista da onda, melhor, enredado na espuma dos dias, no que ele chama  Presidência de proximidade. O que ele não pode deixar de ter em conta é o equilíbrio de um regime semi- presidencialista configurado na Constituição. Se ele entende que ser Presidente é saltar de episódio em episódio é lá com ele, mas no que concerne às relações externas o caso fia mais fino.

Talvez o nosso Presidente da República viva em permanente insegurança acerca do que é capaz de fazer para ter a maior votação presidencial de sempre e, para tanto, enverede por um populismo soigné.

O impulso para o excesso de pronúncia não pode, porém, passar à frente dos interesses da República portuguesa, pois como toda a gente sabe o que é bom para Espanha pode não ser para Portugal, designadamente em relação ao caudal do Tejo e às Ilhas Selvagens. Como bem sabe Marcelo. Esta declaração, em Itália, em cima das queixas das populações ribeirinhas do Tejo sem água são desadequadas, em linguagem branda, diplomática.

As relações com Espanha são demasiado importantes para se poderem encarar como um estado de alma, uma boutade para Mattarella ver. Pode achar-se bonito, mas não é bom para uma nação tão antiga, como é a nossa.

https://www.publico.pt/2019/11/14/politica/opiniao/senhor-presidente-bom-espanha-bom-portugal-1893769

 

 

O que nasceu na rua

Por mera ignorância, não sei como as mulheres, no tempo do nomadismo, pariam.

Sei que há mais de sessenta anos as mulheres de Amorim que trabalhavam na lavoura pariam e muitas vezes “perdiam” os filhos.

A razão de ciência decorre do facto de o meu vizinho, o Rafael, que era o sapateiro da aldeia, ter na oficina muitas caixas que traziam as formas para guiá-lo na arquitetura do sapato.

Acontecia que as mulheres estavam a trabalhar e, às vezes, davam conta que o que elas traziam no ventre tinha de sair.

Se havia tempo de chegar a casa, chegavam. Se não havia, não. As que chegavam a casa poderiam ter tempo de chamar a Tia Alice, e se ela estivesse em condições de se montar na carroça ou na bicicleta de quem a ia chamar, vinha.

Quando não podia vir a mulher ficava desamparada, como a mãe de Jesus deitada nas palhas, e seria o que Deus quisesse.

Às vezes a família da mãe tinha de ir pedir ao Rafael uma caixa e metia-o lá dentro, frio e já quase roxo. Então dava-o ao homem e este ia ao cemitério e fazia uma cova pequena e metia lá a caixa.

Não havia sinos a tocarem, nem de alegria, nem de tristeza. O morto, dizia-se não tinha alma por não ter sido batizado. E tudo voltava à mais quieta normalidade.

Os homens e as mulheres continuavam a fazer filhos. Muitos filhos porque viriam a ser o sustento da casa e da velhice de quem os gerara. Entre muitos algum haveria de ter a sopa para os velhos.

As mulheres que assim pariam faziam o que aprendiam a fazer. Só sabiam que tinham de trabalhar e ter filhos. E a vida era trabalho e filhos e algum divertimento quando chegava o Natal e a Festa de Santo António.

As mulheres, mesmo quando tinham os filhos nos campos ou onde calhasse, não estavam sozinhas. O homem e os filhos aguardavam em casa ou num quarto à espera.

Eu lembro-me desses dias porque achava que a minha mãe e o meu pai já tinham muitos filhos e eu não queria mais irmãos. Era o que eu sentia quando via a Tia Alice chegar. Saíam do quarto contentes e eu ficava triste.

As mulheres que tinham os filhos no meio dos campos não escondiam os filhos que tinham. Elas tinham sempre gente com elas para as ajudar. Ou se não estavam ali, estavam em casa ou em toda a aldeia.

A rapariga/mulher que deu à luz numa rua de Lisboa não tinha casa, nem tinha aldeia; apenas uma rua onde havia contentores.

Só que entre aquela pobreza e esta pobreza já vão muitos anos, mais de sessenta. Nenhuma delas é boa, a pobreza é muito má em qualquer circunstância. Mas há uma diferença entre uma e outra – esta solidão extrema numa cidade cheia de gente, centenas de milhares, é um grito terrível. Faz as lágrimas agitarem-se no fundo do lençol onde estão.

Durante uns dias a sociedade agita as consciências e os apelos à bondade sucedem-se. Depois volta tudo ao normal.

E em 2020 as ruas continuarão a ser o abrigo de quem não o tem. Os turistas dos cruzeiros atirarão o seu lixo para os contentores para onde a mãe pôs o seu filho recém-nascido.

https://www.publico.pt/2019/11/09/sociedade/cronica/nasceu-rua-1893166