Guerrero – expoente do flamenco

 

A arte é a vontade dos seres humanos de se superarem face à realidade que os envolve, ao próprio destino que é a morte.

Desde os primórdios que os humanos recriaram o mundo transformando-o numa outra realidade a partir dos sentimentos que os percursos de vida os marcavam.

Segundo o insigne cientista, António Damásio, no seu último livro “A estranha ordem das coisas”, os sentimentos são”…os catalisadores das respostas que deram origem às culturas humanas…”

Assistir ao espetáculo de Guerrero é mergulhar num mar de sentimentos e emoções inebriantes. Desde logo pelo desfrutar da arte do bailarino exímio e sedutor que nos “verga” através da mestria da sua dança que faz recordar, em muitos aspetos, os contornos construtivistas de Malevich, mais que o cubismo de Picasso.

Guerrero utiliza as mãos e os braços como um prolongamento sintonizado com o esplendor da dança e arrebata-nos com traços geométricos que se encontram nos construtivistas do início do século passado

O domínio perfeito do corpo Guerrero para nos mostrar a alma pura do flamenco.

Há no espetáculo uma espécie de Mito de Sísifo que se traduz na caminhada/sapateado até ao cume da explosão da capacidade física empurrada pelas guitarras e as vozes e palmas soberbas das mulheres de negro. Uma sensualidade que arrebata num jogo de força/sedução/paixão até à prostração. A queda do corpo (como a pedra de Sísifo) para poder respirar e continuar a dança.

Negro é o cenário e negra a dor que muitas vezes se ergue no palco, embora seguida da mais pura dádiva de amor.

Guerrero dança como se fosse morrer para ressuscitar, para se superar, para nos mostrar o poder da arte. É o corpo apolíneo que se move ora como uma borboleta cujas asas são os braços ora como um raio atingido pela dor antiga de um povo errante que conheceu destinos cruéis, ora como um ser que se nimba na busca do amor. Ora como pura exibição do poder de seduzir, seduzindo.

O poder sensual de Guerrero é de tal ordem que na parte final do espetáculo veste uma saia e usa-a com tal erotismo que transcende o próprio género. É a sensualidade de todos os tempos e de todos os seres, por isso, deslumbrante.

As vozes são poderosas vêm de dentro da Terra para a superfície, como um terramoto de dor ou de carinho. Telúricas.

As palmas destas mulheres batem certas com a expressão artística de Guerrero seja quando o incentivam, seja quando valem como amor e carinho em que o bailarino se envolve.

As guitarras dão o ritmo. Nem sempre damos por elas, mas em certas alturas damos conta da sua importância. São o fundo onde tudo se passa.

Bailarino, vozes, palmas e guitarras formam um todo de tal modo harmonioso que no fluir do espetáculo sobressai o todo, onde naturalmente brilha na constelação o astro maior- Eduardo Guerrero.

“Guerrero”  passou com a mais alta distinção.

A coragem do Papa Francisco

 

 

O mundo gira à espera de melhores dias e nem sempre na melhor direção. A vida humana e a própria Terra correm riscos nunca vividos.

As alterações climáticas atingem proporções que poderão ser devastadoras. A corrida às armas, nomeadamente às nucleares, envolvendo o Cosmos, para além de ser um sorvedouro de recursos constitui uma ignomínia face à pobreza existente.

Trump assinou uma diretiva que prevê a criação de um exército ligado ao Cosmos para assegurar o domínio militar dos E.U.A., implicando cortes na defesa do ambiente, na cooperação internacional e na luta contra a pobreza.

Em 2018 os E.U.A. gastaram em despesas militares quinhentos e oitenta e um mil  milhões de dólares, 36% dos gastos mundiais, sendo que este país, a China, a Arábia Saudita, a França, a India e o Paquistão gastam 60 % de todas as despesas militares globais, segundo os dados do SIPRI( Instituto Internacional de Pesquisa da Paz de Estocolmo).

O Papa Francisco antes de partir para a Tailândia e o Japão falou de pobres e pobreza; condenando o descarte das pessoas em nome do lucro.

Independentemente do enquadramento que o Chefe do Estado do Vaticano deu nota, a verdade é que o seu discurso visou a humanização das nossas sociedades, apelando à denúncia da ganância, do individualismo e das tremendas desigualdades sociais.

No Japão, o Papa encarnando a mais profunda aspiração dos humanos – viver em paz, considerou imoral e um crime atentatório da dignidade dos seres humanos o uso da energia atómica para fins bélicos.

Esta coragem cívica é um enorme alento a todos os pacifistas e vale como estímulo , nomeadamente aos católicos pela abolição das armas nucleares.

Quantos Chefes de Estado dos principais países de maioria católica assumem com esta singeleza este propósito?

Quantos Chefes de Estado dos países da NATO que se dizem católicos estão dispostos a concretizar este objetivo?

Que diz sobre esta matéria o nosso prolixo Presidente que comenta tudo a toda a hora? O silêncio pesa quando o dever é falar.

Não há armas nucleares boas, sejam elas estadunidenses, britânicas, russas, chinesas, israelitas, paquistanesas, indianas, francesas ou norte-coreanas. São imorais. Ameaçam-nos e ameaçam a Terra. E são um “argumento” ad terrorem na vida internacional.

Podemos ficar descansados com o tipo de homens que dirigem os Estados possuidores de armas nucleares? Têm primado pelo equilíbrio e pelo bom senso? Podemos confiar no seu poder? Que cada uma e cada um responda no silêncio da sua consciência.

 

A corrida às armas nucleares ofende a mais simples moralidade. Cerca de metade do mundo vive na pobreza e estes gastos de milhares de milhões constituem um insulto a essa pobreza.

Todas as mulheres e todos os homens de boa fé, seja qual for a crença religiosa, a nacionalidade,  a ideologia, devem dar as mãos pela abolição das armas nucleares.

Este apelo do Papa vai de encontro ao que a imensíssima maioria da população mundial pensa. Que todos meditem e ajam em conformidade. Antes que seja tarde.

https://www.publico.pt/2019/11/28/opiniao/opiniao/coragem-papa-francisco-1895334

 

Sebastianização de Passos Coelho

 

O tempo aceleradíssimo que vivemos faz esquecer muita coisa, mas não se podem apagar as palavras nem sobretudo as obras. Após a queda de Sócrates, Passos antes do ato eleitoral que o catapultou a Primeiro-Ministro, prometeu que melhoraria o nível de vida dos portugueses e mal chegou a São Bento desencadeou uma política de confessado empobrecimento.

Eis o fantástico mundo real contra o qual batem os que defendem que Passos enfrentou os DDT(Donos Disto Tudo)- ver artigo de João Miguel Tavares de 16/11/2019.

Passos capitaneou em Portugal o monumental embuste de que a crise resultava dos portugueses viverem acima das possibilidades, escondendo que tinha sido o sistema financeiro quem com a sua ganância desmedida tinha provocado a crise.

De cima do seu mando e de chicote na mão fustigou económica, social e moralmente a população trabalhadora de Portugal . Nunca se lhe ouviu uma única palavra de crítica aos DDT. Armou-se em seu capataz. Foi o que foi, sendo os DDT, em geral, os donos dos meios de comunicação social, onde está o enfrentamento? Só no fantástico mundo da imaginação para desculpabilizar Passos e sebastianizar o seu regresso privatizador e austeritário para se vingar dos desmandos da geringonça.

Passos e Paula T. da Cruz são ainda responsáveis por uma das medidas mais cruéis que atingiram a Justiça – o encerramento de vinte tribunais e de vinte e sete outros  que passaram a secções de proximidade contribuindo para um maior abandono das populações do interior. Ordenaram  a passagem das ações de família e menores e todas as ações de valor acima de 50.000 euros para as sedes das comarcas e a deslocalização das ações executivas para um tribunal de cada comarca.

Ainda hoje em certos distritos as sedes distam de alguns municípios dezenas e dezenas de quilómetros( setenta a cem quilómetros em muitos casos), o que impede a quem se deslocar de transportes públicos de o poder fazer no mesmo dia. A Justiça não chega aos que vivem afastados do litoral.

Com Passos Coelho os que eram pobres ficaram mais pobres. Muitos dos remediados ficaram pobres. A classe média encolheu. Uma minoria ínfima ficou mais rica.  Este povo desgraçado que acreditou nas promessas de Passos recebeu vergastadas a castigá-lo pelos desmandos dos DDT.

Passos sangrou o PSD de alguns restos de centrismo político tingidos de social-democracia para o lançar na direita neoliberal, rivalizando com o CDS nessa área. Empurrou o partido para a direita destemperada, abrindo espaço ao PS ao centro com o qual engordou.

Porventura o que faz alguns recordarem nostalgicamente Passos Coelho é a sua obstinação ideológica em querer destruir o Estado social e deixar meia dúzia de serviços públicos à míngua destinados aos “intocáveis” e entregar as riquezas ainda sobejantes aos DDT e fazer dos seus amigos novos ricos chegados ao tal clube dos DDT como o inenarrável Relvas e Cª…

Ressuscitá-lo como um político que enfrentou os DDT e a comunicação social ronda o cómico. O legado de Passos foi pobreza a rodos, servida com a veemência de alguém que se desumanizou. Foi o que foi, sem apelo e sem agravo. Quem o quer de volta não pode vender gato por lebre.

https://www.publico.pt/2019/11/22/politica/opiniao/sebastianizacao-passos-coelho-1894599

 

Senhor Presidente, o que é bom para Espanha é bom para Portugal?

 

Marcelo foi a Itália em visita de Estado, e com Sergio Mattarella (Presidente da República italiana) a seu lado, em relação a Espanha, declarou o que deveria deixar a nação em sobressalto, a começar pelos media – o que é bom para Espanha é bom para Portugal.

Já em 21 de maio de 2018 tinha declarado, em Salamanca, junto do Rei Filipe IV, qual Dom Quixote armado da lança do tempo, que saudava a Espanha una e eterna, em plena crise da Catalunha. Pode um chefe de Estado fazer declarações e manifestar votos acerca dos seus desejos em relação ao país vizinho quando este se encontra em crise?

Marcelo, Presidente da República, em qualquer circunstância e, mais ainda, estando em visita de Estado em Itália, tem o estrito dever de agir como o cidadão português mais responsável face aos portugueses, e também diante da Itália e do mundo.

Bem sabe que há nas relações entre o Estado espanhol e o Estado português questões da maior importância que não estão resolvidas, nomeadamente o corte da água do rio Tejo para Portugal ao sabor dos interesses das empresas hidroelétricas espanholas.

Na verdade, causa gravíssimos danos a Portugal e aos portugueses o que Espanha está a fazer no que ao caudal do Tejo se refere.

Está ainda longe de ser pacífica a forma como a Espanha afronta a soberania de Portugal sobre as Ilhas Selvagens, cuja importância é enorme em termos de águas territoriais e de área económica exclusiva.

Espanha faz parte, tal como Portugal da União Europeia e da NATO, mas tal não pode significar que por esse facto o que é bom para a Espanha seja bom para Portugal, sobretudo quando, a todas as luzes, nos casos supra referidos, o que é bom para Espanha é muito mau para Portugal.

Não se trata de desenterrar o ódio a Castela, mas antes o de ponderar e agir de acordo com os interesses dos portugueses plasmados na Convenção de Albufeira e interpretada de modo a que Portugal não seja tratado como parceiro fraco, incapaz de se rebelar contra a prepotência espanhola.

Marcelo habituou-nos em Portugal a estar sempre na crista da onda, melhor, enredado na espuma dos dias, no que ele chama  Presidência de proximidade. O que ele não pode deixar de ter em conta é o equilíbrio de um regime semi- presidencialista configurado na Constituição. Se ele entende que ser Presidente é saltar de episódio em episódio é lá com ele, mas no que concerne às relações externas o caso fia mais fino.

Talvez o nosso Presidente da República viva em permanente insegurança acerca do que é capaz de fazer para ter a maior votação presidencial de sempre e, para tanto, enverede por um populismo soigné.

O impulso para o excesso de pronúncia não pode, porém, passar à frente dos interesses da República portuguesa, pois como toda a gente sabe o que é bom para Espanha pode não ser para Portugal, designadamente em relação ao caudal do Tejo e às Ilhas Selvagens. Como bem sabe Marcelo. Esta declaração, em Itália, em cima das queixas das populações ribeirinhas do Tejo sem água são desadequadas, em linguagem branda, diplomática.

As relações com Espanha são demasiado importantes para se poderem encarar como um estado de alma, uma boutade para Mattarella ver. Pode achar-se bonito, mas não é bom para uma nação tão antiga, como é a nossa.

https://www.publico.pt/2019/11/14/politica/opiniao/senhor-presidente-bom-espanha-bom-portugal-1893769

 

 

O que nasceu na rua

Por mera ignorância, não sei como as mulheres, no tempo do nomadismo, pariam.

Sei que há mais de sessenta anos as mulheres de Amorim que trabalhavam na lavoura pariam e muitas vezes “perdiam” os filhos.

A razão de ciência decorre do facto de o meu vizinho, o Rafael, que era o sapateiro da aldeia, ter na oficina muitas caixas que traziam as formas para guiá-lo na arquitetura do sapato.

Acontecia que as mulheres estavam a trabalhar e, às vezes, davam conta que o que elas traziam no ventre tinha de sair.

Se havia tempo de chegar a casa, chegavam. Se não havia, não. As que chegavam a casa poderiam ter tempo de chamar a Tia Alice, e se ela estivesse em condições de se montar na carroça ou na bicicleta de quem a ia chamar, vinha.

Quando não podia vir a mulher ficava desamparada, como a mãe de Jesus deitada nas palhas, e seria o que Deus quisesse.

Às vezes a família da mãe tinha de ir pedir ao Rafael uma caixa e metia-o lá dentro, frio e já quase roxo. Então dava-o ao homem e este ia ao cemitério e fazia uma cova pequena e metia lá a caixa.

Não havia sinos a tocarem, nem de alegria, nem de tristeza. O morto, dizia-se não tinha alma por não ter sido batizado. E tudo voltava à mais quieta normalidade.

Os homens e as mulheres continuavam a fazer filhos. Muitos filhos porque viriam a ser o sustento da casa e da velhice de quem os gerara. Entre muitos algum haveria de ter a sopa para os velhos.

As mulheres que assim pariam faziam o que aprendiam a fazer. Só sabiam que tinham de trabalhar e ter filhos. E a vida era trabalho e filhos e algum divertimento quando chegava o Natal e a Festa de Santo António.

As mulheres, mesmo quando tinham os filhos nos campos ou onde calhasse, não estavam sozinhas. O homem e os filhos aguardavam em casa ou num quarto à espera.

Eu lembro-me desses dias porque achava que a minha mãe e o meu pai já tinham muitos filhos e eu não queria mais irmãos. Era o que eu sentia quando via a Tia Alice chegar. Saíam do quarto contentes e eu ficava triste.

As mulheres que tinham os filhos no meio dos campos não escondiam os filhos que tinham. Elas tinham sempre gente com elas para as ajudar. Ou se não estavam ali, estavam em casa ou em toda a aldeia.

A rapariga/mulher que deu à luz numa rua de Lisboa não tinha casa, nem tinha aldeia; apenas uma rua onde havia contentores.

Só que entre aquela pobreza e esta pobreza já vão muitos anos, mais de sessenta. Nenhuma delas é boa, a pobreza é muito má em qualquer circunstância. Mas há uma diferença entre uma e outra – esta solidão extrema numa cidade cheia de gente, centenas de milhares, é um grito terrível. Faz as lágrimas agitarem-se no fundo do lençol onde estão.

Durante uns dias a sociedade agita as consciências e os apelos à bondade sucedem-se. Depois volta tudo ao normal.

E em 2020 as ruas continuarão a ser o abrigo de quem não o tem. Os turistas dos cruzeiros atirarão o seu lixo para os contentores para onde a mãe pôs o seu filho recém-nascido.

https://www.publico.pt/2019/11/09/sociedade/cronica/nasceu-rua-1893166

Matos Fernandes, o Ministro ilusionista

 

 

O Ministro do Ambiente é um fenómeno. Ele não via falta de água no Tejo, mas confrontado na TVI com as imagens do rio sem água, o que fez? Resolveu falar da falta de chuva, do que disse ter feito há dois anos contra os poluidores (sem que nenhum deles tivesse sofrido qualquer consequência), da falta de um governo (?) em Espanha (como se o atual não fosse governo) e dali não saiu. Melhor dito, saiu. É a “nova” técnica dos governantes – falar do que vão fazer… Vai mandar fazer uma barragem, virando costas a Castela, como a Nossa Senhora de Almortão? Não, favorecendo o lobbie hidroelétrico espanhol…

Entrou na entrevista todo pimpão, a anunciar a tal barragem, o que será uma hipótese, e, no caso, muito má, pois havendo água no Tejo em Espanha, não se compreende que o senhor Ministro não tenha uma única palavra em relação à sua homóloga no sentido de desmascarar a trafulhice que é enviar para a Lusitânia água à fartazana quando ela não é precisa e não enviar quando as empresas hidroelétricas dela precisam para os seus negócios…belos amigos.

O que o Sr. Ministro anunciou não passa de um truque de ilusionismo barato – tirar água ao Tejo para a devolver ao Tejo com todos os impactes ambientais com a nova barragem.

Mas o mais interessante por parte deste patriota é que sobre os campos de golf no Algarve e as estufas no perímetro de rega do Mira, lampeiro, fugiu ao tema, defendendo-se dizendo que vinha para falar de água e não do abacate, dos campos de golf ou do aumento da área de estufas, tudo assuntos do seu ministério, por mero acaso.

Confrontado com as condições absolutamente degradantes para os trabalhadores (quase todos migrantes que passam a viver numa área de 3,43m2 por pessoa), fugiu para os anúncios da barragem.

Este Ministro é um achado ambiental, na medida em que plana sobre os problemas sem nunca tocar com os pés na terra ou na água…

Para se ser Ministro do Ambiente pelos vistos é preciso ser um porreiraço que compreende as dificuldades dos camaradas do governo do PSOE, a instabilidade da Espanha, as dificuldades das empresas hidroelétricas em ganhar mais uns patacos e que fecha os olhos ao que se passa no Algarve com a loucura das plantações da pera abacate, ao aumento de campos de golf e a manutenção da área já bastante das estufas no perímetro de rega do Mira. Tudo minudências. Belo ministro. Um verdadeiro ilusionista.

In Público online  –  https://www.publico.pt/2019/11/08/politica/opiniao/matos-fernandes-ministro-ilusionista-1892955

Wanted dead or alive

 

 

Trump, cumprindo o seu ritual, em modo boçal, como é normal, cheio de prosápia, anunciou ao mundo que os seus homens tinham assassinado o “cão” que morrera como um “covarde” algures na Síria. E disse que tinha seguido na sala oval a perseguição ao homem que se refugiara num túnel e se fizera explodir, pelos vistos impedindo que o matassem.

Um chefe militar e político que não se entrega e se suicida é para Trump um covarde, talvez por ter impedido que o comando o tivesse matado à queima-roupa, como foi feito a Bin Laden.

Abou Bakr Al-Baghdadi, autodenominado Califa, era o chefe do também autoproclamado Estado Islâmico, cujo eixo da sua ação era impor pela violência extrema e brutal o terror totalitário invocando princípios e procedimentos que desonram o Islão, interpretado e praticado pela imensa maioria em todo o mundo pelos muçulmanos.

Al-Baghdadi tinha as mãos cheias de sangue inocente e a sua organização alimentava-se da exaltação da violência cruel como forma de recrutar adolescentes e jovens marginais e marginalizados na Europa e um pouco por todo o mundo.

O Estado Islâmico através do terror tentava impor em zonas de guerra um outro paradigma bélico que ocupasse o espaço deixado por tantas feridas de guerra levada aos povos do Médio-Oriente.

O Estado Islâmico visou ocupar esses espaços deixados pela violenta guerra de agressão, à margem de todas as leis do direito internacional, contra o Iraque e o seu povo, dilacerando aquele país com centenas de milhares de mortos e com violência tão brutais como a que aconteceu no cerco a Faluja.

Foi George W. Bush e a sua camarilha, à qual se associaram Tony Blair, Aznar, Durão Barroso e Paulo Portas, um conjunto de refeces que enganaram o mundo, sem serem julgados até hoje, que fizeram o Médio Oriente regredir ao ponto em que hoje se encontra, sem deixar também de ter em conta o papel de ditadores sanguinários que no Iraque, na Síria, Tunísia, Egipto e Sudão ajudaram a criar o ambiente para o DAESH medrar.

O homem que se assemelha mais a um burgesso que a um Presidente do país mais poderoso do mundo fala como um sherife do Texas antigo a fim de cobrar os dividendos pela cabeça de Baghdadi; desta vez uma recompensa em votos e não em dólares…

É o mesmo homem que confunde o Colorado no centro dos EUA com a fronteira mexicana e que sonha com “muros magníficos” por onde não se possa passar “nem por cima, nem por baixo”…

Este é o homem que olha para o seu inimigo morto como um troféu que não pode exibir pelo facto de Baghdadi cuja índole é imoral e assassina, mas que teve a bravura de se suicidar com a detonação do colete de bombas para que muito provavelmente o seu corpo não pudesse ser exibido como presa morta.

Não se trata de elogiar um homem que semeou terror e morte; apenas referir que ao tratá-lo como covarde, como um cão, Trump se afirmou como pistoleiro, quando o mundo, nesta hora, precisava que fosse dado ao mundo muçulmano uma clara separação entre o terrorismo minoritário sunita e a proposta de cooperação e de paz que estabelecesse pontes com esse mesmo mundo.

Trump preferiu comportar-se como um pistoleiro que quer a recompensa pela cabeça do WANTED dead or alive.

A nobreza de caráter nunca teve lugar no seu coração, ali só há lugar para ele e o seu mundo de revanchismo, misoginia, racismo, suprema cismo e negocismo. Ei-lo magnífico, eles e todos os seus sonhos cheios de muros e cabeças de inimigos.

https://www.publico.pt/2019/10/30/mundo/opiniao/wanted-dead-or-alive-1891851

 

 

 

A sublime arte do flamengo de Dorantes

 

Vieram de um longe longínquo, da India, diz-se. Atravessaram caminhos e não caminhos até ao mar por onde já não passaram por serem caminhantes, muitos ainda o são.

São caminhos de vida e de vidas. Quantos dias, quantas noites, quantos desertos, quantos desfiladeiros? Quantas surpresas, quantas dores, quantos e amores e quantos desamores para chegarem se é que chegaram, pelo menos para muitos deles?

Este foi o rumo de um povo que se arruma nesta Europa que pensa em euros e pouco ou nada em almas.

É esta alma explosiva, melancólica, dorida, alegre, vibrante, sedutora, que Dorantes se inspirou para fazer do seu flamengo o cume mágico com um piano, um contrabaixo e uma bateria.

O piano de Dorantes é em linguagem kantiana a essência do sublime, a pureza da música, o deleite de sentimentos e sensações únicas que só a verdadeira arte proporciona.

E quando a elegante bailarina surge para fazer da música dança, para nos deixar como que baralhados de tanta harmonia, mesmo quando o tapeado nos leva ao ilimitado.

Ela logra a estilização do flamengo na linha do piano do mestre, envolvendo o espetador num ambiente denso de sentimentos arrebatadores e embaladores consoante a proposta que é feita.

Dorantes faz fruir o ritmo próprio do flamengo onde cabe o universo “gitano”, embora aberto a outras estéticas mais exigentes.

Neste Flamengo Atlântico que aconteceu na Aula Magna tudo casa na perfeição.

Para terminar Dorantes vai ao piano inventar o percurso do seu povo até à Andaluzia e solta em notas o martírio, o amor, a coragem, a raiva acompanhado pelo belo e doce sorriso da bailarina cuja dança se eleva na música do trio de músicos.

São momentos que transformam a nossa humanidade em algo mais profundamente humano que é o que a arte é capaz de fazer.

A minha A.R.C.A

 

O tempo mede-se no próprio tempo e todo o tempo traz dentro dele outro porque fora dele, para nós humanos, parece nada existir para além da pura abstração.

Nos anos sessenta Portugal fervilhava, sobretudo a juventude que tinha pela frente uma ditadura e uma guerra perdida e injusta a milhares de quilómetros.

As Universidades agitavam-se e o país apercebia-se que naquele tempo haveria outro em gestação.

Era também o tempo de juntar vontades e corporizar as energias em projetos que respondessem à ânsia de ser livre e capaz de, ao lado dos outros, erguer modos de dar à vida um novo sentido.

Sucedeu em Amorim, freguesia da Póvoa de Varzim, que jovens estudantes com outros jovens trabalhadores e um padre totalmente devotado à comunidade amorinense  se lançaram à obra de criar recreio e cultura.

Era o tempo em que o tempo dava para tudo; construir recintos para futebol e  cumprir o desígnio de ter um grupo de teatro que encenaria, entre outras obras, a Barca do Inferno do Mestre Gil Vicente.

O que marcava aquele período era o de uma irmandade em que cada um era protagonista e todos forjavam a obra.

Um tempo que de Norte a Sul do país era pontuado por estas destemidas vontades de rasgá-lo e construir outro que havia de nascer a madrugada pura de 25 de Abril de 1974.

Faz agora 50 anos que foi criada a Associação Recreativa e Cultural de Amorim (A.R.C.A.) que tinha nas suas folhas de sócios a esmagadora maioria dos jovens e a maioria da população.

Esta ARCA não era mais do que todas as milhares de ARCAS que se criaram no país. Mesmo nas noites mais escuras de solidão havia quem levantasse o recreio comunitário e a cultura sempre desafiante.

Esta ARCA é para mim, como o rio da aldeia do poema de Fernando Pessoa, a mais importante  porque é a da aldeia onde nasci.

Os tempos são outros, dirão. É verdade. Só que estes serão outros e os que virão outros serão.

E é no tempo presente que se constrói o tempo futuro. Os jovens da década de sessenta e setenta construíram o tempo da liberdade e da democracia.

O paradoxo estará em que com a liberdade implantada de lés a lés do país pareça que, neste tempo de solidão tecnológica, se esvaia a seiva criadora de construir espaços capazes de gerar recreio e cultura que a todos una na diversidade de vontades.

Não se trata de comparações com base em mérito ou demérito, mas tão só de ter em conta esse precioso fio do tempo que nos liga à comunidade. Somos também o que fomos. Seremos igualmente o que somos.

Neste tempo de exaltação das virtudes individualistas já se sente a amargura desse hedonismo social.

Não é contra o vizinho, nem encarando o companheiro da escola ou de profissão como alguém para atropelar para se ascender ao olimpo, que se construirá o tempo novo pela qual se anseia desde que os humanos se lembram.

Há 50 anos o tempo era outro, sendo o mesmo. Era outro porque nós éramos outros, sendo hoje também os mesmos, mas diferentes na nossa qualidade de humanos.

As tecnologias trouxeram-nos um fantástico mundo novo, mas nós somos seres sociais. Sem a sociabilidade não há humanos. A cultura, o recreio e o desporto são também a nossa humanidade mais humana. Como seremos nos próximos 50 anos? Como se organizarão os jovens para alcançarem uma vida que valha a pena? Acaso a tecnologia tornará todos seres solitários, acendendo e apagando, como semáforos humanos respondendo a estímulos de máquinas, mesmo que sejam inteligentes? Que nos reserva a arca do tempo?

In Público online 19/10/2019