Arriba España

 

 

Os colendos conselheiros do Supremo Tribunal de Justiça de Espanha devem ser pessoas que leem jornais e livros; veem televisão e estarão minimamente informados do que se passa no seu país onde há nacionalidades e línguas distintas do castelhano. E não será abusivo julgar que em relação ao mundo circundante terão certamente alguma ideia.

Saberão melhor que ninguém que para se ser juiz não basta conhecer de fio a pavio as leis; isso, aliás, para além dos juízes, muitos sabem.

Dizem os que sabem Direito e o relacionam com a Justiça que as leis nas mãos das mulheres e dos homens dão para quase tudo.

A arte de um juiz não deverá ser a de deixar-se cegar pela lei, antes tê-la em conta para a aplicar nas circunstância do tempo e o das condutas a apreciar.

No entanto há juízes e juízas que não obstante o que se sabe lembram os tempos que o nosso genial poeta António Gedeão retratou no julgamento de Galileu pelos excelsos juízes da Santíssima Inquisição. Eles, os juízes, é que sabiam. Sabiam tanto que nem sequer davam conta que eles e Galileu giravam, mais o rio Arne da muito bela Florença, em torno do quietíssimo Sol que ardia com arde hoje indiferente às veleidades humanas, incluindo a dos severíssimos conselheiros.

Os colendos juízes do excelso STJ de Espanha (ou espanhol?) condenaram a duríssimas penas ( Oriol Junqueras a 13 anos) os cidadãos dirigentes da Catalunha que defendem a independência da Catalunha por meios democráticos e pacíficos, bem sabendo e tendo a mais completa consciência que ao fazê-lo iriam desencadear na Catalunha e em todos os catalães(muitos que não defendem a independência) uma revolta porque a sua identidade foi( neste novo milénio de consagração dos direitos humanos e no limiar do fim das grilhetas que impedem a autodeterminação dos povos) ofendida dado o grau absurdo da desproporcionalidade das penas face às condutas dos dirigentes políticos catalães.

A ação dos nacionalistas catalães presos é do domínio da política; ninguém acreditará que os presos são criminosos de direito comum. São catalães que entenderam, naquelas circunstâncias de tempo e lugar, corresponder daquele modo à aspiração independentista dado que a maioria dos catalães se pronunciaram em eleições a favor da independência da Catalunha.

Ao criminalizar com estas severas penas os presos, o STJ bem sabe que incendiou os corações de todos os catalães. São catalães condenados em Madrid por quererem, em liberdade, em democracia e de modo pacífico, a sua autodeterminação.

Os juízes do STJ para além de condenarem os patriotas catalões deixaram gravado a letras de fogo esta ideia – ou aceitam Espanha ou vão para a cadeia, caso não aceitem. Se pudessem talvez escrevessem no douto Acórdão que a Catalunha seria para sempre espanhola.

Chegados aqui, o fim da estrada parece estar percorrido – os catalães que não queriam a independência deixaram de ter essa opção.

Será por cegueira, por despotismo, ou por consciência de que se não houver esta brutal repressão a Espanha não se consolida como Estado de várias nações? Acaso alguém acreditará que neste tempo um povo tão cheio de História se deixará vergar porque o coletivo de juízes do STJ que entende que  a aspiração à autodeterminação dos catalães é crime que merece duras penas? Registe-se a correria do governo do PSOE a proclamar que as penas são para cumprir. Arriba España!

O garrote de Franco no s últimos estertor ainda matou anarquistas, mas o franquismo finou, mesmo que às vezes pareça que perdura.

In Público

Abandono do leninismo?

 

 

Em matéria de perceção de aceleração o tempo em que vivemos, a leitura de duas obras (“O esquerdismo doença infantil do comunismo” e “O radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista”, de Lenine e Cunhal respetivamente) que há quarenta e muitos anos os marxistas leram sofregamente, fica-se com a dimensão dessa aceleração.

O interessante é que há cinquenta anos quem lia o livro de Lenine não sentia essa tremenda diferenciação entre o movimento operário de então e o do início do século passado. Como mudaram as circunstâncias…

Mesmo em relação a toda esta problemática, no fim dos anos sessenta, tratada por Álvaro Cunhal, voltando ao livro, parece que mergulhamos em algo que a sociedade já não reconhece.

Tudo isto vem a propósito da velha e estafada discussão no movimento revolucionário e progressista sobre os compromissos.

A resposta de Lenine independentemente de se perfilhar ou não o leninismo é clara …”A história do bolchevismo antes e depois da revolução de outubro está cheia de exemplos de acordos, de conciliações e de compromissos com os outros partidos, sem excetuar os partidos burgueses”… Pag.94 Edições Avante.

Álvaro Cunhal escreveu …”cada etapa tem fases diversas, que não podem estabelecer-se segundo esquemas, que apresentam sempre novidades e imprevistos, um processo complexo e irregular, mas exigem que se defina o alvo do golpe principal”… Pag.63 Edições Avante.

Esta constatação e muitos outros dados explicam a razão que levou a que o PCP tivesse estado nos governos provisórios com Sá Carneiro e Mário Soares e tivesse aconselhado a votar em Mário Sores para derrotar Freitas do Amaral.

A fase da luta, dentro das orientações saídas dos últimos Congressos do PCP, é

por uma democracia avançada que se insere na estratégia mais geral da luta pelo socialismo.

O alvo principal é o grande capital, a burguesia parasitária nativa, e em boa medida a direita, independentemente das suas contradições que é preciso explorar… voltando a Lenine ( é obrigação dos leninistas conhecerem Lenine) “.… só se pode triunfar sobre um adversário mais poderoso à custa de uma extrema tensão de força e com a condição obrigatória de tirar partido, com a maior atenção, minúcia, prudência e inteligência, dos menores “desentendimentos” entre os inimigos, dos menores oposições de interesses entre burgueses de diversos países, entre os diferentes grupos ou categorias da burguesia no interior do país e também das possibilidades de se assegurar um aliado numericamente forte, ainda que seja temporário, hesitante, condicional, pouco sólido e pouco seguro…Pag.95.

Assim o eixo principal da ação política é contra todos os que pretendem impor empobrecimento ao país e a todos os que vivem do trabalho.

São aliados todos os que, pelas mais diferentes razões, não estão interessados no empobrecimento e na austeridade que permita ao grande patronato e ao sistema financeiro / banca esmifrar o povo português através da chamada competitividade, ou seja, no apagamento dos direitos laborais, sociais, culturais e ambientais.

Nestas circunstâncias cabe perguntar –  é ou não possível fazer propostas que “obriguem” o PS a sair da sua tendência claudicante e conquistar novos, mesmo que pequenos avanços, na reconquista de direitos que a troica e a direita roubaram?

É ou possível no domínio do SNS propôs medidas que impeçam a sua destruição ou a degradação dos mesmos?

É ou não possível em relação à Escola Pública pequenos avanços que façam todos readquirir maior confiança no sistema educativo?

No domínio da Segurança Social é ou não possível avançar com aumentos por mais pequenos que sejam, mas que se vejam, em relação às pensões mais degradados?

No que se refere à Função Pública é ou não possível negociar acordos de aumentos salariais?

É ou não possível encontrar medidas para minorar a desgraça em que se encontra o interior do país?

É ou não possível encontrar meios de tornar a Justiça mais acessível e menos morosa?

Se não são possíveis avanços nada de compromissos. Se são possíveis, há que avançar. Embora o tempo e as circunstâncias das lutas se tenham alterado por referência àquelas obras, aqueles princípios acima referidos permanecem válidos, mesmo para quem nunca é capaz de reconhecer erros próprios não deve deixar de ter em conta o que os seus mestres ensinaram.

In Público online

 

 

As mamas da Cristina

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Como se pode ler a nossa mais famosa personagem – a que recebe telefonemas em direto de Sua Excelência o Senhor Presidente da República, o mais alto magistrado da nação – o Senhor Professor Marcelo Rebelo de Sousa – descobriu, agora já bem adulta, que as mamas crescem com a idade…o que é absolutamente notável, e como é evidente notícia de primeira página, assegurando assim destaque para a atribuição no próximo ano do Nobel da Física ou daqui a alguns anos quando ela descobrir um certo descaimento eventualmente proporcional ao crescimento das respetivas.

A proeza desta descoberta está a preocupar largos setores da comunidade científica que sem qualquer explicação tinham passado ao lado do achado.

Há quem pense que com a idade cresce a ponderação e um certo grau de maturidade, aliás, diga-se em abono da verdade, que este sentimento é maioritário; porém o abalo desta verdade resultante da experiência da vida está a a sacudir as mentes mais brilhantes dado que por distração jamais lhes passara pela cabeça que também as mamas cresciam com a idade, pensando erradamente (pelos vistos) que as mesmas ficavam sempre  estaticamente e esteticamente iguais.

Há coisas extraordinárias como o ovo de Colombo e esta descoberta de Cristina.

Bem haja o Correio da Manhã e a Cristina por nos trazerem de mão beijada tão elevado achado.

 

 

 

Afinal o diabo veio

Afinal o Diabo veio. E tão dado a simbolismos chegou precisamente um dia depois do feriado que Passos/Portas/Cristas tinham cortado do calendário, o dia da implantação da República.
A conclusão não é nova, mas há coisas que valem sempre – não se deve anunciar o Diabo.
Os partidos da troica foram de novo a exame no passado dia 6 . Chumbaram com maior estrondo. Uma coisa era o peso e a chantagem brutal sobre os portugueses de que não havia alternativa à punição por terem vivido acima das possibilidades. Os chicotes feriam a Lusitânia e o povo baixou-se face à medonha realidade. Há quatro anos ergueram-se a custo. E levantados quiseram mostrar aos defensores do castigo do empobrecimento que não se esqueceram do mal que sofreram.
O problema não é Rio. É muito mais fundo. É não terem tido nada a propor a não ser casos de polícia. O seu programa verdadeiro é continuar a cortar e a empobrecer para uma minoria enriquecer à grande. E isso escondem.
O PS ganhou e cresceu bastante. É a primeira vez que o PS após estar no governo se reforça. Vai ter de negociar para governar. Se se quiser sentir como dono e senhor deste canto ibérico pode olhar para trás e ver o que lhe sucedeu após blocos centrais , limianos, absolutamente só com Sócrates…É tudo uma questão de aceitar constrangimentos ou querer governar à larga, como se não houvesse dia seguinte ao fim da governança. A tal estabilidade que é importante conquista-se ganhando maioria dos corações dos portugueses não só no dia das eleições, mas todos os dias para que as palavras batam com a prática.
O CDS da candidata a Primeiro-Ministro quase desaparecia. Assunção Cristas foi vítima de si própria e quis fazer dos portugueses estúpidos. Ela tinha sido um dos rostos da desgraça e falava como se o mal feito por ela e o seu partido fossem de outrem. Viveu de incêndios e de Tancos. E quando engoliu o disco de reduzir impostos todos se lembravam do governo que quase todos os dias aumentava impostos. O CDS tem muito que penar para voltara ser o que foi.
O BE mostrou que é possível fazer acordos e não sofrer o desgaste de ver o PS ganhar com acordos à esquerda. Não se reforçou, mas não perdeu deputados, mesmo nesse quadro em que o PS se reforça substancialmente. É um resultado que confirma que fazer acordos com o PS não implica perder inexoravelmente apoio eleitoral.
O PCP/CDU é vítima da sua atitude de se comportar como se fosse o único certo ao serviço de uma realidade que em boa medida inexiste na sociedade portuguesa, num mundo que a juventude não conhece e, por isso, a sua fraquíssima implantação nos jovens.
Não são explicações por parte do PCP a noticiar que para além das eleições a luta continua, pois continuará sempre com ou sem PCP. É preciso sublinhar que em certos distritos o peso eleitoral do partido é bem superior à sua força social, embora só tenha ganho em dois concelhos, Mora e Avis.
Sejamos claros – a situação não era fácil fosse para Jerónimo fosse para quem fosse Secretário-Geral, mas a sociedade que há para transformar é esta, com esta gente, estas televisões e estas mentes. O partido ou tem a humildade de aceitar a realidade e os grandes desafios reconhecendo nos militantes e simpatizantes a força maior para alterar o que não está bem incluindo no plano interno, abandonando a peregrina ideia de estar sempre certo, uma espécie de superioridade política dos dirigentes que nunca erram e que os leva a olhar para os outros como uma espécie de incapazes atrofiados.
O PAN ganhou. Vamos ver o que vai trazer de novo. A ideia de que não é de direita nem de esquerda pode parecer fofinha e nova, mas é velha e déjà vue. Vamos ver como se vai desenvencilhar com o Serviço Nacional de Saúde para animais. E o resto.
A entrada do Livre abre um novo espaço de esquerda no parlamento e pode ser mais um interlocutor que se afirme na sua identidade própria mostrando as suas diferenças das outras esquerdas.
As outras direitas que tiraram votos ao CDS e ao PSD vão querer ganhar mais votos ao CDS e ao PSD. Vão obrigar o PSD a mostrar se é tão de direita quanto tem sido ou se quer ganhar espaço no centro. O CDS que se cuide. Já tem dois partidos à perna e a morder os calcanhares. E se o PSD se recentra para onde vai o CDS?
A direita chamou muitas vezes o Diabo para tramar as esquerdas “geringonçadas” e afinal ele veio para tramar quem a chamou.
In Público online de 06/10/2010

As alianças do PS – poderosos factos

Para podermos julgar o papel do ao longo destes 45 anos de vida democrática vale a pena ter em conta o que aconteceu ao PS após ter governado só ou em coligações, nomeadamente com o CDS e o PSD; sim, o PS até 2015 sempre se entendeu em termos governamentais com o CDS ou com o PSD.
O exercício de memória é saber como reagiu o eleitorado ao primeiro governo contranatura do PS (Mário Soares) com o CDS (Freitas do Amaral). Um verdadeiro desastre para o PS em termos eleitorais.
Além disso deu origem a um processo que levaria a direita ao poder com a formação da AD (PSD, CDS e PPM).
Após o falhanço da AD, o PS casou com o PSD (o bloco central) e o resultado foi igualmente muito mau para este partido e para o país, levando de novo a direita ao poder.
Só em 1999, no limiar este milénio, o PS voltou ao governo com António Guterres que por falta de um deputado fez um acordo “encoberto” com um deputado do CDS de Ponte de Lima.
O resultado foi a fuga de Guterres e a chegada de novo da direita ao poder com Durão Barroso.
Veio a hora de Sócrates com uma maioria absolutíssima e governou como D. Dinis, fez tudo quanto quis. Quase. Perdeu muito eleitorado. Quis governar sozinho em minoria, mas de facto apoiado (por muito que custe ao PSD e CDS) nos partidos da direita.
Os resultados dos governos do PS foram até 2015 desastrosos para o próprio PS. O que levava o PS aos braços da direita só lhe trouxe dissabores; e quando governou sozinho foi o que se viu com Guterres e pior ainda com o todo-poderoso José Sócrates. Portugal era do PS, isto é, do engenheiro, graças à fantástica maioria absoluta. Há factos poderosos, mesmo no meio da estridência da campanha eleitoral.
Em 2015 Costa mudou o rumo às alianças do PS. E sucedeu o que está a suceder – o PS em vez de naufragar vai crescer. Nestas circunstâncias pode afirmar-se que para além dos méritos do PS a política levada a cabo por PS com apoio parlamentar do PCP, do BE e dos Verdes foi boa para o país e pelos vistos muito boa para o PS.
Outrora sozinho ou mal acompanhado, o PS, após os governos onde esteve só ou mal acompanhado, perdeu sempre uma significativa votação.
Vale a pena então perguntar por que motivos aparecem certos dirigentes do PS a clamar por maioria absoluta?
Baseado nestes 45 anos de vida democrática estes apelos só podem resultar da vontade de ter o poder todo com a correspondente abertura de possibilidade de acesso a centenas e centenas de cargos e tornar o aparelho governamental totalmente cor-de-rosa; sendo que essa gula se revela superior à vontade de continuar a dar força ao PS, e que foi a política de entendimentos à esquerda. Há quem prefira a defesa do egoísmo interesseiro em detrimento dos interesses do próprio PS .
Dar maioria absoluto ao PS é dar-lhe carta branca para agir sem os tais “constrangimentos”, ou seja, para agir de acordo com os seus múltiplos interesses partidários.
Entre um PS prestigiado por ter escolhido governar convergindo com os partidos das esquerdas e um PS preocupado em se assenhorear de tudo, o eleitorado decidirá não trocando o certo pelo incerto – obrigando o PS a negociar com as esquerdas para prosseguir o caminho que deu certo.

in Público de 01/10/2019

O assassinato da Toina, a religiosa de S. João da Madeira

Neste nosso mundo, nosso porque também o fazemos, há exemplos espantosos de bondade. E, ao contrário, de pura indiferença que talvez seja um dos maiores males que corrói a nossa vida em comunidade.
Metidos na nossa casa, na nossa vida, no nosso admirável mundo tecnológico, ficamos distantes da maior aventura humana que é o próprio ser humano de carne, osso, nervos e tudo mais.
Apesar do encómio ao que é rico e poderoso, ainda há quem abdique de quase tudo para se dedicar aos desfavorecidos e inválidos, aos sem afeto e sem posses, aos mais pobres dos pobres.
Uma dessas criaturas extraordinárias era Maria Antónia Paulo, uma religiosa de S. João da Madeira, que na sua motorizada levava a quem mais precisava a bondade que possuía. Dedicar-se aos que têm quase tudo não é amor, é conveniência, muitas vezes impostura.
As vestes religiosas da “Toina” eram claramente assinaláveis como sendo de grau de vulnerabilidade máxima. Talvez, por isso, a covardia do criminoso o fizesse mover-se para tão horrendo crime.
A Maria Antónia tinha sessenta anos, não estaria na sua força máxima, antes, no declínio da sua força, e foi assassinada de um modo cruel e bárbaro, sendo depois violada.
A sua coragem era a bondade e o empenho em ajudar, em partilhar. Escolheu aquele caminho, que não é o do sucesso dos famosos, nem do empreendedorismo, antes o de servir os outros. Por isso era admirada por muitos. Ao assassiná-la, mau seria que o criminoso também matasse o exemplo.
Quando em nome de uma pulsão sexual um homem agride, viola e assassina uma mulher, está a cometer uma violência que sabe poder fazer contra alguém menos forte fisicamente. É uma tremenda covardia.
Sempre que uma mulher é morta as mãos de um algoz que entende ter direito à vida da vítima, o mundo no seu conjunto sofre, e ai dos que não sentem esse sofrimento, tal será a densidade do grau de indiferença.
E o mundo tem de comover-se, de se agitar, de se mover para fazer parar ou pelo menos diminuir crimes tão abomináveis como os que vêm sendo praticados contra mulheres indefesas.
Por mais diferentes que sejam os caminhos do amor ao próximo, da bondade, da generosidade, da solidariedade nas sua várias militâncias, todos temos de dar as mãos e no nosso espaço denunciarmos, exigirmos do Estado maior proteção das mulheres e que os meandros da justiça não permitam a quem deva estar preso agir em liberdade para cometer crimes.
A religiosa Antónia é, pois, um exemplo de que a generosidade vive. Quem não pode sentir-se atingido por essa crueldade? E pela do assassinato de Gabriela Monteiro em Braga com dezassete facadas?
Que mil mãos de todas as mais diferentes latitudes religiosas, ideológicas e políticas sejam capazes de defender os exemplos dos que amam o próximo e resistem à indiferença. Que a morte não mate o exemplo, eis o desafio.
In Público de 20/09/2019

Cabeleireiros em tempo de complemento solidário de subsistência

As famosas e os famosos são nos nossos dias um espécie de complemento solidário de subsistência. Algo que a gente precisa, em modo de embasbacamento.
Há um novo céu onde se instalaram divindades para todos os gostos. Um regresso ao politeísmo. Sim. Um futuro feito do passado.
Se as andorinhas lavavam os pés a Jesus e as lavandiscas a sua mãe, agora com a catastrófica diminuição das espécies alguém tem de cuidar das novas divindades – desde logo os cabeleireiros que as põem ainda mais bonitas do que o que já são.
A morte de um cabeleireiro de uma divindade corresponde em tempo de complemento de subsistência à morte parcial da divindade.
No fundo as divindades morrem muitas vezes, cada dia que passa os seus cuidadores deixam de ter poderes de tapar rugas e cabelos fora da mãe. E apesar de divindades vão morrendo até que outras nasçam; daí a sua eternidade. Um politeísmo feito de eterna renovação. Morrem e nascem. Só os cabeleireiros morrem de uma vez por todas. Coitadinhos.

A morte da adepta de futebol- a iraniana Sahar Khodayari

Sahar Khodayari morreu no dia 10 de setembro em Teerão, no Irão. Era adepta de um clube de futebol iraniano, o Esteghial. Em março do corrente ano ela foi ao estádio ver o seu clube do coração. O que lhe importava era poder ver o seu clube jogar, o que os seus colegas homens da licenciatura em Ciências de Computação podiam. Só que ela vivia num país onde as mulheres não podem entrar num estádio de futebol porque os jogadores têm parte das pernas ao léu. Para os aiatolas, os homens com parte das pernas ao léu são um perigo para as mulheres iranianas que vão ver um jogo de futebol. Tal como para os religiosos sunitas do país vizinho, a Arábia Saudita.
Em Portugal e no resto do mundo que vive sob pecado as mulheres que vão ver jogos de futebol reparam nas pernas dos jogadores no sentido de averiguarem se são capazes de ultrapassar em fintas, em passes e desmarcações os adversários.
Para os aiatolas devido ao que se passa na sua cabeça as mulheres apreciam as partes das pernas nuas, o que o Procurador-Geral Jaffar Montazeri considera encaminhar para o pecado por estarem seminus.
Na cabeça dos dignitários religiosos ir a um estádio de futebol para ver as pernas dos jogadores é algo que apresenta uma gravidade com enorme relevo criminal. Eventualmente as pernas dos jogadores de futebol se forem vistas por mulheres, o caso muda de figura porque se os jogadores souberem que há mulheres a verem as suas pernas poderão perder a atenção, o que prejudica a missão de cada um deles.
Os grandes aiatolas, atentíssimos ao desempenho dos jogadores e à competição, jamais aceitariam que qualquer mulher com o seu enorme poder diabólico pudesse ser assinalada no estádio por jogadores com maior visão e contribuir daquela maneira para distrações que pudessem custar três pontos aos clubes das várias divisões iranianas.
Em defesa dos clubes, os dirigentes religiosos daquele país fizeram publicar uma fatwa (lei religiosa) que interdita a presença feminina a fim de assegurar o bom desempenho dos jogadores e o descanso dos namorados e maridos e a irritação de Satã.
Se assim não fosse podia acontecer que dirigentes de certas equipas enviassem várias adeptas para distraírem os jogadores dos equipas adversárias, e assim desvirtuariam a verdade desportiva, pois o VAR não opera nestes casos.
Claro que tudo isto se passa na cabeça de umas tantas centenas de homens de turbante na cabeça, o que lhes impede, provavelmente, de ver a realidade tal como ela é devido ao aperto dos panos.
Há mais casos parecidos. Um em Washington falava diretamente da sala oval com Deus, outro do Rio de Janeiro foi batizar-se ao rio Jordão com meia dúzia de evangélicos, outro ainda veio de Budapeste para o Santuário de Fátima defender a cristandade das várias ameaças…mesmo em Fátima, onde tudo é seguro.
Assim vai o mundo. Em Teerão a jovem Sahar Khodayari que se imolou pelo fogo teria visto a sua pena de prisão retirada se deixasse de ir aos estádios. Porém, ela entendeu manter a sua vontade de ir ver futebol. Era fervorosa do Esteghial.
A sua saúde mental que segundo relatos do jornal Guardan não era a melhor agravou-se com a condenação a seis meses de cadeia. Os aiatolas devem ter visto nesse agravamento um sinal divino, a razão para a impedirem de irem aos estádios e manterem a decisão. Face à imolação, eles terão pensado nas chamas do inferno…
Em sentido contrário o Presidente Hassan Rohani entende que as mulheres podem ir aos estádios e é homem.
O problema são estes representantes de Deus na terra. Veem o que os outros não veem. Onde umas veem habilidades, eles veem pecado. Talvez os seus próprios pecados lhes tenham toldado a mente e a vista.
In Público de 12/09/2019

A tabuada escondida de António Costa

Às vezes as coisas são mais simples que aquilo que parecem. Quando Costa destronou Seguro e se candidatou a Secretário-Geral para o PS ser o partido mais votado, tal não aconteceu. Quem teve mais votos foi a coligação do PSD com o CDS.
A essas eleições o PS concorreu com um programa, o BE e o PCP cada qual com o seu.
Se o PS tinha um programa e negociou com o PCP e o BE, tal significou que teve de haver um ajustamento entre os vários programas, como sucede em qualquer acordo. Simples.
Se ao cabo da legislatura as coisas correram bem a explicação reside no facto de PS, BE, PCP e Verdes terem adaptado em parte os seus programas e funcionarem com o objetivo de cumprirem o que acordaram. Dois e dois são quatro, é da tabuada.
Não se sabe (pode imaginar-se) o que seria um governo apenas do PS, tanto mais que o lastro deste partido sozinho no governo é de má memória, até para muitos socialistas…
Desde o Congresso do PS que uma série de dirigentes daquele partido têm vindo pedir à boca cheia a maioria absoluta. Se não fosse esse o desígnio do líder certamente que não seriam tantos a pedir o fim dos “constrangimentos”.
Por outro lado, o silêncio do líder poderá significar ficar a ver o que dá esta agitação das águas. Costa é muito hábil, gosta de treinar o campo de manobra, mas (há sempre um mas) a jogada é de tentar a maioria absoluta.
De repente passou a criticar os parceiros por causa dos programas de cada um, embora no debate com Jerónimo na SIC tenha deixado elogios ao PCP, o que se insere na sua bizarra manobra de obter o que quer, dando a entender que não é bem a maioria absoluta que quer, mas se lha derem…coitadinho, tem de aceitar.
Com base nos resultados dos acordos à esquerda dá ares de ter sido só o PS o obreiro do trabalho dos quatro partidos e empalma os louros.
Pedir, por vias subliminares, ao país uma maioria absoluta, dizendo que a não pretende, com a direita de gatas é o caminho para jogar à cabra cega com os eleitores.
A direita está derrotada. Fez tanto mal com o programa da troica que poucos portugueses a querem. Não tem quem seja capaz de apresentar alternativa aos acordos que deram sustento à legislatura que se mostrou bem mais estável que a de Passos /Portas/Cristas. Bem chamaram o Diabo e ele vai aparecer-lhes quatro anos depois com todo o esplendor no dia 6 de outubro por volta das 19h do tempo do meridiano de Greenwich.
Há na direita mais sábia quem queira impedir uma nova geringonça votando PS para este ter maioria absoluta e assim tentar evitar esse acordo com as esquerdas.
Nestas eleições o que vai ser decisivo são os votos no BE e no PCP. O PS já ganhou as eleições. Ninguém duvida dessa verdade. O que se não sabe é que votações vão ter os parceiros da geringonça. Se reforçarem as suas posições haverá de novo acordos. A chantagem à espanhola é manobra para encher o saco do PS e ameaçar com a instabilidade que ninguém consegue descortinar. Não houve em quatro anos.
Costa será de novo Primeiro-Ministro. Só falta saber se terá votos suficientes para enviar o PCP e o BE para a oposição. Essa é a questão para Costa e o PS – ter ou não ter todo o poder.

In Público online de 03/09/2019

Maria Moreira- carteira de Perre( in Público online)

Na Cena II do Ato II de Hamlet de um dos maiores escritores de todos os tempos, o iluminado conhecedor da alma humana, William Shakespeare, a personagem Rosencrantz, um biltre ao serviço do monstruoso rei que tinha assassinado o irmão, vai ter com Hamlet, filho do malogrado, e este pergunta-lhe por notícias, ao que o outro responde: “Nenhumas, só se fosse que o mundo deu-lhe agora para ser honrado…”
Já no século XVI no contexto da sociedade inglesa, a honradez não era o registo dominante. O renascimento veio trazer para a tona da vida o lado injusto em que assentavam as sociedades de então.
Como se sabe, nos nossos dias, a honradez que não está cotada em nenhuma Bolsa, é coisa de pouco valor, aliás fazendo dela bandeira a pouco lado se vai.
As redes sociais estão cheiinhas de exibições narcísicas que vão desde o nu integral da Kim Kardashian ao encontro do marchand de arte com a sua esposa em Nova Iorque, algo de extraordinário que se não fosse exibido fazia temer o descarrilamento do mundo.
E que dizer da notícia dos suspiros/berros da nossa Cristina, que tendo nascido sem sangue real devia ter sido levada ainda em gestação para os palácios da família real inglesa, essa sim, a sério, no que a sangue azul diz respeito. Aí sim, tínhamos princesa…
Raramente no quotidiano aparecem notícias sobre as qualidades que os cidadãos devem cultivar, desde logo a honestidade e a honradez. O que conta é ser famoso e as notícias incidem mais nos figurões cheios de riqueza, muita dela adquirida sabe-se lá como. O que conta é o que se vê. O que se tem e a exibição do que se tem, porque ter e não se mostrar que se tem é um desperdício no mundo de tantos vazios interiores. A era do vazio precisa do estardalhaço, da exuberância, de que se seja visto, de que se seja admirado pelo que se expõe.
Na edição online do Público apareceu no dia 27 deste mês uma notícia extraordinária de significado e que constitui a prova de que os seres humanos continuam a precisar de vivenciar os sentimentos bondosos de que tanto fala António Damásio no seu livro “Estranha ordem das coisas”.
Maria de Jesus Moreira, carteira, encontrou nas Festas da Senhora da Agonia, uma caixa com 3700 € e algum ouro e por ter um telefone no seu interior ligou ao seu dono e entregou-lhe o que lhe pertencia e tinha perdido.
Esta mulher de 58 anos, viúva, humilde, pobre, é a chama da honradez que se não deixou apagar pelo vento da cupidez.
Se ela quisesse poderia apropriar-se daquele montante. A grande notícia neste mundo é a que a honestidade e a honradez, apesar do despudor do mundo, não morreu. Bem-haja quem nos faz acreditar nos melhores sentimentos.
*ADVOGADO