Desconfiar dos condecorados?

 

O escândalo em torno da figura acanalhada de Joe Berardo parece que indignou muitos dos nossos dirigentes. Porém, o caso não pode ser visto como algo de anormal na República portuguesa.

A sociedade portuguesa tem conhecimento do elevado grau de envolvimento de altos dirigentes políticos, de banqueiros e de empresários de relevo em processos de corrupção e em crimes relacionados com a indevida apropriação de bens públicos.

Atente-se nalgumas dessas figuras bem encadernadas que arranjaram à martelada um curso superior, pois de outro modo não o alcançariam. Eram todos dos mesmos partidos ou dos mesmos interesses – tratar da vidinha, hoje eu, amanhã tu, e cá te espero.

Há uma espécie de casta que gira entre os partidos chamados do arco do governo, bancos e empresas e cuja missão é enriquecer de qualquer modo.

Muitos dos que hoje se assanham contra Berardo curvaram a espinha para o admirar, o self-made-man made in South Africa de origem madeirense, o empresário que atropelava o inglês e o português, mas era um vivaço e empenhado em mergulhar o país num mar de cultura…Um exemplo.

Tal como Berardo a nata de outros tantos da mesma igualha e até de dirigentes desportivos (pelo menos um) do alto do seu esplendor foi deitando a mão a tudo o que podia abocanhar para subirem mais alto neste nosso reino mais ou menos apodrecido.

Os escândalos rebentam a todo o momento. Já envolvem figuras como um ex-Primeiro-Ministro, ex-Ministros e ex- Secretários de Estado, o ex-dono do maior banco, banqueiros que saíram da política para a banca, altos quadros partidários, empresários de grande relevo, caloteiros que ostentam a sua riqueza e no dia seguinte se declaram insolventes; gente do mais famoso que há e que passou a vida a ser projetada pelos media que realçavam as suas capacidades de gestão. Receberam as Ordens de tudo e mais alguma coisa.

Estes grandes figurões não foram só ao pote do dinheiro. Também foram ao pote das medalhas. O novo-riquismo tem necessidade de se legitimar dada a velocidade com que muitas dessas figuras passaram de simples empregado/funcionário a altíssimos quadros partidários ou gestores ou dirigentes desportivos ou até a  banqueiros. As condecorações eram psicologicamente uma espécie de carta de apresentação das qualidades.

Os donos disto tudo precisavam e precisam de ter os seus políticos e levá-los para a boa vida. Eram precisas parcerias com o dinheiro público. Era preciso privatizar. Era preciso entregar as riquezas do país aos magnatas chineses, norte-americanos, franceses, alemães, a quem quer que fosse.  O que contava era tornar os mais ricos ainda mais ricos. E receber os respetivos agradecimentos. C’est la vie.

São muitos os homens que foram condecorados e têm o nome na lama. E para a lama arrastaram as instituições. Que respeito pode merecer uma condecoração?  São casos a mais. Quando se fala em combater o populismo que se está disposto a fazer para que o povo português acredite que o crime de colarinho branco e de altas figuras é para ser combatido e punido? Ou continuará a servir de arma de arremesso de luta partidária, ora revelo eu, ora revelas tu…

Face a este vendaval de gente sem escrúpulos, faltam sair à liça as mulheres e os homens escrupulosos, dedicados à causa pública, que querem servir as instituições e a República. É de crer que seja possível à esquerda e à direita encontrar mulheres e homens capazes de limparem as manchas da corrupção. As nódoas expandem-se, se não as cortarem.

Hugo Miguel,fraco, ignorante e imprudente

As principais características de um árbitro ou juiz de campo devem ser – conhecer a lei, fazê-la cumprir e para tal usar a devida prudência.

Cumprir a lei é penalizar todos os comportamentos que violem as regras do futebol.

Sendo humanos os árbitros podem errar e segundo a sua convicção penalizar ou não  comportamentos que não o deviam ser ou devê-lo-iam ser.

Enquanto houver humanos haverá julgamentos que se não adequam à verdade dos factos. Mas para esse lado todos podemos dormir descansados.

O mal maior não é na penúltima jornada do campeonato o árbitro que apitou o Rio Ave / SLBenfica ter errado clamorosamente. Apareça o primeiro a atirar pedras…

O problema é a tal prudência que o senhor substituiu pela arrogância ou fraqueza.

Vejamos: este era um jogo de uma importância estratégica. Não devia haver erros dos grandes.

Sempre que surgissem as mínimas dúvidas havia que ser prudente, ou seja, desde que há V.A.R., recorrer a esse meio auxiliar de decisão.

À entrada da grande área do Benfica Gabrielzinho é empurrado por um jogador do Benfica (questão unânime entre todos os comentadores e árbitros comentadores) e o árbitro nada marca e deixa seguir a jogada que dá o segundo golo do SLBenfica com João Félix em fora de jogo.

A revolta é enorme nos jogadores e público do Rio Ave. Que faz o árbitro – Perguntar ao que parece vídeo árbitro que manda seguir, recusando o supremo critério da prudência que seria visualizar e, neste caso, teria de mandar anular o golo e ordenar marcar livre ou penalti contra o Benfica.

Que fez o senhor juiz? Servir-se da desculpa do colega do vídeo e com toda a imprudência manchou a sua atuação e o próprio campeonato.

É verdade. Pilatos para não decidir (tendo já alguém decidido) mandou crucificar Cristo.

O inefável Hugo Miguel com toda a imprudência arranjou modo da sua decisão prevalecer e com ela dar o triunfo ao Benfica.

Não é estranho que ele não tenha visto o penalti. Normal. Humano. A desgraça é a sua imprudência, pois sabia que aquele lance ia ser escrutinado por todos. Apesar disso, no limiar da imprudência/irresponsabilidade, decidiu não visualizar o que se tivesse visualizado seria obrigado a decidir de outro modo.

Um árbitro que em campo se preocupa apenas em arranjar desculpas para a sua decisão, sacrificando a verdade material é um juiz imprudente e juízes imprudentes não devem fazer parte do rol de árbitros porque a prudência é um atributo sem o qual não se deve ser juiz. Hugo Miguel comportou-se como um fraco e manchou um jogo que não podia ter manchas.

Quem os mandou serem professores?

Tornou-se uma espécie de tique de boa aparência dar porrada na “insensibilidade” dos professores que devido “à sua força negocial” querem deixar o país mal, sem credibilidade internacional, pondo em causa que as boas contas…Há credores que merecem tudo, os professores que são credores do seu tempo de carreira congelada são sacrificados face ao Pacto de estabilidade.

Aparecem lampeiros nas televisões, rádios e jornais a cascar nos insensatos que do alto do seu barriguismo querem atirar pela janela fora todos os sacrifícios já feitos, podendo dar origem a nova troica, dado que o passo é maior que a perna, blábláblá, blá,blá.

É interessante confrontar todas estas opiniões com a compreensão face aos desmandos loucos dos banqueiros…estes sim, verdadeiros patriotas que nunca exercem a sua força negocial.

Pode comparar-se quinhentos milhões de euros com quase vinte mil milhões?

Pode comparar-se os milhões entregues este ano ao Novo Banco  e os muitos milhões que ainda vão ser entregues com os quinhentos milhões?

PS, PSD e CDS acham que para os bancos tudo, para os professores “poucochinho”…

Bastou a poeira assentar para percebermos que a direita foi chamada ao redil e entre ser coerente com os seus interesses de classe ou com o que prometeram aos professores o que conta são os seus interesses… e os de Bruxelas, dizem.

Vejamos de outro ângulo- quem deu causa à crise foi a banca, quem a paga são os professores e os que vivem do seu trabalho. É isto, não é?

Apesar disso os comentadores vão à televisão muito sérios pregar sermões sobre a irresponsabilidade da classe cujos dirigentes sindicais estão disponíveis para pôr em causa a credibilidade internacional do país… vejam bem do que são capazes os professores.

Um país, que trata mal os seus professores não tem grande futuro. Despreza os filhos, pois não se importa que quem ensina os seus filhos seja mal tratado. Quem é mal tratado não fica nas melhores condições para ensinar num país em que há crianças mal alimentadas e com fome.

Os bilionários não têm que se preocupar, os filhos não frequentam tais escolas e com sorte os pobres e os remediados pagam-lhe os encargos nas escolas privadas. O mundo é dos espertos. Quem os mandou serem professores?

O estranho nesta questão é Costa servir-se dos professores para tentar melhorar o resultado eleitoral nas eleições europeias. Denegrir os professores é atacar a base social de apoio ao PS. Vamos ver o que vai dar este jogo de desacreditar o sistema de ensino acusando os professores de falta de patriotismo.

A poeira vai assentar. Os portugueses continuarão a pagar os desmandos dos banqueiros. Os professores a ensinar a formar as mulheres e os homens. A eles se deverá o futuro. Não destruíram as finanças públicas. Estão a pagar a loucura do sistema financeira. E o governo trata-os deste modo.

Quem quererá amanhã ser professor?

Esta Europa e as nações

A Europa enquanto continente político-geográfico é o resultado da afirmação das nações. Foram elas que fizeram da Europa o continente mais avançado em termos de conquistas políticas, sociais, culturais e ambientais.

Também é verdade que foram algumas delas que arrasaram o continente a ferro e fogo em guerras que explodiram no século passado e assumiram dimensões mundiais.

Foi essa horrenda devastação que gerou a ideia de uma Europa de nações a viver em paz e em cooperação.

Neste nosso tempo as nações não passaram à História, estão aí, nalguns casos exacerbadas por líderes que delas se servem para combater rumos que os seus povos rejeitam. Os mais “europeístas” como Merkel ou Macron pensam em primeiro lugar na Alemanha e França respetivamente e veem o continente à luz dos seus interesses.

A Europa continua a assentar nas nações e só a sua união voluntária de baixo para cima e não imposta de cima para baixo pode permitir a cooperação à escala continental onde está a U.E. e onde estão outras nações.

A crise que atravessa a U.E. de onde sobressaem tendências xenófobas, fascistas, nacionalistas, austeritárias, resulta também do rumo que leva a sua edificação.

Ninguém se pode sentir bem numa organização que impede de alimentar as suas aspirações por chocarem com  regras impostas por elites desligadas dos povos.

No passado a construção de grandes impérios tolheu o desenvolvimento da ideia da Europa e levou sempre a confrontos militares. O império era mais que o continente.

Em 2019 será mais difícil impor políticas com base nos tanques ou aviões ou ainda nos navios de guerra. Hoje, os meios são muito mais sofisticados e os países mais fortes atraem por via das elites os mais fracos para um espaço continental onde aqueles dominam através de mecanismos económicos e financeiros.

As regras resultantes do Pacto de Estabilidade configura um certo tipo de poder imperial, na medida em que condiciona de modo decisivo uma parte muito importante da soberania nacional de muitos dos Estados que outros conservam a todo o custo. Outrora os Filipes, os Habsburg, os czares, os sultões, Bonnaparte , Bismark, ou a Rainha Vitória, impunham por outros meios essa limitação.

Fazer parte de uma organização de nações em que as mais ricas continuarão mais ricas e as mais pobres não terão possibilidade de se desenvolverem porque as regras existentes as impedem de gerir os seus recursos de acordo com os seus interesses trará grandes e graves problemas. Atente-se nos que está a enfrentar o Reino Unido com o seu divórcio que poderá acabar no ponto em que começou.

É um mal-estar que alimenta toda a espécie de extremismos. As eleições para o Parlamento Europeu não entusiasmam ninguém. Até o PS sentiu que ninguém ia à bola com a sua política centenista/europeísta  e Costa arranjou uma crise que não queria, mas queria….

Porém, o cabeça de lista do PS continua um ilustre desconhecido, o do PSD é aquele que continua como sócio de uma sociedade de advogados e o Nuno Melo acha que o Vox não é de extrema direita… É esta União Europeia criada por estas elites que desmotiva os povos. Uma União em que mandam os mais poderosos não é uma união. É uma organização que tem um diretório para submeter os outros. É precisa outra União onde os povos e nações sejam realmente pares e parceiros.

In Público online

O PS não bate certo

Toda a gente sabe que a crise financeira vivida pelo país foi provocada pela ganância e incompetência dos banqueiros portugueses. Foi a banca quem gerou a crise. Por causa dela os portugueses estão a pagar o descalabro do sistema financeiro. Quase vinte mil milhões de euros.

Não foram os professores, nem os magistrados, nem os funcionários judiciais, nem a polícia quem deu causa à crise. Estes trabalhadores e todos os outros foram vítimas e estão a pagar o mal do setor bancário.

Os professores têm direito à contagem de todo o tempo de trabalho, como todos os que trabalham e descontam. São credores do Estado e não devedores. Centeno assume no seu ar tecnocrático que o Estado português tem de cumprir os seus compromissos, mas pelos vistos há compromissos que não são para cumprir…

O PS pode à vontade votar com a direita questões de grande relevância, mas caso a direita se posicione em consonância com partidos da esquerda grita Aqui d’ El-Rei. Só mesmo o sorridente Centeno era capaz de se manifestar preocupado pela esquerda deixar passar a direita para que o tempo de trabalho dos professores seja contado…

Cabe fazer esta pergunta ao PS, apesar do barulho: após as próximas eleições com quem vai governar não tendo maioria absoluta, como tudo indica que acontecerá? Aliás quantas vezes o PS nesta legislatura teve os votos da direita?

O que o PS está a fazer é uma manobra, por um lado, de intoxicação adiantando números relativos a despesa que mais ninguém confirma e, por outro lado, de pura chantagem dirigindo-se ao eleitorado vitimizando-se dando a entender que não o deixam “salvar o país” e a credibilidade internacional. É demasiado.

Diabolizando os professores, a Assembleia da República e os seus parceiros da geringonça, o PS decidiu entrar em roda livre para buscar ganhos que lhe escaparam nos últimos meses devido a má gestão política.

Pior: desculpabiliza os verdadeiros culpados pela situação calamitosa do país e faz crer que foi encostado à parede pela Assembleia da República, a qual é soberana e diante da qual o governo responde.

Agita a instabilidade congeminando a ideia de que se demitir a escassos meses das eleições e ficando em gestão se apresentará vítima de todos os partidos. Para tanto Costa ataca a direita e Centeno a esquerda. Porém o governo só não governa porque não quer.

Com esta crise aberta pelo próprio PS quem será beneficiado ou penalizado? A manobra é perigosa. Servir-se da instabilidade para se dar ares de rigoroso pode ser um passo em falso. Não bate certo.

CAMPEÕES DA EUROPA

Quase sem nos apercebermos surge o F.C. Porto de novo campeão europeu em sub-19. É obra. Depois dos seniores chegou a vez dos jovens. Os filhos do dragão. Para lá chegar derrotou os colossos europeus. E tornou a grande cidade ainda maior. Poucas cidades europeias se orgulharão de ter sido campeãs em seniores e em sub-19.
O F.C.P chegou onde chegou enquanto os media davam conta da formação de outros clubes, colocando-os no Everest da arte de fazer fábricas de craques. Nunca se falou tanto por essas bandas de projeto europeu. De acordo com as notícias aguardava-se a conquista do cetro europeu para as margens do rio Tejo, coitado dele que não tem culpa de tanta farronca. Já Pessoa tinha aquela ideia sobre o rio da sua aldeia.
E calmamente acontece o que aconteceu em Nyon- Porto 3- Chelsea-1…São muitos títulos para um clube e para o homem que o dirige.
O grande filósofo José Gil escreveu um livro sobre um sentimento muito negativo dos portugueses que é a inveja. Ela não se arruma segundo qualquer acaso dos pontos cardeais, disso estou seguro. Mas a concentração de poderes, influências na capital de um pequeno país que de repente se vê pendurado na grande área urbana de Lisboa, leva a que se possa pensar que o resto seja paisagem. Mesmo que inconscientemente. É em LISBOA que quase tudo se decide. Não é de agora. Mesmo depois do 25 de abril continua a ser assim. Lisboa não tem nenhum mal que as outras cidades de Portugal não tenham, mas tem todo o poder e já tem também uma espécie de ponte aérea com Bruxelas.
Ter paixão por um clube como o Porto é não só querer que ganhe sempre, como também desafiar o establishment e acreditar que é possível não obstante tanta cegueira espalhada por todo o país.
Ao que se sabe os animais cuja cegueira é uma característica não são culpados do seu destino na arte de sobreviver; escavar é a sua única possibilidade até ao dia em que o seu focinho e as suas patas não sejam capazes de fazer os longos tuneis que as levam ao sucesso. Toda a especialização excessiva leva à morte da espécie. O homem descobriu a ferramenta para interpor entre a espécie e a natureza. Vale a pena recordar a cena em que o macaco no filme Odisseia no espaço de Stanley Kubrik descobre que osso de um animal serve para matar outro macaco através de um golpe.
A descoberta da bola, que de pé para pé pode levar à prodigiosa arte que também é o futebol, deve ser vista à flor da relva, com todo o seu esplendor, como os campeões europeus em Nyon.
A fábrica de campeões de sub-19 está no PORTO.

Eleições espanholas e estabilidade

Em Espanha os resultados eleitorais das eleições legislativas de vinte e oito de abril apresentam um horizonte com uma nova paisagem política.
Na verdade, a rotatividade das maiorias absolutas entre o PSOE e o PP finou. Os eleitores, numa grande afirmação cívica, deram uma maioria relativa ao PSOE e uma maioria absoluta ao PSOE, ao Podemos e aos partidos representativos das autonomias e independentistas.
O PP, o Cidadãos e o VOX escolheram como eixo político colocar o PSOE num cordão sanitário. Falharam redondamente. O campo do PSOE, do Podemos e autonómico reforçou as suas posições.
É interessante que muitas das análises se centram na instabilidade gerada com estes resultados, tentando passar por cima da opção clara dos espanhóis que rejeitaram entregar a qualquer partido o poder de por si só constituir governo. Sendo o povo o soberano escolheu e só há que respeitar essa sua soberania.
Parece claro que as experiências de maiorias absolutas de PP e PSOE conduziram a Espanha a sucessivos e monumentais escândalos de corrupção que abalaram toda a sociedade de modo profundo.
Ao obrigar o PSOE a negociar compromete-o com acordos com outros partidos, impedindo-o de gerir a vida pública a seu bel-prazer.
A estabilidade gerada por uma maioria absoluta foi responsabilizada pelos espanhóis como causa desse clima de um poder quase absoluto com que o PSOE e o PP arrasaram a Espanha, levando ao descrédito do próprio regime, dado o grau de envolvimento de ambos em processos de corrupção e incapacidade de gerar consensos, provavelmente por terem maioria absoluta.
Esta “estabilidade” foi tacitamente rejeitada pelos espanhóis, criando uma nova situação.
O PSOE vai ter de assumir compromissos com os partidos à sua esquerda ou à sua direita.
A lógica que decorre da queda do governo de Sanchez, os eixos da campanha eleitoral, apontam para um entendimento à esquerda e com os autonomistas.
Um acordo é sempre o resultado de vontades que nele se materializam e podem dar a possibilidade de levar a cabo a legislatura até ao fim, ou seja, com estabilidade.
Falta esperar para ver se o PSOE se compromete desde já com uma saída ou prefere manter uma certa ambiguidade para tentar reforçar a votação nas eleições para o parlamento europeu.
A estabilidade da governação não decorre tout court de uma maioria absoluta, mas de uma política que responda às grandes aspirações dos espanhóis.
O exemplo português é claro. O facto de o PS não ter uma maioria (nem relativa) não impediu de governar os quatro anos e de operar uma certa viragem na política portuguesa, aliás com sucesso.
Podemos estar a assistir ao regresso da política na verdadeira aceção da palavra, na arte de realizar compromissos com forças que se enquadram num dado campo político – ideológico. O que poderá significar o fim de um rotativismo entre duas formações para tudo ficar na mesma.
A democracia é a possibilidade de encontrar saídas reais e diferentes para os impasses que o regime gera.
Apresenta-se uma nova possibilidade no nosso vizinho continental. Há saídas para assegurar a estabilidade governativa.
In Público online

Até amanhã de manhã à hora do pequeno-almoço

A evolução da vida política está ir de mãos dadas com a indústria de entretenimento. Mede-se pelo impacte mediático. O que se passa é o que acontece nos media. O resto é o interior; só existe em tempo de incêndios.
Os cidadãos habituaram-se à preguiça cívica. Não procuram o presente, nem o futuro. Assistem ao que lhes é apresentado. A escolha é entre o canal que “dá” as notícias. E absorvem até à cegueira.
De repente surge uma greve caída do céu ou à medida pascal. Implantam-se os piquetes das televisões em tudo quanto cheire a combustível.
Sai do altar do CDS a santa Cristas. “Pesarosa” e dotada de uma autoridade resultante dos quatro anos a empobrecer a esmagadora maioria dos portugueses e a tornar ainda mais rica a minoria bem minoritária a quem ela, e o governo de que fez parte, deu milhares de milhões.
Apareceu vestida de negro nas palavras aladas no vento do veneno – dou até amanhã de manhã ao senhor Primeiro-Ministro para resolver o caos criado.
Amanhã de manhã, provavelmente antes do pequeno-almoço. Houve um período que era tudo “já”, há quarenta e cinco anos.
O CDS é isto: dar-se ares de mandar. As televisões aproveitam, precisam de oxigénio e Cristas segue a fazer de conta. Só que por vezes a diferença entre a mensagem e o mensageiro é tão gritante que a mensagem cai no ridículo.
Os camionistas pertencem ao setor privado que a direita arenga que não faz greves, ou melhor, só as faz quando sabem que amanhã de manhã tem de estar resolvida.
Outro fenómeno extraordinário de sucesso em matéria de celebridade mora em Belém, no palácio. Vogou em todos os canais ao longo de anos a dar notas e o luso reino lorpa a assistir às reprovações. Sempre sabe bem saborear o mal dos outros. Além do mais eram coisas do Celito.
Ele é como é. É o que ele diz. Mas não é. É consoante as nuvens. Se vê que uma selfie vem a calhar tira-a, nem que seja com alguém que deixa muito a desejar em termos de inserção social. Ele não pergunta pelo registo criminal… diz.
Se dá jeito uma viagem de camião embarca. Se quer ser apanhado a dar mergulhos ele arranja a surpresa e os basbaques embasbacam.
Se o seu amigo João Lourenço lhe organiza um programa de arromba, ele apanha as canas e faz de Celito. É o que se queira.
Se acha que o governo tem de resolver o conflito dos camionistas, mesmo que o conflito seja entre privados, ele faz um escarcéu que se ouve em todo o lado. É a solidariedade institucional; se o governo está mal, deixa que ele ajuda a ficar pior; se estivesse bem, ele é que sabia do otimismo do Costa…
O que nos vale é que o de Belém é mais largo em prazos que a santinha da rua da Madalena. Viva a Páscoa

Ditadura por cima de todos, Militares acima de tudo

Bolsonaro no seu desvario totalitário quer fazer o Brasil regressar aos tempos ditatoriais.
Para legitimar a sua ação política não hesita em fazer da sua governação algo que se baliza por parâmetros religiosos, abusando da frase – Deus acima de todos – como se ele fosse um pastor evangélico na hora da homília e não um Presidente eleito de acordo com leis que se aplicam a seres humanos e que deles imanam e se destinam a regular a vida na comunidade brasileira, ficando o céu fora do alcance do seu governo, por muito que lhe dê jeito invocar.
Na verdade, Bolsonaro é um velho capitão admirador da cruel ditadura militar e foi eleito Presidente do Brasil para fazer respeitar, em última instância, o supremo mandamento legal – a Constituição brasileira, tarefa que demonstra não ser capaz.
Entretanto, saído das alfurjas do tempo apodrecido, veio a terreiro com toda a impunidade, o velho general Luís Gonzaga Lessa ameaçar o Supremo Tribunal Federal de lhe impor a “lei da bala”, caso os juízes entendam em consciência e total independência considerar o recurso de Lula como este pretende, ou seja, o STJ só tem uma possibilidade de decidir, manter ex-Presidente na cadeia, se não quer ser responsabilizado por um golpe militar sangrento.
O Brasil está resvalar rapidamente para um regime militar fascizante em que Bolsonaro faz de Presidente e invoca o nome de Deus em vão para justificar o atropelo à Constituição brasileira.
A tomada de posição deste general demonstra da sofreguidão de sangue de um núcleo forte das Forças Armadas brasileiras que não aceita um poder judicial independente.
Este tipo de pronunciamento já tinha sido tornado público na hora do julgamento de Lula.
O Brasil vai na senda de um precipício tenebroso que poderá custar muito caro ao povo brasileiro. Seguramente, nesse caso, com a ditadura por cima de todos, e militares acima de tudo.
In Público online de 14/04/2019

Haja coragem

As sociedades “ocidentais” apresentam hoje alguns sintomas muito idênticos, sendo de presumir que poderão certamente ter a mesma origem.
Nos últimos vinte ou trinta anos, os governantes sucedem-se e os males permanecem.
Se os problemas permanecem, com maior ou menor intensidade, significa que as políticas que os geram são, na sua essencialidade, as mesmas. Se houvesse políticas diferentes, nos diversos países, os resultados seriam certamente outros.
Uma das consequências desta situação é gerar uma impotência nos cidadãos quanto à sua vontade de mudar o rumo das coisas. Se o disco é o mesmo, a música só pode ser a mesma…
Em teoria uma das maiores virtudes de um regime democrático é dar aos cidadãos a possibilidade de optar por múltiplas escolhas.
O que, entretanto, tem vindo a suceder é a subversão deste princípio, sobretudo quando se instalou uma espécie de poder mundial que impõe “democraticamente” um modo de governar que é o mesmo em todo o lado e que consiste em tornar os ricos mais ricos, alargar as desigualdades e estreitar o leque das classes médias. Quanto menos rendimentos obtiverem os cidadãos, mais recebem os gestores que o conseguirem. Já se chegou a esta enormidade: vinte e seis bilionários têm rendimentos igual a metade da população mundial.
Eis o eixo: Privatizar tudo o que possa dar lucro, colocar a gestão dos bens da comunidade em mãos privadas, enaltecer o poder do dinheiro, tornar os cidadãos numa legião de basbaques a contemplar a vida dos bilionários.
Para tanto a própria União Europeia atirou as malvas a coesão económica e social e elegeu a saúde do sistema financeiro como a sua maior preocupação.
Nesta ordem de ideias são os cidadãos que são expropriados dos seus rendimentos para acudir ao sistema bancário cujos dirigentes o guiou ao descalabro, não sendo, por isso, penalizados, antes tratados com todo o cuidado, salvo um ou outro caso, algures nos EUA ( Bernard Madoff, 150 anos de cadeia) e na Islândia (banqueiros condenados a prisão).
A governança, em que ora entra um partido que sai para entrar outro e tudo se mantém nas mãos desse poder económico mundial, gera impotência, descrédito e desconfiança no próprio regime na medida em que bloqueia possíveis saídas.
Um dos casos mais gritantes está a acontecer em França. Hollande e o PS, ao contrário do que apregoaram, atacaram com fervor as condições de vida das populações, empobrecendo os franceses. O descrédito foi enorme.
Antes da implosão do PS, o Ministro da Economia do governo PS, Emanuelle Macron, bateu com a porta e saiu para formar um novo partido e prometer aos franceses uma França rejuvenescida e melhor.
Chegando ao poder ainda levou o país uma situação bem pior aquela que gerou no seu tempo de Ministro da Economia.
A exasperação é enorme e surgiu o movimento dos coletes amarelos, que vem perdendo apoio devido a grau de violência gratuita que permite Macron recuperar algo, por instantes.
Não é preciso sair de Portugal para se constatar o número de políticos que saem do governo para os bancos e que mais tarde regressam aos governos com os mesmos ou com outros partidos.
As saídas de dirigentes e quadros do CDS, PSD, PS para gerirem bancos e depois regressarem aos partidos de onde saíram mostra bem até que ponto há muito de siameses neste chamado arco de governação que, apesar de Costa ter tido a coragem de enfrentar, ainda persiste em muitos domínios.
Gera desconfiança no sistema, o que vai levando ao poder Trump, Salvini, Balsonaro, Vitor Orban e Cª.
Certos políticos saem de cena derrotados, mas logo aparecem de novo a comandar partidos ou opiniões públicas pelo chamamento dos donos das televisões.
Um exemplo acabado desta manigância é Marques Mendes que dominicalmente vai à SIC dizer missa.
O senhor doutor foi à SIC em 2014 garantir que o BES era sólido, de total confiança, em diversas ocasiões, até em Faro, em agosto; sempre a garantir que a partir de então o banco bom era mesmo bom. Garantiu a pés juntos.
Há dias teve o despautério de arengar que afinal os portugueses têm todas as razões para se indignar porque o lixo que tinha sido eliminado pelo governo de Passos e Cristas, afinal apareceu com toda a força por obra e graça de Centeno…
Os atos eleitorais que batem à porta são uma boa altura para impedir que os mesmos de sempre façam a mesma política. É preciso coragem e dar mais força aos partidos que nunca foram governo.
Publicado no Públiconoline de 10/04/2019