Maria Moreira- carteira de Perre( in Público online)

Na Cena II do Ato II de Hamlet de um dos maiores escritores de todos os tempos, o iluminado conhecedor da alma humana, William Shakespeare, a personagem Rosencrantz, um biltre ao serviço do monstruoso rei que tinha assassinado o irmão, vai ter com Hamlet, filho do malogrado, e este pergunta-lhe por notícias, ao que o outro responde: “Nenhumas, só se fosse que o mundo deu-lhe agora para ser honrado…”
Já no século XVI no contexto da sociedade inglesa, a honradez não era o registo dominante. O renascimento veio trazer para a tona da vida o lado injusto em que assentavam as sociedades de então.
Como se sabe, nos nossos dias, a honradez que não está cotada em nenhuma Bolsa, é coisa de pouco valor, aliás fazendo dela bandeira a pouco lado se vai.
As redes sociais estão cheiinhas de exibições narcísicas que vão desde o nu integral da Kim Kardashian ao encontro do marchand de arte com a sua esposa em Nova Iorque, algo de extraordinário que se não fosse exibido fazia temer o descarrilamento do mundo.
E que dizer da notícia dos suspiros/berros da nossa Cristina, que tendo nascido sem sangue real devia ter sido levada ainda em gestação para os palácios da família real inglesa, essa sim, a sério, no que a sangue azul diz respeito. Aí sim, tínhamos princesa…
Raramente no quotidiano aparecem notícias sobre as qualidades que os cidadãos devem cultivar, desde logo a honestidade e a honradez. O que conta é ser famoso e as notícias incidem mais nos figurões cheios de riqueza, muita dela adquirida sabe-se lá como. O que conta é o que se vê. O que se tem e a exibição do que se tem, porque ter e não se mostrar que se tem é um desperdício no mundo de tantos vazios interiores. A era do vazio precisa do estardalhaço, da exuberância, de que se seja visto, de que se seja admirado pelo que se expõe.
Na edição online do Público apareceu no dia 27 deste mês uma notícia extraordinária de significado e que constitui a prova de que os seres humanos continuam a precisar de vivenciar os sentimentos bondosos de que tanto fala António Damásio no seu livro “Estranha ordem das coisas”.
Maria de Jesus Moreira, carteira, encontrou nas Festas da Senhora da Agonia, uma caixa com 3700 € e algum ouro e por ter um telefone no seu interior ligou ao seu dono e entregou-lhe o que lhe pertencia e tinha perdido.
Esta mulher de 58 anos, viúva, humilde, pobre, é a chama da honradez que se não deixou apagar pelo vento da cupidez.
Se ela quisesse poderia apropriar-se daquele montante. A grande notícia neste mundo é a que a honestidade e a honradez, apesar do despudor do mundo, não morreu. Bem-haja quem nos faz acreditar nos melhores sentimentos.
*ADVOGADO

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