O assassinato da Toina, a religiosa de S. João da Madeira

Neste nosso mundo, nosso porque também o fazemos, há exemplos espantosos de bondade. E, ao contrário, de pura indiferença que talvez seja um dos maiores males que corrói a nossa vida em comunidade.
Metidos na nossa casa, na nossa vida, no nosso admirável mundo tecnológico, ficamos distantes da maior aventura humana que é o próprio ser humano de carne, osso, nervos e tudo mais.
Apesar do encómio ao que é rico e poderoso, ainda há quem abdique de quase tudo para se dedicar aos desfavorecidos e inválidos, aos sem afeto e sem posses, aos mais pobres dos pobres.
Uma dessas criaturas extraordinárias era Maria Antónia Paulo, uma religiosa de S. João da Madeira, que na sua motorizada levava a quem mais precisava a bondade que possuía. Dedicar-se aos que têm quase tudo não é amor, é conveniência, muitas vezes impostura.
As vestes religiosas da “Toina” eram claramente assinaláveis como sendo de grau de vulnerabilidade máxima. Talvez, por isso, a covardia do criminoso o fizesse mover-se para tão horrendo crime.
A Maria Antónia tinha sessenta anos, não estaria na sua força máxima, antes, no declínio da sua força, e foi assassinada de um modo cruel e bárbaro, sendo depois violada.
A sua coragem era a bondade e o empenho em ajudar, em partilhar. Escolheu aquele caminho, que não é o do sucesso dos famosos, nem do empreendedorismo, antes o de servir os outros. Por isso era admirada por muitos. Ao assassiná-la, mau seria que o criminoso também matasse o exemplo.
Quando em nome de uma pulsão sexual um homem agride, viola e assassina uma mulher, está a cometer uma violência que sabe poder fazer contra alguém menos forte fisicamente. É uma tremenda covardia.
Sempre que uma mulher é morta as mãos de um algoz que entende ter direito à vida da vítima, o mundo no seu conjunto sofre, e ai dos que não sentem esse sofrimento, tal será a densidade do grau de indiferença.
E o mundo tem de comover-se, de se agitar, de se mover para fazer parar ou pelo menos diminuir crimes tão abomináveis como os que vêm sendo praticados contra mulheres indefesas.
Por mais diferentes que sejam os caminhos do amor ao próximo, da bondade, da generosidade, da solidariedade nas sua várias militâncias, todos temos de dar as mãos e no nosso espaço denunciarmos, exigirmos do Estado maior proteção das mulheres e que os meandros da justiça não permitam a quem deva estar preso agir em liberdade para cometer crimes.
A religiosa Antónia é, pois, um exemplo de que a generosidade vive. Quem não pode sentir-se atingido por essa crueldade? E pela do assassinato de Gabriela Monteiro em Braga com dezassete facadas?
Que mil mãos de todas as mais diferentes latitudes religiosas, ideológicas e políticas sejam capazes de defender os exemplos dos que amam o próximo e resistem à indiferença. Que a morte não mate o exemplo, eis o desafio.
In Público de 20/09/2019

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