O PS que faz falta

Quando Marcelo comunicou tonitruante na legislatura anterior que se o orçamento não fosse aprovado convocaria eleições, abria a possibilidade de Costa vir pedir a tal estabilidade, clamando para tanto por uma maioria absoluta.

Acreditando, ou indo na maré, o povo português deu ao PS o que ele pediu, atirando para trás das costas as experiências falhadas e de más consequências de anteriores com maiorias absolutas, sendo de referir que deixaram de existir por toda a Europa, salvo nos regimes mais ou menos autoritários.

Com maioria absoluta o PS, livre de constrangimentos, deixou instalar no seu interior uma nova camada social, os que recebem hipersalários, um novo tipo de burguesia endinheirada, e que nada tem a ver com o ideário social-democrata.

São os novos sacerdotes e sacerdotisas do luxo obsceno e que auferem na medida inversamente proporcional às medidas que tomam para castigar os trabalhadores que se julgam detentores de direitos inscritos nas leis da República e que ali estão eles para os desenganar e  mostrar quem realmente manda.

Graduaram-se em mestrados e doutoramentos de musculação contra a “indolente” população assalariada, tendo obtido valores máximos de classificação e garantido desse modo o acesso aos mais apetecíveis lugares do Olimpo dos grandes salários.

Foi a esta gente que o PS franqueou portas, nomeadamente no setor público para que de dentro o possam arrasar para depois entregarem por dez réis de mel coado aos privados, como bem está documentado na economia nacional nos últimos quarenta e tal anos.

A força desta estirpe é enfrentar qualquer ideia de modernidade baseada numa vida ancorada na dignidade humana; nada é mais importante que o lucro, o ser humano está ao serviço das expectativas dos superbilionários e, em última instância, o que deve determinar a economia é essa vocação para que o super-rico se torne ainda mais rico e que dessa montanha de dinheiro escorra para as bases algo que alimente os que se encontram na base da pirâmide.

O PS concorre com o PSD no recrutamento deste tipo de quadros para na sua lógica serventuária aplacar a fúria do grande capital.

Choca que um partido que se reclama da social-democracia, num país com mais de um quarto da população em situação de pobreza, com uma juventude sem esperança de ter habitação e emprego de acordo coma as suas qualificações, tenha em muitos dos seus quadros dirigentes o olhar perdido na vida fácil, a vidinha dos arranjinhos e de amiguinhos tendo entrado na política exatamente para subirem na vida.

A sua mediocridade é tão licenciosa e vivem numa realidade paralela que não são capazes de compreenderem que ao alegarem desconhecerem assuntos que se passam nos ministérios que tutelam os tornam indigentes mentais. Uma estirpe orientada para funcionar como uma guilhotina da esperança humana. É a crise em que está mergulhada a social-democracia e aquilo a que se pode chamar o centro-direita institucional.

A pretendida estabilidade que António Costa pediu para gerir a bazuca esvaiu-se pela incapacidade dos dirigentes socialistas de colocarem o governo ao serviço da resolução dos problemas mais inadiáveis dos portugueses. Como já se sabia a maioria absoluta é um modo de governar a pensar nos interesses partidários e individuais em detrimento da comunidade.

Quase ninguém sabe quem são os ministros apesar de muitos deles se arrastrem pelos ministérios há anos e ninguém ser capaz de se lembrar de algo de positivo que tenham feito.

Parecem terem sido escolhidos pela sua incapacidade e de viverem de notícias por si fabricadas e que os media aproveitam para dar sinal de que existem notícias. Um mundo paralelo fechado em si próprio que vai cavando um fosso mais profundo com a realidade.   

O PR transformou-se em fator de perturbação institucional jogando ao sabor daquilo que considerou na sua célebre viagem de automóvel para Viseu, o seu sonho de ver o PSD no governo com toda a direita. Perdeu-se no meio de tanta jigajoga. O que ele diz é sobretudo pasto para os media se alimentarem.

Costa que viu a sua popularidade subir em flecha com os acordos celebrados com o PCP e BE, enfrenta agora a rejeição de quase metade da população de acordo com as últimas sondagens.

Perdeu fulgor. Como escrevia o padre António Vieira acerca daqueles que se perdiam enganados no canto das sereias deixando-se levar pela corrente e perdendo-se ou em Cila ou em Caríbdis, como já sucedera a Ulisses antes de chegar a Ítaca. Bruxelas não é o Estreito de Messina e Lisboa é a cidade onde de nunca se deve sair para supostamente governar o que não se governará, pois não se sabe o que acontecerá à Europa dilacerada por guerra e interesses alheios a si e que a conduzem para a tragédia.

O certo é que o PS é imprescindível para uma alternativa a esta maioria descabelada, mas seguramente que só será com outro rumo, o rumo de Lisboa capital de um país que se torna urgente renascer de esperança e para todos.   

A MINHA CONCORDÂNCIA COM PAULO RAIMUNDO

Tenho de concordar com Paulo Raimundo, o PCP não vai mudar e quem quiser aproximar-se tem de esquecer os motivos que os levaram a sair. Reconhecerão implicitamente que estavam errados e reaproximar-se-ão, coitados deles que se deixaram levar pelos gabirus que queriam outra coisa que não era o PCP.

 Um dos grandes problemas do PCP não está nos que saíram; está sobretudo nos motivos que os levaram a sair e que se mantêm intactos e que se são considerados por esta direção os traços essenciais definidores da natureza do partido.

O artigo 1º nº2 estatui o seguinte… O PCP é a vanguarda da classe operária e de todos os trabalhadores. O papel de vanguarda do Partido decorre da sua natureza de classe, do acerto das suas análises e da sua orientação política…

 Ora nos tempos que correm, tendo em conta o aumento dos assalariados provenientes de classes sociais designadamente pequenos agricultores e pequenos empresários, de profissões liberais; as modificações operadas dentro das classes trabalhadoras com a criação de novas camadas sociais, a natureza dos trabalhos ligados diretamente à produção fabril; a desindustrialização; a financeirização da economia; o alastramento dos serviços em detrimento da agricultura e da indústria, forçoso será concluir que a classe operária, no sentido histórico, deixou de ter todo o peso que tinha. Hoje já não tem a homogeneidade de há algumas décadas e muito menos do início do século XX. Rosa Luxemburgo, em 1916, em plena primeira grande guerra, defendia que se a classe operária se mobilizasse imporia à burguesia o fim da guerra.

 O artigo 2ºestabelece… O PCP tem como base teórica o marxismo-leninismo: concepção materialista e dialéctica do mundo, instrumento científico de análise da realidade e guia para a acção que constantemente se enriquece e se renova dando resposta aos novos fenómenos, situações, processos e tendências de desenvolvimento. Em ligação com a prática e com o incessante progresso dos conhecimentos, esta concepção do mundo é necessariamente criadora e, por isso, contrária à dogmatização…

É preciso resolver uma questão acerca desta “fidelidade” , a saber, foi com base no marxismo-leninismo, o tal instrumento científico de análise da realidade e com a conceção do mundo necessariamente criadora, que os partidos comunistas dos países socialistas implodiram. Daqui decorre que tendo todos eles guiado a sua política por este instrumento o resultado foi um enorme desastre. Não foi científico, nem criador.

O artigo 16 nº1 declara 1… A estrutura orgânica e o funcionamento do Partido assentam em princípios que, no desenvolvimento criativo do centralismo democrático, respondendo a novas situações e enriquecidos com a experiência, visam assegurar simultaneamente, como características básicas, uma profunda democracia interna, uma única orientação geral e uma única direcção central…

Foi com base nesse tal centralismo democrático e criativo que foram aplicadas diversas sanções a vários membros do partido por expressarem opiniões diferentes das da direção.

Enquanto uma dúzia de dirigentes tiver o poder de selecionar listas fechadas de dirigentes a todos os níveis do partido a base da seleção serão os que esse núcleo escolhe e que o partido aceita porque não tem outra alternativa para os que querem continuar a militar.

Acrescente-se que o centralismo permitiu a Álvaro Cunhal dar uma entrevista ao jornal espanhol “El mundo” contra a direção da altura, afirmando que nela havia elementos liquidacionistas, portanto não respeitando a regra do centralismo. Criativo foi Cunhal que mandou o centralismo pela janela fora.

Com base nestas orientações o grau de atração do partido é  reduzido e será cada vez mais. Estes artigos dos Estatutos são uma forma de blindar o partido a qualquer mudança e de manter a sua estrutura intocada como foi confirmado por Paulo Raimundo, na entrevista ao último Expresso, com todo o prejuízo para o resgate e reconfiguração do ideal comunista.

https://www.publico.pt/2022/12/20/opiniao/opiniao/concordancia-paulo-raimundo-2032035

Lomonosov, Pushkin e Gorki no canil de Dnipro

A guerra na Ucrânia demonstra, como tantas guerras antigas e recentes, a ambição desmedida e a insensatez dos humanos.

A guerra destrói e mata, mas não só. Ela engendra um cortejo de irracionalidades que jazem no lado primitivo do homo sapiens e nesse ambiente de ódio se soltam.

Na cidade de Dnipro a Câmara Municipal decidiu retirar todas as estátuas de um cientista e escritores russos–Lomonosov, Pushkin, Gorki e colocá-las no canil da cidade.

Lamonosov viveu no século XXVII e foi um cientista de reputação mundial que descobriu antes de Lavoisier a lei da Conservação da Matéria/Massas.

Pushkin foi um dos maiores poetas russos de sempre e viveu no século XVIII e XIX, um escritor de renome mundial.

Máximo Gorki foi um dos mais célebres escritores russo/soviético que entre tantos e tantos livros escreveu a Mãe e nos deixou para todo sempre ligados a Pavel e sua mãe Pelágia.

Que têm estes gigantes humanos a ver com a guerra de Putin?

O que esta conduta revela é o ódio absolutamente inqualificável a tudo o que possa ser russo, mesmo sendo do melhor em termos universais que a Rússia deu à Humanidade.

Esta russofobia não ataca apenas as estátuas que serão atiradas para o canil. São um retrocesso ao tempo das bestialidades, da queima de bibliotecas, da destruição de obras-primas de outros povos, das razias, e visam toda a cultura e o humanismo que que estes e outros homens e outras mulheres nos legaram.

É preciso parar este desnorte e respirar a paz cada vez mais urgente.

Homenagem ao Bibota

Em 14/06/1986 o FCPorto sagrava-se campeão contra o Covilhã-

Fernando Gomes marcou um dos golos de forma espetacular.

Em homenagem ao nº9 do Porto reproduzo o poema que então publiquei no jornal A Bola quando Carlos Pinhão fazia a diferença da Bola de então. O jornal é hoje bem diferente. O mundo mudou. Tudo mudou. A alegria pelo golo mantem-se.

 Os que se aproximam e os que se reaproximam, segundo Paulo Raimundo

Paulo Raimundo numa recente entrevista à Lusa reconheceu que há vinte anos teve lugar” um movimento de gente que se afastou por várias razões por oposição a esta ou aquela posição do PCP e passado todo este tempo concluem que este é o partido que apoiam”.

A frase vale a pena ser examinada com algum detalhe. As centenas de quadros/ativistas que se afastaram não o fizeram apenas por esta ou aquela posição tomada pelo partido. É simplificação a mais. No partido conviveram com maior ou menor dificuldade durante muitos anos militantes que não concordavam com posições da direção do partido. Havia um sentimento de que apesar disso valia a pena continuar não obstante a direção seguir um estilo demasiado fechado tanto no plano ideológico como organizacional. Não se abandona um partido por esta ou aquela posição com que não se concorda. Além disso, os anos e anos de militância que vinham de antes do 25 de Abril e que levaram à construção do partido forte e organizado tinham um peso muito grande; não é fácil abandonar algo a que se entregou de alma e coração e que preenchia o ideal que mereceu e merecia tanta entrega.

O problema surgiu de um modo mais acentuado quando foi criado no partido um ambiente político de combate ao chamado liquidacionismo tinha penetrado a direção do partido, segundo Álvaro Cunhal em entrevista a um jornal espanhol.

Só uma tal atitude explica a expulsão de Edgar Correia e de Carlos Figueira e a suspensão de Carlos Brito por um período de dez meses porque na sua opinião o marxismo-leninismo não era indiscutível. Haverá para um comunista, como Carlos Brito, algo de mais ignominioso que convidado a dizer o que pensava sobre o marxismo-leninismo tê-lo feito e a seguir sofrer uma suspensão? Um militante incansável ao serviço do PCP com anos e anos de cadeia e com uma fuga heroica que devia ser um orgulho para todo o partido.

A orientação marxista-leninista da URSS e dos outros países conduziram à implosão daquele socialismo. Não é legítimo a um comunista que se preze pelo futuro do ideal socialista/comunista repensar se aquela ideologia entendida daquele modo pode continuar a ser o alfa e o ómega como é no caso do PCP?

Antes do 25 de Abril com a concordância da direção recrutei ativistas para a UEC que não eram marxistas-leninistas, mas concordavam com o Rumo à vitória que constituía o programa do partido.

Se se tiver em conta as várias declarações na ocasião que foram decididas as sanções e nos anos seguintes já com Jerónimo de Sousa como Secretário-Geral a direção sempre desvalorizou os que saíram afirmando que saíam alguns e entravam muitos mais.

Tratou-se de um processo de limpeza dos quadros “pouco seguros” substituindo-os pelos “absolutamente seguros”, muitos deles com uma experiência política traduzida pela participação na luta pela “limpeza” de muitos dos quadros que tinham feito com a direção clandestina a transição para o grande partido de mais de duzentos mil membros. 

Este foi o processo de combate ao Novo Impulso e que levou ao afastamento de centenas e centenas de quadros e ativistas do partido e não o facto do partido ter tomado esta ou aquela posição.

A frase contém ainda uma posição enviesada acerca da falta que faz quem não está no partido.

Nela está implícito que são os que saíram que de certo modo têm de se reaproximar se quiserem considerar o PCP como a sua casa. Não há por parte da direção qualquer gesto quanto à sua aproximação ou reaproximação dos que que poderão eventualmente fazer esse caminho. O caminho a fazer é dos que saíram e concluir que o PCP é o partido que apoiam, se bem que apoiar seja diferente de militar.

Há, porém, uma novidade, enquanto para Jerónimo não faziam falta e os que entravam eram mais do que os que saíam, Paulo Raimundo afirma que esses que saíram ou foram obrigados a sair- acrescento – fazem falta. Será um passo? A prática o dirá. Mas pedir para se reaproximar sem que a direção do partido mude uma linha é um exercício impraticável. Para preencher faltas, lacunas que existem e existirão (mesmo que reentrassem todos os que saíram) é necessário um espírito de maior abertura. Não pode ser um movimento de sentido único.

Acresce qualquer ideal/projeto tem de se adaptar e de se renovar no tempo. Desde sempre e mais agora com a aceleração do tempo. Ademais, num momento tão complexo e difícil para todos os progressistas e comunistas, é certo e seguro que para levar a cabo a empreitada não há comunistas a mais, todos serão poucos.

 Só a coragem pode dar outro rumo e tentar inverter as perdas constantes de influência no recrutamento de militantes, no terreno social e eleitoral face ao elevado grau de dificuldade que os comunistas enfrentam em Portugal e em todo o mundo. Falta saber se a coragem vai vencer o imobilismo e o dogmatismo. Se vencesse seria um bom contributo. Até para construir a casa comum dos comunistas. É que faz falta.

https://www.publico.pt/2022/11/24/opiniao/opiniao/aproximam-reaproximam-segundo-paulo-raimundo-2028864

Esqueçam isto, disse MRS, o especialista em joanetes, tosquiador de lãs, especialista em ginginhas, vendedor de plumas, lesmas, de patos mudos e garnizés de circo, criador de factos e realidades virtuais.

Quando nos pedem para esquecer “isto” toda a gente vai responder antes de esquecer, mas o que é “isto”?

Isto é a questão.

Então o que é “isto”? Quem pediu para esquecer sabia que “isto” eram os direitos humanos espezinhados no Qatar pelo Emir e sua Coorte real.

A mais alta figura do Estado, um ilustre Professor de Direito Constitucional, entre o mundo do futebol e o universo do respeito pelos Direitos Humanos pediu-nos para esquecermos aquilo.

Entre as declarações totalmente descabidas de treinador de futebol e as de Presidente da República, Sua Excelência não teve dúvidas – esqueçam, eu vou lá.

Fazer o quê? Sua Excelência nada disse, talvez entenda que se ele lá estiver apareça muito mais tempo nos vários canais que nos deixaram todos eles a olhar no céu o avião com umas dezenas de jogadores, treinadores e dirigentes com vencimentos multibilionários, alguns tão patriotas que tudo fazem para não pagarem impostos apesar dos milhões que auferem.

A pátria, a ditosa e amada pátria, fica nas manigâncias para escapar a pagar o que é devido ao Estado para que os mais desfavorecidos possam ter acesso a cuidados de saúde e de educação, os grandes apoiantes daqueles que vão ao Catar competir em estádios que tresandam a a servidão.

Claro que queremos que Portugal ganhe, claro que vamos saltar de contentamento quando marcarem golos que “nos ” derem vitórias, mas por favor não nos enganem.

Não nos peçam que esqueçamos aquilo, porque aquilo são o mínimo dos direitos humanos, o mínimo dos mínimos, tão só. Então os direitos humanos não são para todos os humanos? São ou não são?

Paulo de Traso, o famoso São Paulo, há dois mil anos dizia que não havia judeus, nem gregos, nem romanos, mas humanos. Podemos esquecer aqueles que na servidão total, própria dos tempos medievais, foram obrigados a construir estádios para jogadores pagos a preço de oiro reluzente joguem? E treinadores pagos com vencimentos estrondosos especializados em fugir às leis da República ou do Estado?

Não há indianos, nem filipinos, nem iemenitas, só humanos, esmagados pelo poder de um Emirato medieval perante o qual os dirigentes da FIFA se vergaram.

Marcelo especialista em futebol, em ginginhas, em provas de vinhos e agente de enterro, em aplicador de cataplasmas, amolador de facas e tesouras, tosquiador de lã, especialista de joanetes e de azia do estômago, vendedor de plumas e castanhas e de perus e galinhas da guiné, tirou uma especialização que Siegmund Freud não foi capaz – esquecer o que não convém.

Não esqueçam isto.

Esqueçam isto, disse MRS, o especialista em juanetes, tosquiador de lãs, especialista em ginginhas, vendedor de plumas, lesmas, de patos mudos e garnizés de circo, criador de factos e realidades virtuais.

Quando nos pedem para esquecer “isto” toda a gente vai responder antes de esquecer, mas o que é “isto”?

Isto é a questão.

Então o que é “isto”? Quem pediu para esquecer sabia que “isto” eram os direitos humanos espezinhados no Qatar pelo Emir e sua Coorte real.

A mais alta figura do Estado, um ilustre Professor de Direito Constitucional, entre o mundo do futebol e o universo do respeito pelos Direitos Humanos pediu-nos para esquecermos aquilo.

Entre as declarações totalmente descabidas de treinador de futebol e as de Presidente da República, Sua Excelência não teve dúvidas – esqueçam, eu vou lá.

Fazer o quê? Sua Excelência nada disse, talvez entenda que se ele lá estiver apareça muito mais tempo nos vários canais que nos deixaram todos eles a olhar no céu o avião com umas dezenas de jogadores, treinadores e dirigentes com vencimentos multibilionários, alguns tão patriotas que tudo fazem para não pagarem impostos apesar dos milhões que auferem.

A pátria, a ditosa e amada pátria, fica nas manigâncias para escapar a pagar o que é devido ao Estado para que os mais desfavorecidos possam ter acesso a cuidados de saúde e de educação, os grandes apoiantes daqueles que vão ao Catar competir em estádios que tresandam a a servidão.

Claro que queremos que Portugal ganhe, claro que vamos saltar de contentamento quando marcarem golos que “nos ” derem vitórias, mas por favor não nos enganem.

Não nos peçam que esqueçamos aquilo, porque aquilo são o mínimo dos direitos humanos, o mínimo dos mínimos, tão só. Então os direitos humanos não são para todos os humanos? São ou não são?

Paulo de Traso, o famoso São Paulo, há dois mil anos dizia que não havia judeus, nem gregos, nem romanos, mas humanos. Podemos esquecer aqueles que na servidão total, própria dos tempos medievais, foram obrigados a construir estádios para jogadores pagos a preço de oiro reluzente joguem? E treinadores pagos com vencimentos estrondosos especializados em fugir às leis da República ou do Estado?

Não há indianos, nem filipinos, nem iemenitas, só humanos, esmagados pelo poder de um Emirato medieval perante o qual os dirigentes da FIFA se vergaram.

Marcelo especialista em futebol, em ginginhas, em provas de vinhos e agente de enterro, em aplicador de cataplasmas, amolador de facas e tesouras, tosquiador de lã, especialista de juanetes e de azia do estômago, vendedor de plumas e castanhas e de perus e galinhas da guiné, tirou uma especialização que Siegmund Freud não foi capaz – esquecer o que não convém.

Não esqueçam isto.

Os misseis russos que afinal eram ucranianos e a vergonha de quem a não tem.

Sou de uma geração que sempre guardou pelos jornalistas a mais elevada consideração. Desde os anos sessenta que aprendi com muitos deles o valor da coragem. Davam-nos notícias, mesmo correndo riscos.

Ser jornalista é ser alguém que não obstante o seu caráter e a sua formação nos informa; se possível não embarcando na espuma do momento. Tem a obrigação nobre de informar. Não é um imitador de cacarejos ou bajulador de quem quer que seja. 

Ora o que se passou no dia 15 de novembro, a propósito dos restos de misseis caídos na Polónia, revela a demência que reina em grande parte do mundo informativo.

Caíram os misseis e o mundo ocidental comunicacional entrou numa espécie de histeria coletiva. De todos os cantos, de que são feitos os canais televisivos, a compita entre quem tinha mais dados sobre a malvadez da Rússia roçou a esquizofrenia.

Ou foram os russos ou foram os russos ou se não foram foram porque os seus sistemas de misseis são falíveis e caso, ainda assim, não tivessem sido foram porque obrigaram os ucranianos a ripostar e daí que etc e tal e tal.

Uma caterva de comentadores, sem deixar de referir um ou outro mais realista e competente, logo estabeleceu que Putin e a sua clique tinha de pagar um preço não só pelo que está a fazer na Ucrânia, mas, atenção, pelo que poderá vir a fazer no Báltico e arredores.

Por cá, o M.N. Estrangeiros português, qual garnizé, do alto de toda a sua força militar e projeção internacional, alertou para uma resposta a sério e deixou os Montes Urais a tremer.

Zelenskii foi dos primeiros a dizer que tinha avisado que chegaria a vez dos polacos serem atingidos.

O Presidente da Polónia informou que iria pedir uma reunião da OTAN ao abrigo do artigo 4º da Organização.

Hoje sabe-se e ontem já se sabia que aqueles restos de misseis não eram russos. Zelenskii sabia-o. E apesar disso alegou que tinha chegado a altura da OTAN entrar na guerra.

Zelenskii veria com bons olhos que na Ucrânia se batessem diretamente Rússia e OTAN. É este homem que está à frente da Ucrânia. A invasão brutal da Ucrânia às ordens de Putin não justifica que entremos numa nova guerra mundial. É preciso que de uma vez por todos o digam a Zelenskii, desde logo von der Leyen, Borreli e todos quantos lhe prometeram derrotar militarmente a Rússia.

Os media e os jornalistas têm um papel nobre neste conflito – informar com isenção. Se o fizerem o mundo estará mais próximo da paz. Se fizerem de gasolina fá-lo-á aproximar-se das chamas sem fim à vista.

A GUERRA NA UCRÂNIA E O QUE VAI MUDAR NO MUNDO

As guerras em geral operam mudanças significativas no panorama regional e mundial. A invasão do Iraque pelos EUA mudou a região e em parte o próprio mundo. No passado século, na década de 60/70, a guerra do Vietnam mudou toda a Indochina. Muitos outros exemplos poderiam ser dados, sendo de todos os mais significativos os da 1ª e 2ª guerras mundiais que mudaram totalmente o mundo.

A guerra na Ucrânia muito provavelmente mudará não só o papel da Europa, a relação entre os seus Estados e trará muito provavelmente uma nova arquitetura no mundo.

Na configuração do mundo tal como existe entraram em choque diferentes linhas de forças contraditórias que produziram o grande acontecimento que é esta guerra.

Na verdade, o império USA e a sua versão mais alargada anglo-saxónica, sendo dominante, está em declínio face ao crescente papel da China e de um conjunto de países que querem ter um novo papel na vida internacional e sentem que o podem ter.

A Rússia, pelo seu poderio militar desde que Putin tomou o poder, considera-se suficientemente forte para invadir a Ucrânia e aguentar os efeitos das brutais sanções económicas.

 Na Ucrânia trava-se uma guerra entre os EUA/OTAN/UE e a Rússia, sendo o povo ucraniano o mais sacrificado.

A Rússia, potência resultante da implosão da URSS, em decadência até à chegada ao poder de Putin, movida por um sentimento nacionalista e imperial, ousou confrontar a ordem ocidental e tentar assegurar para si o controlo da Eurásia que Zbigniew Brzezinsky , ex-conselheiro de Segurança dos EUA, considerava ser fundamental para o domínio dos EUA e melhor poder confrontar-se no futuro com a China.

A travagem do crescimento dos EUA, o forte crescimento da China e o aparecimento na arena internacional de um conjunto de potências como o caso da India, África do Sul, Brasil, Argentina, Irão, Paquistão, México, entre outros, criaram condições para que a Rússia se sentisse capaz de desafiar o poder dos EUA/OTAN.

Com a guerra, a Europa em termos de bloco acabou por ceder toda a liderança aos EUA. Ficou dependente de um aliado que encara o mundo como um local onde sempre pretendeu plantar regimes seguidistas. Exibiu a pequenez estratégica da UE. Ursula von der Leyen parece a Ministra dos Negócios Estrangeiros dos EUA.

Os EUA conseguiram para já ficar em boa medida com a Europa na mão em matéria energética, o que estrategicamente tem enorme relevância.

A travagem na economia alemã cria condições para minorar o papel do concorrente que há mais de uma década era mal visto em Washington, sendo até vigiado.

A França a perder competitividade segue o seu declínio com a humilhação de ver rasgado um contrato com a Austrália e substituída pelos EUA.

Em toda a Europa enquanto as grandes empresas conseguem obter lucros nunca vistos com a especulação, os povos estão confrontados com um empobrecimento generalizado.

As manifestações que têm tido lugar em diversos países podem atingir grandes proporções tendo em conta que o inverno ainda não chegou e as restrições aos consumos ainda não se começaram a sentir plenamente.

A Rússia é uma incógnita. Se aguentar o peso na economia das sanções e o esforço de guerra, e se mantiver as anexações, sairá da guerra com outro peso.

Para impedir esse objetivo os EUA prolongarão o seu apoio fornecendo novos carregamentos de armas. O ponto vai bater na relação entre o efeito boomerang das sanções na vida dos povos europeus e a capacidade da Rússia de resistir. Se a vida das populações se tornar insuportável os governos irão pagar um elevado preço. Entretanto um maior envolvimento da OTAN poderá levar o conflito para patamares assustadores.

Refira-se que esta guerra não tem suscitado as movimentações estrondosas de condenação como foi o caso da invasão do Iraque. Os povos no seu íntimo condenam a invasão, mas percebem que para além da invasão há outros elementos a ter em conta.

Por outro lado, os EUA e a UE já não impõem o seu dictat a países como a India, a Arábia Saudita. Paquistão, Brasil, Argentina e outros.

Outra ordem vem a caminho, como noutras vezes, nos braços da guerra.  Se a OTAN/UE/Ucrânia vencerem a Rússia perderá muito do seu poder e correrá riscos de desintegração. Se vencer, outra ordem reinará até aos próximos desafios que já se desenham na Ásia.

https://www.publico.pt/2022/11/08/opiniao/opiniao/guerra-ucrania-vai-mudar-mundo-2026861